quarta-feira, 14 de julho de 2010

O barraco de Sorocaba ou o reality show caipira

O que seria apenas um caso de infidelidade conjugal no interior de São Paulo, chegou à internet e já foi acompanhado por milhões de brasileiros. Tornou-se conhecido como o "barraco de Sorocaba" e envolve características no mínimo curiosas, não fossem ridículas. Vejamos: a advogada Vivian Almeida de Oliveira, 34, é casada com o comerciante Cícero de Oliveira, 54. Vivem felizes, pelo menos é o que achava a mulher de Cícero, na convivência de amigos íntimos, entre os quais a também casada Juliana Cordeiro, 33 anos. Eram da casa uns dos outros, viajavam juntos e a 'amizade' era tão grande que nem mesmo na lua de mel foram capazes de se separar. Viajaram juntos, todos, para Recife, de onde Cícero e Vivian, "enfim sós", vieram para dias inesquecíveis em Fortaleza.

Mas, o que há de extraordinário no caso? Bem, em princípio um triângulo amoroso no mínimo sórdido, posto que Juliana, além do marido ingênuo, vinha traindo a melhor amiga havia pelo menos cinco anos. Até aí, nada de muito fora do staff normal, haverá de questionar o leitor. Divergência à parte, explico-me melhor. Desconfiada de que algo de anormal vinha ocorrendo entre os casais amigos, Vivian devotou-se a seguir os passos do marido até descobrir a podridão: Cícero de Oliveira e Juliana Cordeiro vinham mantendo um caso extraconjugal dos mais inescrupulosos, se é que pode haver algum escrupulo em qualquer tipo de traição. O pior, no entanto, estaria por vir.

No último dia 27, Vivian tomou a decisão de dividir o escândalo com a sua comunidade no site de relacionamento Orkut. Antes, contudo, teve a astuciosa ideia de armar uma cilada para a Juliana. Convidou-a a vir a sua casa sob o pretexto de estar em crise emocional e precisar de uma palavra amiga. Aos poucos, todavia, foi dando a ver o que descobrira, expondo para a amante do marido as "provas do crime", algo em torno dos mil e-mails trocados pelo casal infiel. Em princípio, educadamente, mantendo o equilíbrio, para logo depois sair na baixaria, coisa compreensível para as circunstâncias. Mais: a conversa e a agressão estavam sendo nitidamente gravadas pela webcam, o que resultou numa cena digna do melhor Nelson Rodrigues.

Do Orkut, onde já inexiste a menor privacidade, o 'filme' foi para o You Tube e dali para jornais e tevês. Hoje, estima-se, terá sido visto por milhões de brasileiros e ocupa posição de destaque entre os casos mais comentados no Twitter e outros espaços virtuais de prestígio. O mais curioso, contudo, está por vir: se a traição trouxe prejuízos irrecuperáveis para Cícero, Juliana e Fábio, o marido ingênuo, vai sobrar para a advogada Vivian Almeida de Oliveira, que, ao lado da decepção com o marido e sua melhor amiga, supostamente terá de indenizar a amante do marido por ter exposto a sua imagem como fez. Pasmem.

De resto, o barraco de Sorocaba reedita uma velha lição: ruim é morrer ou ser traído, o resto passa como dantes na casa de Abrantes. Vivian, no entanto, mesmo dizendo-se arrependida por tornar público o 'barraco', defende-se de forma convincente: - "Se eu apenas dissesse o que sabia, ninguém iria acreditar!" Com razão, Vivian, no seu caso, como quis Wilde, a vida imita a arte. Ninguém iria mesmo acreditar.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Até quando?

Qualquer que seja o desfecho do caso Bruno, o que está claro como uma fratura exposta é que ele é indefensável, muito mais indefensável que indefensáveis foram os chutes que o levaram à consagração após ter evitado que se transformassem em gols. Com 1,91 de altura, ídolo de uma torcida de mais de 30 milhões de brasileiros, um corpo de deus grego e um salário de 300 mil reais, Bruno é um desses muitos e muitos homens que povoam o imaginário feminino como objeto de desejo, numa época em que o sucesso profissional, a beleza física e a conta bancária são as referências que servem para estabelecer o valor da mais escassa mercadoria, o Homem, assim, com maiúscula.

Há coisa de uns dois, três meses, no máximo, eu já ficara estarrecido com uma declaração do goleiro Bruno, feita através da imprensa: - "Quem de vocês nunca saiu no braço contra uma mulher?" Perguntava durante uma entrevista concedida à tevê Globo, na maior, como faz um canalha, um psicopata que desconhece a fronteira entre o sucesso profissional e a obrigação de respeitar os outros. Em tempo: fazia-o numa tentativa de justificar atos de violência cometidos pelo companheiro de clube, o jogador Adriano, contra a mulher.

Agora, quando infelizmente está confirmada a morte de Eliza Samudio, a Justiça Brasileira, sob a luz dos spots, passa a agir com o objetivo de deslindar um crime que poderia ter evitado. Por que permaneceu indiferente às ameaças, quando procurada por Eliza através de uma instância cabível? Se não, vejamos: No ano passado, a jovem, grávida, dirigira-se à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, no Rio, para denunciar que vinha sendo vítima de maus-tratos. Lembro do que dissera à imprensa: - "Ele [Bruno] me deu bofetões... Enfiou uma arma na minha cabeça... E me disse: 'Sou frio e calculista. Vou deixar a poeira baixar e vou atrás de você. Se eu te matar e jogar em qualquer lugar, as pessoas nunca vão descobrir que fui eu.'" (sic) E, no entanto, nada, absolutamente nada se fez em favor dessa jovem, à época.

Acompanho esse caso pavoroso e fico pensando o que não virá acontecendo, por exemplo, na Região do Cariri, entre Crato, Juazeiro e Barbalha, onde os índices de criminalidade contra a mulher são alarmantes, com repercussão, inclusive, na Unifem, o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher. Quantas ameaças ignoradas? Quantos maus-tratos? Quanta tortura física e psicológica contra mulheres de todas as idades? Quantas vidas ceifadas?

No jeito bem brasileiro, o bárbaro assassinato de Eliza Samudio, em Minas, assim como o da advogada Mercia Nakashima, em São Paulo, Bárbara Calazans, no Rio, ou das anônimas do Cariri, no Ceará, serve para desnudar o descaso das nossas autoridades competentes no que diz respeito à segurança da população, da mulher, particularmente, ainda hoje submetida aos caprichos, à intolerância e aos impulsos monstruosos dos milhões de Brunos que habitam Brasil afora. Até quando?