sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Back to black

Tenho o hábito de ouvir música ao acordar. Eis que hoje, a dois dias da eleição, como que por sortilégio, pego na estante um CD de Chico Buarque: Almanaque, é como se intitula, e foi lançado em 1981. É o CD em que figura como carro-chefe o clássico Cálice, dele, Chico, e Gilberto Gil.

E vou reparando, enquanto preparo o café, no que tem a arte de sinfrônico, de sintonizador com épocas as mais diferentes: "Pai, afasta de mim este cálice, pai, afasta de mim este cálice de vinho tinto de sangue".

Lembro de minhas aulas de literatura, ajudando os alunos a descobrir as belas metáforas, o jogo de palavras, os artifícios de que lança mão o poeta a fim de tornar possível a veiculação de sua música nos anos de chumbo, que pensávamos, até há pouco, afastado de nossa vida dali para sempre.

O cálice da letra, muito antes de ser uma referência concreta ao graal, à taça propriamente dita, expressa, sonoramente, o protesto do eu-lírico contra o silêncio que lhe é imposto pela Ditadura então vigente: "Cale-se!", a voz autoritária da censura, impedindo a liberdade de expressão e o direito de pensar livremente, diferente do estabelecido pelos tiranos de plantão.

E vem, na sequência do CD, a belíssima canção Angélica: "Quem é essa mulher / Que canta sempre esse estribilho / Só queria embalar meu filho / Que mora na escuridão do mar / Quem é essa mulher / Que canta sempre esse lamento / Só queria lembrar o tormento / Que fez meu filho suspirar".

A música foi composta em homenagem a Zuzu Angel, figurinista e estilista, amiga de Chico, com quem Zuzu costumava dividir suas aflições de mãe, diante das ameaças que seu filho, Stuart Angel Jones, vinha sofrendo dos militares. A história, infelizmente, todos sabem, ou deveriam saber: Stuart, preso no quartel do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, viria a ser torturado e arrastado por um jipe militar, a boca no cano de descarga do veículo até morrer, asfixiado, aos 25 anos, em junho de 1971.

Zuzu levaria a efeito um dos movimentos mais corajosos de que se tem notícia no Brasil contra os horrores da ditadura militar. Sua voz ultrapassou fronteiras e ganhou o mundo como símbolo da indignação contra os horrores do regime implantado no país em 1964.

Mas, também ela, passaria a ser ameaçada pelas autoridades militares. A Chico Buarque, Zuzu entregaria a cópia de um bilhete com os seguintes dizeres: "Se algo vier a acontecer, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu filho".

"Quem é essa mulher / Que canta sempre o mesmo arranjo / Só queria agasalhar meu anjo / E deixar seu corpo descansar / Quem é essa mulher / Que canta como dobra um sino / Queria cantar por meu menino / Que ele já não pode mais cantar".

Consta que o corpo de Stuart Angel Jones, nunca encontrado, teria sido atirado de um helicóptero da Marinha em alto mar.

Em 14 de maio de 1976, exatamente um ano desde que escrevera o bilhete deixado em mãos de Chico Buarque de Holanda, o carro em que Zuzu trafegava foi trancado por um desconhecido na saída do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro.

Angélica, como carinhosamente a trata Chico Buarque na sua bela canção, que escuto nesta antevéspera da eleição de 2018, perdera a batalha contra os assassinos do seu filho.   

 

 

 

 

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A lição de Tim e outras lições

Atribui-se a Tim Maia a afirmação: "Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita!"

Irreverência à parte, é a percepção que vêm causando os números das últimas pesquisas para presidente, pelo menos numa fatia do eleitorado constituída pela chamada nova classe média, aquela que mais diretamente foi beneficiada pelos governos do PT. Gente com renda mensal entre 3 e 5 salários, que teve acesso aos 20 milhões de empregos criados por Lula, passou a comer e a se vestir melhor e viu o improvável acontecer: seus filhos ingressar na universidade e vislumbrar um futuro melhor.

A confirmar o que existe de bizarro na ingratidão desses "emergentes", são os escolarizados e as mulheres que engrossam o coro em favor de um candidato preconceituoso, autoritário, homofóbico, misógino e entusiasta da tortura. Sem fechar os olhos, claro, para o fato de que são em grande número as exceções, a exemplo do que se vê no movimento #EleNão, capaz, como disse na última coluna, de decidir a eleição contra o retrocesso e a barbárie que já não se pode considerar, infelizmente, uma probabilidade remota.

No Brasil, sabe-se, a ingratidão é irmã gêmea da ambição. O empresariado, por exemplo, que nunca antes havia se servido à farta como o fez nos governos de conciliação de Luiz Inácio Lula da Silva, agora cospe no prato que comeu, humilha a quem bajulou um dia e vem a campo vomitar sua baba odienta contra Haddad. Se não é possível com o banqueiro Amoedo nem com o tucano Alckmin, vamos de Bolsonaro, que só não pode ser o PT.

Mas, em se tratando da burguesia hipócrita do país, ocorre-me lembrar da cena imperdível do Memórias Póstumas de Brás Cubas intitulada "O Almocreve", lá pelo capítulo XXI, se não me falha a memória, do romance maravilhoso de Machado de Assis: Brás Cubas montava o seu burro quando, de repente, o bicho empacou. E haja saltos, pinotes, corcoveios, fazendo cair o nosso herói... o pé preso ao estribo. Eis que surge um almocreve que o ajuda, salvando-o do pior desastre.

Na medida em que se refaz do susto, Brás Cubas pensa em recompensar o pobre homem com três das cinco moedas de ouro que carrega no alforje. Mas três, ponderou, agora mais tranquilo, não serão demais? Fixa os olhos no pobretão, que "conversava" com burro repreendendo-o, que não fizesse outra vez assim. Duas moedas já seriam paga de bom tamanho para essa gente tão pobre e infeliz. Dá-lhe uma, e de prata.

E sai, montado no animal, enquanto repara no seu salvador à distância, grato com a recompensa. É aí que, vasculhando o bolso, constata ter ali alguns vinténs em moedas de cobre. Arrepende-se, pois que lhe poderia ter dado esses trocados ao invés da moeda de prata. Afinal, a um pobre, toda ajuda é bastante, pois que age sempre de modo desinteressado.