sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O Fausto brasileiro

Consta que entre 1480 e 1540 viveu na Alemanha uma figura "notável" por suas particularidades pessoais: era audacioso, movido por uma vaidade doentia, além de luxurioso e aventureiro. Não pesava os meios pelos quais pretendia sempre levar vantagem e se tornar poderoso, mais do que a sua condição de moço rico e de boa linhagem já lhe haviam assegurado do berço. Chamava-se Fausto e teve a sua personalidade envolta por lendas, notadamente por ter pactuado com o diabo a fim de ver realizados seus sonhos.  Mas foi a partir da obra de Goethe que Fausto ganhou projeção universal, constituindo um dos mitos mais famosos da grande literatura.
 
Simboliza, ainda hoje, aquela personalidade egocêntrica, pretensiosa, afeita aos prazeres da vida, mas dominada pelo desejo de subir sempre mais, a qualquer custo, e pela ânsia de tudo conquistar  --  quem sabe o infinito.
 
São célebres os versos com que Mefistófeles, o demônio, descreve Fausto: "De que é louco talvez ande mesmo ciente,/quer do céu as estrelas, esse pobre aflito./E da Terra os prazeres todos busca e sente./De tudo o que há na terra ou no céu, em alto rito,/nada há que o console ou que o apascente".
 
A Fausto importa, como disse, conquistar o poder, ainda que renunciando à própria alma. É capaz de tecer ardis, negociar com as trevas em busca de luz. É diabólico em suas trapaças, tudo quer, tudo lhe parece legítimo a fim de atingir seus objetivos, oscilando entre a fantasia do ópio e o grotesco da vida real.
 
De homens assim, infelizmente, o mundo está infestado, como é possível ver, por exemplo, nos meios políticos do Brasil atual, o Brasil de Aécio, FHC, Eduardo Cunha etc. Vejamos o lead de uma das manchetes do jornal Folha de S. Paulo, sexta-feira 9: "Para presidente da Câmara, divulgação de contas na Suíça visa constrangê-lo; Aécio sugere a ele que se afaste em troca de apoio".
 
Arvorando-se arauto da moralidade, Aécio Neves fecha os olhos para as falcatruas de Cunha, em cujas mãos está em parte o instrumento mais potente para derrubar a presidente Dilma Rousseff. Para ele, pactuar com Cunha nada tem de imoral, contanto que seu objetivo seja atingido. Quer, a todo custo, a qualquer preço, ser presidente da República, é isso que importa. Do avô, herdou antes o maquiavelismo que as muitas qualidades como homem público. Tancredo Neves chegou a presidente, mas, sabe-se, quis o destino não pudesse ser empossado. Como um Fausto do seu tempo, negociou a alma, mas teve um fim trágico.
 
O clássico romântico é, talvez, a mais bela representação do egoísmo humano, da vaidade mórbida, da frustração que corrói, do inconformismo do homem diante das derrotas, de resto naturais na trajetória de qualquer um.
 
Como Fausto, outros mitos simbolizam a falta de limites para a ambição sem freios (Titãs, Prometeu, Ícaro), que conduz as pessoas a pactuar, até mesmo, com os demônios. Inconformado com o fato de ter perdido a eleição para Dilma Rousseff, Aécio vem reeditando o que existe de simbólico na figura de Fausto. Reparem no que há de rutilante no seus olhos durante as entrevistas. Há neles algo do desespero trágico da personagem de Goethe.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Love

Do artista plástico e professor universitário Herbert Rolim, vem um comentário elogioso à coluna da semana passada. A uma dada altura, todavia, o amigo faz uma correção pertinente: a cena final de Love termina com a imagem congelada do personagem abraçado ao filho  --  e não à filha, como escrevi. Perfeito. O equívoco faz diferença se levarmos em conta que, pela metade do filme, Murphy revela-se preocupado com a sexualidade do filho quando crescer. Mas, aí, seria outro o viés de análise. O filme, para mim, tem como eixo temático a paixão e sua força muitas vezes devastadoras na vida das pessoas, sem que isso revele qualquer negativismo sobre um sentimento absolutamente importante na vida de todos nós.
 
A história oscila, portanto, em torno de duas perspectivas da paixão. A primeira delas, a perspectiva clássica, isto é, a paixão trágica, porque invariavelmente tem um final infeliz, em que pesem os momentos de realização dos amantes. A segunda, mais intensa no conteúdo dramático do filme, explora o que Denis de Rougemont define, em livro fascinante sobre o assunto, como o amor cortês. Surge entre os séculos XII e XIII e caracteriza-se pela impossibilidade da relação. É o tipo que perpassa a vida dos amantes no Ocidente.
 
A propósito, lembro aqui um fato curioso: um dos signos passionais mais conhecidos na cultura popular ocidental, a Marcha Nupcial, tem suas origens no terceiro ato da ópera Lohengrin (1848), de Richard Wagner. Nessa peça, a marcha é executada durante a cerimônia de casamento de Lohengrin e Elsa, com a participação do coro. Pouca gente sabe, no entanto, que se trata de uma das histórias de amor mais infelizes da grande arte, bem ao gosto do amor cortês a que nos referimos há pouco. Aos que depositam confiança em presságios, pois, essa seria a menos recomendável das músicas nupciais.
 
O fato é que o amor cortês, que tem suas raízes, como disse, na Idade Média, está presente nas mais importantes histórias românticas; das mais conhecidas, Romeu e Julieta à frente, às menos populares, entre as quais merecem destaque a de Tristão e Isolda e a de Lancelot e Guinevere. Shakespeare foi talvez o mais sublime artista a lidar com a matéria, e Otello, subjetivação à parte, permanece viva até hoje por lidar à perfeição com o tema do ciúme, razão de tanta infelicidade entre casais de todos os tempos. Corrijo-me: sobre o tema, a perfeição ficou mesmo foi com Machado de Assis e o seu estupendo Dom Casmurro.
 
Love, o polêmico filme de Gaspar Noé, por sinal, ao explorar o amor cortês na atualidade (fazendo-o com competência, a exemplo do que pretendi mostrar), não passa ao largo desse componente diabólico na vida dos casais. As cenas em que Murphy se deixa dominar pelo ciúme de Electra, cujo nome não é detalhe desprezível, por nos remeter ao mito, são absolutamente impactantes do ponto de vista cinematográfico, e conduzem os amantes, com poesia, para o desfecho 'trágico'.
 
O mais significativo, é que a paixão é uma experiência arrebatadora e não é aceitável imaginar um mundo sem o milagre da sua presença. Se isso ocorre, e ocorre quase sempre de forma a nos roubar de nossa própria individualidade, "dessa prisão do eu que condena a nossa própria e solitária morte", como bem frisou Rosa Montero, um dos grandes nomes da literatura espanhola atual, no âmbito de sua existência (dela, a paixão) reside um dos segredos maravilhosos de Deus. E por isso vale a pena.