O Negro no Futebol Brasileiro

Leitora me manda de presente o raríssimo O Negro no Futebol Brasileiro, de Mario Filho. O livro é uma preciosidade e me tragou por completo desde folheadas as primeiras páginas. Mario Filho, cujo nome está imortalizado no Maracanã, maior e mais importante estádio de futebol do país, foi o mais famoso cronista esportivo brasileiro, morto em 1966.

O livro, numa prosa elegante e expressiva que consagrou o seu autor, traz a trajetória do negro no futebol brasileiro, as dificuldades e preconceitos que marcaram a sua presença nos campos e fora deles a partir de inícios do século XX. Não à toa, pois, é considerado um trabalho tão importante quanto os clássicos Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. ou Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda. Sim, não estou exagerando, haja vista que o levantamento realizado por Mario constitui uma contribuição relevante para o conjunto de obras já escritas sobre o caráter nacional brasileiro. O faz com um rigor e uma maestria dignos dos nossos mais importantes intérpretes da identidade nacional, sendo, pois, um livro indispensável.

Ao lado de trazer histórias por demais curiosas sobre o esporte bretão no Brasil, como o fato de que era comum jogadores beberem repetidas doses de cachaça minutos antes das partidas, o livro de Mario Filho confirma o preconceito racial reinante entre nós e tantas vezes encoberto mesmo por autores da estatura de Gilberto Freyre, a quem se devem algumas das páginas mais brilhantes acerca da formação do país. E quase nunca exploradas pelos historiadores do nosso futebol, diga-se em tempo.

Sobre a derrota para os uruguaios em 1950, por exemplo, de que resultaria um dos traumas mais profundos de nossa identidade futebolística (o surgimento do complexo de vira-lata do brasileiro, segundo Nelson Rodrigues, irmão de Mario), o livro evidencia o quanto a questão racial aflorou nos meses que se seguiram àqueles inesquecíveis 2 a 1: a responsabilidade pela derrota, inclusive pela imprensa especializada, foi enfaticamente atribuída aos jogadores negros do escrete brasileiro, nomeadamente Barbosa, Juvenal e Bigode.

Sobre o último, famoso pela valentia, Mario fornece um detalhe do jogo com o Uruguai absolutamente estarrecedor, que serviria para 'justificar' os comentários preconceituosos dirigidos ao nosso zaga: "Quando Bigode, duro, dando aqueles botes de cobra, começou a dominar Gigghia, Obdúlio Varela primeiro foi para cima de Gigghia. Deu-lhe uns gritos, uns empurrões. Para Gigghia deixar de ser covarde. Depois, logo em seguida, Obdúlio Varela agarrou Bigode pelo pescoço. Não lhe meteu a mão na cara. Mas que o balançou em safanões, balançou".

O fato é que, deixado de lado o preconceito inaceitável, mesmo para Mario Filho, o fato teria sido quase decisivo, posto que Gigghia passou a levar vantagem nas disputas com Bigode. Este, orientado a não reagir às agressões do time uruguaio, passou a zonzar em campo, humilhado diante de duzentos e vinte mil brasileiros. Dou a palavra ao escritor: "[...] com as faces ardendo de vergonha, contendo-se, Bigode não dominou mais Gigghia. Os dois gols uruguaios saíram dos pés de Gigghia. Bigode, sempre recuando, não se atrevendo mais a dar o bote de cobra com os pés juntos". À época, o popular 'carrinho' era um recurso legítimo e uma das armas defensivas do jogador brasileiro.

Para fechar a coluna, ainda pela pena de Mario Filho, autor do belo O Negro no Futebol Brasileiro, deixo ao leitor a mais triste página da história do Brasil nas Copas: "Gigghia chutou para o gol. A bola ia para fora, para as redes do lado de fora. Barbosa, porém, atirou-se e, quando sentiu que a bola passara, levou a mão esquerda para trás, para puxá-la, como às vezes fazia. Em vez de puxá-la, o que fez foi desviar-lhe o caminho, de fora para dentro do gol".

Grua, revista de estética do filme

Com chefia editorial deste colunista e do crítico de cinema Régis Frota, chega às bancas e livrarias da cidade Grua, Revista de Estética do Filme. A publicação, que circula com o número experimental, traz como matéria de capa Bergman: O Aniversário de Um Gênio, em homenagem ao cineasta sueco, que contaria neste mês de julho 94 anos. Além disso, Grua apresenta artigos assinados pelos principais cinéfilos do Estado, entre os quais figuram nomes de primeiro time, a exemplo de L.G. de Miranda Leão, Dimas Macedo e Walter Peixoto.
 
Este cronista assina o artigo A Alegoria Platônica de Abbas Kiarostami, uma análise do filme Cópia Fiel realizada a partir do Mito da Caverna, de Platão. Entre os colaboradores, artistas e intelectuais de peso, como Bráulio Tavares, renomado poeta e cineasta paraibano, com um belo e profundo artigo sobre o filme Alphaville, de Jean-Luc Godard.
 
A revista terá periodicidade quadrimestral e vem preencher uma lacuna já há muito tempo reclamada por jornalistas, críticos, estudiosos e amantes da sétima arte. O número "0", com que Grua vem a público, pretende difundir o hábito de assistir a filmes e saber vê-los com um mínimo de competência estética, embora estejamos comprometidos em manter um nível de análise compatível com o grande público. Não se trata, pois, de uma publicação destinada a especialistas de cinema, mas, sim, a um público realmente interessado em desenvolver a sua capacidade de depreensão de uma produção cinematográfica mais exigente.

No cinema, 'grua' é o nome que se dá ao conhecido guindaste que permite ao operador de câmera, em gangorra  --  e sob a batuta do diretor do filme  --, realizar aqueles movimentos nunca imagináveis pela complexidade de enquadramentos e ângulos de gravação pretendidos. Alguns diretores, a exemplo de Alfred Hitchcock, acompanhavam esses movimentos de cima do equipamento, numa época em que a tecnologia do cinema não permitia, ainda, a visualização das filmagens em tempo real. Com algum saudosismo, portanto, para nós da revista, a palavra constitui uma metáfora, para sugerir o movimento que haverá de orientar sempre o nosso olhar sobre a sétima arte.

Para os que fazemos GRUA, A Revista de Estética do Filme, desde seu número zero, Grua significa movimento, imaginação, criatividade cinematográfica, brilho nos olhos, objeto de nossas análises do cinema e dos filmes que vemos e adoramos, o compartilhamento com os leitores e espectadores da magia do cinema, hoje, ontem e sempre.

 

 GRUA sabe que o cinema é o pensamento inscrito na tela que dá sentido ao mundo pela imagem, e como diz Enéas de Sousa (Trajetórias do cinema moderno, Porto Alegre, 2007, prefácio à terceira edição) o crítico de cinema é como um frequentador de bares, um bêbado, mas que se mantém sóbrio até a "saideira", até o último copo. Tratamo-nos de uns viciados, drogamo-nos com Bergman, com Jean-Luc Godard, com Kiarostami, com François Truffaut. Esta revista, pois, é um tipo de cortesia aos amantes do cinema do Ceará e, em breve, do Brasil inteiro. Acreditem!

 

 

 

Para seguir minha jornada

O livro é de 2011, mas só agora pude me dedicar a lê-lo. Esplêndido, não há palavra mais precisa para dizer das minhas impressões! Trata-se do mais completo e criterioso levantamento já realizado em torno da vida e da obra de Chico Buarque de Hollanda. Tudo feito com o carinho e o bom gosto de uma jornalista talentosa e, como a maioria dos brasileiros que conhecem a obra do artista, fã de carteirinha desse gênio nascido em 1944, no Rio de Janeiro. Regina Zappa já escrevera, por sinal, uma biografia anterior, mas nada que se possa comparar com esse seu último mergulho no universo buarquiano.
 
Para seguir minha jornada, como se intitula, nasceu, segundo a autora, de uma conversa sobre o Brasil de Chico Buarque, mais precisamente sobre tudo (ou quase) que se publicara sobre o compositor nas décadas de 1960, 1970 e 1980, e que havia sido arrebanhado pela tia dele, Cecília Buarque de Hollanda. São artigos, recortes de jornais, revistas e documentos de críticas e do próprio acervo pessoal do biografado. Tudo, como disse, tratado de forma absolutamente irrepreensível do ponto de vista editorial, o que dá ao livro de Regina Zappa um charme e uma força estética incontornável. É ler e constatar.
 
Ricamente ilustrado, com um conjunto fotográfico capaz de deixar babando qualquer fã mais entusiasmado, o livro me pegou, sobremaneira, pela riqueza de informações pouco exploradas de passagens muitíssimo curiosas da vida pessoal e artística de Chico Buarque. Um exemplo? A quase sempre questionada relação do compositor de Construção com a Jovem Guarda, movimento que, pela própria distância do rigor estético característico da produção buarquiana, poderia lhe ter sido indiferente. E não foi!
 
Baseada em jornais da época, Zappa alude à assumida intenção de Chico Buarque de se aproximar de Roberto Carlos a fim de liderar com ele um movimento de união dos diferentes segmentos da música popular brasileira: "Roberto Carlos e Chico Buarque parecem estar juntos, no mesmo time, pela primeira vez. O iê-iê-iê e o samba tradicional concluíram que era gastar energia inútil manter a rivalidade e fizeram as pazes". Numa conversa entre os dois, Chico propôs: "Por que não grava 'Amélia'? Seu sucesso quando canta música de Mário Lago e de Ataulfo é evidente." Roberto gravou o samba-canção e fez muito sucesso, além de convencer aos desafetos, de uma vez por todas, que é de fato um intérprete versátil e seguro.
 
O mais significativo, no entanto, diz respeito mesmo à militância de Chico Buarque, o que lhe valeu bem mais do que censura aos seu trabalho. O artista foi frequentemente ameaçado pelos militares, e o fac-símile de uma cartão de Natal, endereçado ao compositor, atesta: "[...] O Comando de Caça aos Comunistas deseja a você, ativista da canalha comunista que enxovalha o país, um péssimo Natal e que se realize no ano de 1979 nosso confronto final." Sobre este aspecto do livro, tão rico, escreverei na coluna de sábado. Por enquanto, recomendo o belíssimo trabalho de Regina Zappa.
 
 

Fui infeliz, talvez

Há algum tempo não repercutia tão polemicamente qualquer texto publicado, neste espaço, o quanto repercutiu a coluna Woody Allen, o perdedor. Do interior de São Paulo, leitora (queridíssima!) diz: - "Seu texto é bem escrito, como sempre, mas não concordo com nada que está nele!" Vai além, afirma não suportar o cineasta e considera a sua declaração "coisa de um poderoso", observando que nenhum pai quer ser identificado como um perdedor. Um outro, também de São Paulo, já pensa em contrário e coloca Allen numa relação dos seus cineastas preferidos, além de concordar com o teor da coluna. Aqui de Fortaleza, outro, ainda, vai mais longe e indaga se não lembro que se trata (Woody Allen) de um pedófilo, que "deveria estar na mesma cela de ...", referindo-se a um comunicador preso por supostas práticas de exploração de menores.
 
Fui reler o texto e admito não ter sido muito feliz na sua escrita, o que supostamente ocasionou alguma controvérsia. Valho-me deste, pois, para esclarecer alguns pontos que julgo importantes sobre o assunto: Não tive, sob qualquer aspecto, a motivação de achar razoável que os pais devam assumir a condição de perdedores para os seus filhos. Pelo menos se tomarmos a expressão ao pé da letra. Assumir-se perdedor, no caso da coluna de sábado, é dar aos filhos a consciência de que somos falíveis, sujeito a cometer erros e capaz de reconhecê-los, sem subterfúgios ou medo de enfrentar as suas consequências. Ninguém é ou poderá ser vencedor a vida inteira, mesmo "aqueles cujas contas bancárias estão explodindo de gordas", foi o que dissemos, baseados na última declaração de Allen: - "Não quero que digam: oh, meu pai arrecadou 12 milhões de dólares só na primeira semana!", referindo ao filme Meia Noite em Paris.
 
Depois, aludimos à atitude de um pai nas imediações do colégio em que fora apanhar o seu filho pequeno, ofendendo de forma arrogante um simples catador de recicláveis que 'ferira', por descuido, o carrão blindado. Esses os que, medindo as regras do jogo pelo dinheiro que têm, diariamente dão aos filhos a noção equivocada de que são vitoriosos sempre. E a vida, cedo ou tarde, acabará por lhes dizer não! 
 
Quanto à acusação de que se trata de um pedófilo, é oportuno esclarecer: em 1992, Woody Allen, à época casado com a atriz Mia Farrow, apaixonou-se pela coreana Soon Yi Previn, 34 anos mais nova, com quem casou e viveu até a separação, recentemente divulgada na imprensa. Fui infeliz? Talvez.
 
Woody Allen está nos cinemas com o seu último filme: Para Roma, com amor. Não o vi, ainda, razão por que não posso comentá-lo agora, a exemplo do que fiz com outros títulos de sua vastíssima lavra. Inclusive o último, Meia-Noite em Paris, o tal filme dos 12 milhões de dólares na primeira semana. Até onde sei, contudo, o filme faz parte de um projeto do cineasta americano no sentido de documentar cinematograficamente algumas das cidades mais belas do mundo, entre aos quais o Rio de Janeiro. Na mesma entrevista de que tiramos a seiva da coluna anterior, por acaso, Allen afirma estar impressionado com o que já conhece da cidade brasileira por gente da produção. Está dito.