O meu irmão alemão

Virei há pouco sua última página. Esplêndido, O meu irmão alemão, romance recém-lançado de Chico Buarque de Hollanda, coloca o multiartista, em definitivo, entre os maiores (senão o maior) escritores brasileiros contemporâneos. O livro é absolutamente sedutor desde o início, quando o narrador tece as primeiras armadilhas de um enredo que oscila a cada página entre a realidade e a ficção, a memória biográfica e a fantasia. A partir daí, o inevitável  --  deixamo-nos arrastar pela curiosa história de Sérgio Ernst, o meio-irmão de Chico Buarque, nascido de um affair do pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, com uma alemã durante o tempo passado em Berlim de 1029 a 1930/31. O ponto de vista, no entanto, é do próprio Chico, que soubera da existência do irmão quando já contava 22 anos, supostamente pela boca de Manuel Bandeira.
 
Bem na linha do que propõe a arte "moderna", cuja marca mais relevante foi romper o processo ilusionista em favor da materialidade da obra, o romance se sustenta nas belíssimas intervenções do autor em meio ao desenrolar da fábula em que sobressai a figura de Enst, o irmão que Chico Buarque, efetivamente, nunca encontrou. Como numa tela de Velásquez (lembro-me, aqui, de As meninas) ou num filme de Godard, o livro ostenta o seu suporte estético a cada página, a cada parágrafo, denunciando-se como matéria vinda da imaginação de um homem para quem a barreira que separa o real do fictício é coisa muitíssimo delicada. Mesmo para o leitor mais atento, assim, é difícil definir o que se torna mais admirável, a estória ou a história, o plausível ou o ilusório. Tudo é absolutamente fascinante na forma como Chico Buarque se propôs (e soube com maestria) construir o romance.
 
À página 178, quando a voz narrativa se volta para Sérgio Buarque, havia pouco falecido, é uma frase de Victor Hugo que parece ressaltar do livro aquilo que lhe é essencial: "A vida não passa de uma longa perda de tudo que amamos!" E esse sentimento de perda pontua todo o desenvolvimento da história, esboçando uma saudade que se expressa, ao mesmo e um só tempo, com a dureza da realidade e a leveza do sonho. Percebe-se, desse modo, um cruzamento de muitas pequenas narrativas que se somam na totalidade do romance, mas que, algumas vezes, saltam aos olhos do leitor mais atento como algo que se pode ler separadamente. Exemplo disso está entre o início da página 24, terceiro capítulo, e o final do primeiro parágrafo da página 31, quando o autor narra um encontro hilário entre ele e dois amigos numa cervejaria frequentada por alemães. Nesse trecho, e noutros ao longo da narrativa, depara-se com um conto dentro do romance, com começo, meio e fim.
 
Mas, em meio a tantas e tantas qualidades de técnica e de estilo, uma sobressai na prosa de ficção de Chico Buarque de Hollanda (observada desde Estorvo, sobremodo), o que aos pouco vai constituindo uma característica de um romancista antes de tudo extremamente original. Refiro-me à força expressiva de suas descrições, capazes de transmitir ao leitor a visualização do que ocorre à personagem em suas mínimas ações, gestos, movimentos etc., bem como do ambiente que serve de cenário a cada cena do livro: "Começou a me incomodar que nem quadro torto na parede, começou a me dar nos nervos uma lacuna acintosa na penúltima prateleira. Olha ali, falei para Maria Helena, que olhou para trás e não viu nada de mais. E afinal não era mesmo nada grave, apenas um livro que fora retirado havia pouco, dentre dois volumes que agora se tocavam no topo e não na base, como dois amigos que se beijam sem se abraçar".
 
Numa busca obsessiva do irmão, Chico de Hollander (é como se chama no livro), ou Ciccio, transita entre ângulos possíveis de uma irrealidade que enche de poesia e sortilégio este belo exemplo de romance moderno com que nos brinda o gênio Francisco Buarque de Hollanda. E que pode vir a se tornar o livro de sua vida, como homem e como escritor.
 
 
 
 
 

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