sexta-feira, 19 de maio de 2023

Tributo a Aluísio Filgueiras*

Fiz oito anos na antevéspera do golpe de Estado de 64. Àquela época, os jornais não circulavam nas cidades do interior, não havia tevê e as notícias chegavam até nós através do rádio. Como morássemos ao lado de Aluísio Filgueiras, velho comunista, entusiasta do governo deposto e homem de muita leitura, naturalmente aglutinavam-se nas proximidades de sua casa pequenos agrupamentos de pessoas com comentários sobre os acontecimentos em Brasília e no Rio de Janeiro. O meu hábito de ler, diga-se de passagem, começaria na biblioteca de Aluísio Filgueiras.

 

Ter oito anos em 1964, mesmo para os mais precoces, como eu, era ignorar qualquer assunto mais sério, como os fatos a que me reporto, en passant, à altura dessas minhas memórias.

Contando com o ingênuo e ostensivo apoio da sociedade brasileira, apreensiva com os rumos que ia tomando o governo esquerdizante de João Goulart, e mediante a promessa de realizar eleições diretas no ano seguinte, os militares tomam o poder em 31 de março. Começava o mais cruel período de nossa História e o silêncio sentencioso da minha geração pelos próximos 21 anos.

Dez dias depois, frustradas as tentativas de resistência liderada no Rio Grande do Sul por Leonel Brizola, o Brasil assistia impotente à publicação do Ato Institucional Número Um e a sua perversa anulação dos direitos políticos de 102 brasileiros, entre os quais estava Luis Carlos Prestes.

Sobre Prestes, ainda menino, portanto, ouvi de Aluísio Filgueiras Filho, influenciado pela ideias do pai, as referências as mais exaltadas. Falava-nos do 'Cavaleiro da Esperança' com um entusiasmo e uma convicção contagiantes. Confesso que ali, na convivência com esta inteligência notável que era Aluísio Filho, nascia a minha primeira identificação com o ideário socialista, a minha utópica crença na possibilidade de um mundo de iguais, sem exploradores e explorados, numa realidade mais justa e mais humana.

Algum tempo depois, leria embevecido o panfletário O Cavaleiro da Esperança, de Jorge Amado e, já adulto, passaria a ler exaustivamente sobre o socialismo, sobre Guevara, Fidel Castro, Trótski, Lênin e o lendário venezuelano Simón Bolívar, de quem me impactavam as ideias de nações livres, independentes e, com a força poética do seu discurso, a união dos povos da América Latina.

Mas os russos, particularmente, eram os que mais me impressionavam. Na superficialidade própria da idade, tentava a custo vender o pensamento do marxismo entre os companheiros de minha geração, não raro assumindo o lado fantasioso da propaganda ideológica, usando barba longa, como Che, ou a barbicha de Trótski.

A propósito, ocorre-me lembrar uma passagem interessante, que ainda hoje é motivo de galhofa entre os amigos: era Carnaval e, na ingênua pretensão de dar a ver as minhas ideias 'revolucionárias', simplesmente me fantasiei dele, Trótski, deixando a barba bem ao seu estilo. À entrada do clube, carregado de sonhos e cuba libre, deparo com a simpática acolhida do porteiro, Luiz, figura folclórica da cidade, que me achara a cara do Lindomar Castilho, um cantor brega da época. No dia seguinte, claro, raspei a barba e decidi ir ao baile fantasiado de mim mesmo.

Já cursando o terceiro, quarto ano de faculdade, fui com amigos assistir a uma palestra de Luis Carlos Prestes, no pátio da faculdade de sociologia da Universidade Federal do Ceará. O Cavaleiro acabara de voltar ao Brasil contemplado com a anistia aos condenados políticos, em ato publicado em 1982. Ao final do evento, concorridíssimo, tive o privilégio de trocar algumas palavras com Prestes, boquiaberto, trêmulo e exultante diante do mito.

Começava ali a militar nos meios estudantis. Simpatizava com o 'Partidão', como era chamado o PCB, e a figura de Prestes, a quem acabara de abraçar naquele instante inesquecível, com o seu paletó amarfanhado e deselegante, que se tornara uma referência, um ícone a ser respeitado nas minhas primeiras caminhadas políticas.

Mas foi ao PT, fundado três anos antes em São Paulo, que me filiaria pela primeira vez a uma agremiação partidária. Terminada a faculdade e as primeiras especializações, estabelecer-me-ia por um tempo em Iguatu, seria eleito presidente do PT local e seu primeiro vereador eleito.

Viriam os primeiros contratempos, o cair da ficha de que o senso de justiça e correção, a coerência entre o pensar e o fazer, a percepção do que é essencial em face do aparente, essas e outras coisas mais, estão para além dos partidos, das fronteiras meramente ideológicas. Elas fazem parte do recheio interior dos homens, estão acima das cores e das cartilhas, são mais uma questão de sensibilidade e respeito aos valores fundamentais da existência.

De noite, todos os gatos são pardos, diz a sabedoria popular. À plena luz ou não, todavia, continuo filiado ao PT, assumo-me lulista e creio no ideário de um Brasil mais humano, mais justo e mais livre.

*Comerciante muito conhecido em Iguatu, era irmão do educado e poeta Antônio Filgueiras Lima.

 

 

 

 

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Viva o Gordo!

Alvo de tentativas fúteis de dificultar o seu trabalho, o ministro da Justiça Flávio Dino vem expondo senadores e deputados de oposição ao ridículo. Na última terça-feira, novamente convocado por senadores do PL para falar sobre segurança pública em sua gestão, Dino deu uma verdadeira aula de conhecimento jurídico, de cultura geral, de domínio de linguagem e presença de espírito. O que fez a Sergio Moro, por exemplo, entra para os anais da Casa como emblemática capacidade de impor ao interlocutor a consciência de suas fragilidades "morais" e despreparo no confronto de ideias. Maldosamente questionado pelo ex-ministro do governo de JB, num golpe certeiro e demolidor, Flávio Dino levou Moro às cordas: "Eu fui juiz. Nunca fiz conluio com o Ministério Público. Nunca tive uma sentença anulada".

Mas nada mais revelador da invulgar presença de espírito de Dino, a que se soma uma inteligência emocional impressionante, que a resposta dirigida a uma leviana acusação de Marcos do Val sobre os fatos fascistóides do 8 de janeiro em Brasília: "Não precisa de o senhor ir para a porta do Ministério da Justiça fazer vídeo de internet. Se o senhor é da Swat, eu sou dos Vingadores".

Aos mais esquecidos, lembro: Val é aquele bolsonarista que se tornou nacionalmente conhecido por dizer-se instrutor da Swat e usar na lapela um broche do grupo policial americano altamente especializado. Descobriu-se, depois, que o broche era daqueles que se compram a qualquer ambulante da rua 25 de março. O fato, claro, como tem sido corriqueiro entre as "viúvas" do ex-presidente, expôs Val ao ridículo e levou senadores, mesmo os de oposição, a cair em gargalhadas. Dino, no entanto, numa demonstração de altaneira elegância, não fez pouco do seu acusador desajuizado, mantendo-se, do alto de sua sabedoria, como que indiferente à repercussão de sua fala.

Como lembra um colunista de prestígio, para além dos atributos de correção ética e densidade intelectual, Dino deu no Senado uma prova de que é também bom no manejo e controle de "gado", que me perdoem a sutileza referencial. Tenho dito.

                                                                              

Hey Boy

 

Era pelos anos 70, num tempo em que, numa cidade do interior, ter quinze anos era quase como ser, quando muito, um "menino bonito", aos olhos generosos dos mais velhos. Não para quem, como eu, teve o privilégio de ouvir, numa vitrola a pilhas (RayOvac), chegado a Iguatu pelas mãos do amigo Zé Neves, o primeiro disco dos Mutantes. O álbum, a rigor, fora lançado em 1967, mas, natural, à época, era enorme a distância que nos separava dos grandes centros  ---  filmes, livros e discos demoravam a nos ser acessíveis.

Embasbacados, Neves, Clotildes (a nossa Rita Lee), Cariús e Luiz Aquino, quem sabe Miguel, curvávamo-nos aos acordes dissonantes, mas tecnicamente esmerados, dos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, a que se somava, por óbvio, luminosa e desconcertante, a voz de uma belíssima moça de cabelos ruivos chamada Rita Lee.

E nunca mais seríamos, meus amigos e eu, apenas "meninos bonitos", como mais tarde, no singular, ingênua e doce, se intitularia uma das mais amadas composições de Rita Lee.

O rock chegara a uma pequena cidade do interior.

 

 

 

 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

As Visionárias

Li, como a um romance, o belíssimo As Visionárias, do filósofo alemão Wolfram Eilenberger, lançado há pouco no Brasil pela Todavia. O livro vem com a mesma proposta do anterior, "Tempo de Mágicos", em que o estudioso alemão adota uma técnica de construção narrativa inovadora para explorar vida e obra de grandes nomes da filosofia moderna: Walter Benjamin, Martin Heidegger, Ernst Cassirer e Ludwig Wittigenstein.

Como no primeiro volume do que me parece vir a ser uma coleção de história da filosofia, Eilenberger cruza pequenos capítulos, não intitulados ou numerados, em que explora com elegância e estilo descontraído, fatos da vida pessoal e/ou intelectual de quatro grandes mulheres, cujas ideias e comportamento, de alguma forma e em medidas distintas, transformaram nossas vidas: Ayn Rande, Simone Weill, Hannah Arendt e Simone de Beauvoir.

Pode-se dizer que o livro leva a efeito um "blend" de acontecimentos em que essas mulheres estiveram envolvidas como protagonistas, mesmo num tempo (1933-1943) em que seus comportamentos e seus pensamentos iam de encontro a valores impostos por uma sociedade falocêntrica e autoritária em termos intelectuais e humanos, já não fosse de apreensões e medos a atmosfera dominante em plena Segunda Guerra Mundial.

O período explorado pelo biógrafo, pois, abrange um dos momentos mais tenebrosos da humanidade, o que mais ainda serve para demonstrar sua habilidade, como escritor, ao lidar com fatos dramáticos sem perder de vista o objetivo que se propõe: proporcionar ao leitor, sem subjetivações ou visadas superficiais, uma noção consistente do que representaram essas quatro mulheres, quer no plano de suas vidas pessoais, da convivência com seus familiares aos encontros e desencontros passionais, até as lutas em intransigente defesa das liberdades, ora empunhando bandeiras, ora escrevendo obras que entrariam para a história do pensamento ocidental.

É verdade que o livro peca ao colocar no mesmo nível de importância nomes que se distanciam no que diz respeito ao legado que deixariam para a posteridade. Sob este aspecto, é forçoso o que ressalta nas partes do livro em que a personagem central é a escritora Ayn Rand, de quem se conhece como trabalhos relevantes "A Nascente" e "A Revolta de Atlas". Mesmo assim, diga-se em favor do autor de "As Visionárias", a história desperta o interesse do leitor e o faz abstrair essas diferenças. O segredo reside, supostamente, na forma como Eilenberger mistura biografias e traça acurado registro das ideias e das ações das quatro "visionárias". Não é muito dizer que consegue em algumas passagens do livro tornar bastante equilibrada a narrativa, mesmo quando sua atenção está voltada para Ayn Rand e não para qualquer das outras três filósofas. É o que se pode perceber quando o autor descortina o que sempre esteve por trás das ideias da escritora americana em contraste com Simone de Beauvoir ou mesmo Hannah Arendt, cujas vidas foram invariavelmente dedicadas ao outro, ao coletivo, e não ao bem-estar individual como forma de enfrentar os desafios e nutrir a confiança na possibilidade de um mundo melhor.

Mas, claro, o livro ganha em densidade e relevância filosófica quando Simone de Beauvoir e Hannah Arendt ocupam posições de relevo no que está sendo narrado. Aliás, já nas primeiras páginas desse maravilhoso "As Visionárias" é possível deparar-se com um texto escandalosamente sedutor, original e vibrante: "Beauvoir estava animada com as discussões que seriam suscitadas. À noitinha haveria ensaio geral da mais nova peça de Sartre. Depois, como sempre, eles sairiam para dançar. Também Camus havia anunciado sua presença. Ao seguir fielmente as próprias ideias, Beauvoir estava confiante de que elas abririam possibilidades de uma nova definição do ser humano como criatura que age. Uma definição não vazia de conteúdo, como em Sartre, nem necessariamente absurda, como em Camus. Com seu ensaio, ela apontaria para uma alternativa. Uma terceira via, própria".*

Não menos sedutor é tudo o que Eilenberger explora da vida e obra de Simone Weil. O texto a essa altura eleva-se em substrato humano, aproxima pensamento e ação, ressalta inteligência, revela conteúdo existencial e dá à figura de Simone Weil a importância pouco conhecida de sua vida extremamente cintilante enquanto mulher e militante da esquerda à época. Nesse sentido, são muito felizes as citações que o autor faz da autora de "Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social", como que motivado (o autor) a dar atualidade às palavras de Weil: "Aqui [na Alemanha] nada de novidades, exceto o fato de o país estar caminhando em linha reta para o fascismo, ou, pelo menos, para uma ditadura muito reacionária: mas você sabe disso tudo. Todas as afirmações da Rússia também são aterradoras". O trecho é extraído de uma carta para Simone Pétrement, amiga e futura biógrafa de Weil.

No momento em que as democracias são visivelmente atacadas mundo afora, é digno de nota que escritores se voltem para o que pensaram e fizeram essas quatro amigas da liberdade. O fato de tratar-se de mulheres, mais ainda reveste de significado a publicação de livros assim acessíveis, mas densos e profundos, enormemente válidos para o fim a que se destinam. Recomendo.

*Refere-se ao ensaio "Pirro e Cinéias", de Simone de Beauvoir.