Conto da desfaçatez

Era minha intenção dar um tempo nos temas políticos e voltar ao que é mesmo o esteio deste blog: um espaço dedicado à Arte em suas diferentes linguagens, cinema e literatura à frente. Mas o calor dos acontecimentos, que reinserem o golpe na pauta do dia, convoca-me a fazer aqui registros que traduzam a linha de pensamento por que temos historicamente norteado nossos passos aqui e além. Em verdade, cedo o espaço da coluna de hoje para vozes do atual governo.
Para quem professava a afirmação de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff fora um processo lícito, amparado em fundamentos meramente constitucionais, os fatos dessa segunda-feira 23 clarificam o que esteve sempre por trás das articulações maquiavélicas (no mau sentido do termo) dos partidos ditos de oposição. Refiro-me, é óbvio, às gravações da conversa entre o homem forte do governo golpista  --  e grande líder das maquinações escusas contra Dilma e o PT  --, Romero Jucá, e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. O teor, sabemos, é de enrubescer de vergonha qualquer cidadão. Mas são eles que "escreverão" a coluna de hoje, como disse, um tipo de conto da desfaçatez. Boa leitura.
 
MACHADO - Agora, ele (Lula) acordou a militância do PT.
JUCÁ - Sim.
MACHADO - Aquele pessoal que resistiu acordou e vai dar merda.
JUCÁ - Eu acho que...
MACHADO - Tem que ter um impeachment.
JUCÁ - Tem que ter impeachment. Não tem saída.
MACHADO - E quem segurar, segura.
JUCÁ - Foi boa a conversa mas vamos ter outras pela gente.
[...]
MACHADO - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel (Temer).
JUCÁ - Só o Renan (Calheiros) que está contra essa porra. Porque não gosta do Michel, porque Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ - Com o Supremo, com tudo.
MACHADO - Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ - É. Delimitava onde está, pronto.
[...]
MACHADO - Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já.
JUCÁ - Caiu. Todos eles. Aloysio (Nunes, senador), o Serra, Aécio (Neves, senador).
MACHADO - Caiu a ficha. Tasso (Jereissati) também caiu?
JUCÁ - Também. Todo mundo na bandeja para ser comido.
MACHADO - O primeiro a ser comido vai ser o Aécio.
JUCÁ - Todos, porra. E vão pegando e vão...
[...]
MACHADO - O que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele (Aécio Neves) ser presidente da Câmara. Amigo, eu preciso da sua inteligência.
[...]
MACHADO - Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande.
[...]
MACHADO - É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma...
JUCÁ - Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.
MACHADO - O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...
JUCÁ - É, a gente viveu tudo. 


Triste Brasil

É verdade que os rótulos direita, centro e esquerda perderam hoje sua validade rigorosa, se é que a tiveram um dia. Têm suas raízes no final do século XVIII, mais exatamente nos anos que antecederam à Revolução Francesa. Na tentativa de tornar os debates mais organizados em face das divergência não raro pontuadas por atos de violência física, o presidente das assembleias separou a sua direita e a sua esquerda os militantes contrários ou a favor das mudanças, nessa ordem. Girondinos e jacobinos. Desde então se convencionou considerar-se de direita aqueles que se posicionam contra os avanços, e, de esquerda, aqueles que se colocam a favor das transformações ditas progressistas, isto é, que buscam os caminhos pelos quais se possa alcançar uma sociedade mais igualitária e mais livre.
A coisa, com o passar do tempo, foi se tornando mais complexa. Alguns, se não se contrapõem aos avanços e conquistas, não os querem radicais, mas lentos, consentidos pela sociedade civil. O mesmo ocorrendo aos de direita, por conseguinte, que muitas vezes não querem mudanças, mas não nutrem a pretensão de voltar ao passado.
Surgiram novos conceitos, extrema-direita, centro-direita, centro-esquerda e extrema-esquerda, ou seja, os que querem a reimplantação dos fundamentos ditos ultrapassados, os que querem a manutenção da ordem e são contrários a quaisquer avanços, os que defendem que esses avanços sejam graduais, no ritmo das possibilidades históricas e aqueles que buscam pelas práticas revolucionárias o estabelecimento de estruturas de governo populares, voltadas para o povo e, teoricamente, por ele exercido.
Numa ressignificação desses conceitos, pois, é que se pode dizer que no Brasil se dá um golpe em favor das classes dominantes e reinstala-se no país um governo de extrema-direita, ou reacionário, o seu equivalente mais moderno. Nesses termos, portanto, é que Michel Temer assume, sem a legitimidade do voto, o comando dos destinos políticos do país. Vejamos: Após 13 anos de um governo reformista (os governos do PT nunca foram de esquerda, como equivocadamente alguns os consideram), que tornaram realidade conquistas importantes para o povo, os mais pobres e as minorias, o Brasil dá uma volta à direita, destina-se ao atendimento dos interesses do capital, norteado por um liberalismo econômico perverso e, descaradamente, contrário às minorias. Novamente, vejamos.
Na composição do seu ministério, nenhuma mulher, algo jamais verificado no país desde a era dos generais; nenhum negro; entrega a pasta da Educação ao DEM, cuja atuação em nível do congresso dificultou a aprovação de programas de apoio aos estudantes pobres e a adoção de cotas para afrodescendentes e índios; para o Ministério do Desenvolvimento Social, que abriga o Bolsa Família, escala um deputado do PMDB que rotulou o referido programa de "coleira política"; para a Justiça um ex-advogado de uma facção criminosa e que, como Secretário de Segurança Pública de São Paulo, determinou porrada contra os estudantes, além de maquiar vergonhosamente os números da violência em seu estado, etc., etc.
A foto de sua posse, do presidente golpista Michel Temer, é assustadora. Enquanto Dilma fez seu pronunciamento  --  primoroso, diga-se de passagem  --  ladeada por quadros expressivos do sindicalismo, das lutas estudantis, de lideranças femininas, de ex-presos políticos e representantes legítimos de inúmeros movimentos sociais, Temer aparece ao lado do que existe de mais ultrapassado, a dita direita "brucutu", gente das bancadas ruralista, da bala, dos evangélicos mais retrógrados, que pregam o que definem como "cura gay", a perseguição explícita aos LGBTs. Não à toa, registre-se, reuniu-se por mais de uma hora com os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano, com quem teria firmado compromissos de arrepiar cabelo de elefante. Durma-se com essa realidade! Triste Brasil.
 
 

As palavras do príncipe

Em meio ao espetáculo geral em que se tornou o país, por força da qualidade rasteira da expressiva maioria dos políticos brasileiros hoje, bem a exemplo do que se pôde ver na histórica sessão da Câmara dos Deputados que deu início ao impeachment da presidente Dilma ("Pela minha mulher Letícia, pelos meus filhos, Juliana, Pedro e Lucas, por Lucki, minha cachorrinha, pela minha cidade, Flores, por Deus, pelo Brasil.."), chama-me a atenção o festival de citações como forma de dar substância aos mais estapafúrdios argumentos e bizarras interpretações dos acontecimentos políticos que dão ensejo ao golpe de 2016. Mesmo jornalistas de sólida formação intelectual, na ânsia de fortalecer suas ideias, não fogem à regra do que se tem visto.
Em edição recente do jornal Folha de S. Paulo, para ficar num caso que me ocorre enquanto escrevo a coluna, o respeitado Elio Gaspari, um dos mais entusiastas do golpe, referiu-se à fala de Tancredi, personagem do romance O Leopardo, de GiuseppeTomasi, príncipe de Lampedusa, para explicar o momento atual no país: "Algumas coisas precisam mudar para continuar as mesmas". Foi trágico.
A fala, por certo citada de cor, levou o renomado articulista a corromper brutalmente suas próprias ideias. A concluir pelo que significariam as palavras de Tancredi, tal como foram citadas pelo colunista da Folha, o governo de Temer em nada representaria os avanços em que Gaspari se apoia para fazer a defesa do impeachment da presidente. Antes pelo contrário, o que dá a ver a paixão antipetista por que orienta sua argumentação. Ato falho? Não sei, mas nada tão perigoso e eticamente questionável do que o discurso de um ex-esquerdista, pelo menos em se tratando do Brasil de hoje. Ferreira Gullar e Roberto Freire que o digam.
Dito isso, reporto-me à correção que gostaria de fazer aqui. As palavras de Tancredi são outras: "Se queremos que fique tudo como está, é preciso que tudo mude". Estão, como disse, na obra máxima do escritor italiano, nascido em Palermo no ano de 1896, e morto em Roma em 1957. Era filho de uma família rica e poderosa da aristocracia siciliana, assim como outro grande nome de sua época, Lucchino Visconti, dos mais prestigiados como grande artista que foi.
Ambos, na arte de elevada qualidade que produziram, guardadas as diferenças naturais  --  um era escritor, o outro cineasta  --, em que pese o fato de terem nascido de famílias nobres, deram a ver em suas obras a expectativa de que as classes trabalhadoras haveriam de romper com as amarras da escravidão. Não à toa, o livro de Lampedusa é com razão comparado a Guerra e Paz, de Tolstói, outro escritor vindo da aristocracia em direção aos humilhados e ofendidos de seu tempo.
O Leopardo, ambientado na Sicília da segunda metade do século XIX, representa a decadência de um grande proprietário de terras, o príncipe Salinas, cuja riqueza se esvai nas mãos de administradores desprovidos de escrúpulos. Mas é o príncipe Tancredi que tem a percepção de que a aristocracia inevitavelmente irá por terra, anunciando com suas palavras o surgimento de uma sociedade mais igualitária e livre, a chegada do povo ao poder como algo previsível. Deveria, pois, ser este o sentido do que disse, na contramão do que fazem jornalistas comprometidos com a legitimação de um golpe que tira do povo as suas conquistas.
Lampedusa, que não estaria vivo quando da publicação do romance, escrevera, ainda, Contos e Lições sobre Sthendal, também publicados postumamente. Seu principal livro, por sinal, seria transformado num clássico do cinema pelas mãos de Luchino Visconti. Tancredi, o príncipe citado por Gaspari, interpretado à perfeição por Alain Delon. Suas palavras, todavia, não se confirmariam: tudo continuaria como antes, apenas assegurados os privilégios dos mais afortunados. Como sempre foi.