Sem sobressaltos

Termina o ano de 2014  sob o olhar negativista de parte considerável de nossa imprensa. Desconfiança à parte, não há como fechar os olhos para o que orienta alguns dos nossos maiores órgãos de comunicação, bem na linha do que fazem a revista Veja, o jornal Folha de S. Paulo e a rede Globo de Televisão: é força organizada contra um modelo de governo que se volta, como nunca antes, para os menos favorecidos da sociedade, e cujas ações acabam por respingar nos interesses de uma elite arcaica e inconformada com uma série de avanços que, em alguma proporção, têm diminuído a distância entre os que dominam e os que são dominados. Por gigantesca e desumana que ainda seja a referida distância, não é preciso dizer.
 
A insatisfação beira o inominável, o que explica à perfeição a divisão do país nas eleições de outubro. A repercutir o drama, note-se como os eleitores de Aécio Neves insistem na ridícula expectativa de um terceiro turno, em que pesem as afirmações em contrário do TSE e do Supremo, como declarado por seus maiores representantes durante solenidade de diplomação da presidente Dilma Rousseff em meados do mês de dezembro. E, mais ainda, as evidências de que o Brasil, apesar dos pesares, vive hoje uma democracia de fazer inveja a países da Europa e os Estados Unidos. Para não falar que Rousseff inicia seu segundo mandato com a adoção de medidas que tendem a dar um melhor rumo ao país a partir do ano que se inicia.
 
É ser minimamente imparcial para constatar que a presidente 'largou' com vantagens expressivas sobre os últimos meses de governo no que tange ao fortalecimento de sua estrutura política. Na contramão do que ribombam os noticiários, as bases de apoio no Congresso parecem finalmente poder respirar ares menos viciados. Na medida em que contempla os partidos que lhe dão sustentação com uma distribuição de ministérios importantes, a presidente o fez de forma mais atenta para a correlação de forças que compõem essas bases, azeitando previamente as engrenagens que garantirão uma governabilidade tranquila até 2018. É previsível, pois, que leve a efeito medidas impensáveis na perspectiva de seu primeiro mandato, como manter sob controle parlamentares que terminaram o ano de 2014 alinhados a uma oposição inescrupulosa e revanchista. Mas o faz, como tem dado a ver, com maior disposição para o diálogo, no que se mostrara até aqui visivelmente inábil como governante.
 
2015, assim, mesmo em face de dificuldades já esperadas pelo próprio governo, tem tudo para transcorrer sem sobressaltos. Se não será, por certo, um ano de muitas realizações (muito pelo contrário), tende a viver em níveis suportáveis ajustes na economia, um ritmo de crescimento pífio nos próximos doze meses e uma inflação quando menos compatível com a de 2014. Esses fatores, claro, associados a uma acomodação das instabilidades decorrentes da crise na Petrobras, ainda que o andar das investigações venha a atingir nomes indiretamente ligados à presidente. O que pesa (e pesa de forma decisiva), a esta altura dos acontecimentos, é que parece incontornável, até para quadros da oposição, a figura ilibada de Dilma como figura capaz de conduzir o país, com sucesso, pelos próximos quatro anos. Assim seja.
 
 
 
 

Dilma diplomada

Para desespero dos reacionários de plantão, incluindo-se entre esses a meia dúzia de babacas que professava a volta dos militares como a melhor saída para o país, Dilma Rousseff foi diplomada, nessa quinta-feira 18, como presidente do Brasil pelos próximos quatro anos.
 
Não bastasse o caráter oficial do evento, que reconhece a legítima vitória da candidata do PT e autoriza sua posse em 1 de janeiro de 2015, pelo Congresso Nacional, a solenidade tornou pública a posição do TSE em face do descontentamento da oposição com o resultado das urnas. Nesse sentido, é oportuno destacar aqui as palavras do presidente da corte Dias Toffoli: "Eleições concluídas são, para o poder Judiciário, uma página virada. Não haverá terceiro turno. Que os especuladores se calem. Não há espaço".
 
A diplomação de Rousseff ocorre na mesma semana em que pesquisa CNI/Ibope, divulgada na quarta-feira 17, apontam para crescimento da avaliação positiva e confiança em relação a seu governo. É a primeira pesquisa levada a efeito desde as eleições de outubro. O percentual da população que considera o governo de Dilma Rousseff "ótimo" ou "bom" subiu de 38% em setembro para 40% em dezembro. Com relação aos que consideram o governo "regular", a pesquisa indica queda de 1%, mesmo índice para os que em setembro avaliavam-no como "ruim".
 
Mais expressivos em favor da presidente reeleita são os números que indicam a confiança dos brasileiros em relação ao segundo mandato. Em setembro eram 45%, agora são 51% os que acreditam que Dilma Rousseff fará um bom governo. Na mesma proporção, seis pontos, caem os números dos que não confiam na presidente. Em setembro, eram 50%, em dezembro somam 44%.
 
Seguindo a mesma tendência de crescimento positivo, 43% dos entrevistados afirmam que o segundo mandato de Dilma Rousseff será "ótimo" ou "bom", contra 25% que dizem que será "regular" e 13% "ruim". A pesquisa traz, ainda, significativa percepção de que a imprensa empenha-se em divulgar notícias desfavoráveis ao governo, passando de 32% para 44%. O resultado, pois, explica de modo convincente os números favoráveis à presidente  --  e serve para evidenciar uma posição mais consciente das pessoas ouvidas em face dos noticiários tendenciosos, nomeadamente no que tange aos casos de corrupção em empresas estatais, a exemplo da Petrobras.
 
Ao final de um ano de enormes dificuldades, assim, Dilma Rousseff parece ter assimilado a propalada capacidade do ex-presidente Lula de manter-se à margem de desgastes mais significativos, e aproxima-se do início do seu segundo mandato mais fortalecida diante dos ataques desferidos por uma oposição inconformada com o resultado das eleições de outubro. Inconformada e totalmente perdida, diga-se de passagem.
 
Para o gerente-executivo de pesquisa e competitividade do CNI (Confederação Nacional da Indústria), Renato da Fonseca, a pesquisa reafirma o nível de satisfação dos brasileiros em relação às ações do governo do PT no combate à fome e à pobreza, fatores decisivos para a recuperação da credibilidade da presidente desde as manifestações de novembro.
 
Com pelo menos dois anos de antecedência, o que salta aos olhos dos críticos mais atentos é que já se pode pensar, sem precipitação, que uma volta de Lula em 2018 vai se configurando como uma possibilidade concreta. Para a angústia de Aécio e cia., tenho dito.

Para jamais esquecer

Na desafiadora tarefa de escolher filmes imperdíveis para apresentar a alunos, em curso de história do cinema que ministro desde esta semana no IFCE, deparo com o belíssimo Rainha Cristina, de Rouben Mamoulian. O filme, de 1933, tem Greta Garbo no papel principal, e há quem considere esse o momento paroxístico de sua carreira. Está brilhante, é verdade, protagonizando uma das cenas mais belas da sétima arte em todos os tempos: acontece no final da película, quando Cristina (1626-1689), a revolucionária rainha da Suécia, perde o amante Don Antônio em duelo.
 
Sozinha, na proa de um navio que transporta o cadáver do homem amado, Cristina alonga o olhar para o horizonte, numa expressão de amargura e saudade que beira a perfeição em termos estéticos. O espetáculo do plano, como se denomina em cinema a imagem contínua entre dois cortes, cresce na medida em que a câmera se desloca com suavidade até enquadrar o rosto de Garbo num close "belo de doer". É algo inesquecível.
 
Não à toa, este plano tem sido objeto de teses em cursos de cinema através dos tempos. É impossível, com palavras, descrever o  que é esse olhar com exatidão. É que nem um sorriso de Mona Lisa, quase indecifrável, hipnótico, projetado para o nada, como que para dentro do coração ferido de Garbo. A propósito, certa vez a atriz revelou como Rouben Mamoulian a dirigiu durante a filmagem: - "Não pense em nada, disse ele. Fique vazia, vislumbre o vazio dentro de você."
 
É isto. A perda da pessoa amada, sabemos,  nega para aqueles que amam todos os significados. Talvez seja mesmo esse vazio absoluto o que parece queimar, o que arde por dentro como um ácido, esse quase morrer para cuja sensação não se tem palavras. Nada capaz de dizer o que se passa nas profundezas da alma.
 
A arte, só a arte, para definir o que não tem definição. Por isso, do olhar de Greta Garbo no final do filme de Mamoulian, explode, não o que se pode dizer com palavras sobre a dor de quem perde a coisa amada, mas o "contágio" dessa dor para a qual não existem palavras. O espectador, ali, diante da beleza em estado puro, pode dimensionar, ainda que por instantes, o tamanho do vazio em que se afoga a personagem ao saber da morte do homem amado.
 
A força da cena é tamanha, que quase ninguém se lembra de outra do mesmo filme, não menos sublime. Ocorre lá pela metade da história, e atrevo-me a dizê-la de memória. Cristina dormira com Don Antônio numa estalagem longínqua, naquela que seria a primeira e última vez. De manhã, pouco antes de partirem por caminhos opostos, ele depara com Cristina afagando a parede do quarto. "O que há?", quer saber , ao que ela responde: "Estou querendo gravar no fundo dos olhos a imagem do lugar em que nos amamos pela primeira vez!" Coisas do amor. E do cinema, para jamais esquecer.
 
 
 
 
            
            
           

Entre um vinho e outro

Noite dessas, entre um vinho e outro, hóspedes de Ticiana Fiuza, na aprazível casa da Taíba, Cesar Rossas e eu, como é praxe, nos dedicamos a um dos nossos programas favoritos: discutir cinema e recordar cenas inesquecíveis de clássicos da sétima arte.
 
 Vira e mexe, natural, a discussão fica acalorada e nos divertimos muito com impagáveis polêmicas, que dão sempre, é óbvio, em sonoras gargalhadas. A uma dada altura, vem à tona Tim Maia, Não Há Nada Igual, a cinebiografia de Mauro Lima plasmada no livro Vale Tudo, o Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Mota.
 
Numa coisa concordamos: o filme de Mauro Lima, que já nos brindara com Meu nome não é Johnny, convence, mesmo para os parâmetros do 'grande' cinema americano e europeu. Com um rigor técnico notável e uma construção narrativa bem estruturada, Tim Maia conta a história de um dos mais carismáticos artistas brasileiros desde a infância pobre até sua morte aos 55 anos de idade. Sem esquecer, claro, sua marcante passagem pelos Estados Unidos, onde, além de aprender um inglês escorreito, aprimorou seus privilegiados recursos vocais.
 
Mas o faz, para o que considero em certa medida redundante, explorando sobremodo o lado tortuoso do caráter de Sebastião Rodrigues Maia, não dando voz, literalmente, ao artista extraordinário que seus admiradores por certo gostariam de ver num ou noutro momento do filme. A sensação que resulta disso, para o espectador mais atento, é a de que o diretor da cinebiografia de Tim Maia, decorridos 16 anos da morte do cantor, se preocupou em tornar o filme mais atraente para o grande público  --  bilheteria, numa palavra. Sem comprometer, como dissemos, a qualidade da produção em seus 140 minutos de duração.
 
O fato, contudo, ainda mais se evidencia quando se sabe que o filme tem muito de ficção, como o próprio diretor afirmou em entrevista recente. Desse modo, pouco mostra da genialidade de Tim Maia, que transita, como se sabe, com a mesma segurança e originalidade do romântico pop ao mais refinado soul à Little Richardson e Chuck Berry.
 
Se o desafio seria maior para as limitações de Babu Santana, que interpreta o Tim Maia dos anos 70, em nada empobreceria o seu belo filme se Mauro Lima lançasse mão de documentos em que o próprio cantor usa e abusa de sua poderosa voz. Em tempo, é elogiável como Santana conseguiu elaborar bem a personagem, mimetizando à perfeição a malemolência e os trejeitos de Tim Maia.
 
Tim Maia, Não Há Nada Igual, em linhas gerais é um filme excelente, e guarda momentos memoráveis da biografia do irreverente Tim, mesmo quando, num golpe arriscado, abre espaço demasiado amplo para figuras marginais do núcleo dramático central do filme, como nos parece ser o caso do cantor Roberto Carlos. São demoradas (e recorrentes) as sequências em que o Rei como que toma conta da história, o que, em mais um aspecto, denuncia a ligeira vocação comercial do filme de Mauro Lima.
 
 

O meu irmão alemão

Virei há pouco sua última página. Esplêndido, O meu irmão alemão, romance recém-lançado de Chico Buarque de Hollanda, coloca o multiartista, em definitivo, entre os maiores (senão o maior) escritores brasileiros contemporâneos. O livro é absolutamente sedutor desde o início, quando o narrador tece as primeiras armadilhas de um enredo que oscila a cada página entre a realidade e a ficção, a memória biográfica e a fantasia. A partir daí, o inevitável  --  deixamo-nos arrastar pela curiosa história de Sérgio Ernst, o meio-irmão de Chico Buarque, nascido de um affair do pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, com uma alemã durante o tempo passado em Berlim de 1029 a 1930/31. O ponto de vista, no entanto, é do próprio Chico, que soubera da existência do irmão quando já contava 22 anos, supostamente pela boca de Manuel Bandeira.
 
Bem na linha do que propõe a arte "moderna", cuja marca mais relevante foi romper o processo ilusionista em favor da materialidade da obra, o romance se sustenta nas belíssimas intervenções do autor em meio ao desenrolar da fábula em que sobressai a figura de Enst, o irmão que Chico Buarque, efetivamente, nunca encontrou. Como numa tela de Velásquez (lembro-me, aqui, de As meninas) ou num filme de Godard, o livro ostenta o seu suporte estético a cada página, a cada parágrafo, denunciando-se como matéria vinda da imaginação de um homem para quem a barreira que separa o real do fictício é coisa muitíssimo delicada. Mesmo para o leitor mais atento, assim, é difícil definir o que se torna mais admirável, a estória ou a história, o plausível ou o ilusório. Tudo é absolutamente fascinante na forma como Chico Buarque se propôs (e soube com maestria) construir o romance.
 
À página 178, quando a voz narrativa se volta para Sérgio Buarque, havia pouco falecido, é uma frase de Victor Hugo que parece ressaltar do livro aquilo que lhe é essencial: "A vida não passa de uma longa perda de tudo que amamos!" E esse sentimento de perda pontua todo o desenvolvimento da história, esboçando uma saudade que se expressa, ao mesmo e um só tempo, com a dureza da realidade e a leveza do sonho. Percebe-se, desse modo, um cruzamento de muitas pequenas narrativas que se somam na totalidade do romance, mas que, algumas vezes, saltam aos olhos do leitor mais atento como algo que se pode ler separadamente. Exemplo disso está entre o início da página 24, terceiro capítulo, e o final do primeiro parágrafo da página 31, quando o autor narra um encontro hilário entre ele e dois amigos numa cervejaria frequentada por alemães. Nesse trecho, e noutros ao longo da narrativa, depara-se com um conto dentro do romance, com começo, meio e fim.
 
Mas, em meio a tantas e tantas qualidades de técnica e de estilo, uma sobressai na prosa de ficção de Chico Buarque de Hollanda (observada desde Estorvo, sobremodo), o que aos pouco vai constituindo uma característica de um romancista antes de tudo extremamente original. Refiro-me à força expressiva de suas descrições, capazes de transmitir ao leitor a visualização do que ocorre à personagem em suas mínimas ações, gestos, movimentos etc., bem como do ambiente que serve de cenário a cada cena do livro: "Começou a me incomodar que nem quadro torto na parede, começou a me dar nos nervos uma lacuna acintosa na penúltima prateleira. Olha ali, falei para Maria Helena, que olhou para trás e não viu nada de mais. E afinal não era mesmo nada grave, apenas um livro que fora retirado havia pouco, dentre dois volumes que agora se tocavam no topo e não na base, como dois amigos que se beijam sem se abraçar".
 
Numa busca obsessiva do irmão, Chico de Hollander (é como se chama no livro), ou Ciccio, transita entre ângulos possíveis de uma irrealidade que enche de poesia e sortilégio este belo exemplo de romance moderno com que nos brinda o gênio Francisco Buarque de Hollanda. E que pode vir a se tornar o livro de sua vida, como homem e como escritor.
 
 
 
 
 

Reavaliar certezas e convicções

De um amigo vem o elogio incontido à revista Veja pelo fato de liderar número de vendas no país. A mensagem, que envia pelo facebook, não se tratasse de um entusiasmo subjetivo, direito sagrado de cada um, não apenas em termos de escolhas de leitura, e que dá a ver o que se considera nos meios acadêmicos uma visão ingênua, bem na perspectiva do que examina Umberto Eco, o semioticista italiano, constitui, todavia, um tipo salutar de provocação, o que justifica o conteúdo da coluna de hoje. Vamos lá.
 
O fato de liderar demanda de leitores, querido amigo, não diz da qualidade de revistas e jornais. Antes pelo contrário, serve acima de tudo para evidenciar o perigo que algumas dessas publicações representam para o interesses mais legítimos das pessoas, pelo menos em ângulos possíveis de percepção do que é realmente importante para a maioria delas. Refiro-me ao conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e necessidades semelhantes, história e tradições comuns, que, na falta de novidades linguísticas, ainda chamamos de povo.
 
O texto jornalístico (as tais matérias que asseguram aos leitores as informações, como afirma), enquanto discurso construído, na linha do que professam os pós-estruturalistas a que faço, sob alguns aspectos, as minhas restrições (Foucault, Derrida, Deleuze etc.), tem por objetivo produzir determinados sentidos. Legitimar o ideário da ditadura, fortalecer os interesses da direita mais reacionária, manipular a divulgação dos fatos (e os fatos!), por exemplo, são sentidos e intencionalidades possíveis, bem na linha do que faz à perfeição a revista ora exaltada pelo amigo.
 
O texto jornalístico, insisto, desde a sua produção, ainda sob o burburinho de qualquer redação (refiro-me ao ambiente dedicado à escritura das matérias de jornais e revistas), seleciona maneiras de encaminhar o leitor, de conduzi-lo para interpretações condizentes com o que interessa a gregos ou troianos, formando opinião acerca da "realidade", com o intuito de obter dividendos de naturezas as mais diversas. Vou mais longe, de construir pelo uso inconfessável das potencialidades da linguagem a própria "realidade".  Para ficar mais claro, pergunto-lhe, amigo, o que é a realidade? Como a percebemos? De que modo a "informação" de uma revista como a Veja é capaz de revelar o real, objeto do seu entusiasmo com o fato de ser ela a revista mais vendida no país?
 
Ocorre-me lembrar de um filme maravilhoso a que assisti faz muito tempo, e que se chama O enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog (1974). Não vou contá-lo, atitude condenável para qualquer cinéfilo, mas recomendo-o ao amigo e leitores desta coluna, pela forma como o filme discute emblematicamente bem, à luz do que importa no campo das Ciências Humanas, as relações entre linguagem, percepção, conhecimento e realidade.
 
É possível que ao seus olhos, amigo, as matérias "informativas" da referida revista Veja não traduzam se não a mais pura realidade, este mundão estável e inalterável de sons, cores, formas, espaços e movimentos. É possível que jamais se lhe torne plausível compreender que, em verdade, tudo isso não passe de uma ilusão construída pelo discurso editorial de uma publicação que esteve, sempre, empenhado em fortalecer a lógica do capital e dos que dele se beneficiam muitas vezes de forma indecente.
 
A essa altura, meu caro, cabe perguntar: até que ponto essa "informações" condizem com a realidade extralinguística? Não é preciso ir ao encontro de teorias as mais diversas, no território da ciência da linguagem, da semiologia, da antropologia, da análise do discurso, da filosofia, para perceber o que pretende o jornalismo da revista Veja,  e de jornais e tevês que estão à frente em termos de vendagem e prestígio no Brasil de hoje. É bastante, quem sabe, ficar mais atento a fim de reavaliar certezas e convicções, abrindo os olhos para o que repousa, no silêncio das entrelinhas, como arma de construção de falsas "realidades".
 
Abraço forte!
 
 
 
 
           

Doa a quem doer

Quando vejo a sanha do mercado financeiro se voltar contra o governo da presidente Dilma, ocorre-me lembrar de uma cena maravilhosa de Luzes da Cidade, o filme sublime de Charlie Chaplin. Está logo no início da película, na inauguração de um monumento em que a figura feminina representa a Paz e a Prosperidade. Concluídos os discursos, que Chaplin ridiculariza à perfeição, aos reproduzi-los como meros ruídos (bem no estilo dos blablabás da mais desavergonhada oposição de que se tem notícia na história recente do país), descerra-se a estátua e o que se vê é hilariante: um mendigo dorme a sono solto no colo da tal Prosperidade.
 
A cena, que entraria para a história do cinema, é uma das mais felizes críticas de Chaplin aos valores por que se norteia a lógica do capitalismo. O que vem na sequência da narrativa é ainda mais engraçado, não fosse trágica a realidade que metaforiza. Quando a banda executa o hino dos Estados Unidos, espírito máximo do capital, Carlitos vai se envolver com uma série de trapalhadas que visam, mesmo ao espectador mais desatento, expor ao ridículo as contradições de um modelo de desenvolvimento que submete uns à miséria em favor dos privilégios de outros. Ao tentar descer do monumento, sob a ameaça da força policial que se empenha em restabelecer a "ordem" em benefício do "progresso", a personagem tem o fundo das calças rasgado pela espada de uma outra figura da escultura. É esplêndido.
 
Entre as muitas camadas de sentido do filme, que se estendem do cômico ao mais belo romantismo, pois o filme tem como eixo central o amor de um vagabundo por uma moça cega, Luzes da Cidade vai tecendo, com a sensibilidade de Charlie Chaplin, as malhas de contrastes e equívocos, inversão de valores, hipocrisia e desfaçatez que escondem as contradições da sociedade, a luta de classes e a perversidade de um mundo em que o ter vale mais que o ser  --  e um dos mais preciosos bens do homem, a liberdade de escolher, é confundida com a ignorância.
 
É impagável o sarcasmo com que Chaplin demarca, em Luzes da Cidade, os espaços e lugares sociais ocupados por Carlitos e o milionário. Embriagado, este abraça o mendigo como a um amigo querido, mas sóbrio o ignora e o põe da porta para fora, humilhado e esquecido.
 
Como afirma sobre este filme inesquecível um renomado crítico, nele os sentidos se confundem. A moça cega e o milionário embriagado vivem trocando as bolas. As luzes da cidade, felizmente, apagam todas as distinções e deixam o Vagabundo (o povo, acrescento eu!) ser o que a sua imaginação desejar. À luz da democracia, escolher será sempre um direito sagrado. Doa a quem doer.
 

Orgulho e preconceito

Mal "fechadas" as urnas, e a onda de insatisfação explodiu Brasil afora. Gente que votou em Aécio, claro, e que não se conforma com o fato de o PT ter garantido, pelo voto democrático, mais quatro anos no poder. Vitória apertada, é verdade, que o elemento "bombástico", a que me referi na coluna de sábado, aconteceu (a matéria sórdida da Veja), embora não tendo sido capaz de reverter o que previra em Não ao ódio e à intolerância.
 
Desde então, as redes sociais e alguns dos nossos mais prestigiosos jornais, para não falar da Globo, exorbitam matérias as mais odientas contra o resultado da eleição. Mas há,felizmente, gente que sabe dignificar o ato de escrever, a exemplo de Luiz Fernando Viana, cujo texto, Orgulho e Preconceito, teve repercussão nos quatro cantos do país, e que tomo a liberdade de reproduzir no espaço da minha coluna de hoje. Bom proveito!
 
RIO DE JANEIRO - Tratado como pornográfico e pervertido, Nelson Rodrigues alegava que era preciso mostrar no palco nossos "pântanos íntimos". Exorcizando-os no teatro, conseguiríamos a civilidade fora dele.
As reações ao resultado da disputa presidencial mostram que estas eleições cumpriram um objetivo rodriguiano: trouxeram à luz os pensamentos mais sombrios.
 
É pedagógico ver os abastados vociferando contra os "pobres", os "ignorantes", os "vagabundos". Quem já tinha perdido qualquer esperança no PT pôde constatar que as mudanças dos últimos 12 anos foram significativas.
 
Quando pessoas tiram suas imbecilidades do recato recomendável e gritam que estamos numa "ditadura", que o PT é "terrorista" e que os iluministas paulistas --que já elegeram Maluf, Pitta, Quércia, Fleury e sofrem com a seca-- devem ser separados dos "atrasados" nordestinos, cujo PIB cresce mais do que os das outras regiões (2,55% no segundo trimestre ante queda nacional de 0,6%), algo se revela.
 
Domésticas têm carteira assinada; jovens negros entram na universidade e disputam os empregos; aeroportos estão cheios. O país do quartinho de empregada está enfraquecido. Há quem não se conforme.
 
O "país dividido", mais um clichê no rol da imprensa, não surgiu agora, mas há uns cinco séculos. Está é ficando mais nítido. Ainda bem. Galvão Bueno e o coração brasileiro batendo ao som do Olodum não existem. A Família Scolari tomou de 7.
 
É pena que alguns colunistas disseminem o preconceito. Insinuaram até que eleitores de Marina e Dilma poderiam não saber usar a urna eletrônica. Entrevistam poucos bípedes, mas conversam muito com o "mercado". As Marias Antonietas estão perdendo a cabeça, e o povo já anda comendo brioches. Que assim continue, apesar da crise econômica no Sudeste. 
                           

 
      

Não ao ódio e à intolerância

Premido pelo horário de fechamento da edição do jornal, escrevo esta coluna horas antes do último debate entre os candidatos a presidente. Corro o risco, por isso, de errar em alguma previsão pessoal do que será a eleição de domingo 26. Na hipótese de não ocorrer um fato bombástico, Dilma deve se reeleger com uma diferença em torno de 10% dos votos válidos. Considerando-se que se trata da mais disputada das eleições, pelo menos desde a redemocratização do país, urge tentar identificar o que, em tese, pode explicar a reviravolta em favor da candidata do PT. Antes, no entanto, miremos aspectos relevantes do que dizem os números dos principais institutos de pesquisa nos levantamentos dessa sexta-feira.
 
Aécio cai entre os eleitores das classes alta e média alta. Tinha 74% e 67% das intenções de voto, agora são 64% e 58%, respectivamente. Não é uma perda pequena, uma vez que nesses segmentos sociais encontram-se 30% do total de eleitores, o que representa para o candidato do PSDB uma perda de 2 dos 4 pontos de sua queda, por exemplo, na pesquisa do Datafolha. O tucano desliza para baixo, ainda, entre os mais ricos: tinha 21, agora são 19 pontos. Soma 14% entre os eleitores de condição financeira intermediária e 14% nos de renda mais baixa.
 
Segundo o Datafolha, isso indica que se Aécio tinha mais votos entre os pobres que Dilma entre os ricos, o que lhe assegurava a dianteira de duas semanas atrás, a situação agora se inverteu em favor de Dilma Rousseff. Nos três níveis do estrato (classe média alta, intermediária e média baixa) a candidata do PT soma, agora, 12, 17 e 24 pontos, respectivamente.
 
Esses resultados, mais a sua expressiva vantagem nas classes C e D, dão à Dilma Rousseff 53% das intenções de voto, contra 47% de Aécio Neves. Essa diferença, sabe-se, é maior segundo os números do Ibope, que dá à candidata à reeleição uma dianteira de 8 pontos. A menos de 48 horas da votação, momento em que produzo a coluna de hoje, reforço, ouso arriscar que Dilma Rousseff será reeleita nesse domingo 26.
 
Não desprezando o que é de fato mais relevante para a mudança de cenário, economia relativamente estável (só os economistas da pior imprensa dos países em desenvolvimento ou desenvolvidos insistem em negar), menor índice de desemprego em 12 anos, inflação sob controle, níveis de satisfação dos brasileiros em alta, programas vitoriosos de combate à desigualdade social, projeto de futuro mais exequível etc., sem contraditórios que mereçam um mínimo de credibilidade, na linha do que tem procurado fazer Aécio Neves, outros fatores não deixam de contar como explicação para a realidade eleitoral do país na reta de chegada. Vamos a eles.
 
- "Dilma!, vá tomar no c...!" (Expressivo número de ricos paulistas, no estádio do Corinthians, referindo-se à uma mulher, e presidente da República)
- "Fora Dilma. E leve o PT junto" (Adesivo odiento disputado entre os riquinhos de grandes cidades brasileiras, Fortaleza, por exemplo)
- "Gente que vota em Dilma porque pobres e desinformados!" (FHC, em entrevista à Folha de S. Paulo)
- "Por que não ocorre uma guerra ou o vírus do ebola não acaba com esses mortos de fome nordestinos?" (Mote paulista recorrente entre os militantes do PSDB nas redes sociais)
- "Candidata, a senhora é leviana, mentirosa!" (Aécio Neves, dirigindo-se a Dilma Rousseff em debate na BAND)
- "Vamos acabar com o PT e sua corja!" (Grito de guerra de militantes do PSDB Brasil afora)
 
Esses e outros fatos, que servem para evidenciar a truculência, a falta de discernimento político, de conteúdo ideológico, de tolerância com as diferenças, de compreensão dos valores fundamentais da existência humana, de densidade propositiva, de incapacidade para reconhecer avanços e conquistas etc., em alguma medida, explicam o que se confirmará amanhã. O não ao ódio e à intolerância vencerá.
 
 
 
           

Carta a um reacionário

 

Senhor sociólogo FHC,

 

A exemplo de um país inteiro, pasmei diante de suas últimas declarações à imprensa brasileira sobre os eleitores de Dilma Rousseff, as quais, conclusivamente, tomo a liberdade de reproduzir aqui: - "... votam na Dilma porque desinformados".

Não, senhor FHC... o senhor está redonda e levianamente enganado.  Voto em Dilma Rousseff, a exemplo do que afirma um dos "desinformados" que o senhor conhece muito bem, Chico Buarque de Holanda, para não falar de Marilena Chauí, Ziraldo, Leonardo Boff, Luís Fernando Verissimo, entre outros, porque sei do passado dessa mulher valente e íntegra, que, diferentemente do senhor, à época militante da esquerda, não escapou do Brasil, na calada da noite, para um exílio confortável no Chile, regado a vinhos finos e caviar importado da Rússia.

Não, senhor sociólogo. Voto na Dilma porque admiro a dignidade com que suportou os maus-tratos físicos e psicológicos a que foi submetida pela ditadura militar, enquanto o senhor, refugiado no país amigo, refestelava-se entre intelectuais, livros e discos.

Voto em Dilma porque não me faltam olhos para ver os milhões de brasileiros, historicamente relegados ao submundo de sua miséria, que têm hoje comida na mesa, filhos no colégio ou na universidade, que frequentam shoppings, vão ao cinema, a restaurantes com seus familiares nos fins de semana, que viajam de avião, que se vestem dignamente, que podem comprar o seu carrinho e pagá-lo sem atraso, porque sabem que não ficarão desempregados da noite para o dia, como era comum no seu governo como presidente da República.

Votamos em Dilma porque queremos ver esclarecidos, independentemente de partido, os ilícitos da Petrobras (lembra que o senhor defendia a sua privatização e até o nome da empresa propôs mudar?) em que o seu partido, o PSDB, sabe-se agora, está envolvido, conforme assevera o delator Paulo Roberto Costa. Mas não é isso, apenas, senhor FHC, queremos o mesmo em relação aos escândalos do Sivam, do cartel do Metrô de São Paulo, do Mensalão Mineiro, da Privataria Tucana, do caso TELEBRAS, da Compra de Votos para a sua reeleição, dos aeroportos de Claudio e Montezuma e outros tantos que a Justiça, acumpliciada com o senhor e seus apaniguados, empurrou para debaixo do tapete.

Não sociólogo FHC, não votamos em Dilma Rousseff pelas razões que o senhor alega. Muitos dos "desinformados" a que o senhor se refere, em mais um lampejo incontido de sua vaidade empedernida, cursamos a universidade, lemos a fundo seus escritos, em cujas ideias acreditávamos e nos espelhamos um dia, na linha do que professa no seu Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridicional, onde propõe a compreensão do processo de formação e desagregação da sociedade escravocrata a partir da realidade do negro no país; as mesmas ideias, lamentavelmente, que, algum tempo depois, para a nossa decepção, o senhor pediu que fossem esquecidas.

Votamos em Dilma, senhor ex-presidente, porque não nos identificamos, sob qualquer aspecto, com os valores e as práticas dos 5% da população brasileira que o seu candidato Aécio Neves representa à perfeição, esteja sóbrio ou não. Refiro-me àqueles que, na falta de uma terminologia mais precisa, são chamados hoje de ultra-ricos, que se beneficiaram às escancaras do seu governo excludente e concentrador.

Votamos na Dilma, não porque somos "desinformados", como o senhor desavergonhadamente afirma; mas porque nunca nos esquecemos da crise econômica e moral a que o senhor conduziu o país, elevando as taxas de juros a níveis históricos, bem como o desemprego e a inflação; porque ainda guardamos na memória a crise do apagão e a compra de votos no Congresso Nacional etc. etc.

Não, senhor FHC, não é a falta de escolaridade que rouba do homem a capacidade de se indignar com a mentira, a desfaçatez, o oportunismo cínico, a ganância de parte significativa do empresariado brasileiro, a serviço de cujos interesses, no governo ou fora dele, o senhor tem dedicado o seu tempo como político e como intelectual.

Voto na Dilma porque me enche de orgulho ver que o meu país não capitula mais, como era costume durante o seu governo, diante dos Estados Unidos e de suas sórdidas manobras para manter sob o seu domínio humilhante os países da América Latina.

Por último, senhor FHC, porque exulto ao saber que hoje temos voz altiva em termos de políticas mundiais,  por saber que fomos alçados à posição de país desenvolvido nesses 12 anos de governo do PT; porque é bom saber que o senhor, que tanto sabe em termos acadêmicos, enrubesce de inveja de um homem do povo, como Lula; por poder contemplar o riso solto dos humilhados e ofendidos de outrora, tempos a que o senhor, pelos métodos mais inconfessáveis, com a sua megalomania cafona, sonha reconduzir o país.

 

 

 

 

Os dois brasis e a sucessão

O segundo turno da sucessão presidencial, mais que a virada de Aécio Neves, agora à frente de Dilma Rousseff, aponta para uma evidência extemporânea: o país, pelo menos em termos eleitorais, está cada vez mais dividido entre ricos e pobres. O fenômeno, que parece se confirmar a partir do que está detalhado no resultado do Datafolha, divulgado na quinta-feira 9, enseja o ressurgimento de uma terminologia cara a uma teoria sob muitos aspectos superada, o marxismo, segundo a qual a história da sociedade é a história da luta de classes. Simplificações à parte, vamos ao que diz a pesquisa.
 
O candidato do PSDB aparece em expressiva vantagem nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, onde a concentração da renda é mais acentuada. Se as duas últimas dispensam maiores comentários, em face dos PIBs que detêm, o Centro-Oeste surpreende com mais do dobro de seus eleitores situados nas classes alta e média quando comparada ao Nordeste, especificamente, onde metade da população é composta de excluídos ou pertencentes à classe média baixa.
 
Dos chamados votos válidos, que excluem nulos e brancos, 74% dos que declaram votar em Aécio Neves estão situados na classe alta, e 67% entre os da média alta. Esses percentuais, somados, constituem 21 pontos do total de intenções de voto para o candidato tucano, contra 10 pontos da candidata Dilma Rousseff, que arrebanha 64% de apoio entre os excluídos, mais 58% entre os pertencentes à classe média baixa, ou seja, 38% do total de eleitores.
 
Mais curioso, ainda, é o fato de que, entre os eleitores pertencentes à classe média intermediária, aquela que mais cresceu nos 12 anos de governo do PT, Aécio e Dilma aparecem praticamente empatados, 15 pontos para o tucano e 16 para a atual presidente. Não é muito dizer que estão situados nesse estrato aqueles que melhoraram de vida mas não conseguiram com isso se desvincular dos interesses da classe dominante, isto é, em termos eleitorais, colocam-se a serviço de propostas de governo que apenas tendem a aumentar as diferenças de que, em alguma medida, serão eles mesmos vítimas.
 
A sucessão presidencial, assim, configura uma nítida separação socioeconômica, o que justifica a previsão de que o Nordeste, em se confirmando uma vitória do candidato Aécio Neves, amargará tempos difíceis, principalmente à altura de uma História em que não se usam mais coroas nem existem brilhantes a ser vendidos, conforme pretensão de conhecido imperador.
 
A concluir pelo que apontam as evidências, na contramão do que fez o governo do PT nos últimos anos, e que fundamentalmente o distingue do governo de FHC, posto que nunca em tempo algum tantos benefícios foram proporcionados à região, com redução dos índices de miséria e elevação das condições reais de vida, nem mesmo os empresários nordestinos terão o que festejar no caso de uma vitória de Aécio Neves. Ou se pode negar que os olhares 'presidenciais' se voltarão, mais do que nunca, para os interesses do Brasil rico em detrimento do Brasil pobre? As bolsas de valores que o digam.
 
 
 

A pouco, muito pouco

Meus Deus, só me lembro de vós para pedir, mas de qualquer modo é uma lembrança.
(Carlos Drummond de Andrade)
 
Os brasileiros podem decidir amanhã o destino do país para os próximos quatro anos. Está em jogo a possibilidade de garantia das conquistas sociais de um governo reconhecidamente voltado para os menos favorecidos. Ou, na hipótese de um segundo turno, o risco de um retrocesso, no caso de Aécio ser o segundo mais bem votado, ou, se Marina, dar um salto no escuro, doando-se às incertezas de um governo sem qualquer identidade programática. Para não falar do elitismo gerencial que é mesmo a única clara vocação de um e outro, candidatos comprometidos com os interesses do capital.
 
As pesquisas de opinião, todavia, indicam a probabilidade de uma vitória de Dilma Rousseff já nesse domingo, uma vez que a candidata do PT aparece nos levantamentos dos dois principais institutos, Datafolha e Ibope, com algo em torno de 47% dos votos válidos (descontados brancos e nulos), ou seja, a soma de todos os demais candidatos mais 1. Seria a primeira vitória do PT no primeiro turno, o que ainda mais constituiria prova irrecusável de que os brasileiros mostram-se satisfeitos com o país que temos hoje.
 
Afasto desse juízo, é óbvio, aquela fatia da população insatisfeita com o fato de que os pobres tenham passado a frequentar espaços antes reservados aos endinheirados; porque as empregadas domésticas reclamam por salários mais dignos, pelo direito à folga semanal e pelo gozo remunerado de suas férias anuais; por que os "desiguais" transitam por shoppings e aeroportos, com roupas da moda e tênis de marca; por que ocupam as ruas das cidades com seus carros populares, agora um bem acessível a pessoas de poder aquisitivo menor etc., etc.
 
Refiro-me àqueles que exultam com a realidade de um Brasil mais justo e mais livre; aos que conseguem sintonia entre o discurso e a prática; aos que rezam por um Deus mais justo para todos, e que não estão de olhos fechados para as tantas e tantas conquistas de um povo historicamente espezinhado, sem moradia, sem assistência médica, sem escola, sem direito à mesa farta e a uma vida digna etc., etc.
 
Não me refiro, claro, àqueles que só vislumbram uma saída para o Brasil de agora, o Brasil dos humilhados e ofendidos de outros tempos: derrotar o PT e voltar ao que fomos antes. Esses, sabemos, sempre tiveram  --  e terão sempre!  -- bem nítidas suas vontades, a garantia de seus privilégios, suas regalias. Esses, não suportam, enrubescem mesmo de raiva, alimentam o mais descomedido ódio contra a realidade que seus olhos veem. E que não aceitam, mas que poderá ser confirmada amanhã.
 
 
 
 
 
 

Olhares de Piracicaba

Curiosamente, numa coincidência geográfica digna de nota, são de Piracicaba, SP, as duas declarações sobre política que mais me chamaram a atenção durante a semana. Dois discursos, dois olhares. 
 
O primeira deles, assinado pelo senhor Antônio Roberto de Godoi, teve espaço numa revista semanal de prestígio, e tomo a liberdade de transcrever aqui, na íntegra, seu conteúdo:
 
"Em 2002, no fim do governo de oito anos do PSDB, a Petrobrás tinha valor de mercado de 15 bilhões de dólares. Atualmente, vale 107 bilhões (sete vezes mais). Especulador que ganhou com a bolha da energia roga praga agora. Mas ganharam muito e não deveriam chorar de barriga cheia. Com o propósito de atingir a maior empresa do País, o vazamento seletivo de 'informações sigilosas' tem finalidade clara de corrosão da verdade com uso político para determinados grupos. Privar propositalmente da verdade a sociedade brasileira e deixar que uma única revista interprete a seus interesses as informações é repugnante".
 
A revista a que se refere Godoi, percebe-se, é a Veja, cujas leviandades resultaram anteontem na conquista do direito de resposta do PT, em página inteira, como noticia na edição de hoje, 25 de setembro, o jornal Folha de S. Paulo.
 
O segundo, contaminado pelo ódio ao PT e aos petistas, afirma: "O Lula só nos enche de orgulho! Esse partido e seus membros foram a pior coisa que já aconteceu a esse país. Devia estar mofando na cadeia, ele e sua corja" (sic).
 
São palavras proferidas, neste caso, por um talentoso fotógrafo do jornal Gazeta de Piracicaba, Christiano Dehl, por quem, aliás, nutro mais que um sentimento de simples amizade, pois o tenho no escaninho do coração em que se encontram algumas das pessoas mais queridas.  
 
Li isso e fiquei a pensar com os meus botões: O que pode a linguagem, que permite a filhos de um mesmo chão, no caso a simpática e poética Piracicaba, sobre a mesma "realidade", deitar raízes em sentimentos ao mesmo tempo tão "convictos" e contrários em sua essência e suas intenções. Fui mais longe: Como é de alguma forma positivo que ela [a linguagem] se torne um instrumento livre para o conflito aberto de interesses e motivações! Mas é preciso cuidado.
 
A linguagem, como observou Hielmslev, é mesmo uma forma de o homem agir no mundo, de tomar partidos, de fazer escolhas e de justificá-las com os seus próprios instrumentos [dela, a linguagem], de tentar influenciar os outros, de estabelecer identidades, de exprimir sentimentos e emoções, a exemplo dos dois piracicabanos, mas, (in)felizmente, a linguagem é também capaz de criar falsas realidades, de vender "verdades", de deliberar condenações, o sabemos desde Platão.
 
Se, no primeiro caso, o discurso se constrói sobre bases racionais, uma vez que seu autor fornece dados que dão pertinência a suas afirmações (e a condenação da Veja, por unanimidade dos ministros do Superior Tribunal Eleitoral, parece confirmar), no segundo nasce de uma emoção, apenas, e, como ocorre quase sempre no caso dos discursos construídos sobre e sob a emoção, ressente-se de uma argumentação objetiva, advém de um mero exercício de subjetivação que mais o invalida que convence sobre qualquer aspecto.
 
Como afirmou esta semana o respeitável jornalista Maurício Dias, acerca dessas "convicções" nascidas do mais explícito antipetismo, "da fonte do medo também brota o ódio". E ele nada de positivo constrói!
 
 
 
 

Menos imprevisível?

A elite brasileira, que nunca absorveu o fato de ter um governo popular à frente dos destinos do país, como no imaginário dos mais simples  --    parece viver, politicamente, o drama do cachorro que caiu do caminhão de mudanças: não sabe onde fica a casa velha, tampouco a nova.
 
É o que indica a nova pesquisa do Datafolha para presidente, em que o candidato Aécio Neves recupera dois por cento dos "votos" perdidos (supostamente) para a candidata Marina Silva. Ou seja, a turma do dinheiro volta em carneirada para o candidato do PSDB na esperança de levar o ex-governador de Minas Gerais para o segundo turno. Esquece que essa hipótese é tudo o que o PT sonha acontecer, uma vez que as chances de vitória de Dilma, com isso, aumentariam significativamente. Vejamos.
 
A vantagem de Dilma sobre Marina, agora, abre sete pontos, 37% a 30%, saindo nitidamente do que se poderia considerar um empate técnico. Na hipótese de um segundo turno entre as duas, a dianteira de Marina, que atingira em torno dos dez pontos, desce para dois, 46% a 44%, diferença que se pode considerar insignificante no ritmo em que os números têm mudado de uma pesquisa a outra.
 
Mas é o crescimento de Aécio que alimenta a utopia dessa faixa de eleitores. Somando 17%, hoje, contra os 15% da pesquisa anterior, o candidato tucano volta ao páreo da disputa para o primeiro turno, sobremaneira quando os números apontam aumento da rejeição à Marina Silva em ritmo vertiginoso. Em um mês, o percentual dos que dizem não votar na candidata do PSB dobrou de 11% para 22%, superando Aécio que é de 21%.
 
Em favor de Dilma, o fato de que nesta pesquisa ela lidera as intenções de voto em todas as regiões do país. Segundo o Datafolha, a candidata do PT assume a ponta no Nordeste, no Norte, no Centro-Oeste e no Sul, empatando tecnicamente no Sudeste, onde Marina vinha liderando com folga até coisa de vinte dias. Em Minas Gerais, Dilma vence Aécio e elege o seu candidato a governador, o que assusta o tucanato pelo que os números indicam contra as chances de Aécio Neves chegar ao segundo turno.
 
A queda de Marina Silva, que dá a ver o acalmar da onda desde a morte de Eduardo Campos, é evidente no eixo Rio-São Paulo, 4 pontos, entre as mulheres, 4, entre os católicos, 4, junto aos eleitores jovens, 6, e, mais preocupante ainda, nas cidades de porte médio (entre 200 e 500 mil habitantes), 5 pontos.
 
A elite brasileira, dizíamos, desnorteada entre o que considerava a cruz e a espada, escolher Dilma ou Marina Silva, nutre de novo a esperança de ir para o segundo turno contra o PT. Para perder outra vez, sabemos, no caso dessa hipótese se confirmar.
 
 
 
 
 
 

Por trás das palavras

Entre amigos, vem à tona o tema do racismo, outra vez colocado na agenda do melhor debate. Como das últimas vezes, o futebol é o palco de que emanam as provas contundentes de que, no Brasil, como nos Estados Unidos ou na Europa, homens e mulheres de cor são alvo da injúria racial e de racismo, que, se sabe, têm penas distintas, posto que se trata de dois tipos de crime.
 
O primeiro, previsto no art. 140, p. terceiro, do Código Penal, estabelece pena branda (três anos e cumprimento da condenação em regime aberto, em albergue domiciliar), caracteriza-se por ofensa pessoal, como ocorreu ao goleiro Aranha, do Santos, em Porto Alegre, há coisa de duas semanas. Para o segundo, tipificado como crime contra um número indeterminado de pessoas, estigmatizadas pela cor da pele, não há a prescrição, não cabe fiança nem liberdade sequer provisória. É cadeia.
 
Caprichos da Justiça, pois não se veem razões lógicas para tal distinção. Esperar que o ofendido manifeste sua indignação ante o menosprezo, sem o que nada ocorrerá ao ofensor, é contribuir para a manutenção de um problema que se arrasta através dos tempos e é, em tudo, inaceitável. Ambos os casos, injúria ou racismo, são crimes que afetam a dimensão humana de todos, independentemente de raça ou diferenças de qualquer natureza.
 
A discussão, como a dar consistência ao que afirmo acima, ganha novos contornos com as declarações, não raro infelizes, de um negro célebre, ninguém menos que o senhor Edson Arantes do Nascimento, para quem tais manifestações [de racismo] são compreensíveis nas circunstâncias de um jogo. Segundo Pelé, reportando-se aos insultos dirigidos ao goleiro Aranha, "quanto mais atenção se der a isso, mais vai aguçar."
 
Não é preciso muito esforço, como se vê, para concluir que a opinião de Pelé, sob o pretexto de "acalmar" o debate, materializa um racismo dissimulado, na medida em que expressa sua indiferença para com o preconceito de que são vítimas centenas de milhares de negros em todo o País. A declaração, pois, vinda de quem vem, contribui para o fortalecimento de um discurso odiento recorrentemente colocado à mesa sempre que se discute a questão racial: "O pior racista é o negro!"
 
No caso brasileiro, para maior vergonha, pois, o racismo impera nos quatro cantos do território nacional trazendo em suas entranhas outro juízo não menos condenável, o de que a posição social, proporcional à riqueza de cada um, é capaz de disfarçar diferenças de cor e outras diferenças mais.
 
Assim, mesmo nas conversas informais, o discurso se fortalece, subterrâneo, empenhado em ocultar intenções, posições de domínio, desvelando convicções, na linha do que examina em sua obra o filósofo Michel Foucault. Para o autor de As palavras e as coisas, "o discurso não é apenas aquilo que traduz as lutas, [...] mas aquilo pelo que se luta, o poder que se tenta possuir." Por trás das palavras, portanto, pulsa o preconceito que se diz combater.
           

A Esfinge pós-moderna

Não me aventuro a negar o óbvio, nunca o fiz. A coisa de um mês do primeiro turno, é inequívoco que a tendência indica uma probabilidade enorme de Marina Silva ser eleita presidente do Brasil. Vencendo Dilma no segundo, claro. Até aí, tudo bem. Faz parte do jogo democrático. O que me preocupa, como deveria preocupar a todos  --  inclusive a seu eleitores  --  é o que resultará disso. Não que feche os olhos para o que todos sabem: Marina tem uma história digna da admiração e do respeito de qualquer pessoa minimamente informada sobre as lutas populares no País. Não à toa, teria dito sobre ela outro brasileiro valente, Zé Dirceu, para quem "Marina é o Lula de saias!"
 
Refiro-me ao fato de que o tempo (e as injunções políticas, por certo) fez dela uma Esfinge pós-moderna, tipo aquele monstro fabuloso da mitologia, com corpo, garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asa de águia e unhas de harpia, que propunha enigmas aos viajantes e devorava aqueles que não soubessem decifrá-los. Não sem razão, se pode ver, o mito se tornou símbolo de todo homem ou mulher enigmática, de quem não se sabe o que sente ou pensa. Vejamos.
 
Marina se diz comprometida com os trabalhadores, mas tem à frente de sua campanha, em matéria econômica, Nica Setubal, maior acionista do Banco Itaú; propõe coerência ideológica, mas sonha governar tendo ao lado Lula e FHC; dorme como defensora dos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais), mas acorda, sob pressão do pastor Fábio D'Araújo Filho, aquele que se tornou conhecido pelo "dossiê Cayman", retirando do seu programa de governo o que defendia na noite anterior; passou a vida opondo-se ao agronegócio, mas tem como vice o deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), defensor intransigente do mesmo, e dos fabricantes de armas, no Congresso.
 
Para não falar que foi católica e quase se tornou freira na adolescência, mas se converteu evangélica em fins dos anos 1990, adotando o pentecostalismo. Hoje, atua como missionária da Assembleia de Deus do Plano Piloto (Novo Dia), mas fora, antes, ligada à Assembleia Bíblica da Graça, de Brasília. Tipo "novo crente", não toma qualquer decisão sem consultar a Bíblia, mas o faz, aleatoriamente, abrindo-a ao acaso para justificar suas tomadas de posição. Foi assim que decidiu se somar a Eduardo Campos, afirmando ter escutado "um chamado de Deus", expresso num salmo da página fortuita.
 
Seu discurso, perpassado de substantivos como "transparência", "correção", "lisura" etc., silencia quando é indagada sobre o caixa 2 de sua campanha, que tornou possível a aquisição do jatinho em que voava Brasil afora, mesmo quando confirmada a origem do dinheiro: empresas fantasmas e um humilde vendedor de peixe, sem qualquer lastro financeiro, que afirmou desconhecer o negócio e jamais ter sequer entrado numa aeronave.
 
Promete mundos e fundos, como dizem os mais simples, mas vacila quando lhe perguntam de onde virá o dinheiro, os dez por cento "assegurados" para a Saúde, por exemplo. Quem sabe, na "sonhática" proposta, esteja contando com a ajuda da porção rica de sua base de apoio, como "Guilherme", um dos seus gurus, que divide com Chico Mendes, o seringueiro assassinado no Acre em 1988, o escaninho sagrado de suas devoções na política. Em tempo: Guilherme é o empresário Guilherme Leal, da Natura, uma das maiores fortunas do País.
 
Como a Esfinge grega, pois, Marina vai impondo aos eleitores brasileiros, seduzidos por seu encanto, desafiadores enigmas. Para devorar quem não souber decifrá-los, claro. Mesmo o Brasil inteiro. 
 
 
 
 
 

O que falta mais?

Começo por evidenciar que não seria eleitor de Eduardo Campos. Ao que acrescento: a forma como rompeu com o Planalto, de cujo projeto de governar participou até lançar-se como pretenso candidato à Presidência, pelo PSB, não condiz com o que sabemos dele, um político de posições modernas e um entusiasta do ideário socialista.
 
Até aí, como se vê, nada que me feche os olhos para o que o político promissor representava para o País, colocando-se como uma alternativa a meio caminho entre a continuidade e o retrocesso, emblematicamente personificados por Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores) e Aécio Neves, do PSDB.
 
Sua morte, prematura e trágica, como é comum a todos aqueles que sabem separar os fatos, provocou-me uma tristeza imensa, um sentimento de que o destino fora longe demais agora, como que a errar o alvo de forma brutal.
 
Eduardo Campos tinha 49 anos, era um líder carismático e, como mostrou a televisão, um chefe de família exemplar. O filme em que os filhos o exaltam, no Dia dos Pais, cortou-me o coração, a inocência do bebê de três meses, objeto do carinho da mãe e dos irmãos, fora do enquadramento da câmera, a confirmar a beleza do instante.
 
Na noite que antecedeu o desastre, acompanhei atentamente sua entrevista durante o Jornal Nacional, e, mais tarde, na Globo News, sua conversa com a jornalista Renata Lo Prete. Sua visão de mundo e dos caminhos pelos quais sonhava inserir o Brasil no cenário das relações internacionais, se eleito, fizeram-me repensar algumas convicções do que, como cidadão, entendo ser o melhor para todos nós, brasileiros. No mínimo, confesso, fui dormir com impressões pessoais otimistas na hipótese de um segundo turno: Eduardo Campos olha para a frente. Não apoiará Aécio!
 
O fato é que o destino se impôs, com suas armas quase sempre traiçoeiras. Eduardo Campos é, como diria Drummond, "apenas um quadro na parede, mas como dói!", é a voz unânime daqueles que o conheceram, e que, inconsoláveis, pranteiam hoje a sua partida pavorosa.
 
Nesse contexto, pois, é que em igual proporção, surpreende e revolta como agiram nas redes sociais, mal se consumara o fato, algumas pessoas da chamada elite cearense, odiosas em sua maldade "brincalhona" e levianas em sua forma de encarar a dor alheia  --  para não falar (claro!) da motivação desavisada e doentia de querer tirar proveito politiqueiro mesmo diante de um fato que, por oportuno, lhes deveria lembrar a velha lição: dinheiro, posição social, prestígio etc., de que valem no final das contas?
 
Refiro-me à mesma gente que bate lábios diante do altar toda semana e que, num gesto abominável, agora enche as páginas da Rede com mensagens em que Dilma Rousseff, vestida à Satanás, é identificada como responsável pela morte de Eduardo Campos. O que falta mais?  
 
 
 
 
 
            
           

Direito e Literatura

Do poeta, jurista, crítico literário e historiador Dimas Macedo, chega-me às mãos Direito e Literatura, ensaios e reflexões, conjunto de setenta e sete textos que abrangem da Sociologia à Filosofia do Direito, sem esquecer, claro, as inconfundíveis incursões do autor pelo campo das artes, nomeadamente a Literatura.
 
Como observa Macedo, em texto de apresentação, o livro explora seus diferentes temas pelo viés da crítica dialética e da teoria material, mas o faz fundamentando-se numa generosa prospecção do que existe de mais significativo nos diversos outros livros que o crítico examina com a sensibilidade do poeta e o rigor acadêmico do especialista, a que devemos algumas das páginas mais sublimes do ensaísmo contemporâneo.
 
São textos curtos, é bem verdade, como o opúsculo pede, mas nunca superficiais, licença analítica que Dimas Macedo não se permite, mesmo quando depara com escrituras pouco exigentes, a exemplo do livro de memórias deste colunista a que o autor de Direito e Literatura dedica sua atenção, insisto, com a habilidade de um mestre, equilibrando-se, como um sábio, entre as motivações do amigo e o rigor do esteta criterioso que invariavelmente é.
 
É assim que o vemos lidar, por outro ângulo, com a obra de Moreira Campos e Luiz Gonzaga, com a poesia de Hermínia Lima e a escansão musical de Diego Macedo, com a arte de Mano Alencar e Cláudio César, para não falar do olhar atento que dispensa à história regional. Nessa perspectiva é que, numa só visada, dá proeminência ao Nordeste como berço de grandes artistas, com destaque para o romancista José de Alencar, o poeta Patativa do Assaré, entre outros  --  e faz alusão ao teatrólogo pernambucano Nelson Rodrigues, desavisadamente visto pelo senso comum como filho do Rio de Janeiro, cidade em que ambienta seu teatro feito de poesia e derramamento trágico.
 
Examinado assim, sumariamente, não é possível dar, aqui, a medida de importância que Direito e Literatura haverá de ter no conjunto da expressiva obra de Dimas Macedo, no campo da crítica e do ensaio, no que guarda este de mais genuíno a meio caminho entre a crônica ligeira e desvendamento científico do fato desconhecido. Seja um ou outro, todavia, o certo é que ler Dimas Macedo é sempre uma experiência que nos enriquece e emociona, num tempo em que, para além do que é natural e conveniente, excedem na crônica e no ensaio um sem-número de palpiteiros sem qualquer talento.
 
Por essas e outras, é que Direito e Literatura constitui uma boa novidade no gênero. Livro para se ler e guardar no melhor escaninho da estante, bem ali onde se encontram aqueles que fazem parte do nosso cotidiano.
 
No mais, já se sabe, Dimas Macedo é um desses raros autores que não deixam ninguém indiferente. Há nele, sempre, a poesia como linha de força, o juízo consciente das qualidades fundamentais da Arte e da Literatura, o equilíbrio da análise consistente, razão por que seus textos e 'excursos' estéticos, constantes do livro aqui referido, exercem, de imediato, sobre nós, tão grande fascínio.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
           

Arte Contemporânea

Mal termina a aula, enquanto reorganizo a mochila em que os professores costumamos conduzir livros e papeis, a aluna faz a afirmação corajosa: "Professor, eu não consigo gostar de Arte Contemporânea!"
 
É uma das situações em que o professor jamais pode fazer ouvido de mercador. O depoimento, por surpreendente, vindo de uma pessoa tão jovem, estudante de um curso de Artes, guarda sentidos entre inusitados e pertinentes. Primeiro, porque construído em espaços em que se respiram valores estéticos modernos e transgressores, segundo, porque resultam de uma constatação procedente, pelas razões que tentarei, no exíguo espaço de uma coluna de jornal, explicar.
 
Começo por levantar uma nova questão: O que é Arte Contemporânea? Minimalismo? Arte Conceitual? Performance? E pergunto ainda: Contemporâneo dos anos 60, quando se deram as primeiras manifestações contra a consciência acadêmica ainda dominante de que a arte ou era pintura ou escultura? Ou o mesmo rótulo caberia com ajuste ao que se fizera desde as vanguardas de inícios do século XX, quando da eclosão de estéticas transgressoras, a exemplo das colagens cubistas e das performances futuristas?
 
A questão, como se vê, não é das mais simples. Mais ainda quando a afirmação da aluna ganha formato num tempo em que, sobre o conceito do que é "arte", só podemos ter uma certeza: de que estamos num momento em que se desconstroem todas as certezas em torno de qualquer experiência humana que se pretenda definir como "artística". A própria noção, desde sempre delicada, de História da Arte, agora mais do que nunca parece mesmo sofrer um golpe insuportável, tomemos por base as incontornáveis contribuições de pensadores importantes como Hans Belting, Arthur Danto, Didi-Huberman, para os quais, em alguma medida, os tempos de hoje já não comportam a história da arte como uma disciplina normativa   --  e o que chamamos de Arte Contemporânea pode não passar de uma etiqueta esvaziada de sentido.
 
Sob esse aspecto, para ficar num exemplo 'clássico' , é que vejo como indispensáveis as primeiras realizações de Marcel Duchamp (1887-1968), entenda-se por isso o que definiu como "readymade", aqueles objetos banais, um urinol, uma roda de bicicleta etc., a que atribuía o status de obra de arte pelo simples fato de colocá-los num espaço previamente designado como artístico. Explico-me: Mais que debochar do "saber" estabelecido pelo discurso dito "especializado", o artista francês fez surgir um novo e nunca esgotado debate: Arte é o objeto, a coisa em si, ou a atividade sensível, inventiva e transformadora de quem a produz, sob a chancela da emoção estética?
 
Sob esse aspecto, reitero, é que me disponho a discutir com meus alunos de Estética a presença, na História da Arte, do que na falta de uma terminologia mais precisa se pode rotular como Arte Contemporânea, debaixo de cujo manto piscam vivos e sedutores os olhos de Andy Warhol, com suas latas de sopa, garrafas de Coca-Cola, fotos de celebridades repensadas no contexto do que se convencionou chamar de Pop Art.
 
O que é certo, na esteira de toda essa polêmica, como quis Theodor Adorno em seu último e indispensável texto sobre estética, é que nada, absolutamente nada em termos de arte, hoje, pode ser aceito "sem discutir e sem pensar". Mesmo porque, não é sem razão que de um dos mais respeitados críticos e historiadores de arte, o já falecido especialista australiano Roberto Hughes, vem a inquietante afirmação, bem na linha do que faz a minha jovem aluna.
 
 "Vivemos numa era muito pobre em matéria de artes visuais. Hoje se podem encontrar bons escultores e pintores, mas a ideia de que a arte atual se possa igualar às enormes realizações do passado, entre os séculos XVI e XIX, é um disparate". É o que penso quase sempre que deparo com o que chamamos de Arte Contemporânea.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Belos escritores

O Brasil, que já perdera o poeta e tradutor Ivan Junqueira, no início do mês, em pouco mais de uma semana fica sem três outros dos seus grandes escritores. Primeiro, João Ubaldo Ribeiro, dois dias depois Rubem Alves e, na sequência desventurada, Ariano Suassuna. O Nordeste, que aqui nasceram o primeiro e o último dos quatro, sobremaneira, ainda mais quando sabemos que João Ubaldo e Suassuna eram nordestinos "assumidos", quer dizer, autores identificados com as bases culturais da região e devotados a sua gente.
 
De Ubaldo, li, além de Viva o Povo Brasileiro, que considero um livro à altura de Cem Anos de Solidão, a mais importante obra de García Márquez, três ou quatro outros romances, dentre os quais destaco A Casa dos Budas Ditosos, da série Plenos Pecados, da Editora Objetiva, 1999. O livro, sabe-se, em mais uma coincidência entre os dois autores, foi objeto das mesmas críticas dispensadas às Memórias de Minhas Putas Tristes, do escritor colombiano. Ambos tratam da luxúria, com os narradores expondo suas vidas e as infinitas possibilidades do sexo.
 
Mas, não apenas por um exercício de subjetivação estética, foi a morte de Ariano Suassuna que mais me comoveu. Primeiro, porque tenho a perfeita noção do que representa sua obra para o país, porque compreendo o quanto a sua literatura (aqui incluído o Teatro) guarda das nossas raízes mais profundas, estendendo-se de remotas influências ibéricas ao pop regional, sem jamais se tornar banal ou desprezar a densidade do erudito que perpassa toda a sua produção, notadamente o seu mais importante romance, A Pedra do Reino. O "armorial" a que todos se referem ao falar de Suassuna, é o nome do movimento que tem por meta ligar a arte erudita às origens da cultura do Nordeste brasileiro. E que teve o ilustre paraibano como seu principal líder, claro.
 
Nas minhas aulas de Estética, nos cursos de Artes do IFCE, adoto como livro-base o seu menos conhecido Iniciação à Estética, um belo manual de Filosofia da Arte que Ariano Suassuna produziu a partir das anotações de aulas na Universidade Federal de Pernambuco, onde lecionava a disciplina.
 
Trata-se de um livro "delicioso", em que o autor percorre uma trajetória que abrange o que se fez de mais significativo do ponto de vista teórico no terreno das Artes, indo de Platão e Aristóteles a Kant, deste a Hegel e Bergson, explorando as diferentes linguagens  --  pintura, escultura, arquitetura, música, mímica, literatura e as artes de espetáculo. Um livro marcado pela tino crítico de Ariano, um homem que conseguiu, como é raro, ser erudito e cristalino, acadêmico e animado.
 
Tenho, agora, a frustração de nunca ter assistido, sequer, a uma de suas aulas-espetáculo, de que o meu filho Saulo Teixeira, tendo presenciado uma à época de sua passagem pelo Cariri, fala maravilhas.
 
Enquanto escrevo este texto ligeiro em homenagem ao autor de O Auto da Compadecida, ocorre-me lembrar de algumas de suas "reflexões-piada", que meu filho reproduz para mim com tanta expressividade. Sem falar, por uma coincidência que antes incomoda, que tenho quase nas mãos, diante do computador, A História do Amor de Fernando e Isaura, uma espécie de tradução brasileira da lenda celta de Tristão e Isolda com que Ariano Suassuna nos presenteou em 1994.
 
Nesses próximos dias, ao estudar com meus alunos este pequeno romance a partir de suas relações intersemióticas, por certo estarei invadido de um sentimento curioso: o sentimento que mistura a admiração pelo intelectual com a afetuosidade quase familiar pelo homem. Pena!
 
Descansa em paz, mestre.
 
 
 
 
 
 
           

Nas malhas do amor

Tantas vezes tachado de repetitivo, mesmo por uma parte da crítica que reconhece as qualidades de seus filmes anteriores, Giuseppe Tornatore retorna ao circuito cinematográfico com o belíssimo A Melhor Oferta (The Best Offer), em cartaz no Centro Dragão do Mar. O filme quase nada reedita dos trabalhos anteriores do diretor de Cinema Paradiso, mesmo quando leva a efeito o seu tema mais caro, o amor e suas representações, como para evidenciar o quanto seus detratores têm de obtuso e preconceituoso. Mas de que 'fala' seu último trabalho? É o que veremos a seguir.
 
A Melhor Oferta narra a história de um especialista em artes visuais, Virgil Oldman (Geoffrey Rush, numa interpretação soberba) misógino e desonesto, que acumula riqueza e um acervo artístico imenso às custas da manipulação de informações em torno das obras que vende através de leilões. Para tanto, conta com a parceria de um amigo, Billy Whistler (Donald Sutherland) que adquire as peças para depois revender a Oldman.
 
É quando surge na história Claire Ibetson (Sylvia Hoeks), herdeira de um antiquário e suposta portadora de agorafobia (medo de se achar sozinha em espaços públicos), que contrata Oldman para vender o seu riquíssimo acervo. O contato dos dois, no entanto, passa a ocorrer através de uma porta do quarto em que Claire passa escondida a maior parte do filme, até que a estranha convivência leva os dois a se enroscar numa paixão a um tempo enternecedora e doentia.
 
O filme, assim, vai tecendo uma sedutora reflexão sobre o amor e sua indecifrável complexidade, para o que Tornatore, que assina também o roteiro, lança mão de um artifício estético notável: se Oldman é capaz de identificar toda e qualquer falsificação no mundo da Arte, é ingênuo ao lidar com os sentimentos, o que leva o espectador a compreender a solidão em que vive ao lado dos incontáveis quadros que tematizam a figura da mulher.
 
Surge, agora, a terceira personagem central da história, Robert (Jim Sturgess), um restaurador de relíquias a quem cabe recompor um autômato de aspecto humano que metaforiza os muitos fios da trama amorosa do filme, e que, aos poucos, vai conduzindo o espectador no labirinto de emoções e sentimentos que fazem de A Melhor Oferta um filme sublime.
 
Intrigas, reviravoltas, impoderabilidades, então, passam a dominar as mais de duas horas de desfile fílmico, tudo, como é próprio do diretor italiano, sob a sensibilidade de uma câmera prodigiosa, uma mise-en-scène precisa e uma atuação irretocável de todo o elenco, Geoffrey Rush à frente, sem esquecer outros detalhes das escolhas, como a composição equilibrada dos planos e a textura cromática que dialogam com a beleza das muitas telas que aparecem da primeira à última cena do filme. E a música de Ennio Morricone, linda, claro.
 
A Melhor Oferta, que haverá de encher os olhos de qualquer bom cinéfilo, articula-se, pois, entre o mais inspirado Hitchcock e o mais poético Scorsese, Vertigo e A Invenção de Hugo Cabret, por exemplo, pela irrepreensível qualidade do filme no que diz respeito aos planos de conteúdo e expressão, confirmando a presença de um cineasta definitivo no cinema de hoje e sempre.
 
Pena não se poder ser mais conclusivo, em respeito àqueles que ainda não assistiram ao filme. Resta dizer, desse modo, que se trata de uma obra em que o amor, fio condutor da história, transita entre o verdadeiro e o falso, como na arte que sustenta sua irrealidade. Não sem razão, pois, diz o protagonista a uma dada altura do filme: "Em toda falsificação existe um pouco da verdade do falsificador". No caso, só mesmo assistindo ao filme para entender isto. Recomendo.
 
 
 
            
           

Sem poesia e trágico

O cineasta Pier Paolo Pasolini (1922-1975) tinha uma tese curiosa sobre o futebol. Intitula-se Il calcio è um linguaggio con i suoi poeti i prosatori (O futebol é uma linguagem, com seus poetas e prosadores), publicado logo após a Copa do Mundo de 1970, quando o Brasil venceu a Itália por 4 a 1.
 
Em português, se não me engano, o ensaio apareceu com o título menos inspirado de Gol Fatal. Trata-se de uma tentativa de estabelecer uma semiologia do futebol, algo como uma possibilidade de análise do referido esporte enquanto linguagem. Desse modo, afirmava o diretor de Teorema e Decameron, o futebol europeu era "di prosa" e o futebol latino-americano "di poesia". Tentemos explicar.
 
Por futebol de prosa, considerava o estilo das seleções europeias, orientado pelo rigor formal e pela objetividade, competitivo, em nada preocupado com a beleza do 'espetáculo', mas determinado em chegar à meta do adversário e conseguir vencê-lo, o que nem sempre, contentava-se ele, era fim alcançado, bem como se pudera constatar naquela decisão histórica da Copa do Mundo entre brasileiros e italianos.
 
Por outro lado, referindo-se à Seleção canarinho, que tinha ninguém menos que Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Clodoaldo, Gerson, para ficar nos maiores, dizia o diretor de Accattone, havia o futebol de poesia, marcado pela irreverência tática, pela criatividade, pela plasticidade das jogadas, pela capacidade de improvisação, pelos dribles desconcertantes e gols quase sempre antológicos. Enfim, o futebol-arte.
 
Desde o fim da excepcional Copa do Mundo de 2014, domingo, vira e mexe incomoda-me pensar no ensaio de Pasolini e sentir vontade de contestá-lo, naquilo que a interpretação dos muitos signos vistos em campo me disse (e a todos, claro), notadamente quando, não sem sofrimento, trago de novo ao coração a 'poesia impiedosa' dos alemães sobre a triste seleção do Brasil.
 
Quero dizer: a tese do genial cineasta italiano inverteu-se. O futebol latino-americano, mesmo se me refiro agora à Costa Rica, à Colômbia, ao Chile, ou mesmo à Argentina a ao Uruguai, notabilizou-se pela linguagem dura e cerebral do antigo futebol europeu, ou seja, pelo que Pier Paolo Paosolini chamou de 'futebol de prosa'. Essas seleções buscaram resultados, e em grande parte conseguiram. Ao Brasil, infelizmente e a um só tempo, faltaram a beleza da poesia e o senso de realidade da prosa.
 
Se, para o artista de Mamma Roma, "O futebol é a última representação sacra do nosso tempo. É rito profundo e também evasão. Enquanto outras representações sacras, dentre elas a missa, estão em declínio, o futebol é a única que permanece. O futebol é o espetáculo que substitui o teatro", como afirmou no belo ensaio a que me refiro na coluna de hoje, resta-nos a utopia de que possamos voltar em breve a praticar o futebol de poesia que nos roubaram, de nós brasileiros, os alemães e os holandeses, com os belos espetáculos de 7 a 1 e 3 a 0. Na contramão do que professou Pasolini, se foi com esses, a poesia, e, em seu lugar, ficou aqui apenas o teatro. E foi trágico.
 
 

 

 

 

 
 
  

Indignidade perante a Nação

Não era preciso agir como Pitonisa, a sacerdotisa do oráculo de Delfos, a quem cabia adivinhar o futuro dos gregos na Antiguidade, para ver o que estava por ocorrer à seleção brasileira na Copa do Mundo que termina nesse domingo. Bem antes do jogo com a Croácia, para ser claro, estampava neste espaço afirmações como as que, ipsis litteris, reproduzo abaixo:
 
"Ouso afirmar: temos nesta Copa do Mundo a mais débil das seleções em condições de disputar a 'taça', a mais medíocre (no sentido etimológico da palavra) das formações levadas a efeito desde 2010, quando fomos desclassificados pela Holanda naquela tarde infame na África do Sul. Exagero? Não, mas consciência de que nos falta muito para justificar qualquer otimismo já nas oitavas de final, quando teremos pela frente adversários tradicionais.
 
O time, que, como disse, apresenta visíveis limitações em valores individuais, é muito pior em termos coletivos. Não sabe recompor suas alternativas táticas (não há um esquema sólido) quando recupera a bola no setor defensivo, claudica nos contra-ataques, notadamente quando perde tempo com jogadas individuais de Neymar na intermediária, o que possibilita ao adversário se reestruturar defensivamente, e não tem criatividade nas proximidades da área adversária. Resta, desse modo, a expectativa de um lampejo de Neymar ou Fred, cujas qualidades técnicas são infinitamente menores que as do atacante do Barcelona."
 
Nada, contudo, que se pudesse prever nos termos da ignominiosa derrota de 7 x 1 para a Alemanha, a mesma seleção que, mal começava a competição, apontei aqui como a mais séria candidata ao título de campeã mundial de 2014. E é sobre este passado, agora, que me reservo o direito de tecer algumas considerações. Vamos lá.
 
São todos, comissão técnica, Felipão e, principalmente, jogadores, responsáveis pela infame atuação de terça-feira. Perder era coisa fácil de antever, que era inconteste a diferença de qualidade que separava o Brasil, não apenas da Alemanha, mas de times a que os resultados desta Copa não fizeram justiça, Costa Rica, México e Chile, por exemplo, bem superiores ao time brasileiro.
 
Esses foram desclassificados pelo que é próprio do futebol e sobrevém no curso de sua imprevisibilidade. O time brasileiro, porque era ruim, desprovido de inspiração e equilíbrio emocional, fatores a que me referi em outra crônica, como se pode ver abaixo.
 
  "[...] falta ao time brasileiro, entre outras qualidades, maturidade, e não me refiro à faixa etária do elenco, algo em torno dos 27 anos. Refiro-me ao equilíbrio no "antes" da partida, quando da execução do Hino, para ser mais claro, quando os nossos craques externam nos olhos rútilos e nos lábios trêmulos a falta de firmeza para o combate que se avizinha."
 
A cena dos nossos jogadores abraçados à camisa de Neymar, durante a execução do hino, como faz a viúva jovem à roupa do defunto amado, seria comovente, não fosse ridícula. E que dizer dos afagos insistentes de Thiago Silva em David Luiz e em Dante (seu substituto desastroso), minutos antes de começar a partida?
 
Ah, bom menino, não é isso que se espera de um capitão! Ali, mesmo antes do apito inicial, dávamos a ver a nossa 'imaturidade' e o nosso despreparo para encarar a racional serenidade dos alemães. Era monstruosa a disparidade. Era gigantesco o abismo que nos separava do nosso antagonista. Para não falar, é óbvio, da superioridade europeia do ponto de vista físico, técnico e tático. Da nossa falta de vergonha diante do mundo. Da nossa indignidade perante uma Nação!
 
 
 

 

"Vamos golear esses gringos!"

Menino  --  e sem entender por que lhe atribuíam tanta importância  --, vi e revi, pela tevê, a famosa cena: Bellini, capitão da Seleção Brasileira, apanha a bola no fundo da rede e a entrega ao meio-campo Didi, que, com passos de garça, a conduz sob o braço até o grande círculo, serenamente, para que Vavá pudesse dar a saída ("Vamos golear esses gringos!", convicto, teria murmurado para o nosso centroavante). 
 
Eram quatro minutos do jogo de decisão entre Suécia e Brasil, e os donos da casa faziam 1 x 0 sobre o time brasileiro. Só algum tempo depois, mais sensível ao imponderável do futebol, pude compreender o que aquilo significava.
 
O Brasil, que não começara perdendo nenhum dos jogos anteriores, na Copa de 1958, podia, ali, perder o equilíbrio, desandar emocionalmente, favorecendo com o seu nervosismo o time sueco, dando sequência aos fracassos de 1938, 1950 e 1954. O espírito de liderança e o controle emocional de Didi, pois, transmitira aos demais jogadores, sobremaneira aos mais imaturos (Pelé, para se ter ideia, tinha 17 anos), a confiança de que seriam capazes de reverter o resultado e ganhar o jogo, sagrando-se campeões do mundo. Deu Brasil, 5 x 2.
 
O fato, lembrado à exaustão pela crônica esportiva, durante a semana, ganha novos contornos no momento em que pesa sobre os jogadores brasileiros, nesta Copa do Mundo que já se afirma memorável, a preconceituosa pecha de "meninos chorões".
 
A Tiago Silva, a quem caberia a missão de fortalecer seus companheiros, bem do jeito que fizera Didi na final de 1958, posto que carrega no braço a insígnia de capitão, estaria faltando o senso de comando ou atributo de poder indispensável nas circunstâncias difíceis, como ocorreu à Seleção em Belo Horizonte, nas oitavas de final. Não só se recusou a bater um dos pênaltis, como se curvou em direção ao gramado para não ver quem o fizesse em seu nome.
 
Consciente de que a discussão comporta simbologias as mais diversas, e considerando que escrevo a coluna de hoje às vésperas de Brasil e Colômbia, cujo resultado, efetivamente, guardará relação com o fato em pauta, ouso tecer aqui a minha opinião, a qual, em certa medida, adiantei em coluna recente: falta ao time brasileiro, entre outras qualidades, maturidade, e não me refiro à faixa etária do elenco, algo em torno dos 27 anos. Refiro-me ao equilíbrio no "antes" da partida, quando da execução do Hino, para ser mais claro, quando os nossos craques externam nos olhos rútilos e nos lábios trêmulos a falta de firmeza para o combate que se avizinha.
 
Atentem para o que diz a letra do hino de cada país e verão: são convocações para a luta, algo que, até onde sei, só se pôde constatar em dois ou três dos nossos jogadores, David Luiz à frente.
 
Digo isso e me ocorre lembrar de João Saldanha. Nos preparativos para a Copa de 70, no México, aqui incluídos os jogos das eliminatórias  --  o técnico, à época  --, advertido de que faltava aos nossos jogadores a fibra indispensável para o grande desafio, instigou-os ao enfrentamento, ao espírito de luta que deve permear competições como uma Copa do Mundo. Quem não se lembra das feras do Saldanha?
 
Não reclamo violência, deslealdade, por favor me entendam. Falo do espírito de luta que se pode ver, no campo e fora dele, nos argentinos, para ficar num exemplo. É atentar para a forma como debocham dos brasileiros país afora; na força do grito que parece sufocar o nosso, mesmo quando o time, como no jogo contra a Suíça, parecia tropeçar. Receber bem, ser tolerante, não quer dizer capitular.
 
Há momentos em que só mesmo o entusiasmo é capaz de superar outras deficiências. Está nos faltando isso, quem sabe, fazer valer o que apregoa o verso do Hino Nacional (assim, com maiúsculas): "Verás que um filho teu não foge à luta!" Quem sabe, também, esteja nos faltando alguém que reedite a afirmação de Didi para o centroavante Vavá: "Vamos golear esses gringos!" Que o resultado do jogo de sexta-feira possa ser a confirmação disso!
 
 
           

O êxito e o sonho improvável

Eis que chegamos à segunda semana de Copa do Mundo e as minhas previsões, materializadas na coluna de sábado, vão se confirmando. Diferentemente do que anteviam o negativismo e a desfaçatez de setores da nossa 'melhor' imprensa, desconsiderados pequenos incidentes, de resto aceitáveis num evento de tamanha grandeza, o Brasil vem dando provas inequívocas de sua maturidade política, da sua irrefreável vocação para festejar a vida e receber como poucos povos do mundo são capazes de fazer.
 
A nota contrária, como afirmara, para a insatisfação de uns poucos, é que a nossa seleção, passos largos, vai fazendo cair a ficha dos nacionalistas de ocasião, contando com uma vitória pouco convincente contra a Croácia (para a qual terá pesado um pênalti incorretamente assinalado a seu favor) e um empate tão amarelo quanto a cor de sua camisa no jogo contra o México. Nada que se contraponha, é óbvio, entre a realidade e o sonho, contemos com uma goleada no jogo de segunda-feira, contra Camarões.
 
Mas, como não me permito julgamentos sem embasamento de análise, vou tentar ser claro. O time de Felipão, guardadas as qualidades, entre os onze titulares, de um ou dois jogadores acima da média, refiro-me a David Luiz e Neymar, a que se pode somar, talvez, a regularidade do capitão Thiago Silva, sempre firme no desarme e ousado nas subidas às vezes arriscadas, é bem inferior a outras seleções que tenho visto jogar, a Alemanha, por certo.
 
Não é preciso ser nenhum especialista em futebol, mas apenas um espectador atento, para constatar as fragilidades da canarinho: é abissal a distância que separa defesa e ataque, setor do campo em que se processam, já faz uns trinta anos no mínimo, as jogadas decisivas do futebol moderno, na linha do que fazem a própria Alemanha e a Holanda, outra grande candidata ao título, segundo posso ver. Digo isso e prevejo beicinhos de quem insiste em considerar Oscar, Paulinho e companhia jogadores extraordinários. Não são.
 
Ouso afirmar: temos nesta Copa do Mundo a mais débil das seleções em condições de disputar a 'taça', a mais medíocre (no sentido etimológico da palavra) das formações levadas a efeito desde 2010, quando fomos desclassificados pela Holanda naquela tarde infame na África do Sul. Exagero? Não, mas consciência de que nos falta muito para justificar qualquer otimismo já nas oitavas de final, quando teremos pela frente adversários tradicionais.
 
O time, que, como disse, apresenta visíveis limitações em valores individuais, é muito pior em termos coletivos. Não sabe recompor suas alternativas táticas (não há um esquema sólido) quando recupera a bola no setor defensivo, claudica nos contra-ataques, notadamente quando perde tempo com jogadas individuais de Neymar na intermediária, o que possibilita ao adversário se reestruturar defensivamente, e não tem criatividade nas proximidades da área adversária. Resta, desse modo, a expectativa de um lampejo de Neymar ou Fred, cujas qualidades técnicas são infinitamente menores que as do atacante do Barcelona.
 
Enfim, haverá de perguntar o leitor, não vai dar para ganhar a Copa? Sim, mas sem o brilhantismo de outrora, um feijão com arroz que mais irritará o torcedor que o levará ao delírio. Os times estão, hoje, muito mais nivelados, a exemplo do que posso ver, mesmo na sala onde escrevo esta coluna, na tevê: Costa Rica põe a Itália na roda e está a poucos minutos do final. Depois da Espanha, é a Inglaterra que fará suas malas. O resultado, assim, indica aquele que deverá ser o melhor jogo da competição: Itália e Uruguai. Pedreira. Mas, dizia eu há pouco, confirma-se o que sempre achei ser possível: o Brasil realiza uma Copa do Mundo que ficará na História. Positivamente, é bom lembrar.
 
 
 
 
 

Terá Copa

Escrevo esta coluna às vésperas da estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2014. Faço-o por cobrança da editoria do jornal, que fixou a data de hoje, 11 de junho, para fechar a edição da semana. Por razões óbvias, corro o risco de ver publicadas, na versão impressa, aberrações bastantes para fazer enrubescer qualquer cidadão medianamente exigente. Nada, não. Vou adiante. Coisas do ofício.
 
Sem fechar os olhos para o que houve de errado, vejo com entusiasmo o que já sabia: o Brasil fará uma Copa do Mundo inesquecível, na contramão do que apregoava a voz agourenta da grande imprensa e a vontade inconfessável da oposição ao governo Dilma, PSDB à frente, mancomunados num dos mais asquerosos projetos de reação aos avanços sociais implantados no País nesses últimos anos  --  e, agora, impotentes, curvados às evidências: "Terá Copa!"
 
Até a BandNews, que passara o ano veiculando o criminoso bordão "Imagine na Copa", como que a antever (e desejar!) as piores ocorrências, durante o evento, está irreconhecível na cobertura jornalística do que, da noite para o dia, considera "um espetáculo como só os brasileiros são capazes de fazer", como (ato falho?) deixou escapar, alto e bom som, seu jornalista mais prestigiado, Ricardo Boechat, na manhã de ontem.
 
Quanto ao escrete, como diria Nelson Rodrigues, diferentemente, fico com o polêmico comentarista Milton Neves, para quem o time de Felipão anda longe de ser o que pensam dele. A começar pelo goleiro, que não me inspira a menor confiança. O que dizer de Oscar e Hulk, em posições em que já atuaram Tostão, Pelé, Sócrates, Zico?
 
São estilos diferentes, esquemas táticos desiguais, é o que dirão. Não penso assim. Em 70, por exemplo, tínhamos na quarta-zaga, Piazza, que atuava de volante no Cruzeiro; na ponta-direita, Jairzinho, ponta-de-lança, no Botafogo; Rivelino, atuando quase como ponta-esquerda (Gerson era, de fato, o nosso meia-armador), era meia-esquerda no Corinthians...
 
Ademais, não me cheira bem o excesso de otimismo com que a crítica especializada trata os nossos jogadores. Enoja o tom "galvaniano" que impera nas mesas-redondas das tevês brasileiras, notadamente a Globo. Neymar não é Messi, ainda, Fred anda longe de ser Christiano Ronaldo e nem mesmo a nossa linha de zaga é a perfeição que se diz. Quero estar errado.
 
Como adiantei, produzo o texto desta coluna horas antes de Brasil vs. Croácia. Corro o risco de dizer tolices. Que o diga. Quero o Brasil campeão! Estou certo de que acontecerá em terras brasileiras a Copa das Copas, como quis a presidente, mas tenho medo do nosso time. Que passe vexame como cronista, é o que desejo!
 
 
 
             

Assunto controverso

O Senado aprovou, na quarta-feira, 4, o que se convencionou chamar de Lei da Palmada, cujo texto deverá ser sancionado pela presidente Dilma Rousseff (se já não o fez até a data de publicação da coluna).
 
O nome atribuído à mesma, penso eu, infantiliza o seu conteúdo, cujos artigos estabelecem punições para quem impuser castigos a crianças e adolescentes que resultem em sofrimento físico.
 
Sinceramente, acho uma tolice a forma como deputados e senadores dedicaram-se a discutir a matéria, o que não quer dizer que não se trate de uma ação bem intencionada e necessária num País em que menores ainda são tratados com violência. Sei que estou pisando em terreno escorregadio, mas vou tentar me explicar.
 
Tive, antes, a preocupação de procurar conhecer, ainda que com relativa superficialidade, o que diz a tal Lei, cuja paternidade, sabemos, é do ex-presidente Lula. Pois bem, entende-se por crime, aqui, todo e qualquer "tratamento cruel ou degradante, como forma de correção, disciplina ou educação".
 
O texto, pode-se ver, resulta extremamente subjetivo, e, tal qual a sua mais famosa defensora, Xuxa Meneghel, que se encontrava em plenário durante a votação  --  e não conseguiu conter o pranto ao final  --, superficial. Vejamos.
 
A análise das ocorrências caberá ao Conselho Tutelar, bem como a definição das penas. Mas, em que se apoiarão seus integrantes para considerar uma simples palmada uma agressão capaz de justificar a aplicação de punições previstas em Lei? O que caracteriza, por exemplo, um puxão de orelha diante de um malfeito como algo criminoso, suficiente para que se formalize uma denúncia que poderá levar a processo um pai ou uma mãe comumente amável na educação dos filhos?
 
Filho de uma geração não raro submetida a punições severas, que iam de um simples castigo (não ir ao cinema no domingo ou à pelada no final da tarde) à palmatória, nunca, com todas as letras, levantei sequer a mão para meus filhos, mas não me recordo de minha mãe se não com um carinho, um amor e, principalmente, um sentimento de gratidão pela educação que nos deu, a mim e a meus irmãos, que reservam para ela, estou certo, os mesmos sentimentos.
 
É sabido que países desenvolvidos adotam mecanismos equivalentes há muitos anos. A Suécia, se não me engano, foi o primeiro a criar lei específica em relação ao assunto. Depois, vieram Alemanha, Espanha, Áustria e, na América do Sul, o Uruguai encabeça a lista de outros países que viram na sua criação uma saída para o problema dos maus-tratos contra crianças e adolescentes.
 
Pelo menos um estudo, ocorre-me lembrar agora, identificou em palmadas e surras a origem de muitos distúrbios psicológicos, sexuais e afetivos; refiro-me ao Relatório Hite sobre a Família: Crescendo sobre o Domínio do Patriarcado, da sexóloga americana Shere Hite. Assunto controverso, como se vê.
 
O certo é que nenhum procedimento é mesmo mais eficaz que a palavra compreensiva, o gesto carinhoso, o sentido do perdão e o exemplo dado pelos pais nas diferentes fases do crescimento dos filhos. Havendo isto, a velha palmada deve ser vista, apenas, como uma de nossas mais conhecidas "instituições", muito embora dispensável e desnecessária. É isto.