Um Para o Outro

No filme Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, há uma fala de Juan Antônio (Javier Bardem), referindo-se à ex-mulher, Maria Elena (Penélope Cruz), que me chamou a atenção: - "Ela e eu fomos e não fomos feitos um para o outro." Bingo. Eis a questão. Somos e não somos feitos um para o outro. Ninguém é perfeito, já se disse.

Ela é linda, inteligente, carinhosa, mas com um temperamento... Ele, o homem que desenhei para mim, não fosse isso! Ela gosta de esportes radicais, como eu, mas não trata bem os meus filhos do primeiro casamento. Ele é culto e escreve uma barbaridade, poemas lindos, não fosse o gênio, os rompantes quando está com raiva... Ela, além de bela, por dentro e por fora, é sensível e sexualmente me deixa nas nuvens, mas a família... a mãe, então, não dá para suportar. E assim, por um ou outro detalhe, que aos nossos olhos fazem a diferença, aqui e além, depois do milagre da conquista, da delícia do encontro, pessoas que nasceram uma para a outra, vão dando a ver as suas imperfeições, as suas manias, o seu lado tortuoso. Vão revelando os monstros interiores que todos carregamos, uns mais, outros menos. É que não existe a perfeição, reitero.

O pintor Juan Antônio foi casado com a também pintora Maria Elena, possuidora de um talento prodigioso, além de extremamente bela, sensual e culta. Se ele é agora um artista reconhecido, rico, admirado pelas mulheres, muito está a dever a Elena, cujo estilo vibrante e original exerceu sobre Juan uma grande influência. Ele a ama, como jamais haverá de amar outra mulher, mas 'foram e não foram feitos um para o outro'. Maria Elena é temperamental, explosiva, age sob impulsos, não controla o ciúme. E Juan, homem sedutor e dono de um charme irresistível, a ponto de namorar a um tempo Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), as amigas americanas que vão passar férias em Barcelona, e ocupam o espaço central da trama de Allen, vai levando a vida em busca do par perfeito, da cara-metade, da mulher que tenha sido feita para ele.

A arte imitando a vida. Ou a vida imitando a arte, como quis Wilde? O certo é que o segredo do relacionamento feliz está na tolerância que nos falta sempre, na equivocada utopia de que um dia, como que em passe de mágica, o acaso coloque a nossa frente a pessoa que terá sido feita para nós, e que, também, andava às tontas a procura da metade perdida. Buscar agulha em palheiro, cresci ouvindo a minha mãe. E tudo seria tão mais fácil... Saber, apenas saber. Não existe a perfeição: - "Ah, a Maria é do tipo 'não sei o que quero, mas sei o que não quero' que me tira a paciência. Mas é bonita, sabe ceder quando é preciso, é esteio quando me falta o chão. E que segurança me dá!" E ela: - "O Pedro é conservador, mas que companheiro, que beijo gostoso ele tem, que homem íntegro ele é!" É que foram e não foram feitos um para o outro. E como são felizes!

O drama de Woody Allen, este especialista em relacionamento, não deixa às claras, mas sou capaz de apostar: Juan Antônio e Maria Elena, em que pesem tantas incompatibilidades, um dia descobriram, também, que "foram e não foram feitos um para o outro." Ainda que sejam muitas as imperfeições.

A Arte Ensina

Durante palestra, universitária questiona: - "Então, inveja e ciúme são equivalentes?" Eu falava sobre Machado de Assis, mas precisamente sobre Dom Casmurro, sua obra magna. Não, inveja e ciúme são coisas diferentes, embora muitas vezes confundidas. Valho-me de Freud, vou ao seu complexo de Édipo. O menino tem inveja do pai e sente ciúme da mãe. No caso do romance de Machado, Bentinho tem inveja de Escobar e ciúme de Capitu. A conversa torna-se ainda mais interessante, o que evidencia ser o ciúme, na contramão do que parece, um sentimento comum ainda hoje, quando a emancipação feminina leva o homem a perder-se, a sentir-se ameaçado pela própria sombra. Um inferno, que felizmente pode ser evitado. É uma questão de vontade, de percepção de que este sentimento é, ao lado da inveja, o que pode haver de mais destrutivo, de mais devastador. A pergunta da estudante enseja outras, o ciúme, o ciúme...

Spinoza, o pensador holandês, estuda a matéria em Ética, no início da terceira parte, Dos Sentimentos e das Paixões. Um primor. Diz ele: "Esse Ódio da coisa amada, aliado à Inveja, é o Ciúme." Curioso, mas onde existe o amor, não raro há o risco do ódio, que se manifesta durante a crise de ciúme. A inveja é o sentimento que move o ciumento contra aquele que deseja o objeto do seu amor. O ciúme, por sua vez, incide sobre a pessoa que se ama. É o que Spinoza chama de 'flutuação de ânimo', vinda, invariavelmente, do amor e do ódio, porque nunca se está seguro do amor do outro, da reciprocidade desse sentimento, e nem da sua duração.

Ocorre-me dar um exemplo extraído da própria arte, o filme Ciúme, o inferno do amor possessivo, de Claude Chabrol, um dos expoentes da Nouvelle Vague, ao lado de François Truffaut e Jean-Luc Godard. A obra explora à exaustão esse sentimento pérfido de que trato ao proferir palestra sobre Machado de Assis, o que, curiosamente, desperta tanto interesse a um público de quase adolescentes. Pode? São as contradições da vida, num tempo em que ninguém parece 'estar nem aí' para isso e a ordem do dia são os relacionamentos passageiros.

Voltemos à cena. Nelly e Paul, um casal apaixonado a protagoniza. Paul interroga Nelly: - "Você não ia almoçar na casa dela (a mãe de Nelly)?" Ia, mas..." A mulher explica ter mudado de plano e ido com uma amiga comer algo em uma loja. Paul insiste: - "E os clientes, enquanto isso?" Nelly quer saber: - "Que clientes?" Ao que Paul, responde: - "Enquanto vocês comiam na loja." O homem vai criando hipóteses, entrega-se ao delírio de todo ciumento: - "Até as três horas?" E a cena desfecha-se de forma genial, quando a mulher dirige-se a Paul: - "Preste atenção, não passo meu tempo de olho no relógio. Espere, olhe um pouquinho para você, venha na luz... Não é possível, mas você está com ciúme." Genial, já disse. A mulher pede que Paul veja-se à luz. É que o ciúme doentio deixa-se ver fisicamente, na deformação do rosto do homem ciumento. Reconhecer a tolice da sua existência (a existência desse sentimento ridículo, quando não controlado), é, por sorte, o caminho único para a sua superação. A arte ensina.

As Mãos

Como tenho escrito recorrentemente sobre relacionamentos, tema o mais das vezes de interesse do público feminino, vira e mexe recebo e-mails ou telefonemas comentando textos aqui publicados. Desta feita, vem um 'protesto' curioso: - "Sua crônica faz a apologia do amor não-correspondido [sic]! Não gostei, embora o filme seja de fato muito bonito." A leitora refere-se ao texto da semana passada, Ainda sobre o amor, em que 'exalto' a beleza do amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, no livro de Gabriel García Márquez. Indignação à parte, o que respeito intransigentemente, leitora, ainda me permita citar uma frase antológica do cinema: - "Só há um tipo de amor que dura: o não correspondido."

Trata-se de uma fala de Jodie Foster em Neblima e Sombras, de inícios dos anos 90. Sem querer polemizar, mas já o fazendo, como diria o Jô, reconheço ter dado razões para o protesto da leitora, embora não tivesse sido esta a minha intenção. É fato, no entanto, que a literatura e o cinema têm explorado à exaustão o amor infeliz, bem como a música popular brasileira. A propósito, observe-se o que canta o cancioneiro romântico. É fossa pura, tema em que se notabilizam os mais renomados compositores do país, de Duran a Chico Buarque, para não falar de Roberto Carlos e Herivelto Martins.

Dia desses, por conta de um outro texto em que discorri sobre o amor cortês, conversávamos entre amigos e alguém levantou a questão: - "O problema é que o apaixonado jamais admite que o seu amor não é correspondido." Perfeito. Foi aí que um outro amigo tentou se impor: - "É só olhar nos olhos e sabe-se se o amor é sincero." Balela. A mulher, e o homem também, revelam-se pelas mãos. É no movimento das mãos, na forma como essa linguagem se expressa que se sabe se ele ou ela está ou não varado de paixão. Em tempo, ocorre-me lembrar um texto maravilhoso de Stefan Sweig no clássico 24 horas na vida de uma mulher. Obra-prima, perfeição:

- "[...] duas mãos como nunca vira, direita e esquerda entrelaçadas crispadamente como animais encarniçados, que se esticavam e agarravam numa tamanha tensão acumulada que os nós dos dedos estalavam com aquele ruído seco de uma noz partida." E é no mesmo belíssimo livro do escritor vienense que se encontra a revelação: "[...] o rosto como a parte mais visível de sua natureza, esquecem as mãos, e esquecem que há pessoas que observam unicamente as mãos, adivinhando nelas tudo o que em cima os lábios sorridentes e os olhares intencionalmente indiferentes querem ocultar."

Bem, leitora, divaguei demais. É a paixão pela palavra que me levou a isso, mas ainda seja tolerante e tire de Sweig a bela lição, afinal, como no belíssimo 24 horas na vida de uma mulher, o relacionamento amoroso é um jogo: - "[...] nem lhe posso descrever quantos milhares de tipos de mãos existem no jogo [...], mãos nervosas e trêmulas de unhas pálidas que mal se atrevem [...], mãos nobres e vulgares, brutais e tímidas, astutas e hesitantes - mas cada uma com um efeito diferente, pois cada uma desses pares de mãos expressa uma vida especial..." E a idade, diga-se mais. No caso, as mãos expressavam outros sentimentos, e o amor era correspondido. Temporariamente, que tudo passa.

Ainda sobre o Amor

"Pode-se amar alguém por tantos anos sem ser correspondido?", leitora indaga por e-mail acerca de crônica que publiquei neste espaço. Reportava-me a um amigo que casou pela segunda vez com a mesma mulher depois de dez anos separados. O caso não me parece tão incomum. A propósito, li esta semana A Natureza do Amor, da psicanalista italiana Donatella Marizziti, que recomendo para aqueles que buscam a resposta para uma das perguntas mais recorrentes na vida de homens e mulheres: por que eu amo?

Mas, como atender à curiosidade da leitora a partir das pesquisas da estudiosa italiana? Bem, para ela, no que tão-somente reafirma a opinião de outros tantos pesquisadores, o apaixonamento não parece prolongar-se por um tempo superior a três anos, mas o amor, que tem por essência o apego, sim. Mesmo quando não se tem o objeto amado, o que me parece relevante na perspectiva da questão levantada. Assim, pode-se amar, pode-se manter acesa a chama do amor por toda a vida. Diz ela: - "[...] seria importante não confundir o apaixonamento com o amor, por que 'eu te amo' não quer dizer apenas 'estou atraído a você como a nenhum outro', mas também quer dizer sei como você é, e mesmo assim você me faz bem." O livro traz, dessa forma, respostas interessantes sobre questões que todo amante quer ver esclarecidas: o amor que a mulher sente é diferente do amor que o homem sente? A atração masculina é diferente da atração feminina? O impulso sexual é diferente entre homem e mulher?

Como um apaixonado incorrigível pela grande literatura, a indagação da leitora levou-me a reler O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez. Mais que isso, a assistir à belíssima adaptação de Mike Newell para o cinema. O que isto tem a ver? Tudo. Trata-se, em essência, da história real de Gabriel Elígio García por Luiza Márquez, pai e mãe do escritor colombiano. Ou, mais precisamente, do amor do poeta e violinista Florentino Ariza por Fermina Daza. O roteiro é simples, mas a história em si é arrebatadora: Florentino Ariza apaixona-se por Fermina Daza, mas o pai desta, a exemplo do coronel Nicolas, sogro do romancista, não aceita o relacionamento e manda a filha para o interior. Fermina casa-se com o médico Juvenal Urbino. Decorridos mais de cinquenta anos, durante o velório de Urbino, Florentino reafirma seu amor: - "Esperei 52 anos, quatro meses e dez dias para dizer que a amo!"

Se o livro dispensa comentários, posto que se trata supostamente do romance insuperável de Márquez, superior mesmo ao clássico Cem Anos de Solidão, o filme é também um épico não menos arrebatador. No elenco, Javier Barden, que compôs à perfeição a personagem central da obra, além de Giovanna Mezzagiorno, numa interpretação tocante da bela Fermina Daza, e, no seu primeiro filme em língua inglesa e num papel secundário, a nossa Fernanda Montenegro, que encanta como mãe de Florentino Ariza.

Ah, leitora, acho que a sua pergunta, como se vê, tem resposta no plano da realidade e da ficção. Como no caso desse livro encantador de Gabriel García Márquez. O amor, sua potência, a sua inelutabilidade, bem como os sofrimentos e tormentas que pode desencadear, como nos lembra, também, a psicanalista italiana. Não deixe de ler.