quinta-feira, 7 de maio de 2026

Exaltemos Jorge Amado

Com Paulo Elpídio, em conversa rápida por telefone, sou assertivo: "A crítica literária brasileira, com a exceção de Antonio Candido e uns poucos, de tão obtusa, jamais deu a Jorge Amado o valor que fez por merecer como ficcionista. Paulo Elpídio acabara de me enviar um fragmento de seus belíssimos diários em que o escritor baiano aparece como figura central.
De fato, passados tantos anos desde a sua morte, o Brasil ainda está em dívida com o nosso mais importante romancista, em que pese, por óbvio, o prestígio de que, mesmo em vida, Amado gozou no país e no mundo.
A exemplo do que se fez a Érico Verissimo (por um outro viés), e talvez em medida menor, Jorge Amado terá incomodado a certos críticos, e aos meios intelectuais como um todo, não apenas por suas posições políticas, mesmo quando, com certa demora, veio a repudiar as atrocidades do stalinismo, de que fora entusiasta por um longo tempo.
O elitismo entreguista de alguns dos nossos mais renomados críticos de direita, sempre fiéis aos valores da burguesia --- e aos romancistas que edulcoravam as contradições do modelo econômico vigente ---, nunca suportou o fato de que Jorge Amado povoasse seus romances com negros, mulatos, soldados, putas, malandros e outras tantas figuras do submundo baiano, dando a essas personagens protagonismo e voz, coisas impensáveis senão pela vocação documental da prosa de ficção naturalista.
Na ocasião em que Jorge Amado, aos 26 anos, apareceu em coleção importante da Gallimard, com "Bahia de tous les saints" (Bahia de todos os santos), como foi intitulado em francês o romance "Jubiabá", compondo ao lado de gente como Ernest Hemingway, John dos Passos e Jean-Paul Sartre uma lista de novos escritores notáveis, a crítica brasileira ignorou as qualidades estéticas da obra a fim de buscar "justificativas" para tamanho prestígio. Sobre isso, aliás, é oportuno ressaltar a ironia com que Graciliano Ramos anteviu o complexo de vira-lata dos brasileiros em face do sucesso do livro na Europa: "Que dirão em Paris vendo os pretos e esfarrapados que há nos livros do sr. Jorge Amado? Naturalmente dirão que vivemos numa terra de percevejos e moleques" (Joselia Aguiar, "Uma biografia, Jorge Amado", Todavia, 2018).
Jubiabá, lançado no Brasil três anos antes, constitui um verdadeiro romance de formação e explora um dos temas que viriam a ser recorrentes no conjunto da obra de Jorge Amado: a força da cultura afro-baiana contra as injustiças sociais decorrentes de um tipo de sociedade perversamente desigual.
A crítica tradicional brasileira, toda ela burguesa ou em vias de aburguesamento, obviamente não haveria de ver com bons olhos tal literatura. Nesse sentido, poucas análises dedicar-se-iam a tentar compreender as qualidades estéticas do livro, a função social que teria a cumprir num país marcado por tantas contradições e assentado em bases econômicas tão injustas.
Mesmo a dimensão artística do romance ficaria à mercê de juízos rasteiros ou, quem sabe intencionalmente, alheios à força de sua narrativa e à sua extraordinária beleza poética.
Como destacaria Antonio Candido, na contramão dos julgamentos então dominantes, Jorge Amado, se não se propôs realizar o mergulho na alma humana, acusado por isso mesmo de superficial, soube "construir personagens tão ricos e tão vivos quanto os mestres da análise". Sob esse aspecto, com a segurança e a verticalidade que são mesmo uma marca indelével do seu caráter como crítico literário, Antonio Candido pontua o que lhe parece uma evidência entre os críticos brasileiros: o fato de que ignoram que "a análise psicológica não é a única via de conhecimento do homem" (Brigada Ligeira, Todavia, 2025).
Nessa perspectiva, por sinal, é que o escritor argelino Albert Camus, expoente do existencialismo, exaltou em artigo memorável "Jubiabá" , "um livro prodigioso", em que o documento e a poesia se entrelaçam como esteio de uma grande obra. Elogios igualmente exaltados lhe dedicaram André Malraux, na França, e Adolfo Casais Monteiro, em Portugal.
Mas é reducionista centrar elogios num único livro de Jorge Amado. "Jubiabá", na humilde opinião deste escriba, sendo de fato um grande romance, anda longe de ser o melhor da vastíssima obra do escritor baiano. Há que se ressaltar o lirismo e a poesia de "Mar Morto", a grandiosidade histórica de "Terras do Sem-Fim", a sensibilidade estética e a denúncia desconcertante de "Capitães da Areia", o ecologismo pioneiro de "Tieta do Agreste", a presença incontornável do intelectual orgânico em "Tenda dos Milagres", a lufada de amor de "Gabriela, Cravo e Canela", livros em que a força telúrica, o amor, a luta, a miséria, a aventura e a humanidade de um povo constituem a matéria de que se valeu Jorge Amado para realizar uma das maiores obras literárias da língua portuguesa. Ontem, hoje e sempre.
E o quanto terá incomodado ao puritanismo hipócrita da crítica dominante, a linguagem desabrida e o léxico chocante com que Jorge Amado sobrepujou preconceitos e tabus. A esse propósito, me desculpando para com os mais conservadores, tomo a liberdade de fechar esta coluna com palavras do próprio Jorge Amado, ao responder, em passagem de "Tieta do Agreste", a um gramático soteropolitano que o aconselhava a medir palavras para narrar cenas de sexo e descrever a nudez das mulatas de Salvador, citando-o de cor: "Meu querido [...], querem abolir da literatura brasileira as palavras que exprimem com exatidão, vigor e poesia; o cheiro, o sabor, a  beleza, a perfeição, a eternidade: xoxota, xibiu e boceta, por exemplo!".
Exaltemos Jorge Amado.

 
 


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Duas palavras sobre Affonso Romano de Sant'Anna (1937-2025)

Estudante de Letras, pelos idos de 80, acomodo-me a uma poltrona da primeira fila do auditório Castelo Branco, na reitoria da UFC. Bem à minha frente, compondo a mesa de conferência, está Affonso Romano de Sant'Anna, poeta, ensaísta, cronista, crítico de arte, que profere palestra sobre literatura luso-brasileira com o tino e a densidade acadêmica que marcam sua trajetória intelectual e artística de altíssimo nível.
Ao final, depois de responder a mil perguntas que lhe são dirigidas sobretudo por alunos da universidade, vestindo um blazer marrom sobre uma camisa escura de gola rolê de gosto duvidoso (o que lhe acentua a palidez da pele), Romano desce do palco e, bastante assediado, a custo tenta ser receptivo com todos.
Vendo-me a pouca distância, aguardando com educação a oportunidade de me dirigir a ele, o escritor faz um sinal com a cabeça, como a dizer que o acompanhasse até a área externa do auditório.
Caminhando pelo jardim até a sombra acolhedora de uma mangueira frondosa, posso finalmente abordá-lo amiúde. Amante da obra de Carlos Drummond de Andrade, da qual Affonso Romano de Sant'Anna era reconhecidamente o maior especialista, encareço dele apontar uma perspectiva de exame que possa acrescentar à fortuna crítica do nosso maior poeta. Embora gentil, em que pese a postura ligeiramente arrogante, que soube depois tratar-se de uma de suas marcas pessoais, Romano observa ser desaconselhável indicar caminhos em trabalhos do gênero, e conclui, evasivo, antes de retirar-se: "Explorar o filão memorialístico, quem sabe...". É como desfecha nossa conversa, ainda escrevendo uma dedicatória do seu "O enigma vazio", livro que tantas vezes, como professor, viria ter eu nas mãos durante aulas sobre arte conceitual e outras expressões estéticas ditas pós-modernas.
Ao lado de tantos outros intelectuais (Robert Hughes, Tom Wolfe, George Steiner, Ferreira Gullar etc.) a quem a irreverência, chacotas e expedientes estéticos de qualidade duvidosa da arte "contemporânea" causavam imenso desconforto, na linha do urinol de Duchamp e das latinhas de Piero Manzoni, contendo "merda d'artista" (conforme intitulou sua obra de 1968), Affonso Romano de Sant'Anna produziu um livro fundamental para o debate no Brasil acerca da validade de tais experiências estéticas. Mas o faz tomando por base textos de gente grande, verdadeiros ícones da crítica de arte que se dedicaram a defender esses artistas transgressores em verdadeiros exercícios de subjetivação, "delírios interpretativos" e abusos lógicos.
Anos depois, através de um amigo de Belo Horizonte, consigo o que parecia improvável: o contato de Affonso Romano de Sant'Anna, morando no Rio, à época. Agora pesquisava eu a poesia de Drummond em outra dimensão, no que viria a ser a minha dissertação de metrado sobre "componentes dramáticos" da poética do itabirano. Trata-me com delicadeza, sem a empáfia de antes, mas é taxativo, equilibrando-se entre a indiferença e a fria generosidade: "O que tinha a dizer sobre Drummond está no meu livro", referindo-se ao clássico "O gauche no tempo".
Sabendo que homem e artista não são exatamente a mesma coisa, continuaria eu a ser um leitor compulsivo de sua obra monumental --- do ensaísta profundo, do cronista inconfundível, do crítico de arte notável, mas, sobretudo, do poeta extraordinário, cuja visada política exercera sobre mim e os de minha geração tanta influência, desde que a leitura de "Que país é este?"*, em plena ditadura, despertara em nós o sentimento de revolta contra aquele estado de coisas, sem que, no entanto, jamais perdêssemos a confiança no futuro ao encontro do qual caminhávamos, muito embora atônitos.
Quando em abril de 1981, em evento dedicado à festa do Dia do Trabalho, um capitão e um sargento armavam uma bomba no Riocentro, e o artefato explodiu dentro do carro em que estavam, no cumprimento de um expediente sórdido arquitetado pelo Exército, o governo golpista tenta livrar-se da responsabilidade montando uma farsa ridícula. Affonso Romano de Sant'Anna veio a público com "A implosão da mentira", um poema desconcertante: "Mentiram-me. Mentiram-me ontem/e hoje mentem novamente./Mentem/de corpo e alma, completamente./E mentem de maneira tão pungente/que acho que mentem sinceramente. [...] E de tanto mentir tão brava/mente/constroem um país de mentira/diária/mente".
Pouco antes de sentar-me diante do computador para escrever esta coluna, virei a última página de "Quase diário", um dos últimos livros de Affonso Romano de Sant'Anna. Leitura absolutamente prazerosa, dessas em que as funções cognitiva e lúdica do texto se nivelam, numa experiência horaciana que ao mesmo tempo ensina e diverte, revelando o homem comum com suas contradições, sua vaidade, suas atitudes talvez questionáveis, mas, acima de tudo, o tamanho imenso de sua presença na vida intelectual e artística do país nos 40 últimos anos.

*"Uma coisa é um país,/outra um ajuntamento.//Uma coisa é um país,/outra um regimento.//Uma coisa é um país,/outra o confinamento.//Mas já soube datas, guerras, estátuas,/usei caderno "Avante"/--- e desfilei de tênis/para o ditador.//Vinha de um "berço esplêndido"/para um "futuro radioso"/e éramos maiores em tudo/--- discursando rios e pretensão.//Uma coisa é um país,/outra um fingimento.//Uma coisa é um país,/outra um monumento.//Uma coisa é país,/outra o aviltamento." (fragmento).
 

  
 


 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Palavras ligeiras sobre Aderbal

Ficara de nos encontrar tão logo caísse o pano, ao final da peça. Não o fez, e esperamos por algum tempo ainda acomodados às poltronas do teatro. Como não apareceu, descumprindo o trato, decidimos ir embora, César Rossas, seu primo, não conseguindo esconder sua decepção. “Deve ter ocorrido algum imprevisto… Vamos!”, ponderou, o braço repousado no ombro da mulher, a biógrafa Beta Fiuza.
Mal descemos os degraus que nos levava ao saguão do teatro, no entanto, como a querer nos pregar um susto à maneira de um menino travesso, sai ele detrás de uma coluna, o sorriso belo e solto, traço inconfundível do homem simples e exemplarmente generoso que sempre foi. Abraçou-nos com aperto e afeto, como se a reencontrar nesse abraço com toda a gente de sua terra — amava Fortaleza, de que estava ausente, exceto em vindas esporádicas, desde que decidira trocar a capital cearense pelo Rio de Janeiro, para se consagrar um dos maiores nomes da dramaturgia no país.
“Minutinho, que a Marieta foi se trocar!” Balbuciou, referindo-se a sua companheira durante 15 anos, a atriz Marieta Severo, cuja atuação no monólogo “Incêndios”, nos emocionara tanto, havia poucos instantes.
Não demorou, e vem ela ao nosso encontro, elegante e sorridente, ainda que visivelmente cansada depois de quase duas horas em cena.
Entre os muitos assuntos sobre os quais discorremos, falo ao casal sobre o fato de ter eu interpretado, em montagem mais recente, a personagem Osvaldo, na peça "Aquela garota dos olhos grandes", o último trabalho do diretor em Fortaleza, quando ainda era conhecido como Aderbal Jr.
O assunto desliza para nossa permanência no Rio e a agenda que temos para o dia seguinte.
Um dos mais prestigiados homens do teatro brasileiro, diretor de clássicos da dramaturgia mundial, a exemplo de “Hamlet”, de Shakespeare, em montagem histórica tendo Wagner Moura no papel do príncipe da Dinamarca, ou nacionais, como “Apareceu a Margarida”, de Roberto Athayde, Aderbal Freire-Filho contaria 85 anos no próximo mês, mais precisamente no dia 8.
Consequências de um AVC, contra o qual, em doloroso silêncio, lutou por três anos, em UTI montada em casa pela mulher, na Gávea, Aderbal morreria em 2023, abrindo um buraco enorme no meio teatral em que se notabilizou como o mais original e criativo diretor de sua geração.
Quatro anos antes de completar 80 anos (e dois antes do AVC), sem que nem mesmo Marieta Severo soubesse, Aderbal organizara um inventário de parte significativa de seus escritos, textos sobre teatro, cartas, entrevistas, artigos de conotação política e apresentações de peças que dirigiu ao longo de mais de trinta anos dedicados à arte cênica.
Esse material, para a felicidade da cultura artística brasileira, seria cuidadosamente organizado por Marieta Severo e Patrick Pessoa, amigo íntimo e admirador dedicado de Aderbal Freire-Filho, a quem a atriz confiaria a produção do livro “Teatro aberto: escritos de um diretor” (Cobogó, 2026), a ser lançado dia 8 do próximo mês no Teatro Poeirinha, em Botafogo, inaugurando uma série de eventos em homenagem ao artista cearense.
Entre os escritos que compõem o livro, pelo menos um deles extrapola os limites do teatro e adentra o universo íntimo do casal: uma carta em que Aderbal, ao lado de recomendar, premonitório, como se deveria dar publicidade ao material inédito, revela seu amor pela mulher: “Em todos os meus sonhos estou com você. Eu te amo muito e nada é melhor que estar perto de você”.
A uma dada altura, com a mesma simplicidade e o mesmo jeito singularmente humano de ser e encarar a vida, o artista expõe algumas de suas inquietações de foro íntimo: “Não fui um bom pai. Não tive netos”.
O gesto, contudo, mais diz de sua imensa sensibilidade e correção pessoal, que da verdade dos fatos. Nesse sentido, é oportuno lembrar, pela irretocável correção de caráter e doçura interior contagiante, é que Aderbal Freire-Filho foi mesmo uma unanimidade entre aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Como pesquisador incansável, debruçou-se sobre as origens do teatro, encontrou caminhos nunca explorados para teorizar sobre as impensáveis possibilidades do ator em cena, bebeu nas fontes do Teatro Épico, de Bertolt Brecht (1898-1956), até criar o que se pode considerar um novo método, um teatro "coletivo", aberto ao diálogo com o público. Renovou a linguagem cênica, venceu preconceitos estéticos, repensou a semiologia teatral, engajando-se na luta pela liberdade do artista, atividades a que se soma a escrita de artigos  de resistência política e cultural que se tornariam uma referência em termos do moderno teatro brasileiro.
Fez história. E se tornou eterno.

Algum tempo depois do encontro no Rio, a que me reporto no início desta coluna, estaria com ele em pelo menos duas ocasiões. A última delas, em companhia da escritora Ângela Gutierrez, sua prima, no Theatro José de Alencar, onde o diretor proferiu uma de suas notáveis palestras. Ao nos despedirmos, à beira do palco, com a ternura e simplicidade que lhe eram típicas, Aderbal diria: “Até breve, no Rio!” E nos sorriu um sorriso largo e doce.
César Rossas, seu primo, e irmão de Ângela Gutierrez, que me aproximara de Aderbal Freire-Filho, morreria pouco depois, quem sabe à falta da vacina que lhe salvasse a vida. 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Noite alta em Florença


    Para Carolina, minha filha linda, que, estando em Fortaleza, "estava" comigo em Florença.

Estávamos, minha mulher, meu filho e minha nora num restaurante, em Florença, comemorando os meus 70 anos. Entre uma taça de vinho e outra, tomados de poesia e afeto, vem a pergunta: "O que é fazer setenta anos?".
A curiosidade de Juliana, minha nora, provocou-me a princípio um ligeiro engasgo, a que tentei disfarçar bem ao meu jeito, lançando o olhar para o que, não estivéssemos entre paredes, poderíamos chamar de infinito.
Ocorreu-me lembrar de uma crônica de Távola sobre o que é ser pai: "... é aprender, errando, a hora de falar e de calar. É contentar-se em ser reserva, coadjuvante, deixado para depois". (...) É ocultar-se na obra que realizou e sorri, sereno, por tudo haver feito para deixar de ser importante". E fui adiante, na difícil tarefa de definir o indefinível.
Ter setenta anos, falei, é quando cai a ficha e finalmente compreendemos que deixamos de ser um ídolo para os nossos filhos. E saber-nos, assim, humanos, demasiado humanos, é um sentimento que, se fere a vaidade do pai, acaricia a alma do homem, aliviado do peso das ingênuas ilusões --- é colher, com mãos humildes, o resultado do que plantou, aceitando com serenidade o que, por inevitável, chamamos realidade do Mundo.
Meu filho, olhar terno e doce, me ouvia com tal atenção e tamanho carinho, que, por iniciativa sua, punhos cerrados, esmurramos com delicadeza a mão um do outro, como o simpático emoji a dizer, sobre a beleza da amizade, mais que todas as palavras.
Naquele murro de mentirinha, havia todas as brincadeiras que brincamos juntos, todos os sorvetes que tomamos, todas as viagens que fizemos, todos os SIM e NÃO que lhe dei, todos os sonhos que se tornaram realidade, todos os abraços que trocamos, todas as fantasias que se desmancharam com o passar dos anos, todos os seus gritos de alegria a cada volta minha, ao final do dia.
Estavam, naquele murro de mentirinha, todas as dores que dividimos nos momentos difíceis de nossas vidas, mas, acima de tudo, estava a alegria e a gratidão de sabê-las superadas.
Fazer setenta anos, voz embargada pela emoção, disse eu, é deixar de ser o ídolo para os nossos filhos, sem perder o status de ser uma referência.
E não me refiro, deixei claro o que já era óbvio, ao prestígio que se busca conseguir a qualquer custo, vezo de nossa época, nem ao patrimônio material ou fortuna que por ventura tenha o homem construído, nem aos cargos importantes que ocupou. Suas honrarias, seus prêmios e títulos. Não, não é isso que torna um homem uma referência.
Falo do exemplo, da correção moral, da firmeza do caráter, da sabedoria de reequilibrar o passo a cada inevitável tropeço, de "fazer da queda um passo de dança", como a personagem de Sabino, o escritor mineiro de que gosto tanto.
Num contexto de tantas injustiças e desigualdades, ser referência é tornar-se solidário ao outro, e buscar, nos limites de suas possibilidades, contribuir para a construção de um mundo mais justo e mais humano. É não abrir mão de seus princípios, é compreender a dor alheia, e lhe estender a mão quando fraqueja a esperança.
Se morre o ídolo, à qualquer altura da vida de um homem, há de ficar o exemplo, essa herança maior que todas as demais heranças, sem a qual sua vida terá sido em vão.
Fazer setenta anos, dei voz ao cronista, "... é ter coragem de ir adiante, tanto para a vida quanto para a morte". De cabeça erguida e com o espírito em paz. É ter, diante dos olhos, enxergando com o coração, este Ser de grandeza incalculável a que dizemos Deus.
Era noite alta em Florença.

 
 

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Como um lagarto peçonhento

Incrível como a grande imprensa brasileira (Globo, Folha e Estadão à frente) tem pautado sua agenda pelo que existe de mais abominável em termos jornalísticos. Num misto de cabotinismo e desfaçatez que beira o inimaginável, esses órgãos saíram do armário para vestir a camisa da extrema direita, e o fizeram sem medir meios e artifícios, bem na linha do que se pôde ver no caso despudorado do powerpoint da Globo News há uns poucos dias.
Não bastasse o que se configurou como um crime contra a correção jornalística e o respeito à veracidade dos fatos, num exemplo clássico da emenda sair pior que o soneto, a Globo News confiou à jornalista Andréia Sadi o pedido de desculpas mais vexaminoso de que se tem notícia nos últimos anos. Sadi, em cujo horário lançou-se mão do recurso a um só tempo leviano e criminoso, mal vestindo o papel de porta-voz da emissora, tremia lábios e embargava a voz, sabe-se lá se por nervosismo ou medo antecipado do que lhe poderá ocorrer do ponto de vista legal. No mínimo, por certo, sua imagem não apareceu bem na fotografia. 
O que se viu foi um triste e despudorado espetáculo, desses de dar pena. Se se tratava de um erro técnico (argumento desprovido de qualquer senso de responsabilidade), por que a Globo News não publicou o tal powerpoint com as devidas correções, mostrando os reais envolvidos no caso Master, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o ex-presidente Bolsonaro e sua quadrilha à frente, até agora não foi explicado --- e não será.
A Globo sendo a Globo, isto é, arregaçando as mangas e indo à luta contra a democracia, a exemplo do que fez (pediria desculpas algum tempo depois) quando do golpe de 1964.
Situação semelhante, lembremos, viveram os jornais citados acima. Oportuno lembrar que A Folha, por exemplo, fez o mesmo que a Globo: apoiou desavergonhadamente a ditadura, a cujo fato veio se referir com enfático pedido de desculpas que constou com destaque da programação do seu centenário, recentemente festejado.
Com o Estadão, também, ocorreria o mesmo. E é de causar asco o que vem fazendo em termos de cobertura e análise da conjuntura política e do processo sucessório de 2026.
Vira e mexe, sabe-se, essa imprensa veste a carapuça, assume aberta ou subliminarmente candidaturas de direita ou extrema direita, golpeia de morte a ética jornalística e fomenta o golpismo para depois vir a público com revelações e pedidos de desculpa que mais dão a medida de sua cretinice que reparam os graves erros cometidos. Quer vender a imagem da correção jornalística e escorrega feio na gosma do seu próprio vômito, assim como um lagarto peçonhento que cospe para um lado e outro à procura da vereda a seguir. Vergonha.
   

quarta-feira, 25 de março de 2026

Diário de viagem

Até chegar a Milão, fiz de trem uma bela viagem. No meu caso, a forma alongada do território italiano ajudou muito, embora, algumas vezes, tivesse eu de sair da linearidade do roteiro a fim de conhecer uma ou outra cidade mais interessante.

Parti de Berna, na Suíça, chegando, inicialmente, como disse acima, a Milão. Depois, Verona, Veneza, Bolonha, Gênova, Florença, San Remo e Pisa. Iria, ainda, na ordem das recordações deste instante, a Roma e Nápoles, sobre cujas cidades escreverei depois.

Como fosse inevitável ziguezaguear, ora à direita, ora à esquerda do mapa, percorri longos trechos do litoral entre o Tirreno (parte do Mar Mediterrâneo que se estende pela costa Oeste) e o Adriático, ao Norte da Itália, conhecendo, assim, cidades menos importantes, cujos nomes me fogem na distância desses muitos anos.

A Itália, todos sabem, é um país fantástico, de uma beleza natural estonteante, mas foram a riqueza de sua cultura e a prodigalidade de sua arte o que mais me encantou, desde que aqui estive pela primeira vez.

Chegando a Florença — muito jovem ainda, dava eu os primeiros passos no vastíssimo terreno da história da arte —, deparo com o Duomo, a impressionante obra de Brunelleschi. Uma sensação indescritível se apossou de mim ao primeiro olhar. Mas é a visita às igrejas e museus que me deixam definitivamente tragado pela beleza do estilo em que sobressaem, em equilíbrio de massas e medidas, os traços serenos da Renascença.

Artistas geniais, objeto de tantas aulas deste velho professor de Arte, como Michelângelo, Fra Angélico e Donatello, para não falar no inacreditável Leonardo Da Vinci, deixaram aqui um legado que em nenhum outro lugar pode-se ver em tamanha exuberância.

O mapa da cidade, lembrando a forma de um peixe, com um traçado profundamente irregular, embora dificulte um tanto o deslocamento entre um e outro ponto turístico, ocasiona a quem caminha por estas ruas uma sensação de profundo bem-estar, misto de sonho e realidade.

Síndrome de Stendhal*. A beleza extrema a desencadear sintomas físicos reais, palpitações, vertigens, delírios... Ou síndrome de Florença, apenas?

Paroxismos à parte, contemplo algumas das obras da mais elevada significação da arte ocidental. O Duomo de Santa Maria Del Fiore, já referido neste diário, com uma majestade que transita do gótico para o neogótico, suas capelas encantadoras, seu campanário de revestimento sedutor, com mármore toscano em diferentes cores.

Adiante, refeito do primeiro impacto, deparo com a beleza inigualável do "Juízo Final", afresco de Giorgio Vasari, a quem devemos, entre tantas obras, o incontornável "Vidas", biografia dos expoentes do Renascimento italiano.

Em seguida, pelos dias que me restam aqui,  dou-me a uma sucessão de atrações, a exemplo da Galleria dell'Accademia, Pallazo Pitti, Palazzo Vecchio, Igreja de San Marco, Museu Bargello e, supostamente a mais antiga galeria de arte de que se tem notícia, a Galleria degli Uffizi, onde me encanta a "Vênus de Urbino" (1538), de Ticiano, e, mais tomado de enlevo, deparo com "O Nascimento de Vênus" (1485), de Botticelli.

Berço do Renascimento, Florença, assim, transpira arte e magia, sortilégios e fascínios.

Caminhar por suas ruas estreitas, remanescentes da Idade Média, como disse, é uma experiência indescritível, embora, vez e outra, o turista desatento corra o risco de ser atropelado pelas incontáveis motocicletas que circulam pela cidade, num viravoltear enlouquecido que contrasta com o ritmo doce e terno do lugar. 

Mas não é só a arte da Renascença que excede, aqui, em sua presença pujante e sedutora. Ao lado de grandes nomes do Alto Renascimento, como os já citados Rafael, Da Vinci, Michelângelo, Botticelli, Ticiano, e tantos outros, na Galleria degli Uffizi, por exemplo, deparamos com obras de Caravaggio, Rubens, Rembrandt, entre muitos ícones do Barroco. 

Amante das artes e das viagens, voltaria a Florença outras vezes, a exemplo do que faço nesse 29 de março, para festejar, grato a Deus e ao Destino, a chegada do meu heptagésimo aniversário.

Tudo envolve, alicia, deslumbra...

E tinha tanto mais por dizer, mas a mão já reclama, errática e trêmula, delicadamente domada pela emoção.

Oxalá ainda me sejam muitas as viagens — e, abençoados, os anos que virão.

*O escritor francês relatou essas reações ao visitar a Basílica de Santa Croce, em 1817.

P.S. O texto, como é comum no gênero, joga intencionalmente com tempos verbais, descumprindo orientações de gramática e estilo, num tipo de subjetivação que obedece mais às oscilações do sentimento que ao rigor da forma. 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Democracia e pensamento crítico

Morreu nesta semana, aos 96 anos, Jürgen Habermas. Nome de proa da Escola de Frankfurt, que reuniu além dele nomes de peso da filosofia e ciências humanas, a exemplo de Walter Benjamin, Max Horkheimer e Theodor Adorno.
O filósofo alemão é autor de uma obra que permanecerá por muito tempo entre o que de melhor se produziu sobre temas como democracia, comunicabilidade e tolerância. Esta, a razão por que seu nome ocupou espaço de destaque nos órgãos de imprensa durante os últimos dias, ensejando, no entanto, por ignorância intelectual ou oportunismo, leituras não raro equivocadas sobre o seu pensamento.
Amparando-se em interpretações distorcidas do pensamento habermasiano, houve, por exemplo, quem tentasse professar a necessidade de que sejam respeitadas ideias estapafúrdias do ponto de vista científico ou moralmente inaceitáveis, como faz uma certa parcela da população ao discutir o conceito de liberdade para golpistas ou a representatividade política de Erika Hilton à frente da Comissão dos Direitos da Mulher, na Câmara dos Deputados.
De fato, no conjunto de uma obra monumental, que produziu por mais de meio século, Habermas defendeu sempre a possibilidade do debate construtivo em torno das questões fundamentais da sociedade moderna, mesmo quando as "convicções" se mostram parcial ou completamente contraditórias. Mas isso não significa dizer que tudo pode ou deve ser aceito, por descabidas que sejam as ideias e desprovida de substância intelectual o confronto (uso a palavra intencionalmente, para evidenciar o que vem ocorrendo nos meios políticos brasileiros nos últimos anos).
Radicalizo: é desprezível como objeto de discussão, por exemplo, afirmar que a terra é plana, ou exaltar a figura de uma liderança política autoritária em discurso de defesa da liberdade democrática. Assim como é desprezível, por outro lado, o argumento de que, não sendo biologicamente feminina, a deputada do PSOL não possa representar com propriedade os direitos da mulher numa comissão da Câmara dos Deputados.
Para haver o debate construtivo, tal qual defendido por Habermas no seu incontornável "Teoria da Ação Comunicativa"*, é necessário que o discurso discordante reúna um mínimo de sustentação do ponto de vista racional, que seja ele baseado em elementos defensáveis na perspectiva intelectual, moral, científica e ideológica, ainda que pautado em visão de mundo diferente.
Voltando, pois, aos exemplos do parágrafo acima, não se pode discutir o indiscutível, pois a terra é comprovadamente redonda; um golpista não pode ser tomado como adepto da liberdade democrática, assim como a representatividade política exige do representante (no caso, da representante) atributos como correção moral, capacidade de liderar, coerência na defesa dos interesses daqueles ou daquelas que representa, preparo intelectual e compreensão dos desafios da época em que atua ou atuará como agente político, coisas que fizeram de Erika Hilton uma deputada brilhante, não as suas características biológicas, como querem os que se recusam a aceitar que uma mulher trans seja eleita para presidir uma comissão de defesa da mulher.
No que é natural, homens escolhem homens e mulheres para representá-los; mulheres, idem, como é próprio das democracias dignas de receber este nome.
Leituras desatentas ou equivocadas não podem ser tomadas como argumento num debate democrático. A filosofia política de Habermas não se presta a exortar o consenso pelo consenso, a aceitação acrítica do que é inaceitável, a convergência e o acordo tácito do que é insustentável na perspectiva científica, intelectual e ética.
A ação comunicativa que professa pressupõe seriedade, respeito, tolerância, mas jamais fecha os olhos para as condições em que se dá o debate, o conflito de interesses, as ideias, os objetivos e vontades que estão por trás da divergência, sob pena de ser, na linha do que advertiu Marx, um mero artifício de falseamento da realidade com propósitos de assegurar vantagens e poder.
Habermas dedicou sua vida a explicar como é possível a convivência educada entre os diferentes, as trocas argumentativas públicas que não resultem no conflito violento e na recusa do outro.
A democracia não é um regime de pensamento único, que nega ou impede o conflito, mas um modelo de sociedade em que as diferenças constituem a matéria essencial da liberdade como valor indispensável para o bem comum. Nunca a perda da lucidez e do discernimento. A aceitação do que é absurdo.
Num tempo em que proliferam seitas, tribos e facções, de que resultam o ódio, a intolerância, a insanidade e o fundamentalismo delirante, a morte de Jürgen Habermas abre um vazio imenso.
 
 *Publicado em 1981, "Teoria da Ação Comunicativa", em dois volumes, reúne as ideias centrais da filosofia harbemasiana sobre o que se pode definir como uma teoria crítica das sociedades modernas capitalistas. Dele, recomenda-se, ainda, "Mudança Estrutural da Esfera Pública" e "Direito e Democracia", publicados no Brasil pela Editora UNESP.
 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Música bela, debate tolo

Há alguns anos, neste espaço, escrevi crônica em que expresso a minha admiração pelo produtor, compositor e escritor Nelson Mota. Falava, na referida crônica, que me ocorre (e creio eu a muitas pessoas) de nutrir admiração e carinho "pessoal" por figuras públicas com as quais sequer estivemos pessoalmente algum dia.
Lembro que o texto suscitou, à época, comentários curiosos, e inúmeros leitores diziam se passar com eles o mesmo.
Alguém, de cujo nome não me lembro agora, ressaltou, concordando comigo, que esse é um dos papeis mais relevantes do escritor: "Dizer, em lugar do leitor, aquilo que, sentindo ou pensando ele, não soube materializar em palavras."
Essa semana, depois de tanto tempo desde a sua publicação, a crônica voltou a repercutir na forma de uma pergunta que enseja a coluna de hoje: "Leio seus textos com grande prazer. Uma vez você escreveu sobre sua admiração por Nelson Mota. Li que a música dele, "Como uma onda", é um plagio e que ele teria se apropriado de uma letra de Vinicius de Moraes... Verdade, isso?" (sic).
Não, não é verdade que Nelson Mota tenha se apropriado de uma letra de Vinicius de Moraes. O que se passou, de fato, é que o autor de "Como uma onda" usou de um expediente recorrente na história da música popular brasileira, diria mesmo da arte em suas diferentes linguagens, cinema, literatura e por aí vai: citar fragmentos de obras já conhecidas, o mais das vezes como um tipo de homenagem que, em termos teóricos, chamamos de "intertextualidade" e que, se bem utilizado, nada contraria os fundamentos da ética autoral. Grandes nomes da melhor arte fizeram isso de maneira elegante, nunca como um meio de se beneficiar do trabalho de outrem.
Mas vamos ao caso do sucesso de Nelson Mota, não sem antes evidenciar que o letrista o compôs em parceria com Lulu Santos: "Nada do que foi será/De novo do jeito que já foi um dia/Tudo passa, tudo sempre passará/A vida vem em ondas, como o mar/Num indo e vindo infinito//Tudo o que se vê não é/Igual ao que a gente viu há um segundo/Tudo muda o tempo todo no mundo//Não adianta fugir/Nem mentir pra si mesmo agora/Há tanta vida lá fora/Aqui dentro, sempre/Como uma onda no mar".
A letra, no rigor da análise, não plagia nenhuma música de Vinicius de Moraes. É verdade que o quarto verso da primeira estrofe, "A vida vem em ondas como o mar", ecoa literalmente um verso do poema "Dia da Criação", do conhecido poeta carioca. Mas isso não é o mesmo que dizer que houve plágio, que Nelson Mota e Lulu Santos tenham se apropriado indebitamente do belíssimo poema do autor de "Poemas, sonetos e baladas", publicado originalmente em 1946, no qual se encontra "Dia da Criação".
Trata-se, como se vê, de uma citação, de um caso de intertextualidade, que mais constitui uma reverência ao grande poeta brasileiro que um plágio tal qual o sabemos em termos teóricos. A contar em favor da dupla de compositores da música "Como uma onda", façamos valer o bom senso --- Nelson Mota e Lulu Santos, em que pese a diferença de gerações na MPB, conviveram com Vinicius de Moraes, frequentaram o mesmo meio artístico, já não bastasse ser  "Dia da Criação", inspirado no Gênesis, um dos poemas mais populares do autor, cujo refrão é largamente conhecido: "Porque hoje é sábado...".
Em seu livro "101 canções que tocaram o Brasil", entre as quais aparece "Como uma onda", Nelson Mota assume ter se inspirado no poema de Vinicius de Moraes.
Mas isso ainda não pôs fim à discussão, muito embora a dupla de compositores tenha sido severamente criticada. A alimentar acusações, há que se ressaltar o fato de que, no disco em vinil, assim como no encarte do CD, lançado nos anos 80, não há sobre a polêmica qualquer alusão a Vinicius de Moraes, o que, aos olhos de muitos, mais ainda caracteriza um desrespeito para com o autor de "Poemas, sonetos e baladas".
Se "Dia da Criação" explora o surgimento do homem e da mulher por um viés finamente irônico, como a evidenciar a grande confusão que se estabelece a partir de então, com bebedeiras e noitadas extravagantes, orgia, vícios, contradições e desencontros (Deus deveria ter descansado no sexto dia!), a letra de "Como uma onda" incorre em filosofia barata sobre a inevitável transformação, fugacidade e o eterno ir e vir das coisas, de que o movimento das ondas do mar, reconheçamos, se presta à perfeição como feliz metáfora.
A música é belíssima, o debate, tolo. 
 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A poderosa mensagem de Bad Bunny*

Mesmo quando tudo parece perdido, vem a Arte mostrar sua força e fazer tremer os poderosos. É o que me vem à cabeça quando sento diante do computador para escrever a coluna de hoje. E não que me faltasse pauta, pois o mundo --- o Brasil em particular ---, anda bombando em acontecimentos os mais férteis, complexos e contraditórios. Uns bons, a exemplo dos números da economia, numa incontrastável prova de que o tal "mercado" é porra louca em projeções e insaciável em sua gula; outros, ruins, como as safadezas recorrentes do pior Congresso de que se tem notícia.
Mas vamos lá, que o mote, como dei a ver, diz respeito aos acontecimentos da Arte e suas repercussões no terreno da boa política. Boa política? Sim, que o espetáculo artístico vez e outra dá demonstrações de que nem tudo está perdido, e que a sua "beleza haverá de salvar o mundo". Vamos ao que interessa.
A performance de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, nesse domingo, ainda ecoa mundo afora como exemplo do que pode o artista e sua arte, mesmo quando a mensagem soa demasiado metafórica e carregada de simbolismo que, infelizmente, extrapola o estreito espaço da inteligência extremista, se é que se pode falar de inteligência em face de tanta manifestação de burrice e alucinação com que se deslumbram bolsonaristas, trumpistas e outros "istas" mais.
Que coisa linda. Que demonstração de coragem e senso crítico, a que se soma, porque indispensável, o talento do artista porto-riquenho e sua esplêndida equipe em elementos fundamentais de um grande espetáculo: cenografia, atuação, guarda-roupa, direção de arte, tudo tudo pensado e executado à perfeição.
E nem vou falar das participações de gente da estatura de Ricky Martin e Lady Gaga, que, conscientes da função político-social do evento, souberam assumir papel de coadjuvantes em meio à explosão de luz que emanava de Bad Bunny, em noite mais que inspirada. O artista estava possesso, se se pode dar à palavra o sentido positivo com que a tomo nesta crônica.
Contudo, para contrapor argumento aos que se disseram indiferentes ao show do artista "desconhecido" e "drogado", como é próprio ao discurso da direita fascista, no Brasil, não é muito lembrar: Bad Bunny foi o artista mais ouvido no Spotify em 2025, para não falar do  "Debí Tirar Más Fotos", com que arrebatou o Grammy de melhor álbum do mesmo ano.
O show, a arte de Bad Bunny e seus camaradas, é o que importa, foi muito além da beleza, muito além de mais uma apresentação esteticamente irretocável, coisa de resto já comum na carreira do artista porto-riquenho.
O espetáculo atingiu em cheio o alvo a que se destinava: o governo Trump e a operação violenta, inominável, do ICI, Serviço de Alfândega e Imigração, no Minnesota e demais estados norte-americanos. Ao lado de ser, por óbvio, uma demonstração do lugar da Arte no contexto de enfrentamento das ameaças (concretas!) do fascismo, no que parece, em que pese estarrecedor, ser uma nova ordem mundial.
Quase por inteiro "narrada" em espanhol, na clara intenção de ressaltar componentes e valores da cultura latina, ou, se preferirem, latino-americana, a apresentação de Bad Bunny há de ter inaugurado uma nova alternativa na luta contra o ideário da extrema-direita hoje. Se, no painel ao fundo do espetáculo, a mensagem "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor" poderá ter soado um tanto piegas (quase falei "patética"), não é sem razão que se poderia afirmar: "A única coisa mais poderosa que o ódio é a Arte".
Bad Bunny, em performance inesquecível, nos deleitou, encantou --- e chamou à luta. Bravo!
*Benito Antonio Martinez Ocasio (10 de março de 1994), conhecido como Bad Bunny, é rapper, cantor, produtor musical e lutador profissional porto-riquenho.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Aberrações do ensino cívico-militar

Para os entusiastas do modelo cívico-militar nas escolas de São Paulo, caiu como uma bomba o vídeo viralizado na internet em que anotações de supostos "professores-instrutores" ferem de morte as regras gramaticais de ortografia em língua portuguesa: as palavras "descansar" e "continência", pasmem, estavam grafadas na lousa assim: "descançar" e "continêcia", entre outras aberrações do estilo.
Na tentativa de relativizar tamanha ignorância gramatical, de resto naturais em ambientes não especializados na formação de adolescentes, nunca em escolas públicas em que se paga aos tais instrutores R$ 310,70 por dia, valores raramente percebidos por professores da área de comunicação e linguagem no país, a secretaria da escola estadual de Caçapava (onde o vídeo foi gravado) ensejou um caso exemplar em que a emenda saiu pior que o soneto: os monitores não atuarão em atividades de sala de aula, mas no reforço da disciplina propriamente dita, ou seja, ensinando os alunos a respeitar os valores cívicos, matéria em que supostamente seriam especializados os 208 militares aposentados aos quais o governador Tarcísio de Freitas confiou a primeira escola cívico-militar.
O fato me fez lembrar algo de que, como educador, jamais vou esquecer. Era por volta do final dos anos 90, na Escola Agrotécnica Federal de Iguatu, cuja área da escola-fazenda fora parcialmente cedida para "aulas práticas" do curso de formação de soldados do Exército brasileiro. As tais aulas práticas, para se ter uma ideia do que isso representa, consistiam em condicionar os alunos a exercícios impensáveis de humilhação: como se fossem répteis peçonhentos, arrastavam-se em charcos de lamas fétidas; impassíveis, mantinham-se como estátuas enquanto sapos eram esfregados em seus rostos; bebiam líquidos amarelados e malcheirosos cuja procedência ignoravam, e coisas do gênero. Tudo, claro, sem esboçar o menor gesto de admoestação --- a tal disciplina a que os alunos das escolas cívico-militares, supostamente, serão submetidos.
Num tempo em que se valoriza tanto a capacidade criativa dos futuros profissionais, seja em que área for, seu potencial para agir livremente na escolha de caminhos alternativos diante das dificuldades, o senso crítico em face da realidade a ser trabalhada, o pensamento e as ideias originais, a excelência individual no desempenho de tarefas e na construção de projetos etc., é lamentável saber que o mais importante e mais rico estado brasileiro, São Paulo, invista pouco menos de R$ 20 milhões/ano com militares despreparados do ponto vista profissional (quase todos desprovidos de diploma de nível superior) para desempenhar funções tão importantes como as da educação formal.
Desaconselhável, inútil, retrógrado, nocivo aos interesses do Estado de Direito e aos valores de uma sociedade verdadeiramente democrática, o ensino cívico-militar é forma inaceitável de formar nossos jovens (nomeadamente de origem pobre), mas inconfessavelmente apropriada a treinar seres "in fieri" para a aceitação acrítica da dominação hierárquica, da sociedade de classes, da submissão às práticas autoritárias mais vis e para a geração de contingentes de mão de obra barata de regimes ditatoriais.
Como destacou o jornalista Thiago Amparo, em edição desta quinta-feira da Folha de S. Paulo, "o que vai libertar as pessoas [em termos educacionais] é o pensamento crítico, não um cassetete sobre suas cabeças".
Triste Brasil.  

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cultivando lembranças como a uma flor

Nos últimos dias, na internet, o cantor Roberto Carlos tem sido perversamente atacado, num tipo de "velhofobia" que beira o ridículo, já não fosse, por si só, uma demonstração de insensibilidade para com um dos grandes nomes da música brasileira.
 Se é verdade que o artista já devesse ter encerrado sua carreira, pelo menos em termos de apresentações públicas, em palco, restringindo-a às gravações em estúdio, onde nem mesmo a idade avançada terá sido bastante para roubar o brilhantismo do intérprete, não é menos verdade que suas reações de intolerância, que tanto animam a maldade dessa gente, são coisas naturais a uma dada altura da vida de qualquer um.
Já não fosse suficiente o que representou para gerações e gerações de brasileiros e brasileiras, Roberto Carlos é, ainda, uma referência entre os maiores nomes da nossa música --- quando menos, pelo que fez em termos artísticos ao longo de quase 70 anos de carreira.
Os que me conhecem sabem como sempre fui seu fã. E é por admirá-lo muito, deixo à parte o que pensa ele politicamente, que me ocorre lembrar de um tempo que já vai distante, e que ressignifico em recordações na coluna de hoje.
Roberto Carlos vencera o Festival della canzone italiana, o famoso Festival de San Remo, em 1968, com Canzone Per Te, de S. Bardotti e Sérgio Endrigo. Se não me engano, foi a partir daí que, por uma iniciativa de Chacrinha, passou a ser chamado de "Rei". Mas não é sobre isso que quero falar. Minto: é por isso que escrevo aqui essas memórias.
A música, todos sabem, tem uma letra maravilhosa: discorre sobre a transitoriedade do amor e fala do sentimento que resta no coração do amante ao final de uma relação. Diz, mais ou menos, assim: "A festa apenas começada já acabou./O céu não está mais conosco./O nosso amor era a inveja de quem está sozinho, /A minha riqueza, a tua alegria.//Por que jurar que será a última vez/O coração não te crerá./Alguém te dará a mão e com um beijo/Uma outra história nascerá.//E tu, tu me dirás/ Que és feliz como não foste nunca,/A uma outra eu direi/As coisas que dizia a ti./Mas hoje devo dizer que te quero bem,/Por isso canto e canto a ti./A solidão que tu me deixaste/Eu a cultivo como uma flor."
Mas era a força da língua italiana, numa interpretação extraordinária de Roberto Carlos, o que mais me encantou desde que ouvi a música pela primeira vez: "La festa appena cominciata è giá finita./Il cielo non è piu con noi./Il nostro amore era l'invida chi é solo,/La mia ricchezza, La tua allegria.//Perché giurare che sará l'ultima volta/E cuore non ti crederá./Qualcuno ti darà la mano/E com um bacio un'altra storia nascerà.//E tu, tu mi dirai/Que sei felice come non sei stata mai,/E un'altra io dirò/Le cose che dicevo a te./Ma oggi devo dire che ti voglio bene./Per questo canto e canto te. / A solitudine che tu mi hai regalato/Lo la coltivo  come um fiore."
Desde que escutei a música, tinha eu por volta dos 12 anos, senti dentro da alma algo muito forte, uma emoção indizível. Lembro que punha na 'radiola' de casa o compacto em vinil e ouvia, ouvia, ouvia. De tanto ouvir, mesmo sem ter qualquer conhecimento do italiano, aprendi a cantar a música à perfeição, com o ritmo e a pronúncia absolutamente corretos. Pelo menos em Canzone Per Te, tornei-me um intérprete "admirável". rsrs
Como já fosse um admirador aficionado do Rei, passei a nutrir, entre os muitos sonhos da adolescência, o desejo de ir a San Remo, de conhecer essa pequena e agradável cidade ao Norte da Itália, em que, saberia disso ao visitá-la alguns anos depois, esteve, em temporadas, Tchaikóvski, um dos compositores clássicos de minha predileção.
San Remo era, à época, uma cidade pequena, com algo, suponho, em torno dos 100.000 habitantes. Lembro de sua orla belíssima, e da avenida Corso Imperatrice, à beira do mar, tomada de palmeiras multidecenárias, perpassada de hotéis, restaurantes e, claro, os famosos cassinos de San Remo. O principal deles, o Casino Sanremo, sobressai entre as belas edificações ali existentes, quer pelo arrojo do seu estilo, quer pela imponência de sua arquitetura, que dão bem uma ideia dos altos valores apostados ali pelos turistas ricos que visitam a cidade.
Trago esses dias para o presente. Mal chego a San Remo, ainda na estação de trem, informo-me sobre a localização do Teatro Ariston, onde acontece anualmente o Festival da Canção Italiana. Como é comum nesses casos, quando nos enchemos de expectativa diante de algo que desejamos conhecer, é grande a minha decepção.
Trata-se de um cinema antigo, malcuidado, com paredes revestidas de um veludo azul de acentuado mau gosto e, como a penetrar-me ainda as narinas, um cheiro de mofo quase insuportável. Mas nada disso é capaz de tirar, do jovem que volto a ser por instante, a alegria por visitar o cenário em que Roberto Carlos ganhara o principal prêmio do famigerado festival.
A exemplo do que está na letra de "Canzone per te", são lembranças que cultivo como a uma flor. 



quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Oscar: Brasil em festa

O Cinema Brasileiro está em festa. Depois de vencer o Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa e melhor ator de drama para Wagner Moura, "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, recebeu, nesta quinta-feira 22, quatro indicações para o Oscar 2026: melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor ator e --- novidade nas categorias da premiação ---, melhor direção de elenco.
Em linhas gerais, muito já se falou das qualidades estéticas da obra, mas há muito mais a se falar, pois o filme de Kleber Mendonça Filho, quer na perspectiva do conteúdo, quer na perspectiva da forma, é mesmo merecedor do rótulo de obra-prima do cinema contemporâneo.
Esta a razão por que, a exemplo do que fazem e farão críticos de cinema do Brasil e do mundo, sobre o filme, ouso tecer aqui mais algumas considerações.
Começo por retomar um aspecto do que ressaltei em coluna da semana passada sobre o fato de ser o diretor pernambucano um realizador de "extração clássica", muito embora sua filmografia, desde a estreia em longas-metragens, com "O Som ao Redor" (2013), assente-se, no plano da expressão, em elementos característicos do que se convencionou chamar de cinema moderno. Houve, a propósito, quem me pedisse descer a detalhes sobre minha afirmação: "Pode-se dizer de extração clássica quem, como ele [Kleber Mendonça Filho] faz um filme tão moderno?"
A pergunta, curiosa e plenamente aceitável, veio, como se vê, de alguém com bom nível de conhecimento da arte cinematográfica, o que, mais ainda, justifica que faça este articulista, aqui e agora, algumas ponderações. Vamos a elas.
Como disse, Kleber Mendonça Filho, muito antes de realizar filmes, dedicou-se a escrever sobre cinema, no Recife e em São Paulo, notabilizando-se pela "pegada" analítica fundamentada em pressupostos da melhor abordagem acadêmica.
E não me refiro, unicamente, por óbvio, ao fato de apoiar a sua crítica em linguagem adequada, precisa, lançando mão de um léxico específico do cinema com notável rigor técnico, distanciando-se do que, sem qualquer preconceito, poder-se-ia definir como uma crítica de cunho "impressionista": vazada em "achismos" e subjetivações estranhas ao "texto" cinematográfico propriamente dito, entendendo-se por texto, ressalte-se, o que diz a semiótica do cinema: a linguagem fílmica organizada capaz de transmitir sentidos.
Soma-se a isso, agora me voltando para o filme, o rigor técnico na construção da narrativa: os planos (chama-se de plano a unidade básica de filmagem entre um corte e outro) articulam-se sem rupturas de continuidade; as cenas e sequências obedecem a uma lógica de conflito, espaço e tempo, exceto, como no cinema clássico, nos flashbacks, em que Marcelo/Armando narra situações vividas à época da universidade (professor perseguido pelos militares), esteio temático que vai fornecendo para o espectador o plot fílmico: a história de um homem que foge da perseguição militar em fins da década de 1970 e volta a Recife em busca do filho.
O roteiro, provavelmente o elemento mais clássico da estrutura narrativa de "O Agente Secreto", e não me refiro ao que é possível ao espectador acompanhar durante a exibição do filme, mas ao texto escrito que dá suporte à narrativa fílmica, foi produzido sobre bases teóricas tradicionais: cabeçalho da cena (EXT. POSTO DE GASOLINA - DIA); Ação: descrição física do que ocorrerá na tela; Nomes dos personagens em maiúsculas acima do diálogo; Diálogo: falas centralizadas acima do diálogo como indicação de quem está falando; Rubricas: indicações de como o ator ou atriz deve dizer as falas (rindo, sussurrando, olhando para o lado etc.); Transição: CORTE PARA, com informações alinhadas à direita da página, e uso recorrente de "storyboard" do enquadramento e ângulo da câmera etc.
Do ponto de vista do conteúdo, o roteiro apoia-se na estrutura clássica: Atos, conflito e arco de personagem: mudanças emocionais ou psicológica do protagonista e coadjuvantes estão explicitados no roteiro de "O Agente Secreto".
Contudo, o resultado final do filme de Kleber Mendonça Filho "não conduz o espectador pela mão". Antes pelo contrário, em que pese a adoção de procedimentos tradicionais, o filme tem uma concepção cinematográfica geral moderna, e as escolhas narrativas não se submetem a didatismos convencionais: as transições, por exemplo, prescindem de expedientes recorrentes no cinema clássico, e duas ou três vezes, apenas, legendas são usadas para definir as partes estruturais da história.
A direção de elenco, neste sentido, é leve, solta, muito embora exigente do ponto de vista técnico, mas sem rebuscamentos de interpretação, o que dá ao trabalho de ator de Wagner Moura (e ao casting como um todo) uma leveza e uma naturalidade que surpreendem em se tratando de um filme cujo estofo dramático poderia resultar afetado e piegas.
Eis o maior mérito do ator ( característica já conhecida em sua trajetória brilhante), como a revelar uma sólida formação no "Method Acting", bem ao gosto de um "certo" Stanislavski que lhe serviu de base no teatro desde sua iniciação em Salvador.
Wagner Moura, por isso mesmo, traz realismo intenso e profundidade psicológica para a personagem, o que ecoa em igual medida e força dramática no desfecho do filme, quando interpreta o jovem médico --- seu próprio filho.
Sublime.
Clássico? Moderno? Romântico? Realista? Tudo isso e muito mais. "O Agente Secreto" atravessa estilos e tendências à maneira de um Bergman, um Tarantino, um Elia Kazan (o esteta, não o dedo-duro), equilibrando-se emblematicamente bem entre diferentes registros estéticos, explorando as trevas para anunciar a luz.
Com força dramática, exatidão, vigor e poesia em níveis poucas vezes vistos no cinema contemporâneo, Kleber Mendonça Filho faz história e haverá de trazer, quando menos, uma segunda estatueta para o país.
Escrevam.




  

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

"O Agente Secreto": o Brasil carnavalesco e sombrio

Com o carnaval, ficou aí... Rivanildo fugiu pra se esconder e pra sair num bloco. Me deixou sozinho. Se eu for embora, perco o emprego. Se eu fico, é essa carniça... Começou a feder ontem de manhã. Eu me acostumei, já. (Frentista, para Marcelo, na abertura do filme).
Economista brilhante, e notável especialista em Adam Smith, George Bezerra, direto do Rio, levanta-me a seguinte questão: "O que faz de 'O Agente Secreto' um grande filme?"
Diante de tanta coisa já publicada na grande imprensa sobre o vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, a curiosidade do querido amigo me leva a parafrasear o concretista Décio Pignatari: "Não é porque existem Ismail Xavier e Inácio Araújo que deixarei de escrever sobre cinema". E ouso fazê-lo, portanto, agarrando-me ao entusiasmo com que assisti ao filme e o vejo coroado de láureas importantes mundo afora.
Começo por chamar a atenção para o fato de que Kleber Mendonça Filho, antes de ser o grande cineasta que é, fez-se conhecer e respeitar como crítico de cinema, o que, em última instância, reflete sua sólida formação teórica.
Em que pese ser jornalista profissional, revelou-se um diretor e roteirista de extração clássica, bebendo nas águas da cinematografia de Hollywood, de que se diz admirador. Como um Bergman dos dias atuais, no entanto, Kleber Mendonça Filho faz cinema essencialmente moderno.
Se maneja o instrumental do cinema americano dos anos 70 com absoluto domínio, usando lentes anamórficas, zoons e closes à maneira do que fazem cineastas ditos tradicionais, não é menos impactante a forma como lança mão de recursos típicos do cinema contemporâneo, rompendo com os pressupostos da narrativa linear e a ilusão de realidade.
Até aí, contudo, nenhuma novidade, uma vez que já o fizeram diretores do período que se estende dos anos 1940 a 1970, convencionalmente fixado como fase de implantação de uma estética cinematográfica de ruptura com os padrões clássicos do cinema americano: som ambiente e gravação direta (em oposição ao som pós-sincronizado de estúdio); montagem que ocasiona a ruptura da continuidade de espaço e tempo; "jump cuts" (cortes bruscos que levam à percepção da passagem das horas e do tempo); confusão dos planos de objetividade e subjetivação, procedimento que causa confusão de ponto de vista narrador/personagem; cenas e sequências externas; luz natural, com intensidade não raro "estourada" e uso de planos-sequência (tomadas longas, sem cortes) entre outros procedimentos técnicos contrários ao que estabelecem os manuais de cinema tradicionais.
Em que reside, assim, a assinatura pessoal de um adepto do "cinema de autor" na cinematografia de Kleber Mendonça Filho? Precisamente no original manuseio de procedimentos narrativos em que o clássico e o moderno se misturam com absoluta motivação estilística, sem obediência a padrões estabelecidos numa e noutra perspectiva de construção da narrativa fílmica, de que "O Agente Secreto" é, emblematicamente, um bom exemplo. Falemos do filme.
Ambientado no Recife em fins da década de 1970, em plena ditadura militar (governo de Ernesto Geisel), "O Agente Secreto" (2025) é antes de tudo um filme sobre a memória. Mas não se trata, importante frisar, de memorialismo saudosista, na linha do que se conhece, por exemplo, em cineastas como Ingmar Bergman de "Fanny e Alexander" ou Federico Fellini, de "Amarcord", para citar dois nomes consagrados dessa vertente cinematográfica, em que o passado é resgatado numa perspectiva nostálgica, carregada de poesia e assumido sentimentalismo. Antes pelo contrário, o passado que a película de Kleber Mendonça Filho explora e se dedica a resgatar não constitui nenhuma "recordação" no sentido saudosista, de trazer de volta ao coração, mas um passado que é preciso ser lembrado para que nunca mais se repita. Tempo de horror, de tortura, de assassinatos hediondos, de perseguição, de destroçamento da dignidade humana.
Filme de drama, com perfumes de suspense já sugerido no próprio título, "O Agente Secreto" reconstitui o auge da ditadura militar na capital pernambucana a partir da história de Marcelo/Armando (Wagner Moura), perseguido político que tenta reencontrar suas raízes e se depara com uma realidade de segredos e corrupção. Filme, como disse, sobre a memória e o esquecimento, sobre um Brasil apodrecido pelas práticas inconfessáveis de um regime autoritário, corrupto e cruel.
A sequência de abertura, em que Marcelo/Armando, chegando a um posto de gasolina em pleno sertão pernambucano, depara com um cadáver coberto por papelões, já em estado de putrefação, é bem a metáfora desse Brasil que Kleber Mendonça Filho traz à memória para que ,dele, jamais se possa esquecer.
Trata-se de uma obra com forte vocação literária, o que sobressai na observação rigorosa do texto escrito. Vi o filme e li o roteiro, o que me permite afirmar que são quase indetectáveis as eventuais alterações no plano do conteúdo e da forma, e o que se percebe sob este aspecto é que "O Agente Secreto", ao lado de ser uma obra exemplar do ponto de vista fílmico, é obra em que a palavra (os diálogos) constitui elemento narrativo tão relevante quanto a própria linguagem dita "cinematográfica", dimensão em que sobressai a presença de um realizador irrepreensível --- na composição do quadro, na escolha dos planos, na definição de ângulo e movimento de câmera, no uso de adereços cênicos (direção de arte) que dão a ver o trabalho minucioso de um dos maiores estetas do cinema contemporâneo.
P.S. A análise completa do filme, no plano do conteúdo e da expressão, sairá em livro da Academia Cearense de Cinema até o mês de junho.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Vezo do professor, e o coração ingênuo

Como professor de literatura , estive condicionado a trabalhar com as teorias mais importantes sobre a matéria, desde as clássicas até as contribuições mais atuais no campo da estética, da filosofia da arte, dos conceitos recentes deste ou daquele teórico etc.
Mas jamais perdi de vista aquilo que deve ser o grande objetivo do ensino de literatura: proporcionar ao estudante essa experiência de saudável cumplicidade com os escritores e suas obras. Sem pruridos, sem juízos prévios, sem preconceito de qualquer ordem. Eis a razão por que escrevo o mais das vezes sobre livros, filmes, sobre a Arte, enfim, matéria a que dediquei (e dedicarei sempre!) minha atenção, o meu tempo, e a parte mais preciosa de minha vida no plano intelectual e acadêmico. 
Acho, contudo, que o sentido fundamental do estudo da arte e da literatura, em especial, está em levar o aluno a desfrutar do incomparável prazer da contemplação, da fruição estética, da leitura, e, através dela, a crescer enquanto pessoa, a compreender melhor o homem, a si próprio e ao outro, sua relação com o mundo, a dolorosa provocação da alteridade. "Outrar-se", no dizer de um grande linguista, a cuja tarefa, como nenhum outro, Fernando Pessoa entregou-se, legando-nos a obra imorredoura que, ao mesmo tempo, deleita e ensina, pois que, se "o poeta é um fingidor", no seu fingimento, em alguma porção, está "a dor que deveras sente".
Sentimos. 
Por isso, suponho, tenho sabido lidar tão bem com as diferentes grandezas do talento, quer na perspectiva da música, das artes visuais, do cinema, do teatro, quer na perspectiva da literatura.
Dizia eu, em outra crônica, se o leitor recorda, que leio de Shakespeare a Nelson Rodrigues, de Paul Celan a Martha Medeiros, com igual encantamento, sabendo-os diferentes, em dimensão criativa e qualidade estética, bebendo, todavia, em cada palavra, do mesmo néctar, tirando de cada um o melhor proveito.
Na poesia, assim como gosto, por exemplo, de Paul Éluard, de T. S. Eliot,  de Walt Whitman, vou bem de J. G. de Araújo Jorge, ainda que menor, e Baudelaire, e Mallarmé, tão maravilhosos e tão malditos.
É a poesia que amo. Apesar de conhecer, por dever de ofício, as investigações estruturalistas, o que é absolutamente importante para o bom exercício de minha profissão, considero que mais relevante é o prazer do texto, o que ele é capaz de revelar da condição humana, de suas paixões e de suas angústias.
Desse modo, quando a uma dada altura, neste espaço, arrolei alguns dos meus poetas favoritos, cometi o imperdoável lapso de não mencionar Pablo Neruda, o memorialista e o poeta extraordinário que foi  --- e será sempre. Tenho o hábito de ler Neruda. Sei de memória alguns dos seus poemas maravilhosos sobre o amor, que é mesmo, o Canto Geral que fique à margem, a sua mais deliciosa porção.
Antes de amar-te, amor, nada era meu: / cambaleei pelas ruas e coisas: nada possuía nem tinha nome: / o mundo era do ar que respirava.
De Neruda, é um dos poemas que mais amo (Puedo escribir los versos más tristes esta noche), mais dolorosos, mais profundos, sobre o amor e sua fugacidade. Permita-me, leitor, que o diga, pois que você me pede.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite. // Escrever, por exemplo: a noite está estrelada, / e brilham, azuis, os astros, lá ao longe. // O vento da noite gira no céu e canta. // Posso escrever os versos mais tristes esta noite. / Eu a amei, e, por vezes ela também me amou. // Em noites como esta a tive em meus braços. / A beijei tantas vezes sob o céu infinito. // Ela me amou, por vezes eu também a amava. / Como não ter amado seus grandes olhos fixos. // Posso escrever os versos mais tristes esta noite. / Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi, já. // Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. / E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. // O que importa é que meu amor não pôde guardá-la. /A noite está estrelada e ela não está comigo. // Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. // Minha alma não se contenta com tê-la perdido. // Como para trazê-la a mim meu olhar a procura. // Meu coração a procura, e ela não está comigo. // A mesma noite que faz embranquecer as mesmas árvores. // Nós, os de então, já não somos os mesmos. // Já não a amo, é verdade, mas como a amei. Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido. // De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. // Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos. // Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. // É tão curto o amor e tão longo o esquecimento. // Porque em noites como esta a tive em meus braços, / minha alma não se contenta com tê-la perdido. // Ainda que seja a última dor que ela me causa, / e estes sejam os últimos versos que lhe escreva.*
Mas é curto, também, o espaço do jornal, e enorme a data que se avizinha, como a desafiar os homens a cada dezembro.
À maneira de Drummond, vejo "nascer um Deus", e o meu coração vibra, tolo e profundamente ingênuo, como a renascer das cinzas para de novo acreditar na possibilidade de um mundo melhor, mais livre, mais justo, mais humano.
Feliz Natal!
* Um leitor pediu-me, na íntegra, o poema. Atendo-lhe inserindo-o no corpo da crônica de hoje.