Do Trussu à Tropicália

Na privilegiada companhia dos casais Alfredo Felipe/Vera e Laudenir/Luciene, que nos acolheram com um carinho que bem expressa a elegância e gentileza de ambos como anfitriões, Ticiana e eu curtimos o mais belo crepúsculo vespertino do Ceará em meio às águas do açude Roberto Costa, no fim de semana passado. Entre os muitos assuntos, regados a bom uísque, Alfredo e eu dedicamo-nos a relembrar os tempos de Câmara Municipal, os pronunciamentos da tribuna, os debates não raro turbulentos e a invariável capacidade de restaurar a calma com que sentávamos à mesma mesa ao final de cada sessão, uma das marcas daquela geração de novas lideranças que faziam a diferença. Pela qualidade intelectual do grupo, pela disposição de trabalho e pela correção no trato das questões de interesse público, parece unânime a afirmação de que, à época, Iguatu vivia um dos seus momentos políticos mais elevados. Pluralidade, competência, apuro intelectual e correção ética foram qualidades relembradas, não por mim e Alfredo, vereadores então, mas por Luciene, cujo nome, irrepreensível, só algum tempo depois despontaria nos meios partidários da cidade. A propósito do final de semana, Ticiana e eu agradecemos, ainda, a gentileza de Paulo de Tarso, que, elegante como de costume, colocou-nos à disposição sua aprazível casa do Trussu.

***

Chega às livrarias, em edição de 2013, a nova História do cinema, de Mark Cousins, mais que mais um livro sobre a história da sétima arte. Como afirmou Bernardo Bertolucci sobre a obra, o autor vai fundo no seu livro nas questões mais relevantes de cada fase do cinema e "seu livro torna-se um travelling infinito dos mistérios dos filmes [...] e daqueles que os fazem." O livro tem personalidade, notabiliza-se pela originalidade com que seu autor, sem perder a paixão jamais, consegue ser imparcial nas questões mais delicadas, como quando faz um mapeamento rigoroso do que houve de mais representativo na história do cinema dos clássicos mudos ao cinema moderno. O capítulo em que trata do período que se estende de 1945 a 1952, em que explora o surgimento de uma nova linguagem cinematográfica, é primoroso, mesmo para os iniciados e os mais exigentes.

***

Também à disposição dos amantes da música popular brasileira, em DVD, o belo filme Tropicália, de Marcelo Machado, a que só pude assistir ontem. Um trabalho precioso sobre um dos mais exuberantes momentos da cultura brasileira, uma vez que se trata de um movimento muito mais amplo do que pensa a vã filosofia, que tende a reduzi-lo entre as fronteiras da música. Se Tropicalismo é apenas um modismo estético passageiro, como lembra no documentário Gilberto Gil, Tropicália é algo muito mais profundo do ponto de vista cultural, uma retomada da busca do caráter nacional do país por que se empenharam inteligências geniais, a exemplo de Mário de Andrade e Sergio Buarque de Holanda.

 

Realizado com um rigor artístico que, por si só, já justificaria a repercussão que teve, Tropicália, o filme, é trabalho para se ver, rever e ter em casa, ao alcance da mão, razão por que o recomendo para cinéfilos, apreciadores da boa música popular, professores e estudiosos da brasilidade. As passagens em que são mostrados momentos dos festivais da canção são imperdíveis, notadamente aquele em que Caetano Veloso, expoente da Tropicália, encara a plateia com o famoso discurso de improviso sobre política e estética: "Vocês não estão entendendo nada. É essa a juventude que pensa transformar o Brasil? Se vocês são com relação à política o que são com relação à estética, nós estamos ferrados!" (Cito de memória) Nada tão atual. Qualquer semelhança com as opções estéticas da juventude de hoje, pode-se ver, não é mera coincidência.    

Duas palavras sobre Cesar Costa

Um dia vem o fim, comum a todos os mortais, já dizia Sófocles lá pelos quase 500 anos antes de Cristo. É o que tem ocorrido a tantos iguatuenses queridos nesses últimos meses. Marca da cidade que cresce, e esses acontecimentos vão se tornando coisa de rotina. Mas nós, os ausentes, sobremaneira, carregamos no peito as lembranças de uma cidadezinha que não mais existe, provinciana, pequena, tempos em que morrer parecia ser um acontecimento raro  --   e ficava toda uma população comovida com o fato.  Esta a razão por que ando triste nesses últimos dias. Não vou contar, prática que não se recomenda, mas foram muitos. Gente a quem aprendemos a querer bem, com quem dividimos momentos que, por certo, haverão de ficar no filme da retina. E no mais profundo do coração, o que mais importa.
 
Semana que passou, como obra do acaso, pelo menos para mim, que não o via há muitos anos, morreu Cesar Costa, meu vizinho durante uma fase boa da minha vida. Em rigor, Cesar e eu morávamos em frente um do outro, porta à porta, o que nos conferia (a nossas famílias) uma intimidade que só nos aproximou muito, num tipo de convivência admirável, reeditando os costumes da tal cidadezinha do interior a que me referi faz pouco.
 
Quando ontem, ao telefone com Emídio Neto, presidente do Rotary Club de Iguatu, lamentávamos juntos sua morte, passei em revista tanta coisa daquele tempo... Recordações que só confirmam: Cesar Costa foi uma pessoa formidável! Formidável no sentido mais pleno do termo, no desapego de sua espontânea informalidade, no jeito manso com que soube fazer amigos e tratar bem daqueles que precisavam de sua ajuda como o médico generoso que invariavelmente foi.
 
Lembro de uma fato, apenas, que destoa no que diz respeito a nossa amizade. Era por volta de 1982, 83, se não me falha a memória, quando assuntos da política local nos levaram a um ligeiro embate, que, por pouco, não deslizava para o campo da força física. Fato lamentável, é verdade, não fossem os bons sentimentos que nos uniam maiores que os rompantes da irracionalidade, naqueles instante, de ambos os lados, diga-se de passagem. Política tupiniquim!
 
Que me perdoem o metro com que meço o passar das horas para dizer o que viria a se dar com o evoluir dos fatos: dois ou três uísques depois, estávamos Cesar e eu sentados à mesma mesa, rindo um do outro como só sabem fazer os bons amigos. Até disso, quando sento à frente do computador para escrever esta crônica, morro de saudade, que os tempos, dizia eu há pouco, eram tempos bons, de um Iguatu que não existe mais.
 
Agora que "a indesejada das gentes" lhe chegou, como num verso de Bandeira, não tenho dúvidas: terá encontrado "a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar", que Cesar foi, antes de tudo, um belo pai, um chefe de família de que recordo com uma admiração e um carinho de que se fez, com sobra, merecedor. Bom descanso, amigo! 
 
 

A palavra de Francisco

Da namorada, Ticiana Fiuza, vem um texto de Nizan Guanaes (dono do maior grupo publicitário do país) sobre o papa Francisco, que faço questão de socializar com os leitores da coluna. Foi publicado na Folha de S. Paulo em sua edição de 19 de março de 2013.
"Que coisa mágica é a vida. Estava chegando a Buenos Aires na semana passada para uma reunião de trabalho e jamais poderia imaginar que estivesse ali naquele dia para presenciar a mão do Espírito Santo e da história. Saí do aeroparque, o belo aeroporto ribeirinho da capital argentina, e fui até o hotel trocar de roupa antes da reunião. Liguei a televisão e, para minha surpresa, o papa já havia sido escolhido. Durante a próxima hora, eu e o mundo esperamos para ver que novo papa a fumaça branca nos traria. E eis que ele chegou. Surpreendente como a vida. Um argentino. E eu em Buenos Aires.
Começava ali uma aula de comunicação para o mundo que resume e mostra de maneira instintiva tudo o que os teóricos enchem a paciência e perdem um tempo enorme para explicar: a comunicação de 360 graus.
O cardeal Jorge Mario Bergolio mostrou sem PowerPoint nem lero-lero como uma palavra pode mudar tudo, como um nome pode ser capaz de transmitir para o mundo todo uma mensagem tão poderosa e precisa.
A palavra é de Francisco.
Francisco é uma palavra rica de significados num mundo pobre de significado. Francisco quer dizer 'coma' moderadamente num mundo obeso. Francisco quer dizer 'beba' com alegria num mundo que enfia a cara num poste. Francisco quer dizer consumo responsável em sociedades de governos e consumidores endividados. Francisco quer dizer o uso responsável do irmão ar, do irmão mar, do irmão vento e de todas as riquezas debaixo do irmão Sol e da irmã Lua.
Francisco é um freio de arrumação não só na Igreja Católica Apostólica Romana, mas na sociedade a quem ela deve guiar. Em 24 horas, Bergolio pegou uma instituição que estava emparedada e a tirou da parede, transportou-a dos intramuros do Vaticano para o meio da rua, para o meio do rebanho.
Comunicar é o papel da igreja. Para isso, foram escritos o Velho Testamento e o Novo Testamento, e Jesus não deixa dúvida quando disse aos apóstolos: "Ide e anunciai o Evangelho".
Ide, ao contrário do que faz a Cúria Romana, que dizer ir, não quer dizer ficar em Roma. Quer dizer ir e  anunciar.
E anunciar hoje é muito mais do que o comercial de 30 segundos. Anunciar hoje é usar todas as ferramentas disponíveis, todos os pontos de contato com seu público. Papa Francisco sabe disso muito bem. Tanto sabe que muito antes de se apresentar ao mundo na sacada do Vaticano baixou um Steve Jobs nele, e, quando o monsenhor veio lhe oferecer uma veste toda rebuscada, Francisco retrucou: Se o senhor quiser, pode vesti-la, monsenhor, eu, não. O carnaval acabou.
É digno de reparo que Francisco não fez pesquisas nem testes antes de criar tudo isso. Não precisava. Foi buscar sua mensagem no DNA da igreja. E está escrevendo certo por linhas tortas.
Mesmo as coisas conservadoras que têm dito, coisas com as quais eu particularmente não concordo, são muito relevantes. A igreja não pode querer agradar a todo mundo. Ela tem que marcar territórios e significar coisas, e, ao fazê-lo, naturalmente exclui almas de seu rebanho.
Marca, design, conduta, relações públicas, endomarketing, alinhamento interno: "Habemus papa".
Francisco se utilizou de todos os recursos do marketing para passar sua mensagem rapidamente, com alto impacto e precisão, para o público interno e para o público externo.
Parece até que o 3G Capital assumiu o comando da igreja. Choque de gestão, orçamento base zero, alinhamento com a cultura perdida, volta às raízes, fé no trabalho, administração franciscana e disciplina de jesuíta de santo Inácio e professor Falconi.
Paradoxalmente, Francisco hoje acredita numa gestão mais parecida com Lutero do que com a tradição romana. Mas a igreja só teve que se enfrentar com Lutero porque ao longo do tempo se esqueceu da palavra Francisco.