A bela construção de um mito

Leitor me envia e-mail com texto supostamente escrito por uma psicóloga a respeito do filme Cazuza, de Sandra Werneck e Walter Carvalho. Entre outras coisas, o que se pretende um manifesto em favor da família, traz afirmações do tipo: "[...] reverenciar um marginal como ele [Cazuza] é no mínimo inadmissível." E vai além, cuspindo à direita e à esquerda expressões gratuitamente agressivas contra o poeta precocemente falecido. Chama-o, sem meias-palavras, de marginal, traficante, criminoso e outras coisas do gênero. Compara-o, reeditando afirmações de um juiz de nome Siro Darlan, com Fernadinho Beira-Mar, de quem se diferenciaria tão-somente por ter nascido na Zona Sul do Rio de Janeiro. À dada altura, comete um erro leviano de interpretação do filme ao afirmar: "Precisei conversar muito com ela [a filha com quem diz ter assistido ao filme] para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais e beber até cair e outras coisas fossem certas, já que é isto que o filme mostra."(sic)

Li a baboseira e fui rever o filme em DVD. Não há qualquer incitamento à vida desregrada, como quis a mãe 'aflita'. Pelo contrário, o filme mostra com honestidade a trajetória infeliz do cantor, o que, conversei sobre isso com uma filha adolescente, antes adverte os jovens para a roubada que é a droga, qualquer que seja. Até nesse sentido, portanto, o filme merece aplauso. É ético, responsável, decente. Mas é arte, e como tal explora em profundidade o drama humano, o realismo duro da vida de um astro. Acima de tudo, no entanto, um belo filme sobre a música, com algumas sequências que merecem figurar no conjunto do que se fez de melhor no cinema brasileiro.

A cena em que Cazuza, durante um show, depois de se desentender com Frejar (que lhe causara numa discussão um ferimento sério), sob o efeito mágico da música, beija-o, como se nada houvesse ocorrido, é uma lição sobre o perdão, de amor a amizade e o que ela representa na vida dos homens. Ou outra, quando dá um beijo no garçom para agradecer por levar à mesa o AZT que a mãe lhe enviara. Com rigor estético, é esse menino intenso, visceral e docemente perdido que o filme nos apresenta. Não outro, o marginal criminoso do tal manifesto em defesa da família. A cena em que Cazuza e o pai, já na fase da agonia do artista, choram abraçados, compulsivamente, é uma aula de psicologia sobre o afeto e a dor que, nas circunstâncias do filme, parece unificar os dois.

A direção de arte, a poesia que emana dos diálogos, por pesados que sejam num e noutro momento do filme, a iluminação que beira a perfeição e a beleza da trilha, que se confunde em diegese e extradiegese* com a mesma força e o mesmo encanto, são elementos arrebatadores, de um romantismo grandioso, que nada justifica a leitura ingênua (mal-intencionada?) da psicóloga carioca. Para não falar do roteiro, que busca com correção acompanhar a dramática trajetória percorrida pelo jovem poeta. E consegue.

Nesse sentido, aliás, a montagem é irrepreensível, os planos têm a duração precisa, as cenas obedecem a um critério narrativo incomum para filmes do gênero, nos quais o dinamismo das tomadas e o movimento vibrante das imagens quase sempre dificultam o perfeito entendimento do argumento. A tudo, soma-se a interpretação brilhante de Daniel Oliveira e Marieta Severo nos papeis principais. Como observou Caetano Veloso, à época do lançamento, sobre o filme, com Cazuza o Brasil "soube dar consistência à construção de seus mitos."

* Diz-se diegético, quando está dentro da história. Os shows de Cazuza, durante o filme, por exemplo. Extradiegético, quando apenas ilustra a imagem como trilha sonora do filme.









De volta à escuridão

Sinto decepcioná-los, mas minha consciência manda revelar: ando um tanto apaixonado pela música de Amy Winehouse. Antes de parar para escrever esta coluna, fiz minhas as palavras da cantora inglesa numa entrevista que li há pouco: "Oh, meu Deus... O que há de errado comigo? Tem (sic) alguma coisa errada comigo." Pois é. A insistência das execuções no rádio e na tevê, desde sua morte há coisa de um mês, mais o estímulo da minha filha Carol, que sempre a admirou muito como cantora, fizeram-me atentar para a qualidade musical do seu trabalho e, acima de tudo, a força dramática de sua interpretação. Impressionante.

Não bastasse a tristeza que é saber da morte de uma jovem talentosa (e de forma revoltante), o que, por si só, já comove o coração da gente, com o passar dos dias - reforço! -, fui percebendo o que a obra da cantora, interrompida tão prematuramente, representava do ponto de vista estético. Daí a querer saber um pouco mais sobre ela, como foi sua vida, que tipo de educação recebeu dos pais, como dizia a minha mãe, 'foi um pulo'. E logo me descobri lendo o que me chegava às mãos sobre Amy, assim, com muita intimidade. Amenidade à parte, na contramão do que sempre achei que ocorresse aos jovens vitimados pela droga, Amy Winehouse teve uma vida familiar tranquila, sem traumas vindos da infância.

Ela nasceu e cresceu numa família israelita, em Southage, nos arredores de Londres. Tinha com o pai uma relação carinhosa, um pouco menos com a mãe, a quem descreve como fria diante da sua presença: - "Quando eu era pequena, se entrasse num cômodo em que meu pai estava, ele me beijava e fazia carinho. [...] ela era um pouco menos", disse, já adulta. A imprensa, aqui se excluindo os tabloides sensacionalistas, deu a ver que, por trás do mito, nada houve de muito anormal que pudesse levar Amy ao desajuste psicológico que marcaria tragicamente seus últimos dias. Fala-se, e é este o argumento mais aceitável, que teve uma vida amorosa complicada, sob o domínio de um psicopata por quem teria sido apresentada às drogas. Nada disso importa mais, Amy Winehouse morreu da forma mais revoltante, aumentando a constelação dos astros atormentados que cairam na mesma roubada, a exemplo de Hendrix, Joplin e Holiday.

O fato é que tenho ouvido muito a sua música, em casa, no carro, a caminho do trabalho, em todos os lugares em que um pouco de música e um coração pulsando nos ajudam a tocar a vida, a vivê-la com mais amor e da forma mais saudável. Como em milagre, a mesma música que não foi o bastante para aliviar as dores e a falta de esperança de uma jovem tão bonita, sensível, vibrante como a autora das belíssimas Love is a losing game e Back to black. Agora, Carol, filha querida..., agora entendo por que Amy Winehouse, com sua voz, cobriu o mundo como um tsunami. Que pena que tudo tenha terminado assim.

Benignos com o amor

A propósito da crônica Perdas e Danos, publicada há coisa de uns quinze dias neste espaço, leitora envia a seguinte mensagem: - "Dessa vez foi benigno com o amor, mais do que com a coisa amada. O sfumato se dá com o objeto amado, já com o amor..." (sic). O texto dela, como se vê, embora reticente e 'estiloso', é de uma pertinência que bem revela a delicadeza e a sensibilidade da leitora, seja ela quem for. Vejamos: em que pesem as reticências, a lógica do significante textual remete a uma afirmação absolutamente correta, "Esquece-se a pessoa amada, nunca o amor." Assino embaixo.

Mas, observando uma praxe da prática jornalística, que admite sempre que o leitor de agora pode desconhecer o texto anterior, resumo o que dizia a tal crônica sobre a cena final do filme Perdas e Danos, de Louis Malle. A imagem desfocada da mulher que foi amada um dia, aos olhos de quem superou a dor, é uma metáfora do esquecimento, que o tempo impõe, felizmente, aos que não foram felizes no amor. O comentário da leitora, assim, insisto, não nega o que está na crônica, mas enriquece o seu texto, quando afirma, embora de forma reticente: nunca se esquece o amor, se ele foi grande um dia. Bate.

Na coluna da semana passada, por coincidência, citávamos Quintana, o poeta: "Que importa se só restaram cinzas, se a chama foi alta e bela?" Parabéns, leitora, você foi no nevrálgico da questão. É que a pessoa, vemos com os olhos, o amor, com o coração. Um dia, no happy hour de um barzinho, no semáforo da esquina, na mesa de canto de um restaurante..., assim, sem que esperássemos, deparamos com a pessoa por quem fomos capazes de morrer um dia. E, no entanto, como na imagem do filme de Malle, já não a reconhecemos com as mesmas qualidades que possuia o objeto do nosso amor. Mas, do amor, nunca nos esquecemos. Ele vai ter, num escaninho da memória, um lugarzinho que é só dele, onde ficará para sempre.

Que bom que é assim e não de outra maneira. A cada nova relação, uma nova chance de ser feliz no amor. O que não é saudável, como num filme de Rohmer*, é que se fique escravo do que passou, por mais inesquecíveis que tenham sido as coisas que se viveu a dois. A vida muda, como as penas do pássaro, a roupagem da flor, ou, como dizia Déborah, um ex-amor, até mesmo a beleza dos corpos, em fino pó que não tem cor. Rima à parte, é isso, minha cara leitora. Sejamos benignos com o amor.

* Refiro-me ao cineasta francês Eric Rohmer, especialista em discutir a fé desesperada na possibilidade de reencontro com o amor perdido.

O amor que não se acaba

Que importa restarem cinzas, se a chama foi bela e alta?
(Mário Quintana)

Todos os gestos de amor me comovem. Por isso me comoveu tanto a leitura do romance O Ostensório do Amor, o novo livro de Mary Anne Bandeira. Por que a obra dela, para além das muitas outras qualidades que tem, é, antes de qualquer outra coisa, isto: um gesto de amor. Li-o de um folego, assim numa entrega absoluta de corpo e de espírito. E fechei o livro, passada a última folha, com o coração exultando de contentamento. Não lembro de outra obra que venha em momento tão oportuno, para reacender lembranças e gratidão que o tempo, impiedosamente, vai apagando.

Vi a autora desse belíssimo O Ostensório do Amor crescer. Minto. Cresci ao seu lado, na convivência saudável de nossa infância na vida vidinha do interior, de um Iguatu que já não existe, que é apenas, como quis o poeta, "um retrato na parede. Mas como dói."

O livro, num estilo que está a meio caminho entre a biografia e o romance propriamente dito, foi escrito com tamanha elegância e com tal domínio de linguagem para o que se propôs, que, tendo-o às mãos, a exemplo do que me ocorreu há pouco, não se consegue deixar de percorrer as suas 209 páginas, até darmos com o fecho certeiro com que Mary Anne encerra a sua comovente história, afirmando, sobre o protagonista, aquilo que todos sabem: Aluísio Moreira "em algum lugar do universo está vivo no amor de Deus."

Num detalhe de uma vida tão rica e tão exemplar, na breve narração de um fato, nos vários depoimentos que o livro resgata, vamos compondo e recompondo as nossas recordações do professor Aluísio Moreira, esse homem iluminado, essa bondade personificada com que tive a alegria de estar tantas vezes, como colega de trabalho e como amigo.

A história de amor de Aluísio e Íris, irmã de Mary Anne, precisava ser mesmo contada, assim como o fez a talentosa prima, amiga e conterrânea. Seu texto flui, sem outra preocupação que não seja a de ser verdadeiro, fiel aos fatos e honesto para com as pessoas que aparecem numa ou noutra página, e que tiveram o privilégio de fazer parte da vida desse casal admirável. Um homem e uma mulher unidos por fortes laços emocionais, pelo poder do amor e da fé. Dois seres que nem mesmo a morte foi capaz de separar: por isso, como está no livro, decorridos tantos anos, Íris "arruma-se e perfuma-se como se fosse para ele, ainda bela!"

Bela, como será para sempre.