Fragmento de crônica sobre Fidel Castro, do livro Do Amor e Outras Crônicas

"Vi-o uma vez, a uma distância de 20, 30 metros. Era a primeira posse de Lula como presidente. Compúnhamos uma multidão em frente ao palanque onde se viam chefes de Estado os mais diferentes. Eis que ouço a voz de uma jovem a poucos passos: "Fidel, meu! Fidel, meu! É ele, vê lá! É Fidel, meu!" Só então pude entender o que se passava. Fidel surgira, como que por milagre, do fundo do palanque. Não saberia descrever a emoção que tomou conta de todos naquele instante. Mas lembro que abri o mais largo sorriso de que já fui capaz, enquanto duas lágrimas, lentamente, caíam-me pelas maçãs do rosto. Foi aí que senti um aperto de mão da minha companheira. Olhei-a, e, tomado de uma sentimento que jamais serei capaz de definir com exatidão, pude ver que estava em prantos, dominada pela força de sua emoção, maior e mais bonita que a minha naquele momento. Abraçamo-nos como que extasiados, acompanhando com os olhos atentos a trajetória percorrida por aquele homem imensamente alto, para quem, em sortilégio, todos os olhares se voltavam, na eternidade de um instante. A praça delirava em presença do mito.

Durante quase cinco decênios, Fidel Castro sobrevivera a dez governos americanos  --  seus inimigos figadais --, a algo em torno de 600 tentativas de assassinato e a uma invasão dos EUA. A exemplo de Che, tornara-se revolucionário após abdicar do confortável cotidiano de filho de um latifundiário rico para se dedicar aos pobres de Cuba. Quase menino, liderara uma greve contra o próprio pai, julgando injustiçados aqueles que lhe prestavam serviço em suas terras. Com 18 homens, apenas, enfileirou-se contra Fulgêncio Batista e seu reduto de corrupção, máfia, jogatina, prostituição, que faziam do país, como disse, um tipo de bordel dos ricos norte-americanos. Arrebanhou apoio entre os camponeses da serra Maestra; enfrentou fome, sede, frio, sofrimento físico e emocional, até consolidar a vitória da guerrilha, em inícios de 1959. Colocou Cuba entre os países com melhores índices de crescimento social; acabou com o analfabetismo, deu-lhe status de país-referência em termos de saúde e elevou para quase 80 anos a expectativa de vida dos moradores da Ilha. Mas matou em nome da Revolução, e permaneceu no poder por 49 anos.

Sem rasgos de esquerdismo caduco, lamento se só isso vier a pesar no julgamento que a lhe fará a História."

O homem sem sono

Acabo de ler o inquietante 24/7 Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, de Jonathan Crary. Conhecia o autor de outras áreas da atividade acadêmica, pois se trata de um respeitável estudioso da arte moderna e teoria da arte da Universidade de Columbia, autor, entre outros, do incontornável Suspensões da Percepção.

É nesse último que Crary dedica-se a examinar o fenômeno da percepção em nova chave, avançando sobre as relações entre percepção, sensibilidade, pesquisa científica e estética no chamado capitalismo industrial, pondo por terra algumas contribuições já muito discutidas no campo da fenomenologia tradicional. Mas é sobre o primeiro, 24/7 Capitalismo Tardio e Fins do Sono, que gostaria de tecer na coluna de hoje algumas considerações. Vamos lá.

Trata-se, como disse, de uma das mais viscerais críticas ao modelo capitalista, algo, como sugere o próprio título da obra, capaz de tirar o sono de qualquer um.  Segundo Crary, cuja teoria está fundamentada em criteriosos estudos, a disponibilidade para consumir, trabalhar, compartilhar e responder (os dois últimos verbos dizem respeito aos vícios da comunicação virtual), 24 horas por dia, 7 dias por semana, é a perspectiva cada vez mais real por que se orienta a sociedade contemporânea.

O livro mostra de forma convincente como os interesses do capital conduzem o homem para abandonar um dos seus direitos inalienáveis, a necessidade do repouso. Para tanto, não é preciso ir longe: Crary fundamenta sua tese em pesquisas já conhecidas nos Estados Unidos e que têm por objetivo encontrar a fórmula para o "homem sem sono", na esfera, em princípio, do que tem sido possível no campo das técnicas militares.

É dessas pesquisas, antes restritas às guerras, que se pretende chegar ao mundo do trabalho e do consumo, do que resulta essa perturbadora visão do futuro.

Os tablets, os celulares, os leitores de texto, iPads etc., são a primeira prova dessa relação desumana entre o homem e a tecnologia avançada, meio inicial pelo qual o capitalismo vai condicionando cada um de nós ao consumismo desenfreado e à necessidade de trabalhar cada vez mais a fim de que se possa usufruir dos "encantos" colocados no mercado a cada instante.

É o avanço irrefreável do modelo econômico dominante. Valendo-se de filmes, produção artística e, o que é mais relevante do ponto de vista científico, na linha do que existe de mais significativo produzido por intelectuais de diferentes momentos históricos (Marx, Arendt, Agamben, Foucault, Deleuze etc.), Crary coloca diante do leitor a necessidade de reflexões as mais instigantes.

Para se ter uma ideia do que isso quer dizer, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos vem gastando quantias inimagináveis para entender como certas espécies de aves (a exemplo do pardal de coroa branca) suportam realizar voos entre o Alasca e o México, ininterruptos, durante sete dias e sete noites. O objetivo, evidencia Crary, é obter conhecimentos aplicáveis ao homem.

Não se trata, como se pode ver, de um exercício de diletantismo acadêmico, tampouco de uma banalização do que há de mais preocupante em torno do futuro da humanidade. O livro se sustenta em uma argumentação consistente, intelectualmente responsável, o que não só justifica a sua leitura, mas, acima de tudo, contribuirá positivamente para a discussão de alguns dos temas mais caros à vida de cada um de nós. Recomendo. 

 


 

Coleção Airton Queiroz

O acontecimento mais significativo no campo das artes visuais, no estado do Ceará, em muitos anos, é mesmo a Exposição da Coleção Airton Queiroz. Fonte preciosa para historiadores de arte, professores, estudantes ou apenas amantes das artes visuais, a coleção reúne obras importantes de artistas de diferentes períodos estéticos, do Brasil e do mundo.

Veem-se, ali, de desenhos de Albert Eckhout (1607-1666) a imagem de Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho, passando por óleos de Frans Post (1612-1680) e gravuras de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), que, ao lado de nomes como Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830), dão ao conjunto de obras do século XIX um destaque especial à coleção.

Chega-se, a partir daí, aos brasileiros Victor Meirelles (1832-1903) e Pedro Américo (1843-1905), ambos surgidos da Academia Imperial de Belas Artes a que fizemos alusão em coluna recente do blog. A essa altura é particularmente notável a presença do  Pedro Weingärtner (1853-1929), sem esquecer nomes da estatura de Henri-Nicolas Vinet (1817-1876), Johann Moritz Rugendas (1802-1858), Nicolas-Antônio Facchinetti (1824-1900) e do nosso Raimundo Cela (1890-1954), que transita do impressionismo sóbrio de Feira de Saint-Agrève ao temático e intimista Moça Bordando, óleo sobre tela de 1932, com que eterniza Áurea Cela.

Mas é o segmento modernista da coleção de Airton Queiroz que arrebata de vez o visitante, com obras de tirar o folego. Aqui estão os monstros sagrados da grande arte do século XX, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) a Alfredo Volpi (1896-1988); de Anita Malfatti (1889-1964) a Candido Portinari (1903-1962); de Iberê Camargo (1914-1994) a Tarsila do Amaral (1886-1973). Para não falar de Ismael Nery (1900-1934), José Pancetti (1902-1958), Lasar Segall (1889-1957), Vicente do Rêgo Monteiro (1899-1970), Victor Brecheret (1894-1955), entre tantos outros.

Não bastasse tudo isso, é incontornável o conjunto dos ditos "abstratos", que cobre tendências e estéticas diversas, grupos e frentes de ruptura etc. Depara-se, agora, com obras de artistas inclassificáveis, Hermelindo Fiaminghi (1920-2004) e Waldemar Cordeiro (1925-1973), por exemplo; os neoconcretos Amílcar de Castro (1920-2002), Lygia Pape (1927-2004); os "contemporâneos" Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark (1920-1988). Há Tomie Ohtake (1913-2015), Antônio Bandeira (1922-1967) e nomes da arte cinética, Abraham  Palatnik (1928) e Sérvulo Esmeraldo (1929).

Dispensável dizer o frisson que causam os estrangeiros mais renomados: Peter Paul Rubens (1577-1640), Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Salvador Dalí (1904-1989), Henri Matisse (1869-1954), Joan Miró (1893-1983), Diego Rivera (1886-1957), Claude Monet (1840-1926), para lembrar os nomes que me ocorrem à frente do computador enquanto escrevo a coluna de hoje.

Pelos méritos desse colecionador admirável que é Airton Queiroz, o Ceará entra definitivamente no calendário do que existe de mais expressivo em eventos ligados às artes visuais ao longo de muitos anos. Imperdível!

 


 

De Trump a Shaolin do Sertão

É assustador o que vem ocorrendo mundo afora em termos políticos. Não bastasse a onda fascista que parece tomar conta da América Latina, dentro de cujo contexto o Brasil lidera com uma desfaçatez que a um tempo faz chorar e rir, aconteceu o pior: Donald Trump venceu as eleições para presidente da maior e mais influente potência mundial, e, com ele, terá vencido muito do "corpus" do que existe de mais reacionário, preconceituoso, intolerante, homofóbico, misógino e outros rótulos do fascismo mais aterrador.

O resultado, se surpreende do ponto de vista eleitoral, é condizente com a vocação mais indisfarçável de um país arrogante, perseguidor, autoritário para com o restante do mundo  --  um país doente, bem na perspectiva do que reconheceu a candidata democrata Hillary Clinton no seu último discurso: "Precisamos curar este país; temos de reunir as pessoas, de ouvir e respeitar um ao outro".

A repercussão disso tudo, para além do que já, por si só, é terrível para os países de capitalismo periférico, a exemplo deste Brasil não menos doente, é que estão ameaçados os valores humanos essenciais. Trump não mediu palavras durante toda a sua campanha para expressar o ideário por que norteará seu governo, agora "legitimamente" reconhecido dentro das regras do jogo eleitoral dos EUA e por uma maioria branca que se posiciona contrária aos direitos das minorias, negros, latino-americanos, asiáticos, índios, árabes e pobres. O pior está por vir. Repito: é assustador.

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Agora não há do que duvidar: o impeachment de Dilma foi golpe e tinha por objetivo, ao lado de atender aos privilégios dos grandes investidores, abafar o que estava para vir à tona nas investigações da Lava Jato contra parlamentares dos partidos golpistas, PSDB e PMDB à frente. Conforme reconhecem os procuradores da operação, em grande parte desmoralizados pela prática autoritária e perseguidora ao longo das investigações, são visíveis as manobras levadas a efeito pelos deputados da base de apoio ao governo Temer no sentido de sustar e extinguir punições e ações criminais contra supostos envolvidos. A proposta, que poderá ser votada em regime de urgência, e tem o líder do governo na Câmara, André Moura, como seu propositor, diz respeito ao acordo de leniência e impede que sejam levados adiante processos contra as empresas envolvidas em escândalos. Para quem julgava improcedente o discurso de deputados e senadores contrários ao impeachment, a entrevista concedida em Curitiba pelos procuradores da Lava Jato, tornando pública a manobra, reconhecer o golpe é, hoje, uma questão de consciência. E de vergonha na cara, claro.

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Fui ver o último filme de Halder Gomes, Shaolin do Sertão. Reeditando basicamente as mesmas estratégias narrativas de Cine Holliúdy, o filme com que o cineasta cearense teve estrondoso sucesso de bilheteria há pouco mais de dois anos, e que lhe assegurou visibilidade entre os novos realizadores brasileiros, Shaolin do Sertão reafirma o que dizíamos sobre o filme anterior: há, por detrás da câmera, um diretor talentoso e hábil na utilização dos recursos cinematográficos. Halder Gomes domina a linguagem e suas práticas estilísticas e narrativas dão ao ver a presença do cineasta maduro, mesmo quando faz escolhas menos felizes do ponto de vista estético. É o que ocorre à sequência de abertura em que utiliza imagens de VHS para evidenciar o contexto em que nasce a obsessão de Aluísio Li, o protagonista do filme, pelas lutas marciais. A tentativa de explorar as limitações técnicas do videocassete como forma de criar uma atmosfera condizente com o tempo diegético (ficcional) do filme, não resulta feliz e, já de início, serve apenas para acentuar alguns defeitos desse novo sucesso de Halder Gomes. Ao que se soma uma montagem demasiado fracionada, o que, se por um lado privilegia a ação física da personagem, acelerando o ritmo da narrativa, por outro desmerece a sensibilidade do diretor na estruturação do roteiro. A última sequência (a luta final entre Aluísio Li contra seu antagonista) ademais, poderia ser menos distendida sem que a tensão dramática viesse a ser afetada em sua essência. Pela competência indiscutível de Halder Gomes, todavia, embora levando o público a desabridas gargalhadas, Brasil afora, o que confirma a boa acolhida de Shaolin do Sertão por um público que se assume fiel à tipologia estética escolhida pelo diretor, alimentamos a esperança de vê-lo explorar outros filões cinematográficos. Um filme, sabemos, é uma história contada com recursos específicos, sons, cores, movimento, luz etc. O tratamento estilístico, a forma propriamente dita, a sensibilidade com que escolhe suas estratégias narrativas, enquadramentos, angulação de câmera, movimentação, direção de atores e outros procedimentos estéticos, Halder Gomes sabe emblematicamente como fazê-lo. Falta-lhe sair da zona de conforto (o que é compreensível em face de sua consagração no gênero até aqui explorado) e ousar. A exemplo de Cine Holliúdy, Shaolin do Sertão tem inegáveis qualidades, mas estão muito abaixo do que Halder Gomes pode fazer em termos cinematográficos. Em tempo: é notável o trabalho de Edmilson Filho no papel principal.

 

 

 

 

Ecce Homo

Por volta de 1972, contava eu uns 16 anos, descobri Nietzsche. Volto ao assunto. Caiu-me às mãos, não sei bem como, o Humano, demasiado humano. Como vivesse uma fase profundamente mística, participando de grupos de jovens religiosos, lembro que ler o filósofo alemão foi algo a um tempo desafiador e desconcertante. Afinal, tratava-se do pensador que escrevera O anticristo, e que professara a morte de Deus.

Mas, lembro, não conseguia me desvencilhar daqueles aforismos carregados de lucidez e sabedoria. Era uma experiência maravilhosa, incomunicável, profundamente sedutora conhecer um intelectual que se assumia humano, demasiado humano. Com um defeito, apenas, contrapor-se ao Cristianismo, que, àquela altura dos meus dias, era para mim um referencial. Não falo da referencialidade meramente religiosa, igrejeira. Não, víamos (e estudávamos o Cristianismo) mais como uma filosofia, uma doutrina baseada na alegria de viver, partilhar, dividir tanto quanto possível o milagre do amor. Talvez estivesse aí a razão de ser translumbrante o fato de ler Nietzsche, de conhecer a luz ofuscante de sua filosofia e a motivação de saber mais e mais de sua vida, marcada por tantos conflitos e tantos dramas.

Hoje, quando escrevo estas minhas memórias, e a leitura da obra do autor de Assim falou Zaratustra é coisa mais amadurecida do ponto de vista intelectual, causa-me um tipo indefinível de prazer saber que Nietzsche não é tão anticristão assim.

O meu gosto pela filosofia nasceu, contudo, desse primeiro contato com o pensamento nietzscheano, e com a sua poesia, claro, pela qual revelava a sua inquietante busca de Deus: “Quero conhecer-Te, Desconhecido,/Tu, que te agarras ao fundo de minha alma/que atravessas minha vida estranho/e intocável como a tempestade./Quero conhecer-Te, ainda que para servir-Te.”

Por força de Nietzsche, curioso, fui a Sócrates, Platão, Aristóteles, percorri os caminhos que percorreram os Cínicos, os Céticos, os Epicuristas, os Estóicos… Cheguei a Hegel, Kant, Schopenhauer, Marx…

Retornei a Nietzsche, de quem leria O nascimento da tragédia, Além do bem e do mal, A gaia ciência, Ecce homo etc. Assim, fortalecido na minha fé, na crença de que nem tudo resume-se ao que está aqui, nessa passagem repleta de “eternos retornos”, por ignorância ou seja lá o que for, tenho vivido a vida, com Nietzsche e com Deus, num mundo, muitas vezes, sem Deus e sem sentido.