quinta-feira, 22 de outubro de 2026

FAZ ESCURO, MAS EU CANTO*

"Por decreto irrevogável fica estabelecido/o reinado permanente da justiça e da claridade,/e a alegria será uma bandeira generosa/para sempre desfraldada na alma do povo". (Thiago de Mello).

É extremamente preocupante que um candidato à Presidência tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um miliciano condenado pelo Supremo pela morte de Marielle (sic).
O parágrafo acima não é de minha autoria. Trata-se do 'lead' do editorial do jornal "O Estado de São Paulo", um dos três mais importantes matutinos do país, em sua edição de terça-feira 20 de outubro de 2026.
"O Estadão", como se tornou conhecido, nunca foi de esquerda. Antes pelo contrário, desde sua fundação, em 4 de janeiro de 1875, a linha editorial do jornal esteve quase sempre posicionada à direita do espectro político, e, nos últimos 20 anos, centrou sua carga jornalístico-ideológica num perverso ataque às forças progressistas, nomeadamente o Partido dos Trabalhadores, eleito pelo grupo Mesquita, dono do matutino, como o mais figadal dos adversários. Sua trajetória, pois, esteve sempre marcada pelo liberalismo econômico e por um conservadorismo liberal de centro-direita, tendo atuado invariavelmente como porta-voz das elites políticas e econômicas do país, especialmente do estado de São Paulo.
Quando eclodiu o golpe de 1964, se não incorreu na desfaçatez de publicar a deplorável manchete de "O Globo", que estampou em 2 de abril o célebre "Ressurge a democracia" como principal matéria de capa, O Estadão não fez diferença ao compromisso dos demais grandes jornais do país ("Folha de São Paulo", "Correio da Manhã", "Jornal do Brasil" e todo o grupo dos "Diários Associados"), unidos em prol da desavergonhada divulgação do ideário golpista, considerando democrático o que se tratava de um dos mais perversos golpes de Estado de que se teria notícia.
Exceção à regra editorial dominante, apenas o "Última Hora", fundado pelo jornalista Samuel Wainer em 1951, ergueu sua voz em defesa do presidente deposto, João Goulart (Jango), ancorando o conteúdo de suas edições nos fundamentos da Constituição Federal do Brasil, e condenando corajosamente os militares golpistas. Pagaria por isso, por evidente, um altíssimo preço: empastelamento, incêndio contra suas instalações e perda de sua base financeira, cujas consequências decretariam sua ruína.
Faço este canhestro arrazoado para destacar com elogio o fato de que o jornal "O Estado de São Paulo" tenha hoje, momento tão delicado da vida nacional, conforme se pode concluir da leitura de seus últimos editoriais, a iniciativa de alertar a sociedade brasileira para os graves riscos a que se encontra exposta, conduzindo-se, ao lado de uns poucos, a exemplo da "Revista Piauí", por uma linha editorial que se contrapõe à lógica jornalística em pauta, jornal "O Globo" e "Folha de S.Paulo" à frente, toda ela empenhada em destruir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e limpar o terreno para a eleição de um representante da ultradireita brasileira.
É nesse contexto que estamos a poucas horas da mais importante das eleições para presidente. Não se trata, no entanto, de se fazer uma escolha entre nomes de espectros políticos distintos, de nos assumirmos, pelo voto, como cidadãos e cidadãs de direita ou esquerda, de tão-somente manifestarmos nossas vontades de superfície, confundindo o significado do voto com paixões de time de futebol. Trata-se de decidir pela continuidade da democracia e do Estado Democrático de Direito; pela soberania do país que dizemos amar; pela valorização da vida; pelo respeito aos direitos fundamentais do Homem; pela dignificação da cidadania; pela superação do ódio em favor do afeto; pela aceitação das diferenças de raça, de credo, de gênero, e pela acolhida respeitosa das opções sexuais de cada um dos brasileiros.
Ou pela tragédia incomensurável.
Na antevéspera do que poderá ser a luminosa manhã de segunda-feira ou o prenúncio de uma prolongada noite de impensável escuridão, que o jornal "O Estado de São Paulo" tenha a coragem de se contrapor ao que faz impiedosamente o resto da grande imprensa nacional, é fato que me impressiona e impõe o dever de exaltar.
Por limitações de espaço, no entanto, volto ao matutino paulista reproduzindo o parágrafo final do aludido editorial: "Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República". E outros riscos mais, acrescento.


*Titulo do livro de poemas de Thiago de Mello, um dos mais combativos e engajados poetas brasileiros, cujo centenário de morte comemora-se em 2026.      

Um comentário:

  1. Se até o Estadão já se dobrou à evidência de que há um representante do crime organizado na disputa pela Presidência, não entendo como chegamos a isso.

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