quinta-feira, 28 de março de 2024

Nós não vamos esquecer

"Quem é essa mulher/Que canta sempre esse estribilho/Só queria embalar meu filho/Que mora na escuridão do mar/Quem é essa mulher/Que canta sempre esse lamento/Só queria lembrar o tormento/Que fez o meu filho suspirar/Quem é essa mulher/Que canta sempre o mesmo arranjo/Só queria agasalhar meu anjo/E deixar seu corpo descansar/Quem é essa mulher/Que canta como dobra um sino/Queria cantar por meu menino/Que ele já não pode mais cantar". Chico Buarque e Miltinho.

Neste domingo 31, contam-se 60 anos do último golpe militar e implantação da mais perversa ditadura a que o país foi submetido. Eu tinha por volta dos sete anos e por razões óbvias aqueles acontecimentos me eram indiferentes. Mas cresci, estudei, dediquei-me aos livros e pude compreender, desde muito cedo, o que isso significou para o Brasil. Aos poucos fui me dando conta do que significa um regime autoritário, do que é uma ditadura, do que invariavelmente e sem exceção está por trás dela, de como se traçam seus rumos e de quais são suas consequências na vida de um povo.

Por esses dias, na contramão do que propõe um certo presidente, haverá muito o que ler na imprensa sobre esses fatos. Em textos lapidares, academicamente corretos, embasados do ponto de vista histórico, consistentes como exame teórico de um regime de exceção, os leitores serão colocados a par do que houve, e com isso, felizmente, a memória desses anos terríveis será de alguma forma nutrida.

Nesta coluna, irei por outro caminho, trazendo à tona um dos fatos corriqueiros ocorridos no Brasil durante a ditadura militar. Que isso possa reacender a esperança de que nunca mais venhamos a viver essa triste realidade. Vamos ao fato.

Stuart Angel Jones, em que pese o nome, era um jovem brasileiro, filho de Zuzu Angel, uma figurinista e estilista de fama internacional. Ele era militante de uma organização de esquerda, o MR-8, cujos objetivos mais claros eram enfrentar os militares e devolver ao país a democracia espezinhada pelas botas dos generais, almirantes, brigadeiros e seus homens "terrivelmente armados". Era preciso proteger o país do comunismo, diziam, como sempre dizem os golpistas.

Stuart Angel foi preso pelos agentes militares. Simplesmente desapareceu, supostamente atirado de um helicóptero em alto mar, depois de perversamente torturado nas dependências do quartel do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica.

Em uma das sessões de tortura, Stuart Angel foi arrastado em círculos por um jipe verde-oliva, a boca cuidadosamente presa ao cano de descarga do veículo, até morrer por asfixia, aos 25 anos, sob o olhar exultante de militares. Era junho de 1971.

Informada do que ocorrera ao filho por uma carta do militante político Alex Polari, também ele torturado nas dependências do mesmo quartel, Zuzu decidiu enfrentar os militares, denunciando o fato ao senador americano Edward Kennedy, que levaria a denúncia ao Congresso dos Estados Unidos.

Zuzu Angel era amiga de Chico Buarque de Holanda, a quem confiou a carta da qual extraio o trecho que segue: "Há dias recebi documento descrevendo pormenores das torturas e o assassinato de que foi vítima meu filho Stuart Jones, pelo governo militar brasileiro. Este documento está fora do país em mãos de um dos parentes americanos do meu filho mártir. Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho".

Exatos doze meses depois de entregar a carta a Chico Buarque de Holanda, a 14 de maio de 1976, na saída do túnel Dois Irmãos, no bairro carioca de São Conrado, o Karmann Ghia vermelho em que Zuzu Angel se deslocava a caminho de casa foi intencionalmente interceptado por um outro veículo em que se encontravam dois homens. Morreria no local, sem jamais poder dar um enterro digno ao filho. Um crime político idealizado e executado pelos golpistas de 1964.

Centenas, talvez milhares de brasileiros foram barbaramente torturados entre 1964 e 1985. Em números oficiais, há algo em torno de 460 mortos ou desaparecidos. Incontáveis eram os "órfãos de pais vivos, filhos do talvez ou do quem sabe", na impagável metáfora de Alencar Furtado.

Teatros foram fechados a golpes de baionetas e tiros de fuzil, artistas espancados, professores retirados de sala de aula com rostos ensanguentados, estudantes arrastados como trastes pelas ruas, mulheres violentadas em presença dos maridos e dos filhos, em nome de um nacionalismo fascista, sob a hipócrita defesa da "família, Deus, pátria e liberdade".

Presidente Lula, desta vez o senhor errou feio. Nós não vamos esquecer!

 

 

 

 

 

quarta-feira, 20 de março de 2024

Em agosto nos vemos

Lançado simultaneamente em mais de cinquenta países, "Em agosto nos vemos", romance póstumo de Gabriel García Márquez, prêmio Nobel de Literatura de 1982, traz para os amantes de Gabo o raro prazer de rever em grande estilo o ficcionista morto em 2014.

Longe de pensar, no entanto, que o livro reedite o melhor do escritor colombiano. Antes pelo contrário, nada que faça lembrar a monumentalidade, por exemplo, do inigualável "Cem anos de solidão" (1967), nem mesmo o que se pensava ser o seu último livro, "Memórias de minhas putas tristes" (2004), cuja construção narrativa sustenta-se no que existe de mais marcante na prosa de ficção de Gabriel García Márquez: uma certa tendência para dispensar à linguagem um tratamento fundamentalmente poético, eivado de metáforas que emprestam ao texto a leveza e a opacidade incomuns para o convencional da prosa de ficção latino-americana. Sem falar, com maior clareza, do que é recorrente em livros de sua primeira fase, o realismo mágico ou fantástico, de que o clássico "Cem anos de solidão" é o maior exemplo, pelo uso de símbolos e metáforas ainda mais desconcertantes.

Não, "Em agosto nos vemos" é um romance menos pretensioso sob este aspecto, muito embora quase irretocável do ponto de vista formal --- uma narrativa leve, solta, sedutora, a que se soma um enredo original, mesmo em se tratando de uma história simples, plasmada na realidade factual, como o próprio García Márquez sempre fez questão de evidenciar sobre o conjunto de sua vasta obra: todo mês de agosto, Ana Magdalena Bach, a protagonista do livro, casada, com filhos, de meia-idade, viaja para uma ilha do Caribe em que a mãe está sepultada.

Mais que visitar o túmulo de sua genitora, porém, a viagem é a alternativa encontrada pela personagem para dar vazão à sua plena feminilidade, ao desejo sexual supostamente irrealizado, em casa, em toda a sua intensidade. O que poderia resultar bizarro, na linha de romances menos exigentes do ponto de vista literário, no livro de Gabriel García Márquez, publicado há poucas semanas, o leitor depara com um texto elegante, vazado numa linguagem nunca apelativa e extremamente bem cuidado na perspectiva de sua tessitura dramática.

Não é sem razão, portanto, que se pode dizer que Gabo escreveu um de seus livros mais humanos, sem jamais incorrer em divagações de cunho reflexivo que levem o leitor a criar expectativas punitivas para Magdalena Bach, emitindo juízos sobre o que o senso comum historicamente tende a condenar, sobretudo em se tratando da mulher.

Nesse sentido, insisto, é isenta a forma como o narrador expõe essas experiências "transgressoras" da personagem, atendo-se a contar com suavidade o que, a juízo vulgar, poderia soar grotesco, impuro, gratuitamente erótico.

Nada disso: as estratégias narrativas sobressaem no estilo inconfundível de García Márquez: há poesia, delicadeza, senso de medida na descrição das experiências objetivamente sexuais, recorrentes no desenrolar da história.

Não há defeitos, então? Há, e isso é visível já no primeiro capítulo do livro. A rapidez com que Ana Magdalena Bach se entrega ao primeiro caso extraconjugal, com um homem desconhecido, é quase inverossímil, implicando numa incorreção de natureza rítmica que a princípio causa ao leitor um estranhamento, e pode levá-lo (como a mim ocorreu) a antecipar incorretamente um juízo estético do livro. Isso, felizmente, se desfaz muito antes da metade da leitura (o romance tem 111 páginas) e a narrativa passa a se desenvolver num ritmo condizente com o desenrolar da tessitura dramática.

Sem cometer spoiler, espero, concluo reportando-me ao desfecho do romance, dos mais belos de toda a obra de García Márquez. Com economia de meios, e uma absoluta sensibilidade estética, constitui um momento sublime deste surpreendente "Em agosto nos vemos".

O parágrafo final é deslumbrante. Se o romance começa claudicante do ponto de vista narrativo, o final é obra de um mestre e toca fundo o coração do leitor. Recomendo.

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de março de 2024

Sobre paixões e segredos

"Os corpos se entendem/mas as almas não/Se queres sentir a felicidade de amar,/esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor./Só em Deus ela pode encontrar satisfação./Não noutra alma./Só em Deus – ou fora do mundo./As almas são incomunicáveis./Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo,/porque os corpos se entendem, mas as almas não." (Manuel Bandeira)                                                                                    

Leitora cruza comigo na rua e dispara: "Adorei a crônica sobre a paixão. Quero ler mais... (risos)". Poupando-me da obrigação, recomendo-lhe o livro "Paixões" (2005), da escritora espanhola Rosa Montero, autora do belíssimo "A louca da casa". Curiosa, a amiga não se contenta: "Fala do livro, vai!"

Estávamos na entrada de um banco, tendo pela frente uma fila bem brasileira... e o entusiasmo da amiga, além de tornar pública sua suposta paixão, fez-me lembrar a torcedora de famosa crônica de Nelson Rodrigues. Mas, sobre isso, escrevei dia desses. Voltemos a Montero.

Não é muito dizer que se trata da Martha Medeiros da Espanha, com a vantagem de ser autora de fôlego em livros mais pretensiosos literariamente falando. Entre esses, o celebrado "A boa sorte" (2020), sobre o qual escrevi aqui mesmo algum tempo atrás. São mais de sessenta livros, que vão do ensaio literário, a exemplo de "A louca da casa" ou o aclamado "O perigo de estar lúcida" (2023), para não falar do comovente "A ridícula ideia de nunca mais te ver" (2013), vertiginosa reflexão a respeito da morte a partir dos diários da física e química polonesa, naturalizada francesa, Marie Curie.

Rosa Montero começou a escrever como colunista de importantes jornais de Madri, e hoje assina, com exclusividade para o El País, crônicas que estão no cardápio de leitores do matutino espanhol como a famosa paella na mesa de casa. Seu romance de estreia, "Crônica do desamor" (1979), ensejou o comentário de ninguém menos que Mário Vargas llosa, para quem "sua prosa tensa e direta evita a grosseria e o fingimento". Desde então, Rosa Montero figura entre os nomes de peso da literatura espanhola.

Mas, o que me levou mesmo a falar dessa belíssima mulher? Ah, lembrei: "Paixões", o livro que recomendo à distinta leitora, supostamente apaixonada, é um apanhado de histórias envolvendo casais famosos, de Leon e Sônia Tolstói, Elizabeth da Áustria e o imperador Francisco José, passando pelo excêntrico John Lennon e Toko Ono, ao dramático Amadeo Modigliani e Jeanne Hébuterne. O mais curioso, o mais relevante, no entanto, é que o livro de Rosa Montero põe por terra o mito do amor perfeito. Por se tratar de casais célebres, a reflexão em torno do tema eterno ganha uma dimensão nova, e serve como fio condutor de novos debates. Como diria Caetano, "de perto, ninguém é normal". Uma beleza.

Aliás, já na introdução a autora arrisca uma generalização inquietante: "É que todos somos tentados a acreditar que o próximo é capaz de viver a plenitude que sempre se esquiva de nós mesmos: o amor absoluto, a felicidade completa". Bingo. Acho que no mundo midiático em que vivemos, somos condenados a projetar nos outros algumas de nossas mais caras fantasias, enamoramentos, paixões. Ahhh, suspiramos, Diogo Nogueira e Paolla de Oliveira, que bonitinhos!" E esquecemo-nos de nós, incorrendo num bovarysmo pequeno-bruguês. Para o grande público, sonhadores da felicidade alheia, existem os reality shows da vida, o BBB, a subliteratura que apinha as gôndolas de livrarias.

Delicioso, o livro de Rosa Montero pode levar, contudo, a leituras equivocadas, uma vez que, é a proposta da escritora, os casais, na sua totalidade, viveram experiências desajustadas, muitos deles doentios, trágicos. É que discorrer sobre a paixão, diz ela, "é nomear o caos". É aí que o livro traz uma ponderação inquietante: "A essência do passional é a alienação que produz: o apaixonado sai de si mesmo, e se perde no outro, ou, melhor dizendo, naquilo que imagina ser o outro". Nessa perspectiva, dizia Catão que a alma de quem ama habita o corpo alheio.

Seja como for, "Paixões" é um livro maravilhoso. Se se volta para o que houve de mais doloroso na intimidade desses casais, o que, como disse, pode refletir um certo negativismo, um olhar muito pessimista sobre o amor, que é mesmo a razão de nossas vidas, é que Rosa Montero, ecoando o clássico "História do amor no Ocidente", de Denis de Rougemont, está atenta para o fato de que "em toda história do amor, mesmo nas mais realizadas e felizes, há sempre um ingrediente de tristeza, o sentimento inexorável da perda".

Mas, para não desapontar a leitora, se é verdade que esta sensação mágica pode acabar um dia, quem sabe nascerá disso uma outra dimensão do mesmo sentimento, algo próximo de uma bela amizade, de um tipo de companheirismo que nos faz bem, uma cumplicidade encantadora. Sem prescindir, necessariamente, do sexo gostoso e gratuito, ingrediente indispensável para manter acesa a última chama.

Parabéns, mulheres!