Guernica, 80 anos atrás

Escrevo esta coluna em 26 de abril de 2017. Ocorre-me lembrar que são decorridos 80 anos desde o massacre levado a efeito contra uma cidadezinha espanhola que se tornaria mundialmente conhecida por força da arte de Pablo Picasso. Refiro-me à Guernica, a pintura com que o pintor catalão denunciou ao mundo os horrores da Guerra Civil Espanhola.

O bombardeio covarde, que vitimaria unicamente civis (uma população inteira), deveu-se a uma decisão de Adolf Hitler, como ato de apoio ao golpe militar liderado no país basco por Francisco Franco.

Como lembra Marcelo Coelho, articulista do jornal Folha de S. Paulo, o bombardeio sistemático da cidade espanhola materializou o que se convencionou chamar teoria da "guerra total", uma prática que tinha por objetivo não apenas render o adversário, mas humilhá-lo, a ponto de minar toda e qualquer disposição de permanecer no combate: "Arrasar a moral do adversário, causando pânico e morticínio na população indefesa de uma cidade, tornava-se recurso legítimo a partir dessa visão  --- que, no limite, apaga as diferenças entre guerra e terrorismo".

Mutatis mutandis, não existe quase diferença entre o que aconteceu aos civis da cidade de Guernica, em 1937, e o que se anuncia a passos largos nas ações de Donald Trump, em relação à Síria, por exemplo. A cidade basca de Guernica era um centro de práticas espirituais e políticas, a que não raro se dirigiam os reis da Espanha apenas para refirmar o compromisso de nunca descumprir leis e costumes locais. O bombardeio dessa pequena e desimportante cidade, pois, só teria uma razão de ser: o simbolismo do poder nazista e, por extensão, do generalíssimo Franco, cuja arrogância e destempero são características marcantes, também, do louco que está à frente da maior potência mundial 80 anos depois. A quem interessar o fatídico acontecimento, chega às livrarias o clássico A Árvore de Guernica, livro com que o jornalista G.L. Steer registrou, um ano depois, o horror fascista e a resistência basca ao martírio imposto à região pelo ditador Franco, bem como a descrição comovida do massacre em si. De minha parte, é da obra de Picasso que gostaria de falar.

Sobre o imenso painel (óleo sobre tela, 349 x 776,5 cm), que está hoje no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, Madri, é conhecido o curioso diálogo entre Pablo Picasso e um oficial alemão que lhe indaga se fora ele o autor da obra: "Não, foram vocês que a fizeram!"

A tela tornar-se-ia um verdadeiro ícone da arte moderna, não apenas pelas qualidades plásticas que são, nela, inquestionáveis. Não, muito mais que isso. Num caso sui generis, em meio ao que há de mais representativo da técnica e do estilo ditos modernistas, ressalte-se, o que dá à obra de Picasso uma importância para além do rigor formal, que se lhe não podemos negar, como disse, é a narrativa intencionalmente dramática da barbárie, o grito de revolta contra a crueldade humana elevada a dimensões impensáveis. No que existe de aparentemente desarticulado, representado à perfeição na imagem do cavalo contorcendo-se sob a insuportável dor, ou na figura de um touro, símbolos da brutalidade dos homens, pode-se perceber do que é capaz a arte em sua função social.

A composição do quadro é inquietante. Pessoas e animais (oito, ao todo) são os atores da cena de sofrimento e dor. Vê-se, a partir da esquerda, uma mulher protegendo nas mãos uma criança sem vida; um touro, um soldado de pedra, abatido de costas com uma espada quebrada (e uma flor) na mão, sobre cujo corpo relincha, em desespero, a figura do cavalo; de uma janela projeta-se uma mulher com uma lamparina, outra mulher, mais ao centro do quadro  ---  e mais uma, que grita com os braços erguidos.

Não aparecem os inimigos, os aviadores que acionam os mecanismos do bombardeio aéreo. Nem Hitler, nem Franco. Do preto e branco da tela, mais que as imagens visualizadas, vêm os gritos, o estrondo ensurdecedor das explosões que dilaceram corpos e almas. Ao centro, no que se pode identificar como um triângulo isóceles, cujo vértice atira-se para a lâmpada do alto do quadro, absorve o nosso olhar a luminosidade distorcida, a exemplo da lanterna de Goya, no Fuzilamento de Moncloa, que parece indicar simbolicamente a paz do porvir.

Como disse sobre a obra o conhecido crítico de arte Herbert Read, um dos seus mais rigorosos intérpretes, Guernica é um "monumento à desilusão, ao desespero e à destruição". 80 anos depois, quem, na linha do que fez Pablo Picasso, haverá de registrar o martírio infernal que se anuncia pela voz rouca de um louco americano?   

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Montenegro, o livro

Li, com redobrada atenção, Montenegro, família-história e medicina, o livro com que José Hilton Lima Verde Montenegro, em mais uma contribuição relevante para o resgate da memória iguatuense, homenageia seu pai, o médico José Holanda Montenegro. Trata-se de obra marcante sob todos os aspectos, notadamente por celebrar uma pessoa que fez de sua vida um exemplo a ser seguido, pela doação desinteressada, pela correção moral, pela elegância de sua conduta social e política.

As qualidades editoriais da publicação, irretocável em sua apresentação e beleza gráfica, por si só, constitui um convite à leitura. Mas, fique isto claro, é o rigor da pesquisa que torna o livro quase obrigatório para quem se mostre minimamente empenhado em conhecer capítulos significativos de nossa História, dando a ver, ao lado da criteriosa curiosidade que movimentou o notável intelectual, a fina sensibilidade do historiador. Eis o que faz a diferença num livro do gênero: saber transitar do fato objetivo, que o credencia, para a subjetivação, que o embeleza. Hilton superou-se nesse sentido, razão por que seu último livro beira à perfeição do ponto de vista estético, tomando o termo no sentido da fenomenologia da experiência histórica propriamente dita. O autor submete tal experiência à descrição, à análise subjetiva e à apreensão do seu significado transcendental. Não se desapega da verdade factual, pois tem presente que o leitor a que se destina sua pesquisa, em tese, pode ser outro que não o familiar do biografado, sem negar, todavia, que é o sentimento do filho o esteio da percepção desse fato.

Como disse o médico Hildernando Bezerra, em apresentação irretocável da obra, "Hilton vai à Fundação Gilberto Freire, em Recife, e lá garimpa, nos escritos de Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca, as origens da família Montenegro no Brasil. Mergulha mais a fundo, no passado e, nos longínquos idos do século XVI, descobre seu parentesco com o Papa Adriano VI. Suas pesquisas singram o Atlântico e descobre até seus primeiros ascendentes no Brasil, aqui chegando em companhia do donatário Duarte Coelho".

Mas o livro, sem perder de vista as bases historiográficas que o validam, outrossim, como produção científica (para além do memorialismo desinteressado, de "perfume" kantiano), ganha força à medida em que a narrativa deixa ver a dosada emoção do filho, como no capítulo em que descreve o AVC ocorrido ao pai em 1976: "Gradativamente foi reconhecendo uma pessoa e outra, às vezes trocava Ana Cláudia por Virgínia, às vezes a conversa ou a pergunta era sem nexo, mas aos poucos o quadro clínico ia melhorando e animando todos nós e a equipe médica, que também vibrava com a sua melhora".

Aqui e além, o foco desliza do pessoal para o impessoal, e não raro o "papai" dá lugar ao "doutor Montenegro". Isenção? Ato falho do historiador? Talvez. O que resulta disso, no entanto (e que mais importa), torna o discurso leve, delicado, sutil, que é mesmo uma marca da escrita hiltoniana, se me permite o autor, humilde que é, tal adjetivação: "Tínhamos notícias de que, em Iguatu-CE, existia uma corrente de orações para a melhora do Dr. Montenegro. Centenas de pessoas invocando os seus Santos e fazendo promessas... Por tudo que se fazia de positivo para papai, nós ficávamos gratos e felizes, pois nesse momento de dor e sofrimento conseguimos vislumbrar o quanto ele era querido, o quanto ele fazia falta".

Como bom historiador, Hilton não se limita aos grandes eventos. É assim que traça com detalhes o perfil psicológico de Dr. Montenegro. Mais: traça o perfil profissional, intelectual, humano, desse homem memorável de que todos os iguatuenses devemos nos orgulhar. Conhecemos o seu gosto musical, literário, suas crenças, seus valores, a sua visão de mundo e o amor sem nome que dedicou aos filhos e a Dona Elze Alves Lima Verde Montenegro, a companheira inseparável.

Mais que aplaudir, há que se agradecer a José Hilton Lima Verde Montenegro pela grande obra com que acaba de nos presentear.

 

 

 

 

O que faz de um filme um grande filme, por Álder Teixeira*

Nas aulas de Estética do Cinema, não raro ouço a seguinte indagação: "O que faz de um filme um grande filme?" A pergunta, que a princípio pode parecer ingênua, é de uma complexidade imensa. Vejamos: Existem filmes interessantes, filmes belos, empolgantes, transgressores, provocativos e que, por curioso que pareça, não se sustentam diante de uma análise criteriosa do ponto de vista cinematográfico. E, no entanto, existem filmes que sequer comportam essa adjetivação e são soberbos como arte cinematográfica. Como se vê, nada é de fato tão simples quando se pretende analisar um filme. O mesmo acontece às outras linguagens estéticas, à pintura, à fotografia, à música etc.

Por que isso acontece? O que faz com que certos filmes arrebatam plateias, fiquem no imaginário das pessoas como obras perfeitas, mesmo quando suas deficiências formais ou conteudísticas (e não raro formais e conteudísticas) são óbvias aos olhos do crítico de cinema? Talvez por que, grosso modo, a maior parte das pessoas não tenha sido preparada para "ver um filme" como obra de arte, mas, tão-somente, como entretenimento, como fuga do indesejável, como uma circunstância em que se aceita a irrealidade como se a realidade fosse  ---  numa palavra, como passatempo. Se isso é válido, porque a arte não existe para especialistas, claro, não é menos válido afirmar que um especialista, um estudioso de cinema, um crítico honesto, podem tornar a experiência de assistir a um filme muito mais rica, mais completa em suas forças de sentido e, mesmo, em sua beleza estética.

Assim como uma tela se faz notar por sua composição, como na obra de um Giotto di Bondone; por sua força dramática, como em Caravaggio ou Géricault; pelo senso simbólico de sua imagem, como em Botticelli; pela luz, em Turner; pela exploração do espaço, como em Da Vinci ou pela originalidade da pincelada, em Van Gogh, ou, ainda, pelo poder da comunicação, como em Pablo Picasso, Tintoretto, Rubens, Cézanne etc., um filme notabiliza-se pelo domínio da linguagem, pelo equilíbrio de massas, no quadro, pelo ritmo da narrativa, pela beleza da fotografia, pela movimentação e angulação da câmera, pela poética autoral que faz de um Bergman, por exemplo, um artista inconfundível.

Some-se a isso um bom roteiro, uma direção de arte rigorosa, um figurino coerente com o tempo histórico do filme, um desempenho eficiente do elenco, uma música que se some à imagem para enriquecê-la de forma especial e convincente, uma montagem meticulosa e expressiva e, sobremaneira, uma direção geral que torne a obra fílmica menos teatral e mais narrativa, na linha do que professava François Truffaut, pois que ao diretor cabe o impagável papel de concentrar numa as muitas linguagens do cinema. Eis os elementos estéticos para os quais deve o espectador direcionar sua atenção, atirando-se ao encontro do que existe de verdadeiramente artístico num filme e o faz, em meio a uma produção inumerável de outros títulos, um grande filme.

Saber ver um filme, pois, é muito mais que compreendê-lo, simplificando o seu julgamento numa questão de gosto. A tendência da nossa crítica de cinema, através dos tempos, tem-se caracterizado pelas abordagens conteudísticas, desprezando a estilística cinematográfica, a "mise-en-scène" propriamente dita. Para o contentamento dos que amam o cinema, felizmente, cada vez mais ganha espaço nos cineclubes, nas academias, nas salas de aula das escolas e universidades, uma motivação para o corpo a corpo com a estilística cinematográfica, no viés em que se destacam autores incontornáveis como David Bordwell e Jacques-Aumont. Um filme é um grande filme, pois, pelas escolhas narrativas, pelo manuseio competente dos meios de expressão próprios do cinema (o estilo), sem perder de vista a dramaturgia e os componentes culturais e ideológicos, claro. 

 

*Álder Teixeira, Professor de Estética do Cinema, é Mestre em Literatura e Doutor em Artes pela UFMG.