A singela poesia de Toquinho

Aconteceu em Belo Horizonte. Era outubro de 1976 e Toquinho, terminado o show, é surpreendido no camarim do Teatro Francisco Nunes por duas irmãs, Águeda e Mônica. Ele, sempre sensível à beleza feminina, claro, desdobrou-se em simpatia e logo as convidou para jantar. Final de noite, é Águeda quem lhe dá o número do telefone, mas era Mônica quem tocara o coração do artista. Coisas de poeta.
 
Dia seguinte, saem juntos, Toquinho e Mônica, e passam uma tarde feliz, conversando. Ele viajaria para o Rio no outro dia. Hora da partida, num rompante típico dos apaixonados, já na escadinha do avião, decide não embarcar: - "Não vou pegar esse avião. O que eu quero mesmo é ficar aqui." Desce rápido o lance de degraus e toma um táxi para o centro da cidade.
 
Mesmo dia, procura o pai da moça. Quer levá-la consigo para o Rio, mas seu Bento é resoluto: - "Viajar com Mônica, só casando!" É o que ocorreria em abril do ano seguinte, Vinicius como padrinho. Durante a cerimônia, o fundo musical deixava que se ouvisse não a tradicional Marcha Nupcial , mas a voz do próprio Toquinho interpretando uma música de Mutinho, com letra só dele, o noivo. Nascera, por força desse amor que reproduz o protótipo do amor dito romântico, Canção pra Mônica, uma das mais lindas do repertório de Antonio Pecci Filho, esse paulistano que é uma dos expoentes da Música Popular Brasileira.
 
É um poema longo, com uma estruturação rímica simples e versos absolutamente singelos, mas dotado de uma beleza poética que se compara ao que há de melhor na obra romântica de Vinicius de Moraes ou Chico Buarque de Hollanda: "Deixa eu poder reclamar / desse tempo passado sem desfrutar / sem sentir teu perfume, te ver, te tocar / sem sonhar os teus sonhos nem neles estar."
 
A letra, como se vê, constitui um apelo, desses tão recorrentes na história do cancioneiro popular ou na literatura, mas o casamento com a melodia de Mutinho a redimensiona e enriquece, além de exemplificar uma cantada irresistível desse carismático conquistador, tão bom poeta como compositor e instrumentista: "Deixa eu poder mendigar / as migalhas do vento que vem te alisar / se você num momento sem muito pensar / tenha os olhos atentos num outro lugar. / Deixa eu poder blasfemar / se qualquer dia desses eu necessitar / se buscando saídas eu me equivocar / e depois teu perdão eu tiver que implorar", diz a uma dada altura da música, para desfechar com a promessa de viver o amor em que pesem as diferenças: "Deixa eu querer-te, mulher, / dar-te tudo o que um dia você desejou / ter-te sempre a meu lado como você é / e te amar como eu sou."
 
Os fatos que levaram Toquinho a escrever a letra sobre a música de Mutinho, fugindo ao que é mais comum em sua rica obra, está no livro Toquinho, história das canções , de João Carlos Pecci e Wagner Homem, que li durante o final de semana e recomendo aos leitores dessa coluna. É o segundo livro da coleção, que foi inaugurada no início do semestre com o volume dedicado a Chico Buarque. Um primor.
 
 
 
 

Crônica para uma amiga

Amiga me falava outro dia, tomada de susto: - "Hoje, comprei cervejas para o meu filho comemorar com amigos. Ele está fazendo 17 anos, mas ainda lembro da cor da mamadeira, meu Deus!" E discorria sobre a atonia que lhe invade a alma sempre que pensa sobre o futuro, o rumo incerto que tomarão os seus filhos, do que vai ser a sua vida sem eles por perto, da sensação de perda incontornável que advirá disso etc. Estava aturdida a minha amiga, como querendo ouvir de mim o que não soube como lhe dizer naquele instante. Fiquei ali, entre tocado e atônito, sem dizer palavra. A vida de todos nós.

Acho mesmo que esse é um momento por que todo homem e toda mulher tem de passar um dia. O momento em que se veem os filhos crescer e se aproximar a hora de espreitá-los tomar seu rumo, um tanto quanto independentes de nós, das nossas vontades e - não raro! -, na contramão do que gostaríamos. É a hora em que cai a ficha e percebemos que os filhos, lá nos recônditos mais doídos das verdades, não são nossos, e que os criamos para a vida, esta soberana rainha do destino e do desconhecido. É a hora em que começamos a olhar para trás e ver que toda a caminhada, em muitos aspectos, foi feita de sonhos e de fantasias. E que há uma realidade aguardando aquelas "coisinhas" que mais amamos, e que, equivocados, pensávamos poder tê-las conosco pelo infinito dos tempos.

Com todos nós, aqui ou além, cedo ou tarde, acontecerá o mesmo. O momento em que somos chamados a usar as mais duras expressões: na realidade, de fato, em verdade e coisas que tais. A dura realidade da vida. O momento em que percebemos, estupefatos, que o tempo passa, o tempo não para, como nos falou o poeta Cazuza. E dói compreender o quanto de vida deixamos para depois, os sonhos que vamos empurrando para amanhã. E, de repente, vemos que o amanhã foi ontem, anteontem, é agora um passado distante. E tantos desses sonhos se desmancharam no caminho, como os castelos de areia que se constroem nas praias...

Minha amiga é uma grande mulher. Mãe exemplarmente amorosa, deu aos filhos uma educação que foge ao comum do que se conhece nos dias atuais. Quando esposa, posto que enviuvou há coisa de uns cinco, seis anos, foi de uma dedicação e de um desvelo incomuns. É filha carinhosíssima, uma irmã como poucas. Mas vive aquele momento em que olhamos para trás e achamos que poderíamos ter feito mais e melhor. E o futuro, na perspectiva do que os nossos olhos podem ver, é um tanto triste e solitário.

Não lembra, a minha amiga, que a vida começa a cada manhã. Na crise de um instante, seus olhos são pequenos para ver o tanto de amor que ainda tem para dar... E o quanto, o quanto tem sido amada. E haverá de ser!

Travessuras da menina má

Amigo, anos depois do rompimento com a ex-mulher, está de volta. Mas diz que "cristal quebrado não tem conserto", pode? Já entra na relação, outra vez, inseguro, e nutre o medo da própria sombra. Ontem, entre um chope e outro, dizia meio vacilante: - "Foram dois anos de separação... Ela teve um namorado, é complicado!" Estava tenso, cheio de pruridos com o fato de que a ex tentara recomeçar sua vida. Um quadro curioso, em pleno século XXI. Como estivéssemos todos, outros amigos e eu, empenhados em ajudar o 'ciumento retrospectivo' (a mulher rompera com o novo namorado bem antes de ceder à proposta de reaproximação), citei ene casos semelhantes que tiveram desfechos os mais felizes. Nada. O moço está pra lá de encucado com a situação. Incrível.

Mudávamos de assunto, Dilma Rousseff aqui, Ronaldo O Fenômeno acolá, volta e meia e um chope a mais, o tema voltava, na boca dele, claro: - "É por que não é com vocês... Saber que dormiu com outro, que fez com ele as mesmas coisas..." Quem haveria de segurar a cargalhada? Muito engraçado. Um dos nossos, acanalhado, como dizia meu pai, ainda arriscou: - "Bobagem. Lavou, 'tá novo de novo!" Por pouco, o happy hour não se transforma em tragédia. Foi aí, como é de praxe, que lancei mão da literatura para restabelecer a harmonia entre os convivas do fim de tarde.

Lembrei, num lampejo a serviço da paz, do novo Nobel de Literatura, o peruano Mário Vargas Llosa. Não é que o romancista escreveu uma obra-prima sobre o assunto? Isso mesmo: Travessuras da menina má, belíssimo! Ricardo, um peruano radicado em Paris, reencontra um ex-amor da adolescência e vê, sob a magia do belo sentimento, que jamais esquecera a mulher. Tentam, mas o destino, trapaçeiro, separa mais uma vez os dois. Começa, assim, uma sequência extravagante de reencontros, em Londres, dos pubs, da cultura hippie dos anos 70; em Tóquio, com suas excentricidades; em Madri, das mudanças dos anos 80. Uma história extraordinária sobre as muitas faces do amor, no estilo inconfundível de narrar que faz de Vargas Llosa um dos dois maiores ficcionistas vivos. O outro, com a morte de Saramago, é García Márquez, óbvio.

E por falar no autor de Cem anos de solidão, uma curiosidade. Ele, Gabriel García Márquez, e Mário Vargas Llosa, que foram grandes amigos, são hoje desafetos figadais. O motivo? Teria o colombiano, numa visita a Llosa "dado em cima" da mulher deste. É conhecido o barraco em que os dois gigantes da narrativa de ficção contemporânea estiveram envolvidos numa cidade da Europa, Paris ou coisa que o valha. Mais novo e mais inteiro, o escritor peruano e atual Nobel deixou Márquez bastante avariado. O mundo das celebridades têm essas coisas também.

Voltemos às Travessuras da menina má. De uma forma particularmente gostosa, Llosa narra essa sedutora história de encontros e desencontros em lugares e circunstâncias as mais diversas. Com estilo e elegância aqui, discretamente cômico ou trágico ali, Mário Vargas Llosa joga com o banal e o inusitado para discutir o amor em toda a sua complexidade. Um belo livro sobre a paixão, o acaso, o perdão, a dor e o prazer da relação entre homem e mulher. Um drama muito parecido, guardadas as proporções, com o do meu amigo que acaba de reatar com a ex-mulher. Que ele não tenha reparado na dubiedade do título, Travessuras da menina má. Tenho dito.

Frida Kahlo, o exemplo

Esta semana revi, durante uma aula de Estética, na Faculdade, o belo filme de Julie Taymor sobre Frida Kahlo. Assisti à película, quando menos, uma seis vezes, e cada vez mais a obra me impressiona. A produção é 2002, numa parceria EUA/Canadá, e tem no elenco Salma Hayek, numa interpretação soberba de Frida, contracenando com Alfred Molina no papel de Diego Rivera. O filme narra a trajetória punjante da pintora mexicana, da adolescência à conturbada (e tocante) vida ao lado do seu mentor e marido Diego Rivera, passando pela rápida convivência com Leon Trotsky - com quem Frida manteria um rápido affair -, até sua morte, ocorrida em 1954.

Sabe-se que Frida viveu uma vida de dor e sofrimento. Teve poliomielite aos 6 anos e, aos 18, sofreu um pavoroso acidente de que saiu com fraturas por todo o corpo. Uma barra de ferro do ônibus entrou-lhe pelo pescoço e saiu pela vagina. Os ossos dos pés foram esmagados, a pélvis destroçada, inúmeras costelas quebradas e o ombro afundado. Frida viveria meses seguidos completamente imóvel, guardada por um colete de gesso que lhe cobria o corpo dos pés ao pescoço. Sobreviveu a tudo.

O filme de Julie Taymor, no entanto, embora mostre a cena do acidente e o comovente padecimento de Frida, explora com maior e justificada razão a vida da pintora, sua impressionante capacidade de extrair da dor e do sofrimento desumanos a força sublimatória que a levou a realizar uma obra absolutamente chocante, de uma beleza e uma originalidade inconfundíveis. Além de autobiográfica, claro. Marcas a que Julie Taymor se propôs, e conseguiu irrepreensivelmente, dar maior realce, sem contudo deixar de expressar a sua emoção estética pessoal, o que se vê nos recursos de linguagem com que compôs cada cena, cada sequência narrativa, cada fotografia do seu belíssimo filme. O colorido da película, aqui e além, lembra telas de Vermeer. Ou da própria Frida, para ser mais preciso.

Mas Frida, o filme, vai muito além da sua beleza plástica irretocável. Do ponto de vista conteudístico, por exemplo, levanta uma curiosa reflexão em torno da correlação de forças homem-mulher e a dicotomia entre o que sejam lealdade e fidelidade. Mulherengo incorrigível, Diego pergunta à futura esposa o que lhe parece mais importante, se a fidelidade ou a lealdade, ao que Frida responde: - "A lealdade." O filme passa, então, a discutir uma coisa e outra. À luz dos valores falocêntricos de Diego, sexo e amor são coisas distintas, razão por que se acha no direito de se envolver fisicamente com diversas mulheres, mantendo-se transparente em relação à Frida. Sendo leal, portanto. Ela, por sua vez, respeitando o pacto firmado com o marido, mas ultrapassando as fronteiras estabelecidas para a mulher, numa sociedade orientada por valores judaico-cristãos, também se relaciona com homens e mulheres, uma vez que os dois haviam compreendido a diferença entre um conceito e outro. Mas a lealdade é ferida por ambos: Diego transa com a irmã de Frida, sendo, assim, desleal com a mulher. Frida, também, rompe o pacto, ao relacionar-se com o amigo de Rivera. É por isso desleal. O pacto não previra relações tão íntimas, tão próximas dos dois amantes, o que, supostamente, inflige sentimentos mais nobres.

Um filme extraordinário, na perspectiva do que documenta sobre a vida de Frida Kahlo, e como obra de arte independente, nascida da imaginação e da fantasia dessa cineasta talentosa e original. Bem na linha do que professa Mário Vargas Llosa, a verdade artística é uma, a verdade histórica é outra. Por isso o filme ultrapassa os limites da história, mesmo da biografia escrita por Hayden Herrera, em que se baseou Taymor, e conta-nos uma história que a própria história não foi capaz de contar. Um filme imperdível.