sexta-feira, 19 de junho de 2020

A dignidade roubada

Aos poucos, sem constituir surpresa nem mesmo para seus eleitores mais entusiastas, vai por terra a farsa de Jair Bolsonaro e sua gangue. A prisão do amigo íntimo e ex-assessor direto Fabrício Queiroz, nesta quinta 18, em Atibaia – SP, para além de significar um avanço no inquérito que visa a esclarecer o caso das rachadinhas no gabinete do então deputado estadual e atual senador pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, filho do presidente, pode descortinar crimes ainda mais graves.

No bojo de práticas ilícitas arroladas pelo inquérito, é bom não esquecer, pesam contra integrantes da primeira família, Jair Messias Bolsonaro à frente, envolvimento com pessoas associadas a práticas criminosas das milícias cariocas, entre essas, e nunca desvendado, o assassinato de Marielle Franco e seu motorista há mais de dois anos. Quem mandou matar Marielle Franco?

Espera-se, a partir da prisão de Queiroz, que outras investigações venham a ser destravadas, algumas delas mais diretamente ligadas ao próprio Jair Bolsonaro: o caso de Nathália Queiroz, filha de Fabrício, ancorando a contratação de um sem-número de funcionários fantasmas no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro, na Câmara, e o nunca explicado caso da folclórica figura de Wal do Açaí, para mencionar dois deles, sequer saíram da fase inicial.

A sugerir que a situação tende a se agravar, no entanto, colocando o presidente cada  vez mais numa corda-bamba, na esteira dos elementos que apontam objetivamente para a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, no inquérito das fake-news, agora legitimado pelo STF, e para o impeachment, por muitos crimes de responsabilidade, era indisfarçável o abatimento físico e psicológico do presidente por ocasião do comunicado de afastamento do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, ontem, em Brasília.

Tudo isso, é importante frisar, ocorre em meio à trágica situação do país em decorrência da pandemia do coronavírus e de uma crise econômica sem precedentes em sua história recente.

Aos poucos, sem constituir surpresa nem mesmo para seus eleitores mais entusiastas, insisto, desmoronam como bolas de sorvete ao sol (recuso-me a lançar mão de uma metáfora pior), e sem o sabor desta, o egoísmo, a desfaçatez e o cinismo que estiveram por trás das motivações de uma parcela significativa dos 57 milhões de brasileiros que elegeram um farsante pelo simples fato de querer o Partido dos Trabalhadores fora do Poder --- e vislumbrar nisso, por óbvio, o caminho mais curto para ampliar o universo histórico de seus privilégios e de suas prerrogativas inconfessáveis.

O desfecho, tudo está a dizer, haverá de devolver aos demais brasileiros um pouco da dignidade que lhe foi roubada.

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

À luz de um novo tempo

Quando vereador, aprovei na Câmera Municipal dois projetos de lei procedendo a mudança de nomes de uma rua e uma praça, respectivamente. A primeira, de Estados Unidos para Márcio Fernandes Nogueira, numa homenagem a um filho da terra que, morrendo precocemente no auge de sua trajetória como empresário agroindustrial, tinha uma significativa lista de bons serviços prestados à região Centro-Sul do estado. A segunda, de John Kennedy para Alcântara Nogueira, dando entre os mais novos filhos da terra, sobretudo, visibilidade a um dos nossos maiores intelectuais, cuja obra, como professor e filósofo, dispensa para os mais velhos quaisquer comentários. Foi um dos mais respeitados intelectuais do país no que diz respeito à obra de Baruch Espinoza, para que se tenha uma ideia.

É claro que, mesmo tendo sido aprovados por unanimidade pelos colegas vereadores, sensíveis a justeza da iniciativa e a uma consistente defesa dos mesmos (que deem os leitores um desconto ao que possa eventualmente lhes soar arrogante de minha parte), os referidos projetos, imediatamente transformados em Lei Municipal, suscitaram considerável polêmica na cidade. Menos, é certo, por falta de reconhecimento do valor pessoal de cada um dos homenageados, como disse, ao seu modo e no território de suas searas profissionais, filhos ilustres da terra. É que pesa sobre as nossas tradições, por força de uma cultura sem raízes e muitas vezes preconceituosa, o gosto pelo que, sendo coisa inserida no imaginário das pessoas, passa a fazer parte de sua história e de seus costumes. Mesmo quando, como exemplifica à perfeição os casos aqui tratados, tais homenagens sejam estranhas àquilo que realmente somos enquanto povo. O presidente americano John Kennedy e os Estados Unidos, insisto, que dizem sobre nossa realidade a ponto de justificar homenagens dessa natureza? Pouco ou nada, ainda hoje defendo abertamente esta opinião.

Citei esses exemplos, tantos anos depois e meio que sem propósitos que o justifique, para me reportar à onda de manifestações antirracistas que, antes tarde que nunca, constituem um dos acontecimentos mais relevantes na história recende dos Estados Unidos, cuja repercussão, como deveria de fato ocorrer, ecoa mundo afora desde o bárbaro e covarde assassinato de George Floyd por um monstro de pele branca, na cidade de Minneápolis.

Na esteira dessas manifestações, que se estendem por mais de duas semanas em diferentes países, 80 locais do Reino Unido veem surgir na agenda mais relevante do momento um curioso debate: mudar nomes de edifícios, ruas, avenidas e praças ou simplesmente pôr no chão, literalmente, estátuas de personagens envolvidos direta ou indiretamente com práticas racistas. O movimento vem crescendo enormemente desde que manifestantes derrubaram e jogaram num  rio a estátua de Edward Colston, antigo proprietário de escravos, na cidade de Bristol.

Na internet, nas universidades, nos meios intelectuais, vêm ocorrendo manifestações a favor ou contra tais iniciativas, para uns, uma revisão inadiável de homenagens que jamais poderiam ter sido levadas a efeito; para outros, justas e merecidas formas de perpetuar personalidades que contribuíram para o desenvolvimento de cidades e, não raro, países.

Dentre essas personagens, pelo menos duas são popularmente conhecidas: Winston Churchil e Cristovão Colombo. Deste último, uma estátua foi vilipendiada, derrubada, incendiada e atirada no fundo de um lago em Richmond, na Virgínia, na terça-feira 9. Outra, em Boston, teve a cabeça decepada na quarta 10.

Descobridor da América, em 1492, Colombo deu margem a que europeus praticassem no continente inomináveis atos de violência contra habitantes da localidade.

Quanto a Kennedy e aos Estados Unidos, na distância de tantos anos, os limites de espaço desta coluna condicionam-me a voltar ao tema  depois.

 

 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Ato de Contrição

Em inícios de fevereiro, este colunista dizia aqui neste espaço: "No Brasil, na contramão das evidências de que seremos frontalmente atingidos (o número mais que dobrou em 24 horas), a irresponsabilidade de um presidente louco tenta manter a população indiferente à necessidade urgente de medidas que possam atenuar as consequências previsíveis de um surto já desencadeado."

Depois de ecoar o pensamento de profissionais da área médica e pesquisadores de outras áreas, também eles preocupados com a tragédia anunciada a partir do que se via em países da Europa, evidenciando a difícil realidade de nossa estrutura hospitalar, reportei-me ao fato de que medidas de confinamento imediato poderiam evitar a disseminação incontrolável da pandemia, bem na linha do que faziam países pobres antevendo suas dificuldades futuras.

Concluímos o texto da aludida coluna com o seguinte comentário: "O que era ruim, num país devastado pela desfaçatez, incompetência e obscurantismo dos que o governam, como jamais se pôde ver em toda a história da República, caminha [o Brasil] a passos largos para o abismo mais profundo."

Não faltaram, à época, por e-mail e WhatsApp, comentários não raro duros ao teor da coluna, mesmo quando vindos daqueles que reconheciam a complexidade do problema.

Criticaram, alguns com incontido entusiasmo, o fato de que o meu texto feria o princípio da neutralidade (sic) por que se devem orientar os articulistas de jornal, dando a ver subjetividades e opiniões políticas indisfarçáveis.

Esqueciam que essa neutralidade é impossível em termos jornalísticos e de quaisquer outras produções intelectuais, mesmo as mais elementares, como é próprio de crônicas semanais de um blog como o meu.

Hoje, algo em torno dos cem dias desde o primeiro caso diagnosticado no país, contados em rigor na quinta-feira 4, o que viria a ser descrita pelo presidente Jair Bolsonaro como "gripezinha" passou a matar um cidadão ou cidadã brasileiros por minuto.

Não, você não leu incorretamente o que aqui vai escrito: enquanto você lê este parágrafo do meu texto, uma pessoa morreu no Brasil vítima do coronavírus.

O mais trágico, o derradeiro passo em direção ao abismo a que me referi na coluna de fevereiro, é que, segundo infectologistas e outros profissionais dedicados a analisar a pandemia entre nós, o pico do número de mortos, o pior, portanto, ainda está por vir.

O Brasil tem hoje mais de 35 mil mortos, abaixo apenas do Reino Unido e dos Estados Unidos.

Profundamente entristecido com a confirmação do que esta coluna afirmava em 25 de fevereiro de 2020, relembro, contrito, um certo Machado de Assis: "Que a terra lhes seja leve."