O Fausto brasileiro

Consta que entre 1480 e 1540 viveu na Alemanha uma figura "notável" por suas particularidades pessoais: era audacioso, movido por uma vaidade doentia, além de luxurioso e aventureiro. Não pesava os meios pelos quais pretendia sempre levar vantagem e se tornar poderoso, mais do que a sua condição de moço rico e de boa linhagem já lhe haviam assegurado do berço. Chamava-se Fausto e teve a sua personalidade envolta por lendas, notadamente por ter pactuado com o diabo a fim de ver realizados seus sonhos.  Mas foi a partir da obra de Goethe que Fausto ganhou projeção universal, constituindo um dos mitos mais famosos da grande literatura.
 
Simboliza, ainda hoje, aquela personalidade egocêntrica, pretensiosa, afeita aos prazeres da vida, mas dominada pelo desejo de subir sempre mais, a qualquer custo, e pela ânsia de tudo conquistar  --  quem sabe o infinito.
 
São célebres os versos com que Mefistófeles, o demônio, descreve Fausto: "De que é louco talvez ande mesmo ciente,/quer do céu as estrelas, esse pobre aflito./E da Terra os prazeres todos busca e sente./De tudo o que há na terra ou no céu, em alto rito,/nada há que o console ou que o apascente".
 
A Fausto importa, como disse, conquistar o poder, ainda que renunciando à própria alma. É capaz de tecer ardis, negociar com as trevas em busca de luz. É diabólico em suas trapaças, tudo quer, tudo lhe parece legítimo a fim de atingir seus objetivos, oscilando entre a fantasia do ópio e o grotesco da vida real.
 
De homens assim, infelizmente, o mundo está infestado, como é possível ver, por exemplo, nos meios políticos do Brasil atual, o Brasil de Aécio, FHC, Eduardo Cunha etc. Vejamos o lead de uma das manchetes do jornal Folha de S. Paulo, sexta-feira 9: "Para presidente da Câmara, divulgação de contas na Suíça visa constrangê-lo; Aécio sugere a ele que se afaste em troca de apoio".
 
Arvorando-se arauto da moralidade, Aécio Neves fecha os olhos para as falcatruas de Cunha, em cujas mãos está em parte o instrumento mais potente para derrubar a presidente Dilma Rousseff. Para ele, pactuar com Cunha nada tem de imoral, contanto que seu objetivo seja atingido. Quer, a todo custo, a qualquer preço, ser presidente da República, é isso que importa. Do avô, herdou antes o maquiavelismo que as muitas qualidades como homem público. Tancredo Neves chegou a presidente, mas, sabe-se, quis o destino não pudesse ser empossado. Como um Fausto do seu tempo, negociou a alma, mas teve um fim trágico.
 
O clássico romântico é, talvez, a mais bela representação do egoísmo humano, da vaidade mórbida, da frustração que corrói, do inconformismo do homem diante das derrotas, de resto naturais na trajetória de qualquer um.
 
Como Fausto, outros mitos simbolizam a falta de limites para a ambição sem freios (Titãs, Prometeu, Ícaro), que conduz as pessoas a pactuar, até mesmo, com os demônios. Inconformado com o fato de ter perdido a eleição para Dilma Rousseff, Aécio vem reeditando o que existe de simbólico na figura de Fausto. Reparem no que há de rutilante no seus olhos durante as entrevistas. Há neles algo do desespero trágico da personagem de Goethe.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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