Woody Allen, o perdedor

Amigo me envia por e-mail uma entrevista recente de Woody Allen. Sou fã de carteirinha de Allen e leio tudo que me chega às mãos sobre este gênio do cinema. O livro Conversas com Woody Allen, para que se tenha uma ideia, li e reli com o mesmo entusiasmo, em que pese tratar-se de um livro de entrevistas. Mas há muito, confesso, não 'via' do cineasta (e outras tantas coisas mais que é!) nada que me causasse um impacto tão desconcertante quanto uma declaração sua nessa entrevista que acabo de ler.

O mais curioso: uma declaração aparentemente desimportante e tola, mas tão cheia de significado e tão capaz de nos despertar coisas boas como pais de filhos adolescentes. A uma dada altura, indagado se assiste aos seus filmes com as filhas, de 12 e 13 anos, em casa, Allen diz: -  "Quanto menos eu as transformo em uma família do show business, melhor. Eu não quero que elas pensem em mim como seu pai, a celebridade. E elas não pensam. Elas pensam que sou um perdedor. Elas já me disseram, em termos inequívocos, 'oh pai, você é um perdedor! Sinto-me melhor assim do que se elas fossem para a escola e dissessem: 'Oh, o filme do papai arrecadou 12 milhões de dólares só na primeira semana!'"

Num tempo de desumana inversão de valores, em que o 'ter' leva tanta gente a pensar que o dinheiro é capaz de tudo comprar, num mundo povoado de gente que se arvora e se deslumbra com a força da grana que possui, ouvir uma declaração assim é como assistir a uma aula de humanidade, de senso de realidade em torno do que é fundamental (ou deveria ser) na vida das pessoas. Pena que nem todos tenham lido a entrevista de Allen, para compreender que não é feio levar as nossas crias a descobrir que seus pais são humanos, que perdem vez e outra, mesmo quando as contas bancárias andam explodindo de gordas!

A propósito, nas proximidades do colégio em que fora apanhar minha filha, presenciei dia desses um pai abaixar o vidro blindado do seu carro, dentro do qual o filho pequeno acabara de entrar, para destratar um catador de materiais recicláveis pelo simples fato de que o pobre rapaz, numa manobra infeliz, tocara levemente com a sua carroça a lateral do carrão: - "Seu animal!, não viu que eu ia dobrar!?" Como fosse com o meu carro logo atrás, assisti àquela cena inundado de revolta, mas nada me era possível fazer. Lendo Woody Allen, há pouco, me ocorreu pensar naquela cena outra vez. E, vai ver, talvez o último filme daquele senhor, tão cego pela força do dinheiro que tem, nem tenha arrecadado 12 milhões de dólares só na primeira semana...



 

Uma cena inesquecível

Quando nos lembramos de filmes de que gostamos, lembramo-nos de cenas e não de filmes inteiros. A afirmação de Syd Fields, no seu belo livro sobre roteiros, é absolutamente correta. Com efeito, podemos esquecer da história em seus detalhes, do nome dos atores que interpretam os papeis principais e até do título do filme, mas guardamos para sempre as cenas que nos marcaram quando as vimos. Como todo bom cinéfilo, tenho vivas na memória algumas cenas que considero emblemáticas do cinema. A despedida de Rick e Ilsa em Casablanca, é uma delas:
 Rick
"Nós sabemos que, no fundo, você deve ficar com Victor... Se aquele avião decolar sem você, você vai se arrepender  --  talvez não hoje nem amanhã, mas logo, e para o resto da sua vida".   
Ilsa
 "Mas... e nós dois?"
Rick
 "Nós sempre teremos Paris".
É um dos momentos mágicos do cinema, desses de que nos lembramos sempre que, por alguma razão, somos levados a pensar em despedidas românticas. E em ações nobres. Tão simples, tão sem efeitos dramáticos e, no entanto, tão arrebatador! Por quê? Syd Field, que também a coloca entre as suas cenas preferidas, explica de forma absolutamente convincente: - "No início de Casablanca, Rick é um homem que vive do passado, remoendo a dor causada pela relação mal-sucedida com Ilsa. Quando ela reaparece em sua vida, Rick lamenta: 'De todas as espeluncas de todas as cidades do mundo, ela tinha que vir parar bem na minha'  --  e então sabemos que é chegada a hora de ele confrontar e finalmente resolver seu passado".
É isso. A cena encerra com uma força simbólica extraordinária um grande filme. Sob muitos aspectos, talvez o mais belo de todos os tempos. Um grande homem se revela por suas ações, não por suas palavras. No caso de Rick, tão excepcionalmente interpretado por Bogart, é o que fica evidenciado. Ilsa (Ingrid Bergman), lindíssima, é a mulher com quem se relacionara havia algum tempo, em Paris, e que o levara a sofrer uma dolorosa decepção, abandonando-o no ápice de sua paixão por ela. O mundo, sabemos, dá suas voltas, na ficção e na vida real. Quis o destino que os dois se reencontrassem em Casablanca, vivessem um flashback capaz de fazer explodir no coração de Ilsa a paixão de antes, mas, agora, Rick tem outros objetivos, maiores, mais elevados para a sua dignidade pessoal. Na mesma fala, citada acima, ele diz: - "Não tenho muito talento para ser nobre, mas é bem fácil perceber que os problemas de três pessoas comuns não representam nem um punhado de feijões neste mundo doido..."
Ilsa, que traíra o marido com Rick e Rick com o marido, na indecisão de sua alma leviana, agora quer de volta o amante de antes, nos idos de Paris, mas Rick, num gesto que nos dá o tamanho do seu caráter, renuncia o seu amor pela causa dos Aliados e decide ficar em Casablanca para combater os nazistas. A cena, pois, cobre-se de poesia e força simbólica, eleva-se às alturas da grande arte, razão por que fica na nossa memória para sempre, como um dos momentos extraordinários do cinema.





Perfume de Mulher

Esta semana farei palestra numa universidade pública sobre o sentido do filme Perfume de Mulher. Existem duas versões, mas me incumbiram de falar sobre a segunda, dirigida por Martin Brest, com Al Pacino interpretando o tenente-coronel cego em torno do qual gira a comovente história roteirizada por Bo Goldman. A primeira, italiana, é também excepcional e traz a assinatura de Dino Risi, com um elenco não menos competente: destaque para Vittorio Gassman e Agostina Belli, tão linda quanto a estonteante Gabrielle Anwar do remake americano. Com este, Al Pacino ganhou o Oscar de 1993. A sua interpretação é mesmo um espetáculo à parte, embora se saiba que não fez nada que não se deva, com rigor, considerar magnífico.

Como tivesse assisitido ao filme há muitos anos, vi em DVD as duas versões. Sem pruridos, gosto mais da segunda, em que pese trazer os conhecidos vícios do cinema americano de fins do século: a direção, embora segura e sensível à força dramática do roteiro, explora clichês já muito conhecidos e que nada acrescentam ao núcleo central da história. A cena da Ferrari, por exemplo, chega a ser ridícula, nomeadamente pelo fato de Frank Slade (a personagem cega de Pacino) dirigir a duzentos por hora em plena cidade, sem que nada de mau lhe aconteça. Mesmo a essa cena, contudo, deve-se fazer alguma concessão, afinal, segundo a teoria da verossimilhança aristotélica "a poesia [a Arte, portanto] pode distanciar-se da realidade e apresentar fatos e personagens não como são, mas como poderiam ou deveriam ser". É este irracional / impossível, no entanto, que poderia ter sido evitado na perspectiva de um filme muito certinho como Perfume de Mulher.

O filme tem, em contrapartida, um momento absolutamente mágico e comovente. Refiro-me à cena em que Al Pacino dança um tango com a irresistível Gabrielle Anwar, que merece figurar entre as mais belas do cinema em todos os tempos. É nela que pretendo me segurar para discutir com os alunos o sentido mais relevante do filme, consciente de que toda obra de arte tem muitos sentidos e ler bem um filme pressupõe o direito de invadir territórios aceitavelmente subjetivos do mesmo, o que é muitas vezes indispensável a fim de que não se incorra no lugar-comum de comentar apenas o fio condutor da história, no caso tão evidente e simples que dispensa uma análise mais atenta.

Como fiz alusão a Aristóteles, não é muito considerar que Perfume de Mulher permite ancorar a análise na sua dimensão catártica, aquela função artística tão bem teorizada pelo filósofo grego no seu ainda insuperado Poética. Acho que o filme de Brest proporciona ao espectador uma experiência purificadora, num tempo em que andamos tão para baixo em relação ao sentido de nossas vidas e ao que nos aguarda no futuro. Todo bom roteiro de cinema nos coloca diante desse momento epifânico na vida da personagem. É quando ela se transforma e revela a sua real natureza interior, quando nos conquista, levando-nos, enquanto espectadores, a nos identificar com ela. A cena da dança de Pacino é esse momento mágico. Em O Poder do Mito, um livro fundamental, Joseph Campbell professa que em todo ritual de iniciação é necessário que um eu morra a fim de que um novo eu possa nascer. É o que ocorre a Frank Slate. Ao final de Perfume de Mulher, o homem antes insensível e revoltado, duro e frio, obsessivamente perseguido pela ideia de cometer suicídio, como o melhor Dostoiévski, descobre que o segredo da existência humana está nas coisas mais simples  --  e encontra razões de viver. Nasce um outro homem, terno e justo. É o que a câmera vai mostrar com poesia na cena final do filme. Este me parecer ser o seu sentido maior.

  

Dia dos namorados

Escrevo esta crônica no dia 12 de junho, data consagrada, no Brasil, aos namorados. Há divergências em relação à origem do festejo, além de ser uma iniciativa explorada à exaustão pelos interesses do comércio, claro. Acredita-se que a razão da comemoração esteja ligada, de fato, a Juno, nome latino de Hera, uma das divindades do Olimpo. Era filha de Saturno e Cibele, tendo sido, com os irmãos, devorada pelo pai e salva por Júpiter, que a desposaria. Mas seu currículo, como direi em palavas pequenas, não é lá muito condizente com a simbologia da data.

Juno era demasiadamente possessiva, dominada por um ciúme que a levava sempre aos atos mais impiedosos. Ao saber que Júpiter houvera dado origem a Minerva, sem a sua participação, passou a perseguir não somente as amantes do marido, mas também os filhos que Júpiter tivera de outras relações. Entre as vítimas dessa fêmea ciumenta e vingativa, está Hércules, a quem perseguiria por toda vida. Não suportando mais o martírio que Juno lhe infligia, Júpiter certa vez amarra-a a uma pedra, nas proximidades do Olimpo, com uma bigorna presa a cada um dos pés. Juno considerava que o homem era favorecido no amor, Júpiter o contrário, isto é, para o senhor dos deuses era a mulher a grande favorecida nas relações amorosas. Tirésias foi chamado a julgar a contenda, decidindo em favor de Júpiter.

Por ser a companheira de Júpiter, o deus dos deuses, Juno seria, contudo, alvo da veneração de todos, eleita como a protetora das esposas e mães, às quais ajudava nos trabalhos de parto. Em reverência a ela, os maridos e os namorados presenteavam suas amadas, davam-lhes flores e os mais tocantes mimos. O prestígio de Juno cresceu entre os romanos, onde passou a ser festejada todo segundo mês do ano, razão por que o dia dos namorados, noutros países, é comemorado no dia 14 de fevereiro.

Juno é representada pelos pintores e escultores como uma mulher jovem e bela, de expressão serena e casta. Veste sempre uma túnica drapeada, encoberta por um véu transparente. Traz na cabeça um diadema e, na maior parte das versões registradas pela História da Arte, porta um cetro decorado com pedras preciosas. É considerada o símbolo do amor conjugal e da fecundidade entre os casais. Em que pese a vida marcada por contradições, como vimos, é a Juno que se deve a data hoje comemorada.

Na Europa e nos Estados Unidos, embora comemorada em 14 de fevereiro, atribui-se a homenagem a São Valentino (Valentine's Day), um padre que, durante a Idade Média, intercedia em favor dos casais que tinham seus relacionamentos dificultados por questões familiares, realizando seus casamentos às escondidas. Pelo sim, pelo não, a data é simpática e deve ser mesmo cultivada, coloquem-se à margem as razões meramente comerciais, uma forma sob algum aspecto tortuosa para aquecer as vendas e estimular o consumo.   

A eterna busca

Escrever sobre relacionamentos é sempre um desafio. Primeiro porque se corre o risco de ter confundida a sua vida amorosa pessoal com o tema sobre o qual está desenvolvendo suas ideias, mesmo quando se tenta intelectualizar a reflexão. De minha parte, com uma bagagem de três casamentos e a experiência concreta do que deu e do que não deu certo em cada um deles, a coisa se torna ainda mais delicada. Para não falar das incompreensões e dos julgamentos a que você fica exposto. E do zelo em preservar a imagem de pessoas que passaram por sua vida e que hoje vivem uma outra realidade.

Mas, como é este um tema fascinante e a história de quase todos é mesmo a eterna busca do outro, como no mito de Platão, vira e mexe é sobre isso que escrevo, o que, sem falsa modéstia, tem agradado aos leitores, sobretudo às mulheres, a concluir pelos e-mails que recebo, pelos telefonemas que não raro voltam ao assunto de uma crônica ou pelas vezes em que me abordam na rua. E é isso que move as pessoas que escrevem, mesmo aquelas para as quais o ato de dar forma ao pensamento é quase sempre um mecanismo de catarse aristotélica, isto é, um meio de superar as tensões mais íntimas e libertar os demônios interiores que nos afligem. De purificar a alma.

Ingmar Bergman, o cineasta sueco sobre cuja obra venho pesquisando, é emblemático sobre essa necessidade que todo artista sente de compreender os desencontros da vida humana. A propósito, li outro dia uma crônica de Paulo Francis, de abril de 1977 e reeditada numa excelente coletânea orgnaizada por Nelson de Sá, em que o polêmico articulista diz exatamente isso: - "Todo filme de Bergman é a irresistível atração afetiva de um homem por uma mulher, e vice-versa, e a incapacidade, dolorosa e dolorosamente expressa em choques monumentais, de concretizarem algo duradouro".

Dando um desconto na simplificada conclusão de Francis, acho mesmo que uma grande parte da filmografia de Bergman é, sob algum aspecto, uma tentativa (genial do ponto de vista estético!) de buscar entender a recorrente experiência de homens e mulheres que se acham e se perdem nos caminhos de suas vidas, e, como afirma o jornalista e escritor carioca, acabam se conformando com as imperfeições da natureza humana, com o fato de que nascemos e morremos carentes afetivamente".

Esta a razão por que o tema é de fato uma marca deste colunista, na sua incansável motivação de levantar reflexões sobre esse sentimento que faz da vida de homens e mulheres uma caminhada ao improvável encontro daquelas emoções deliciosas, daquelas experiências ardorosas, mágicas, cheias de encanto  --  e insubstituíveis!, da paixão.

 




Sabalincoln

Durante 34 anos ininterruptos, escritores, jornalistas e intelectuais de diferentes extrações reuniram-se no Rio de Janeiro, todos os sábados, na casa do advogado Plínio Doyle, para discutir os mais variados assuntos, exceto política e religião. Esses encontros se tornariam conhecidos como 'sabadoyles' e contavam com nomes importantes da literatura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Pedro Nava e Lygia Fagundes Telles. E muitos outros, claro, da chamada intelligentzia brasileira de cujos nomes não me recordo agora. O fato, que entraria para a história da nossa literatura e ensejaria inúmeros estudos stricto sensu, inspirou eventos similares Brasil afora. Inclusive no Ceará, em diferentes épocas.
 
Nos dias atuais, é conhecido o 'sabalincoln', de que tenho a satisfação de fazer parte, e que, como o nome indica, acontece todos os sábados pela manhã na casa do médico, intelectual e cinéfilo Cesar Lincoln. Do grupo, fazem parte críticos de cinema, jornalistas, médicos, professores, advogados e antigos articulistas de jornal. Os mais assíduos são L. G. de Miranda Leão, Enondino Bessa, Mourão Cavalcante, Francisco Tavares, Augusto Câmara, Regis Frota e eu.
 

 Na contramão dos encontros de Plínio Doyle, todavia, ainda não conseguimos suprimir da pauta o debate político, que, embora se dando todas as vezes no mais elevado nível, deixa a ver a heterogeneidade do grupo em termos ideológicos. O mais relevante, no entanto, é que nos 'sabalincolns' o que mais se faz é cultivar a arte da convivência. E ficar em dia com as coisas da sétima arte, em que pontuam os grandes filmes de todos os tempos, de George Stevens a Scorsese, de Fritz Lang a François Truffaud, de Hitchcock a Godard, não importa. A exigência é que estejam na pauta as mais altas realizações do cinema mundial da sua origem à contemporaneidade.
 
À frente, o anfitrião Cesar Lincoln, a quem, com justiça, se poderia perfeitamente dirigir as mesmas palavras ditas por Drummond sobre Doyle, posto que lhe "cabem todos os méritos de receber, distrair, alimentar e, às vezes, por que não?, suportar com tolerância cristã as caceteações de um conviva menos obediente as leis da concisão e do gosto".
 
Num tempo em que é delicada a linha que separa o bom debate da cizânia, a firmeza de ideias da intransigência, o entusiasmo da paixão intolerante, os nobres ideais dos interesses mesquinhos e inconfessáveis, é bom estar entre pessoas sérias, inteligentes, cultas e invariavelmente gentis e elegantes como os integrantes do sabalincoln, parte do combustível com que se revigora, entre nós, o bom gosto e a sensibilidade para as coisas da cultura do Ceará, do Brasil e do mundo.
 
 
 
   
           

O amor que não desata

Quando o Ernesto, durante o happy hour, revelou que há 3 anos luta contra a saudade da ex, todos riram à mesa. Cá comigo, pensei: Nem se dão conta de que, como quis Wilde (Oscar, o escritor inglês), não raro a vida imita a arte. Na eternidade de um instante, passei em revista alguns clássicos sobre o assunto, que foram das canções dos trovadores medievais à obra-prima de Gabriel García Márquez, O amor nos tempos do cólera, em que Florentino Ariza espera exatos 53 anos, quatro meses e onze dias até conquistar em definitivo o coração da mulher amada. Sobre o livro  --  e a bela adaptação para o cinema por Mikel Newell  --, por sinal,  já escrevi aqui.
 
Como as coincidências acontecem, chego em casa e vejo nas páginas da revista Época um texto maravilhoso de Ivan Martins, que tomo a liberdade de citar: - "Tem gente que vai ficando na nossa vida. A gente conhece, se envolve, termina, mas não coloca um ponto final. De alguma forma a coisa segue. Às vezes, na forma de um saudosismo cheio de desejo, uma intimidade que fica a milímetros de virar sexo".
 
De fato, quem não vive ou viveu algum dia uma experiência assim? Afinal, nenhuma relação acaba por vontade medida dos dois. Em todo rompimento há sempre alguém que sai machucado, quando menos porque, como lembra Martins, "talvez seja inevitável, uma vez que nem todas as relações terminam com o total esgotamento emocional. Na maior parte das vezes, temos dúvida, temos afeto, temos tesão, mas as coisas, ainda assim, acabam". Perfeito.
 
O mais curioso é como certos amantes, utópicos, carregam no peito o sorriso da mulher amada, quando a relação termina. Falo isso e me ocorre lembrar a cena clássica de Cinema Paradiso, em que Alfredo narra para Totó a misteriosa história: Certa vez um soldado apaixona-se pela filha de um Rei. A moça resiste à primeira tentativa de sedução, mas, comovida com a força do amor revelado, pede ao rapaz o prazo de cem dias para decidir. Em caso  afirmativo, diz ela,  'em qualquer desses cem dias aparecerei no balcão do castelo'. E o rapaz fica ali um, dois, vinte, noventa dias, sob o sol escaldante das tardes e o frio insuportável das noites, mas a moça não lhe aparece. No nonagésimo nono dia, o pobre homem levanta-se e desaparece na estrada infinda. "Não me pergunte por quê!", determina Alfredo.
 
É que para o amante não amado é preferível a dúvida à certeza do não. O rapaz liga para a moça que ama, mas não fala, tem medo do que virá do outro lado da linha; escreve cartas, mas pede que não lhe responda; passa e-mails que devem apenas ser lidos. Para ele, mais vale a esperança do silêncio, a possibilidade improvável do sim, que a gota dágua que afoga e mata. Ao Ernesto, estou certo, ocorre ser o soldado da vez, à espera de que a amada, de repente, não mais que de repente, diria assim o poeta, lhe apareça no alto do balcão.
 
"A rigor  --  está na crônica de Ivan Martins  --, a gente pode entrar numa dessas com gente que nunca namorou. Basta às vezes o convívio, uma transa, meia transa, e lá está você, fisgado por alguém com quem nunca dormiu – mas de quem, subjetivamente, não consegue se esquivar. Telefona, cerca, convida. Estabelece com a pessoa uma relação que gira em torno do desejo insatisfeito, do afeto não retribuído. Vira um caso inacabado que nunca teve início, mas que, nem por isso, chega ao fim. Um saco". Há amores que são assim.