sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Esses não passarão

O passado está em seu túmulo, embora seu fantasma nos assombre, dizia o poeta e dramaturgo inglês Robert Browning (1812-1889).                                                         

Mas chegamos aos estertores de 2023 com saldos positivos: fim da mamata tributária com isenção indecorosa de fundos exclusivos e offshore; controle das importações via ecommerce; alternativa convincente e vitoriosa ao "temeroso" teto de gastos como justificativa para o descaso com projetos sociais e incentivos à cultura; subida da Bolsa de Valores a níveis máximos; juros em queda e empregabilidade em alta; queda da inflação; aprovação da Reforma Tributária; retomada de programas de largo alcance para os mais pobres, como o Mais Médicos e Farmácia Popular; aumento real do salário mínimo; produção cultural voltando a níveis compatíveis com a vocação artística do país: incentivo à realização cinematográfica, teatral, literária e intelectual de cunho científico; reconquista do prestígio internacional e proteção institucional contra os inimigos da democracia, entre outras ações que nos devolvem o orgulho de ser brasileiros.

Tudo perfeito? Claro que não. Ainda estaremos por muitos anos entre os países com maior índice de desigualdade social, e a pobreza é algo que a um só tempo nos entristece e envergonha; nossas escolas e universidades carecem de maior atenção, mais recursos, mais tecnologia, mais bibliotecas e mais computadores disponibilizados full time a alunos, professores e funcionários; precisamos de mais casas para as famílias pobres e maiores cuidados (efetivos) com a preservação do meio ambiente; aparelhamento e medidas de inteligência contra a violência que campeia país afora; melhor assistência médica e hospitalar gratuita; maior representatividade de gênero, raça e cor em cargos de importância na estrutura de governo, e mais avanços no sentido de assegurar a todos mobilidade eficiente e confortável.

É claro, pois, que ainda há muito a fazer e conquistar, mas só aos olhos obnubilados do fanatismo político mais vil e mesquinho, do fundamentalismo religioso mais desprovido de racionalidade, dos interesses inconfessáveis de partidos políticos de direita e extrema direita, podem-se negar as evidências: o Brasil é outro desde janeiro do ano que termina.

E crescerá em 2024 para além das previsões desonestas de economistas liberais a serviço dos donos do dinheiro, essa gente perversa da Faria Lima, e de uma imprensa que manipula dados, forja situações improváveis e difunde por interesses escusos o pessimismo em escala criminosa.

Num cenário externo confuso, quer sob o ponto de vista econômico, quer sob o ponto de vista político, com nuvens pesadas desenhando imagens ameaçadoras nos céus de superpotências, como os Estados Unidos, ou países medíocres, a exemplo da Argentina, é mau brasileiro aquele que cerrar os olhos para o sucesso com que chega ao final do primeiro ano de mandato o petista Luiz Inácio Lula da Silva, e escancaradamente questionável o caráter dos que cospem no prato em que comem (que me desculpem a falta de imaginação do lugar comum).

Viúvas do arbítrio, amantes do atraso, comparsas da criminalidade subliminar, saudosistas do autoritarismo primitivo de antes --- e afeitos ao moralismo torto e rasteiro que nutre o sonho de voltar, esses não passarão. Não passarão.

Feliz Ano Novo!

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

O mais pobre, o mais simples

Eis que chega o Natal!

Como o simbolismo da data propõe, obra do talvez ou do quem sabe, como que por milagre ou passe de mágica, assim, de repente, nossos corações tornam-se mais delicados, sensíveis às boas coisas da vida --- e aos bons sentimentos para com o real sentido de nossa existência.

Os olhos, por tantas vezes incapazes de enxergar o outro, parecem desanuviados, e finalmente veem...

Veem que somos todos iguais, e de que nada valem, em dimensão verdadeira, as diferenças que nos separam. Dinheiro, Poder, Luxo... De nada valem, insisto, em dimensão verdadeira!

Ali, entregue à própria sorte, pode-se ver um homem desvalido, uma mulher sem nada para dar de comer ao filho, uma criança que suplica por um resto de comida: o pedaço do sanduíche, um pouco do sorvete, um copo do refrigerante. Quem sabe um brinquedo... um chinelo, uma camisa, um calção...

Mas nossos olhos, disse o poeta, são pequenos para ver!

Eles estão por toda parte: nos sinais da esquina, nos bancos de praça, nas ruas, nas favelas... E não tivemos olhos para ver!

Mas eis que chega o Natal, e com ele uma nova chance de repensar nossas vidas, de abrir os braços para os que, sendo nossos irmãos, carecem tanto da nossa atenção. E lhes negamos, por comodidade ou perversa indiferença... lhes negamos!

E pensar que é tão pouco o que pedem, tão pequeno o pedaço de pão, o prato de comida com que se pode matar a fome alheia --- ou a manifestação de carinho para aliviar a dor de alguém. A ajuda para o remédio com que se pode tratar a doença... tão pouco... a roupa decente que cobrirá o corpo quase nu! É tão pouco!

Mas foi preciso que chegasse o Natal para fazer cair a ficha, e nos fazer voltar a ver para além dos muros de nossa casa e do nosso egoísmo!

E, no entanto, o Natal "é sempre!" Ontem e agora, assim como será no amanhã!

É Natal quando nos tornamos capazes de sentir o sofrimento alheio e não medir esforços para amenizá-lo. É Natal quando nos indignamos com a injustiça, a exploração, o domínio de um sobre o outro. É Natal quando estendemos a mão a quem precisa de nossa ajuda, quando pagamos o salário digno a quem nos serve, quando repartimos, quando "dividimos"... É Natal quando "diminuímos" a miséria alheia na proporção de nossas possibilidades... Quando nos "somamos" a quem está sozinho e já perdeu a esperança!

É Natal, enfim, quando "multiplicamos", não os bens materiais, mas os bons sentimentos dentro de nós, a semente da solidariedade, o amor ao próximo, a crença de que é possível um mundo menos desigual e mais humano, mais livre, mais fraterno, em sua dimensão maior e mais profunda!

É Natal quando aplacamos o ódio! Quando perdoamos!

Eis que chega o Natal! Aquele que é, em sua essência, menos festa e mais fraternidade; menos luzes de decoração e mais compreensão; menos enfeites na parede, menos avelãs e figos, frutas e doces cristalizados à mesa...

Pois que é Natal, verdadeiramente, quando nos alimentamos de amor no coração!

Que, neste Natal, possamos de uma vez por todas, com utopia ou sem ela, compreender o que realmente importa, muito para além das árvores enevoadas artificialmente, das luzes piscantes, das bolinhas coloridas a nos encher os olhos --- das crianças e dos homens... Muito mais que a roupa cara, o sapato novo, a joia rara...

É Natal!

Nasce um menino! O mais pobre, o mais simples! Nasce o Menino-Jesus!

E sua morada, um dia, que não sabemos quando, haverá de ser o coração do homem!

 

P.S. Aos leitores e leitoras, gratidão! E votos de boas-festas!

 

 

 

 

 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Natal no Coração

Em 2016, quando ganhou o Nobel de Literatura, não foram leves (muito menos embasadas) as vozes que se levantaram mundo afora contra a premiação. Afinal, Bob Dylan era um nome da música pop internacional contemporânea. Como não se tratasse do poeta de rara sensibilidade e dotado de pleno domínio da carpintaria poemática.

Sete anos depois, ao lado de sua produção musical invariavelmente fértil ao longo desse período, Dylan volta em livro magnífico sobre a música inglesa e americana, notadamente aquela que embalou corações do mundo inteiro nos trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Trata-se do belíssimo "A Filosofia da Música Moderna", que chega aos brasileiros pela Companhia das Letras. Fartamente ilustrado com fotografias e vazado numa linguagem sob qualquer aspecto rebuscada, e talvez por isso mesmo envolvente e agradável de ler, o livro nasce clássico e se coloca entre os maiores lançamentos do ano.

Como nos versos de Walt Whitman, que o próprio Dylan cantou à perfeição, desenha-se diante do leitor o ser dialético que o bom conhecedor de poesia tanto ama: "Me contradigo?/Tudo bem, então me contradigo,/Sou vasto, contenho multidões".

O comentário, que faz parte de um projeto despretensioso de incentivo à leitura (e fomento à fruição artística), e que tem sempre merecido a melhor atenção do público, em sua totalidade interessado em ficar em dia com a produção cultural do país e do mundo, suscitou muitas mensagens de acolhida, por e-mail e WhatsApp, sobretudo. Para muita gente, além dos textos do blog (alderteixeira.blogspot.com.br) e do jornal Segunda Opinião, esse projeto vem se constituindo num estímulo à cultura: literatura, música e cinema à frente.

É esta a razão por que chega a minha vez de agradecer a todos. Ao fazê-lo, gostaria de frisar o interesse demonstrado sobre o artista americano, compreensivelmente pouco conhecido da maioria das pessoas que se manifestaram sobre o comentário em pauta. Natural, uma vez que, afora os verdadeiros entusiastas da música pop, Dylan não alcançou entre nós o prestígio, digamos, dos Beatles ou mesmo de Elvis Presley, para destacar os maiores. É claro que me refiro ao grande público, a quem o acesso à obra de Bob Dylan só mais recentemente se tornou possível. Muitas dessas mensagens, por exemplo, sugerem que volte a falar sobre o Dylan-poeta, como a revelar, inconscientemente, algum preconceito em face de sua premiação pela academia sueca.

Nada surpreendente. Ocorreu o mesmo, entre nós, a Gilberto Gil quando de sua indicação para a ABL. É que existe de fato certa dificuldade do público em compreender que os critérios de avaliação são diferentes para o que se convencionou chamar de "letra" na perspectiva da poesia "de papel"*: nesta, é fácil estabelecer como se estruturam os versos, como estão escandidos, que notação rítmica pretende o autor na composição do poema, enquanto naquela esses critérios obedecem à forma como os versos são cantados, como soam ao sabor de entoações que ressaltam os efeitos rítmicos, sonoros --- a musicalidade propriamente dita.

O que importa, contudo, a fim de que se evitem julgamentos apressados e desprovidos de embasamento teórico, é pontuar que numa e noutra, isto é, na poesia da letra e na poesia "de papel", a verdadeira força estética reside no sentido, na mensagem, ainda que literatura seja antes de tudo "forma". Mas esta, ressalte-se, nunca se desprende do conteúdo. Não existe forma sem conteúdo, mesmo na pintura abstrata, na música erudita, nas edificações arquitetônicas, na poesia concreta, no espetáculo de dança, nas instalações e nas performances corporais. Se é linguagem, é sentido, é expressão de ideia, de sentimento, de emoção, de percepções de mundo etc.

E é sob aspecto, por último, que, em relação a Bob Dylan, cometem-se as mais equivocadas avaliações, como se suas letras não estivessem carregadas de imagens poéticas desconcertantes, mesmo quando constituem narrativas, discursos sobre a realidade política, as subjetivações de toda ordem, o amor, a perda, a saudade e o sonho. Não sem razão, pois, é que algumas dessas letras --- ocorre-me lembrar de "Talking New York" (O Assunto é Nova York) --- parecem ser faladas e não cantadas, mesmo em disco.

Sobre a sua poesia, a sua literatura, no entanto, voltarei a falar depois, não sem antes aproveitar para desejar a todos os leitores um Feliz Natal. A propósito, é oportuno lembrar que fez um disco dedicado por inteiro à data, cuja venda foi totalmente doada a pessoas pobres: "Christmas in the Heart" (2009), é como se intitula.

Dylan tem bom coração.

 

*O termo foi criado pelo pesquisador e poeta Álvaro Faleiro, da USP.  

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Aqui se faz, aqui se paga

Mudam de céu, não de alma, os que correm para além do mar, Horácio, 65-8 a.C.

Foram necessários poucos anos para dar-se a ver a face implacável dos deuses. O herói de ontem, justiceiro aos olhos de turbas endiabradas do nacionalismo mais reles, cai por terra, enlameado pelas falcatruas que protagonizou; o "ex-presidiário", objeto de suas desenfreadas perseguições movidas a ódio e infâmia, é presidente do Brasil; e, ironia do destino, o ex-presidente que ajudou a eleger-se, caminha a passos largos para se tornar "presidiário", finalmente condenado, por viés indireto, pelos mais de duzentos mil mortos por falta de vacina (aos quais, perverso, imitava morrendo sem ar nos pulmões). Agora enreda-se em correntes de joias subtraídas ao patrimônio público.

Desmoralizado aos olhos de um país inteiro, à parte os três ou quatro gatos pingados que o aplaudem ainda, indiferentes às evidências de sua desfaçatez, Sergio Moro é alvo do próprio canibalismo de que se alimentou com a carne dos injustiçados, marcados a ferro e fogo por sua ira pautada em "convicções" sem provas.

Como cachorro caído de carroça de mudanças, tropeça perdido em busca da salvação para seu mandato, calcado a custo elevado de corrupção e apoios inconfessáveis.

Tal qual o canino infeliz do parágrafo acima, não sabe onde está a casa antiga, tampouco imagina onde fica a nova. Um passo mais, é-lhe o precipício.

Enquadrado em close up durante sabatina no Senado, quase a beijar Flávio Dino, e agarrando-se a ele como um náufrago à tábua de salvação, vota às escondidas, sem coragem para revelar o que decide, mesmo para o irmão-siamês, ex-procurador e ex-deputado Deltan Dalanhol, "desesperado" em face do resultado da votação que levaria o indicado do presidente Lula ao STF.

A exemplo das trocas de mensagens carregadas de sordidez, com que tramava com procuradores a condenação de Lula, expõe mais uma vez, desavisado e tolo, o que teclava com os poucos amigos que lhe restam hoje.

Em resposta a uma dessas mensagens, pode-se ver na imprensa, lê com apreensão o que o aguarda: "Amigo, pela estratégia relatada, aparentemente, não há o que ser dito. Eu disse ao Deltan que você sabe o que faz e estarei ao seu lado sempre...". Esperemos o próximo capítulo do dramalhão.

Acorrentado à sujeira de suas asquerosas pretensões, vê-se alvo do fundamentalismo odiento dos bolsonaristas nas redes sociais, inconformados com seu desempenho à luz plena dos holofotes da tevê, e com o desfecho trágico que se anuncia para o mito e seus apaniguados, os destruidores da coisa pública e o ideário neo-fascista de que se nutriram nesses muitos anos.

Incomodado já no transcorrer da sabatina com o que define como "uma celeuma nas redes sociais", Moro tenta, em vão, esquecer seu próprio entusiasmo quando as mesmas redes sociais que o espezinham hoje, erigiam-no, boneco inflado, como o novo herói da Nação.

Quando se juntou à boiada, faz pouco tempo, Sergio Moro não mediu esforços nem expediente para fazê-lo, jogou a toga negra para dedicar-se ao projeto fascinoroso, ajudando, como ficou dito, a eleger o mito que agora o canibaliza --- e jactando-se justiceiro da gentalha.

Cuspindo à direita e à esquerda, à sombra do abandono, como um lagarto sedento, queda politicamente morto. E é indefensável como homem.   

 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

La Divina

É provável que muitos dos leitores desta coluna não gostem de ópera, mesmo quando faço esta referência, não ao espetáculo propriamente dito, mas à música, ao canto operístico a que se pode ter acesso com facilidade, independentemente da região em que se vive, em diferentes mídias. Poucos, no entanto, haverão de ignorar o nome da soprano nova-iorquina Maria Callas.

Dona de uma voz inconfundível, com uma extensão aguda que a notabiliza como intérprete de grandes clássicos do gênero, Maria Sophia Cecília Anna Kalogeropoulos, seu verdadeiro nome, nasceu em Nova Yorque, Estados Unidos, há exatos cem anos.

Dotada de uma beleza um tanto exótica, lábios carnudos, queixo fino e cabelos pretos que lhe conferiam uma identidade marcante, Maria Callas é nome que extrapola os limites meramente artísticos, no que se sabe foi inigualável, muito pelos traços de sua personalidade transgressora e mais ainda pelos casos passionais em que esteve envolvida, a exemplo de sua conturbada relação extraconjugal com o magnata Aristóteles Onassis.

No caso, é conhecida a história: no verão de 1959, ao lado do marido, Callas embarcaria no iate do bilionário grego, também ele acompanhado da mulher, Athina Livanos. Na viagem, a soprano revelaria ao marido sua incontrolada paixão por Onassis, com quem passaria a viver uma tórrida relação amorosa, até o dia em que este a trocaria por ninguém menos que Jacqueline Kennedy, a ex-primeira dama dos Estados Unidos, com quem se casou. Para não falar do amor não-correspondido pelo cineasta homossexual Luchino Visconti.

Foi na vida artística, no entanto, que Maria Callas conquistou o prestígio que a imortalizaria, protagonizando uma das maiores revoluções estéticas nos palcos da grande ópera. Isto porque, desde os primórdios, a ópera era venerada enquanto gênero predominantemente musical, pouco destacando-se como espetáculo dramático.

Comenta-se, sob este aspecto, que o público habitualmente mantinha os olhos fechados durante as apresentações, como a tentar concentrar os sentidos na audição do canto. Callas associa à interpretação vocal, no que foi absolutamente genial, sua forte presença física no palco, elevando a ópera à condição de tragédia, de espetáculo teatral, para o que terá sido decisivo o paroxismo de sua própria vida, também ela sob muitos aspectos marcada pela hybris (arrogância ou orgulho funesto) recorrentes na linguagem operística da Antiguidade.

Pelo sim, pelo não, o melhor é sopesar esse registro como mera especulação, leve-se em conta o fato de que a ópera é uma arte para a qual convergem as mais diferentes estéticas, com destaque para a música, a dança e o teatro.

Seja como for, esta é a arte em que a soprano Maria Callas sempre sobressaiu, mas é de sua voz que vem o brilho de uma verdadeira deusa. Não à toa, tornar-se-ia conhecida como "La Divina".

À sua vocação dramática, contudo, de contornos quase místicos, deve-se atribuir muito do seu enorme talento e do reconhecimento de sua arte sublime, a que se prendem, por certo,  alguns "toques" da cantora-atriz instantes antes de adentrar o espaço cênico, como o costume de ajoelhar-se e esmurrar o chão para invocar a ajuda dos deuses.

Além desses atributos, força vocal, extensão, resistência, virtuosismo e vocação trágica, sobressaem na figura de Maria Callas um nítido sentimento de realidade dramática e uma coerência estilística poucas vezes vistos num só intérprete.

É emblemático, sob este aspecto, sua atuação como Norma, a esférica personagem da ópera homônima de Bellini, felizmente acessível ao grande público em DVD e nos canais de streaming.

Sem esquecer o único filme em que atuou, emblematicamente bem, diga-se em tempo, no papel de "Medéia", na releitura do clássico de Eurípedes para o cinema, por Pier Paolo Pasolini.

Aos curiosos sobre a arte de Maria Callas --- ou verdadeiros amantes ---, além do Youtube, pode-se escutar no Spotify o recém disponibilizado "100 Best Maria Callas – Her Hundred Greatest Classics", 2023.

Imperdível.

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Poeta da memória

Com a morte do diplomata Alberto da Costa e Silva, membro da ABL, perdeu o Brasil um dos seus intelectuais mais completos. Autor de livros que não podem faltar na estante de qualquer estudioso da formação do país, a exemplo de "A Enxada e a Lança" (1992) e " A Manilha e o Libambo" (2002), pelo que trazem da presença africana em diferentes vertentes e realidades geográficas (Saara, Mediterrâneo, Atlântico e Índico), com indispensáveis registros do trabalho negro escravizado desde o Egito, passando pela Grécia, Império Romano, Índia, China e toda a extensão oceânica da Europa, Alberto da Costa e Silva não encontra parâmetro, no Brasil, entre aqueles que se dedicaram a estudar a África e os africanos. Trata-se de livros clássicos, no sentido mais exigente do ponto de vista acadêmico, muito embora vazados em linguagem elegante, enxuta, aqui e além emocional, e envolvente.

Mesmo uma resenha rápida dessas obras, no entanto, na linha do que tenho feito com frequência, exigiriam espaço e dedicação maiores do que me permite uma coluna de jornal, razão por que me lanço a comentar o que o próprio Alberto da Costa e Silva define como "ficções da memória", isto é, os livros "Espelho do Príncipe" (1994) e "Invenção do Desenho" (2011), belíssimos exemplos do mais refinado memorialismo em língua portuguesa.

Nascido em São Paulo em 1931, Alberto da Costa e Silva passou a infância em Fortaleza, só mais tarde, início da juventude, transferindo-se para o Rio de Janeiro. Se é na capital fluminense que se inicia na atividade literária, com a publicação do seu primeiro livro, "O Parque e Outros Poemas", foi de sua infância na capital do estado do Ceará que o futuro historiador, poeta e diplomata extraiu a matéria prima de seu memorialismo emocional e singularmente poético, primeiro passo de uma volta ao passado no Brasil e em diferentes países em que atuou em ações diplomáticas: Portugal, Angola, Etiópia e Costa do Marfim, fixando-se depois em Caracas, Washington e Madri.

Em se tratando de um escritor de tamanha sensibilidade estética, urge ressaltar que o memorialismo de Alberto da Costa e Silva confunde-se mesmo com a vocação do poeta, alastrando-se por entre as páginas de sua autobiografia com a leveza de imagens que se formam, na medida em que o menino vai se tornando homem, com a mesma porção de verdade e incontida capacidade de invenção. Não à toa, insisto, é que o autor subintitula ambos os livros de "ficções da memória", como a assumir-se, à maneira de Fernando Pessoa, como um fingidor "que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente". Mas até nisso, redimensionando a força de suas recordações, vê-se o depurado da costura narrativa, como na passagem em que, voltando de Campos do Jordão, onde se tratava de uma tuberculose, dirige-se à Lúcia Teresa como em despedida: "Como lhe falasse do modo mais oblíquo possível, ela entendeu que dela me despedia para sempre, mas não que eu estava lentamente a morrer. E se pôs linda contra o dia que findava, a luz serena a emendar com a paisagem o seu vestido estampado com minúsculas florinhas. Olhei para o chão, amarfanhado por dentro: ela calçava sandálias brancas de saltinho."

E na sequência, mais que o prosador de fino trato, é o poeta que salta aos olhos do leitor, terno, doce, e, no entanto, alguma coisa estóico, a enfrentar a realidade: "Ao levantar a cabeça, senti que estávamos ambos feridos: o punhal, em vez de cabo e lâmina, tinha duas pontas. Estávamos ali, sem coragem para nos tomarmos pelas mãos, num jardim que se fizera inteiramente branco. De súbito, não havia mais nada em derredor, nem rua, nem prédios, nem árvores. Éramos duas figuras sombreadas na alvura de uma folha de papel. E foi dessa ausência de paisagem, enquanto a minha mesquinhez se voltava numa tristeza mansa, que ela se afastou, a se fingir firme e serena" (Invenção do Desenho, Nova Fronteira, 2011, p. 87).

Ao morrer, é tanta a influência que exerceu sobre intelectuais brasileiros, que não é muito afirmar que Alberto da Costa e Silva, assim como seguidores fiéis em diferentes correntes da nossa melhor historiografia, deixa órfã toda uma geração de pesquisadores da questão racial no Brasil. Sob este aspecto, pois, é que me ocorrem as palavras que me escreveu, de São Paulo, a historiadora Lilia Schwarcz: "Ele era muito especial. Meu pai, meu mestre."

      

 

 

 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Entre a apatia e a cordialidade

No belíssimo filme "Flores Raras" (2013), de Bruno Barreto, há uma sequência carregada de significado político: Elizabeth Bishop ouve rádio no apartamento da arquiteta brasileira (e sua companheira passional) Lota Macedo Soares, quando o noticiário anuncia a eclosão do golpe de Estado de 1964.

A poeta americana levanta-se e vai à janela do apartamento na curiosidade de acompanhar o que acontece na avenida Atlântica, à beira-mar de Copacabana, e o que vê são rapazes jogando futebol, indiferentes ao que se passa no país. A câmera fecha num close up: Bishop parece não acreditar no que seus olhos veem: "Que país é este em que ocorre um golpe de Estado e as pessoas vão à praia jogar futebol?".

A sequência, como deve ser em se tratando da grande arte, é sutil, sem acréscimos desnecessários, sem arroubos de cunho ideológico, mas nos faz pensar sobre a passividade de um povo que se mostra historicamente indiferente aos problemas que ocorrem à sua frente.

Extremamente bem conduzida do ponto de vista cinematográfico, foi essa sequência que me veio à memória na meia hora antes do jogo entre as seleções do Brasil e da Argentina, quando, num setor da arquibancada do Maracanã, a polícia espancava covardemente torcedores do time visitante.

Enquanto os jogadores argentinos, liderados pelo craque Messi, agarravam-se aos alambrados, numa manifestação de apoio à sua torcida e veemente protesto contra os atos de violência dos policiais do Rio de Janeiro, como que alheios ao que se passava ali, os jogadores brasileiros se divertiam no centro do gramado com a "rodinha do bobo", aquela em que um grupo forma um círculo e um ou dois deles ficam no centro na tentativa de tocar a bola.

Jogo iniciado, a diferença de perfil psicológico dava-se a ver: a seleção brasileira mostrava-se apática, acomodada, sem capacidade de furar o bloqueio defensivo dos argentinos. Esses, por sua vez, embora visivelmente afetados pelos fatos ocorridos, o que lhes parecia  multiplicar as forças, combatiam aguerridamente, sangravam, literalmente, nas disputas da bola; faziam, como vulgarmente se diz, "das tripas coração", tiravam leite de pedras, até que obtivessem o gol isolado que lhes garantiu a vitória e a retomada da liderança nos jogos das Eliminatórias de 2026.

Daí em diante, o que se viu foi mais empenho e vigor dos jogadores argentinos, mais apatia e falta de ânimo dos brasileiros. A cara de bebê chorão de Gabriel Jesus, cada vez que lhe roubavam a bola, era a metáfora do que se podia ver em campo.

Quarto jogo sem vencer, três derrotas consecutivas, sétima posição na tabela de classificação, e, não fosse desavergonhadamente generoso o regulamento, a desclassificação inédita para uma Copa do Mundo.

Há coisa de muitos anos, durante os jogos mundiais de seleções, uma jornalista fazia a brasileiros e franceses a mesma pergunta: "Se a Copa for decidida nos pênaltis, o que lhe passaria pela cabeça antes de chutar a bola?"

As respostas, racionais ou tolas, diziam bem sobre o que discorro na coluna de hoje.

Tomados de saudosismo e passionalidade, os jogadores brasileiros, sem exceção, referiam-se aos pais, aos avós, às namoradas, noivas, esposas, filhos etc. --- os olhos fixados na bola que teriam de chutar a fim de marcar os gols.

Por sua vez, os franceses, em sua quase totalidade, respondiam que apenas deviam ter em mente a consciência de que teriam de fazer os gols.

Coisas do futebol, dirão.

 

 

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

A 200 metros

Num momento em que se usam eufemismos os mais cínicos para edulcorar o que faz o Estado sionista a milhares de civis, mulheres e crianças, perversamente destroçados na Faixa de Gaza, a pretexto de conter o terrorismo do Hamas, só mesmo a arte pode deitar luz sobre o que, em essência, é a mais definitiva ação de limpeza étnica levada a efeito por Israel.

Não há uma guerra contra o Hamas, forma desonesta de tentar esconder o que de fato vem ocorrendo na Faixa de Gaza. Não há uma (re)ação de autodefesa, tampouco o enfrentamento de forças equivalentes em motivações e verdades. O que existe é o confronto entre um Estado racista e colonial contra um povo que luta por libertação, direito à terra em que vive, à cultura pela qual se conduz sua sociedade, pela preservação de sua identidade e sua língua.

A solução, todos sabem, mesmo aqueles que estão empenhados em justificar o injustificável, é a formação do Estado palestino, com o reconhecimento de seus direitos como território autônomo e verdadeiramente livre.

Não há outro caminho, não existem outras alternativas de ação.

Contudo, não é esta a minha matéria, não é este o campo de debate a que tenho me dedicado diuturnamente, mas não há silêncio honesto em se tratando do massacre a que estão submetidos os palestinos na Faixa de Gaza, fruto da ganância expansionista de Israel e da política de extrema direita do governo de Netanyahu.

Mas é sobre arte que gostaria de falar, e o farei aqui.

Disponível na Netflix o delicadíssimo "A 200 metros", filme que concorreu ao Oscar 2020 como representante da Jordânia. A trama gira em torno das dificuldades de um pai para ter acesso ao filho, hospitalizado em decorrência de um atropelamento.

Mustafa (interpretado à perfeição por Ali Suliman), como se chama, vive na Cisjordânia, a mulher e os filhos em Israel. Suas casas estão separadas, pelo muro, a uma distância de 200 metros. É sob essa atmosfera emocional, na qual se alternam momentos de ternura e tensão claustrofóbica, que o cineasta estreante Ameen Nayfeh, que também assina o roteiro, explora esteticamente a matéria com que realizou uma pequena obra-prima do cinema contemporâneo. Trata-se, pois, de um filme temático, com sutis intervenções críticas sobre a realidade vivida pelos palestinos na fronteira com Israel. Essa sutileza, a revelar a sensibilidade do artista estreante, confere ao filme, enquanto obra de arte, uma dignidade que se sobrepõe a qualquer intenção meramente política.

O filme, assim, transcorre com equilíbrio e ritmo adequado, e as soluções de linguagem encontradas pelo diretor extrapolam o corriqueiro em narrativas do gênero. Tudo é muito simples, mas nunca simplório, e a beleza do filme se dá a ver sem que a sua densidade dramática perca destaque.

Se é verdade que a motivação central da obra é o problema geopolítico, que traz à pauta uma discussão muitíssimo atual, não é menos verdade o que se passa em termos artísticos diante do espectador: as imagens são compostas com apuro visual tamanho, que mesmo as sequências mais violentas observam critérios formais elegantes  --- os movimentos e angulações de câmera são perfeitos, o quadro bem definido, e os recursos de iluminação e som usados em absoluta sintonia com o que ocorre às personagens.

O que poderia ser um filme "panfletário", assumidamente enfático em apoio à causa palestina, é antes uma obra construída em bases narrativas de elevado padrão estético, e o resultado final da produção agrada mesmo àqueles que veem em perspectiva tortuosa o que vem acontecendo hoje no Oriente Médio.

As sequências mais tensas, pontuadas pelos conflitos culturais entre as personagens envolvidas, são exemplo da fina compreensão do que é essencial do ponto de vista cinematográfico, lembrando em muito os belos filmes de Abbas Kiarostami: passam-se dentro de uma vã, e é nesse espaço exíguo que se depara com a discussão mais aguda dos problemas regionais. Não é muito dizer que a essa altura da narração fílmica a obra ganha intensidade dramática, e os conflitos entre israelenses e palestinos colocam-se com clareza aos olhos do espectador. Mas são as estratégias narrativas que ditam o discurso fílmico, dando realce no percurso da fábula ao que existe de simbólico e sugestivo: a câmera desenha o perfil psicológico de cada um. Não há lágrimas, emoções gratuitas, sentimentalismos vãos. Sob medida, o que se vê é a denúncia do lado monstruoso do mundo, e o muro da incomunicabilidade entre os homens.

Ao fim e ao cabo, assistir ao filme de estreia de Ameen Nayfeh é uma experiência agradável, ainda que o seu leitmotiv sustente-se em um tema historicamente pesado e por diferentes perspectivas inquietante, sobretudo agora, quando está em curso um confronto que prende, tortura e mata com requintes de crueldade poucas vezes constatados ao longo da grande História.

Não deixe de ver.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Marinheiro das Montanhas

Há algum tempo escrevi neste espaço sobre o romance inacabado "O Primeiro Homem", de Albert Camus. Os manuscritos do livro haviam sido encontrados numa pasta de couro conduzida pelo escritor francês quando do acidente de carro que o matou em inícios dos anos sessenta. Um relato em que se misturam, em linguagem elegante e escorreita, ficção e memória, mais memória que ficção.

Camus, depois de adulto, cumprindo uma promessa feita à mãe, viaja à Argélia em busca de suas raízes familiares e da presença em sua vida do pai com quem jamais convivera. A passagem da narrativa em que descreve sua visita ao túmulo do pai, em cuja lápide pode ler seu nome e a data de falecimento, é algo inesquecível, pela beleza da descrição e relato da profunda emoção que invade seu coração, em que pese a serenidade com que, mentalmente, faz as contas a fim de concluir com que idade falecera: "... 29 anos. O homem que ali estava, e que fora meu pai, poderia ser meu filho" (cito de cor).

O livro de Camus me veio à mente ontem ao assistir ao belo documentário "Marinheiro das Montanhas", do cineasta Karim Ainöuz, filmado em 2021 e só agora disponibilizado ao público brasileiro pela Globonews.

Trata-se de um filme extremamente bem cuidado do ponto de vista estético, em que pese a forma aparentemente desleixada como Ainöuz trabalha os elementos narrativos da obra --- câmera na mão, não raro manuseada com certo nervosismo nas escolhas de ângulos e enquadramentos, no uso da luz e, notadamente, na voz over do próprio realizador, aqui e além trêmula e aparentemente insegura. As falas são improvisadas, pautadas por um ritmo irregular e invariavelmente informal, como se o narrador estivesse se dirigindo a sua mãe, Iracema, morta há bastante tempo.

A técnica narrativa é a mesma de "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te amo" (2009), em que um homem em viagem pelo Nordeste lê uma carta dirigida à sua amada. É quase isso que se pode ver em "Marinheiro das Montanhas", com a diferença de que agora esse homem é o próprio Karim Ainöuz, que viaja à Argélia para conhecer, a exemplo de Camus, a terra de seu pai, com quem não pôde conviver: Majid, o pai de Ainöuz, conheceu Iracema à época em que esta morava nos Estados Unidos para realizar estudos de pós-graduação em biologia. O relacionamento foi passageiro, inconstante, febril, mas foi dele que nasceu o cineasta cearense.

É curiosa a forma como o diretor (e operador de câmera) conduz o filme numa experiência de filmagem que aproxima o processo do conteúdo, expressando o pulsar da emoção no ritmo da narrativa, os tremores da imagem à intenção da ideia, a instabilidade do mar, dentro do navio que transporta o narrador do filme, às inquietações do pensamento. Sob este aspecto, registre-se o fato bem-sucedido de Karim Ainöuz tornar explícitas suas posições políticas diante da realidade difícil e pungente do país pós-golpe de 1964, mesma época em que Argel, a capital argelina, era palco das lutas sangrentas pela independência do país, então colônia francesa.

É quando o filme ganha em poesia, a voz de Karim, dirigindo-se à mãe, interlocutora imaginária, na tentativa de saber o que representou para ela a separação, a ausência do companheiro que amaria pelo resto da vida. São perguntas jamais feitas à Iracema pessoalmente, e para as quais o menino "proustiano" busca as respostas que jamais virão.

Aqui e além, em fotos ou filmes domésticos mal preservados, o espectador depara com momentos de felicidade do casal. À dada altura, o encontro de pai e filho, quando Majid mora em Paris, onde casou outra vez e teve cinco filhos. Majid é apenas um homem, como qualquer outro.

As sequências filmadas nas montanhas da Cabília, onde Karim encontra familiares e vive com eles experiências as mais curiosas, é momento alto do documentário. As excentricidades dos parentes, a cultura local, a humildade do ambiente, a cordialidade das pessoas para com Ainöuz, em meio ao cenário exótico da região montanhosa, é algo que não se pode dizer com palavras.

É preciso assistir ao filme para compreendê-lo em sua intensidade poética --- e desfrutar de sua beleza plástica exuberante. Um filme belo, sensível, tocante. Recomendo.

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

O Dostoiévski político --- duas palavras

"Pobreza não é defeito, e isto é uma verdade. [...] Mas a miséria, meu caro senhor, a miséria é defeito. [...] Por estar na miséria um indivíduo não é expulso a pauladas, mas varrido do convívio humano a vassouradas."

                                                      (Marmieládov, em "Crime e castigo")

 

Quando das comemorações dos duzentos anos de Dostoiévski, em 2022, tive a honra de proferir palestras, entrevistas e participar de lives que tinham como objeto da atenção, vida e obra do inigualável escritor russo. Em duas dessas ocasiões, que quero aqui destacar, as entrevistas do escritor e editor Clauder Arcanjo e do intelectual Tárik Cordas, vez e outra tive de discorrer sobre o caráter político da obra de Dostoiévski, o que, curiosamente, mereceu, no amplo debate mundo afora, evidente curiosidade.

Afinal, do ponto de vista ideológico, o que estaria por trás dos contos e romances do escritor? Que visada é possível perceber na forma como Dostoiévski trata o problema social no contexto de uma Rússia marcada por fortes conflitos nas relações de produção da época? Em que medida se deve "ler" a realidade do país a partir dos "humilhados e ofendidos" que povoam seus contos e romances? Até que ponto é adequado compreender o debate que propõe (ou a denúncia que articula) sob o olhar angustiado do "homem do subsolo" e do "homem do universo" (O Idiota), que constituem a base de pensamento e reflexão de suas narrativas carregadas de tensão e humanismo? Enfim, o que pensava politicamente o autor de "Crime e castigo"?

A propósito, é mesmo nesse romance extraordinário, publicado em 1866, ambientado em plena Rússia pós-reforma, que se pode deparar com a mais inconteste manifestação política de Dostoiévski, e no qual a narrativa estrutura-se com nítidas intenções de expor as mazelas do capitalismo em sua fase embrionária.

Não é muito dizer, como afirmei durante esses debates, que "Crime e castigo", ao lado de ser uma obra monumental sobre o destino da humanidade, tecido a partir do drama existencial e filosófico do protagonista, Raskólnikov, é um romance sobre o capitalismo russo, e, por extensão, sobre o capitalismo em todos os países, uma vez que sua extensão de significados é a mesma, ontem, hoje e até quando esse modelo de sociedade continuar existindo em esfera dominante da economia mundial.

Como todo grande livro, "Crime e castigo" oferece ao leitor diferentes planos de compreensão. O primeiro, mais clarificado enquanto tessitura narrativa (em se tratando de Dostoiévski é recomendável que se evite a palavra "explícito"), depara-se com o problema do assassinato de duas mulheres por um jovem estudante universitário, e os desdobramentos de natureza psiquiátrica que o fato implica: já sob esse aspecto é magistral a sondagem da alma humana, seus conflitos individuais, o inferno de sua existência a expor os demônios interiores do homem. Ninguém, nenhum outro escritor, sob este ângulo, nem mesmo Shakespeare, grande analista da dúvida e do devaneio, foi tão fundo na abordagem filosófica do crime, o ser ou não ser que expõe as entranhas apodrecidas do "eu" em face de sua mais absoluta contradição.

Mas que outro lado da dimensão significativa do texto existe a desafiar seu leitor? A essa altura, é preciso passar de um plano de leitura a outro, desvendando o que representam as personagens centrais do romance, o que carregam de simbólico em sua elaboração como seres nascidos da imaginação do escritor: a velha usurária Aliena Ivánovna, Piotr Pietróvitch Lújin, noivo da irmã de Raskólnikov, e o próprio Raskólnikov, em torno de cuja figura orbitam as demais personagens de "Crime e castigo".

Aliena Ivánovna, mais que a mulher assassinada, fato que permeia o drama existencial do assassino, num primeiro plano de leitura, é, no segundo, ao lado de Lújin, o elemento de que se vale o autor do romance para elevar às alturas sua denúncia dos males do capitalismo vigente, a deformidade moral por que se move, o "parasitismo" dos que enriquecem à custa da miséria alheia.

O capitalismo explorado como pano de fundo do romance, como se vê, é o da essência desse modelo de sociedade assentado na lógica do enriquecimento fácil, da exploração do homem pelo homem, na agiotagem da velha Aliena Ivánovna, cujas consequências espalham-se como bactérias num corpo infectado. A especulação e a rapinagem capitalistas, como evidencia Nikolai Tchirkóv, em livro notável sobre o estilo de Dostoiévski*, apoderam-se das pessoas pobres, contaminando-as de forma indelével e inevitável. Nesse sentido, é luminosa a descrição do cenário em que coexistem exploradores e explorados, estes mais que aqueles, comerciantes de ruas, taberneiros, vendedores de bugigangas, mercadorias de pouco valor, "essa rapinagem miúda" que faz o leitor brasileiro lembrar os romances de um Aluisio Azevedo ou de um Émile Zola.

Da primeira à última página, assim, "Crime e castigo" é um romance em que se confundem, com as tintas da genialidade, o mais profundo exame da psicologia humana, e a destemida denúncia social, a que se soma uma poderosa capacidade de construção de diálogo, tomando-se o termo em seu sentido de técnica narrativa, de vozes que se contrapõem, na construção do que se convencionou chamar de romance polifônico, desde os trabalhos definitivos de Mikhail Bakhtin no campo do marxismo e filosofia da linguagem. Talvez aí resida um vazio a ser preenchido, um estudo que examine o elemento teatral da obra de ficção de Dostoiévski e as forças de estilo que gravitam o componente central de sua estética desconcertante --- e genial.

Mas a visão política de Dostoiévski, supostamente com a exceção do romance "Os Demônios", cujas bases filosóficas extrapolam a discussão ideológica, reflete a irredutível defesa do homem em face de todo e qualquer tipo de exploração. Capitalista, inclusive.

 

*O Estilo de Dostoiévski, Editora 34, 2002.

 

 

    

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Como escrever bem, o debate

Gastei uma hora/pensando um verso/que a pena não quer escrever./No entanto ele está cá dentro/inquieto, vivo,/e não quer sair./Mas a poesia deste momento/inunda minha vida inteira.      (Carlos Drummond de Andrade)

Nas últimas semanas, estabeleceu-se através da imprensa (jornal Folha de S. Paulo à frente) um curioso debate: "Como escrever bem?" O assunto foi objeto de excelentes artigos, nomeadamente os do colunista Sérgio Rodrigues, um craque em se tratando da produção de textos em que sobressaem algumas das principais qualidades da boa escrita: coerência, coesão e concisão. Além de outras qualidades que são adquiridas no próprio exercício da escrita, algumas delas decorrentes do contínuo hábito da leitura, da vivência diuturna com os bons autores, sem esquecer, claro, que, a exemplo do que ocorre em todos os campos da atividade criativa, escrever bem, em alguma medida, tem sempre um pouco da personalidade do próprio escritor, tomando-se a palavra aqui em seu sentido mais geral, ou seja, aquele que escreve, independentemente das motivações pelas quais o faz.

Em livro clássico, "Como se faz uma tese", Umberto Eco (notável exemplo do bom escritor), recomenda: "Não imite Proust. Nada de períodos longos. Se ocorrerem, registre-os, mas depois desmembre-os. Não receie repetir duas vezes o sujeito. Elimine o excesso de pronomes e subordinadas."

O escritor italiano, como deixa evidenciado, refere-se a Proust não para exaltar as qualidades do romancista francês naquilo que sugere ser ele inimitável: o fôlego para discorrer em períodos "quilométricos" sobre a vida de Marcel, o protagonista do seu inigualável "Em busca do tempo perdido" (sete volumes) e das mais de cem outras personagens do seu livro monumental. Numa palavra: "Não ouse ser como Marcel Proust".

Há poucos anos, um livro sobre a matéria estourou no mercado livreiro do mundo inteiro, conquistando o interesse de pretensos escritores, jornalistas, advogados e muitos outros profissionais que lidam com a produção de textos, como se se tratasse de um livro de receitas da boa escrita.

"Como escrever bem", era o título, do jornalista norte-americano William Zinsser. Já nas primeiras páginas, o autor diz: "O excesso é o mal da escrita americana. [...] Somos uma sociedade sufocada por palavras desnecessárias, construções circulares, afetações pomposas e jargões sem nenhum sentido." Como se vê, Zinsser ecoa Umberto Eco quando trata daquela que lhe parece ser a maior qualidade do bom escritor: a capacidade de dizer o que deseja em texto econômico, sucinto, evitando floreios e rebuscamentos que pouco ou nada acrescentam às ideias traduzidas em palavras. Bingo.

Entre os grandes escritores brasileiros, é conhecido o caso do alagoano Graciliano Ramos, cuja prosa, enxuta, descarnada, desprovida de artifícios desnecessários, calcada em substantivos secos e precisos, talvez seja o exemplo mais irretocável da melhor escrita. Sob este aspecto, ouso afirmar, nada em língua portuguesa se deve comparar aos romances "Vidas Secas" (1938) e "São Bernardo" (1934), absolutos em concisão, clareza, objetividade e perfeito domínio da linguagem. Tudo, devo ressaltar, sem qualquer prejuízo em termos estéticos, pois que se trata de literatura em seu sentido pleno, dotada de originalidade estilística e beleza plástica exemplarmente sedutora.

É improvável que William Zinsser tenha lido o escritor brasileiro, mas estou certo de que, se o tivesse feito, haveria de tomá-lo como modelo do que afirma em seu livro de forma conclusiva: "[...] o segredo da boa escrita é despir cada frase e deixá-la apenas com seus componentes essenciais."

A coisa, contudo, não é tão simples o quanto parece ser. Como o próprio debate a que me refiro no primeiro parágrafo dá a ver, existem outras possibilidades, outros caminhos para o sucesso na difícil arte de escrever bem. Assim como os concisos, que fazem da economia lexical e sintática o segredo de sua arte, há aqueles que ficam a meio caminho, na linha de um Eça de Queiroz ou um Machado de Assis; os que se alargam em adjetivações e floreios, maneirismos, construções frásicas longas e artificiosas, e nem por isso menores enquanto escritores fiéis a estilos de época definidos, com seus clichês e manias, à maneira de José de Alencar, no Brasil, e os igualmente românticos Camilo Castelo Branco e Almeida Garret, em Portugal.

Se a concisão é elemento incontornável em determinados escritos, nos quais a clareza de estilo e objetividade expressiva são elementos altamente recomendáveis, na literatura é diferente e nem todo bom escritor é Graciliano Ramos. Não há, portanto, segredos, regras infalíveis ou obrigatórias. Importa, mesmo, é aquele traço pessoal intransferível, aquele jeito incomunicável de escrever com estilo pessoal, fazendo escolhas subjetivas capazes de dar forma elegante ao texto, para o que pesa positivamente a sensibilidade estética de cada um --- que pode ser educada, nunca escravizada a gramatiquices. Para isso, insisto, não há receitas, modelos a seguir. É conversa íntima do escritor com ele mesmo, sem perder de vista, por óbvio, aquele "leitor ideal" de que nos falou Umberto Eco.*

No mais, é lendo muito, lendo apaixonadamente, que se descobre o caminho e se bebe do melhor remédio contra defeitos e limites, até se tornar um bom escritor.

*Aquele que tem um papel ativo na leitura, que permite não só compreender o texto, mas reconhecê-lo em sua especificidade. 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Assim, como tantas outras

Um espectro ronda a Europa --- o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjugá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha.

Qual partido de oposição não foi acusado de comunista pelos seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não lançou aos seus adversários de direita ou de esquerda a alcunha infamante de comunista?

Os parágrafos acima não foram escritos por mim. Eles iniciam de forma arrebatadora o "Manifesto do Partido Comunista", de Karl Marx e Friedrich Engels, publicado em 1848. Reproduzo-os intencionalmente, assim, sem aspas, para discorrer sobre o uso da velha pecha pela extrema direita no Brasil, 175 anos desde que foram escritos e divulgados como uma bomba na Inglaterra.

Naquela época, o continente europeu vivia grandes conflitos. As lutas entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores atingiam níveis de tensão insuportável. Pela primeira vez, de forma assim clara e objetiva (e extremamente bem escrita), os abismos sociais eram tratados com pretensão científica, e nascia, no contexto de uma Europa em crise, a utopia de uma sociedade menos injusta e desigual.

Repensava-se a luta de classes.

Com o "Manifesto Comunista", Marx e Engels denunciavam de forma intelectualmente explosiva a exploração do proletariado pela burguesia --- e dava-se a ler o mais importante tratado político jamais escrito.

Em essência, o texto propugnava a possibilidade de existência de um modelo de sociedade em que todos tivessem acesso a uma vida decente. O documento termina conclamando a união dos explorados e oprimidos: "Trabalhadores do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões".

Se é verdade que o ideário marxiano foi muitas vezes usado à revelia do que propõe, de que o stalinismo é o exemplo mais inconteste, não é menos verdade que permanecem válidas suas diretrizes, e que sejam os mesmos os mecanismos de exploração denunciados 175 anos atrás.

Somente num país atrasado intelectualmente, e no qual se explora a ignorância dos outros como forma de obter dividendos políticos inconfessáveis, é comum que se use vulgarmente a palavra "comunista" como sinônimo do que não presta, do que em si representa o mal para a sociedade. Somente num país como o Brasil, em que se lê mal e se lê tão pouco (e onde deseja imperar a desfaçatez), é comum assistir-se ao triste espetáculo de ontem, no Senado Federal, ao final dos trabalhos da CPMI do 8/1, onde a palavra "comunista", proferida por gente iletrada e sem escrúpulos, ecoou por corredores e salões, insurgindo-se, à maneira dos moleques, contra o histórico relatório da senadora Eliziane Gama (PSD-MA) em defesa da democracia e do Estado democrático de Direito no Brasil.

Há poucos anos, em Berlim, hospedado nas proximidades da Avenida Karl Marx, em que o busto do intelectual alemão, altaneiro e belo, sobressai em meio a automóveis, ônibus e caminhões, vi pessoas colocarem ao pé do monumento arranjos de flores, num gesto que soube recorrente em plena Alexanderplatz. Para um povo bem-informado e culto, ser comunista é uma forma de pensar.

Assim, como tantas outras.

 

 

terça-feira, 17 de outubro de 2023

O centenário de um clássico

Não é raro que grandes ficcionistas tenham se revelado igualmente grandes como ensaístas. Sob este aspecto, o inglês E.M. Foster, o russo Vladimir Nabokov e o peruano Mario Vargas Llosa, não necessariamente nessa ordem, são nomes que entraram para a história da melhor ensaística com trabalhos notáveis. Com não menor destaque, aparece, entre esses, Italo Calvino, com a diferença de que, desgarrando-se dos outros aqui citados, pelo menos um de seus memoráveis ensaios é referido à larga, mesmo por aqueles que nunca se dedicaram à literatura com maior pretensão: "Por que ler os clássicos".

É nesse texto, de 2002, publicado, no Brasil, em 2007, pela Companhia das Letras, que aparece, entre 14 outras, a célebre definição "Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer".

A definição, como se vê, ressalta uma das propriedades dos grandes livros: a capacidade de nunca serem esgotados em suas potencialidades de conteúdo, ressignificando-se através dos tempos em leituras e releituras, análises, exegeses e novas chaves de interpretação, num tipo de função literária que, à falta de melhor juízo, pode-se identificar como "sintonizadora", permanecendo atuais e carregadas de sentido ano após ano.

Mas o ensaio de Calvino, por óbvio, vai além do verbete já muito conhecido. No segundo, como a acrescentar percepções novas ao primeiro, ele afirma: "Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los". E, no quarto, com maior precisão, ele diz: "Toda leitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira".

Como afeito a paradoxos, todavia, diz ele no verbete seguinte: "Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura". É que Calvino, como pode-se ver no verbete sete, mostra-se atento ao fato de que "Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

Importante destacar, contudo, que o próprio Calvino é assertivo em reconhecer que toda definição traz em si vazios, terrenos intocados, insuficiências de que parece extrair a própria substância de suas reflexões. É nesse sentido que se pode concluir que clássicos são inesgotáveis e indefiníveis, razão por que "a única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor que não ler os clássicos", como diz de modo aparentemente ingênuo ao final do ensaio. E é por esta razão, acrescento eu, que se deve ler a obra (ensaística, e ficcional, sobretudo) desse escritor extraordinário que contaria neste mês de outubro cem anos.

Italo Calvino nasceu em 1923, em Santiago de Las Vegas, arredores de Havana, Cuba, e transferiu-se para a Itália pouco antes de completar dois anos. Atuou nas lutas contra o fascismo durante os anos de guerra e foi membro do Partido Comunista Italiano, figurando nas lides intelectuais como uma das vozes mais respeitadas. Em 1946, depois de uma temporada em Sanremo, instalou-se em Turim, onde ingressou na universidade e realizou um brilhante trabalho de pesquisa sobre Joseph Conrad ("O Coração das Trevas"). Estreou na ficção com o livro "A trilha dos ninhos de aranha" (1947), ainda preso às narrativas tradicionais do neorrealismo italiano, forma compatível com as intenções do livro: deixar registradas as impressões e emoções como testemunha dos enfrentamentos da Resistência contra as tropas alemãs e os violentos métodos das brigadas fascistas.

Mas é a fase "adulta" de sua vida e obra que lhe dá a notoriedade como intelectual e escritor (dos maiores das seis ou sete décadas encerradas em 1985, quando morreu aos 61 anos), e que o consagram como contista, romancista e ensaísta inspirado e dedicado com sucesso a rever os procedimentos narrativos dominantes. Dessa inquietação artística, nasce uma ficção de altíssimo nível, de que os livros "Se um viajante numa noite de inverno" (1979) e "As Cidades Invisíveis" (1972) são leituras obrigatórias. Neste, Calvino imagina dezenas de comunidades fantásticas (fabulosas, talvez), muitas delas invisíveis pelos caminhos da física, algumas outras em descompasso com os fundamentos da geografia e nas quais ocorrem coisas incompatíveis com a realidade factual.

Por último, num exercício de subjetivação de resto aceitável em se tratando de literatura, tenho o atrevimento de sugerir dois títulos que me parecem ainda mais ajustados ao que se pode definir como clássicos "calvineanos": "O Barão nas árvores" (2009) e o desconcertante "O Visconde partido ao meio" (1952), livros inquietantes, intensos, forjados à maneira de um dos gênios da literatura universal.

P.S. A obra de Italo Calvino acaba de ser reeditada pela Companhia das Letras.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Centenário de Fernando Sabino

5 da manhã desta quinta-feira, 12 de outubro. Sento, à frente do computador, para escrever a coluna da semana, e me ocorre lembrar que há exatos cem anos nasceu Fernando Sabino. Sei que muitos haverão de torcer o nariz a muita coisa que direi aqui, a começar pela afirmação de que se trata do maior cronista brasileiro --- maior, no gênero, que Rubem Braga e Machado de Assis --- e só seguido de perto, guardadas as diferenças de estilo, por Nelson Rodrigues.*

É claro que tomo por medida uma espécie em que Sabino foi um verdadeiro mestre: a forma narrativa curta que se situa num espaço rigorosamente literário, pautado pela pegada ficcional, e no qual os outros autores aqui mencionados transitaram com menor ênfase. Foram mais autores de texto para jornal, muito embora grandes, mesmo quando adoçaram suas crônicas com a sensibilidade estética e a originalidade estilística que os tornaram inconfundíveis.

Fernando Sabino foi exemplar num tipo de crônica que sobressai pela rapidez, exatidão no emprego da palavra e um componente lúdico que absorve o leitor por completo, razão por que é quase imperceptível a linha que separa sua crônica do conto propriamente dito.

Se são mesmo delicadas as distinções entre uma forma e outra, o que enseja que as antologias não raramente confundam 'crônica' e 'conto', não significa dizer que inexistam, mesmo aos olhos de leitores não especializados. Quer dizer: a crônica, geralmente curta, destinada a pequenos espaços de jornais e revistas, além da brevidade que resulta disso, é o mais das vezes narrada em primeira pessoa, do que sobressai a visada subjetiva, o olhar do eu sobre o fato explorado no texto como assunto. É, portanto, o ponto de vista do autor que interessa ao leitor, o que comumente empresta ao texto algum perfume de poesia, aspecto característico da crônica em que Vinicius de Moraes --- para não citar o próprio Rubem Braga --- é notável.

Para não falar de outras marcas dominantes na crônica: linguagem direta, espontânea, jornalística, ainda quando o escritor dispensa ao texto um estilo metafórico que beira o que se define como rigorosamente literário. A tudo isso, importante ressaltar, soma-se uma invariável atenção para o fato efêmero, o 'desimportante' fugaz que salta à sensibilidade do cronista como algo digno do registro textual.

Mas em Fernando Sabino esses componentes adquirem uma fisionomia especial, pautando-se pelo que Italo Calvino, o escritor italiano nascido em Cuba, define como mais nobre marca na boa literatura: um senso de medida rigoroso na construção do texto.

Aqui reside, pois, o que diferencia Fernando Sabino dos demais: seus textos, preservando elementos característicos da crônica 'clássica', inclinam-se para o que tradicionalmente chama-se de 'conto', sem, no entanto, perder a sua essência enquanto gênero narrativo. Explico-me: as crônicas de Fernando Sabino, ao lado de voltarem-se para o fato transitório, passageiro, inusitado etc., dão a esses fatos uma pitada de luz que os faz romper com a mera 'efemeridade' para ganhar o status de 'transcendentes'.

Aqui está a grande virtude desse cronista de personalidade autoral ímpar, pois que soube como  poucos dar a uma forma narrativa menos pretensiosa, mais fadada ao esquecimento, porque relato de ocorrências do dia a dia, do inusitado, um toque de 'permanência' que é próprio do conto, sem perder a leveza da narrativa ligeira, leve, solta, própria da crônica enquanto literatura. Conclua-se: se é típico da crônica ser um gênero híbrido, pontuado pelo estilo entre oral e literário, em Fernando Sabino essa marca adquire uma dimensão estética de tal modo elevada, que faz dele um caso à parte --- e de sua obra, o que existiu de mais marcante em meio aos cronistas brasileiros.

Mas, como escritor, Sabino foi além do texto curto, no qual ombreou-se, como disse, a tanta gente boa e igualmente importante (Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Clarice Lispector, Luis Fernando Verissimo, Nelson Rodrigues, entre outros), com destaque para o emblemático "O Encontro Marcado", nosso maior romance de formação, tão influente sobre os de minha geração quanto "A Idade da Razão", de Jean Paul Sartre, ou "Wilhem Meister", de Goethe. A esta altura, que me permitam mais uma subjetivação: Eduardo Mariano, o protagonista do romance de Fernando Sabino, alterego do autor, foi para nós o Julien Sorel (Stendhal), o Rastignac (Balzac), verdadeiro símbolo de uma educação cultural marcada pela 'perfectibilidade' de nossa moral irrequieta e carregada de sonhos.

Na fase derradeira de sua vida como grande escritor, Sabino terá cometido o deslize de emprestar seu enorme talento à produção de um livro comercial e de qualidade esteticamente questionável, "Zélia, uma paixão" (1991), o que lhe custou um tipo de cancelamento desnecessário e perverso: o amigo e também escritor Millôr Fernandes, para ficar num exemplo, publicou no Jornal do Brasil uma charge em que Fernando Sabino aparece carregando uma mala estufada de dinheiro.

Escorraçado das rodas e dos acontecimentos literários, evitado por ex-amigos, Fernando Sabino desceria ao inferno do que hoje se poderia chamar de redes sociais, amargando o peso dos rancores e das incompreensões, indiferentes, todas, ao fato de se tratar de um escritor em cuja obra pulsa um senso de humanidade extraordinário. Nesse sentido, ocorre-me lembrar uma de suas crônicas irretocáveis, "A Última Crônica", obra-prima sobre a desigualdade social entre as famílias brasileiras.

No centenário de Fernando Sabino, assim, os amantes da boa literatura temos a oportunidade de ressignificar juízos, nomeadamente os não estéticos, e marcar um reencontro com a obra de um grande escritor brasileiro.

*Incomparável a qualquer outro escritor brasileiro, Machado de Assis dedicou-se a escrever crônicas para jornal: textos filosóficos, políticos, sobre o cotidiano e de crítica literária, que não têm qualquer relação com o tipo de crônica a que me refiro nesta coluna. Quanto a Nelson Rodrigues, mais adequado seria considerá-lo "ensaísta", na linha do que foi examinado por Luis Augusto Fischer no seu notável "Inteligência com dor", em que afirma que Nelson Rodrigues foi o Montaigne do Brasil. 

  

 

 

 

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Retrato na parede, mas como dói*

Para se conhecer uma cidade é necessário viver nela três dias ou trinta anos. Ao final dos trinta anos, verifica-se que o julgamento após três dias é que é o bom. Ocorre-me pensar nas palavras de Jean Cocteau (1889-1923), no caminho de volta.

Debaixo de um calor de 40 graus à sombra, voltei a Iguatu para rever amigos e matar saudade da terrinha.

Infelizmente, o que ocorre comumente aos que deixam suas "aldeias" queridas em busca do desconhecido em outras paragens, deparei com uma cidade em que não me reconheço mais. E na qual não me faço reconhecer.

Se o céu, aos olhos cansados, ainda é o mais lindo, como afirmei em crônica antiga, desfigurou-se a paisagem, tomada de prédios feios onde, ainda há pouco, havia casarões com perfumes do estilo neocolonial, impondo-se, ao mesmo tempo, pela solenidade da grandeza e sobriedade dos traços.

Onde havia jardins bem cuidados e praças acolhedoras, como a nos fazer lembrar habitações de velhos cortiços, veem-se barracas mal levantadas em que se vendem salgados e guloseimas insalubres.

Aqui, não mais as calçadas sobre as quais se ia ao longe, sem o risco de escorregões e tropeços; acolá restos do que foram, um dia, árvores multidecenárias a convidar os andantes para dois dedos de prosa sob suas copas frondosas.

Onde se viam paralelepípedos de fino corte, agora restos de asfalto a castigar, impiedosamente, aqueles que ousam sair pelas ruas, dando-lhes de bandeja cinco graus a mais de calor escaldante. Hoje, apenas sobem dos rachões e buracos, poeira e fumaça, enquanto motos tomam de açoite as vias mal sinalizadas, --- e os automóveis, ainda mais ameaçadores e mal educados, colocam em risco os que se atrevem a atravessar de um meio-fio a outro.

A poluição visual é alucinante: cones, correntes, cordas, autoritários e ilegais, a demarcar como propriedade privada o que é coisa pública.

Não mais as rodas de conversa à boquinha da noite; não mais o clima ameno, a brisa generosa, o farfalhar das folhas anunciando a chegada do Aracati, tão pontual e tão doce, como a cobrir de carinho toda a cidade.

O lugar em que nasci e que guardo na memória --- morro de saudade todos os dias! ---, decididamente, não existe mais. É retrato na parede, como quis o poeta, em poema célebre.

Mas como dói.

 

*Verso conhecido, de Carlos Drummond de Andrade.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Pelos Novos Caminhos da História

Sossega, saudade minha. Não me cicies o impróprio convite. Não quero ver-te mais, meu triste horizonte, meu destroçado amor (Carlos Drummond de Andrade).

"Iguatu, Pelos Novos Caminhos da História", o segundo volume da incontornável pesquisa sobre Iguatu a que se dedicou ao longo de uma vida o historiador Wilson Holanda Lima Verde, a cujo lançamento tive o privilégio de assistir (e participar com grande alegria), na noite desta quarta-feira 27, no Ideal Clube, em Fortaleza, é obra que confere ao autor o definitivo título de paladino de nossa memória.

Vazado num estilo elegante, mas sem eruditismos desnecessários, o historiador traça com segurança, domínio de linguagem e fina capacidade de percepção dos fatos, naquilo que tiveram de mais significativo, o desenrolar da história de Iguatu, dando visibilidade aos desconhecidos (e não menos dignos de realce, por isso) e novo brilho aos que já se tornaram referências reconhecidas nos registros historiográficos até aqui realizados em diferentes publicações, jornais, revistas, livros e documentos de toda ordem --- além das conversas informais, poemas telúricos, como os de Ossian Nogueira, e dos causos à Geovane Oliveira, transmitidos de uma geração a outra.

O livro, pois, já nasce clássico, ombreando-se a obras de densidade intelectual e rigor analítico já consagradas, a exemplo do ainda insuperado "Iguatu", de Alcântara Nogueira.

Em suas páginas, assim, vê-se o pesquisador atento e criterioso, o homem de sensibilidade, apaixonado pelo que faz, dedicado a esmiuçar acontecimentos, dirimir dúvidas, elucidar divergências, apoiando-se invariavelmente num vastíssimo repertório de informações --- e numa insuspeita visão de mundo, que pautou sempre, frise-se, pela correção e cidadania exemplares.

Se não sabemos para onde estamos indo, mas que a história é que nos trouxe até aqui, como desfecha o seu monumental "A Era dos Extremos", Eric Hobsmawm, o livro de Wilson Holanda Lima Verde  --- nos limites estabelecidos de sua pretensão, o município da região Centro-Sul do estado, em que nasceu e viveu a maior parte dos seus dias --- constitui alentada e alentadora prova de que existem, ainda, caminhos a se percorrer, alternativas de ação a se buscar, contribuições a se dar, independentemente das diferenças que nos separam do ponto de vista econômico, social, intelectual e político, pois que é bastante, para tanto, amar as nossas origens e compreender as nossas apreensões, abrir-se ao porvir com entusiasmo, combater o bom combate em defesa de um mundo mais justo, mais humano, mais livre e mais solidário.

Folheando as páginas deste livro notável, já nos primeiros instantes de um novo dia, pude sentir que seu autor, à maneira de Horácio, o poeta latino da Antiguidade, conseguiu o que é precioso num grande livro: que ele deleite e ensine, deixando o leitor mais leve e mais bem informado. É que Wilson Holanda Lima Verde escreve com clareza, imprimindo um ritmo pessoal à narrativa, sem floreios ou tentativas inúteis de sofisticar a forma em detrimento do conteúdo. Isso, por si só, já o coloca, como escritor, entre os muito bons, vitorioso em suas conhecidas intenções de historiador.

A enriquecer esse belíssimo "Iguatu, Pelos Novos Caminhos", devo destacar o que diz sobre o autor e sua obra, Ivan Lima Verde, na primeira orelha, e, à guisa de prefácio, irretocável, o texto de José Hilton Montenegro, também ele dedicado estudioso da história de Iguatu.  Um e outro, sem artifícios ou subjetivações inconsistentes, deslindam o que é fundamental no livro de Wilson Holanda Lima Verde: exatidão, vigor, senso de realidade historiográfica, a que se soma, digo eu agora, um espírito poético que se expressa com comedimento e aristotélica noção de medida.

Para finalizar, que o espaço é exíguo, ocorrem-me os versos desconcertantes de Fernando Pessoa na inconfundível voz de Alberto Caeiro: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."

Durante o lançamento de seu livro tão importante e tão oportuno, momentaneamente fixei o olhar nos olhos de Wilson, meu amigo e meu mestre: havia ali as águas do Jaguaribe, o rio que corre, vez e outra, caudaloso, pela nossa aldeia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Reais e imaginários

É como se Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa, por quase toda a vida, ocupassem uma mesa para escrever, a quatro mãos, contos, roteiros de cinema, crônicas e outros textos de altíssima qualidade, os quais, sob muitos aspectos, ajudassem a compreender seus processos criativos e suas percepções de mundo. O resultado, posso acreditar, seria esplêndido. Curiosamente, foi o que ocorreu a dois outros grandes escritores de língua espanhola, os argentinos Adolfo Bioy Casares (1914-1999) e Jorge Luis Borges (1899-1986).

Tudo começou, supostamente, por volta de 1936, numa fazenda de um tio de Bioy, rico produtor de leite e derivados, e tinha por objetivo apenas divulgar os produtos processados a partir do líquido precioso, o iogurte La Martona. Do ponto de vista comercial, o empreendimento não foi bem-sucedido, mas ensejou uma parceria que entraria para a história da literatura hispânica --- e que só agora chega ao Brasil em tradução notável de Maria Paula Gurgel Ribeiro (Companhia das Letras, 2023).

Mas o livro, claro, não enfeixa textos assinados pelos dois autores, de cuja convivência nasceu um "terceiro homem", Honorio Bustos Domecq*, uma espécie de heterônimo que veio ao mundo em 1941 e para quem Bioy e Borges tiveram a preocupação de traçar um perfil psicológico jocosamente atribuído à educadora Adelma Badoglio, também ela produto da inventividade desses dois monstros sagrados da literatura latino-americana.

Tudo, naturalmente, soa estranho, absurdo, rompendo os limites entre a realidade e a ficção, muito embora, aqui e além, para leitores mais familiarizados com a escrita de ambos, sobressaiam componentes estéticos que viriam a marcar o estilo e os experimentos de linguagem recorrentes em suas obras. Os contos, por exemplo, guardam a mesma atmosfera fantástica que norteia alguns dos textos mais conhecidos de Borges, bem como salta aos olhos a pegada surreal do criador de "A Invenção de Morel".

O próprio processo de criação da obra faz-nos lembrar o incontornável "Pierre Menard, autor do Quixote", do livro "O jardim de veredas que se bifurcam" (1942) ou o não menos genial "A Biblioteca de Babel", com razão considerados os mais borgeanos dos textos do escritor argentino. Naquele, a cujo enterro Borges afirma ter assistido, sabe-se que se propunha realizar, numa obra invisível, a mais perfeita tradução para o francês do clássico de Cervantes; neste, o autor supõe a existência de uma biblioteca total, com todos os livros e todos os seres, mas em cujo labirinto estaria a perdição do homem. A questão do "duplo" em Menard, e o "labirinto", n'A Biblioteca, antecipam-se em muitos dos contos deste maravilhoso "Bioy e Borges, obra completa em colaboração". À essa altura, no entanto, deve-se observar que seus textos quase sempre remetem a outros textos. "As noites de Goliadkim", para citar um dos mais densos do livro, traz perfumes de Agatha Christie e seu conhecido "Assassinato no Expresso Oriente", mas noutra chave estilística, mais complexa e incompreensível.

O elemento central dessas histórias, contudo, o fio condutor propriamente dito, é a imaginação livre, a capacidade de pensar como realidade aquilo que habita o sonho, a fantasia, o engenho criativo, bem na linha do que é possível encontrar em Wittgenstein (1889-1951) e o "Tratado Lógico-Filosófico", em que Bioy e Borges, sem o citarem, supostamente encontraram o suporte teórico para tecer narrativas tão intrigantes e tão sedutoras.

A edição brasileira desse livro indispensável (refiro-me, claro, aos leitores de Borges, sobretudo), traz ao final três textos extremamente enriquecedores e elucidativos (como é próprio dos bons posfácios): Nós é um outro, de Michel Lafon; De igual para igual, de José Pimentel Pinto, e Quando dois são três ou mais, de Davi Arrigucci Jr.

Numa época de tantos desencontros, mais que nunca a arte constitui uma alternativa de ação, um caminho para chegar ao outro, para vivenciar o sentido pleno da alteridade --- a função outrativa da linguagem a que se referiu Edvard Lopes em livro por demais conhecido ---, de que "Bioy e Borges", o livro que acaba de nos chegar às mãos, constitui bom exemplo.

Mais que recomendo.

  

*Bustos é sobrenome de um bisavô de Borges; Domecq, de um bisavô de Bioy.

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Dia Internacional da Democracia

Os espíritos tacanhos precisam de despotismo para o jogo de seus nervos, como as grandes almas têm sede de igualdade para a ação de seu coração.

BALZAC (1799-1850)

Escrevo esta coluna no Dia Internacional da Democracia (15 de setembro). O Brasil, depois de quatro anos sob um regime de fisionomia e práticas assumidamente fascistóides, e há pouco menos de oito meses da mais repugnante tentativa de um golpe de Estado, parece voltar definitivamente para a condição de país democrático. A provar isso, felizmente, segundo relatório produzido pelo Instituto V-Dem, entidade sueca dedicada a analisar a realidade política mundial em termos democráticos, o Brasil, desde a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, volta a figurar entre os países em nível democrático satisfatório, com nítida reversão do quadro de ameaças a que foi submetido durante o governo do inominável.

O resultado, não bastasse configurar uma realidade política desejável, em que as instituições funcionam de conformidade com o que lhes impõe a Constituição Federal, tem ainda maior significado quando os números do levantamento, na perspectiva global, apontam para um crescimento de regimes autoritários nos últimos quarenta anos. A estimativa, segundo o instituto, é de que pouco mais de 70% da população mundial sejam governados por regimes autocráticos, muitos dos quais vivendo realidades muito próximas do que se pode definir como modelos neofascistas ou com eles identificados.

O relatório evidencia que o Brasil caminha para a plena reconstrução democrática, mesmo considerando-se a existência de organizações de extrema direita empenhadas em impedir esses avanços em práticas cotidianas que se estendem do simples desejo reacionário (volta dos militares ao governo), por exemplo, a comportamentos do dia a dia marcados pela intolerância, racismo, aversão aos pobres, visão elitista de mundo, desrespeito aos valores republicanos e sanha ideológica contra entidades, movimentos populares e partidos convencionalmente considerados progressistas  ---  PT, PSOL e afins.

A celebração do Dia Internacional da Democracia, ressalte-se, ocorre entre nós, brasileiros, num momento particularmente importante da pauta política e institucional nacional, leve-se em conta os julgamentos, iniciados ontem pelo STF, dos envolvidos com os atos de 8/1, cujas sentenças até aqui conhecidas giram em torno dos 17 anos em regime fechado.

O momento, pois, constitui uma demonstração de que inimigos da democracia e destruidores da coisa pública deparam com um desfecho para eles surpreendente. É indispensável, no entanto, que esses processos e as investigações em andamento não se limitem aos "bagres", aos desordeiros e desatinados autointitulados "patriotas", os que batem continência para pneus e constituem, sob o domínio da insensatez, provas contra si mesmos. Urge que se chegue --- e as provas são incontrastáveis --- aos peixes grandes, tambaquis, dourados e poraquês que assoberbam as águas verdes dos quartéis.

Falar nisso, qual o paradeiro dos esbravejadores de há pouco, agora convertidos ao mais acovardado silêncio? Por onde andam Augusto Heleno, Luis Fernando Ramos, Paulo Sérgio, anfitrião de hackers com fito golpista? Onde o general Braga Neto, Eduardo Pazuello, Bento Albuquerque, José Roberto Bueno Jr., onde?

Como escreveu em coluna notável o jornalista Ruy Castro, "tão valentes no poder, hoje trêmulos e mudos. Mas terão de criar coragem e se explicar".

No dia que lhe é internacionalmente dedicado, viva a democracia brasileira!

  

 

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Ainda sobre poesia e música

Semana que passou, escrevi neste espaço sobre a proximidade da música com a poesia. O texto ensejou por e-mail e WhatsApp bons comentários. Mais de um leitor fez alusão ao simbolismo, movimento estético ocorrido entre fins do século 18 e inícios do século 20, dentre cujas caraterísticas sobressai o gosto pela musicalidade dos versos. A tendência, mais que um deleite com a sonoridade das palavras, num tipo de formalismo descompromissado, revela antes o sentido simbólico como caminho para a expressão do mundo interior do poeta, indo do consciente para o subconsciente e o inconsciente, alcançando toda a dimensão do "eu profundo".

Para tanto, buscava o poeta traduzir pela linguagem verbal o inefável, sensações e estados anímicos os mais diversos, atingindo níveis de abstração impensáveis. É nessa perspectiva que explorava o símbolo não como usualmente o fazemos (a pomba branca, por exemplo, simbolizando a paz), mas de modo a reduzi-lo a uma massa sonora carregada de sugestões, aproximando com isso a poesia da música. É que nenhuma linguagem estética é capaz de suscitar emoções intraduzíveis quanto a música, mesmo quando estamos falando de músicas sem letra, como é recorrente entre os clássicos, quase sempre compostas sobre bases narrativas, isto é, quando "contam" histórias, casos, enredos imaginados pelo compositor.

São imperdíveis, como exemplo, os versos do poeta Cruz e Sousa no irretocável "Violões que Choram": "Vozes veladas, veludosas vozes/Volúpias dos violões, vozes veladas/Vagam nos velhos vórtices velozes/Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas". Para não citar, claro, os franceses Baudelaire, Mallarmé, Verlaine, ápices dos experimentos musicais do verso.

Agradecendo ao interesse despertado pelo artigo, retomo a reflexão para observar que, embora dominante durante o fastígio do movimento simbolista, como deixei evidenciado antes, poesia e música andam de mãos dadas, mesmo quando se toma como parâmetro o verso modernista, que sabemos refratário à forma fixa, à métrica rigorosa, à rima convencional. No Brasil, são notáveis sob este aspecto, para me referir aos clássicos, poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Sobre este é imprescindível ressaltar-se "a estilística da repetição", tão bem examinada em livro maravilhoso de Gilberto Mendonça Telles, com este título. Quanto a Manuel Bandeira, creio ser o caso mais representativo, pois que sua poética está firmemente calcada na fina percepção da potência musical da palavra. Não é muito lembrar que Bandeira sempre deixou evidenciado o seu amor pela música, que considerava a mais sublime das expressões artísticas.

Nesse sentido, é absolutamente oportuno que me volte para o seu "Itinerário de Pasárgada", livro de memórias com que o poeta pernambucano traça o seu perfil criador, indo das raízes da infância ao aprimoramento estético, todo ele embasado no amor à música e no pleno domínio dos recursos da versificação. A esta altura, abro aqui um parêntese: revendo ontem o belo filme "Inocência", de Walter Lima Jr., baseado no romance homônimo de Visconde de Taunay, marejei os olhos na bela sequência em que Fernanda Torres canta "Azulão", poema escrito por Bandeira para a música de Jayme Ovalle*: "Vai/Azulão,/Azulão,/Companheiro,/Vai!/Vai ver minha ingrata./Diz que sem ela/O sertão/Não é mais/Sertão!/Ai voa!/Azulão,/Vai contar,/Companheiro,/Vai".

Para não me alongar, considere-se a exiguidade do espaço, os limites entre poesia e música estão desde sempre diluídos, o que ressalta o preconceito em relação aos bons letristas serem considerados "poetas" mesmo no sentido clássico.

Voltando a Manuel Bandeira, assim, é que sobram os exemplos de que sua poesia está assumidamente ligada à música, sendo numerosos os estudos que examinam essa proximidade. Digo melhor: essa unidade.

Por último, do mesmo poeta, cito o poema intitulado "Letra para uma valsa romântica", não estranhamente escrito a pedido do maestro Radamés Ganattali: "A tarde agoniza/Ao santo acalanto/Da noturna brisa/E eu, que também morro/Morro sem consolo/Se não vens, Elisa!".

Como se vê, o ritmo e as rimas do poema ecoam a valsa. Os versos de seis sílabas observam um compasso ternário. Mas isso já é música em sentido estrito, matéria que não é, com rigor, minha praia.

Bom fim de semana!

*A música foi objeto de releitura pelos maestros Camargo Guarnieri e Radamés Ganattali. Em tempo: No filme de Walter Lima Jr., a voz, registre-se, é da cantora Telma Costa.

 

 

 

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Barbara, nunca é tarde --- nunca é demais

A atriz, ensaísta, professora, jornalista, crítica teatral e tradutora Heliodora Carneiro de Mendonça, ou simplesmente Barbara Heliodora (assim, sem acento), faria cem anos nesta semana. Era carioca, e formava com Sábato Magaldi e Yan Michalski a mais combativa e inteligente tríade crítica do teatro brasileiro.

Dona de uma sensibilidade estética singularmente aguçada, Barbara Heliodora foi presença marcante nos meios teatrais do país, notabilizando-se pela análise implacável de espetáculos de qualquer gênero --- invariavelmente profunda, atenta, exigente, certeira.

Certa vez, no teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro, tive a oportunidade de vê-la --- sentada uma fileira de cadeiras à minha frente. O espetáculo, lembro-me bem, era "A Mulher sem Pecado", de Nelson Rodrigues, com Dionisio Azevedo (sublime) no papel do marido atormentado em sua obsedante busca da verdade sobre a fidelidade da esposa, Lídia. Assisti ao espetáculo, assumo, com o olhar transitando, igualmente atento, do que se passava no palco, a poucos passos de mim, para as reações quase imperceptíveis daquela senhora impassível, de postura nobre, como a tentar antecipar seus abalizados juízos sobre aquela montagem. A custo, porque difícil o acesso, à época, tinha eu por hábito ler seus textos, descobrindo os segredos de uma arte que despertava em mim tanta paixão, e para a qual se ressentia, o jovem que fui, do cabedal teórico que lhe permitisse compreender, para além da superfície, o que faz de um texto, de uma montagem, do trabalho de um ator, de uma atriz, ou da competência de uma direção, algo capaz de alcançar o status de uma grande realização artística.

Tanto quanto a Magaldi, cujo texto já por si é capaz de encantar o leitor, ou Michalski, no embasamento teórico que salta aos olhos no primeiro bater de olhos, devo a Barbara Heliodora muito do meu amor pelo teatro, da minha razoável capacidade de compreender, em bom nível, essa arte ao mesmo tempo tão simples e tão complexa.

Mas falar de Barbara Heliodora é muito mais que falar de uma notável crítica de teatro, cujos conhecimentos sobre a cena dispensam comentários, quer pelo elevado nível de sua fundamentação teórica, quer pela amplitude de sua densidade intelectual, muito embora se deva evidenciar, sob este aspecto, que sabia escrever textos leves, soltos, acessíveis, mesmo para aqueles que não tinham com a arte teatral grande familiaridade.

Sua crítica, tanto quanto pela verticalidade do material teórico mobilizado, valia por sua extensão, compreendendo-se por isso o alcance de sua visada corajosa sobre a realidade brasileira, em que pese ter sido, por este viés, tantas vezes incompreendida. É que Barbara Heliodora evitou sempre o tom panfletário, guardando distância dos radicalismos ideológicos, fossem esses de direita ou de esquerda, jamais furtando-se a participar do debate e a expor em artigos incontornáveis o seu pensamento crítico.

Exemplo do que falo aqui, para finalizar, é o artigo intitulado "O Medo da Liberalidade", em que condena a censura militar quando da publicação de uma portaria tornando obrigatório o envio de textos teatrais para Brasília, antes de encenados. Eram perversos os cortes, as mutilações, via de regra levados a efeito por gente sem cultura, que entendia de teatro o mesmo que um asno entende de igreja. Quando não impedidos, integralmente, de ganhar materialidade no palco, fato recorrente o mais das vezes.

"Ser subdesenvolvido não é vergonha para ninguém. Insistir em assim permanecer, no entanto, é mais do que vergonha, é crime de lesa-pátria. Lutar cega, desesperadamente, contra a evolução e a verdade, contra o conhecimento, a avaliação objetiva, o reconhecimento de nossos problemas sociais, existenciais, econômicos e políticos, é insistir em condenar esse nosso Brasil tão sofrido, tão desperdiçado, tão explorado e tão desconhecido por nós mesmos, a uma prorrogação sem prazo  --- e, se possível, eterna --- de sua relegação ao estado de subnação, e da pior subnação, aquela na qual, propositadamente,  se confunde tradição com estagnação, esclarecimento com subversão. Vamos queimar livros, como Hitler; vamos preferir Torquemada a João XIII".

Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 18 de novembro, 1967.

Na semana em que completaria cem anos, reler os artigos de Barbara Heliodora é poder compreender o que terá representado para a inteligência brasileira essa mulher extraordinária, essa intelectual rigorosa, destemida, que jamais pactuou com o silêncio ou com a omissão, sem curvar-se, no entanto, a interesses de correntes ideológicas que não condissessem com suas convicções pessoais.

Viva Barbara Heliodora!

P.S. O título dialoga com os versos de Chico Buarque, da peça Calabar, dele e Ruy Guerra.