Contos, crônicas e crítica literária de Alder Teixeira

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

A CURVA DA ESTRADA

Para o poeta Fernando Pessoa a morte era como a "curva da estrada". Não o fim, mas uma passagem, um ponto no percurso da vida. Morrer, "apenas não ser mais visto".

Hoje, 26 de novembro, faz 31 anos desde que morreu Roberto Costa. Sobre ele, escrevi em livro de memórias o texto abaixo.

Os primeiros anos de minha vida, dividi-os entre as casas de papai e tio Nelzinho. Não raro, passava meses sem conviver com meus irmãos, por conta de viagens que fazia com o meu 'outro pai e a minha outra mãe', que eram Julieta Barros Costa, ou, simplesmente, Titieta, como a chamava amorosamente, e meu tio.
Cresci sendo educado, parte por meus pais, parte por esses tios maravilhosos, que, assim, naturalmente, passariam a ocupar no meu coração quase o mesmo espaço que meus pais de sangue. Amei-os tão fervorosamente como se fosse dado a alguém o milagre nunca conseguido de se ter dois pais e duas mães, igualmente amáveis e zelosos.
Mas foi a convivência com esse ser humano diferenciado que me causaria as maiores impressões, o jeito alegre de viver, a inteligência privilegiada, a sensibilidade de uma alma superior, a capacidade de lidar com as adversidades sem franzir a testa ou demonstrar qualquer irritabilidade. O sorriso sempre aberto.
Esses e outros incontáveis atributos, estavam ali, à minha frente, constituindo um exemplo a ser seguido, cedo ou tarde.
Com o tempo, na medida em que fui amadurecendo, a minha convivência com Roberto foi se tornando mais íntima, mais frequente. Saíamos juntos, ele, Edilmo e eu, mal começava o dia, até a Varzinha, onde, agrônomos, os dois administravam os algodoais e o rebanho bovino. Ficávamos ali até por volta das dez, onze horas, quando de volta à cidade, acompanhava-os de volta à casa.
Nos finais de semana, ao cair da tarde, ia com esses irmãos siameses (Roberto e Edilmo andavam quase sempre juntos) ao encontro de um grande e invariável grupo de amigos, para um drinque, e jogar conversa fora. Acho que, mais novo e condicionado a conviver com esses homens feitos, por isso mesmo fui amadurecendo precocemente. Participava das conversas, discutia os mesmos assuntos e tinha, guardadas as pequenas diferenças, os mesmos gostos para quase tudo.
Mais tarde, viria a atividade política. Roberto vereador, vice-prefeito, deputado estadual, prefeito, uma liderança leve e destituída dos achaques tão comuns aos políticos em geral, como a hipocrisia, a vocação para prometer e nunca cumprir, a arrogância e a prepotência, ia, passo a passo, constituindo uma referência que eu, sem qualquer esforço para tanto, passava a imitar, num tipo de espelhamento que me fazia crescer como gente. Hoje, quando paro para escrever estas memórias, a imagem de Roberto parece estar aqui, ao alcance de um simples olhar, e, sem esforço, posso ouvir a voz ligeiramente trêmula desse primo querido a quem devo tanto pelo que sou.
É compreensível que, pela visibilidade social e, sobretudo, pelo sucesso na atividade política, Roberto despertasse algum desconforto a muita gente, coisa que a sua morte e o reconhecimento, um tanto tardio, de suas imensas qualidades de homem poriam por terra.
Em vida, aqui e acolá, vez e outra, foi retaliado e objeto da maledicência de uns poucos, incompreendido, injustiçado, sem, contudo, jamais perder a serenidade ou alimentar qualquer sentimento negativo ou revanchista. Um homem bom, superior a qualquer maldade ou inveja de que fosse alvo.
Acima de tudo, porém, Roberto soube granjear amigos como ninguém. E era um líder nato, uma figura humana para a qual, onde quer que estivesse, todos os olhares naturalmente se voltavam. Tinha algo abençoado nos seus gestos mais desinteressados, uma radiação benigna em sua palavra.
Com o passar do tempo, cada vez mais, fico convencido de que Roberto era uma dessas pessoas que vêm ao mundo para cumprir uma missão, para dar com a sua vida um exemplo de complacência permanente, e boa vontade no trato com o próximo, a quem veem como um irmão.
Não bastassem essas qualidades absolutamente necessárias, de natureza íntima do ser humano, Roberto estava invariavelmente bem-humorado e tinha uma presença de espírito desconcertante. Eram alegres os momentos de entretenimento ao seu lado, tinha sempre uma piada nova, uma improvisação brincalhona, uma provocação jocosa com um e outro, um jeito de fazer festa das mínimas coisas.
Na atividade política, onde se notabilizaria pela capacidade de negociação, pela disposição para o diálogo e pela correção de propósitos, foi um visionário e um construtor de sonhos. Para ele, pude testemunhar de perto, nada era maior que o interesse coletivo, o bem-estar do povo. Suas ideias eram radicalmente assentadas na vontade da maioria, na satisfação das aspirações alheias, desde que, para torná-las realidade, jamais tivesse de abrir mão dos seus princípios, dos valores morais por que orientava suas decisões.
Sem dúvida, foi, à larga, um dos melhores prefeitos de Iguatu, em que pese o tempo mínimo de sua administração.
Como vereador e líder de bancada na Câmara, só uma vez me indispus com Roberto. Coisas da atividade política. Fui favorável a uma emenda a um projeto de aumento de salário dos servidores municipais, apresentada por um vereador de oposição, e, considerando a repercussão aos cofres públicos superiores às possibilidades reais, Roberto vetou-a. Deixei a liderança da bancada e 'cruzei' os braços ante os projetos de sua administração. E as matérias do seu interesse começaram a ser derrubadas pela oposição.
Dois ou três meses depois, por volta de onze horas, meia-noite, pouco mais ou menos, Roberto bate à porta de minha casa. Estava com o então vice-prefeito Marcelo Sobreira, exultantes os dois. A primeira pesquisa de opinião, uma novidade à época,  sobre a administração Iguatu acima de tudo, o lema do seu governo, indicava uma aprovação enorme, com números nunca obtidos por qualquer prefeito naquele tempo.
Fomos para a varanda de casa, abri um uísque e varamos a madrugada jogando conversa fora. Acabara aquilo que, em verdade, nunca existira, a suposta inimizade entre nós. Nas sessões seguintes, os projetos de Roberto voltariam a ser aprovados. Havia mais que o meu voto pessoal, que jamais negara ao que fosse bom para a cidade, havia o meu empenho, o discurso relativamente hábil e convincente, o jeito de tratar com os opositores, àquela altura, hoje vejo com clareza, assimilado do próprio convívio com Roberto.
Na noite do sábado, véspera do acidente trágico em que viria a falecer, Roberto veio a ter comigo. Eu jantava com Sulene, minha mulher à época, num restaurante da cidade. Falou-me das visitas que fizera a alguns vereadores. Nutria a vontade de me tornar presidente da Câmera.
Não o fez. Sorrateira e implacável, "A indesejada das gentes"* esperava-o à beira do caminho. 
*A expressão é do poeta Manuel Bandeira, e se refere à Morte.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Pássaro que voa pelo sem-fim dos tempos

Em casa, tendo nas mãos um clássico de Dostoiévski, recebo ligação telefônica do professor Auto Filho: "Vamos tomar um café na Cultura? Quero apresentá-lo ao Osvaldo Araújo. Ele quer você escrevendo para o Segunda Opinião".
Pelas duas, duas e meia da tarde, encontramo-nos no café da livraria. Osvaldo ainda não havia chegado, e Auto, do alto de sua presença marcante de intelectual imenso (que me perdoem a intencionalidade do trocadilho), discorre sobre o projeto do jornal. Fala de Osvaldo Araújo com um carinho em que pude perceber a existência de uma grande amizade. Mais que isso: Pude perceber que havia entre os dois jornalistas uma identidade intelectual que extrapolava os limites do ideológico para ganhar contornos existenciais, se se pode usar a expressão para dizer do que se entende como verdadeiro papel do intelectual numa sociedade marcada por desumanas contradições.
Era compreensível, pois, no espaço de tempo que não saberia agora precisar, que já pudesse nascer ali, antes de conhecê-lo pessoalmente, uma admiração enorme pela figura de Osvaldo Araújo.
Eis que chega, quase pedindo licença para chegar, tamanha a humildade de sua presença, o homem tão esperado. Vinha lento e manso, elegante e doce, como que envolto no halo de luz que rodeia os verdadeiros homens do bem.
Começava ali, entre um cafezinho e outro, uma dessas amizades de que me orgulho, e que pude dimensionar com exatidão nas primeiras horas de segunda-feira 10, quando nos deixou, assim, ao jeito de um menino arteiro, como que numa brincadeira ou truque lançado a "um milhão" de amigos e admiradores, ainda incrédulos de que tenha partido.
Hoje, como em todas as quintas-feiras nos últimos quatro ou cinco anos, sento-me diante do computador para escrever a crônica da semana para o Segunda Opinião. Mas sou tomado por um bloqueio criativo para o qual, por óbvio, não encontro palavra capaz de definir. Não haverá, do outro lado da linha, a figura indizível de Osvaldo Araújo, a quem confiava a publicação do texto e a escolha da imagem que o encimava, diga-se aqui, muito mais que uma simples ilustração, um tipo de "lead visual" a conquistar o interesse do leitor e antecipar as razões de ser da coisa escrita.
Se, a Carlos Drummond de Andrade, foi possível escrever um poema sobre a própria incapacidade de escrevê-lo, pois que "está cá dentro, viva, inquieta", que esta crônica escreva-se por si própria. Ela nasce do vazio, da ausência, da saudade que nos deixou a figura mais que humana de Osvaldo Araújo.
Como escritor, foi único numa certa forma de dizer sobre outros escritores. Mais que um grande resenhista, desses que atuam nas salas de redação das principais editoras, tinha Osvaldo Araújo um senso aguçado de percepção, uma agudeza de espírito, uma capacidade de transitar por entre as linhas do escrito, que fizeram dele um verdadeiro mestre.
Ao comentar questões da economia e da geopolítica, fazia-o com a sensibilidade analítica e elegância de estilo que tornava compreensíveis os temas mais complexos. Nesse sentido, ia fundo ao falar sobre os problemas sociais, e era notável como sabia apontar caminhos e alternativas de ação. De outro lado, no plano da expressão propriamente dita, tornava deliciosos os assuntos mais áridos, trabalhando à perfeição as potencialidades do léxico e os recursos da sintaxe.
Escreveu, por último, um trabalho raro sobre escritores cearenses, em que comenta três dos livros de minha autoria, já resenhados anteriormente por ele em outras publicações. Quando quis lhe agradecer pela generosidade da iniciativa, fazendo-me figurar entre tantos craques que admiro e que tenho como referência, foi taxativo: "Não seja demasiado humilde, pois não o faria se não admirasse sinceramente o que você escreve!"
Calei, pela simples razão de que, em termos de humildade e elegância, pouca gente sabe o que sabia à perfeição Osvaldo Euclides de Araújo.
É, agora, um pássaro que voa, leve e solto, pelo sem-fim dos tempos.