O amor que não se acaba

Que importa restarem cinzas, se a chama foi bela e alta?
(Mário Quintana)

Todos os gestos de amor me comovem. Por isso me comoveu tanto a leitura do romance O Ostensório do Amor, o novo livro de Mary Anne Bandeira. Por que a obra dela, para além das muitas outras qualidades que tem, é, antes de qualquer outra coisa, isto: um gesto de amor. Li-o de um folego, assim numa entrega absoluta de corpo e de espírito. E fechei o livro, passada a última folha, com o coração exultando de contentamento. Não lembro de outra obra que venha em momento tão oportuno, para reacender lembranças e gratidão que o tempo, impiedosamente, vai apagando.

Vi a autora desse belíssimo O Ostensório do Amor crescer. Minto. Cresci ao seu lado, na convivência saudável de nossa infância na vida vidinha do interior, de um Iguatu que já não existe, que é apenas, como quis o poeta, "um retrato na parede. Mas como dói."

O livro, num estilo que está a meio caminho entre a biografia e o romance propriamente dito, foi escrito com tamanha elegância e com tal domínio de linguagem para o que se propôs, que, tendo-o às mãos, a exemplo do que me ocorreu há pouco, não se consegue deixar de percorrer as suas 209 páginas, até darmos com o fecho certeiro com que Mary Anne encerra a sua comovente história, afirmando, sobre o protagonista, aquilo que todos sabem: Aluísio Moreira "em algum lugar do universo está vivo no amor de Deus."

Num detalhe de uma vida tão rica e tão exemplar, na breve narração de um fato, nos vários depoimentos que o livro resgata, vamos compondo e recompondo as nossas recordações do professor Aluísio Moreira, esse homem iluminado, essa bondade personificada com que tive a alegria de estar tantas vezes, como colega de trabalho e como amigo.

A história de amor de Aluísio e Íris, irmã de Mary Anne, precisava ser mesmo contada, assim como o fez a talentosa prima, amiga e conterrânea. Seu texto flui, sem outra preocupação que não seja a de ser verdadeiro, fiel aos fatos e honesto para com as pessoas que aparecem numa ou noutra página, e que tiveram o privilégio de fazer parte da vida desse casal admirável. Um homem e uma mulher unidos por fortes laços emocionais, pelo poder do amor e da fé. Dois seres que nem mesmo a morte foi capaz de separar: por isso, como está no livro, decorridos tantos anos, Íris "arruma-se e perfuma-se como se fosse para ele, ainda bela!"

Bela, como será para sempre.


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