sexta-feira, 29 de junho de 2018

Sobre fantasmas e heróis

Durante o jogo do Brasil contra a Sérvia, tão-logo o escrete canarinho abre o placar, ouço a enfática afirmação de uma amiga (muito querida!): --- "O brasileiro é assim mesmo, desmerece os seus heróis!" Referia-se às chacotas desferidas contra o jogador Neymar, objeto da criatividade popular sobre a reconhecida dificuldade do nosso meia no confronto físico com adversários, do qual, frequentes vezes, termina no chão. Convenhamos, de forma um tanto teatral. Anedotário à parte, ouvi aquilo e pensei com meus botões: --- "Pobre de um povo que precisa de um herói!", frase atribuída a ninguém menos que Beltolt Brecht, o inigualável teatrólogo e poeta alemão. 

Lembro que, algum tempo antes, ouvira estarrecido comentário igualmente ufanista de Pedro Bial, referindo-se aos participantes do reality show Big Brother, na rede Globo de Televisão: --- "Agora, vamos até à casa, ouvir nossos heróis!" E assim, perdendo belas oportunidades de ficar calados, vamos expondo o nosso nacionalismo piegas e tolo, indiferentes ao que se passa a cada minuto nos bastidores enlameados de algumas de nossas maiores instituições. O STF, para ficar num exemplo. 

Em Flores Raras, o belíssimo filme de Bruno Barreto sobre a arquiteta brasileira Lota de Macedo e a poetisa americana Elizabeth Bishop, brilhantemente interpretadas por Glória Pires e Miranda Otto, há uma sequência emblemática sobre a nossa indiferença aos grandes problemas nacionais, aqueles que, na perspectiva brechtiana, talvez estivessem a exigir dos brasileiros a existência de verdadeiros heróis: Bishop escuta pelo rádio a notícia do golpe militar de 1964. Tomada de espanto, dirige-se à janela e vê rapazes jogando futebol nas areias de Copacabana. É quando demonstra o seu estranhamento de forma indignada: --- "Que país é este, onde se destitui um presidente e as pessoas vão à praia jogar futebol?!" O que não diria Bishop diante das ruas vestidas de amarelo por um golpe sujo como o de 2016?

É natural que o Brasil viva um clima de Copa do Mundo, kit completo; é natural que o país vista-se de verde e amarelo; é natural que bandeiras tremulem nas ruas e nos edifícios; que cantemos, tocados de patriotismo, o hino nacional. Mas que isso não cegue de uma vez os nossos olhos já tão embotados... Vou deste para outro assunto.

Em tempo: Chega às lojas de livros e DVD's o imperdível Manifesto, o filme do artista plástico alemão Julian Rosefeldt, baseado em instalação de mesmo nome apresentada em 2015 em diferentes países da Europa. Protagonizada pela australiana Cate Blanchet, que interpreta com irretocável competência nada menos que 13 papeis, o filme resulta de uma apurada colagem de diferentes manifestos políticos e artísticos, indo de Karl Marx a Lars von Trier e Jim Jarmusch. Construído numa perspectiva narrativa não convencional e não progressiva, Manifesto mostra o poder corrosivo da arte a partir do que professam as cartilhas de diversos movimentos de vanguarda, com destaque para o futurismo, o dadaísmo, o surrealismo e a Pop Art. Sobre este imperdível Manifesto, voltaremos a falar depois. Brasiiiil! 

 

   

 


 

sexta-feira, 22 de junho de 2018

À Macaco Simão

Eis que o Brasil venceu, ufa! Não convenceu, convenhamos, porque é muito pouco vencer a Costa Rica por dois gols nos descontos. E, mais importante, não jogou bem. A não ser para os comentaristas da Globo, e, como desde que me entendo, para o ufanismo verde-amarelo, que de futebol e política, no frigir dos ovos, entende muito pouco.

Quanto a Neymar, ah!, continua devendo à seleção brasileira uma apresentação de encher os olhos. Que saudade deve-se sentir de Pelé, Jair, Tostão, Romário, Zico, Sócrates...

Mas, venceu, e, para o país "que você quer" tudo há de valer a pena, se a alma não for pequena, que me vem à cabeça o verso de Pessoa: "O Mito é o nada que é tudo!" Vamos de Neymar, que, entre uma queda e outra, está o moço ladeado por Jesus, o Gabriel, e isso, quem sabe?, vai fazer a diferença!

De uma coisa, no entanto, estou certo: vestir a camisa amarela, repara bem, não ficou sem graça? Sei lá, vem um não sei quê de oportunismo, mistura de Praça Portugal com Avenida Paulista. Falta, é verdade, o "pato", mas quem vai pagar por ele, se não formos nós, os condenados de sempre? E por falar nisso, até que enfim, ou não, como diria Caetano?, resolveram examinar os "documentos" da turma de São Paulo... É, estou falando dele, o Alckmin, que, além de ter gosto de picolé de chuchu, terá agora de explicar os roubos do Rodoanel. Quem não sabia?

E o Moro? Gente vocês não acham que o rapaz vem a cada dia pertendo o brilho, murchando aquela cara de americano tupiniquim que a mim nunca enganou? Preste tento, como dizia uma amiga, que o cara está se desconstruindo como sorvete ao sol. Confere! Ou os EUA querem rescindir o contrato ou o rapaz parece ter finalmente percebido que entrou numa furada! É. Vira e mexe, tem recebido uma vaia, mesmo quando a cobertura "imparcial" da nossa imprensa faz que não vê e prefere mostrar tulipas e pães... Que belos editoriais esses caras escrevem: "Por que 62% dos jovens brasileiros querem morar fora do país".. viram na Folha? Quanta falta de imaginação!

Sim. Tiraram o Lula, mas, quando viram que o poder de transferir voto do homem é grande, tipo ir para o segundo turno e ganhar a eleição, agora estão enlouquecidos com a possibilidade de um poste não ser tão poste assim. Absolvida Gleisi Hoffmann por unanimidade pelo STF (além de bonita a gata fala bem "pra c...!), a imprensa marron esqueceu Haddad, Jaques Wagner e, cabotina que é, está que nem o heroi shakespeariano: "Ser ou não ser, eis a questão!" Vou de Ciro ou de Bolsonaro? Não será melhor de Marina? E Meirelles? Não, este não, que a economia foi para o ralo...

E esses caras-pálidas, na maior sem cerimônia, ainda acham que tudo foi culpa da Dilma. Por falar nisso, aonde anda Aécio? Sim, eu sei, o "pó-sudo" está liderando as pesquisas de opinião para o Senado em Minas Gerais, é verdade. Mas, fala sério, quem tem coragem de botar no vidro do carro o "Não tenho culpa, votei no Aécio"?

E eu que pretendia falar só de futebol... Que venha a Sérvia, então... Brasillllll!