O cotidiano na arte

Foi tema de obras importantes da MPB, como atestam sucessos de Roberto Carlos e Chico Buarque de Holanda. Do primeiro, lembro algumas passagens de Rotina (O sol ainda não chegou/E o relógio há pouco despertou/Da porta do quarto ainda na penumbra/Eu olho outra vez/Seu corpo adormecido e mal coberto/Quase não me deixa ir/Fecho os olhos, viro as costas/Num esforço eu tenho de sair/A mesma condução, a mesma hora etc.); do segundo, Cotidiano, qualquer amante do cancioneiro popular haverá de lembrar a letra irretocável (Todo dia ela faz tudo sempre igual/Me sacode às seis horas da manhã/Me sorri um sorriso pontual/E me beijo com a boca de hortelã/Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar/E essas coisas que diz toda mulher/Diz que está me esperando pro jantar/E me beija com a boca de café.

Está na poesia de Carlos Drummond de Andrade (Casas entre bananeiras/Mulheres entre laranjeiras/Pomar amor cantar//Um homem vai devagar/Um cachorro vai devagar/Um burro vai devagar/Devagar as janelas olham//Êta vida besta meu Deus.) com os versos antológicos de Cidadezinha Qualquer.

Na prosa de ficção, aparece no último livro de Machado de Assis, Memorial de Aires, não sem receber um tratamento de tal modo terno e puro, sem esquecer das qualidades formais do texto, que alguns elegem como a mais tocante despedida da literatura brasileira.

Em Portugal, é tema indireto do romance O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, pois dele decorrem as fantasias de Luísa, a personagem central, que, inconformada com a mesmice de seus dias, envolve-se com o primo que dá nome ao livro, numa história de amor que excede, segundo conhecida crítica de Machado de Assis, os limites do aceitável, empobrecendo o que poderia ser um dos maiores clássicos da literatura mundial. De minha parte, discordo, mas como se contrapor ao Bruxo de Cosme Velho, o nosso maior gênio nas artes?

Quem haverá de esquecer a verdadeira obra-prima que é Madame Bovary, de Gustave Flaubert, onde se torna estopim das andanças adúlteras da protagonista, a quem está reservado um dos finais mais tristes do naturalismo francês? 

Sem deixar em nuvens brancas, claro, o maior dos livros de Tolstoi (Guerra e Paz é mais que um romance), pois da rotina luxuosa mas sem novidades de Anna Kareninina é que surge a figura do sedutor Vronsky, com o mesmo final de Flaubert.

Movimento para o abismo, como dizem os estruturalistas franceses, está, outrossim, na pintura de Velásquez, maravilhosamente examinada por ninguém menos que Michel Foucault, em As Palavras e as Coisas.

Pois é ele, o cotidiano, que perpassa, direta ou indiretamente, os exemplos acima, que sustenta o último filme de Jim Jarmusch, exaltação poética da rotina de um casal na cidade americana de Paterson, que, não de modo acidental, como tentarei mostrar, é o nome do protagonista, exemplarmente interpretado por Adam Driver.

Essa, logo se pode perceber, é apenas uma das muitas rimas que compõem a tessitura dramática de Paterson, insistentemente evidenciada na obsessão da mulher, Laura (Golshifteh Farahai), pelo preto e branco; no amor do marido pelo poeta estadunidense William Carlos Williams, também conhecido por WCW, autor do livro que plasma o filme de Jim Jarmusch  ---   e na aparição recorrente de gêmeos ao longo do filme como uma simbologia explícita do eterno "duplicar-se" das coisas na vida de cada um.

O filme acompanha o casal por uma semana, claramente demarcada pela passagem dos dias com que Jarmusch dividiu suas sequências narrativas. Não há suspense, artifício com que os roteiristas costumam retardar a ação a fim de prender o espectador. Antes pelo contrário, o ritmo é lento, arrastado, emblematicamente pautado pelos planos em câmera alta que enquadra o casal, na cama, no início de cada episódio, e nas sequências com que tem início, também, cada uma das oito partes do filme: vemos Paterson comer sucrilhos sob o olhar sonolento de Marvin, o buldogue de Laura; percorrer o mesmo itinerário até o ônibus, escrever poemas à frente do volante e receber, invariavelmente, do fiscal da empresa em que trabalha, o comando para "rodar as ruas". O restante do filme é marcado por ações repetitivas, trabalhar, voltar para casa, passear com Marvin, beber chope no barzinho em que se depara com as mesmas pessoas etc.

Dito assim, natural, pode-se achar que se trata de mais um filme dito cult, em que nada ocorre, nenhum ponto de fuga dramático, nenhum flashback, nenhuma oscilação rítmica que possa poupar o espectador dos bocejos e dos cochilos por certo inevitáveis. Nada disso. O inevitável é que nos deixemos tragar pela genialidade de Jim Jarmusch, seduzidos pela poética da narrativa e a beleza de um roteiro a um tempo delicado e denso.

Amparado na simplicidade estética de Paterson, pois, Jarmusch foi capaz de tirar leite de pedra (que me desculpem o clichê), construindo um filme "que se" contrapõe ao "que se" tem procurado fazer em termos cinematográficos nesses muitos anos. Dá com isso provas cabais de que cinema, se não é uma arte para intelectuais, como quis Clint Eastwood, é, inegavelmente, uma arte para pessoas sensíveis, atentas à beleza das coisas mais despojadas, da banalidade do cotidiano e dos sentimentos mais comuns.


 

 

 

 

 

 

Desde os primórdios

Costuma-se identificar como marco de fundação da literatura brasileira A Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500. O documento, se não tinha a pretensão de ser arte literária, rigorosamente falando, é um texto bem produzido e entraria para a história não apenas como registro de achamento de uma terra desconhecida do Novo Mundo, mas, ao lado disso, como obra curiosa e pontuada de percepções dignas de nota. 

Não bastassem essas percepções, todavia, um detalhe pode ser tomado como indicação dos valores por que viriam a se orientar os descobridores, e, por extensão e em grande escala, os descendentes que viriam a formar o que se convencionou chamar "povo brasileiro". Tomo a liberdade de citar o fragmento em que isso aparece: 

É pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro   ---   o que d'Ela receberei em muita mercê. 

Esclarecendo: ao redigir a famosa carta, uma espécie de relatório sobre o descobrimento, destinado a D. Manuel, Caminha aproveita a oportunidade para formalizar um pedido nada ético em favor do genro. Se o simples fato de utilizar-se de um documento oficial para obter dividendos pessoais já depõe contra o escrivão, a situação tem o seguinte agravante: Jorge Osório cumpria pena na ilha de São Tomé por prática de roubos contra uma igreja e por ter ferido mortalmente um sacerdote em 1496. Tratava-se, portanto, de um criminoso para quem Pero Vaz de Caminha, valendo-se de sua 'proximidade' com a Corte, formaliza um desses pedidos escusos que, para nossa vergonha, será insignificante se comparado aos do Brasil de 517 anos depois. 

O fato, que não raramente é objeto de tentativas de entendimento da formação do caráter nacional brasileiro, a que se soma a irrecusável acusação de que temos parentesco remoto com o que havia de pior entre os portugueses aqui aportados (criminosos, bandidos de toda ordem etc.), volta e meia ressurge como tentativa de explicação para o que, desde sempre, ocorre no Brasil envolvendo, em grande parte, notáveis da nossa elite social, econômica e política. 

É claro que a tese se ressente de fragilidades mil, mesmo aos olhos daqueles que, como eu, não são especialistas na matéria. Deixemos a discussão para os grandes intérpretes do país, intelectuais a quem ainda se deve o que existe de mais significativo na ensaística sociológica empenhada em identificar "quem somos": Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Raymundo Faoro, Antônio Cândido, para citar alguns nomes que me ocorrem. 

Quanto a Jorge Osório, o que lhe terá ocorrido?, haverá de indagar o leitor. Pois bem. El-Rei, em princípio, fez vistas grossas ao pedido de Caminha. Este, por sua vez, prosseguiu viagem para Calicute, onde chegaria a 13 de setembro de 1500. Por infelicidade, ladeado por meia centena de conterrâneos, seria assassinado em cruel combate contra pelo menos trezentos árabes e indianos. Uma pena. 

Ah, quase ia esquecendo: comovido com o triste desfecho do seu "honrado" escrivão, D. Manuel resolveu perdoar Jorge Osório e nomeá-lo para um cargo de confiança. Era uma pessoa de "boa índole". Como alguns brasileiros de quinhentos e poucos anos depois.

 

 

 

 

 


 

Uma obra ímpar

Faço parte de uma geração de professores de literatura fortemente influenciada por Antônio Cândido. Foi o mais denso e mais original de nossos críticos, e um dos maiores intérpretes do Brasil. Não conheço, rigorosamente, quem, dentre os que se dedicaram às lides literárias nos últimos quarenta anos, em sala de aula ou fora dela, tenha podido contornar Formação da Literatura Brasileira, o clássico em que o renomado estudioso carioca se debruça sobre as produções árcades e românticas em busca de entender (e explicar com rara competência) as origens de uma literatura a que se possa classificar como brasileira.

Reconhecendo o abismo de diferença que separa a literatura brasileira de outras literaturas mais prestigiadas (ele cita com destaque as literaturas francesa, inglesa, italiana e, mesmo, a espanhola), entendendo-se essas diferenças como uma oitava a menos em termos de real importância como construto artístico, Antônio Cândido esmiúça o substrato do que se fez aqui em termos literários até fins do romantismo, por volta de 1880, quando surge entre os escritores brasileiros o nome do Machado de Assis realista, o primeiro dentre os nossos autores digno de figurar entre as maiores expressões mundiais. Mas o faz, embora com coragem para dar à nossa produção o seu verdadeiro tamanho, sem demonstrar o complexo de vira lata de que nos falou Nelson Rodrigues, a propósito da nova falta de coragem e sentimento de inferioridade diante de tudo aquilo que vem de fora.

Ressalte-se aqui o que me parece mais notável no livro em termos de metodologia e senso de análise, o fato de que se trata de uma abordagem criteriosamente apoiada nos textos, sem desprezar, contudo, as contribuições realmente significativas em termos de fortuna crítica e de informação. É, este, pois, o viés que dá a Formação da Literatura Brasileira um sentido jamais ultrapassado por qualquer outro livro do gênero, e que o torna a primeira tentativa exemplarmente bem sucedida de interpretação do caráter nacional brasileiro do ponto de vista cultural e artístico.

Na contramão do que era dominante até sua publicação, em 1975 (e mesmo considerando o que se fez depois), Cândido pensa a nossa formação como um fenômeno consolidado a partir de 1750, antes, pois, dos fatos a que a maioria dos estudiosos atribui o surgimento da nossa identidade cultural, ou seja, a superação do domínio colonial e da dependência econômica. Razão de sobra, portanto, para que tenha sido esta a obra que mais decisivamente norteou a nossa práxis como professores de literatura, a quem devemos a essência de uma percepção menos pessimista da literatura brasileira como expressão da nacionalidade.

Há, nessa postura, quero crer, o anúncio do que viria da pena e da ação de Antônio Cândido nas décadas seguintes à publicação de Formação da Literatura Brasileira, e que gostaria de ressaltar nessa ligeira consideração sobre a obra de um dos maiores brasileiros, cuja morte, na madrugada de sexta-feira 12, abre uma lacuna imensa no cenário da inteligência brasileira: refiro-me à vocação pública e política dos seus escritos, mas, acima de tudo, refiro-me a sua militância como intelectual orgânico (Gramsci), o intelectual que não se permite a indiferença entre o pensamento e a ação. Se seus textos são "textos de intervenção", como aliás se denominou uma das mais felizes coletâneas de seus artigos, organizada por Vinicius Dantas, em dois volumes, sua prática foi decisiva para o amadurecimento das forças ditas de esquerda no país, de que constitui prova a fundação, em 1980, do Partido dos Trabalhadores, por ele e um expressivo número de intelectuais brasileiros.

A morte de Antônio Cândido deixa órfã uma geração de professores, escritores, artistas, militantes políticos que beberam na fonte de suas reservas intelectuais inesgotáveis, felizmente materializadas em obras que constituem o que de melhor se fez no Brasil em crítica literária, para não falar de sua produção no campo da sociologia e do pensamento político, igualmente marcados pela lucidez, sobriedade e elegância estética.

Num país sem memória política como o nosso, em que o passado tenebroso constitui o esteio de uma esperança cega de tantos e tantos cidadãos, entre jovens e velhos, resta-nos lamentar a morte de Antônio Cândido  ---   e aplaudir, de pé, o ensaísmo histórico-social que nos deixou em livros memoráveis.

 


 

Tomando o jogo, como é comum no futebol

Aos poucos, na medida em que se revela incapaz de esconder suas motivações subjetivas, o juiz Sergio Moro vai deixando cair sua máscara de justiceiro e dando a ver sua verdadeira face.

Quem acompanhou a cobertura do depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (mesmo pelas reportagens em que o trabalho de edição mostrou-se levianamente tendencioso contra o depoente), basta ter um mínimo de consciência para constatar a forma pouco isenta com que Moro conduziu a audiência. Repetiu perguntas estranhas ao processo em pauta, manipulou informações, criou-as a fim de embaraçar o "réu" etc. No momento em que alegou ter em mãos um documento comprometendo Lula, o tiro saiu pela culatra e, desavergonhadamente, teve de tornar público que se tratava de uma proposta de compra do tríplex não assinada, a exemplo do que ocorre invariavelmente em intenções de compra e venda de imóveis.

Na edição de hoje da Folha de S. Paulo, evidenciando sua contrariedade com o que resultou de uma iniciativa de reportagem a fim de analisar o depoimento do ex-presidente em Curitiba, o matutino publicou uma matéria, sob o título "Lula errou pouco, avaliam advogados", que materializa a quase absoluta decepção da turma da direita, mesmo aqueles que há muito venderam sua alma ao diabo e para os quais "consciência" é ferramenta de defender interesses e assegurar vantagens, a assustadora maioria dos empresários à frente. Vejamos.

Foram ouvidos três dos profissionais que o jornal considera os maiores especialistas em direito penal, Gustavo Badaró, professor da USP, Alberto Toron, criminalista e professor da Faap, e Thiago Bottini, professor do curso de direito da FGV, do Rio de Janeiro. Para o primeiro, "Lula não se saiu mal no interrogatório". Segundo afirma, o ex-presidente foi transparente ao confirmar encontros e situações que os investigadores conheciam, "mas negou atos ilícitos". Para o segundo, a forma como o juiz Sérgio Moro conduziu o interrogatório revela a intenção de "dobrar" o réu, como se fazia na ditadura militar (1964-1985)". Já, para Bottini, "o juiz tem revelado um comportamento parcial não só no caso do ex-presidente".

Para ele, "Moro faz muito mais perguntas do que o Ministério Público, o que o torna um sujeito não ideal para julgar". E conclui: "Ele [o juiz Sergio Moro] não cumpriu inteiramente o papel de juiz imparcial no interrogatório de Lula". Sem comentários.

Em que pese tratar-se de um jornal assumidamente contrário ao PT e a Lula, a que se deve creditar muito do massacre a que foi condenado o ex-presidente nesses últimos anos, de forma explícita e descaradamente tendenciosa, necessário frisar, a matéria reconhece que Lula "não deu o show que gostaria, mas conseguiu evitar que o interrogatório conduzido pelo juiz Sergio Moro gerasse contradições que pudessem incriminá-lo no caso do apartamento tríplex".

Por último, o que surpreende até mesmo o menos radical dos golpistas, a mesma edição do principal jornal do país traz um artigo do ultradireitista Reinaldo Azevedo, ressaltando a parcialidade de Sergio Moro, que me parece digno de nota: "O que se deu em Curitiba não é nem pode ser um exemplo a ser seguido. A menos que se venha a fazer a escolha pelo terror jurídico". E, prossegue o mais reacionário jornalista brasileiro, com a seguinte afirmação: "O juiz [Sergio Moro] resolveu fazer a versão PowerPoint de Dalton Dallagnol . Todo o esforço consistiu em arrancar contradições de Lula que revelassem o chefe de uma organização criminosa".

Surpresos? Pois tomo a liberdade de fechar esta coluna com palavras do próprio Reinaldo Azevedo: "O MPF não conseguiu produzir a prova de que Lula é dono oculto do apartamento. Documentos de fé publica atestam que ele pertence à OAS". Pasmem. 

Na Parede da Memória

Foi num dos últimos aniversários de mamãe. Eu passava uma temporada na França, para estudos na ENFA, prestigiada escola da cidade de Toulouse, razão por que não pude estar presente. Dias depois, por telefone, contaram-me um fato inusitado ocorrido na festinha em homenagem a Dona Aldé (assim, como a tratávamos na intimidade). 

A uma dada, entre comes e bebes em casa de um filho, alguém toma nas mãos um violão e diz, dirigindo-se à aniversariante: "Vou tocar uma música para Dona Alderila!" Ao final do derradeiro acorde, tocada pela beleza da canção, a boa velha curva-se para alguém ao lado e quer saber: "Quem é esse moço, tão delicado?" 

Já acometida dos males do envelhecimento adiantado, mamãe não fora capaz de identificar que ali estava Antônio Carlos Gomes Fontenelle Fernandes, ou simplesmente Belchior, uma das mais altas expressões da música popular brasileira, que visitava Iguatu a convite do amigo e contemporâneo da faculdade de medicina, Hildernando Bezerra, genro e primo da aniversariante, então prefeito da cidade. 

Ao saber da morte de Belchior, domingo 30, aos 70 anos, recluso numa cidadezinha do extremo Sul do Brasil, foi desse acontecimento, tão simples e tão grandioso, que, ato contínuo, me ocorreu recordar. 

Com o passar das horas, na medida em que me chegavam pelo celular dezenas e dezenas de mensagens, textos, filmes com fragmentos de shows memoráveis, fui me entregando a essa sensação de vazio imenso que passou a tomar conta do povo cearense desde as primeiras horas do dia, vazio que se torna gigantesco no momento em que sento diante do computador para escrever a coluna de hoje, às 9:30, quando, segundo li nos jornais, à beira da cova, familiares e amigos íntimos se despedem de Belchior. 

Belchior era dos três grandes nomes do Ceará, do chamado Pessoal do Ceará, inequivocamente, o mais denso e mais profundo como letrista, o mais original no trato da linguagem poética, mas não apenas isso. 

Nascido de uma 'fornada' incomumente exigente do ponto de vista artístico, Belchior tinha algo da poesia desconcertante de Bob Dylan e da musicalidade elaborada dos Beatles, da telúrica apreensão da realidade regional de Catulo da Paixão Cearense e da universalidade lírica de Luiz Vaz de Camões. Era, pois, um artista completo, cuja perda cobre de sombras uma música popular que vem perdendo, há pelo menos 20 anos, sua identidade e sua força estética.

A atualidade de suas letras é algo impressionante, quando se volta para o conflito de gerações, Como Nossos Pais, ou para a fugacidade do tempo, Velha Roupa Colorida, para os desafios do mundo, Apenas Um Rapaz Latino-Americano, ou atenta para a desestruturação da família, Na Hora do Almoço, ou, ainda, quando fala da frugalidade da paixão, Coração Selvagem, ou mesmo da busca de um tempo perdido, Galos Noites e Quintais, uma obra-prima do cancioneiro popular de que é impossível não citar a segunda estrofe: "Eu era alegre como um rio,/um bicho, um bando de pardais;/Como um galo quando havia.../quando havia galos noites e quintais./Mas veio o tempo e fez comigo/o mal que à força sempre faz./Não sou feliz, mas não sou mudo:/hoje eu canto muito mais". Que dizer de Paralelas? "Em cada luz de mercúrio/vejo a luz do teu olhar? Passas praças, viadutos/nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar".

Parece consensual, convenhamos, que já vai longe o tempo da plena produtividade. Corrijo-me: já vai longe o tempo que viu nascer de sua pena e do seu violão o que existe de mais elaborado em termos poéticos e musicais no conjunto do que produziu ao longo de, pelo menos, 40 anos. Parece consensual, insisto, que não se pode comparar, sem perceber o descompasso, o que fez entre inícios e fins dos anos 70, com Mote e Glosa, Alucinação, Na Hora do Almoço e Coração Selvagem, para dar nome aos bois, e Bahiuno, Um Concerto Bárbaro e Autorretrato, nos anos 90, este último uma releitura de seus grandes sucessos, com arranjos e improvisações de tirar o fôlego. 

Que pena o sumiço voluntário que se impôs; que pena a vida errática a que se atirou nesses muitos anos, privando-nos de sua voz inconfundível, de sua sabedoria quase filosófica ao lidar com as palavras e construir imagens..., enfim, que pena que tenha se distanciado de nós, seus admiradores incondicionais e fãs confessos   ---   dessa figura ao mesmo tempo tão excêntrica e tão fascinante!Que pena!