A pedido

"Toda noite eu arrancava meu coração. Mas ele tornava a crescer."

(O Paciente Inglês)

 
Como ocorre a todo cronista, sento-me diante do computador e paro um instante à procura de um tema para a coluna dessa quinta-feira. Um tanto surpreso, lembro que estamos a poucas horas do novo ano e, como sempre, há no ar uma esperança de que as coisas possam se transformar por completo a partir de agora. Por isso, é natural que a gente faça tantos planos: voltar a ter o peso ideal; economizar uns trocados; fazer a viagem dos sonhos; parar de fumar; ir a São Paulo rever a amiga, o amigo, que há tempo não vemos; o Carnaval em Salvador; ser mais tolerante, mais cavalheiro, mais humano; escrever um novo livro, ou o primeiro, se for o caso; diminuir o uísque, o rum com coca, trocar a cerveja pelo vinho; conhecer o homem, a mulher dos sonhos. E por aí vai.

E, no entanto, mal começam a se passar os dias, e a vida volta a ser a mesma: "Como renunciar a esta picanha!", você diz no churrasco de aniversário do seu melhor amigo; "Um cigarrinho, apenas, não me há de matar!"; e, assim, você vai materializando a contradição, adiando os planos. "Ah, falei com a Roberta ontem, o Chris que venha me ver, afinal, o avião que leva, traz..."; e você foi a Recife, em vez de Salvador; trocou ofensas, no trânsito...; sua estreia como poeta, contista, pode ficar para o próximo ano; como pensar o happy hour sem três ou quatro saideiras?, os cartões do chope já chegando aos céus. E no amor, ela é linda, educada, sincera, mas tem um temperamento...; ele é companheiro, gentil, "imagina, me abre a porta do carro, puxa a cadeira no restaurante, em casa... Um cavalheiro, é romântico, mas tem um ciúme..." E você a deixa por tolice, que existem sete para cada homem. Rompe com ele, e vai tentar com o Maurício, se não der, que venha o Pedro, o João. Em dezembro, lá pela última semana, você está sozinho, sozinha, e diz para a melhor amiga: "No amor, não tenho tido sorte!"

Não há segredos, é fato. Mas que tal pensar um pouco sobre como você tem tocado a vida? Não é preciso que comece o novo ano para organizar certas coisas, enquanto é tempo. Parar de fumar, sim, "agora, que quero respirar bem, dormir melhor, aproveitar o sabor dos alimentos." É tão fácil dizer "por favor", "obrigado", "é possível?", "perdão, o erro foi meu!"... Colocar-se um pouco no lugar do outro, no trânsito, na fila do banco, à porta do elevador; em casa, com quem lhe faz a comida, lhe passa a roupa, cuida do seu jardim.
 
Alteridade, está no dicionário, é qualidade do que é outro, diferente, que se distingue. "A Marina tem esse defeito, mas, que vale isso, se é amorosa, solidária, se faz um amor gostoso, se me respeita, valoriza, me faz crescer como homem, me estende a mão, quando tropeço?" "O ciúme do Lucas é um defeito dele com que aprendi a lidar... Mas como é íntegro, companheiro, que coração possui, quanta honestidade no que diz, no que pensa..." O amor dos sonhos.

Faça diferente no próximo ano, que ele está chegando. Que tal agradecer-Lhe mais, e Lhe pedir menos? Uma missa, de vez em quando, por que não? Relaxe, morra de rir. Ouça mais, fale menos, abra seu coração. Exercite a tolerância, que "outro" quer dizer "diferente". Valorize as pequenas coisas, tente ser mais gentil, chore, se sentir vontade; estenda a mão mais vezes, abrace mais, emocione-se nas despedidas... Cante com o Roberto, queira ter um milhão de amigos. 2015 está chegando ao fim. Foi bom, não foi, poderia ter sido melhor? Vire a página. O coração doeu, teve que arrancá-lo noites a fio? Nada, não. É nova manhã! Tempo aberto para mudanças -- e elas clamam urgência, têm pressa. "A vida não é mais que o ato de ficar parado no ar, antes de mergulhar", diz uma velha canção. Pense nisso, já.

Feliz Ano-Novo!


120 anos de Cinema

Hoje, 28 de dezembro, comemoram-se os 120 anos do cinema. Não da invenção tecnológica que permitiu o seu surgimento, ocorrida um pouco antes, mas da primeira sessão, em 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris. À frente da empreitada havia dois irmãos, Louis e Auguste Lumière, a quem a história da sétima arte atribui essa que seria uma das maiores conquistas do homem, notadamente daqueles que vivem da Arte ou amam, como eu.
 
Curiosamente, segundo registram os melhores historiadores, coube a Louis Lumière uma das declarações sobre o cinema mais infelizes de que se tem notícia: "Esta é uma invenção sem futuro!", teria afirmado durante o evento. Hoje, para se ter uma noção da tolice que proferira, Star Wars, em cartaz nos cinemas, ultrapassa, na segunda semana de exibição, a casa de um milhão de dólares arrecadados, batendo todos os recordes de bilheteria. Mas muita coisa aconteceu durante esses 120 anos.
 
Comecemos pela primeira sessão. Dez filminhos foram exibidos, dois deles referências obrigatórias para qualquer cinéfilo: A Chegada do Trem à Estação de Ciotat e Saída dos Operários da Usina Lumière. Cinematógrafo era o nome do aparelho que, no começo do cinema, acumulava dupla função, a de máquina de filmar e projetor. Louis e Auguste Lumière, num tipo de ato falho que evidencia a ironia da declaração feita pelo primeiro, recusaram-se a comercializar o invento, embora assediados de perto por Georges Méliès, mágico de prestígio à época a quem caberia, pouco depois, a primeira revolução cinematográfica: Méliès adicionaria ao caráter documental dos primeiros filmes uma sedutora força ficcional, a exemplo do que atestam filmes ainda hoje encantadores, Viagem à Lua, para falar do mais famoso deles.
 
Se aos irmãos franceses coube assinar a poderosa invenção e ao compatriota Georges Méliès imprimir os primeiros procedimentos revolucionários, é a um americano a quem se deve atribuir a descoberta das primeiras estratégias narrativas por que viria se orientar o grande cinema. D. W. Griffith é considerado com justiça o primeiro cineasta de todos os tempos, a quem coube criar uma verdadeira linguagem cinematográfica, estabelecendo as leis mais significativas do cinema clássico.
 
Em O Nascimento de uma Nação (1915), Griiffith inaugura, entre outros recursos estilísticos que permeiam a sétima arte na atualidade, o uso da montagem paralela, o que permitiria a sobreposição de narrativas múltiplas em um mesmo tempo diegético, isto é, dois acontecimentos sendo narrados simultaneamente em lugares diferentes.
 
São clássicos alguns dos filmes que viriam na sequência de O Nascimento de Uma Nação, com justo destaque, por certo, para O Gabinete do Dr. Caligari, de Rober Wiene, e Nosferatu (1922), de Murnau, bem como os filmes de Chaplin, verdadeiras obras-primas do cinema não falado.
 
Como não lembrar, ainda, das contribuições estéticas inovadoras do neorrealismo italiano (filmes rodados na rua, com populares em lugar de atores profissionais e o seu elevado tom denunciador),a partir do obrigatório Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini? Da nouvelle vague, francesa, de François Truffaut e Jean-Luc Godard? De filmes absolutamente indispensáveis, como Acossado (1960), verdadeiro marco na história do chamado cinema de autor? Bergman, Fellini, Antonioni, Kurosawa, Glauber, Lang, Kazan... Como esquecê-los?
 
Assim, mesmo numa época dominada pelo blockbuster, os "arrasta quarteirões" pautados pelos recursos da tecnologia pós-moderna, é impossível pensar um mundo sem filmes. Em Fortaleza, Munique, Madri, numa cidadezinha da Rússia, do bairro rico de Nova York ao mais pobre recanto do Irã, que nos daria Abbas Kiarostami, nos lugares mais impensáveis, não surpreende que corações palpitem sob o efeito do sortilégio, da magia, da força lírica de uma arte sublime de ontem e de hoje. Dessa invenção que, na contramão da afirmação irônica de Louis Lumière, há exatos 120 anos, tem seu lugar assegurado no futuro de todas as nações. Brindemos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
            
           

Vi nascer um Papai Noel


                                                                                                                         Para Luís Eduardo
 
Na confraternização do Natal, em meio a pessoas da família, constatei que os mais novos, pais e mães, trazem de volta para seus filhos pequenos a crença de que Papai Noel existe. Num mundo hiper-racionalizado, o fato chamou-me a atenção. Um deles baixava no celular um aplicativo que permite a "gravação" do bom velhinho depositando ao pé da árvore de Natal da casa seus presentes. O filme seria mostrado aos pequenos na manhã seguinte, como forma de comprovar a existência do bom velhinho.
 
Estava registrada a sua ansiada visita durante a madrugada. Papai Noel existe. Existiu?
 
Era grego, e foi perseguido por suas convicções cristãs, lá pelos anos 280, naquilo que a História registra como a Grande Perseguição de Diocleciano, imperador romano. Foi preso e torturado, mas sobreviveu e, num gesto espontâneo de gratidão, passou a distribuir presentes aos meninos pobres, deixando-os dentro dos sapatos que, à época, ficavam nas portas das casas durante a noite.
 
Sua história, pois, articula-se à perfeição com a história de Jesus. Esta se prende, segundo a Bíblia, ao exílio da Sagrada Família para o Egito. Sabe-se, como está no Evangelho, que Herodes, inconscientemente advertido de que nascera um Deus, ordenara a seus soldados matar todos os recém-nascidos, a fim de preservar seu trono.
 
Voltemos ao Papai Noel real. Chamava-se Nicolau, e, canonizado alguns séculos depois, deu origem ao costume de dar presentes às crianças pobres todo 6 de dezembro, data de sua morte. O costume varou fronteiras e chegou aos Estados Unidos, segundo o historiador Gerry Bowler, por volta do século XVII.
 
Mas a imagem com a qual o visualizamos hoje é recente: na década de 30, um designer americano, contratado pela Coca-Cola, imaginou-o gordo, com a longa barba branca, vestido com roupa vermelha e servindo-se na cabeça do famoso gorro encimado por um capulho de algodão.
 
A transformação do Papai Noel, contudo, em que pese fundamentada em interesses comerciais, como forma de obter maiores dividendos a cada final de ano (a data compreensivelmente seria mudada para 25 de dezembro), tem seu sortilégio e o mito deve ser mesmo alimentado entre as crianças, com o simbolismo capaz de estimular a sensibilidade infantil para o desprendimento e a generosidade de repartir com os menos favorecidos um pouquinho do que temos.
 
Num tempo marcado por contradições montanhescas, que bom seria se todos nós nos deixássemos também infantilizar um pouco, acreditando que Papai Noel pode realmente existir em cada um, abrindo nossos corações para aqueles que mais precisam (que nem sempre é o bem material), e que, por certo, estão ao alcance dos nossos olhos por onde quer que andemos.
 
Este ano, para registrar um exemplo, vi numa pessoa próxima este gesto de desprendimento e altruísmo. Soube, depois, que o faz a cada Natal. Mais importante, faz costumeiramente ao longo do ano, sem a preocupação com tornar público o seu gesto, o que, ao gesto, dá muito maior significado e, ao autor, nobreza.
 
Por último, a nossa relativa proximidade permitiu-me acompanhá-lo de perto durante um momento difícil para a sua família. Pude perceber, então, que por trás do homem aparentemente severo e insensível, existia um coração generoso e bom, uma essência de humildade interior que espontaneamente fez aflorar aos olhos de todos (refiro-me aos que não o conheciam tão bem) um tipo de generosidade desinteressada, algo muito próximo da inclinação de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro e pode ser estimulada pela educação, contrapondo-se aos instintos naturais egocêntricos conforme nos falou, se não me falha a memória, Augusto Comte.
 
Mais de uma vez, que me desculpem o pleonasmo estiloso, pude vê-lo chorar um choro tímido, discreto, silencioso, desses que explodem do mais sombrio escaninho do coração de tão represados, mas que dão a medida exata da sinceridade dos sentimentos e a perceber o que existe neles de mais elevado em poesia, virtuosidade, nobreza.
 
Como fosse antevéspera do Natal, esses momentos me fizeram reler a imagem que fazia desse homem. Na simplicidade de um instante, que me pareceu eterno, pude enxergar com nitidez a figura rediviva de Nicolau. Mais que isso: vi renascer ali o Papai Noel em que se pode transformar cada um de nós, todos os dias, para o sem-fim dos tempos.   
 
 
           

Fascismo

Millôr Fernandes afirmou certa vez: "Chico Buarque é a única unanimidade nacional!" Ledo engano: para o reacionarismo do PSDB, não. É o que deu a ver a hostilidade fascistoide a que foi submetido na segunda-feira à noite enquanto saía de conhecido restaurante do Leblon, no Rio de Janeiro. Chico Buarque estava na companhia de outros artistas respeitados, o cineasta Cacá Diegues entre eles.
 
Enquanto aguardavam um táxi, o gênio da MPB foi provocado por um grupo de empresários com gritos de "vai morar na Venezuela petista" e outros insultos recorrentes no atual momento de intolerância e golpismo que parece querer toma conta do país. "O PT é bandido", dizia um outro, ao que o principal compositor brasileiro, sem perder a fleuma, retrucou: "O PSDB é bandido". Chico foi xingado por apoiar publicamente a presidente Dilma Rousseff, tendo assinado recentemente um manifesto contra a tentativa de golpe que tem Aécio Neves como principal defensor.
 
Entre os agressores, encontrava-se um filho do empresário Álvaro Garnero, que ainda ofendeu o compositor por possuir um apartamento em Paris. Segundo a repórter Madalena Romeo, estagiária de O Globo que assina a matéria na edição de ontem do jornal, Chico dirigiu-se a seu agressor uma última vez: "Você é leitor de Veja".
 
O fato, que ocorre ao mais respeitado artista do país, dá bem uma ideia do que tem caracterizado a prática dos eleitores de Aécio Neves em relação ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Todos os dias, nos mais diferentes recantos do território nacional, pessoas são desrespeitadas e não raro agredidas, até fisicamente, por não comungarem com as tentativas (fracassadas!) de destituição da presidente, na contramão dos quase 55 milhões de votos obtidos por ela na última eleição.
 
É essa gente que quer voltar a governar o país.
 
Dilma Rousseff, no entanto, depois de um verdadeiro massacre a que foi submetida pela grande imprensa e setores reacionários, emblematicamente representados pelos envolvidos na agressão a Chico Buarque, termina o ano com vitórias expressivas. Depois do STF, que pôs por terra a manobra de Eduardo Cunha no sentido de otimizar os mecanismos de golpe na Câmara dos Deputados, pelo convincente escore de 8 a 3, vê com entusiasmo o parecer do relator das contas presidenciais de 2014, senador Acir Gurgacz (PDT), que rejeita o parecer do TCU sobre o que chama de "pedaladas fiscais".
 
Ainda que simbólico, o fato constitui um reforço à recuperação da presidente, bem na linha do que atestam pesquisas recentes do Datafolha, que indicam um ligeiro crescimento nos níveis de aprovação do governo de Dilma Rousseff.
 
Quanto às lamentáveis ocorrências do Leblon, se o fazem a Chico Buarque o que não estão fazendo aos simples mortais.
 
P.S. - Este cronista deseja aos leitores da coluna um Feliz Natal!
 
 
            
            
           

Violência simbólica e outras violências

Quando a imprensa brasileira atinge níveis de reacionarismo que beiram a indignidade, na linha do que fazem a rede Globo de TV, o jornal Folha de S. Paulo e a revista Veja, deve-se festejar o lançamento do livro A Tolice da Inteligência Brasileira, como o país se deixa manipular pela elite, de Jessé Souza, atual presidente do IPEA, publicado pela editora LeYa.
 
Numa linguagem elegante e bastante clara, por cuja força o texto de Souza conquista o leitor desde as primeiras páginas, A Tolice da Inteligência Brasileira sobressai ao lixo editorial disponível no mercado pela densidade de uma análise que se fundamenta no que existe de mais significativo em termos de pesquisa hoje, contemplando abordagem que se estende de levantamentos econômicos consistentes a uma refinada capacidade de entender o que está por trás de práticas sociais dominantes  --   que explicam a reprodução de privilégios injustos no Brasil.
 
Numa leitura clara e convincente, mesmo para os leitores menos familiarizados com o norte teórico em que se sustenta, Jessé Souza mostra como se dá o domínio de 1% dos mais ricos sobre os 99% restantes da população. O que é pior, o livro explica como um "exército de intelectuais", submissos à elite endinheirada, atua no inconfessável processo de legitimação das desigualdades. A essa altura o autor chama a nossa atenção para o que, valendo-se de Max Weber, denomina de "violência simbólica", isto é, a capacidade de convencimento com que "especialistas" (tão presentes nas matérias de jornal e TV) levam os excluídos desses privilégios a aceitar inocentemente tal realidade. Qualquer semelhança com o que fazem Mirian Leitão e Reinaldo Azevedo, pois, não será mera coincidência. Sem esquecer FHC e Demétrio Magnoli, claro.
 
Esse exército de intelectuais, diz Souza, tem seu equivalente nas religiões do passado e na forma como as crenças operavam nas sociedades tradicionais. Especificamente sobre a imprensa, o livro realça a verdade insofismável: Não basta aos endinheirados controlar todos os jornais e redes de TV para legitimar seus próprios interesses. É necessário "justificar", de modo a apresentá-los como "razoáveis".
 
A violência simbólica é tamanha, que os pobres, bem ao jeito de expressivos contingentes de explorados em face da presidente Dilma Rousseff hoje, abraçam as causas da elite (impeachment), que só beneficiam esta contra aqueles, num tipo de legalização do que é ilegal ou desprovido de certas formalidades para se tornar legal. "Isso, diz Jessé Souza, significa que os privilégios injustos de hoje não podem 'aparecer' como privilégio, mas sim como, por exemplo, 'mérito pessoal' de indivíduos mais capazes, sendo, portanto, supostamente justificável e merecido."
 
Sabe-se, infelizmente, que nem sempre é somente simbólica a violência contra os pobres. Vejamos um caso real: A diarista Márcia Maria, que presta serviços na casa deste colunista às segundas-feiras, foi convocada pela patroa do restante da semana, a participar de reunião com outros servidores da referida senhora, lavadeira, motorista e babá do filho recém-nascido. Foram essas as palavras, segundo Márcia: "Se vocês não forem à manifestação amanhã (era sábado, 12,  véspera da mobilização em favor do impeachment), estão desempregados na segunda-feira. Vocês têm de ficar juntos, para que eu os veja, na calçada do Shopping Avenida às duas horas." Ato-contínuo, Márcia Maria lançou mão do celular e pediu que o marido a apanhasse imediatamente. Estava desempregada.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Aos estudantes brasileiros

Em caráter extraordinário, o texto da coluna de hoje é de autoria de Carina Vitral, 27, estudante de economia da PUC - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e presidente da UNE - União Nacional dos Estudantes.
 
Haverá uma grande reação da sociedade civil, dos movimentos sociais e das diversas forças democráticas do Brasil se avançar a proposta chantagista de impedimento da presidente Dilma Rousseff, protocolada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.
A mesma postura terão os estudantes. Não há como esperar algo diferente da UNE, que ao longo de 80 anos sempre esteve ao lado do interesse nacional, da soberania do país e da luta contra todas as forças de golpe e autoritarismo.
Ao contrário do que previu delirantemente nesta Folha o líder Fake Kataguiri, coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL), as ruas não causarão o impeachment da presidente, mas, na verdade, derrotarão a movimentação baseada em farsas políticas e pouco respeito à normalidade institucional tão dolorosamente conquistada ao longo das últimas décadas.
No Brasil, a voz das ruas cisma em estar é do lado correto do jogo, a favor da democracia e da garantia dos direitos, no caminho dos avanços e não do retrocesso.
Talvez Kim Kataguiri e outros arremedos de liderança congêneres não o saibam porque se mobilizam apenas em favor de seus próprios interesses  --  ou daquilo que interessa a seus obscuros financiadores.
Onde estava Kataguiri quando mais de 200 escolas de São Paulo foram ocupadas na bravíssima batalha dos estudantes pela educação pública e contra o fechamento das instituições de ensino? Onde estava o MBL na primavera das mulheres pela liberdade, contra o machismo e a violência do gênero?
Aliás, onde estão as representantes femininas desses pseudomovimentos? Não são eles que representam os trabalhadores, os negros, a população rural, indígena e muito menos a juventude.
A UNE não respeita a proposta de impeachment por desconhecer sua base legal e por reconhecer no processo a reles motivação de vingança de um parlamentar imerso até o pescoço em denúncias de corrupção.
O movimento estudantil está, na verdade, totalmente empenhado na campanha "Fora Cunha!", reconhecendo nele um grande inimigo das conquistas sociais do país e da população mais desfavorecida.
A campanha contra a redução da maioridade penal, o levante feminista e os estudantes mostraram o caminho e compreendem que o presidente da Câmara representa o que há de pior e de mais asqueroso na política nacional.
Há aqueles que tentam traçar paralelo entre o processo de impeachment de Collor e a presidente Dilma, nunca acusada de absolutamente nada.
O cenário, no entanto, parece muito mais o de 1964 do que o de 1992. A rapinagem dos que desejam derrubar a república não difere daquela promovida pelos golpistas que depuseram João Goulart.
O resultado dessa ação foi a ditadura que manchou a história do Brasil, cassou as liberdades civis, perseguiu, torturou e matou aqueles que pensavam diferente, em grande parte jovens estudantes.
Coube ao movimento estudantil resistir, ser um dos protagonistas da luta contra o regime, pela reconstrução institucional do país.
Procure pela democracia e nos encontrará. Procure pela afirmação dos direitos, pela luta a favor da educação brasileira, e nos encontrará. Procure pela transformação da sociedade, pelo combate às injustiças, pelo apoio aos que mais precisam, e nos encontrará.
A UNE tem lado. Procure pelo golpe, pela chantagem e pela mentira daqueles que não gostam das regras do jogo e estaremos sempre na direção oposta. As ruas derrotarão o impeachment. A começar pelo próximo dia 16 de dezembro, data que os movimentos sociais tomarão as ruas contra o golpe, em defesa da democracia do Brasil.

Cegueira e fragilidade de caráter

O ódio cega as pessoas, quando não fere de morte o seu caráter. Mal se materializava o gesto revanchista pelas mãos sujas de Eduardo Cunha, no sentido de deflagrar o processo de impeachment de Dilma Rousseff, chovia na minha caixa de e-mails mensagens de leitores festejando o fato. Entre esses, amigos, grandes amigos, por certo incomodados com os textos de minha autoria publicados neste espaço. Estão dominados pelo inconformismo, alguns, em face das sucessivas derrotas de seus candidatos para Lula e o PT; outros, por confundir interesses pessoais com o andamento de ações do governo em face das quais se dizem prejudicados. Dói em seus bolsos a divisão da riqueza. E não me refiro aos ricos, a quem nada é capaz de tirar privilégios e regalias, haja o que houver. Trata-se de funcionários públicos ou pequenos empresários, médicos e outros profissionais liberais. Gente que desconhece o que na realidade significa destituir uma presidente eleita pela vontade soberana do povo brasileiro. Desconhecem a história, ignoram o que é a política ou a distorcem ao sabor de suas conveniências.

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Assistindo ao belíssimo 100 Anos de Samba, no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, ocorre-me lembrar de que o espetáculo acontece no mesmo palco em que se deu um dos maiores acontecimentos políticos deste País. Refiro-me à instalação, no começo de 1935, da ANL, uma das organizações mais consistentes em favor das liberdades democráticas e individuais, nacionalização dos serviços públicos, reforma agrária, aumento dos salários e melhoria das condições de trabalho, do direito à crença religiosa e de combate ao racismo no Brasil.
 
Quase ouço as vozes que nunca ouvi, mas que conheço dos poucos livros de História que registraram os fatos na ótica dos menos favorecidos, que tiveram a dignidade de narrar os acontecimentos a que me refiro sem o servilismo e a canalhice da grande imprensa de hoje.
 
No Teatro João Caetano, no coração do Rio, foi assinada a primeira Constituição brasileira. O instrumento central da Lei de um País, a que vulgarmente se chama Carta Magna da Nação, pisoteada pelo reacionarismo ressurgente de uma elite que não tolera o Diferente, que se abraça apaixonadamente ao suspeitíssimo  Eduardo Cunha e o lambe, animada pela possibilidade de um novo golpe.

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Por coincidência, leio no momento a biografia de Luís Carlos Prestes, recém-lançada pela Boitempo e assinada por Anita Leocádia Prestes. No Teatro João Caetano, em 1935, no evento carregado de simbolismo a que me refiro acima, o chamado Cavaleiro da Esperança assumiria a presidência da ANL. Era à época o político brasileiro de maior prestígio. Dono de um carisma inexplicável, Prestes era dotado de um charme e de um poder de convencimento que o fazia brilhar aonde quer que fosse. Mas era duro, tinha a firmeza de que nos falou Che Guevara, sem "perder a ternura jamais".  No Brasil de hoje, acrescento sem medir palavras, falta um homem como Luís Carlos Prestes.

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Com pouco menos de 20 capítulos e algo em torno de 500 páginas, Luís Carlos Prestes, um comunista brasileiro, com todas as restrições que se lhe possam fazer, é resultado de mais de trinta anos de pesquisa em livros, artigos e outros documentos existentes no Brasil e no exterior. Percorre a trajetória de Prestes desde a infância até à morte, em 1990. Escrita por sua filha, Anita Leocádia Benário Prestes, com a icônica Olga Benário, assassinada pela Gestapo, a biografia faz rápida alusão aos acontecimentos de instalação da ANL, mas é precisa ao traçar o perfil do homenageado. Recomendo. 

 

Intolerância ao Outro

Escrevi, há coisa de duas semanas, sobre o clássico O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. As limitações de espaço condicionaram-me a circunscrever a importância do livro à questão feminina. Em tempo, sinto-me levado a retomar o texto da pensadora francesa tomando por base um aspecto que me parece igualmente relevante, sobremaneira por tratar daquele que considero o maior desafio dos homens em pleno terceiro milênio: a convivência com "o diferente", isso que do ponto de vista acadêmico recebe o nome de "alteridade".
 
Já na parte introdutória de O Segundo Sexo, a escritora francesa faz uma afirmação central em torno da alteridade: "Nenhuma coletividade se define nunca sem a Outra diante de si. Basta três viajantes reunidos por acaso num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes se tornem 'os outros' vagamente hostis". É nessa perspectiva que o tema ganha em significado nos tempos de hoje, decorridos 65 anos desde a publicação de O Segundo Sexo. Beauvoir evidencia que aqueles que não pertencem "ao mesmo lugarejo são 'os outros' e suspeitos". Dá exemplos: 'os outros' são os judeus, para os antissemitas; os negros, para os racistas americanos; os indígenas, para os colonizadores; os trabalhadores, para os empresários.
 
No último desses exemplos, que trata da relação capital/trabalho, admitindo-se que não se pode tomá-lo como algo generalizado, o que representaria um julgamento também preconceituoso, é que o problema da alteridade, da convivência com o Outro se torna um problema particularmente importante. É que os demais, pela nitidez com que se nos apresenta todos os dias, mulheres, homossexuais, afrodescendentes, índios, imigrantes etc., constituem uma realidade indiscutível em que o preconceito e a intolerância sobressaem como um desafio inelutável. Chamo a atenção, pois, para a relação trabalhador/empresário, em outras palavras: pobres/ricos. Deixemos os nordestinos para um novo momento.
 
O que se verifica no Brasil, trazendo a reflexão para os limites da realidade mais próxima, é exemplo inconteste de que, ainda, não é possível a convivência ideal com "o diferente". Nessa relação, como em tudo na vida, o problema se fortalece no sentido dominante/dominado, isto é, a intolerância se manifesta na rejeição ao Outro, aquele "estrangeiro" que passou a transitar pelos espaços historicamente reservados para os ricos: shoppings, praias, aeroportos, ruas e praças anteriormente ocupadas pela elite e, agora, por força de uma política de inclusão social levada a efeito nesses 12 anos, "invadidas por essa gentinha do Lula", na linha do que, literalmente, enquanto folheava um livro numa loja conceituada do ramo, dia desses, ouvi de uma senhora referindo-se a um grupo de adolescentes ao lado.
 
O "não saber" aceitar a proximidade do "diferente", os menos favorecidos de uma sociedade marcada por contradições seculares, é o que me parece mais grave e preocupante na ótica do que analisa à perfeição Simone de Beauvoir. A intolerância, com o passar do tempo, ganha força, intensifica-se, vai além do comentário sórdido da socialite da livraria: transforma-se em ódio, chega à agressão física e moral.
 
Como observa a autora de O Segundo Sexo, o problema da alteridade (da convivência com o Outro) não existiria se vivêssemos numa sociedade em que o mitsein assentasse suas estruturas em valores mais humanos, a exemplo da solidariedade e da amizade. Não é o que se vê. Simone de Beauvoir reporta-se a Hegel, o filósofo alemão, para quem a hostilidade reside na própria consciência humana. É que o sujeito só se sente "posto" (bem posto!) quando se opõe ao Outro. Só assim ele se pode afirmar "como essencial e fazer do outro o inessencial, o objeto". É o ódio, a fase em que os brasileiros estamos.
 
           

Um Brasil melhor

Para a turma do "quanto pior, melhor", as notícias do Brasil real não são muito animadoras. No "Dia da Consciência Negra", comemorado sexta-feira 20, apontam dados do IBGE, o país atinge desde o início do século XXI, portanto durante o governo do Partido dos Trabalhadores, o melhor índice de todos os tempos em avanços educacionais. No que diz respeito aos afro-descendentes, por exemplo, são estes os resultados: Em 2014 mais da metade (51%) de brasileiros de 15 a 17 anos que se declararam pardos e pretos ao IBGE estão cursando o ensino médio. No início do século, ainda antes do governo Lula, essa proporção era de 25%, ou seja, apenas um em quatro alunos atingira tal nível de escolaridade.
 
Os números, obtidos através de dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), órgão do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostra que o Brasil está conseguindo vencer as desigualdades também nos bancos escolares. Os avanços são atribuídos por especialistas em educação como decorrência natural da redistribuição de renda e do projeto de inclusão social levado a efeito pelos governos do PT, inclusive no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Para esses especialistas, o resultado deve ser contabilizado como uma vitória das políticas públicas adotadas desde o primeiro mandado de Luís Inácio Lula da Silva, com destaque para o programa Bolsa Família.
 
À divulgação dos resultados da pesquisa, vem somar-se o que já fora anunciado pelo IBGE na semana passada. O Brasil continua diminuindo a diferença entre ricos e pobres. Sem meias-palavras: Aumento da renda real (descontada a inflação) continuou caindo em 2014 e, importante, alcançou o maior índice em dez anos. Repito: O crescimento da renda entre os mais pobres, ano passado, foi o maior em dez anos.
 
O resultado é real porque os rendimentos dos 10% mais pobres cresceu 4,1%, enquanto a renda dos 10% mais ricos caiu 0,4%. Segundo os dados do Pnad, o índice de Gini (medida de distribuição de renda) do rendimento do trabalho recuou de 0,495 em 2013 para 0,490 em 2014. Esses dados precisam ser explicados: quanto menor, ou seja, mais próximo de zero, mais igualitária é a distribuição da renda.
 
Contra fatos não há argumentos. O país, mesmo atravessando um momento delicadíssimo de sua história, é outro. Os números positivos refletem que vivemos num país mais justo, realidade construída a partir de um projeto de governo voltado para a maioria da população. Os erros, que existem e devem ser enfrentados com mais racionalidade e menos intolerância (erros também observados em governos anteriores), sem o que a crise tende a se agravar e a colocar em risco um conjunto significativo de conquistas. O Brasil merece, os brasileiros precisam saber separar o joio do trigo. Que me desculpem o lugar-comum.
 
 
 
 
 
 

O Segundo Sexo

RIO - No avião, entre Fortaleza e Rio de Janeiro, concluo releitura de Cerimônia do Adeus, livro em que Simone de Beauvoir relata a agonia de Jean-Paul Sartre até a morte. Como o tivesse lido havia muitos anos, pouco mais que adolescente, a narrativa da filósofa e companheira do autor do Ser e o Nada pouco me tocara à época, se não pelo fato de trazer à tona fatos curiosos da velhice de um dos maiores escritores franceses do século XX. Hoje, contudo, numa consequência natural dos muitos carnavais vividos, o drama de Sartre já não me soa estranho e o livro serve como um anúncio do que aguarda os homens de minha geração num futuro, agora, menos improvável. Se chegarmos lá, é claro.

Simone descreve com a sensibilidade de uma escritora não menos importante o que foram os dez últimos anos ao lado de um homem genial, mas humano como qualquer um, suscetível de contradições, oscilações de humor, gestos não raro indelicados e distantes de sua sabedoria como pensador e como artista. Conheceram-se ainda jovens, nos tempos da Escola Superior Normal, em Paris, passando a viver uma relação pautada pelo respeito à liberdade individual do outro, inclusive no que trata da sexualidade. Sartre teve muitas amantes, Simone também.

Não à toa, portanto, Simone de Beauvoir foi sempre incompreendida. Escreveu um livro obrigatório sobre a questão feminina, O Segundo Sexo, no qual desenvolve uma das mais extraordinárias reflexões sobre a dicotomia gênero / sexo. Começa o segundo volume do livro com uma afirmação que é mesmo uma síntese do seu pensamento acerca de como se construiu e se fez incontornável o rótulo "mulher" para a legitimação do machismo em todos os países, mesmo na Europa em que nasceu, viveu e produziu algumas das páginas mais brilhantes da literatura mundial: "On ne nait pas femme, on devient femme", algo como "não se nasce mulher, torna-se mulher".
 
Desde então (o livro é de 1949), é impossível pensar o jugo a que se submeteu a mulher sem fazer de O Segundo Sexo um apoio para a perfeita compreensão das raízes do mal que a torna muitas vezes um ser "inferior", objeto dos mais variados mecanismos de dominação em casa, nas fábricas, escolas e outros ambientes de trabalho. Para não falar da violência que outra vez parece tomar conta das páginas de jornal, a exemplo do que ocorreu recentemente à dançarina cearense morta em São Paulo.

O fato é que, por tudo o que deixou como pensadora e memorialista, sem desconhecer a sua militância política não menos relevante, o que é ainda mais significativo sob muitos aspectos, decorridos trinta anos de sua morte, Simone de Beauvoir deverá ser em 2016 o alvo das maiores homenagens mundo afora. Seu nome deve figurar com brilho nos maiores eventos que digam respeito ao que houve de melhor na ficção francesa, no teatro, no memorialismo do século XX, com mais justeza, ainda, em todas as arenas em que se debatam os caminhos que levam o homem, efetivamente, a reconhecer a igualdade dos sexos no que respeita a direitos e deveres.

Imprescindível reconhecer, todavia, que Simone de Beauvoir edificou um pensamento maior e mais denso em torno da indagação "o que é uma mulher" que os muitos "feminismos" pelos quais se orientam algumas ações femininas e ganham forma alguns discursos, de resto equivocados em seus objetivos e suficientes para endurecer saberes e práticas que perpassam o dia a dia de homens e mulheres em todos os lugares do Brasil e do Mundo. Ler O Segundo Sexo, traduzido para o português por Sérgio Milliet, é uma experiência enriquecedora. A introdução, em que Beauvoir discorre sobre a intolerância ao 'Outro', permanece atual e aplica-se com exatidão aos nossos dias. Recomendo.


            
           

Em tom de conversa

Se a droga sempre foi um dos graves problemas de saúde pública, hoje adiciona-se a isso um fator muito mais grave: o da violência, por exemplo, que grassa no dia a dia dos brasileiros de forma a nos tirar qualquer alento em relação ao futuro. A coisa vem se tornando insuportável. Todos os dias assassinatos ocorrem para que dependentes encontrem, como num passe de mágica, condições para ter em mãos o veneno, que muitas vezes, sabe-se, é o desejo de ter acesso aos bens de consumo típicos da sociedade pós-moderna.
 
Dia desses, comentando com amigos o problema, ouvi de um deles: "A droga existiu e vai existir sempre! Não é diferente agora!", pasmem. É o que tenho escutado vez e outra, e a que me oponho. Explico-me.
 
Se é verdade que o consumo de drogas atingiu patamares chocantes nos anos sessenta, setenta, não é aceitável dizer que o seu consumo resultava nos mesmos problemas de hoje ou que fossem graves na mesma medida as suas consequências sociais. Nas décadas de sessenta, setenta a droga estava inserida num contexto de amplitude maior, diria mesmo cultural  --  ou contracultural, para ser mais preciso. Havia um ideário por trás disso. Buscava-se um tipo de autenticidade, de descoberta de caminhos alternativos para o 'sufoco' advindo de uma nascente sociedade consumista de feitio pós-industrial.
 
À violência dos valores burgueses da época, que tinham lá suas particularidades se comparados aos de agora, os jovens contrapunham outras narrativas, empenhavam-se em romper com a ordem então vigente, o status quo dominante. Os signos dessa ruptura com o "estabelecido", que variavam da forma excêntrica de vestir-se ao radicalismo pacifista do movimento hippie, entretanto, obedeciam à uma vontade de transgressão e a um certo inconformismo utópico de quem sonhava com um retorno ao passado mais igualitário, mais justo e mais livre. Pelo menos na ótica dessa juventude.
 
É nesse contexto que a droga aparecia como uma alternativa, infeliz é verdade, muitas vezes perversa para seus usuários (Jimmi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain, River Phoenix, Janis Joplin*), contra o estranhamento provocado pela dureza de um mundo que parecia desprovido de humanidade. A linha de fuga, todavia, remetia à paz e ao amor do jargão hippie e a frases como All You Need is Love, pois "tudo o que você precisa é de amor", nas palavras de um dos maiores ídolos da época, John Lennon.
 
Havia, é claro, casos de violência entre os consumidores de droga. Não se trata, aqui, de fechar os olhos para o que existe de nefasto onde quer que a droga esteja, mas de chamar a atenção para o fato de que o maior mal não está na sua descriminalização, a exemplo do que se pretende em relação à maconha, mas na indústria criminosa que a produz e comercializa. Sem esquecer, claro, o vazio existencial de uma geração que me parece condenada à sua própria sorte em tantos sentidos, o que a faz menos poética e sonhadora que aquela a que pertencíamos os adolescentes dos anos 70.
 
*Sem ordem cronológica e falando apenas de vítimas famosas. 
 
 
 
 
 
 
           

Paulo Leminski

Amiga telefona-me: "Foi ver a exposição do Leminski?". Refere-se à mostra 'vida e obra de Paulo Leminski', no Centro Cultural da Caixa Econômica, em Fortaleza. Como estivesse "por aqui" de compromissos, fui à noite e deparei com portas cerradas às 20h. Coisas da província.
 
Chego em casa e remexo a estante à procura de obra do curitibano, que há muito não visito. Na fila de fundo, levemente coberto de pó, deparo com Os melhores poemas de Leminski, e entro pela noite envolto na sua poesia feita de rigor e emoção. Do amor perdido, vem o soluço: "Um passarinho / volta pra árvore / que não mais existe // meu pensamento / voa até você / só pra ficar triste".
 
Na trilha aberta por Oswald de Andrade, Leminski surgiu na década de 70 como um milagre na literatura brasileira. Trata-se de uma poesia o mais das vezes breve, jamais pequena, feita de dualidades que antes a enobrecem que vulgarizam, suficientemente bem construída para tornar possível o diálogo do clássico com o pop, de aliar a inflexão formal com o desleixo aparente no trato de questões eternas. Por isso, reler Leminski, ainda hoje, é beber no frescor de uma arte sinfrônica, dentro de cuja força lírica explodem a surpresa e o espanto.
 
Há em cada texto uma pegada original e sensível, o feeling que distingue, mais na atmosfera que na forma, a poesia da prosa, o legítimo do falso poeta. Atento ao pulsar da vida, que oscila entre o sagrado e o profano, que salta do prosaico ao mais nobre movimento da alma humana, na celeridade de um instante,  seu olhar como que se projeta no vazio entre "o sopro e o apagar da vela", como quando se debruça sobre as travessuras do tempo.
 
Como em ato visionário, o eu-lírico revela-se consciente da fugacidade da vida: "Ainda vão me matar numa rua. / Quando descobrirem, principalmente, / que faço parte dessa gente / que pensa que a rua / é a parte principal da cidade." Se não morreu de morte matada, como diria Guimarães Rosa, Leminski morreria de morte natural em 1989, a poucos meses de completar 45 anos. Não sem antes percorrer, poeta maldito, o tortuoso caminho (da existência humana!) como um bêbado o traçado das ruas durante a madrugada. Se não se crê nos caminhos, como chega a desconfiar, eles existem: "Yo no creo en caminos, / pero que los hay, / hay."
 
Não à toa Paulo Leminski ombreia com os gigantes de sua geração, a exemplo de Caetano Veloso, que diria dele em texto de apresentação da primeira edição de Caprichos e relaxos, 1983, com palavras simples: "Deve ser instigante para os poetas do Brasil o aparecimento desses novos poetas todos. Leminski é um dos mais incríveis que apareceram."
 
Por essas e tantas outras, é que a exposição do Centro Cultural da Caixa, sobre Paulo Leminski, vem em boa hora, para tornar conhecida entre os cearenses a obra de um escritor tão versátil mas pouco divulgado junto ao grande público. Amor, angústia, utopias, inconformismo, amizade, perda, sonho, quase nada passa ao largo do olhar poético desse artista múltiplo. No mesmo nível de sua produção em versos, lembremos, encontra-se quase tudo que nos deixou em romance, contos e crônicas. Para não falar do letrista, que povoou de lirismo refinado a música popular brasileira do seu tempo. Morreu precocemente, mas teve em vida a sensibilidade de um velho, "para descobrir, detrás de uma pedra, toda a primavera".
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
           

Arrependimento ou demência?

Para quem se empavona quando instado a falar do seu passado como presidente, as declarações registradas em diário por Fernando Henrique Cardoso não são lá muito abonadoras. Estão em livro que chega às livrarias no fim do mês, mas em parte já conhecidas desde a última edição da revista Piauí. As declarações resultam de gravações feitas pelo próprio FHC, indo de banalidades que apenas evidenciam a sua vaidade doentia a desabafos que deixam ver em que medida o seu governo esteve atolado em práticas hoje condenadas pelo ex-presidente. Vejamos algumas delas:
 
Afagando o ego
Hoje fui também ao lançamento do programa de telecomunicações do Serjão, tudo bem, fiz um discurso aplaudidíssimo, falei com força sobre as questões brasileiras.
Administrando ilícitos
A suposição imediata de muitos, inclusive do Serra, é que foi um dos diretores do Banco Central que vazou. Eu disse ao Gustavo Loyola: "Como é possível que isso tenha saído?" [...] Todo mundo sabe que todo mundo recebeu. [...] E de fato houve esse vazamento, que é grave, no Banco Central.
Manipulando lideranças no Congresso 
Está tudo acertado. Com Sarney, mais com Luís Eduardo do que com Sarney, mas sem problemas. Maciel calmo, apesar de toda a boataria que menciona o seu nome.
Impedindo a instalação de CPI
O Marco conversou com ele e, até segunda prova, Sarney estaria disposto a certa cooperação para pôr um ponto final da CPI. [...] Além disso, a CPI põe em instabilidade o sistema financeiro e põe em risco o Real.
Acobertando fraudes
Veja quanta dificuldade. Por trás, o Sarney disse ao Jorge Bornhausen que a Receita está em cima do Jader, eu não sabia, e do Gilberto Miranda, que isso está pondo mal todo mundo e que ele próprio, quando eu era ministro da Fazenda, teve que pagar 800 mil reais à Receita. [...] O Gilberto Miranda falou com o Eduardo Jorge que, ou se manda parar a fiscalização em cima dele, ou ele põe fogo no circo, vai dizer tudo que sabe etc. etc.
Revelando sua desfaçatez
Nós temos que parar com isso. Vai dar uma confusão grande. É preciso acabar logo com essa história de CPI e depois dar uma demonstração de congraçamento por causa de nossas posições institucionais.
Apelando junto à base de sustentação ao governo
Argumentei que não, que estava fazendo um apelo à maioria, apelo aos partidos que me apoiam, que, como a CPI era política, eu estava querendo uma definição a meu favor, e sem pedir nada ao PT nem ao PDT. Estou simplesmente pedindo à maioria que me apoia.
Fazendo conchavos com Maluf
Expliquei ao Maluf minha posição sobre a reeleição, ele é candidato a presidente da República. Me tratou com gentileza e cordialidade e, no fim, disse que não ia me atrapalhar, mas que não podia me ajudar na questão da Previdência, porque foi chamado de ladrão.
Falando sobre a imprensa e o Brasil da época
A imprensa praticamente já se desinteressou das reformas, só está interessada mesmo em demonstrar que está tudo errado. Este é o Brasil de hoje [1996], onde a modernização se faz com a podridão, com a velhacaria, com o tradicionalismo, o qual na verdade ainda pesa muitíssimo.
Reportando-se ao atual presidente da Câmara dos Deputados
O Eduardo Cunha foi presidente da Telerj, nós o tiramos de lá porque ele tinha trapalhadas, ele veio da época do Collor.
Avaliando o PSDB em tom brincalhão
Eles sabem disso, mas choram do mesmo jeito. Até brinquei com o Cristovam, que era o muro das lamentações o que eles estavam fazendo lá, e que quem gosta de muro é tucano.
 
Diários da Presidência, vol. I, reúne mais de 40 horas de gravação. O ex-presidente fala, ainda, de como articulou com a Globo, com a Folha de S. Paulo e com o jornal O Estado de São Paulo a fim de poupar a imagem do seu governo e formar opinião positiva sobre suas ações como presidente da República. Arrependimento ou demência?
 
 
 
           

Poema e letra-de-música

É sabido que Chico Buarque resiste a autorizar que as letras de suas músicas sejam publicadas, como poemas, em livro. Afirmei isso, em debate, e amigo querido contestou: "Mas tenho visto alguns livros com suas letras nas livrarias". Disse bem, "com suas letras"... É diferente de 'poema', pelo menos se submetido esse material (independentemente de sua qualidade estética) ao mínimo rigor acadêmico, a exemplo do que eu afirmara durante o debate. Explico-me.
 
Há no mercado inúmeros livros que comentam as letras de músicas do nosso maior compositor, suas canções, o teatro e a ficção, nenhum, contudo, que analise a sua produção como letrista numa perspectiva rigorosamente literária. De crítica literária, pelo menos. Tenho em casa aqueles de cuja publicação tomei conhecimento e, alguns, são livros importantes. Chico Buarque do Brasil, organizado por Rinaldo de Fernandes, por exemplo, é maravilhoso. Chico Buarque, de Wagner Homem, é excelente. Para Seguir Minha Jornada, Chico Buarque, de Regina Zappa, é soberbo. Mas, afinal, o que existe de diferente entre "poema" e "letra-de-música"?
 
Em que pese a limitação de espaço, tentarei responder. Em livro dedicado a essas diferenças, o renomado poeta e ensaísta Pedro Lyra estabelece 15 diferenças fundamentais do ponto de vista da estrutura, da criação, da enunciação, da temática, da substância, da expressão, da percepção, da atitude, da perspectiva, da autonomia, do nível, do destinatário, da recepção e do consumo.
 
Trata-se de um trabalho acadêmico, cuja abordagem não se aplica com justeza ao que pretendo aqui. Vou por atalhos e cito o saudoso Cacaso, exímio nas duas formas de construção poética pela palavra: "O suporte e a justificativa da letra é a 'canção', que anima a palavra de uma dimensão nova, sublinhando e redimensionando o sentido por meio de intervalos melódicos, dos ritmos, harmonias, timbres. E por meio, sobretudo, do canto, da presença humana, que dá às palavras de uma letra um suporte de generalidade baseado na emoção, na inflexão psicológica viva, na recriação do momento".
 
Tati, outro craque como letrista, vai na mesma linha, para quem o compositor está condicionado a buscar caminhos que compatibilizem texto e melodia. Um não sobrevive, por inteiro, sem a outra. A expressão poética está atrelada à musicalidade, à melodia, "centro da elaboração da sonoridade do plano da expressão". A letra, diz ele, ficaria mutilada se desvinculada do "lastro entoativo, que toda canção alimenta".
 
É famosa, para os amantes da música popular, o arranca-rabo em que estiveram envolvidos Caetano Veloso e o historiador e crítico de música popular José Ramos Tinhorão, tudo porque este afirmara sobre o artista baiano e Chico Buarque de Holanda o seguinte: "Pode-se dizer que Caetano Veloso é um bom letrista, Chico Buarque é um bom poeta. Mas é assim, "tudo bem", mas não me venha comparar com Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto. É bom lá para aquilo que ele faz, cantando e tal".
 
Preconceitos à parte, o certo é que, admirador contumaz dos dois (Chico e Caetano), extraordinários "poetas", no sentido de que fazem "poesia" a exemplo do que fazem todos os grandes artistas  --  escultores, pintores, músicos etc.  --, pois toda arte é poética no plano da substância, mas difere no plano da expressão, faço aqui uma observação: conta em favor de um e outro, diferenciando-os dos demais artistas, cujos suportes constituem linguagens distintas, o fato de que o poeta convencional e o letrista utilizam-se do mesmo código para produzir seus textos, o código verbal. Mais relevante é que ambos, Chico e Caetano, são reconhecidos e amados como compositores e letristas sublimes. Esta a razão por que o autor de Construção, dizia eu, não admitiu, ainda, que suas letras-de-música sejam publicadas em livro como literatura. A mesma a que se tem dedicado, por último, com uma competência excepcional.
 
Para finalizar, é oportuno lembrar que mesmo no teatro, terreno em que transita com genialidade, Chico Buarque dá voz às personagens através da canção, não das "falas" convencionais do gênero. O texto dramático de peças notáveis de sua autoria, Roda Viva, Calabar, Ópera do Malandro, cairiam feridas de morte se as tais "letras" fossem recitadas. Não é demais lembrar, a propósito, que ária e recitativo são distintos na ópera. Aquela é cantada solitariamente, quase sempre, pelo ator ou atriz, o segundo é como se define a parte da ópera em que o elenco declama o texto. É isto.
 
 
 
 
 
 
            
           

O Fausto brasileiro

Consta que entre 1480 e 1540 viveu na Alemanha uma figura "notável" por suas particularidades pessoais: era audacioso, movido por uma vaidade doentia, além de luxurioso e aventureiro. Não pesava os meios pelos quais pretendia sempre levar vantagem e se tornar poderoso, mais do que a sua condição de moço rico e de boa linhagem já lhe haviam assegurado do berço. Chamava-se Fausto e teve a sua personalidade envolta por lendas, notadamente por ter pactuado com o diabo a fim de ver realizados seus sonhos.  Mas foi a partir da obra de Goethe que Fausto ganhou projeção universal, constituindo um dos mitos mais famosos da grande literatura.
 
Simboliza, ainda hoje, aquela personalidade egocêntrica, pretensiosa, afeita aos prazeres da vida, mas dominada pelo desejo de subir sempre mais, a qualquer custo, e pela ânsia de tudo conquistar  --  quem sabe o infinito.
 
São célebres os versos com que Mefistófeles, o demônio, descreve Fausto: "De que é louco talvez ande mesmo ciente,/quer do céu as estrelas, esse pobre aflito./E da Terra os prazeres todos busca e sente./De tudo o que há na terra ou no céu, em alto rito,/nada há que o console ou que o apascente".
 
A Fausto importa, como disse, conquistar o poder, ainda que renunciando à própria alma. É capaz de tecer ardis, negociar com as trevas em busca de luz. É diabólico em suas trapaças, tudo quer, tudo lhe parece legítimo a fim de atingir seus objetivos, oscilando entre a fantasia do ópio e o grotesco da vida real.
 
De homens assim, infelizmente, o mundo está infestado, como é possível ver, por exemplo, nos meios políticos do Brasil atual, o Brasil de Aécio, FHC, Eduardo Cunha etc. Vejamos o lead de uma das manchetes do jornal Folha de S. Paulo, sexta-feira 9: "Para presidente da Câmara, divulgação de contas na Suíça visa constrangê-lo; Aécio sugere a ele que se afaste em troca de apoio".
 
Arvorando-se arauto da moralidade, Aécio Neves fecha os olhos para as falcatruas de Cunha, em cujas mãos está em parte o instrumento mais potente para derrubar a presidente Dilma Rousseff. Para ele, pactuar com Cunha nada tem de imoral, contanto que seu objetivo seja atingido. Quer, a todo custo, a qualquer preço, ser presidente da República, é isso que importa. Do avô, herdou antes o maquiavelismo que as muitas qualidades como homem público. Tancredo Neves chegou a presidente, mas, sabe-se, quis o destino não pudesse ser empossado. Como um Fausto do seu tempo, negociou a alma, mas teve um fim trágico.
 
O clássico romântico é, talvez, a mais bela representação do egoísmo humano, da vaidade mórbida, da frustração que corrói, do inconformismo do homem diante das derrotas, de resto naturais na trajetória de qualquer um.
 
Como Fausto, outros mitos simbolizam a falta de limites para a ambição sem freios (Titãs, Prometeu, Ícaro), que conduz as pessoas a pactuar, até mesmo, com os demônios. Inconformado com o fato de ter perdido a eleição para Dilma Rousseff, Aécio vem reeditando o que existe de simbólico na figura de Fausto. Reparem no que há de rutilante no seus olhos durante as entrevistas. Há neles algo do desespero trágico da personagem de Goethe.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Love

Do artista plástico e professor universitário Herbert Rolim, vem um comentário elogioso à coluna da semana passada. A uma dada altura, todavia, o amigo faz uma correção pertinente: a cena final de Love termina com a imagem congelada do personagem abraçado ao filho  --  e não à filha, como escrevi. Perfeito. O equívoco faz diferença se levarmos em conta que, pela metade do filme, Murphy revela-se preocupado com a sexualidade do filho quando crescer. Mas, aí, seria outro o viés de análise. O filme, para mim, tem como eixo temático a paixão e sua força muitas vezes devastadoras na vida das pessoas, sem que isso revele qualquer negativismo sobre um sentimento absolutamente importante na vida de todos nós.
 
A história oscila, portanto, em torno de duas perspectivas da paixão. A primeira delas, a perspectiva clássica, isto é, a paixão trágica, porque invariavelmente tem um final infeliz, em que pesem os momentos de realização dos amantes. A segunda, mais intensa no conteúdo dramático do filme, explora o que Denis de Rougemont define, em livro fascinante sobre o assunto, como o amor cortês. Surge entre os séculos XII e XIII e caracteriza-se pela impossibilidade da relação. É o tipo que perpassa a vida dos amantes no Ocidente.
 
A propósito, lembro aqui um fato curioso: um dos signos passionais mais conhecidos na cultura popular ocidental, a Marcha Nupcial, tem suas origens no terceiro ato da ópera Lohengrin (1848), de Richard Wagner. Nessa peça, a marcha é executada durante a cerimônia de casamento de Lohengrin e Elsa, com a participação do coro. Pouca gente sabe, no entanto, que se trata de uma das histórias de amor mais infelizes da grande arte, bem ao gosto do amor cortês a que nos referimos há pouco. Aos que depositam confiança em presságios, pois, essa seria a menos recomendável das músicas nupciais.
 
O fato é que o amor cortês, que tem suas raízes, como disse, na Idade Média, está presente nas mais importantes histórias românticas; das mais conhecidas, Romeu e Julieta à frente, às menos populares, entre as quais merecem destaque a de Tristão e Isolda e a de Lancelot e Guinevere. Shakespeare foi talvez o mais sublime artista a lidar com a matéria, e Otello, subjetivação à parte, permanece viva até hoje por lidar à perfeição com o tema do ciúme, razão de tanta infelicidade entre casais de todos os tempos. Corrijo-me: sobre o tema, a perfeição ficou mesmo foi com Machado de Assis e o seu estupendo Dom Casmurro.
 
Love, o polêmico filme de Gaspar Noé, por sinal, ao explorar o amor cortês na atualidade (fazendo-o com competência, a exemplo do que pretendi mostrar), não passa ao largo desse componente diabólico na vida dos casais. As cenas em que Murphy se deixa dominar pelo ciúme de Electra, cujo nome não é detalhe desprezível, por nos remeter ao mito, são absolutamente impactantes do ponto de vista cinematográfico, e conduzem os amantes, com poesia, para o desfecho 'trágico'.
 
O mais significativo, é que a paixão é uma experiência arrebatadora e não é aceitável imaginar um mundo sem o milagre da sua presença. Se isso ocorre, e ocorre quase sempre de forma a nos roubar de nossa própria individualidade, "dessa prisão do eu que condena a nossa própria e solitária morte", como bem frisou Rosa Montero, um dos grandes nomes da literatura espanhola atual, no âmbito de sua existência (dela, a paixão) reside um dos segredos maravilhosos de Deus. E por isso vale a pena.
 
 
 
 
 
 
 
 

O paradoxo da paixão

Depois de causar uma expectativa só comparável ao decepcionante Os 50 tons de cinza, chega à Capital Love, o polêmico filme do franco-suíço Gaspar Noé. E que belíssima surpresa. Não pelo sexo explícito que é mesmo uma dimensão abusada de Love (e que explica por certo a gigantesca correria às salas de cinema), mas pelas qualidades estéticas que o sustentam num nível poucas vezes visto em títulos do gênero. A propósito, começo por fazer uma autocorreção: Love não é um filme do gênero pornô, embora, como disse, sejam recorrentes as cenas de sexo de padrão naturalista diante das quais Ninfomaníaca, de Lars Von Trier, por exemplo, parecerá um 'sessão da tarde' ingênuo e bem comportado.
 
O que move o filme, no entanto, é o tema da paixão como um sentimento dotado de um poder contraditório. Sua força, que pode transformar o mundo de uma pessoa e causar emoções paradisíacas, aqui surge como um sentimento capaz de arruinar a alma e destruir a vida de um homem. A porta de entrada, como sempre, é o sexo, elemento importante na composição da personagem central do filme, Murphy (Karl Glusman), e na construção do eixo dramático em torno do qual vai se desenrolar o enredo assinado pelo próprio Gaspar Noé. Aliás, não é gratuito lembrar que esse é também o tema de filmes anteriores do diretor, com destaque para Irreversível (2002), em que se depara com uma das duas cenas de estupro mais fortes do cinema  --  a outra está em Sob o domínio do medo (1971), de Sam Peckinpah.
 
Murphy é um estudante de cinema que se envolve com a artista plástica Electra (Aomi Muyock), com quem vive uma relação a princípio equilibrada. À força de colocar em prática suas fantasias, que vão de um ménage à trois a noitadas degradantes de sexo e drogas, o casal inicia uma trajetória tensionada de alegria e dor. Essa tensão de feitio neobarroco, por sinal, é o leitmotiv da história, o que torna o filme exemplarmente bonito do ponto de vista estético: mesmo as cenas de sexo explícito, como nunca antes se pode ver no circuito do grande cinema, menos chocam que proporcionam ao espectador mais refinado uma experiência sensorial a um tempo agradável e desinteressada, à maneira do belo segundo a matriz kantiana. Sem esquecer a trilha musical, bonita de doer.
 
À parte o gesto spoiler, é soberba a forma como Gaspar Noé lida com a matéria dramática do enredo, como procedeu à decupagem, como escolheu suas estratégias narrativas num filme que poderia resultar apenas apelativo. A câmera é sensível, move-se com delicadeza, os enquadramentos são precisos, poéticos, ainda quando intencionalmente assustam o espectador com o inesperado. O amor pela sétima arte extrapola recorrentemente, a exemplo de quando articula a ação com o que o se vê no quadro, não raro cartazes de clássicos do cinema: O vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang, 1931), Uma Odisseia no espaço (Kubrick, 1968) e Saló ou 120 dias de Sodoma (Pasolini, 1975), para citar aqueles de que me recordo.
 
Love joga com diferentes temporalidades e aborda os tipos de memória de que nos falou Bergson em livro importante, Matéria e memória; visita Freud, palmilha Lacan, o que revela o suporte intelectual do seu diretor. A memória involuntária, que nos transporta para o passado de modo a ditar o rumo das nossas ações no presente, constitui o elemento mais profundo e mais marcante da história. É ele que conduz Murphy, perdido o objeto amado, Electra, às profundezas de um conflito que só cresce com o passar das horas. Ao dirigir o olhar para a mulher grávida, que o surpreende aos prantos debaixo do chuveiro, numa das sequências mais espessas do ponto de vista psiquiátrico do filme, quem Murphy "vê" é a outra, Electra. O bolinho madeleine a que se refere Proust  --  Em busca do tempo perdido  --, tem no sexo, aqui, o seu equivalente. São as imagens de suas relações sexuais com Electra que pontuam o desespero de Murphy, que o perseguem, mesmo quando tem nos braços a filhinha pequena, como na cena absolutamente desconcertante do final do filme.
 
Não estranha que Gaspar Noé leve muita gente a se ver no drama de Murphy. É que o sofrimento da desilusão amorosa e a dor da perda, com que só muito poucos são capazes de saber lidar de forma equilibrada, pontuam por certo o que existe de mais atual nesse Love carregado de sentidos e força poética. Esse passado, como escreveu Marcel Proust, "está escondido, fora do domínio e do alcance da nossa inteligência, em algum objeto material [...] de que não suspeitamos. Depende do acaso encontrarmos esse objeto antes de morrermos, ou não o encontrarmos". A personagem do filme encontrou, e, por isso, vive o seu inferno.
 
 
 
 
 
 
 
 
            
            
           

Que horas ela volta?

Há no Górgias, um dos mais importantes diálogos de Platão, uma discussão entre Sócrates e Cálicles acerca do que é ser feliz. Para este, a felicidade é ter força, poder, sobressair ante a vontade dos outros. Para Sócrates, longe disso: Ser feliz é ser justo. Ao afirmar isso, interessa a Platão dizer que a justiça é para todos. E nisso reside a condição de ser feliz.
 
Lembrei do filósofo ao assistir ao filme Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, em cartaz nos cinemas. O roteiro está construído em torno de um eixo dramático muito simples: Val (sublimemente interpretada por Regina Casé), uma empregada doméstica nordestina, recebe na casa dos patrões, num bairro grã-fino de São Paulo, a filha que não viu crescer por ter dedicado parte de sua vida a criar Fabinho, o filho riquinho do casal. Mas há no desenrolar dessa história acontecimentos magistrais, e inequivocamente ligados ao Brasil dos últimos doze anos. Vou tentar explicar.
 
O filme traz à tona, com algum atraso em face do momento atual, o que significou para a sociedade brasileira o projeto de inclusão social do governo Lula, quando foi possível para os menos favorecidos  --  representados na personagem de Jéssica, que se recusa a submeter-se às normas humilhantes dos patrões de sua mãe e ingressa numa universidade particular antes mesmo de Fabinho, o filho rico da casa  --  fazer valer sua autoestima e tornar sua dignidade pessoal um instrumento de luta contra o preconceito e a exploração. Do outro lado, a elite paulista, desde sempre identificada com o que existe de mais reacionário em termos políticos no Brasil de hoje, numa palavra, o PSDB de Aécio Neves e companhia.
 
A forma como Muylaert soube articular essa correlação de forças, o delicado fio em que se tentam equilibrar esses dois brasis, é para além de apenas bem sucedido do ponto de vista estético, mas atravessa o coração do espectador minimamente atento aos ganhos reais dos mais pobres nesses últimos anos: a classe média intermediária representa hoje um terço da população brasileira, segmento a que pertence metade dos jovens do país. Sem esquecer que o número de pessoas com escolaridade em nível superior mais que dobrou entre 2005 e hoje.
 
Jéssica, a filha de Val, impressiona os patrões, notadamente Bárbara, dona da casa, não à toa uma "estilista" profissional, o tipo que vive das boas impressões. Ao ouvir de Jéssica os sonhos que tem por realizar, Bárbara não contém o muxoxo: "Hum, este país está mesmo mudando".
 
Jéssica infringe as normas da casa: recusa-se a ficar no quartinho dos fundos, come sentada à mesa, aprecia sorvetes finos, conversa de igual para igual com os patrões e, mais feliz simbolismo dramático do filme, ousa tomar banho na piscina da casa, pelo que é severamente repreendida por Val. É de tirar o folego, por isso mesmo, a sequência do filme em que vemos Val adentrar a piscina, agora esvaziada para conter os excessos de Jéssica, tão-logo decide pedir demissão do emprego para ir morar com a filha universitária e comunica-lhe pelo celular sua decisão.
 
No final do filme, sabendo que Jéssica é mãe solteira, Val dirige à filha as palavras mais carregadas de simbolismo em face das muitas conquistas dos pobres no Brasil de antes da crise: "Vai buscar teu filho, Jéssica, vai! Eu compro a passagem. De avião!" Não é muito lembrar a indignação da elite diante dos aeroportos apinhados de pessoas humildes.
 
Como observou um crítico sobre o filme, "A essência da revolta das recentes manifestações contra o governo federal tem presença forte no longa, mas de maneira velada, com as panelas passando ainda pelas mãos de Val".
 
Que horas ela volta?, que concorrerá ao Oscar de melhor filme estrangeiro 2016, ao expor a intolerância e o inconformismo da elite brasileira diante dos avanços sociais do governo Lula, mostra do cinema aquilo que ele tem de universal. E reedita a afirmação de Platão: "Ser feliz é ser justo!"
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A sentença

É de Platão (428-348 a.C.) uma das mais belas alegorias de que se tem notícia: o Mito da Caverna. As pessoas, acorrentadas, como se estivessem num "cinema" remoto, olham para a parede onde se veem sombras, provenientes de uma grande fogueira. São essas sombras que, aos olhos dos homens aprisionados, constituem o que chamam de realidade. A partir delas, todos fazem suas interpretações. Certo dia, diz Platão, um desses homens se liberta das amarras e sai da caverna. A princípio, pelo excesso de luz, não consegue enxergar com perfeição as coisas, até que seus olhos habituem-se com a claridade plena. É aí que pode compreender que a realidade é outra coisa, muito diferente do que pensara.
Para Platão, pois, não vemos nada além de sombras. Se sairmos da caverna, haveremos de deparar com a luz do Sol, símbolo da sabedoria, da consciência que nos permitirá entender que a realidade é bem diferente do que pensávamos. É que estamos acorrentados na escuridão da ignorância e vemos, projetadas na parede dessa grande caverna, apenas sombras. Com o Mito da Caverna, Platão constrói sua mais veemente crítica à política. Nela, tomamos sombra por realidade, mentira por verdade. No Brasil de hoje, a alegoria de Platão deveria ser leitura obrigatória. É que nunca o seu conteúdo foi tão atual e a sua mensagem tão oportuna.
Hoje em dia não existem mais espaço público e espaço privado. Em Raízes do Brasil, livro memorável, Sergio Buarque de Hollanda já tratara disso numa outra perspectiva. Vilém Flusser, filósofo que viveu aqui por muitos anos, fez reflexões impagáveis sobre o assunto. 
Para ele, é no apagamento da fronteira entre o público e o privado que reside a essência do que se costuma considerar a revolução da comunicação. Quando nos reunimos diante da TV, na sala de casa, por exemplo, uma empresa privada "vende" sua interpretação da vida pública como lhe convém. Projetam para nós as sombras de que nos falou Platão. Não há política que mereça esse nome quando o privado confunde-se com o público, digo melhor: quando os interesses das grandes empresas privadas invadem a nossa privacidade como o faz a TV Globo, projetando de forma prodigiosa diante de nós as suas falácias e a sua inconfessável versão dos fatos.
É isso que chamam política, diz Flusser: "Mas na verdade estamos conectados às mídias e não politicamente. Quando queremos ter uma imagem do mundo, não vamos para o espaço político, vemos televisão".

O pior é que fazem o mesmo as "publicações" mais lidas no Brasil, jornais e revistas que se aparelham para projetar sombras sobre a realidade do País, por si só, tão difícil. À luz do Sol, o que se vê é o anúncio de um massacre: "Como é que ainda se pode condenar o sujeito? No máximo  --  diz Flusser  --  pode-se pronunciar uma sentença. Pode-se dizer: 'Esse homem está em situação que é melhor eliminá-lo'. Mas isso não é mais uma pena de morte, é uma técnica social. Não é mais política". 

 
 
 
 

Uma breve história da humanidade

Esta semana a presidente Dilma Rousseff citou em pronunciamento um livro que acabo de ler com entusiasmo. Intitula-se Sapiens, uma breve história da humanidade, do israelita Yuval Noah Harari. É desses textos deliciosos (permitam-me a adjetivação) que tragam o leitor já na primeira página e só o deixam vir à tona ao final, saciado de informações e questionamentos a respeito do universo. Informações e questionamentos, diga-se em tempo, que se contrapõem, em grande parte, ao que professam alguns livros clássicos de nossa formação escolar, o que, em princípio, causa ao leitor um certo estranhamento.
 
Mas o eixo condutor do livro de Noah Harari constitui respostas a indagações por demais curiosas: "O que possibilitou ao Homo sapiens  subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras?"
 
Harari faz a partir dessas indagações algumas reflexões desconcertantes, sem nunca se afastar por completo das bases científicas e históricas que evidenciam a seriedade intelectual com que procura explicar situações, contingências, fenômenos por trás de cujas ocorrências o homem foi (ou vai?) se tornando matador de si mesmo. Afirma que o Capitalismo é a maior e mais bem-sucedida religião; compreende a formação dos impérios como consequência dos sistemas políticos os mais diversos, à direita e à esquerda, aventando a hipótese de que "o império global que está sendo forjado diante de nossos olhos não é governado por nenhum Estado ou grupo étnico em particular".
 
Sapiens, uma breve história da humanidade, publicado este ano no Brasil, foi lançado em Israel em 2011, desde quando vem se transformando num verdadeiro fenômeno de vendagem, traduzido hoje para meia centena de países. Consistente, original, inquietante, o livro põe por terra muito do que pensávamos saber acerca da 'evolução das espécies', a exemplo da afirmação de que essas espécies teriam obedecido a uma linha reta de descendência  --  esgaster, erectus, neandertal, sapiens.
 
Segundo Harari, essa evolução, assim explicada pelos mais respeitados livros sobre os quais nos debruçamos um dia, enseja o equívoco de que "apenas um tipo humano habitou a Terra e de que as espécies anteriores foram meros modelos mais antigos de nós mesmos". Afirma ele que entre 2 milhões de anos e  10 mil anos atrás o mundo foi habitado por diferentes espécies humanas ao mesmo tempo. É aí que levanta a ideia mais premente: "... nós, sapiens, temos boas razões para reprimir a lembrança de nossos irmãos".
 
O livro aponta, já nas primeiras páginas, para a ocorrência de três revoluções mais importantes no curso da História: A Revolução Cognitiva, por volta de 70 mil anos; a Revolução Agrícola, algo em torno dos 12 mil anos atrás e a Revolução Científica, que começou há pouco mais pouco menos de 500 anos, o que admite ser em tese o fim da História e o começo de algo diferente.
 
O mais significativo nesse extraordinário Sapiens, uma breve história da humanidade, todavia, é que seu autor tem a coragem de se contrapor a 'conhecimentos' sacralizados nos meios acadêmicos, discursos carregados de preconceitos, ideias preconcebidas sobre o nosso passado remoto, ao qual, por certo, ainda estamos de tal modo presos que, ignorá-lo, com especulações acadêmicas de toda ordem, é ignorar a nossa própria existência nos tempos modernos. Por trás de tudo, evidencia, é o imaginário que orienta o homem através do tortuoso caminho pelo qual "pensa" estar indo ao encontro da "realidade". Um grande livro.

Pele do Tempo

                                                                                                            Por Álder Teixeira*
 
Sempre que deparo com a dificuldade de discutir com alunos o que há de licencioso na Arte Contemporânea, nos limites do que se fez no Brasil nos últimos 30 anos, alguns nomes me ocorrem como exemplo de que nem tudo está perdido em termos estéticos. É verdade que alguns desses, tendo já nos deixado, reúnem uma obra já muito sedimentada do ponto de vista analítico, com destaque para criadores da estatura de Hélio Oiticica e Fayga Ostrower. Outros, por estarem em plena vitalidade produtiva, continuam a impor à chamada crítica especializada o desafio de tentar desvendar o que pulsa de mais original e consistente sob o ponto de vista da linguagem. Isso, mesmo quando o artista ou a artista já conquistou o reconhecimento e o prestígio internacional, como é o caso de Adriana Varejão, sobre quem me proponho tecer aqui rápidas considerações a propósito da exposição que inaugurou esta semana na Universidade de Fortaleza.
 
Com o apropriadíssimo título "Pele do Tempo", a mostra arregimenta 32 peças da artista carioca, nascida em 1964; a primeira datada de 1992, a mais atual de 2014. O conjunto não poderia ser melhor escolhido, posto que constitui uma 'narrativa' por demais representativa das diferentes fases de um dos nomes mais viscerais do que se convencionou chamar de arte contemporânea no Brasil.
 
Diante dele, o visitante dá de encontro com uma variada abordagem temática e formal, do perfume barroco de primeira hora ao tropicalismo inquietante da segunda fase, da impactante pesquisa sobre a interioridade corporal, em que sobressaem os registros do canibalismo ingênuo e do esquartejamento repulsivo, recorrente em momentos de sua trajetória, à poesia de diferentes temporalidades que são, supostamente, o carro-chefe de sua produção mais recente.
 
Na contramão do que revelou em entrevista recente, há qualquer coisa de discursivo em Adriana Varejão que coloca o seu olhar estético em sintonia com o que existe de mais significativo nas pesquisas intersemióticas. Dos materiais utilizados, azulejos, polímero, madeira e poliuretano, resina, gesso, além da matéria prima mais convencional, da paleta propriamente dita, sem esquecer a visada denunciadora e inconformada de algumas de nossas maiores contradições enquanto Nação, projeta-se uma densidade simbólica desconcertante, que nos faz pensar como poucos nomes da arte contemporânea foram capazes de fazer.
 
O espaço de representação explorado por Adriana Varejão rompe, assim, conceitualmente, com as fronteiras reducionistas das diferentes linguagens. Tem equivalente, guardadas as proporções, nas pesquisas cinematográficas de um Godard, ou teatrais de um Grotowski, para ser mais ousado em meus registros de percepção. A sua obra "fala" não apenas com os elementos das linguagens pictural e escultórica, que a princípio parecem convidar o espectador a uma experiência estética convencional. Não. Aqui, depara-se com uma fenomenologia estética que leva à sensação de movimento, advinda essa sensação do volutear das ondas dos mares da azulejaria, dos cabelos eriçados das sereias, do figurativismo retorcido de toda ordem, da embriaguez orgiástica que emana de pratos imensos e paredes , por exemplo, lembrando intencionalmente os desenhos de Rafael Bordallo (1846-1905).
 
Quando debato com alunos os excessos do que se convencionou chamar de Arte Contemporânea, dizia eu, é natural que me ocorra citar alguns artistas que foram além da simples transgressão; que o fizeram pelo absoluto domínio dos meios de expressão, não pela falta desse domínio; pelo modo como concebem e realizam sua arte; pelo senso estético por que orientam a sua trajetória criativa.
 
Não se trata, pois, de manipular rótulos, de estabelecer fronteiras classificatórias, mas de discutir talento, qualidade artística rigorosamente falando. Se arte contemporânea é o que se deve entender por uma arte capaz de suplantar limites, de ir além da aplicação servil de regras e procedimentos, de normas e princípios, da utilização de meios tradicionalmente palmilhados, em nada me constrange dizer que a arte contemporânea brasileira é digna de figurar no circuito da grande arte universal. Adriana Varejão é, nesse contexto, uma artista diferenciada, cuja obra alcança o mais elevado nível de diversidade vocabular e sentido poético. Sua exposição em Fortaleza coloca a capital cearense, em definitivo, no circuito nacional da grande arte. Imperdível.
 
*Doutor em Artes pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais
 
 
  
 
 
 
 
            
           

Gostinho do velho francês

Construí minhas bases estético-cinematográficas a partir da França, nomeadamente dos filmes da Nouvelle Vague que até agora são mesmo uma de minhas maiores paixões. Nada a ver com o filme sobre o qual teço na coluna de hoje rápidas considerações, Os Olhos Amarelos dos Crocodilos, de Cécile Telerman, um dos três que consegui ver no último Festival Varilux (os outros foram Samba e Que Mal Fiz a Deus?, ambos superiores ao filme de Telerman). 
 
Longe disso, que a realizadora francesa prende-se estruturalmente à narrativa clássica americana, de cujas proposições nunca consegue se desvencilhar por completo, mesmo quando a câmera mostra-se mais solta e a escolha do enquadre, aqui e além, desobedece à gramática do estilo hollywoodiano mais tradicional.
 
Então, por que a referência a um cinema reconhecidamente autoral quanto o francês dos anos 60 para falar desse banal Os Olhos Amarelos do Crocodilo? Justifico-me: mesmo quando se mostra obediente aos procedimentos clássicos, a exemplo do terceiro filme de Telerman, a cinematografia francesa consegue manter-se uma oitava acima das convenções americanas. Neste caso, o realce fica por conta do enredo, bem na linha do que têm feito os franceses nos últimos anos, como veremos.
 
A trama, plasmada timidamente no romance homônimo de Katherine Pancol, gira em torno das contradições comportamentais que envolvem duas irmãs, Josephine (Julie Depardieu, filha de Gerard), símbolo da mulher divorciada bem comportada e discreta que recomeça a vida ao lado de um homem mais jovem, e Iris (Emmanuele Béart), mãe pouco dedicada, interesseira e inescrupulosa, bem ao jeito das tantas que excedem nos meios sociais dominantes.
 
É com base no abismo das diferenças que separam as duas irmãs, que Telerman sustenta-se ao longo de todo o filme, contando em seu favor o fato de conseguir prender a atenção do espectador e proporcionar-lhe uma experiência em alguma medida catártica de conflitos tão recorrentes no mundo atual.
 
O filme ganha maior densidade dramática quando Iris, na pretensão de pousar de escritora, pactua com Josephine a escritura de uma livro ambientado na Idade Média. É aí que deparamos com o leitmotiv que constituirá a linha de força da realização de Céline Telerman, um retrato vivo do drama feminino hodierno com seus conflitos e sonhos não raro frustrados de felicidade na profissão e no amor. Mas o que está por trás desse sonho? Com a palavra as mulheres.
 
Nada que reedite Godard ou Truffaut, nem mesmo o Lelouche da fase imatura, ou mesmo Chabrol, tampouco Rohmer. Mas se pode perceber por trás da câmera uma diretora sensível e elegante, cujo pecado maior reside na lentidão com que liberta os primeiros fios de sua teia analítica sobre dramas que os "turcos" parisienses souberam à perfeição explorar.
 
Impossível desmerecer, contudo, a direção de elenco, com destaque para as interpretações seguras de Depardieu e Béart, esta em curva ascendente como atriz e como mulher de beleza desconcertante na maior parte de suas aparições no filme. Por seus defeitos perfeitamente aceitáveis para o que parece ser mesmo uma questão de escolha de Cécile Telerman, mais que pela presença de qualidades inegáveis em alguns momentos do filme, Os Olhos Amarelos do Crocodilo merece ser visto. Quando menos, pelo gostinho do velho drama francês.
              
           

Triste Brasil

Nesta quinta-feira 13, faz um ano do desastre que matou o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos. Até agora, no entanto, não se sabe de quem era o avião em que viajava. Aos que têm criticado as posições políticas deste colunista, a propósito, levanto uma reflexão: onde está a Justiça brasileira? O que explica que a reconhecida capacidade de investigação da Polícia Federal tenha sido incapaz de identificar quem era o proprietário do jatinho que vitimou o então candidato a presidente? Vou além: fosse um político ligado ao PT o fato estaria ou não na primeira página dos nossos melhores jornais?
 
Enquanto isso, Natália Monte, a juíza a quem caberia determinar a indenização dos prejuízos causados pelo desastre limita-se à afirmação de que "a obscuridade" do proprietário do avião "torna inviável a reparação". Não há negar: no Brasil de hoje existem dois pesos e duas medidas, duas formas de encarar a dura realidade política e institucional. Essa aeronave tem registro na Agência Nacional de Aviação Civil - ANAC - e deixava a descoberto na sua fuselagem um prefixo, pousou e decolou em aeroportos de todo o País, levou Eduardo Campos aonde lhe convinha durante a campanha para a Presidência da República. Então? Por que o silêncio?
 
Como afirmou um conhecido jornalista, "O nível de competência que a Polícia Federal alcançou não admite a hipótese de dificuldade, por menor que fosse, para identificar a propriedade do avião". O caso, bem na esteira do que ocorreu ao aeroporto de Aécio Neves em Minas, será dentro em pouco engavetado, sob a chancela indecente de uma Justiça que enxerga aquilo que lhe interessa, da forma que lhe convém, num jogo de esconde-esconde com que tenta encobrir os muitos e muitos escândalos envolvendo políticos do PSDB, a exemplo do metrô de São Paulo, a exemplo do mensalão tucano, a exemplo do helicóptero abarrotado de cocaína no interior de Minas Gerais, da compra de votos para a reeleição de FHC e por aí vai.
 
Dor e sofrimento de familiares e amigos de Eduardo Campos à parte, decorrido um ano do desastre que o ceifou, é oportuno lembrar que o nome do ex-governador está diretamente ligado a fatos investigados pela operação Lava Jato que atingem algo em torno dos R$ 20 milhões. Nenhum desses, todavia, minimamente esclarecido até aqui, numa coincidência irônica de que no Brasil se identificam os "jatos" ao sabor das conveniências partidárias e dos interesses de uma imprensa tendenciosa e desprovida de sentido moral.

Enquanto isso, sob a bandeira do PSDB, no domingo 16, prevista para ocorrer nas principais cidades do País, aquela que deverá ser, em termos numéricos, a maior manifestação em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Contará, somente em São Paulo, com cerca de dez carros de som. Dentre esses, pelos menos três serão utilizados em defesa explícita de uma intervenção militar.

 

A atmosfera, como se vê, é de golpe. 

 

Há uma grande distância no tempo, o País viveu o mesmo sentimento oriundo de sua elite insatisfeita com os avanços sociais propostos por João Goulart. Tudo muito parecido com o que se vê agora. Faltará, entre outras coisas, a figura conspiradora de Carlos Lacerda, governador do extinto estado da Guanabara. De sua confortável varanda na divisa do Leblon com Ipanema, entretanto, com o mesmo olhar de abutre sobre a carniça, haverá Aécio Neves. Triste Brasil.

 

 
 
 
 

"A vida é muito curta para ser pequena"

A frase é de Benjamin Disraele. No contexto do que se convencionou chamar 'tempos modernos', cada vez mais se tornam raridades aqueles que podem de cabeça erguida confessar sua vida. Não tivesse inúmeras outras qualidades, às quais nos reportaremos a seguir, já por essa razão Jorge Gentil Barbosa, o Contador de Histórias, produzido por Elizabeth Fiuza, teria vindo a público gozando do prestígio que dá bem o tamanho do homem biografado, a quem tomo a liberdade de tratar a partir de agora por Jorge, simplesmente.
 
O livro transita entre a autobiografia, como a rigor se classificam os textos com que o próprio autor (ou autora) registra a trajetória de sua vida, e as formas fronteiriças, a exemplo das memórias, do diário pessoal e das confissões íntimas, todas empenhadas no mesmo objetivo: promover o extravasamento do "eu" literariamente. Decerto, é imprescindível para tanto que a vida do biografado possua a dimensão humana que, para o bem ou para o mal, o tenha destacado dos simples mortais. No caso de Jorge, trata-se de uma vida que se eleva a uma posição respeitável, pela riqueza de sua trajetória e pelas qualidades morais que são mesmo uma marca do seu extraordinário caráter.
 
Admitindo-a como autobiografia, a obra requer perspectivas de exame ainda mais atentas, uma vez que o ponto de vista é o de Jorge, mas as estratégias narrativas estão submetidas ao rigor da socióloga Elizabeth Fiuza, cujo domínio do gênero vem dando realce ao seu talento como intelectual e como memorialista. Dizer isso, antes de qualquer coisa, é fazer justiça a essa pesquisadora notável, primeiro pelo registro sensível de uma existência por si só digna do reconhecimento escrito, depois por evidenciar com competência que memorizar essa vida, estando ela profundamente ligada à vida de Fortaleza,  é dar uma importante contribuição para a preservação de sua própria história enquanto cidade.
 
Não estamos, assim, diante de uma escritura à maneira ghost-writer, expressão inglesa com que se define o profissional especializado em prestar serviços de redação textual a pessoas que não dispõem de tempo ou não levam jeito para escrever. A autora não se esconde por trás de conveniências, não trabalha no silêncio obsequioso e interesseiro, não se propõe a dizer inviolável o segredo de sua participação na construção da obra. Pelo contrário, por mais que dê voz ao biografado, quase sempre respeitando o seu próprio estilo como narrador, Elizabeth norteia os caminhos, aponta saídas, minimiza alguns acontecimentos em defesa de outros, por certo consciente de que por esquecimento, voluntário ou deliberado, todo e qualquer biografado inconscientemente interfere com o olhar do presente na reconstituição do seu passado. 
 
Em Jorge Gentil Barbosa: o Contador de Histórias, pois, não se depara com o narcisismo gratuito (recorrentes nos relatos em primeira pessoa), nem com o autoelogio esnobe e antipático. Não. O discurso invariavelmente é sincero, ainda que coberto, natural, do verniz do tempo e das circunstâncias hodiernas, na linha do que torna público Elizabeth Fiuza, quando afirma que Jorge, "ao falar de sua infância, de suas muitas memórias e imagens, parece realizar um processo de catarse, de reconhecimento de muitas das aflições vivenciadas e de suas causas."
 
De fato, os relatos de Jorge trazem dentro de si mais que histórias pessoais individualizadas. Esses relatos parecem romper as fronteiras de sua solidão memorialística para reascender a presença viva dos que participaram de sua existência de forma mais significativa, demorada ou fugidia, mas que ajudaram a construir sua personalidade a um tempo híspida e delicada, prosaica e poética, austera e generosa, mas nunca vocacionada para o anonimato de qualquer espécie.
 
Na superfície rasa do memorialismo cearense atual, a autobiografia de Jorge Gentil Barbosa, por Elizabeth Fiuza, como um sopro de esperança à beira dos precipícios morais (e humanos) em que estamos, vai ficar, no plano do conteúdo, como um exemplo a ser seguido; no plano da expressão, como uma prova de que se pode fazer com absoluta simplicidade estética uma boa literatura. 
 
 
            
            
           

Discurso de canalha

O jornalismo é um meio de comunicação de que sociedade alguma pode prescindir para que se façam valer os princípios democráticos que a sustentam. Mas o jornalismo, como professam as teorias pós-estruturalistas, de que a obra de Michel Foucault constitui uma de suas bases mais importantes, se expressa pelo "discurso" e, como tanto, não está isento de distorcer fatos ou de inventá-los pela manipulação das informações de acordo com os interesses daqueles que, proprietários das empresas jornalísticas, tornam possível a veiculação de sua realidade discursiva.
 
Dito assim, claro, fica complicado entender o que estou querendo dizer para os leitores desta coluna. Faço-o, numa tentativa de simplificação, exemplificando o que afirmo tomando por base uma das manchetes do jornal Folha de S. Paulo, em sua edição de quinta-feira, 23, acerca do que criminosamente intenciona dar como informação para o leitor. Vejamos: "Lula procura FHC para discutir crise e conter impeachment". O corpo do texto, no entanto, para qualquer leitor mais atento, desfia uma série de artifícios para esconder o único fato comprovável de toda a "notícia": uma nota do Instituto Lula materializando a indignação do ex-presidente com a informação maldosa.
 
O resto da matéria, como veremos, reedita conversa de canalha quando se determina a obter resultados em dadas circunstâncias: "O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou amigos em comum a procurar seu antecessor, o tucano Fernando Henrique Cardoso, e propor uma conversa entre os dois sobre a crise política. O objetivo imediato do movimento é conter as pressões pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff".
 
Levianamente, a "notícia", assinada a quatro mãos por Daniela Lima, de São Paulo, e Marina Dias, de Brasília, e amparada no prestígio de Ricardo Balthazar, editor do caderno Poder do jornal Folha de S. Paulo, não cita sequer uma das pessoas envolvidas com o que se propõe narrar como fato. Algo como "não sei quem disse que não sei onde não sei quem falou" com que o senso comum faz galhofa das invenções populares.
 
A tornar ainda mais visível o cabotinismo da matéria, no próprio texto seus autores reproduzem uma fala do ex-presidente FHC sobre a hipótese de um encontro: "O presidente Lula tem meus telefones e não precisa de intermediários. Se desejar discutir objetivamente temas como a reforma política, sabe que estou disposto a contribuir democraticamente. Basta haver uma agenda clara e de conhecimento público". Sem comentários.
 
Perversamente, para não falar do que isso quer dizer do ponto de vista ético, a matéria afirma: "Não foi o primeiro aceno de Lula à oposição. Em maio, ele encontrou o senador José Serra (PSDB-SP) na festa de um amigo comum e disse que gostaria de marcar uma conversa reservada. Lula derrotou Serra na eleição de 2002." Mas só alguns parágrafos depois esclarece: " Serra não quis confirmar o conteúdo da conversa que teve com Lula em maio, e disse apenas que não tem nenhum encontro marcado com ele."
 
Pelo discurso, tal qual o entendemos no campo da tese de Michel Foucault, a grande imprensa (jornais, televisões e revistas de maior circulação no país) vai dando representação ao governo popular da presidente Dilma Rousseff e da maior liderança brasileira que lhe dá suporte, Lula, bem como ao "resto" dos brasileiros a quem o atual projeto proporcionou condições reais de inclusão social. O ponto de vista do dominador se sobrepondo à voz do dominado, à espera de uma oportunidade para se fazer ouvir.