terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A arte que faz justiça

Para o desconforto de uma fatia expressiva do público brasileiro, Democracia em Vertigem, de Petra Costa, está na disputa final pelo Oscar de melhor documentário. E não se surpreendam: com chances reais de faturar o "carequinha" por suas imensas qualidades, quer como obra documental, quer como arte propriamente dita  ---  em que pesem as críticas desfavoráveis que se prendem, todas elas, até onde pude ver, muito mais à sua força estética que a eventuais fragilidades enquanto documentário. 
As declarações do prestigiado crítico Inácio Araújo, da Folha de S. Paulo, na edição de hoje do jornal, para trazer como exemplo um nome de peso, beira o despropósito, traindo-se como análise e dando a ver o quanto o olhar de Petra Costa sobre os acontecimentos de 2016 no Brasil (impeachment de Dilma Rousseff, prisão de Lula e eleição de Jair Bolsonaro) o incomodou indisfarçadamente.
Sem mais nem menos, Araújo refere-se ao documentário como "o mais recente nhenhenhém (sic) de Petra Costa", comentário não apenas inconsistente para um crítico de sua estatura, mas, acima de tudo, desrespeitoso para com uma concorrente à mais elevada premiação do cinema. E brasileira, o que não me parece um detalhe desimportante em se tratando de um país que jamais arrebatou um Oscar. Complexo de vira-lata? Talvez.
Com efeito, Araújo vai na mesma direção de outro articulista da Folha, o economista e mestre em filosofia Joel Pinheiro da Fonseca, para quem (pasmem!) o "Oscar vai para... o PT". Não se contendo em sua verve para politizar o debate, o colunista não esconde sua parcialidade e afirma que Democracia em Vertigem "reproduz a narrativa petista da história recente", ignorando, tendenciosamente, os fatos e o que as próprias imagens do filme de Petra mostram: o conluio cínico entre deputados e senadores, Eduardo Cunha e Aécio Neves ditando as cartas, para o golpe que derrubou Dilma Rousseff.
Mas o colunista vai muito além, cospe à esquerda e à direita, corcoveia que nem o burro de Brás Cubas em sua sanha incontrolável, fecha os olhos para os avanços sociais havidos nos governos do PT, e, numa demonstração de absoluta disposição para atacar a cineasta, gratuitamente, emite a desqualificada avaliação estética do filme, ainda, pelo fato de ser narrado pela própria diretora, segundo diz, "num tom de voz lamurioso, que reforça o vitimismo da história contata". 
Quanta ignorância do senhor Joel Fonseca, pois que a narração de documentário pelo próprio diretor é uma das características mais marcantes do gênero. Vide a produção de documentaristas do nível de Eduardo Coutinho, cuja voz está na quase totalidade de seus filmes e é aspecto notavelmente examinado por Consuelo Lins em livro sobre o realizador.
Ao externarem sua insatisfação com o fato de Petra Costa tomar posição diante daquilo que documenta, os críticos da Folha incorrem num erro de avaliação que beira o surreal, confundem documentário cinematográfico com jornalismo puro, mal disfarçam sua predisposição de achacar contra Democracia e Vertigem o rótulo de filme panfletário, alheando-se, os dois, ao fato de que dirigir um filme é antes de tudo assumir responsabilidade. Por oportunas, ocorrem-me as palavras incontrastáveis de Paul Ricoeur sobre o sentido da responsabilidade: --- "Onde há poder, há fragilidade. E onde há fragilidade, há responsabilidade. Eu diria mesmo que o objeto da responsabilidade é o frágil, o perecível que nos solicita. Porque o frágil está, de algum modo, confiado à nossa guarda. Entregue ao nosso cuidado."
Talvez por isso, quem sabe, o tom de voz de Petra Costa seja mesmo lamurioso. O mesmo tom de voz com que narra Elena, outro belo filme realizado por ela sobre a irmã que se suicidou. E que exemplifica à perfeição, diga-se aqui, o quanto essa jovem cineasta sabe como poucos fazer cinema de altíssima qualidade.  
  


 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A arte contra o ovo da serpente

                                              

Nos últimos anos, podemos observar que a produção de trabalhos acadêmicos no campo da arte tem crescido significativamente, o que reforça a ideia de que nem tudo está perdido, e que existem saídas e alternativas de ação para alguns sérios problemas que artistas, intelectuais e amantes da arte têm sido levados a enfrentar, nomeadamente entre nós brasileiros, desde janeiro de 2019. São livros, teses, dissertações, projetos de pesquisa, além de traduções de textos de autores estrangeiros importantes e considerados fundamentais sobre estética, filosofia e história da arte.

Em diferentes perspectivas, no entanto, esses trabalhos giram em torno de algumas questões fundamentais que parecem, ainda, continuar despertando o interesse de todos aqueles que lidam com a matéria: o que é arte? Quais são as suas histórias? Com que cariz têm sido examinadas hoje as diferentes linguagens artísticas? Qual o papel do artista em meio a um mundo dominado por referenciais científicos e pelos avanços da tecnologia? Ainda faz sentido a arte num mundo marcado por tantas contradições e cada vez mais intolerante? Por que, no âmbito da universidade, estudam-se as artes, e não a Arte?

Digo isso a propósito de ter em mãos (no monitor do computador, para ser mais preciso), uma dessas produções, cujos autores, gentilmente, pedem sobre a mesma algumas considerações deste velho labutador das artes, como se o livro já não tivesse entre as suas muitas qualidades uma notável vocação autorreferencial, razão por que constitui uma leitura antes de tudo "moderna" no melhor sentido da palavra. Explico-me: os textos, todos eles e em alguma medida, voltam-se para si mesmos, jogam com a curiosidade do leitor, abrem enigmas e apontam saídas, entrecruzam-se, dão-se as mãos, trilham caminhos porosos e dialógicos sem jamais perderem o fio da meada ou se distanciarem, minimamente que seja, do que elegeram com fundamental: a discussão em torno da própria arte.

Assim, multidisciplinar, nascido em grande parte da experiência artística pessoal de seus próprios autores, o livro é moderno não apenas por força do suporte de que lança mão para se tornar realidade, mas, sobretudo, insisto, por explorar procedimentos que rompem de vez com as fronteiras que separam (ou pareciam separar!) as diferentes semióticas --- fotografia, cinema, literatura, vídeo, artes plásticas etc. ---  o que resulta, como disse, gostosamente "poroso" no sentido atribuído à palavra por Walter Benjamin em belo ensaio sobre a cidade de Nápoles: --- "... porosidade é a lei inesgotável da vida nesta cidade, reaparecendo por toda parte." Por "poroso", pois, deve-se entender essa coexistência de diferentes olhares, perspectivas epistemológicas, inter-semiologias, que fazem com que este livro lance luz sobre regiões sombrias nas tentativas de diálogo entre as diferentes estéticas.

Abrindo esta seleta de textos, Carlinhos Perdigão dá ênfase ao teatro e seus contrapontos, levantando reflexões oportunas sobre a linguagem teatral e suas potências, ancorando sua abordagem na heterogeneidade dos elementos que a constituem e apontando alternativas para uma ressignificação do próprio ato de fazer teatro.

São emblemáticos sobre a relação entre as diferentes linguagens artísticas, com ênfase na poesia, no teatro e no cinema, os textos assinados por Duarte Dias. Com um domínio notável da carpintaria textual em termos da crítica formal, sem jamais incorrer em estímulos acadêmicos desnecessários, Duarte conduz o leitor a descobertas por demais pertinentes acerca das linhas de força que dão ao teatro de Shakespeare, por exemplo, a atualidade que possui. Vai além, estabelece interlocuções entre diferentes tipos de texto e saberes estéticos, apoiando-se no que existe de mais atual em termos teóricos para explorar transversalidades ou interterritorialidades, na perspectiva do que identifica como conexões possíveis entre literatura, escultura e cinema, e não só, como a nos lembrar que texto é toda e qualquer linguagem organizada de modo a transmitir sentidos, uma peça de teatro, um filme, um poema, uma tela etc.

Não menos interessante, noutra dimensão, o que faz Sérgio Costa quando pensa sobre o significado da arte em sua vida, o seu amor pela música --- "a arte mais perfeita, absoluta e universal". Numa visada que lembra um certo Michel Foucault de As palavras e as coisas, vale-se do texto literário curto para revelar-se um voyeur cearense, um tipo curioso de gente "que vive em uma esquina particular do mundo" sem jamais, no entanto, reduzir sua vitalidade enquanto criador aos limites de um provincianismo arcaico e inconsequente. Antes pelo contrário, a meio caminho entre o publicitário e o músico, alarga sua percepção de mundo no encontro de diferentes códigos e linguagens.

Na mesma linha, mas optando pela crônica como gênero narrativo pelo qual se mostra como criador, Renato Ângelo revisita a mitologia greco-romana, joga com potencialidades estéticas para enxergar o outro, transita por múltiplos cenários, a exemplo do que faz ao rememorar Ouro Preto, Minas Gerais, onde "depara e interage" com personagens atemporais e inclassificáveis, como Tomás Antônio Gonzaga, Deborah Colker, Picasso e Aleijadinho. 

Jair Cozta, com a mesma leveza, por sinal, revela-se doce memorialista acerca de enriquecedoras experiências como produtor e cineasta nos rincões do Cariri cearense  ---  Crato, para ser mais preciso  ---, brindando-nos com situações e "causos" bastante curiosos, bem na linha do que faz sobre o menino prodígio Abel, seu talento precoce, sua capacidade inata para atuar como protagonista de um filme ambientado na cidade e a repentina transformação do menino pobre num "príncipe nascido sob o signo de leão e sucessor da coroa de algum reino escandinavo".

Num momento delicado da vida nacional, em que a cultura e a arte têm sofrido golpes jamais imaginados à luz de uma sociedade democrática, pensante e politizada, que imaginávamos ser (e não somos!), mais que nunca é preciso fomentar a produção de trabalhos como A arte em estado crônico a fim de descolonizar o pensamento que se quer implantar no país em face das diferentes mídias  --- literatura, teatro, pintura, arquitetura, escultura, audiovisual, instalação multimídia, graffiti etc. --- condição sine qua non para reconquistar o espaço perdido em tão pouco tempo, em que pese a resiliência que, a um custo não raro desumano, pontificou a produção nacional nos últimos meses, Bacurau (Kleber Mendonça Filho), A vida invisível (Karin Ainöuz) e A democracia em vertigem, o belo finalista do Oscar 2020, de Petra Costa, para referir trabalhos de repercussão internacional.  

Esta coletânea constitui, portanto, uma contribuição importante entre nós sobre o sentido da arte e da memória num país marcado pelo reacionarismo e pelo horror diante do que se nos apresenta como um verdadeiro ovo da serpente.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Cem anos de João Cabral de Melo Neto

É claro que, em matéria de arte sobretudo, desaconselha-se o uso de rótulos do tipo "maior poeta", "maior pintor", "maior romancista", posto que há, nisso, quase sempre, uma boa dose de subjetivação. Feita esta observação, contudo, contradigo-me intencionalmente para considerar Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, não necessariamente nesta ordem, os três maiores nomes da poesia brasileira de todos os tempos. Mas é sobre este último, por força do centenário de nascimento, comemorado na quinta-feira 9, que gostaria de tecer aqui breves considerações.
Filho de uma família tradicional de Pernambuco, João Cabral de Melo Neto era irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre, o que evidencia a vocação intelectual e artística do clã. A exemplo desses monstros da inteligência nordestina, cujas obras pontuam com merecido destaque, no Brasil, o que existe de mais significativo em suas áreas, João Cabral de Melo Neto notabilizou-se como um dos expoentes da poesia de língua portuguesa do século 20, ombreando com nomes de peso como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade.
Mais que nesses, no entanto, um traço é evidente na poesia de João Cabral de Melo Neto: a ausência de um lirismo que sobressaia como pedra de toque do poema, o que não significa dizer que o poeta se coloque na contramão de todo e qualquer lirismo. Antes pelo contrário, se é notável a forma como trabalha o verso, lembrando um escultor cuja matéria-prima fosse a palavra, não menos notável é a força do sentimento que existe por trás de cada imagem, quase sempre se revelando de modo surpreendente e luminoso, bem na linha do que se pode descobrir no seu antológico O Cão Sem Plumas: "A cidade é passada pelo rio/como uma rua/é passada por um cachorro;/uma fruta por uma espada". O que se vê, aqui, é a claridade do estilista em diálogo estreito com o homem sensível, mas de uma sensibilidade que não se permite piegas ou minimamente derramada. É que João Cabral de Melo Neto, como um Paul Valéry brasileiro, excedeu como artesão da palavra, tendo como poucos a fina compreensão de que poesia é, antes de tudo, forma, linguagem, escolha rigorosa do vocábulo em estado bruto, construção de discurso, sem incorrer no formalismo frio e inconsequente de certos estruturalismos em voga, no país e no mundo, quando produziu o que há de mais expressivo em sua obra.
Essa mesma "tensão" entre conteúdo e forma, sentimento e isenção (nunca impassibilidade!), diga-se em tempo, de que soube obter resultados memoráveis como o estilista extraordinário que foi, pode-se perceber em outras dimensões da poética cabralina: deve-se destacar, nesse sentido, a forma como soube lidar com a questão social sem jamais deslizar para a atitude meramente panfletária. Marxista, atento aos problemas do país, inconformado com a desigualdade social advinda de um modelo econômico perverso, João Cabral de Melo Neto fez da palavra uma arma de luta em favor dos mais pobres e desassistidos, os "Severinos" que povoam seu teatro, por exemplo. Aqui, ressalte-se, está uma outra aparente contradição: confessando-se inimigo da música, que identificava como barulho, produziu poemas extremamente musicais, como atesta o fato de Morte e Vida Severina ter sido irretocavelmente musicada por Chico Buarque de Hollanda. É que melodia e ritmo, sabe-se, na perspectiva da teoria literária, são coisas distintas. Aquela, prende-se à rima, ao uso seletivo de sonoridades, paronomásias, assonâncias e aliterações; este, ao fraseado, acentos e combinações de tônicas e átonas na construção do verso. 
Poeta da forma, antes de tudo, João Cabral de Melo Neto esteve sempre atento a essas questões, por isso a sua poesia é muito maior que qualquer subjetivação, figurando como um nome incontornável da literatura de língua portuguesa do século 20. 
 
 
  
 
 
  


 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Um filme sublime

O papa Francisco desculpou-se nessa quarta-feira 1, pouco antes da oração do Ângelus, por sua reação ao entusiasmo de uma fiel que quase o fez cair enquanto beijava crianças em frente ao presépio de Natal, em Roma. Visto por centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo, o fato ganhou visibilidade no vídeo que mostra o papa estapeando uma mulher que o agarrava pela mão no que parece ser uma atitude de incontida admiração pela figura do pontífice. Depois de desvencilhar-se da mulher, o papa Francisco mostra-se visivelmente aborrecido, mas segue sua trajetória um pouco mais afastado do público. 
As imagens, que suscitaram opiniões divergentes, servem, todavia, para nos lembrar que o papa é, antes de tudo, um homem, sujeito a emoções e conflitos nem sempre condizentes com a idealização que se faz do Santo Padre. 
Esta realidade, por sinal, é um dos aspectos que dão a Dois Papas, a comédia dramática dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, explorando os bastidores das diferenças entre Bento XVI e Francisco, a densidade estética que a coloca entre as grandes produções da Netflix em 2019. É sobre o filme, aliás, que gostaria de falar na coluna de hoje.
Com atuações soberbas de Jonathan Pryce e Anthony Hopkins como os cardeais Jorge Bergoglio e Joseph Ratzinger, respectivamente, logo que este fora eleito papa Bento XVI, o filme sustenta-se num roteiro, irretocável do ponto de vista dramático, assinado por Anthony McCarten, de cuja obra já se conhecia Darkest Hour, sobre o estadista inglês Winston Churchill. 
Estes dois elementos cinematográficos, sabe-se, constituem o que se deve considerar fundamental num grande filme. Mas Dois Papas vai muito além disso: --- A direção de arte, o figurino, a sensibilidade com que Meirelles explora os procedimentos cinematográficos propriamente ditos, a exemplo da movimentação de câmera e escolha de escala na construção do quadro, com closes que lembram o melhor Bergman, resultaram numa beleza plástica de encher os olhos mesmo dos cinéfilos mais exigentes.
A sequência de abertura, sob este aspecto, é emblemática: as páginas de um exemplar da Bíblia 'voam' ao sabor da brisa, enquanto se veem bispos e cardeais circunspectos ante a passagem do caixão em que está o corpo do papa João Paulo II, em 2005. O colorido do guarda-roupa, com predomínio para o roxo e o vermelho de suas vestes, está carregado de simbolismo dramático, até que a câmera enquadre num plano alto, que excede em estilo e rigor estético, a colunata da praça de São Pedro que aos poucos vai se distanciando numa sugestão poética a um tempo emocionante e bela. Está criado o clima para o desenrolar da história. Dá-se a ver o talento de um grande diretor.
Da eleição de Bento XVI como sucessor de João Paulo II à sua conturbada renúncia, o filme desliza para o eixo central do enredo: --- o embate envolvendo duas linhas de pensamento, duas convicções. De um lado, Ratzinger, com seu conservadorismo e o obscurantismo de seu passado como cardeal, o conflito pessoal sobre o homossexualismo na Igreja, sua visão extremamente autoritária como condutor de fieis, sua impotência diante dos escândalos financeiros no seio do Vaticano. Do outro, Bergoglio, decidido a renunciar ao posto de arcebispo de Buenos Aires, curvado ao peso de consciência por ter negociado com a ditadura argentina nos anos de chumbo e a inequívoca inclinação para a defesa dos humilhados e ofendidos por que viria a orientar seu pontificado até hoje. Em flashback, o filme desvenda alguns mistérios em torno da vida pregressa de Francisco.
Com diálogos criados a partir de diferentes fontes, como entrevistas (raras), sermões, discursos e textos por eles assinados, o filme gira em significativa proporção em torno das divergências que separam Ratzinger e Bergoglio. Sob este aspecto, é marcante a passagem em que o primeiro repreende o segundo por suas declarações sobre algumas das questões mais desconfortáveis para o catolicismo, como o celibato e a punição contra a homossexualidade. A essa altura, é impagável a fala de Bergoglio sobre contradições e a necessidade de mudanças na Igreja Católica: --- "O tempo todo, o verdadeiro perigo estava dentro, conosco".
Esclarecedor, corajoso, menos polêmico que verdadeiro, em que pesem as questões não exploradas em toda a sua extensão, na linha das confissões feitas por Ratzinger a Bergoglio, quando a voz off de Bento XVI frustra a curiosidade do espectador num dos momentos mais dramáticos do filme, Dois Papas é a obra-prima de Fernando Meirelles, e, reafirme-se, uma das produções mais dignas de aplauso em termos cinematográficos no ano passado.
Em tempo: O final do filme, com os dois papas tomando cerveja enquanto assistem pela televisão à decisão da Copa do Mundo entre Alemanha e Argentina, em 2014, é de uma felicidade artística notável, coroando metaforicamente o confronto de duas linhas de pensamento no interior do Vaticano. 
Sublime.