Entre um vinho e outro

Noite dessas, entre um vinho e outro, hóspedes de Ticiana Fiuza, na aprazível casa da Taíba, Cesar Rossas e eu, como é praxe, nos dedicamos a um dos nossos programas favoritos: discutir cinema e recordar cenas inesquecíveis de clássicos da sétima arte.
 
 Vira e mexe, natural, a discussão fica acalorada e nos divertimos muito com impagáveis polêmicas, que dão sempre, é óbvio, em sonoras gargalhadas. A uma dada altura, vem à tona Tim Maia, Não Há Nada Igual, a cinebiografia de Mauro Lima plasmada no livro Vale Tudo, o Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Mota.
 
Numa coisa concordamos: o filme de Mauro Lima, que já nos brindara com Meu nome não é Johnny, convence, mesmo para os parâmetros do 'grande' cinema americano e europeu. Com um rigor técnico notável e uma construção narrativa bem estruturada, Tim Maia conta a história de um dos mais carismáticos artistas brasileiros desde a infância pobre até sua morte aos 55 anos de idade. Sem esquecer, claro, sua marcante passagem pelos Estados Unidos, onde, além de aprender um inglês escorreito, aprimorou seus privilegiados recursos vocais.
 
Mas o faz, para o que considero em certa medida redundante, explorando sobremodo o lado tortuoso do caráter de Sebastião Rodrigues Maia, não dando voz, literalmente, ao artista extraordinário que seus admiradores por certo gostariam de ver num ou noutro momento do filme. A sensação que resulta disso, para o espectador mais atento, é a de que o diretor da cinebiografia de Tim Maia, decorridos 16 anos da morte do cantor, se preocupou em tornar o filme mais atraente para o grande público  --  bilheteria, numa palavra. Sem comprometer, como dissemos, a qualidade da produção em seus 140 minutos de duração.
 
O fato, contudo, ainda mais se evidencia quando se sabe que o filme tem muito de ficção, como o próprio diretor afirmou em entrevista recente. Desse modo, pouco mostra da genialidade de Tim Maia, que transita, como se sabe, com a mesma segurança e originalidade do romântico pop ao mais refinado soul à Little Richardson e Chuck Berry.
 
Se o desafio seria maior para as limitações de Babu Santana, que interpreta o Tim Maia dos anos 70, em nada empobreceria o seu belo filme se Mauro Lima lançasse mão de documentos em que o próprio cantor usa e abusa de sua poderosa voz. Em tempo, é elogiável como Santana conseguiu elaborar bem a personagem, mimetizando à perfeição a malemolência e os trejeitos de Tim Maia.
 
Tim Maia, Não Há Nada Igual, em linhas gerais é um filme excelente, e guarda momentos memoráveis da biografia do irreverente Tim, mesmo quando, num golpe arriscado, abre espaço demasiado amplo para figuras marginais do núcleo dramático central do filme, como nos parece ser o caso do cantor Roberto Carlos. São demoradas (e recorrentes) as sequências em que o Rei como que toma conta da história, o que, em mais um aspecto, denuncia a ligeira vocação comercial do filme de Mauro Lima.
 
 

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