Arte, conhecimento e intuição em Manchester à Beira-Mar

As contribuições de Mikel Dufrenne no campo da filosofia da arte, na opinião deste humilde colunista, são incontornáveis. Como não escrevo para especialistas, no entanto, pesa-me a responsabilidade de tentar esclarecer o escopo que sustenta essas contribuições para que as considere, assim, incontornáveis. 

Segundo o estudioso francês, em toda e qualquer perspectiva de análise, assim como o faço quando escrevo sobre cinema, por exemplo, a fenomenologia da experiência estética exige que essa experiência seja submetida à descrição fenomenológica, à análise transcendental e a apreensão de sua significação metafísica.

Sendo mais claro: Dufrenne estabelece distinção entre percepção e imaginação, mas, para ele, a imaginação está na base da percepção e deve ser encarada como sua colaboradora, ou seja, diante de uma obra de arte, que ganha na experiência da contemplação o status de objeto estético, mesmo quando me empenho em vê-lo com olhos críticos (pretensamente isentos de subjetivações), as minhas conclusões resultam do encontro de minha imaginação com o ato da percepção.

É claro que, para levar a efeito a interpretação e/ou crítica de um filme, é indispensável que trabalhe com o repertório intelectual que me dá bases racionais para interpretar ou criticar esse filme. Mas essa intervenção racional não pode exceder a medida de sua importância na percepção estética, assim como o sentimento, estando no centro dessa experiência, não pode tudo suplantar em seu favor ou da emoção que todos sentimos diante de uma obra de arte.

Fiz essa introdução, pela qual me desculpo, para justificar comentários meus sobre Manchester, à Beira-Mar, o belo filme de Kenneth Lonergan, em cartaz nos cinemas da cidade. Nesses comentários, defendi a tese de que se trata de um filme soberbo, desses que não víamos havia anos. Fui além, afirmei que o filme guarda um "perfume" bergmaniano, em alusão ao que existe de mais significativo na obra do cineasta sueco: a sondagem psicológica, o mergulho na alma humana, nos seus conflitos mais íntimos, nos traumas muitas vezes insuperáveis do que se viveu no passado, a impossibilidade da comunicação, acima de tudo.

É isso, não outra coisa, que constitui o esteio de Manchester, cuja trama se desenvolve em torno dos transtornos psiquiátricos de Lee Chandler (numa interpretação sublime de Casey Affleck), um homem jovem que trabalha como zelador de um condomínio e, de repente, é levado a largar o emprego e voltar para sua cidade natal depois que um irmão morre e deixa em desamparo o filho adolescente Patrick. Esse retorno à cidade em que nasceu é um retorno ao passado, de que não conseguirá se libertar.

Dito assim, em sinopse, o filme parece banal. Mas não é. O diretor de Manchester, à Beira-Mar dá um verdadeiro show na condução desse enredo simples e já recorrente no grande cinema. O ritmo do filme obedece à intensificação dos dramas vividos por Lee, a música extradiegética (over) é calculadamente explorada como elemento narrativo; a luz é precisa; o uso do close-up é rigoroso e os planos longos pontuam uma estilizada percepção do comportamento humano diante da morte e de suas implicações na vida dos homens.

O ponto central da história, por surpreendente, passa ao largo do tema da morte em si, posto que o conflito de Lee Chandler decorre da vida, do passado que o atormenta, impedindo-o de reconstruir-se e à sua vida depois de uma separação mal resolvida. É aí que Lonergan lança mão do flashback como recurso narrativo, mas o faz sem banalizar esse expediente já muito explorado na perspectiva da narrativa clássica. Cada plano, cada tomada, cada cena da memória atormentada de Lee parecem tragar o espectador, estabelecendo uma empatia com a personagem que nos remete ao melhor Bergman.

São imagens invariavelmente marcadas por um requinte plástico típico do que se costumou definir como o estilo do realizador sueco: mais que fulgurações de cunho estético, a força visual das imagens dita a densidade dramática da história, numa "sucessão de impulsos e repousos", para fazer valer a definição de música por Stravinsky, que nos enreda no que existe de mais significativo no filme e o torna, curioso, extremamente musical.

Se ver um filme de Bergman é "meditar, é ir o mais fundo possível no âmago do ser humano, é viajar por um planeta estranho à procura de uma chave que possa abrir nosso próprio cárcere para nos libertar de nós mesmos, nos fazer sair das trevas", como disse à perfeição sobre o autor de Saraband Carlos Armando, em livro clássico, é essa a sensação que se tem ao assistir a Manchester, o belo filme de Kenneth Lonergan. Não é muito lembrar que no filme citado, o canto de cisne de Ingmar Bergman, também é a impossibilidade de se livrar do passado que constitui o eixo dramático do enredo. Em outra chave, fique isso claro.

O certo é que, para o bem ou para o mal, como disse na introdução, faço esta afirmação sem perder de vista que a experiência estética impõe como resultado o casamento do conhecimento com a intuição. Tenho dito.

 

 

 

 

 

 

 

 

  

A velha máquina de costurar

Desde que o marido morrera, havia muitos anos, dona Lili vivia na mais absoluta solidão. Dedicava-se, mal raiava o dia, a costurar na velha  singer. A rotina de sempre: receber clientes, fazer a entrega das encomendas, comprar botão, zíper, tubos de linha, agulha, alfinete - "Se Deus quiser pago tudo depois das festas - dizia ao dono do armarinho, que a coisa melhora véspera do Natal e do Ano-Novo."
Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado - o dourado da abotoadura esfregado no vestido para conservar o brilho. Com o desvelo das apaixonadas, dobrava cada gravata, cada cueca... E eram vinte e sete anos de viuvez!
No começo, passados os quatro ou cinco primeiros anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de achar um marido novo: - "Quarentona muito da bem-apanhada", brincavam.
Mas o tempo, tão afeito a surpresas, não trouxe surpresas para dona Lili. A vida-vidinha passando sem novidades, e com ela a beleza e o encanto da velha costureira, o verde dos olhos ainda guardando o brilho dos olhos que amam.

Não tivera filhos, e Maria, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili pelo correr dos tempos, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz.
Contudo, tendo como amiga a eterna solidão, dona Lili não maldizia a vida: - "É assim mesmo, até que Deus me leve outra vez para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.
Com a proliferação das butiques, as dificuldades aumentavam, as freguesas escasseando com o passar dos anos.
Hora existia no abandono a que se entregara a pobre mulher, que lhe passava pela cabeça largar a velha   singer e tentar recomeçar a vida  --- balconista de loja de tecido, manicure, vendedora de produtos de beleza...

Depois, recomposta a lucidez e a solenidade da velhice, dona Lili via com clareza que já não era tempo de recomeçar. E voltava, alfinete à boca, a dobrar o corte de fazenda de que surgiria o vestido de término de curso da filha de Zenaide, a mulher do tabelião, "tão exigente!", balbuciava com seus botões.
Dia após dia, a rotina era de tristeza e solidão na velha casa. Varrer, lavar, passar, fazer a comida e arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado no vestido de organdi, para retomar o brilho.
Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa de tartaruga segurando o penteado simples, o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se na pedra da janela para admirar o mundo. Ao longo da Rua do Fogo, a rua em que morava dona Lili, as barracas de guloseimas, quinquilharias, brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento de Jesus, dali a poucas horas. E que a vida, no viravoltear das coisas e na repetida utopia dos homens, anunciava-se nova, porque era Natal.
Alforriando o olhar cansado para o além, dona Lili deixou-se transportar para os tempos ao lado de Murilo, a tão esperada missa-do-galo na Matriz, o calçadão da praça apinhado de gente, o braço enlaçado à cintura do homem amado  ---  e a sensação, há tanto esquecida, de que a vida pode ser feliz.
Exausta, que foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu, passo trôpego e tateando o ar, o corredor que levava ao quarto. Ainda uma vez, antes de deitar, dona Lili abriu a gaveta do guarda-roupa, reorganizou as gravatas, as cuecas, o pente, a navalha de barbear, a aliança de Murilo - "Ainda mando o relojoeiro tirar os riscos!" - o dourado da abotoadura contra o vestido, para reconquistar o brilho.
Sob o domínio da insônia, companheira de toda noite, dona Lili ainda pode escutar o pipocar das bombas, o badalar do sino da Matriz. E, antes de soprar a vela, bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia há vinte e sete anos, antes de dormir beijou o retrato de Murilo.
Dessa vez, no entanto, dos olhos verdes de dona Lili, duas lágrimas rolaram, serenamente, pelas maçãs do rosto.
Na manhã seguinte, a muito custo, conseguiu-se entrar no velho casarão, onde a encontraram sem vida, em decúbito dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos, já endurecidas.
Ao enterro, rigorosamente contadas, compareceram dezoito pessoas  ---  onze homens, seis mulheres e um menino.
Dizem que do interior daquela casa enorme e vazia, à meia-noite, por muitos anos, ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.

Liberdade ainda que tardia

Para quem levantava dúvidas sobre a arrancada do cinema brasileiro contemporâneo, a programação do Festival de Cinema de Berlim, a prestigiadíssima mostra que teve início em 9 de fevereiro, na cidade alemã, aponta como a prova definitiva de que vivemos um momento marcante da produção nacional. Nada mais nada menos que 12 filmes brasileiros participam da importante competição, entre longas e curtas-metragens  --  nove longas e três curtas-metragens, para ser mais preciso.

Em termos quantitativos, nunca, em tempo algum, o cinema nacional ocupou posição de tanto realce. A relação dos doze filmes brasileiros é encabeçada pelo longa Joaquim, dirigido pelo cineasta pernambucano Marcelo Gomes. Trata-se de uma cinebiografia de Tiradentes, o herói inconfidente, e que, segundo Gomes, reflete uma tendência da produção cinematográfica atual no Brasil: "Quando se vai a um psicanalista resolver um problema, diz ele, começamos tentando desvendar o passado". Entenda-se por "problema", no caso, a crise moral e política que ataca as raízes institucionais brasileiras hoje.

O viés político do filme, segundo o diretor pernambucano, evidencia-se na discussão que se estabelece em Minas Gerais em fins do século XVIII, em que "a riqueza já estava sendo concentrada numa elite ligada à terra, enquanto que a população mista estava alijada disso". Simplificação à parte, quem pode escutar a entrevista concedida ontem pelo diretor (e reproduzida por diferentes meios de comunicação, a exemplo da Folha de S. Paulo) haverá de concluir: o cinema brasileiro, na linha do que fez Anna Muylaerte e o seu imperdível Que Horas Ela Volta (2016), nunca esteve tão atento às contradições sociais do país e a premência de um debate em torno de suas raízes seculares.

A propósito, após a exibição de seu filme Joaquim, Marcelo Gomes leu um manifesto contra o governo Temer. No documento, o realizador pernambucano afirma: "Estamos vivendo uma grave crise democrática no Brasil. Em quase um ano sob esse governo ilegítimo, direitos da educação, saúde e trabalhistas foram duramente atingidos. Juntos com todos os outros setores, o audiovisual brasileiro, especialmente o autoral, corre risco de acabar".

As afirmações de Marcelo Gomes constituem indício de que não se precipita quem espera a ocorrência de outros atos de protesto durante a semana, numa reedição previsível do que fez o elenco do filme Aquarius, em Cannes, no auge do golpe que levou Michel Temer à presidência do Brasil. A propósito, Davi Pretto, o diretor de Rifle, outro filme brasileiro aguardado com entusiasmo nessa edição do Festival de Berlim, foi assumidamente responsável pelo coro de "Fora Temer", em setembro, por ocasião do Festival de Brasília.

Afora o espírito político que parece tomar conta do festival, o longa Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, destaca-se, segundo a crítica, como um dos grandes trabalhos do cinema brasileiro contemporâneo. Curioso observar, por oportuno, que dos 12 participantes brasileiros, metade traz a assinatura de mulheres. Para Bodanzky, "... a força vem até pelo fato de esse ser um discurso novo e o festival estar aberto a tudo".  

Além de Joaquim e Como Nossos Pais, participaram do Festival de Berlim No Intenso Agora, de João Moreira Salles; Não Devore Meu Coração, de Felipe Bragança; Vazante, de Daniela Thomas; Rifle, de Davi Preto; Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira; Pendular, de Julia Murat; As Duas Irenes, de Fabio Meira; Em Busca da Terra Sem Males, de Anna Azevedo e Vênus Filó, a Fadinha Lésbica, de Sávio Leite.

 

Cinema Brasileiro em Close Up

Para quem levantava dúvidas sobre a arrancada do cinema brasileiro contemporâneo, a programação do Festival de Cinema de Berlim, a prestigiadíssima mostra que teve início nessa quinta-feira 9, na cidade alemã, aponta como a prova definitiva de que vivemos um momento marcante da produção nacional. Nada mais nada menos que 12 filmes brasileiros participam da importante competição, entre longas e curtas-metragens  --  nove longas e três curtas-metragens, para ser mais preciso.

Em termos quantitativos, nunca, em tempo algum, o cinema nacional ocupou posição de tanto realce. A relação dos doze filmes brasileiros é encabeçada pelo longa Joaquim, dirigido pelo cineasta pernambucano Marcelo Gomes. Trata-se de uma cinebiografia de Tiradentes, o herói inconfidente, e que, segundo Gomes, reflete uma tendência da produção cinematográfica atual no Brasil: "Quando se vai a um psicanalista resolver um problema, diz ele, começamos tentando desvendar o passado". Entenda-se por "problema", no caso, a crise moral e política que ataca as raízes institucionais brasileiras hoje.

O viés político do filme, segundo o diretor pernambucano, evidencia-se na discussão que se estabelece em Minas Gerais em fins do século XVIII, em que "a riqueza já estava sendo concentrada numa elite ligada à terra, enquanto que a população mista estava alijada disso". Simplificação à parte, quem pode escutar a entrevista concedida ontem pelo diretor (e reproduzida por diferentes meios de comunicação, a exemplo da Folha de S. Paulo) haverá de concluir: o cinema brasileiro, na linha do que fez Anna Muylaerte e o seu imperdível Que Horas Ela Volta (2016), nunca esteve tão atento às contradições sociais do país e a premência de um debate em torno de suas raízes seculares.

As afirmações de Marcelo Gomes constituem indício de que não se precipita quem espera a ocorrência de atos de protesto durante a semana, numa reedição previsível do que fez o elenco do filme Aquarius, em Cannes, no auge do golpe que levou Michel Temer à presidência do Brasil. A propósito, Davi Pretto, o diretor de Rifle, outro filme brasileiro aguardado com entusiasmo nessa edição do Festival de Berlim, foi assumidamente responsável pelo coro de "Fora Temer", em setembro, por ocasião do Festival de Brasília.

Além de Joaquim, participam do Festival de Berlim No Intenso Agora, de João Moreira Salles; Não Devore Meu Coração, de Felipe Bragança; Vazante, de Daniela Thomas; Rifle, de Davi Preto; Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira; Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky; Pendular, de Julia Murat; As Duas Irenes, de Fabio Meira; Em Busca da Terra Sem Males, de Anna Azevedo e Vênus Filó, a Fadinha Lésbica, de Sávio Leite.

 


 

Um país doente II

Quando falei, neste mesmo espaço, que o Brasil está doente, não faltou quem me criticasse, num tipo de ufanismo cego e tolo. Retomo a minha afirmação, hoje, a propósito de algumas incontáveis manifestações na internet em torno da agonia de Dona Marisa Letícia, cuja morte definitiva, vitimada por AVC hemorrágico, será anunciada nas primeiras horas desta manhã de sexta-feira, ocasião em que sento diante do computador para produzir a minha coluna semanal.

À mesa do café da manhã, há pouco, entre amigos, desavergonhada e impiedosamente, afirma um deles: "Pena que não leva com ela o marido!" Outro repassa, sob o domínio de uma felicidade insana, a mensagem que acaba de receber  --  e que expõe imagens de uma tomografia da ex-primeira dama, ao que se soma um texto impiedoso de um profissional da saúde "festejando" a irreversibilidade do quadro.

Anteontem, soube que uma pessoa conhecida gastara as horas do dia lendo e postando comentários perversos sobre a mulher do ex-presidente Lula. Curioso: teve em casa um caso de AVC que quase a deixa viúva, para não falar dos dramas financeiros e psicológicos que a doença inesperada ocasionou-lhe, e aos filhos. Fico imaginando: o que há de aproveitável numa mente dessa? Em que sentido pulsa no seu coração algum substrato do que se define como humanidade num homem ou numa mulher?

Na Folha de S. Paulo, edição de ontem, 2 de fev., aparece com destaque, sobre o mesmo fato, uma matéria de levantar pelos: Uma médica reumatologista postara no grupo "MED IX", o que logo se espalharia pelos milhares de grupos de WhatsApp Brasil afora, dando contas de que a mulher de Lula estava no pronto-socorro com diagnóstico de AVC (Acidente Vascular Cerebral) hemorrágico de nível 4 na escala Fisher, dos mais graves do ponto de vista neurológico.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, essas informações haviam sido partilhadas entre médicos que participam do grupo "PS Engenho 3". O que segue a isso é assustador: A médica comenta que a paciente "ainda" não havia sido atendida na UTI, ao que o colega, residente em urologia, acrescenta: "Ainda bem!". A médica abre-se em gargalhada.

Dona Marisa Letícia Lula da Silva nasceu de uma família muito pobre. Aos 9 anos, trabalhava como babá. Adolescente, como operária, numa fábrica. Ficou viúva do primeiro casamento, do qual tem um filho. Há 43 conheceu Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado de quem passaria o resto de sua vida. Identificada com o marido por suas convicções ideológicas, Dona Marisa passou a militar em favor dos menos favorecidos. Liderou movimentos femininos contra a prisão de sindicalistas. De suas mãos, literalmente, surgiu a primeira bandeira do Partido dos Trabalhadores.

Vítima do ódio e de perseguições de uma Justiça indigna do nome que recebe, figura no processo da Lava Jato como ré, acusada da compra ilegal de um apartamento que ninguém (depois de anos de investigação) pode provar ser propriedade do marido. Como afirmou um respeitável jornalista  brasileiro, "A intenção era puramente política, de bater, bater, bater em Lula, até que arriasse emocionalmente". Não tinham olhos (nem sensibilidade humana) para enxergar nela a mulher lutadora, a mãe zelosa, a avó carinhosa. Nada disso importa para um coração impregnado de ódio. Era a mulher do inimigo.

Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais. A frase, se não me falha a memória, é do escritor Alexandre Herculano. Ela me vem à lembrança agora. Esse exercício continuado da perversidade dos homens é que matou Dona Marisa Letícia. Um país doente.