Morre uma lenda de nossas tradições

Com a morte de Erasmo Alencar termina um capítulo importante da história de Iguatu. 
 
Foi ele o último 'exemplar' de um contingente de homens notáveis pela forma como encaravam o dia a dia das lides políticas, num tempo em que o candidato sabia de cor o nome de cada eleitor, andava de casa em casa, tomava com ele o café forte no terreiro de casa durante os muitos dedos de prosa. Um tempo em que se chegava "junto" nos momentos de aflição de sua família, mesmo nos mais ermos grotões.
 
Isto, para não esquecer, é óbvio, que me reporto (insisto!) a uma época em que se construíam lideranças verdadeiras, na experiência viva das circunstâncias as mais difíceis. Tempos dos comícios desprovidos do aparato tecnológico e das mídias, da estetização dos atos em praça pública, do "showmício" e do dinheiro fácil, a exemplo do que se tornou recorrente nas campanhas de um passado recente.
 
Lembro da simplicidade que era talvez a sua marca mais inconfundível, o jeito com que sabia tratar dos assuntos mais delicados e surpreendentes, o que lhe custaria a exploração da imagem no folclore político da cidade. 
 
A propósito, era famosa a sua iluminada presença de espírito. Ocorrem-me, no momento em que escrevo esta coluna, algumas de suas 'tiradas' impagáveis, como na vez em que, por equívoco, teria dirigido-se a um desconhecido que o espreitava à distância, com insistência, para lhe reafirmar um emprego prometido.
 
Por vezes, ouvi do próprio Erasmo muitas dessas estórias curiosas, às quais dispensava, bonachão, o tratamento mais desarmado, pontuado pela forma sempre bem-humorada com que se ocupava de tudo, mesmo dos problemas de resto rotineiros na atividade de qualquer homem público.
 
Por isso, como bom iguatuense, sinto muito a sua morte. E lamento ter a consciência de que nos deixa o último exemplar de um humanismo que não mais existe entre os homens públicos de minha cidade. O humanismo que se revela nas coisas simples do dia a dia, e que, na contramão da lógica dos tempos de hoje, era um traço marcante do perfil de Erasmo Alencar. 
 
Seu recolhimento (e o sofrimento de última hora), na casinha de sua Cruz de Pedra amada, envolve um simbolismo que haverá de dispensar explicação. Ali morreu um homem do Bem. E, com ele, uma lenda de nossas tradições.

 

 

 

 
 
 
 

A escalada do efêmero

Provocado por convite de uma amiga admirável, eis que me descubro enredado pelas festividades de lançamento das últimas criações de aclamado nome da alta-costura. O fato, que aos olhos da tradição intelectual serviria para levantar questões em torno da validade de certas linguagens para o universo da arte, serve ao professor de Estética para animá-lo numa reflexão sobre o que se pode classificar como 'estetização do mundo'. Aliás, é este o título do último livro de Gilles Lipovetsky, sobre o qual gostaria de tecer algumas considerações na coluna de hoje.
 
Vindo da parceria com o crítico de arte Jean Serroy, Estetização do Mundo é um belíssimo ensaio acerca de como a arte e a estética cada vez mais constituem molas propulsoras do mercado. Noutras palavras, já vai longe o tempo em que os perigos do capitalismo reduziam-se à destruição das paisagens e do meio-ambiente, ao colapso dos trabalhadores, à banalização da miséria e da exploração grosseira do homem pelo homem. Mantendo sua malignidade essencial, o capitalismo já não circunscreve sua lógica à produção material de feitio fordista, mas investe cada vez mais no imaterial, na produção do imaginário, do sonho e da sensibilidade.
 
O estilo, a moda, o design e a beleza, como bem analisam os autores de Estetização do Mundo, se impõem como imperativos estratégicos dos mais variados produtos, cuja apresentação parte do princípio de que é preciso antes de tudo seduzir, dominando o consumidor a partir da emoção, da sua sensibilidade diante do belo em suas diferentes formas de expressão. Como nunca antes, as marcas investem numa dimensão antigamente só pensada para a produção artística. Arte e mercado dão-se as mãos, tornando o mundo capitalista carregado de valor estético.
 
Por trás desse embelezamento da vida, claro, reinam o dinheiro e a rentabilidade, criam-se bens de consumo antes inimagináveis, estimula-se o hiperconsumismo, rouba-se da verdadeira arte o que lhe restava de poder questionador, transformando-a num instrumento mercadológico gerador do consumo massificado e do lucro das empresas. O "capitalismo artista" segundo Lipovetsky e Serroy.
 
No capitalismo contemporâneo, pois, como está nesse importante ensaio, "... os jardineiros se tornam paisagistas, os cabeleireiros hair dsigners; os floristas, artistas florais; os cozinheiros, criadores culinários; os tatuadores, artistas tatuadores; os joalheiros, artistas joalheiros; os costureiros, diretores artísticos; os fabricantes de automóveis, 'criadores de automóveis' etc." A arte, concluem, se tornou um instrumento de legitimação das marcas e das empresas do capitalismo.  
 

A mulher segundo Noel

Entre um vinho e outro, na aprazível casa de Ticiana Fiuza, na Taíba, Cesar Rossas e eu nos damos a uma curiosa pendenga sobre música popular brasileira: qual o ponto de vista do eu-lírico na letra de Último Desejo, o famigerado sucesso de Noel Rosa?
 
Agarrando-se ao verso "eu não mereço a comida/que você pagou pra mim", o meu contendor afirma tratar-se de uma mulher. Defendo que se trata de ponto de vista masculino, posto que é recorrente na poesia de Noel a assumida posição do amante malandro, para quem ser sustentado pela companheira nada depõe contra a sua masculinidade.
 
Essa situação era recorrente nos meios boêmios do Rio de Janeiro da década de trinta, na linha do que se pode ver com frequência no cancioneiro romântico da época ou da poesia que tem por cenário a boemia carioca de então. Chico Buarque e sua Ópera do Malandro que não me deixem mentir.
 
Para dirimir qualquer dúvida, é bastante lembrar que Último Desejo foi composta em 1937, quando Noel, tuberculose avançada, a escreveu para Ceci, Juraci Correia de Moraes, bailarina de cabaré por quem o autor nutria irrefreável paixão. Dizem alguns historiadores que a música foi uma espécie de despedida de Noel em relação a Ceci, a cujas mãos fez chegar a composição através de Vadico, um músico paulista e amigo comum. Noel Rosa morreria pouco depois, sem praticamente compor qualquer coisa mais.
 
Segundo o historiador Ary Vasconcellos, em entrevista para a revista "Fairplay", Ceci teria recebido a letra junto com a notícia da morte de Noel. Para ele, Vadico, o também compositor a quem Noel confiara o envio da 'despedida', teria feito o seguinte comentário: "Acho que ele te castigou um pouco neste samba, Ceci".
 
Por curioso, no Rio de Janeiro dos anos trinta era comum a mulher trabalhar fora de casa, não raro sustentando a família. O próprio Noel faria esse registro em outras de suas maiores composições. Em Três Apitos, por exemplo, o homem se derrama diante da indiferença da mulher, que prioriza o apito da fábrica de tecidos em que trabalha à buzina do carro em que a espera tomado de desejo: "Você que atende ao apito/De uma chaminé de barro/Por que não atende ao grito tão aflito/Da buzina do meu carro?"
 
Noel (ou o eu-lírico da letra, para ser mais preciso) vai mais longe no seu clamor: "Sou do sereno/Poeta muito soturno/Vou virar guarda noturno/E você sabe porque/Mas você não sabe/Que enquanto você faz pano/Faço junto do piano/Estes versos pra você".
 
E arremata, não sem tornar explícito o seu ciúme: "Nos meus olhos você vê/Que eu sofro cruelmente/Com ciúmes do gerente impertinente/Que dá ordens a você".

Noel Rosa, com justiça, é considerado o maior nome da música popular brasileira da Era de Ouro da MPB (1930-1945). Como nenhum outro, compôs em versos a crônica da sociedade carioca dos anos 20 e 30. Na contramão do que pareceria lógico, foi um branco de classe média que subiu o morro para 'viver' o samba. Largara o terceiro ano de medicina para se tornar um dos ícones do cancioneiro popular e morrer aos 26 anos depois de compor algo em torno de 250 músicas. Fenômeno.