Antes de mergulhar

Toda noite eu arrancava meu coração. Mas de manhã ele tornava a crescer. (O Paciente Inglês)


Como ocorre a todo cronista, sento-me diante do computador e paro um instante à procura de um tema para a coluna deste sábado. Um tanto surpreso, lembro que estamos a poucas horas do novo ano e, como sempre, há no ar uma esperança de que as coisas possam se transformar por completo a partir de agora. Por isso, é natural que a gente faça tantos planos: voltar a ter o peso ideal; economizar uns trocados; fazer a viagem dos sonhos; parar de fumar; ir a São Paulo rever a amiga, o amigo, que há tempo não vemos; o Carnaval em Salvador; ser mais tolerante, mais cavalheiro, mais humano; escrever um novo livro, ou o primeiro, se for o caso; diminuir o uísque, o rum com coca, trocar a cerveja pelo vinho; conhecer o homem, a mulher dos sonhos. E por aí vai.

E, no entanto, mal começam a se passar os dias, e a vida volta a ser a mesma: "Como renunciar a esta picanha!", você diz no churrasco de aniversário do seu melhor amigo; "Um cigarrinho, apenas, não me há de matar!"; e, assim, você vai materializando a contradição, adiando os planos. "Ah, falei com a Roberta ontem, o Chris que venha me ver, afinal, o avião que leva, traz..."; e você foi a Recife, em vez de Salvador; trocou ofensas, no trânsito...; sua estreia como poeta, contista, pode ficar para o próximo ano; como pensar o happy hour sem três ou quatro saideiras?, os cartões do chope já chegando aos céus. E no amor, ela é linda, educada, sincera, mas tem um temperamento...; ele é companheiro, gentil, "imagina, me abre a porta do carro, puxa a cadeira no restaurante, em casa... Um cavalheiro, é romântico, mas tem um ciúme..." E você a deixa por tolice, que existem sete para cada homem. Rompe com ele, e vai tentar com o Maurício, se não der, que venha o Pedro, o João. Em dezembro, lá pela última semana, você está sozinho, sozinha, e diz para a melhor amiga: "No amor, não tenho tido sorte!"

Não há segredos, é fato. Mas que tal pensar um pouco sobre como você tem tocado a vida? Não é preciso que comece o novo ano para organizar certas coisas, enquanto é tempo. Parar de fumar, sim, "agora, que quero respirar bem, dormir melhor, aproveitar o sabor dos alimentos." É tão fácil dizer "por favor", "obrigado", "é possível?", "perdão, o erro foi meu!"... Colocar-se um pouco no lugar do outro, no trânsito, na fila do banco, à porta do elevador; em casa, com quem lhe faz a comida, lhe passa a roupa, cuida do seu jardim. Alteridade, está no dicionário, é qualidade do que é outro, diferente, que se distingue. "A Marina tem esse defeito, mas, que vale isso, se é amorosa, solidária, se faz um amor gostoso, se me respeita, valoriza, me faz crescer como homem, quando tropeço?" "O ciúme do Lucas é um defeito dele com que aprendi a lidar... Mas como é íntegro, companheiro, que coração possui, quanta honestidade no que diz, no que pensa..." O amor dos sonhos.

Faça diferente no próximo ano, que ele está chegando. Que tal agradecer-Lhe mais, e Lhe pedir menos? Uma missa, de vez em quando, por que não? Relaxe, morra de rir. Ouça mais, fale menos, abra seu coração. Valorize as pequenas coisas, exercite a delicadeza, chore, se sentir vontade; estenda a mão mais vezes, abrace mais, emocione-se nas despedidas... Cante com o Roberto, queira ter um milhão de amigos. 2011 está chegando ao fim, foi bom, não foi, poderia ter sido melhor? O coração doeu, teve que arrancá-lo noites a fio? Nada, não. É nova manhã! Tempo aberto para mudanças -- e elas clamam urgência, têm pressa. "A vida não é mais que o ato de ficar parado no ar, antes de mergulhar", diz uma velha canção. Pense nisso, já.

Feliz Ano-Novo!



Natal na Rua do Fogo

Dona Lili, desde que o marido morrera, havia muitos anos, vivia na mais desumana solidão. Dedicava-se, mal raiava o dia, a costurar na velha Singer, comprada nas casas Pernambucanas em módicas prestações. A rotina de sempre: receber clientes -- cada vez mais raros nesses tempos de butique --, fazer a entrega das encomendas, comprar botão, fecho éclair, tubo de linha, agulhas, alfinetes: - "Se Deus quiser pago tudo depois das festas, Fernando", dizia esperançosa ao dono do armarinho.

Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal, e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado, o dourado da abotoadura esfregado ao vestido, para conservar o brilho. O desvelo de uma apaixonada, nem parecia que já se contavam 27 anos de viuvez.

No começo, passados os quatro ou cinco anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de casar de novo, "quarentona muito da bem apanhada!", brincavam. Mas o tempo, amigo das surpresas, não fazia surpresa para dona Lili. A vida vidinha ia passando e, com ela, a juventude da velha costureira, o verde dos olhos ainda capaz de chamar a atenção... Nem filhos tivera, e Raimunda, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili por muitos anos, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz. Mas dona Lili nunca maldizia a vida, "até que Deus me leve para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.

Dia após dia, a rotina era a mesma no velho casarão: varrer, lavar, passar, fazer a comida e, no sem-fim daquela solidão, arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado contra o vestido de organdi para retomar o brilho.

Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa de tartaruga segurando o penteado simplório e o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se sobre o parapeito da janela para admirar o mundo: o movimento da rua, as barracas de guloseimas e bugigangas, de brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento do Menino-Deus, dali a poucas horas. E que a vida, no eterno viravoltear das coisas, anunciava-se nova a partir daquela noite, porque era Natal.

Alforriando o olhar para o longe da rua, a boa senhora deixou-se transportar para os velhos tempos ao lado do marido, a missa do galo na Matriz, as voltas incontáveis sobre o calçadão da praça (o braço enlaçando a cintura de Murilo) e aquela sensação gostosa de que a vida era um milagre...

Cansada, que por sorte foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu com cuidado, tateando o ar, o longo corredor e, como uma sombra, adentrou o quarto para dormir, não sem antes reorganizar as gavetas do marido, as gravatas, o pente, a navalha de barbear, a aliança -- "Ainda mando o joalheiro tirar os riscos!" --, o dourado da abotoadura arrastado no vestido para readquirir o brilho.

Lá fora, ainda se podia ouvir o pipocar das bombas, dos fogos de artifício, o badalar dos sinos da Matriz... Antes de assoprar a vela bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia havia 27 anos, beijou o retrato de Murilo, enquanto duas lágrimas, serenamente, rolaram sobre as maçãs do rosto.

Na manhã seguinte, a custo, conseguiu-se entrar no velho casarão, onde acharam dona Lili sem vida, em decúbido dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos. Ao enterro, compareceram dezoito pessoas, onze homens, seis mulheres e um menino.

Dizem que do interior da velha casa, à meia-noite, por muitos anos ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.

O amor do futuro

A Revista da Cultura traz, em sua edição de dezembro, um curioso artigo da psicanalista Regina Navarro. Para ela, está com os dias contatos o relacionamento 'fiel', fundamentado no que considera a fantasia de que, para ser feliz, só pode existir 'uma pessoa certa' com quem nos relacionar. A tese, sobre a qual escrevi há algum tempo neste espaço, reedita o que Navarro defende no best seller A cama na varanda. Até aí, nada de novo, não se leve em conta o fato de que, com distribuição gratuita, a revista tende a atingir um público maior e, em princípio, mais susceptível de se deixar influenciar. Ou não, como diria Caetano.

O que chama a atenção agora, é o fato de que, cada vez mais, a psicanalista tem baseado a sua teoria em dados obtidos em seu consultório, uma espécie de muro das lamentações classe A, para o qual se dirige todos os dias um contingente feminino de elevado status social e, supostamente, de maior escolaridade. Nesse sentido é que Navarro cita, já no início do artigo, um caso em que está envolvida uma professora de 33 anos. Sil, como é referida no texto, depois de um tempo curtindo a vida de solteira, descobre-se apaixonada por Mário, com quem passa a dividir uma experiência amorosa absolutamente feliz. Até que um dia, sem que existam motivos aparentes, a admiração e o desejo pelo namorado vão diminuindo e ela passa a achar a relação desinteressante: - "De uns tempos para cá, tenho me decepcionado com o Mário. Chego a achar que ele não é essa maravilha que eu imaginava." A agonia do amor.

A razão (ou razões) por que isso ocorre, sabemos: quando nos apaixonamos, invariavelmente construimos uma relação idealizada, e o objeto do nosso desejo é fruto de uma utopia, de uma cegueira momentânea em face das limitações e imperfeições do outro, fenômeno absolutamente natural, soubéssemos, ao contrário do que quase sempre ocorre, lidar com esse sentimento fugaz -- que é a paixão -- com o equilíbrio necessário quando do nosso retorno à realidade. Se nos falta esse tino, essa aceitação da realidade humana, com suas imperfeições e suas contradições mais íntimas, o insucesso da relação é inevitável.

Segundo Navarro, no que considero o ponto alto de sua teoria, "o amor é uma construção social e em cada período da história se apresentou de uma forma." Se é procedente a sua afirmação, e é, num tempo em que a individualidade é cultuada como um bem inalienável, a tendência lógica é que homens e mulheres se atirem em busca de novas descobertas. E não foi sempre assim?, haverá de questionar o leitor. Sim, essa busca é inerente ao homem de todos os tempos. A diferença, diz a pesquisadora, é que, desta vez, ela se dá para dentro de si mesmo. Ou seja, no caso, já não precisamos do outro para ser feliz.

A morte do amor romântico, como está anunciada no artigo de Regina Navarro, abre espaço para o amor do futuro, "com a possibilidade de amar e de nos relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo." Em certa medida consistente, a teoria de Navarro peca, no entanto, por não considerar que, sendo uma construção social, como afirma, o amor traz dentro dele todas as contradições de qualquer construção social. Inclusive a fantasia de querer amar e ser amado com exclusividade.

A separação em números

É fato: casa-se mais, separa-se mais, recasa-se mais. Nunca tive pruridos em relação a certas coisas que comumente ruborizam a maioria das pessoas. O fato de ter casado muitas vezes, por exemplo. No meu caso foram três, com três mulheres que um dia foram os meus amores e com as quais dividi casa, vivi momentos importantes, viajei muito, fiz projetos e realizei sonhos. E, claro, com as quais dividi a dor de toda separação. Foram relacionamentos felizes. Acabaram, o que não é o mesmo que dizer que não deram certo. Foram 10, 10 e 11 anos. Tempo bom, como se pode ver. É verdade que, nesse aspecto, estive sempre à frente do meu tempo e o primeiro deles, tinha eu 20 anos, não precisou de papeis passados para acontecer. Que diferença fez? Nunca fui freelancer em matéria de amor. Sexo é outra coisa. Mas amar exige proximidade, convivência, roçar de pele na madrugada.

Escrevo sobre isso quando tenho em mãos alguns resultados do último censo do IBGE. 243.224 casais brasileiros se divorciaram no ano passado. Nada preocupante: são quase 500 mil brasileiros que tentaram ser felizes juntos, até que a convivência por algum motivo tenha se tornado insuportável. E, o que mais importa, que viram na separação legal a alternativa para tentarem reconstruir suas vidas e buscar de novo a felicidade.

Tenho dois filhos que me amam e que amam sua mãe e o seu atual marido, com quem mantenho uma relação de respeito, cordialidade e admiração recíprocos. Não raro, sentamos à mesa para pôr em dia o que é de interesse comum de nossas vidas: os filhos à frente. Casar não é renunciar à vida em favor de ninguém, o que muitas vezes constitui o segredo dos casamentos longevos. Nem a separação, por dolorosa que seja, é algo com que mesmo os filhos não possam lidar com naturalidade. É bastante que os pais saibam administrar esse momento difícil com serenidade e equilíbrio, o que muitas vezes significa saber chorar juntos. Há sempre mais que adeuses nas despedidas.

Não há separação sem dor. É natural que haja sofrimento, notadamente quando existem filhos pequenos. Assim como é natural que uma das partes saia machucada, que nem sempre é possível, nesse aspecto, que a separação se dê por vontade subjetiva dos dois. Quando isso acontece, tudo se torna mais fácil, desde a partilha dos bens até a educação dos filhos. No meu caso, isso jamais foi um problema. Nunca foi necessário marcar dia e hora para ver os pequenos ou território neutro para apanhá-los. Por isso, estou certo, nossos filhos puderam crescer bem, saudáveis e felizes.

Vejo que há entre os jovens um potencial romântico enorme, e que, por mais levianas que pareçam ser as relações, no tempo do "ficar", compram-se mais livros sobre relacionamentos e sobre o amor; veem-se mais filmes sobre casais, encontros, reencontros, perdas e recomeços. Sinto que ainda é possível alimentar o sonho de que o casamento seja para sempre. É preciso, no entanto, pensar mais sobre as renúncias e as concessões que esta decisão exige. Acho mesmo que existe no casamento alguma coisa sagrada, que deve ser alimentada no coração dos nossos filhos, mas que ele nunca seja visto como um tipo de condenação, uma morte em vida. Separar pode ser um ato de amor.






A qualquer tempo, eis a lição

Durante o happy hour da sexta-feira, depois de alguns uísques, amigo resolve desabafar a sua neura com a certeza de que a velhice vai chegar: - "Velhice é uma doença. Não me identifico mais na imagem do espelho. Estou me tornando uma outra pessoa!" É verdade que ninguém conseguiu conter o riso, mas, no discreto disfarçar de cada expressão, passado o hilário da coisa, pude perceber alguma medida de preocupação. Mínima que fosse.

Ataquei de Cecília: "Eu não tinha este rosto de hoje, / assim calmo, assim triste, assim magro, / nem estes olhos tão vazios, nem este lábio amargo. / Eu não tinha estas mãos sem força, / tão paradas e frias e mortas; / eu não tinha este coração que nem se mostra. / Eu não dei por esta mudança, / tão simples, tão certa, tão fácil. / Em que espelho ficou perdida a minha face?" E a conversa me fez lembrar de tantas outras... dos tantos e-mails que me chegam de amigos, para alguns dos quais está ainda tão distante a indesejada das gentes, como no verso clássico de Bandeira.

Ocorre-me um diálogo do belo filme do argentino Marcos Carnevale: a filha visita o pai viúvo e depara com o velhinho preparando um banho com um entusiasmo que havia tempos não possuia. Os remédios, aos montes, atirados na lixeira. "Papai, o que é isso? Decidiu morrer?" E ele responde: - "Não. Decidi viver!" Alfredo, como se chama o bom velhinho, descobrira-se apaixonado aos 80 anos. Nada surpreendente, não fosse Elsa, o objeto de sua paixão, mais velha que ele, imprevisível e feliz do alto dos seus 83 anos, que (re)ensina a Fred a alegria de viver.

A cena em que os dois fogem sem pagar a conta do jantar em um restaurante, é desconcertante de tão bonita e tão cheia de significados. Para não falar de um dos momentos altos da cinematografia nesses últimos anos, que é a sequência em que Fred torna possível a realização de um sonho antigo de Elsa: tomar banho à noite, na Fontana de Trevi, em Roma, numa citação da cena clássica de Anita Ekberg e Marcelo Mastroiani em A doce vida, de Fellini. A cena dói de tão linda.

Envelhecer é passar algumas páginas de nossas vidas... e complicamos tanto! Fazer amigos e preservar os que já temos; viajar, ler um bom livro, assistir a um filme de que nunca vamos esquecer; descobrir e redescobrir a beleza que está nos pequenos gestos, nas coisas simples, na capacidade de amar que devemos exercitar sempre... Acho que são tantos os caminhos para que não percamos a nossa identidade, para que continuemos nos reconhecendo na imagem do espelho... Elsa, a velhinha serilepe que nos faz chorar e rir às escancaras no filme de Carnevale, ajuda-nos a entender a vida e a tirar dela o que de melhor tiver para nos dar. A qualquer tempo, eis a lição!






Isto o que a Arte é

De bem longe, vem um comentário sobre a crônica do último sábado: - "Veja como são as interpretações. O seu texto não me fez pensar que você tivesse se tornado descrente quanto ao amor. Logo você...?" Li o e-mail e fiquei matutando sobre esta relação curiosa entre o eu que está naquilo que escrevemos e o eu biográfico, de resto um dos problemas mais comuns no complexo terreno da Estética. Pode o conhecimento da vida do artista desvendar os mistérios de sua arte? Pode a obra de um artista revelar a personalidade do seu autor? Escrever é sempre uma arte, mesmo quando se trata de uma crônica de jornal.

A personalidade artística é uma, a personalidade do autor é outra. A importância da arte reside em ela provocar sentimentos que nem sempre coincidem com os setimentos de quem a produz, mesmo no instante de uma escritura, como ocorre a um cronista quando escreve o seu texto. A arte existe quando alguém é capaz de expressar, por meios formais exteriores, os sentimentos que experimentou direta ou indiretamente, e encontra caminhos estéticos pelos quais transmite esses sentimentos aos outros, contagiando-os com a mesma emoção que sentiu, sente ou que é capaz de imaginar o que seria sentir.

Uma das funções indispensáveis à arte, é que ela possibilite a comunicação entre aquele que a realiza e aquele que a recebe, pelos diferentes meios com que pode o artista se expressar. Por isso, lotamos os teatros, os museus, compramos romances e livros de poesia. Por isso, vamos ao cinema e confundimos, no espaço de uma, duas horas, a nossa vida com a vida dos personagens. Choramos, sentimos ódio, abrimos a alma e o coração diante daquela irrealidade como se tratasse da realidade intensificada. E essa comunicação é tanto maior e mais poderosa porque, através da arte, o artista é capaz de transmitir sentimentos, enquanto as palavras, em estado frio de dicionário, apenas podem transmitir pensamentos.

A palavra saudade, por exemplo, não tem um equivalente exato em outro idioma que não o português. Como dizer o que ela significa para quem desconhece o nosso idioma? Como levar um inglês, um francês, um alemão, a compreender o que representa este sentimento intraduzível comum a todos os homens de qualquer país? O poeta nos ensina: - "A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu." Ao que consta, Chico Buarque jamais experimentou a dor que é perder um filho, mas é capaz de "mentir" esta experiência com a genialidade do seu talento, a sensibilidade do poeta extraordinário que é. E com ele, sentimos a dimensão de uma dor que jamais sentimentos. Trocadilho à parte, é isto o que a arte é.

A propósito, o verso antológico que citamos acima, no contexto do poema, não se refere à perda de um filho. É a metáfora de que se vale o eu lírico para a expressar o que dói a perda da mulher ou do homem que se ama. Quando se perde um grande amor, está na letra de Pedaço de mim, a saudade que se sente "é o pior tormento, é pior que o esquecimento, é pior do que se entrevar."






Em tom de conversa

A propósito da crônica O amor platônico, publicada outro dia neste espaço, leitora levanta a intrigante questão: - "Já o conheci mais crente no amor. Gostei da crônica, mas..." (sic). Em tempo devo observar que, com rigor, não sei precisar se se trata de leitor ou leitora, uma vez que o comentário veio com o perfil anônimo. Irrelevante. Na dúvida, intuitivamente, faço a opção de me dirigir a uma mulher. A resposta vai aqui em tom de conversa.

Olha, amiga, não deixei de acreditar no amor. O texto a que você se refere constitui uma reflexão em torno do olhar do filósofo grego sobre o tema, que, como deixei evidenciado, considero um dos momentos mais altos de O Banquete. Daí a me ter assumido como um descrente vai um abismo de diferença. Continuo achando que é o amor, no sentido em que foi discutido, uma das forças que movem nossas vidas de forma mais dinâmica e envolvente. O que não significa dizer, claro, que estejamos de olhos fechados para as artimanhas que ele nos tem pregado aqui e além.

Nesse sentido, ocorre-me lembrar o caso curioso de um amigo: viveu um relacionamento mais que intenso, no qual havia projetado todo o entusiasmo de que é possuidor. Mas, como é comum na história dos amantes, algo deu errado e o rompimento foi inevitável, o que se deu há coisa de uns dois, três anos. Até aí, nenhuma novidade. A curiosidade está em que ele, na contramão de todas as evidências, crê convictamente que o destino haverá de recompor o romance a qualquer tempo. "Mesmo, diz ele, quando estivermos velhinhos, mas vamos nos reencontrar, sim!" Se o otimismo é infundado, não sei, mas nunca é demais lembrar que, filosficamente falando, a utopia é o que torna possível as grandes transformações na vida do homem.

Aliás, revi dia desses o filme O amor nos tempos do cólera, plasmado no livro homônimo de Gabriel García Márquez. Um tanto inferior à obra em que está embasada, a película é muito bonita e trata, dado algum desconto, exatamente do que estamos falando. Um homem perde a mulher amada e dedica seus dias, no espaço impensável de mais de 50 anos, a esperar o momento de reafirmar o seu amor. A cena em que isso acontece, e que é uma das mais belas do filme, se dá em circunstâncias não muito normais, quando o marido da ex falece e ele decide ir ao velório. Cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias depois, para ser preciso, Florentino Ariza, como se chama o personagem eternamente apaixonado, reitera à viúva a sua fidelidade. Não vou contar o final, mas recomendo.

Como dou a ver, leitora, não me tornei um descrente no amor. Por enquanto, contudo, fico 'meio que à distância', como dizem os mais jovens, torcendo pelo reencontro do meu amigo com a mulher amada. Quem sabe, no seu caso, a vida não venha a imitar a arte. É a minha forma de continuar acreditando, sem saber por quê.

Obrigado pelo comentário. Volte ao blog, sempre que puder.

O colunismo torpe da Folha

Desde que a doença do ex-presidente Lula foi divulgada, em primeiro momento por determinação dele próprio, num gesto que antes de qualquer coisa serve para a ilustrar ainda mais o elevado espírito de suas decisões, tenho lido na internet depoimentos de causar revolta a qualquer pessoa minimamente sensível à angústia dos que, a exemplo do ex-presidente, têm ou tiveram nas mãos o diagnóstico aterrador: - "É câncer." Revolta à parte, admite-se que, vinda do anonimato insano e covarde da rede mundial, a baixaria apenas traduza o despreparo e a ignorância de muitos.
 
Daí a ler, entre enojado e envergonhado, o que está sendo publicado em parte da grande imprensa, o jornal Folha de S. Paulo à frente, vai um abismo de diferença. A coisa é feia, indigna, revoltante, descabida, inacreditável  na perspectiva de um matutino que prestou tantos e tão significativos serviços ao país  --  e que, agora, confunde jornalismo independente com permissividade, aceitação de atitudes moralmente degradantes. Uma pena. 
 
Para se ter um ideia do que estou falando, peço desculpas ao leitor desta coluna por citar um ou dois fragmentos do que têm publicado sobre o assunto alguns dos mais prestigiados colunistas do jornal paulistano: "[...] o ex-presidente parece agora pinto no lixo"; "[...] a doença tem origem no abuso da fala, do tabagismo e do alcoolismo de Lula"; "[...] a doença tem a vantagem de levar o doente a parar com seus goles" etc. Um outro colunista da mesma Folha quer saber quem vai pagar o tratamento do ex-presidente. Pasmem.
 
A minha indignação, claro, não se prende ao fato de se tratar do ex-presidente brasileiro mais popular de todos os tempos, de um líder reverenciado mundo afora. Não é isto o que indispõe e revolta. A minha desaprovação veemente reside na consciência do quanto merecem respeito aqueles que, acometidos de uma doença grave, encontram-se fragilizados diante do imponderável, por largas que sejam as chances de cura.
 
Lamentável, não se deve calar, que um dos maiores e mais importantes matutinos da América Latina se preste a exemplificar o que há de mais sórdido na prática do jornalismo, não medindo palavras para expressar o seu inconformismo com o fato de ser Lula, reconhecidamente, o principal responsável pelas sequenciadas derrotas de candidatos paulistas à presidência da República. Eis a razão por que vem explorando torpemente o drama pessoal do ex-presidente a fim de fazer agrados ao patrão.
 
 

O romantismo pós-moderno de Marisa

Comprei e não consigo parar de ouvir. Desde há pelo menos cinco anos, quando lançou o seu penúltimo álbum, Marisa Monte não aparecia com um novo trabalho. Esta semana, finalmente, chega às lojas o imperdível O que você quer saber de verdade. O CD tem uma linha estética menos conceitual e é escancaradamente romântico, embora cantado numa perspectiva pós-moderna que faz a diferença em relação ao que se tem feito nos últimos anos em termos musicais. É o que demonstra, por exemplo, o verso "amar alguém não tem explicação", de Amar Alguém, dela, Dadi e Arnaldo Antunes, um dos destaques do novo álbum.

A propósito, a cantora faz no seu site uma breve reflexão sobre o tema: - "O amor é uma forma de inteligência, talvez a maior delas. Estamos vivendo muitas transformações nas relações familiares, nas relações humanas, e uma coisa certa é que os modelos do passado não servem mais para a gente". O CD, no entanto, do ponto de vista poético, explora variadas possibilidades, que vão da alegria do encontro, como na faixa Ainda Bem ("Tudo se transformou, agora você chegou, você que me faz feliz, você que me faz cantar...) à aceitação do fim ("Depois de aceitarmos os fatos, vou trocar seus retratos, pelos de outro alguém), em Depois, a mais bela do álbum.

Para se ter uma ideia da ousadia do projeto em torno da divulgação do CD, O que você quer saber de mim teve lançamento simultâneo em 30 países. Extremamente bem cuidado sob todos os aspectos da produção, traz participações inusitadas de artistas de diferentes extrações, que vão do americano Jasse Harris (guitarrista de Nora Jones), os cariocas Vinicius Cantuária e Daniel Jobim, ao acordeonista cearense Waldonys. Foi gravado no Rio e em Buenos Aires, e mixado em Los Angeles e Nova York.

Mas é o perfeito casamento da simplicidade com o requinte, poucas vezes conseguido nesse nível por artistas brasileiros contemporâneos, que arrebata o ouvinte. Sem esquecer de falar da beleza da voz de Marisa Monte, que, bem nos termos com que se pode citar aqui Roberto Carlos, de quem diz ter sofrido a maior influência enquanto intérprete, alcança parâmetros técnicos absolutamente irretocáveis, mesmo para os não especialistas na matéria, como é o caso deste colunista.

Além disso, é o sucesso do 'triângulo amoroso' Marisa Monte/Arnaldo Antunes/Carlinhos Brow, surgido com Os Tribalistas, há coisa de uns nove, dez anos, a outra nota mais marcante de O que você quer saber de verdade. Os três assinam algumas das composições mais rítmicas do CD e fazem hoje o que há de melhor em termos de parceria na MPB. Notadamente os dois primeiros, que, de tão parecidos, até fisicamente, como que nasceram um para o outro. Ficar em casa (como está na canção Hoje eu não saio não) e ouvir sem parar o novo álbum de Marisa Monte, vai ver é uma boa pedida. Eu garanto.

O amor platônico

O Banquete é um dos diálogos de Platão de que mais gosto. É o mais simples, mesmo no pretexto de que se serve para tecer uma das mais consistentes reflexões de toda a história da filosofia sobre o amor. Imaginemos algo muito próximo do que chamamos hoje happy hour: amigos se reúnem para festejar a vitória de um deles, Agathón, num festival de teatro. E, entre comidas e bebidas, pelas tantas, um deles puxa a conversa em torno do tema polêmico. Nasce uma das obras-primas da literatura universal.

Desses diálogos, todavia, dois merecem maior atenção, o debate entre Aristófanes e Sócrates. Aquele, mais sonhador, mais poeta. Este, mais pé-no-chão, mais realista. Para Aristófanes, no começo, homens e mulheres eram duplos. Cada um tinha dois rostos, quatro pernas, quatro braços etc. E, como ainda hoje, muita vaidade, muita audácia, queria sempre mais. Chegar ao céu, por exemplo. Foi aí que os deuses, através do maior deles, Zeus, resolveram reagir. E, como punição pela arrogância, homens e mulheres foram cortados ao meio: - "Serão duas vezes mais fracos, já não poderão subir aos céus!"

Por isso, procuramos tanto a nossa metade perdida, sob pena de continuarmos incompletos, condenados a sentir a falta do outro pelos tempos afora. Quando acontece de encontrarmos a nossa metade, sentimo-nos felizes e realizados. É a idealização do amor. Desejamos a fusão, a unificação das almas e dos corpos. É a paixão: 'Encontrei o homem, a mulher da minha vida', dizemos. Aristófanes sonhador.

Mais realista, Sócrates, num piscar de olhos, identifica na forma como seu interlocutor compreende o amor, o que nela existe de ilusório: a utopia do amor exclusivo, definitivo, capaz de saciar a nossa vontade de completude. Um dia, alguém deixará de amar, alguém sofrerá com isso. Não há, nesse caso, a falta, razão por que não haverá mais o desejo. Schopenhauer chamará isso de tédio. Quantos de nós não terá 'amado' mais de uma vez? É que não mais exclusivo, não mais definitivo é o amor. E volta-se a ser incompleto.

Com pequeno desconto, assim afirmou Sócrates: - "Poetas, sofistas, enganadores dos outros." Para ele, amor é desejo daquilo que nos falta. Amamos o que não temos, portanto, aquilo que está ausente, distante de nós. O amor, segundo o mito, é incompletude. Não há amor feliz, pelo menos para sempre. Estamos falando, claro, do amor eros, que existem diferentes formas de amar. Eros, é desejo... o desejo é falta. Séculos depois, revendo Platão, Kant afirmaria que "a felicidade é ter aquilo que se deseja". Mas se desejamos, não é porque nos falta? O amor platônico.

Os brutos também amam

Tinha eu uns 10,11 anos, quando um tio, Manuel Mathias Costa, que, além de usineiro, era produtor de algodão e criador de gado, para surpresa de todos, compra um cinema. Chamava-se Cine Alvorada, sucedâneo do Cine Sá, localizado bem em frente do seu concorrente, o Cine São José, que ficava do outro lado da praça. Isso era por volta de... de... (Não percamos tempo com um detalhe tão desimportante) [risos]. A verdade é que, depois de ganhar um passe 'vitalício' de entrada, passei a ver um filme atrás do outro, o que fez nascer em mim o cinéfilo que sou. Não saberia lembrar, pelo tempo que faz, qual o primeiro filme a que assisti, mas tenho uma leve impressão de que foi algum Tarzan. Johnny Weissmuller era o meu preferido, embora me intrigasse o fato de ser gordinho e de, não raro, ser completamente dominado pelos inimigos. Havia sempre uma forma de se safar, nem que para isso dependesse da macaca Chita.

Depois, vieram os westerns, sobre os quais já discorri em colunas anteriores. A propósito, leitor questionou dia desses: - "Não sei como você continua aplaudindo um charlatão como John Wayne." Talvez pelo fato de que o mundo inteiro o faça, apesar de suas reconhecidas limitações como ator. Ironia à parte, a verdade é que, influenciado ou não pela verdadeira devoção que lhe dedicam cinéfilos daqui e de além, Wayne invariavelmente desempenhou com correção os muitos papeis que lhe foram confiados, razão por que, suponho, tenha arrebatado tantos prêmios, inclusive um Oscar dos anos 60 por sua atuação em Bravura Indômita.

Há, dessa safra hollywoodiana, um filme que ainda hoje (pois o revejo vez ou outra!) me emociona: Shane, que no Brasil tem o título de Os Brutos Também Amam. É um filme narrado todo na perspectiva de um garoto, Joey, que cria uma verdadeira fixação por ele, Shane, um homem de passado supostamente complicado que se estabelece na fazenda de seus pais e passa a protegê-los com a precisão do seu gatilho e a força do seu braço. Duas ou três cenas do filme são mesmo inesquecíveis: a primeira delas, quando Shane se desentende com o pai de Joey, Starret, que acaba de expulsá-lo de sua propriedade. Percebendo a chegada de um fazendeiro poderoso e seus comparsas, que querem afugentar dali o pobre colono, Shane circunda a casa e aparece, calmo e manso, a poucos passos. O bandido interroga: - "Quem é o sujeito ali?" E Shane, sem que Starret o tivesse visto, responde: - "Sou amigo de Starret." A cena é de uma beleza e um sentido marcantes. Acho uma das cenas que melhor falam do companheirismo.

Dirigido com maestria por George Stevens, entre outras coisas, Shane fala da atração que o desconhecido pode exercer sobre as pessoas. Além de Joey, também sua mãe se deixa atrair de forma inexplicável pelo forasteiro. Numa cena, particularmente, é que se percebe isso, quando ela aconselha o filho a não se prender muito a Shane: - "Para não sofrer quando ele for embora." Noutra, na tentativa de resistir à força do que poderá se tornar uma paixão, pede ao marido que a abrace com calor. Não se tratando de algo muito atípico nos faroestes, o tema é tratado em Os Brutos Também Amam com uma sutileza de estilo e um lirismo tocantes.

Mas é a cena final do filme que mais emociona. Depois de vencer todos os inimigos de Starret, sentindo ter cumprido sua missão, ou quem sabe determinado a fugir de um provável envolvimento com a mulher do amigo, Shane decide partir, mas descobre que o pequeno Joey acompanhara a troca de tiros escondido sob uma mesa do saloon. É quando se despede do garoto e segue para destinos desconhecidos, ainda ouvindo seus gritos: - "Shane, eu te amo! Shane, eu te amo!" Sem falar nas imagens e música arrebatadoras que fazem desse filme um dos clássicos da sétima arte.





Filmes da minha vida

A série de crônicas sobre cinema, que venho publicando no blog e em jornal impresso, tem agradado aos leitores. Dela, surge a ideia de um livro, algo como 'os filmes da minha vida', com a intenção de contribuir para a formação de novos cinéfilos. De São Paulo, por exemplo, pessoa muito querida diz ter lido meu texto sobre Noivo neurótico, noiva nervosa e comenta: - "Não gosto muito de Allen [Woody], mas confesso ter sido completamente influenciada por você. (risos) Vou rever o filme, sim." Um outro, também por e-mail, pergunta sobre os finais de filme que mais me impressionaram e pede a minha opinião sobre a cena do aeroporto, em Casablanca (Michael Curtiz, 1943).

Olha, Jorge, é de fato uma das cenas mais bonitas do cinema, sobre a qual, há coisa de uns dois, três anos, escrevi uma crônica. Gosto das cenas que surpreendem. Aquela em que, enquanto todos esperavam que Rick (Humphrey Bogart) partisse com Ilsa (Ingrid Bergman) e ele decide ficar, renunciando ao amor impossível, é desconcertante: - "E nós, Rick?" E ele, estoicamente: - "Nós sempre teremos Paris." Você tem razão: As lembranças dos momentos felizes com a pessoa amada jamais se apagarão e, vira e mexe, qualquer um de nós terá sempre Paris ou o Rio de Janeiro para recordar.

Mas, por força de sua provocação, que tal a última sequência de Desencanto (David Lean, 1946), que reedita basicamente a mesma situação? Consciente de que o mais certo era renunciar ao amor de Laura (Celia Jonhson), Alec (Trevor Howard), o amante, como o Rick de Casablanca, apenas aperta o ombro dela, num plano de detalhe memorável, e diz "adeus", até desaparecer por uma porta. Ela, voz off , recorda, depois: - "O destino, até o último minuto, foi miserável conosco. [...] Senti sua mão no meu ombro durante um momento, e logo se foi. Foi embora da minha vida para sempre."

Ou outro, que vi em DVD há poucos dias, Rainha Cristina (Ruben Mamoulian, 1933): Cristina (Greta Garbo) abdica do trono em favor do amor impossível com o espanhol Antonio (John Gilbert), mas, ferido ao defender a honra, ele morre em seus braços quando os dois partem num navio. Ela vai até o convés e, entregando-se a uma dor sem nome, lança o olhar para o infinito. O olhar de Garbo, ali, é mais belo e mais intenso que o de Mona Lisa...

Acho que nessas cenas, leitores, está a explicação para o fascínio que o cinema exerce sobre nós. Bem na linha do que afirmou Nietzsche: "A arte existe para que não se morra da realidade." Por que não sonhar, não viver ou reviver as grandes emoções através de um belo filme, por exemplo? Como numa das passagens a que me referi, quem de nós, um dia qualquer, não se recordará de que apenas apertou o ombro da pessoa amada, quando tínha tanto por dizer -- até que se fosse da nossa vida para sempre?

Precisamos dos ovos

Dia desses fiz alusão a uma mesa-redonda de que participei sobre cinema em que tinha de listar os "filmes da minha vida", a exemplo do que tiveram de fazer todos os convidados. Falei de como é vulnerável ter de escolher, entre centenas, aqueles filmes de que mais gostamos. Qualquer lista vai sofrer uma ou outra alteração ao sabor das contingências, das subjetivações decorrentes do nosso estado de espírito num determinado momento da vida. Um filme, depois de muitos anos, pode ganhar ou perder numa segunda vez que o vemos. Prefiro, assim, comentar cenas e sequências que impressionaram ou impressionam por alguma razão. Esta semana, por exemplo, fui rever um filme de Woody Allen de que não tinha gostado quando do seu lançamento, lá por fins dos anos 70. Noivo neurótico, noiva nervosa é o título em português, com Allen e Diane Keaton (maravilhosa!) nos papeis principais. E adorei.

É a história de um americano, Alvy Singer, que faz sucesso como comediante mas é um desastre com as mulheres. O cara é cheio de complexos, preconceitos e instabilidades emocionais, supostamente herdados da vida familiar. Um dia, através de um amigo, conhece Annie Hall, uma cantora de casas noturnas. Apaixonam-se, passam a viver juntos, até que ela, não suportando as manias de Singer, resolve romper a relação e recomeçar sozinha. É quando ele descobre o quanto Annie é a mulher de sua vida e passa a fazer de tudo para reconquistá-la. O filme tem uns diálogos geniais, marcados pela fina ironia e o elevado humor de um gênio.

Lembro que à época Noivo neurótico, noiva nervosa fez um estrondoso sucesso, assinalando, segundo a crítica, o começo de uma nova fase da carreira de Woody Allen, mais maduro como roteirista e diretor. O filme, de fato, tem uma lógica estrutural que beira a perfeição, com um tom e um ritmo narrativo inteligentes e articulados com um rigor poucas vezes alcançado em realizações do gênero, uma comédia com jeito de drama romântico da melhor espécie. Mas eu falava de uma cena ou sequência que merecesse destaque. Pois bem, vamos a ela.

Convencido de que perdera Annie para sempre, Alvy Singer empenha-se em revê-la, para que façam juntos um balanço da separação e dos efeitos disso em suas novas vidas. É aí que a película passa a mostrar em flashback os bons momentos dos dois juntos. Mas Woody Allen faz isso repassando cenas já vistas pelo espectador, o que dá ao recurso uma força dramática muito maior e muito mais poética. Ao final do encontro, num restaurante de Nova York, o próprio Alvy Singer chega à conclusão de que ele e Annie já não têm mais nada em comum, além de uma amizade. Não seria Woody Allen, todavia, se a cena não reeditasse o timbre anárquico com que o cineasta explora os conflitos humanos e suas oscilações de humor. É assim, pois, que a voz em off do protagonista encerra qualquer possibilidade de reconciliação -- e faz uma reflexão sobre relacionamentos que se aplica ainda melhor aos dias de hoje: "Percebi a pessoa incrível que ela é, e como era bom poder conhecê-la. E pensei na velha piada: um cara vai ao psiquiatra e diz, 'doutor, meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha'. E o doutor diz: 'Por que não o convence?' E ele responde: 'Deveria, mas eu preciso dos ovos'. É o que eu acho dos relacionamentos de hoje. São totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas continuamos neles porque a maioria de nós precisa dos ovos."

Considero essa sequência um primor em termos cinematográficos. Allen explora com maestria as possibilidades narrativas do cinema, mas, como é próprio de sua arte, nunca perde a oportunidade de filosofar sobre as pessoas, as contradições humanas, a superfialidade dos sentimentos. Noivo neurótico, noiva nervosa, um filme com mais de 30 anos, parece nos dizer muito sobre a nossa época. É duro com o amor pensar assim, mas acho que insistimos nos relacionamentos porque precisamos dos ovos.


Esquecer o amor louco

Li outro dia que Tarantino, o renomado diretor de Cães de Aluguel, sempre que arranja uma nova namorada tem por costume mostrar à garota o filme Rio Bravo. Se ela não gosta, termina o relacionamento. Faço isso com Cinema Paradiso e, felizmente, nunca tenho me decepcionado. É termômetro de inteligência e sensibilidade. Mas, voltando ao clássico do western, é mesmo maravilhoso. Esta semana, revi-o com Carolina, minha filha, a quem, sempre que posso, tenho apresentado a fina flor do cinema. Lembro que assisti ao filme de Haward Howks ainda menino, no Cine Alvorada, em Iguatu, pelas mãos de um irmão que era o maior cinéfilo da cidade naqueles tempos.

É a história de um xerife que prende um assassino, irmão de um fazendeiro rico e poderoso, a quem tem de enfrentar (e às dezenas de comparsas) contando apenas com a ajuda de um alcoólatra e um velho manco, aos quais se somará um quarto homem da metade da película em diante. Acho que é um dos filmes que melhor discutem, entre outros temas, o companheirismo e a lealdade. Para não falar do drama do alcoolismo e a devastação que ocasiona na vida de um homem. A cena em que os quatro, recolhidos a uma sala da cadeia, preenchem o tempo cantando e tocando violão é inesquecível. O roteiro, soberbo.

A propósito, dia desses participei de uma mesa-redonda sobre cinema em que cada debatedor tinha de apontar os filmes que mais lhe marcaram em todos os tempos. Não hesitei: entre aqueles que ficaram, que fizeram despertar em mim o cine-entusiasta que sou, está Rio Bravo, que, no Brasil, agora recordo, foi exibido com o nome de Onde Começa o Inferno.

Essa coisa de 'os dez', 'os cem mais', nunca é infalível e costuma se curvar aos caprichos da memória e das subjetivações de circunstância. Lembro que mencionei alguns que aparecem com mais frequência nas minhas seleções: Janela Indiscreta, Os Incompreendidos, Ladrões de Bicicleta, Acossado, Viagem à Itália, Casablanca, Morangos Silvestres, para lembrar dos que dificilmente esqueço. E Hiroshima, Mon Amour, que considero uma das maiores revoluções estéticas do cinema.

A história, sabe-se, é a um tempo simples e complexa: uma atriz francesa está no Japão para as gravações de um filme sobre os horrores da guerra e conhece um arquiteto, casado, como ela, com quem vive uma aventura amorosa de poucas horas. A paixão, todavia, é desconcertante, o bastante para começar a apagar nela as recordações dolorosas de um amor antigo: durante a ocupação alemã na França, ela se apaixonara perdidamente por um soldado inimigo que é assassinado pelos resistentes após a libertação. O filme, assim, fala da superação da dor e do sofrimento, e da capacidade humana de apagar sentimentos que parecem inapagáveis. O final é aberto e não se pode afirmar que ela volte para o marido que a espera em Paris. Na última sequência, contudo, ele faz para a amante uma declaração que sou capaz de repetir de cor: - "Em alguns anos, quando eu a tiver esquecido e outras histórias como essa, por força do hábito, tiverem acontecido, eu me lembrarei de você como um símbolo do esquecimento até mesmo do amor mais louco." Não é sem razão que o roteiro é assinado por ninguém menos que Marguerite Duras, a dama do amor perdido.

Tem a frescura, falta a classe

Do cantor e radialista Beu Paulino, por telefone, vem a informação: - "Foi boa a repercussão da sua crônica sobre Paula Fernandes. O texto expressa o sentimento que ficou entre nós sobre ela." Daqui, de Fortaleza, e de outras cidades, recebo e-mails que se reportam ao mau comportamento da jovem cantora a cada show que faz Brasil afora. De Piracicaba, por exemplo, leitora faz ecoar a afirmação de que se trata de uma pessoa arrogante e mal-educada: - "Aqui [em Piracicaba] foi extremamente antipática com o público."

Fico pensando o que faz uma pessoa famosa agir assim. Entre os nomes de peso, João Gilberto é um dos casos mais conhecidos: não raro exige palcos especiais para suas apresentações. E não estou falando de palcos com as condições ideais para um artista da sua importância se apresentar. Refiro-me aos palcos de acrílico que exige vez e outra. É comum parar o show para que se desligue um aparelho de ar condicionado ou seja retirado do auditório um espectador menos contido -- que o aplauda com mais entusiasmo, por exemplo. Mas aí são excentricidades de um gênio que o show business parece ter assimilado.

Engraçado mesmo eram as loucuras de Tim Maia. O livro de Nelson Mota traz o que se conhece de mais curioso sobre o cantor, leitura que recomendo para o fim de semana dos que apreciam coisas do gênero. De minha parte, não conheço nada mais inacreditável do que vi certa vez no Teatro José de Alencar. Era uma peça com o ator Dolabella, Eduardo Dolabella (o pai), que sentindo-se incomodado com o som de uma pregação religiosa nas imediações do teatro, desceu do palco, atravessou correndo o auditório e, em meio à multidão que ouvia o evangélico, atirou para o alto a caixa de som do coitado e lhe bateu na cabeça seguidas vezes com o microfone. Um horror.

Entre os políticos, mesmo os tupiniquins, há os boçais tipo Tasso Jereissati, que costuma levar em sua comitiva o cozinheiro que lhe prepara os pratos. Há os que conduzem na bagagem o uísque, temendo falsificações. Sem falar nos lencinhos desinfectantes com que "limpam" as mãos depois de cumprimentar os eleitores pobres, acreditem. Fala-se que um renomado político paulista, em viagens eleitoreiras pelo interior do Nordeste, foi visto bebendo Waiwera, uma água mineral da Nova Zelândia, de que trouxera algumas garrafas no avião. Folclore político, quero crer.

Acho, contudo, que o mal está menos na 'frescura' em si que na forma de praticá-la. Quem não sabe, que, neste sentido, Roberto Carlos é supostamente o mais excêntrico dos artistas brasileiros? Na última vez que esteve em Fortaleza, a ambientação do quarto do hotel foi toda refeita a fim de que o azul fosse a cor dominante. Mesmo da parte externa, como hall de entrada e corredores, tiveram que retirar o menor dos adereços em que se destacasse o marrom. Como um rei que se preza, no entanto, o faz com a discrição e a elegância que o preservam de qualquer exposição. Ao final do show, atira flores. Como abençoada do Rei, é possível que Paula Fernandes tenha buscado nele a inspiração. Quer dizer: tem a frescura, mas lhe falta a classe.

O homem que engarrafava nuvens

A atriz Denise Dummont me telefona de Nova York, através da prima Marlene Teixeira. Estava dando os primeiros passos para a realização de um projeto que tinha por objetivo resgatar a memória artística do pai, Humberto Teixeira. Dois ou três dias depois, encontramo-nos na sede do então Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará. De cara, surpreende-me o número de participantes do evento, muito maior do que pensava pudesse ser. Foi uma noite de reencontro com conterrâneos, parentes e admiradores do autor de Asa Branca. Lembro que fui convidado a falar em nome da família e da colônia iguatuense ali presentes. Na ocasião, Denise e eu trocamos um farto material sobre Humberto, que, na mesma madrugada (já era tarde, quando nos despedimos), seria furtado do meu carro, para minha tristeza e espanto.

Meses depois, Marlene e eu estreitamos contato com Denise. Ela viria a Fortaleza e Iguatu para rodar algumas sequências de O homem que engarrafava nuvens, como intitulara o filme a partir de uma frase do pai em entrevista ao historiador Nirez. Denise queria um depoimento meu para o filme. Na época, infelizmente, não pude recebê-la, encontrado-me em viagem para fora do estado. Marlene e Euriquinho Teixeira o fizeram e ambos, tratados com especial carinho por Denise, estão no filme de Lírio Ferreira, o resultado final do projeto levado a efeito com brilhantismo pela atriz, e a que -- inexplicável! -- só ontem pude assistir em casa de Deusdedith Teixeira Neto, que reuniu familiares para uma sessão do filme regada a bom uísque. Fiquei encantado.

Trata-se do premiadíssimo documentário que chega em nova tiragem às principais lojas do ramo. Um clássico do gênero, que, em pouco mais de duas horas, reverencia a obra do ilustre filho de Iguatu e resgata a memória de um gênio esquecido. O filme conta com a participação, depoimentos e interpretações marcantes, de grandes nomes da música popular brasileira, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Lenine, Gal Costa, Maria Bethânia, Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Bebel Gilberto e David Byrne, que canta Asa Branca em inglês e dá sobre a música de Humberto Teixeira um dos mais relevantes depoimentos sobre o letrista e compositor iguatuense. Imperdível.

Embora tenha acompanhado com interesse o belíssimo projeto de Denise Dummont, do nascedouro à conclusão, confesso: só agora pude de fato dimensionar com exatidão quem foi e o que realmente representou a figura de Humberto Teixeira para a cultura musical brasileira. Tomando por base as declarações de Gilberto Gil, Caetano Veloso e, mesmo, David Byrne, não é muito dizer que Humberto Teixeira é para a MPB como um outro João Gilberto. É comprar o DVD e conferir se exagero, minimamente que seja.

Como nada é, todavia, perfeito, faço uma restrição: a sequência do filme em que Margarida Jatobá expõe questões de foro íntimo de sua vida ao lado de Humberto, é de uma deselegância inaceitável e poderia ter sido evitada sem qualquer prejuízo para o produto final de O homem que engarrafava nuvens. Antes pelo contrário, reportar-se à traição ao marido da forma como o faz, cedendo à curiosidade 'encenada' de Denise Dummont, afirmando que ao lado da genialidade do artista havia o ciúme e o conservadorismo do interiorano, é detalhe que nada acrescenta ao extraordinário trabalho de Lírio Ferreira. O filme como um todo, no entanto, é excepcional e justifica os prêmios nacionais e internacionais que arrebatou. Vale conferir.

A carta de Pablo

O 11 de setembro, que assinala este ano o décimo aniversário do atentado às torres gêmeas, tem para mim, por uma razão diferente e íntima, um significado particularmente importante: é a data de aniversário do meu filho Saulo, uma das duas pessoas que mais amo. Mas é, também, a data de um outro aniversário de que nunca esqueço, pela força do seu significado do ponto de vista das ideias que envolve e dos sentimentos que me causa: nesse dia, numa manhã de terça-feira de 1973, sob a chancela dos Estados Unidos, a capital chilena era massacrada por ações militares que culminariam com o bombardeio do palácio do governo e com a morte do presidente Salvador Allende. Nas ruas, nas praças, nos quarteis, da forma mais cruel que é possível um homem imaginar, civis, entre os quais indistintamente contavam-se idosos e mulheres, muitas vezes em presença de filhos e cônjuges, eram submetidos à práticas de tortura bárbaras, quando não sumariamente executados a tiros de fuzil ou atirados de helicópteros, vivos e conscientes do que lhes faziam, naquele instante, oficiais do exército chileno treinados pelos norte-americanos. Era 11 de setembro também. Nas proximidades da data, há pouco menos de nove anos, um chileno escreveu esta carta que um amigo me enviou por e-mail e que fiz questão de reproduzir abaixo. Não se trata de fechar os olhos para o que existe de monstruoso naquilo que ocorreu aos americanos há exatos dez anos, mas de tentar abri-los um pouco mais para outras realidades.

"Queridas mães, pais e entes daqueles que morreram em 11 de setembro em Nova York. Eu sou chileno, moro em Londres. E gostaria de dizer que temos algo em comum: seus entes queridos foram assassinados como os meus. E nós temos uma data em comum, o 11 de setembro. Em 1970, houve uma eleição. Eu tinha 18 anos e votei pela primeira vez. Tínhamos um lindo sonho de construir uma sociedade na qual o povo repartisse o fruto do seu trabalho, a riqueza do País. Em setembro de 1970 fomos votar e vencemos. No ar, bandeiras brancas, vermelhas e azuis. Quando uma história começa, em cada rua, em cada esquina, vozes se erguem como ondas num oceano interminável. Punhos se agitando no ar. Da montanha até o mar. Havia leite e educação para as crianças, terras improdutivas foram dadas a camponeses sem terra. O carvão, as minas de cobre e as indústrias de base, se tornaram propriedade de todos nós. Pela primeira vez na vida as pessoas tinham dignidade. Mas não sabíamos como aquilo era perigoso ("Não sei porque devemos deixar um País se tornar comunista pela irresponsabilidade de um povo", disse Henry Kinssinger). Nossas decisões democráticas, nossos votos, não eram relevantes. O mercado, o lucro, o capital eram mais importantes que a democracia. [...] O presidente de vocês, Nixon, disse que faria nossa economia gritar. Ele mandou que a CIA se envolvesse diretamente na organização de um levante militar, um golpe de Estado. Dez milhões de dólares, mais, se necessário, estavam à disposição para aniquilar o governo de Salvador Allende. [...] Seus dólares sustentaram um grupo neofascista que gerou violência e bombardeou fábricas e centrais elétricas. Em 11 de setembro os inimgos da liberdade cometeram um ato de guerra contra o nosso País. Assim que clareou tropas e tanques atacaram o palácio presidencial. Allende, seus ministros e assessores estavam lá dentro. Allende não fugiu quando o Palácio La Moneda foi bombardeado. Ele foi assassinado. Terça-feira, também foi numa terça-feira de 11 de setembro de 1973. Um dia que destruiu nossa vida para sempre. Levei um tiro no joelho e depois eles bateram com a minha cabeça no chão. Eles me bateram tanto, que às vezes eu desmaiava. [...] Ligavam fios elétricos nas genitálias, enfiavam ratos na vagina das mulheres. Treinavam cães para estuprar mulheres. E ficamos sabendo da caravana da morte: o general que ia de cidade em cidade fazendo execuções a esmo. Trinta mil foram assassinados. Trinta mil! [...] Eles me consideraram comunista. Me condenaram à prisão perpétua, sem julgamento e sem direito à defesa. Fui libertado cinco anos depois, mas tive de sair do meu País. Não posso voltar ao Chile, agora, embora só pense nisso. O Chile é meu lar, mas o que aconteceria aos meus filhos? Eles nasceram em Londres. Não posso condená-los a um exílio como o meu. [...] Mães, pais e entes queridos dos que morreram em Nova York. Logo chegará o vigésimo nono aniversário do nosso 11 de setembro e o primeiro de vocês. Vou me lembrar de vocês. Espero que vocês se lembrem de nós. PABLO."

De Paula Fernandes a Wong Kar Wai

Leio na coluna de Hildernando Bezerra sobre o show de baixaria da cantora Paula Fernandes em Iguatu. Com o estilo elegante de sempre, Hildernando levanta uma bela reflexão sobre a vaidade humana, tomando por base a arrogância da cantora desde as suas primeiras horas na cidade -- e o barraco que aprontou durante a sua apresentação à noite. Acho que o colunista foi mais que generoso com a artista, chegando mesmo a cometer o que me parece um equívoco em termos de estética musical: - "Esta jovem cantora tem tudo para ser a nova Ângela Maria dos tempos modernos." Longe disso, meu caro.

Desde que fez a sua primeira aparição em nível nacional, sob a chancela de Roberto Carlos, é comum se ouvir falar do talento da garota, por muitos considerada a grande revelação da MPB nos últimos doze, quinze anos. Um exagero, para não lembrar que somos de fato o público menos exigente do mundo artisticamente falando. Há quem cometa o desvario de comparar o tal "fenômeno" à Norah Jones. Santa ignorância. Com uma voz enjoada que mais lembra Roberta Miranda, de quem me parece ter herdado, além do estilo, o incomparável mau gosto, Paula Fernandes tem da cantora americana o mesmo que eu de Frank Sinatra, ou seja, nada.

Quanto a formar "comissão de notáveis para recepcioná-la, incluindo autoridades locais e estaduais" (sic), meu querido Bezerra, é, aos meus olhos, tanta babaquice quanto exigir trânsito exclusivo no hotel, como quis a cantora. Coisa mais provinciana! Não me leve a mal, que já falei da elegância do seu texto e da forma inconfundível e invariavelmente inteligente com que o amigo brinda seus leitores, entre os quais figuro toda semana, com reflexões agudas sobre a vida de todos nós, pobres mortais. Essa gente não tem mais o que fazer que festejar chegada de cantora?

Falei de Norah Jones, que admiro desde 2002 Come Away Wite Me, seu álbum de estreia, e me ocorre lembrar um belo filme que só há pouco vi: Um beijo roubado, de Wong Kar Wai, em que Norah atua como atriz ao lado de Jude Law, Rachel Weisz e a impagável Natalie Portman. E atua bem, diga-se de passagem, na pele de Elizabeth, a jovem de coração partido que divide com as personagens de Jude Law e Natalie Portman o brilhantismo do filme.

Na linha de Anjos caídos (1995) e Amor à flor da pele (2000), com que explodiu como um dos maiores cineastas da atualidade, Kar Wai realizou com Um beijo roubado (2007) um dos seus filmes mais sedutores. A luz, com que dá ao colorido da imagem um tom intraduzível com palavras, e a trilha sonora estonteante de tão bela, por si só são capazes de conquistar o espectador. É aí que Jones, Law e Portman vão viver, como quase sempre na filmografia do diretor chinês, suas condenações aos diferentes estágios do amor.


Que o leitor me dê um desconto por ter guinado de Paula Fernandes a Norah Jones e Wong Kar Wai. Está dito.



O que sei de Lula

Acho uma prova de correção intelectual não emitir opinião sobre aquilo que se desconhece. Por isso, antes de escrever a coluna de hoje, li O que sei de Lula, de José Nêumanne Pinto, mesmo enojado já nas primeiras páginas. Não falo da qualidade estilística do texto, que traz a marca de um escritor de muito talento. Refiro-me às razões que por certo moveram Nêumanne na produção da obra, visivelmente carregada de ressentimento, de ódio pelo ex-presidente, com quem teve ligações pessoais íntimas, a concluir pelo seu próprio relato. E de quem, contrariados alguns interesses que omite da sua obra, é, agora, inimigo figadal.

É um levantamento exuberante de informações distorcidas, manipuladas ao sabor dos interesses (inconfessáveis!) do autor. Aproveitando-se da convivência estreita com Lula, nos tempos do ABC, Nêumanne faz revelações que põem à mostra, antes de tudo, a fragilidade do seu caráter e a ausência de qualquer princípio ético, elementar que seja, naquilo que faz. Pelo menos se tomarmos como referência o livro em questão.

Mas O que sei de Lula não deve ser condenado unicamente pela avaliação mal intencionada que faz de Luiz Inácio Lula da Silva, cuja história, reconhecida para muito além das fronteiras nacionais, por relação de contraste colocam o livro no seu devido lugar. Ele é criminoso por uma razão mais forte, que constitui, esta sim, uma falta prevista em lei: o racismo, o preconceito por que conduz a sua análise do perfil psicológico do seu biografado. Chega a afirmar, sem meias-palavras, que o ex-presidente "nasceu na hora, no lugar e na família certa", numa forma explícita de detratá-lo por ser, além de pobre, do Nordeste, onde, segundo sua visão facistóide (e com artifícios de linguagem que tentam disfarçar o que diz), é improvável que nasça alguém com as qualidades necessárias para presidir um País.

Cita, deformando o conteúdo das palavras, Euclides da Cunha e Antonio Conselheiro. De forma deselegante para quem escreve a biografia de um ex-presidente, diz que Lula nasceu de "um pai canalha e uma mãe santa". Numa metáfora sugestivamente malcheirosa, compara-o a uma cebola, de quem diz ter retirado "a casca ideológica e política para chegar ao homem". Tudo, para o leitor minimamente informado, sem conseguir esconder as motivações servis de um empregado da Folha de São Paulo, o mais reacionário e antipopular dos grandes jornais brasileiros. Não à toa, pois, exaltando o livro, O que sei de Lula traz como folha de rosto comentários de colunistas do matutino paulistano, entre os quais, infelizmente, o também nordestino e grande poeta Ferreira Gullar.

Com o seu livro, recém chegado às livrarias da cidade, nas entrelinhas ou nelas mesmas, José Nêumanne Pinto presta um definitivo desserviço à democracia -- e fere de morte a ética jornalística brasileira.

O clube do filme

Amiga da praia me falara cheia de entusiasmo: - "Você precisa ler O Clube do Filme, é maravilhoso!" Dias depois, deparo com o livro na Cultura e me surpreende o nome do autor: David Gilmou. Mas, espera aí... O guitarrista da Pink Floyd? Não era. Trata-se de um crítico de cinema de quem - confesso - nunca ouvira falar. Mora em Tolonto, no Canadá, trabalhou no Festival Internacional do Cinema de lá e atualmente apresenta programa de tevê sobre a sétima arte. Compro o livro e, sentado a uma poltrona da própria livraria, leio as primeiras páginas. Não consegui mais largar.

O livro narra uma história real vivida por David. Desempregado, separado da mulher, sem dinheiro e atravessando, por motivos óbvios, um verdadeiro inferno astral, David tem pela frente mais um grande problema para resolver: o filho Jesse, 15 anos, acumula reprovações escolares em todas as disciplinas. É aí que o pai tenta a saída inusitada: o filho pode abandonar os estudos, desde que, em contrapartida, passe a ver obrigatoriamente três filmes por semana. Detalhe: com o pai.

A história seduz você de cara, simples e maravilhosamente bem contada como havia tempos não via de um autor inédito, pelo menos para mim. Não bastasse o enredo extremamente curioso, O Clube do Filme tem um jeito levíssimo de falar de filmes, o que não requer, pois, que o leitor seja um expert no assunto. Começa com um dos filmes da minha adoração, Os Incompreendidos, de François Truffaut, com que o pai-cinéfilo inicia o filho no mundo de sonhos do cinema.

O método deixa na poeira muita teoria sobre a verdadeira razão de ser da escola. Enquanto se divertem, assim, pai e filho procuram tirar dos filmes a que assistem o que há de fundamental em cada um deles, na perspectiva da forma e do conteúdo. De Truffaut, por exemplo, vem o gancho para discutirem o futuro de um adolescente que larga os estudos para enfrentar a vida sozinho. Com isso, como num milagre de que só a grande arte é capaz de operar, estão abertas para o pai as portas do existe de mais profundo na alma de um filho. Está selada a verdadeira amizade entre pessoas de mundos diferentes, mas igualmente carentes de afeto e entrega espiritual. Bonito.

Não bastasse discutir com leveza e encanto o que há de mais representativo de alguns filmes memoráveis, de A Doce Vida a Instinto Selvagem, de Os Reis do Iê, Iê, Iê a O Poderoso Chefão, o livro, já nas primeiras páginas, traz uma lição imperdível para aqueles que querem se iniciar na enriquecedora e incomparavelmente agradável experiência da cinefilia: "a segunda vez que você vê uma coisa é na verdade a primeira vez. Você precisa saber como a coisa termina antes de apreciar sua beleza desde o início." De resto, acho que a lição extrapola os limites do cinema. Na vida, quase sempre, também é assim.

A bela construção de um mito

Leitor me envia e-mail com texto supostamente escrito por uma psicóloga a respeito do filme Cazuza, de Sandra Werneck e Walter Carvalho. Entre outras coisas, o que se pretende um manifesto em favor da família, traz afirmações do tipo: "[...] reverenciar um marginal como ele [Cazuza] é no mínimo inadmissível." E vai além, cuspindo à direita e à esquerda expressões gratuitamente agressivas contra o poeta precocemente falecido. Chama-o, sem meias-palavras, de marginal, traficante, criminoso e outras coisas do gênero. Compara-o, reeditando afirmações de um juiz de nome Siro Darlan, com Fernadinho Beira-Mar, de quem se diferenciaria tão-somente por ter nascido na Zona Sul do Rio de Janeiro. À dada altura, comete um erro leviano de interpretação do filme ao afirmar: "Precisei conversar muito com ela [a filha com quem diz ter assistido ao filme] para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais e beber até cair e outras coisas fossem certas, já que é isto que o filme mostra."(sic)

Li a baboseira e fui rever o filme em DVD. Não há qualquer incitamento à vida desregrada, como quis a mãe 'aflita'. Pelo contrário, o filme mostra com honestidade a trajetória infeliz do cantor, o que, conversei sobre isso com uma filha adolescente, antes adverte os jovens para a roubada que é a droga, qualquer que seja. Até nesse sentido, portanto, o filme merece aplauso. É ético, responsável, decente. Mas é arte, e como tal explora em profundidade o drama humano, o realismo duro da vida de um astro. Acima de tudo, no entanto, um belo filme sobre a música, com algumas sequências que merecem figurar no conjunto do que se fez de melhor no cinema brasileiro.

A cena em que Cazuza, durante um show, depois de se desentender com Frejar (que lhe causara numa discussão um ferimento sério), sob o efeito mágico da música, beija-o, como se nada houvesse ocorrido, é uma lição sobre o perdão, de amor a amizade e o que ela representa na vida dos homens. Ou outra, quando dá um beijo no garçom para agradecer por levar à mesa o AZT que a mãe lhe enviara. Com rigor estético, é esse menino intenso, visceral e docemente perdido que o filme nos apresenta. Não outro, o marginal criminoso do tal manifesto em defesa da família. A cena em que Cazuza e o pai, já na fase da agonia do artista, choram abraçados, compulsivamente, é uma aula de psicologia sobre o afeto e a dor que, nas circunstâncias do filme, parece unificar os dois.

A direção de arte, a poesia que emana dos diálogos, por pesados que sejam num e noutro momento do filme, a iluminação que beira a perfeição e a beleza da trilha, que se confunde em diegese e extradiegese* com a mesma força e o mesmo encanto, são elementos arrebatadores, de um romantismo grandioso, que nada justifica a leitura ingênua (mal-intencionada?) da psicóloga carioca. Para não falar do roteiro, que busca com correção acompanhar a dramática trajetória percorrida pelo jovem poeta. E consegue.

Nesse sentido, aliás, a montagem é irrepreensível, os planos têm a duração precisa, as cenas obedecem a um critério narrativo incomum para filmes do gênero, nos quais o dinamismo das tomadas e o movimento vibrante das imagens quase sempre dificultam o perfeito entendimento do argumento. A tudo, soma-se a interpretação brilhante de Daniel Oliveira e Marieta Severo nos papeis principais. Como observou Caetano Veloso, à época do lançamento, sobre o filme, com Cazuza o Brasil "soube dar consistência à construção de seus mitos."

* Diz-se diegético, quando está dentro da história. Os shows de Cazuza, durante o filme, por exemplo. Extradiegético, quando apenas ilustra a imagem como trilha sonora do filme.









De volta à escuridão

Sinto decepcioná-los, mas minha consciência manda revelar: ando um tanto apaixonado pela música de Amy Winehouse. Antes de parar para escrever esta coluna, fiz minhas as palavras da cantora inglesa numa entrevista que li há pouco: "Oh, meu Deus... O que há de errado comigo? Tem (sic) alguma coisa errada comigo." Pois é. A insistência das execuções no rádio e na tevê, desde sua morte há coisa de um mês, mais o estímulo da minha filha Carol, que sempre a admirou muito como cantora, fizeram-me atentar para a qualidade musical do seu trabalho e, acima de tudo, a força dramática de sua interpretação. Impressionante.

Não bastasse a tristeza que é saber da morte de uma jovem talentosa (e de forma revoltante), o que, por si só, já comove o coração da gente, com o passar dos dias - reforço! -, fui percebendo o que a obra da cantora, interrompida tão prematuramente, representava do ponto de vista estético. Daí a querer saber um pouco mais sobre ela, como foi sua vida, que tipo de educação recebeu dos pais, como dizia a minha mãe, 'foi um pulo'. E logo me descobri lendo o que me chegava às mãos sobre Amy, assim, com muita intimidade. Amenidade à parte, na contramão do que sempre achei que ocorresse aos jovens vitimados pela droga, Amy Winehouse teve uma vida familiar tranquila, sem traumas vindos da infância.

Ela nasceu e cresceu numa família israelita, em Southage, nos arredores de Londres. Tinha com o pai uma relação carinhosa, um pouco menos com a mãe, a quem descreve como fria diante da sua presença: - "Quando eu era pequena, se entrasse num cômodo em que meu pai estava, ele me beijava e fazia carinho. [...] ela era um pouco menos", disse, já adulta. A imprensa, aqui se excluindo os tabloides sensacionalistas, deu a ver que, por trás do mito, nada houve de muito anormal que pudesse levar Amy ao desajuste psicológico que marcaria tragicamente seus últimos dias. Fala-se, e é este o argumento mais aceitável, que teve uma vida amorosa complicada, sob o domínio de um psicopata por quem teria sido apresentada às drogas. Nada disso importa mais, Amy Winehouse morreu da forma mais revoltante, aumentando a constelação dos astros atormentados que cairam na mesma roubada, a exemplo de Hendrix, Joplin e Holiday.

O fato é que tenho ouvido muito a sua música, em casa, no carro, a caminho do trabalho, em todos os lugares em que um pouco de música e um coração pulsando nos ajudam a tocar a vida, a vivê-la com mais amor e da forma mais saudável. Como em milagre, a mesma música que não foi o bastante para aliviar as dores e a falta de esperança de uma jovem tão bonita, sensível, vibrante como a autora das belíssimas Love is a losing game e Back to black. Agora, Carol, filha querida..., agora entendo por que Amy Winehouse, com sua voz, cobriu o mundo como um tsunami. Que pena que tudo tenha terminado assim.

Benignos com o amor

A propósito da crônica Perdas e Danos, publicada há coisa de uns quinze dias neste espaço, leitora envia a seguinte mensagem: - "Dessa vez foi benigno com o amor, mais do que com a coisa amada. O sfumato se dá com o objeto amado, já com o amor..." (sic). O texto dela, como se vê, embora reticente e 'estiloso', é de uma pertinência que bem revela a delicadeza e a sensibilidade da leitora, seja ela quem for. Vejamos: em que pesem as reticências, a lógica do significante textual remete a uma afirmação absolutamente correta, "Esquece-se a pessoa amada, nunca o amor." Assino embaixo.

Mas, observando uma praxe da prática jornalística, que admite sempre que o leitor de agora pode desconhecer o texto anterior, resumo o que dizia a tal crônica sobre a cena final do filme Perdas e Danos, de Louis Malle. A imagem desfocada da mulher que foi amada um dia, aos olhos de quem superou a dor, é uma metáfora do esquecimento, que o tempo impõe, felizmente, aos que não foram felizes no amor. O comentário da leitora, assim, insisto, não nega o que está na crônica, mas enriquece o seu texto, quando afirma, embora de forma reticente: nunca se esquece o amor, se ele foi grande um dia. Bate.

Na coluna da semana passada, por coincidência, citávamos Quintana, o poeta: "Que importa se só restaram cinzas, se a chama foi alta e bela?" Parabéns, leitora, você foi no nevrálgico da questão. É que a pessoa, vemos com os olhos, o amor, com o coração. Um dia, no happy hour de um barzinho, no semáforo da esquina, na mesa de canto de um restaurante..., assim, sem que esperássemos, deparamos com a pessoa por quem fomos capazes de morrer um dia. E, no entanto, como na imagem do filme de Malle, já não a reconhecemos com as mesmas qualidades que possuia o objeto do nosso amor. Mas, do amor, nunca nos esquecemos. Ele vai ter, num escaninho da memória, um lugarzinho que é só dele, onde ficará para sempre.

Que bom que é assim e não de outra maneira. A cada nova relação, uma nova chance de ser feliz no amor. O que não é saudável, como num filme de Rohmer*, é que se fique escravo do que passou, por mais inesquecíveis que tenham sido as coisas que se viveu a dois. A vida muda, como as penas do pássaro, a roupagem da flor, ou, como dizia Déborah, um ex-amor, até mesmo a beleza dos corpos, em fino pó que não tem cor. Rima à parte, é isso, minha cara leitora. Sejamos benignos com o amor.

* Refiro-me ao cineasta francês Eric Rohmer, especialista em discutir a fé desesperada na possibilidade de reencontro com o amor perdido.

O amor que não se acaba

Que importa restarem cinzas, se a chama foi bela e alta?
(Mário Quintana)

Todos os gestos de amor me comovem. Por isso me comoveu tanto a leitura do romance O Ostensório do Amor, o novo livro de Mary Anne Bandeira. Por que a obra dela, para além das muitas outras qualidades que tem, é, antes de qualquer outra coisa, isto: um gesto de amor. Li-o de um folego, assim numa entrega absoluta de corpo e de espírito. E fechei o livro, passada a última folha, com o coração exultando de contentamento. Não lembro de outra obra que venha em momento tão oportuno, para reacender lembranças e gratidão que o tempo, impiedosamente, vai apagando.

Vi a autora desse belíssimo O Ostensório do Amor crescer. Minto. Cresci ao seu lado, na convivência saudável de nossa infância na vida vidinha do interior, de um Iguatu que já não existe, que é apenas, como quis o poeta, "um retrato na parede. Mas como dói."

O livro, num estilo que está a meio caminho entre a biografia e o romance propriamente dito, foi escrito com tamanha elegância e com tal domínio de linguagem para o que se propôs, que, tendo-o às mãos, a exemplo do que me ocorreu há pouco, não se consegue deixar de percorrer as suas 209 páginas, até darmos com o fecho certeiro com que Mary Anne encerra a sua comovente história, afirmando, sobre o protagonista, aquilo que todos sabem: Aluísio Moreira "em algum lugar do universo está vivo no amor de Deus."

Num detalhe de uma vida tão rica e tão exemplar, na breve narração de um fato, nos vários depoimentos que o livro resgata, vamos compondo e recompondo as nossas recordações do professor Aluísio Moreira, esse homem iluminado, essa bondade personificada com que tive a alegria de estar tantas vezes, como colega de trabalho e como amigo.

A história de amor de Aluísio e Íris, irmã de Mary Anne, precisava ser mesmo contada, assim como o fez a talentosa prima, amiga e conterrânea. Seu texto flui, sem outra preocupação que não seja a de ser verdadeiro, fiel aos fatos e honesto para com as pessoas que aparecem numa ou noutra página, e que tiveram o privilégio de fazer parte da vida desse casal admirável. Um homem e uma mulher unidos por fortes laços emocionais, pelo poder do amor e da fé. Dois seres que nem mesmo a morte foi capaz de separar: por isso, como está no livro, decorridos tantos anos, Íris "arruma-se e perfuma-se como se fosse para ele, ainda bela!"

Bela, como será para sempre.


A mensagem de Wagner Tiso

Do leitor e amigo Hilton Holanda vem o documento do YouTube com o vídeo da cerimônia de encerramento dos Jogos Mundiais Militares, realizados na cidade do Rio de Janeiro. Mais precisamente, aliás, a apoteótica apresentação do hino nacional brasileiro pelos músicos Wagner Tiso, que assina o arranjo (belíssimo), Antonio Adolfo, Amilton Godoy, Nelson Ayres, João Carlos de Assis Brasil e Artur Moreira Lima. De arrepiar, literalmente!
 
Refeito da emoção, que havia tempos não sentia diante de uma execução do hino nacional, um tanto vulgarizado nos campos de futebol (quase sempre mal cantado ou apresentado em frações), ocorreu-me lembrar os tempos do arbítrio, quando naturalmente associávamos a execução da peça aos maus-tratos impostos, pelos militares, a estudantes, intelectuais e artistas brasileiros durante a longa noite. Era o tempo do "ame-o ou deixe-o" e do "pra frente Brasil" impulsionado pela tortura e pela execução de tantos filhos da terra amada. O que não pode a democracia, que milagre não é capaz de operar a liberdade?
 
Pois bem. A transformação teve início com a campanha pela diretas, os inesquecíveis comícios Brasil afora, do Rio e de São Paulo, particularmente, quando a guerreira Fafá de Belém cantou, em praça pública e em um dos seus discos, pela primeira vez, o nosso hino a partir de uma arranjo 'modernoso' que emocionou o país inteiro e trouxe o sentimento pátrio de volta aos corações brasileiros. O despertar do gigante adormecido.
 
A apresentação desses gênios da música clássica, com direito a inovações ousadas e interpretação originalíssima da composição de Francisco Manuel da Silva, nas circunstâncias de um evento militar, como que repagina não apenas uma combinação sonora do original conhecido. Vai muito além disso: traz em si o grito de protesto contra um estado de coisas que, mesmo num país diferente quanto o Brasil de hoje, de que nos orgulhamos todos, não se deve esquecer. Sem revanchismo, é certo, mas imbuídos da consciência de que o preço dessas conquistas terá sido muito alto. É a mensagem de Wagner Tiso. E a razão por que o 'presente' do amigo Hilton Holanda me emocionou tanto.

Eros e Tanatos

Assim como pode ensejar a curiosidade, ampliando as chances de mercado, um título pode também afastar o público -- ou segmentos mais exigentes dele. É o que aconteceu com Fatal, o filme de Isabel Coixet, com Penélope Cruz e Ben Kingsley. Eu mesmo vinha empurrando com a barriga a oportunidade de vê-lo, embora frequentemente provocado pelo cinéfilo e amigo Sérgio Porto. Que bela surpresa. Essa semana vi-o na tevê e, ato contínuo, fui à Livraria Cultura a fim de adquiri-lo para minha coleção.

O enredo é simples: professor universitário de literatura se envolve com uma aluna trinta anos mais nova. O que poderia ser apenas uma pequena aventura entre um homem experiente e uma jovem babando de admiração pelo talento dele, torna-se uma relação madura e cheia de encanto. O sujeito renova-se, renasce para o sempre prodigioso milagre da paixão, que julgara coisa do passado. Ama-a perdidamente e é sinceramente correspondido, até que, influenciado por um amigo confidente, um poeta interpretado à perfeição por Dennis Hopper, toma a decisão de romper com a relação, temeroso de que viesse a sair machucado dela.

A moça sofre horrores com o fim do namoro, mas, sentindo-se rejeitada, encontra forças para tentar levar a vida sem ele. Dois, três anos depois, quando a história parecia encerrada, Consuella (como se chama) recebe de seu médico a notícia desconcertante: está com um câncer de mama avançado e a mastectomia marcada para poucos dias depois. É aí que decide procurar David Kepesch, o professor e ex-amante, na desesperada busca de encontrar nele o apoio de que necessita para enfrentar a doença e a proximidade da morte. Eros e Tanatos, a eterna luta entre os sentimentos de amor e morte, matéria de que se vale recorrentemente a cineasta Isabel Coixet, de cuja filmografia já vira Minha vida sem mim e A vida secreta das palavras.

É o tempero que estava faltando para o filme ganhar em densidade dramática e, acima de tudo, poética. Os dois se amam outra vez, e a cena em que Consuella pede a David para fotografá-la, nua, antes que lhe retirem a mama, é de uma beleza inesquecível.

No hospital, depois da cirurgia, enquanto duas lágrimas serenamente lhe correm pela face, ela indaga: - "Você ainda vai me querer, agora que não sou mais bonita?" Ele lhe diz: - "Hipólita, a rainha das amazonas, tirou o seio direito para atirar com mais destreza suas setas. E ela era deslumbrante. Você lembra de minha primeira aula?" Eu lembro de tudo, ela responde.



Errata

Amigos: a versão on-line do livro "Depoimentos", disponibilizada na internet, apresenta erros de digitação (com repercussão gramatical) graves. Desculpo-me e avanço-lhes que o texto corrigido, a sair em versão impressa, revisada, também estará na internet por esses dias. Nela, fotos que documentaram a experiência dessas memórias. Enquanto isso, aos que me honram com sua leitura, peço que levem este registro em consideração, pelo que, mais uma vez, deculpo-me!
Abração!

Perdas e danos

O último plano de Perdas e danos, o belo filme de Louis Malle, mostra a atriz Juliette Binoche desfocada, intencionalmente desfocada. É que o diretor lançou mão do que, em linguagem cinematográfica, chama-se de "câmera subjetiva". O recurso é utilizado para mostrar o ponto de vista de uma personagem. No caso, a personagem é Stephen Fleming, um integrante do parlamento inglês, com reputação intocável, que vive uma experiência amorosa que o leva à ruína. E onde entra a questão da câmera subjetiva? Vejamos.

Anos depois de terminada a relação, que o levara a viver um drama pessoal de proporções monstruosas, Fleming (Jeremy Irons) encontra Anna, a ex-amante, num aeroporto. Diz ele, "ela não era nada diferente de outra qualquer". É aí, pois, que entra a genialidade de Malle, o diretor do filme. Na cena final, fixando o olhar numa foto dela na parede, Fleming não a vê mais com nitidez, a imagem aparece esgarçando-se. É que as lembranças da mulher por quem fora capaz de mergulhar de cabeça, numa história de amor e sexo que jamais pensara terminar um dia, foram perdendo o foco, tornando-se vagas como a imagem dela que visualiza no presente.

Na vida dos amantes, é assim. A imagem fora de foco, que na arte serviu para interesses da subjetividade narrativa, vai surgir um dia. E aos poucos, tentamos fixar em pensamento a imagem do objeto amado. Mas a imagem da pessoa, por quem juramos dar os dedos das mãos, por quem seríamos capazes de dar as mãos... vai se apagando, lentamente, como a imagem de Anna na sequência final de Perdas e danos. E você demora um tempo para entender isso, para compreender que a pessoa "não era nada diferente de outra qualquer". É que os olhos dos amantes veem aquilo que não se pode ver, o que nunca existiu na proporção exata da nossa imaginação.

Esse 'apagamento' da imagem, que os pintores da Renascença chamavam de sfumato, vai eliminando as linhas do contorno, e o que vemos, agora, é apenas uma mancha, como se estivéssemos perdendo a perfeita visão das coisas. E, no entanto, é o contrário disso. Estamos retornando à realidade. De olhos vazados, é que Édipo pôde ver com clareza o que lhe reservara o destino. E, assim, reconstruir aquilo que a paixão destroçara. Como Fleming, na solidão e no abandono do seu quarto, depois de tantas "perdas e danos". A vida, para ele, vai recomeçar ali.

Meia-noite em Paris

Fui com o Saulo ver Meia-noite em Paris. Wood Allen reedita seus melhores momentos, bem na linha do realismo mágico de A rosa púrpura do Cairo (1985) e Neblinas e sombras (1991), dois dos seus filmes de que mais gosto. O melhor, para este humilde cinéfilo, continua sendo Interiores. Mas aí são outros quinhentos, coisa de todo bergmaniano que se preza. Voltemos a Paris.

Pois bem. Um amigo francês de gosto apurado não falara bem do filme e fui ao cinema meio sem graça. Qual não foi a minha surpresa: Allen volta, na minha opinião, aos seus melhores momentos. Trata-se de uma comédia com pitadas de drama extremamente engenhosa. Imagine um roteirista de tevê -- com vaga inclinação para a grande literatura -- poder voltar a Paris dos anos 20 e passar a conviver intimamente (e por obra do acaso) com monstros sagrados da Arte, como Picasso, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Cole Porter, e Luis Buñuel. É o que acontece com americano Gil, que visita com a mulher, Inez (Rachel McAdams), e a família dela, a capital francesa, onde pretende morar por uns tempos, sob os ares inspiradores da cidade em plena Belle Époque.

O filme realiza de um plano a outro a viagem deslumbrante a essa cidade diferenciada, entre outras razões, por ser o exemplo mais convincente de que modernidade não quer dizer destruição do antigo em favor do novo. Eis a razão por que Allen fez um filme relativamente barato, uma vez que o cenário é o mesmo para momentos históricos tão diferentes, sobremaneira nas locações onde se veem aqueles espaços mágicos por onde transitaram alguns dos maiores gênios da pintura, da literatura, da música e do cinema, na sequência dos nomes citados acima. Nenhuma outra cidade possibilitaria ao cineasta americano ir de um tempo a outro num piscar de olhos e ter 'prontinho' para a ambientação das cenas este cenário deslumbrante que é Paris, sobremaneira à noite, quando a narrativa desfila por quase todo o longa-metragem.

O texto é fantástico, a direção dispensa comentário e o desempenho dos atores, mesmo dando-se algum desconto à ponta reservada à senhora Sarcozy, Carla Bruni, é notável. É aí que Marion Cotillard rouba a cena na pele de Adriana, uma estudante de alta costura que namora Picasso. Sua atuação sobressai pelo absoluto domínio do papel e pela naturalidade com que dá realce à sensualidade estonteante de que é possuidora.

Para não falar da beleza sem igual da cidade. As tomadas de Montmartre à noite, sob uma chuva que só realça o magnetismo romântico que a cidade encerra, são de uma plasticidade indizível. É ir ao cinema ou esperar que o último Wood Allen saia em DVD, o que está anunciado para as próximas semanas. Nada que se compare, no entanto, àquelas imagens inesquecíveis que só a tela grande é capaz de mostrar com absoluta exatidão. Um belo filme.






Sobre encontros e reencontros

Leitor tece considerações elogiosas ao site e diz que, como cinéfilo, tem aproveitado muitas das crônicas publicadas sobre cinema para ver filmes aqui recomendados. Lamenta o fato de morar "no interior, onde as locadoras não têm a preocupação de comprar filmes cults (sic)." Pede, ainda, que escreva sobre cinema com mais frequência.

Agradecendo pela gentileza do elogio, meu caro A.L., gostaria de começar por um comentário esclarecedor: não tem sido intencional a escolha de filmes que possam, adequadamente, receber o rótulo de cult. Acho mesmo que não é um selo muito preciso, não dizendo, por isso, da qualidade rigorosamente estética do filme. Cult, para a crítica especializada, é qualquer filme que se notabilize, entre outras coisas, pela excentricidade e que, independentemente de suas qualidades artísticas, venha a cair no gosto 'apaixonado' de um grupo de fãs. Nada a ver, portanto, com o que a palavra pode sugerir: trabalho de elevado nível, próprio para um público 'A' (se é que existe isso!). Nesse sentido, pois, para exemplificar, há filmes que conquistam admiradores por suas fragilidades estéticas. É o caso daquela afirmação popular que tantas vezes escutamos: "É tão ruim, que é bom." Brincadeira à parte, prefiro, todavia, dar atenção ao cult que é cultuado por suas qualidades inquestionáveis. Eu, por exemplo, adoro Cinema Paradiso, obra que conquistou, mundo afora, fãs ardorosos, de carteirinha. Atendendo seu pedido, falemos de cinema.

Nas livrarias, ainda quentinha, uma nova e bem cuidada edição do livro Jean Vigo, de Paulo Emílio Sales Gomes. Um box, para ser mais preciso, com dois volumes e dois DVDs com o conjunto da obra do cineasta francês que morreu aos 29 anos. Aqui, leitor, fica um exemplo claro do que sejam os filmes cult: a obra de Vigo (pronuncia-se Vigô) é de altíssima qualidade artística, embora seus filmes sejam 'toscos' esteticamente falando, cheios de imperfeições e limitados enquanto linguagem cinematográfica. Não obstante, belos, carregados de poesia e densos politicamente falando.

Recomendo, até por ser mais acessível em qualquer grande locadora, Atalante (1934). Narra a história de dois jovens recém-casados que passam a morar numa chalana, em razão de o rapaz viver das atividades fluviais. A moça, não tarda, fica ensimesmada em face da monotonia e desconforto de sua vida de casada. Certo dia, tendo o marido atracado às margens do Sena, em Paris, dá uma escapulida e depara com os encantos da grande cidade. Logo conhece um moço que a seduz com duas palavras e que a leva a decidir por romper com o casamento. O marido resolve partir na companhia de seus dois empregados, tomado da típica depressão dos amantes rejeitados.

Mas, para não trair a curiosidade de todo bom cinéfilo, leitor, devo concluir dizendo que o filme é uma obra de arte, um filme cult, para voltar ao tema da coluna de hoje. Fique claro: isto por ter feito uma legião sem medidas de fãs pelo mundo afora. Há, hoje, uma verdadeira unanimidade em torno de L`Atalante. Uma pena saber que, morrendo tão jovem, Jean Vigo não tenha podido produzir outros grandes filmes, a exemplo desse belíssimo cult sobre a perda e a reconquista de um grande amor. Desculpo-me por revelar o final do filme.


Por toda a minha vida

Em Desconstruindo Harry, um dos seus filmes mais interessantes, Woody Allen tem uma fala que acho maravilhosa, para não dizer que me parece profunda. Diz ele: - "As palavras mais belas da língua não são 'eu te amo'. São: 'É benigno'." Lembrei dela por força de uma conversa que tive ontem com o Ernesto, essa mistura de alter ego e anjo protetor que já me acompanha, faz um tempo, nas crônicas que escrevo. Pois bem, o Ernesto, depois de tentar transformar um amor em amizade, chegou a uma conclusão que me soa óbvia: Ao final de uma relação passional é preciso um tempo para se voltar a ser apenas amigo. Isto, Ernesto! Um tempo, de que nem sempre se pode prever a extensão.

E onde cabe a tal "benignidade", essa indulgência para a culpa alheia de que nos falou Allen? Nunca há culpados. No caso do Ernesto, que não teve seu amor correspondido, em pedir, com uma ternura que lhe é típica, que os dois se dessem um tempo em silêncio. Até que a chama do amor apaque.

O caso do meu amigo é antigo e não é a primeira vez que me reporto a ele, a essa dolorosa travessia que já dura, quando menos, uns três anos. Foi objeto de uma crônica em que este escriba se reporta à decisão do Ernesto de nunca mais querer amar alguém -- "Vai pintar paixão, estou fora!", diz ele, sempre que lhe perguntam sobre a possibilidade de um novo amor. Sem mais delongas: Ele me dizia, entre um chope e outro, ter criado coragem para pedir a ex que lhe desse um tempo, que parasse com e-mails e eventuais telefonemas. Agiu com correção, foi benigno, dessa vez muito mais com o amor do que com a coisa amada, o que é, como no filme de Woody Allen, muito mais belo do que dizer, simplesmente, "eu te amo!".

A caminho de casa, passaram-me pela mente alguns dos muitos filmes e romances que tratam do tema, trechos de música, poemas etc., que eternizaram essa experiência tão difícil dos que, a exemplo do amigo, não tendo o amor correspondido, pedem um pouco de paz para curtir a sua dor: "Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor / Se hoje pra você eu sou espinho / Espinho não machuca a flor / Eu só errei quando juntei minh'alma à sua / O sol não pode viver perto da lua". Ah, que belo e clássico e triste samba de amor escreveram Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito sobre o tema!

É isso, meu camarada e meu irmão, não se deve alimentar para sempre "a eterna desventura de viver / à espera de viver ao lado teu / por toda a minha vida", já dizia o poeta que você eu admiramos tanto. Beijo, querido, nesse bom coração!





Dedos de prosa sobre futebol

Como todo botafoguense que se preza, entra ano sai ano, escolho o time da minha ojeriza  --  aquele capaz de roubar um pouco o brilho inconfundível da estrela solitária. De uns tempos para cá, é o Flamengo que tem polarizado conosco, uma vez que a força alvinegra, de forma realmente competitiva, tem limitado a sua ação ao Campeonato Carioca. Nos bons tempos, no entanto, que já vão ficando longínquos para além da conta, era o Santos Futebol Clube que disputava conosco as glórias em 'medidas' nacionais. Se tínhamos Garrincha e Nilton Santos, o peixe tinha Pelé e Coutinho. Dessa época, sou capaz de jurar, só me lembro das transmissões radiofônicas, ainda menininho. Pouco depois, porém, já acompanhando pelos videoteipes, o Santos ainda contava com Pelé em seus áureos tempos, e nós, os botafoguenses, com Jairzinho e Gérson, o Canhotinha de Ouro de que jamais vamos esquecer.
 
Lembro que marcávamos com caneta, na tabela que a Revista dos Esportes divulgava, no início do Campeonato Brasileiro, que à época se chamava Roberto Gomes Pedrosa, a data em que os gigantes iam se enfrentar. Roíamos unha meses seguidos, até que chegasse o grande dia. Sem faltar com a verdade, acreditem, saíamos quase sempre em vantagem. Era lá pelo fim dos anos 60 e guardo de memória as duas escalações: O time paulista vinha de Cláudio, Carlos Alberto, Ramos Delgado, Joel e Rildo; Clodoaldo e Lima; Manuel Maria, Toninho Guerreiro, Pelé e Edu (arre!). O Botafogo, de Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jair e Paulo César. Uma máquina, como se dizia então.
 
Saudade à parte, estou escrevendo mesmo por uma razão que passa ao largo de General Severiano, a sede gloriosa do 'meu amor de chuteiras', que me permitam parodiar Nelson Rodrigues, que era Fluminense de quatro costados. Faço-o, que o tempo torna os nossos corações mais gelatinosos, para aplaudir a nova geração de craques do Santos Futebol Clube, que, ontem à noite, desbancou o valente time do Peñarol e conquistou, pela terceira vez, a Taça Libertadores da América. Vamos e venhamos: essa garotada devolveu ao futebol brasileiro a alegria perdida, e, hoje, numa proporção ou outra, nos tornamos todos torcedores do Santos, Neymar e Ganso à frente, esses duplos genais de Pelé e Gérson.
 
Não é de dar gosto ver? O que Neymar vem fazendo com a bola nos pés, é muito mais que jogar futebol. É uma dança espanhola. Ele golpeia o chão como fazem com o tacão de suas botas os dançarinos andaluzes para marcar o ritmo do bailado. O movimento dos corpo e das mãos, a expressão do rosto e a contorsão estilizada dos punhos, a leveza do estilo, lembram muito mais a técnica do sapateado de um sevilhano. Estética pura.
 
E Ganso, o que dizer desse Apolo de chuteiras? A elegância no trato com a bola, o andar de uma garça no cio, a precisão do passe, a visão holística do espaço e do tempo? Ocorre-me recordar, guardadas algumas diferenças sutis do estilo, um Pedro Rocha, um Beckenbauer, um Ademir da Guia. A vitória dos Santos, ontem, numa sucessão de muitas e importantes conquistas, significa, assim, muito mais que ser campeão de um Continente. É a arte do futebol, depois de uma longa noite, que volta a brilhar nos gramados. Amém!
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 

"Recordar é viver"

Ao mergulhar na xícara de chá o tradicional bolinho madeleine, antes de levá-lo à boca, recuperando o cheiro gostoso da iguaria em sua infância, na cidade de Combray, o protagonista de Em busca do tempo perdido inicia a experiência milagrosa de recuperar o passado longínquo, resgatando a sua história feita de amores, ciúmes, alegrias, sofrimentos e do prazeroso encontro com a arte, compondo, assim, a identidade do narrador adulto desse livro-monumento de Marcel Proust.

Acho que todo homem, cedo ou tarde, vive uma experiência semelhante, quase sempre quando a memória de sua vida vai se esgarçando com o passar do tempo, e suas lembranças perdendo-se entre a névoa do envelhecimento que se anuncia. É quando percebe que a vida de todos nós é feita de passado, que o que chamamos de futuro é algo improvável, que sequer sabemos se um dia vai acontecer, tornando-se uma realidade.

"Quem vive de passado é museu!" Quem nunca terá escutado o tolo chavão? E, no entanto, nem se percebe que, concluída a afirmação, isso já é passado, única possibilidade de ordem factual. Está na Fenomenologia do espírito, de Friedrich Hegel: - "O agora já deixou de sê-lo quando é nomeado, já é passado."

Desde cedo, por curioso, seduziram-me as obras que tratam da vida pretérita, biografias, autobiografias, memórias. Fascina-me o desabrochar das lembranças, o trazer à mente aquilo que se viveu, os amores, os lugares em que se esteve, os perfumes e as sonoridades, as emoções que um dia tomaram conta de nós.

Tenho o hábito de ler esses escritos. Lembro-me como foi uma experiência impactante ler o livro de Proust, ora referido. Ou Minha formação, de Joaquim Nabuco; Navegação de cabotagem, de Jorge Amado; Solo de clarineta, de Érico Veríssimo; Tempo morto e outros tempos, de Gilberto Freyre; Meu último suspiro, de Luis Buñuel; A soma dos dias, de Isabel Allende; Minha vida na arte, de Constantin Stanislávski; Confesso que vivi, de Pablo Neruda; Minha vida, de Hermann Hesse e, um livro diferente no gênero, Memórias, sonhos e reflexões, de Carl Gustav Jung, para falar dos que me ocorrem enquanto escrevo estas linhas.

Sou um saudosista assumido. Toca-me a etimologia do verbo recordar, do latim recordari, re = novamente + cord = coração, ou seja, trazer de volta ao coração. Sou um proustiano convicto. Provocam-me sensações incomunicáveis o cheiro inesperado de um perfume, a audição de uma música antiga, o sabor de uma comida há muito tempo experimentada.

A chuva, o céu plúmbeo de um entardecer, o cheiro da terra molhada, os traços de um rosto, um simples gesto de alguém que passa, um movimento de mãos, e eis o passado de volta, fazendo-se presente, este "isto" impossível de que nos falou Jacques Derrida.