Na dimensão da eternidade

"Não temo a morte: prefiro esse fato inelutável ao outro que me foi imposto no dia do meu nascimento. Que é a vida?" As palavras de Omar Kháyyám, muitas vezes ribombeiam no meu pensamento sempre que vejo a vida violentada pelos crimes de toda ordem, pelo egoísmo que impera aqui e além, pela inveja que embrutece os homens e a falta de escrúpulos em quase todas as ações, num mundo de valores revirados. Na Antiguidade, todos sabem, um filósofo foi encontrado conduzindo uma lanterna acesa à luz de pleno dia. Quando lhe perguntaram o que fazia, foi taxativo: - "Estou à procura de um homem, mas não encontro." Aludia ao fato de que em torno, já à época, multiplicavam-se os indignos, os usurpadores, os ladrões de objetos e consciências.
 
Nos dias de hoje e em proporções alarmantes, na tevê, nos jornais, o que vemos é a indignidade tomar conta da sociedade, os políticos à frente, com raras exceções. Nesse contexto, nessa realidade que muitas vezes nos leva a questionar o sentido da vida, neste tempo de contradições, a existência de um ou outro grande homem é o que faz a diferença, restituindo-nos a crença na possibilidade de um mundo melhor. O ex vice-presidente José Alencar, falecido em inícios da semana, é um desses exemplos de correção humana que nos redimem ante a desesperança e o caos. Como empresário, dos maiores do país, ou como político, emblemático em suas ideias e em suas ações, como que humilhava, sem que tivesse a intenção, pelo contraste dos valores que a sua presença impunha, alguns políticos com os quais convivia, por força da missão assumida.
 
Mas era o homem, o cidadão, no abismo entre a saúde e a doença, que se faria maior. Assim, como a cumprir uma outra missão, a de ensinar aos homens nas adversidades mais duras, fez a travessia de uma longa noite de agonia, sem jamais, contudo, perder a serenidade, a fé em Deus, a esperança da vitória sobre o mal que o corroía por dentro. Nesse sentido, comoveu um país inteiro, de ponta a ponta, com o seu exemplo de homem ungido por sublimes mãos. E não me refiro ao povo, na sua natural tendência para a comoção diante do martírio de uma celebridade. Na quase solenidade de um estilo, José Alencar fez-se unanimidade e desfez as divisas das ideias e dos interesses, aproximou distintos sob diferentes aspectos.
 
Do médico Raul Cutait, que o acompanhou por todos esses anos de sofrimento, veio a declaração: - "No Brasil, acho que José Alencar foi o exemplo público máximo de comportamento aberto, dividindo sua doença e seus sentimentos com a população em geral." Foi além, numa constatação comovente:- "Não é exagero dizer que suas atitudes diante da doença, da vida e da morte marcaram também muitos de nós, seus médicos." Cutait ainda se reportou a uma cena inesquecível, quando, diante da inquietação dos seus familiares, momentos antes de uma cirurgia de alto risco, foi assertivo: - "Não quero clima de velório, mas de natalício." É que Alencar nascia a cada nova cirurgia, de que saía, invariavelmente, desafiando o improvável, mais fortalecido e mais esperançoso.
 
A luta, contudo, mesmo para o exemplar guerreiro -- todos sabiam! -- , era desigual, e havia um desfecho esperado. Há homens, felizmente, para os quais a morte, qualquer que seja a sua compreensão, é coisa menor e menos importante, porque renascem, vivem e revivem, com o exemplo que deixam, na dimensão do que talvez possa ser definido como a eternidade. José Alencar é um desses!

O fim do amor romântico

A propósito da coluna sobre infidelidade feminina, leitora pede que discorra sobre o título. Diz ela: "Por que bovarismo?" Como se diz tanto em mais um aleijão linguístico brasileiro, 'então'... bovarismo é um termo cunhado pelo francês Jules Gaultier, inspirado no romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, para definir o descompasso entre o sonho (sempre maior do que as possibilidades concretas da pessoa) e a realidade. Os dicionários trazem normalmente, com pequenas diferenças, a seguinte definição: "Insatisfação romântica que consiste em querer evadir-se de sua condição, adotando uma personalidade idealizada, como fez a heroína do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

Usei-o, na minha crônica, por considerar que a insatisfação da mulher no casamento, decorridos alguns anos de convivência, pode em parte explicar a busca de aventuras fora do relacionamento. Aliás, obra do acaso, deslocando-me de carro até o trabalho, ouço no rádio uma pesquisa ainda mais curiosa -- se não hilária --, cujo conteúdo reproduzo aqui: "Três razões explicam de forma recorrente os casos de adultério: ganho de peso, ronco e desinteresse pelo sexo." A que ponto não estamos chegando! Pois é, o cara engorda, em decorrência ronca que nem um leão e, depois de anos com a mesma mulher, vai perdendo o interesse... Carente, a mulher busca um parceiro mais 'atuante'...

Bovarismo, insisto. A história, contudo, lembra-me uma outra: Calvin Coolidge, presidente dos Estados Unidos entre 1923 e 1929, visitava com a mulher uma granja, quando esta, ouvindo do fazendeiro que um touro era capaz de cobrir uma fêmea quarenta vezes por dia, não se conteve e falou: - "Por favor, conte isso para o meu marido." O fazendeiro atendeu ao seu pedido, mas o presidente americano, mais curioso ainda, indagou se isso acontecia com a mesma vaca, ao que o homem respondeu: - "Não, claro que não, com uma vaca diferente de cada vez." Coolidge, então, pede-lhe: - "Por favor, conte isso para minha mulher."

Tolices à parte, a edição de O Povo, desta segunda-feira 22, traz uma entrevista curiosa com a psicanalista Regina Navarro Lins, para quem o amor romântico está com os dias contados. Diz ela: - "A ideia de que um único parceiro possa satisfazer todos os aspectos da vida [do casal] pode se tornar coisa do passado." Sem meias-palavras, o que afirma a estudiosa é que cada vez mais um maior número de pessoas vai optar pelas relações múltiplas. E não foi assim com Emma Bovary?

Como um dos objetivos da coluna é animar culturalmente, minha cara leitora, recomendo-lhe ir para além do livro de Flaubert, que você diz querer ler por esses dias. Tempinho livre, aproveite para ver a adaptação de Claude Chabrol para o cinema. Na França da segunda metade do século XIX, visando ascender socialmente e ávida leitora de romances sentimentais (bem na linha do que mostram as novelas da tevê dos nossos dias), insatisfeita com a mediocridade da vida conjugal, como fuga da realidade, a heroína vai à procura dos seus muitos amantes. Até se matar, igualmente frustrada e depois de vender a alma ao diabo, ingerindo um punhado de arsênico. O drama psicológico de Emma, a ciclotimia típica da esposa insatisfeita, o martírio humano elevado a dimensões insuportáveis, minuciosamente respeitados por Chabrol. Um belo filme, com uma interpretação irrepreensível de Isabelle Huppert.

Bovarismo

Sexo, traição, triângulos amorosos e outras excentricidades que dizem respeito às relações passionais sempre tiveram seu público -- e disso tudo, diga-se em tempo, a literatura tirou ingredientes para grandes romances. Mas agora, ao que se vê, é matéria de que também não abre mão a grande imprensa, televisão e revistas à frente. Em edição da semana, a revista IstoÉ divulga pesquisa que invade as rodas femininas como assunto da vez. É o que concluo de três ou quatro 'grupinhos' em cujas mesas sentei, durante o fim de semana. Hilário! Ou não, como diria Caetano.

Passo na banca e compro o meu exemplar, que não sou de entrar em jogo sem ficha. Está lá, no lead de uma das matérias centrais: "Pesquisas indicam que a infidelidade feminina quase dobrou em uma década e que ciúme e carência são os principais motivos." Que os motivos arrolados são mesmo procedentes, já se sabe, e, mais de uma vez, escrevi sobre isso. A novidade, se há novidade numa prática tão antiga quanto a existência da própria mulher, é que a coisa vai tomando foros de banalidade. E, como afirma Ernesto, amigo meu, o negócio está deixando a "homarada" de cabelo em pé. Vamos ao que diz a pesquisa.

Segundo dados da Fundação Perseu Abramo e do Sesc, ouvidas 2.365 brasileiras, 12% afirmaram já ter tido pelo menos uma experiência fora do relacionamento 'oficial', contra 7% da pesquisa anterior, há dez anos. Não é pouco. Outro estudo, diz a revista, levado a efeito sob a orientação da prestigiada médica Camila Abdo, traz números ainda mais 'assustadores' (ou preocupantes, como quer Ernesto, um machista assumido). Os resultados estão sob o domínio de uma das mais respeitadas universidades brasileiras, a USP, e indicam: metade das mulheres ouvidas em levantamento do Prosex, um projeto ligado à sexualidade, do Curso de Medicina, já pulou o muro. Por quê?

A tomar por base o conteúdo das declarações, algo em torno dos 35% das mulheres ouvidas trairam por vingança, tão-logo souberam que o companheiro mantinha relações fora do relacionamento. Ou seja: a mulher descobre que o parceiro anda se danando e logo sai à procura de quem queira provar do fruto proibido. O pior: como a coisa tem gosto de novidade, carregada daquele tempero de todo começo de relação, acaba gostando e a tendência é que os encontros se tornem frequentes com o passar do tempo. Resultado: surge a paixão e... Aí todos sabem.

A propósito, a revista cita um livrinho da antropóloga Mirian Goldemberg que li outro dia, e que, dado algum desconto, recomendo para os meus leitores. Porque os homens e as mulheres traem é o título, e, nele, a autora faz uma leitura mais consistente do fenômeno. Para ela, as mulheres afirmam ter sido empurradas para os braços de outro homem por vingança, mas é a atração física exercida pelo amante que leva à traição. Segundo Mirian, falta coragem à mulher para assumir essa realidade, decorrência dos valores morais a que foi submetida através dos tempos. O certo é que o assunto volta à pauta de forma ainda mais impactante. Pelo que sei, cresce, cada vez mais, o contingente de mulheres para as quais é crônica a incapacidade de separar a fantasia da realidade, o mundo em que estão daquele que veem nas novelas de tevê e nos big brothers da vida. De Flaubert, ao meu ver, ainda vem a explicação mais convincente. É ler ou reler Madame Bovary.

Pelos novos caminhos da História

Se não me engano, está num dos livros de Erwin Panofsky o fato a que me reporto: já idoso e adoentado, o filósofo Immanuel Kant recebe a visita do seu médico. Como insistisse em ficar de pé, seu visitante compreendeu que ele não se sentaria até que a visita o fizesse primeiro. Só então Kant ocupou um assento e murmurou as seguintes palavras: - "O senso de humanidade ainda não me deixou". Embora a palavra humanitä tivesse à época, no século XVIII, o sentido de polidez, civilidade, o filósofo por certo a usara com o significado mais profundo que o termo possui, algo como a trágica e orgulhosa consciência dos princípios humanos mais nobres, mais elevados, mesmo quando o tempo já impôs ao homem suas marcas naturais.

O fato me veio à mente tão-logo concluí, como que encantado, a leitura do maravilhoso Iguatu, pelos novos caminhos da História, com que Wilson Holanda Lima Verde presta mais um inavaliável serviço à inteligência de nossa terra. Com uma bem cuidada edição, confiada à Expressão Gráfica Editora, o livro é um apanhado expressivo de alguns dos fatos mais marcantes da história de Iguatu, com farta referência a muitos dos filhos ilustres do município, entre os quais, num gesto de pura cordialidade do autor, figura o meu nome ao lado de personalidades realmente importantes da nossa vida intelectual, social, econômica e política.

De expoentes da música popular brasileira, como Evaldo Gouveia e Humberto Teixeira, ou erudita, como Eleazar de Carvalho, passando por talentos do teatro e do cinema, como Pedro Lima Verde, ou da filosofia, como Alcântara Nogueira, a políticos atuantes como Elmo Moreno, Roberto Costa e Hildernando Bezerra, sem esquecer mitos como Adahil Barreto Cavalcante e Manuel Carlos de Gouvêa, todos filhos de Iguatu, a pesquisa ora publicada em livro por Wilson Lima Verde constitui relevante contribuição para o resgate da nossa memória histórica, não raras vezes negligenciada pelas autoridades constituídas.

Na linha do que professara Ortega y Gasset, para quem "a história é a realidade do homem, outra não há, e negar o passado é absurdo e ilusório, porque o passado é o natural do homem que volta a galope", na defesa de um princípio de humanidade a que me refiro acima, o livro Iguatu, pelos novos caminhos da História, de Wilson Holanda Lima Verde, já nasce clássico, alargando o cânone inaugurado por Alcântara Nogueira com Iguatu -- e há pouco enriquecido com importante pesquisa de seu primo José Hilton Montenegro acerca da linha férrea.

Para não falar do estilo, elegante, enxuto, escorreito com que tece o seu texto inconfundível. Em tempo, reclamo do historiador não ter, a respeito deste colunista, acrescentado uma informação relevante: de que lhe devo muito pelo incentivo e pelo exemplo de amor aos livros, em que tanto mirei.

Colette, sem apologia da transgressão

"Entre o real e o imaginado, há sempre o lugar da palavra, a palavra magnífica e maior que o objeto."
(Colette)
À procura de um mote para a coluna alusiva ao Dia Internacional da Mulher, tenho a curiosidade de ler Histórias de mulheres, de uma das minhas escritoras atuais preferidas, a espanhola Rosa Montero, sobre quem já escrevi mais de uma vez neste espaço. Como tudo que escreve, a exemplo de Paixões e o imperdível A louca da casa, para citar dois de que mais gosto, o livro é delicioso, em que pese discordar da 'seleção' de mulheres feita pela autora. Conversando sobre isso, outro dia, alguém me perguntou: - "Quem você escolheria para figurar no livro, além das que lá estão?" Veio à boca, num segundo, o nome de Colette, que ninguém à mesa conhecia.

Sidonie Gabrielle Claudine Colette, como se chamava, nasceu na Borgonha, em 1873. Em menino, lembro que alguns de seus livros fizeram sucesso no Brasil. Hoje, confesso, acho que não se encontram em tradução e os li, pela primeira vez, quando de uma viagem à França. Gigi e Chéri, que, já à época, causaram-me admiração, sobretudo pelo estilo, prodigiosamente carregado de imagens. A propósito, não faz muito, Julia Kristeva, a prestigiada psicanalista e linguista, publicou O gênio feminino, a vida, a loucura, as palavras, em que analisa a força de sentidos e de linguagem com que Colette explora o tema da sexualidade, o que, como diz, proporciona "experiências metafísicas no leitor". É verdade.

A vida de Colette, vim a saber depois, quando li Colette, uma biografia, de Allan Massie, adquirido como raridade num sebo, em Piracicaba, foi de fato marcada por experiências no mínimo extravagantes para a França ainda controlada pelo Código Napoleônico em que viveu entre 1873 e 1994, conservadora e falocêntrica. Teve amantes, homens e mulheres, protagonizou cenas de lesbianismo em espaço público, impôs-se diante dos maridos e exerceu cargos profissionais, então, impensáveis para mulheres, como o de repórter.

Mas, o que me parece curioso, jamais se permitiu ser usada como porta-voz de movimentos sexistas. As suas transgressões tinham um feeling diferente, faziam parte de um projeto interior de vida independente, livre de qualquer orientação exterior. Nesse aspecto, foi além, por exemplo, da escritora Simone de Beauvoir, uma das eleitas no livro de Rosa Montero. Nas obras que criou (e que tinham muito de projeção autobiográfica, claro!), pontuam casos de adultério, amores impossíveis, relacionamentos espantosamente desiguais do ponto de vista da idade dos amantes, extravagâncias a granel. Tudo, no entanto, narrado com o estilo sedutoramente poético - a palavra precisa, como a despertar cheiros e sabores -, que se tornaria uma de suas marcas como ficcionista.

Não à toa, sua vida e sua obra têm inspirado inúmeras adaptações para outras linguagens estéticas, como filmes e musicais. Seu último livro, Gigi, produzido pouco antes de morrer, aos 72 anos, supostamente é uma dessas adaptações mais conhecidas. Mas, a fim de que não me entendam mal, o fato de escolhê-la para motivo de uma crônica em homenagem à mulher, na contramão do que exorbita nos seus romances, prende-se ao fato de que Colette, com um talento e uma determinação em tudo impressionantes, foi um ser humano para além de qualquer limite de tempo e de espaço. Como poucos (poucas?) foi capaz de enfrentar e vencer um mundo desumanamente masculino.