Fora de mim

Na brevidade de suas 130 páginas, Fora de mim, de Martha Medeiros, é desses romances que se leem de um fôlego e que jamais serão esquecidos. Um livro intenso, desconcertante, arrebatador. Narrado em primeira pessoa, na perspectiva da mulher, o enredo começa no momento mais dramático de uma relação amorosa falida: quando a separação se consolida e a dor advinda dessa decisão corta o peito como uma lâmina em brasa. O discurso flui com a força da palavra cristalina com que a ficcionista, que já nos presenteara com Divã, outro belíssimo romance, constrói sua literatura absolutamente sedutora. Começa, como disse, no instante da ruptura, do baque, do golpe certeiro com que se descontrói uma história de amor, quando a ficha cai e se percebe que não resta chance, que se inicia a viagem sem volta.
 
A narradora inicia o seu périplo comparando o momento da separação ao relato de um sobrevivente de um desastre aéreo, do instante em que a aeronave começa a perder altitude, as turbinas, potência, e ouve-se o barulho estarrecedor do impacto com o chão: - "Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existiu não existe mais." Essa coisa, percebe-se com o passar das páginas, é a paixão, aquilo que existiu e não existe mais.
 
Na segunda parte, a narradora vai inserindo cenas do passado na estrutura cronológica da narrativa, revelando ao leitor como se dera o encontro, e como se construíra a relação, do fogo da descoberta às crises que iriam minando o sentimento até a morte inevitável. A dor incomunicável, o martírio sem nome, a ciclotimia da emoção, a saudade, a dúvida acerca do que seria continuar a vida sem a presença do que se amou um dia, são os elementos com que Martha tece a sua narrativa a um tempo trágica e alentadora.
 
Na terceira e última parte do livro, o momento da superação, quando o passado é visto sem desespero, sem a angústia decorrente da perda: - "Doeu perder você. Passados quatro anos, ainda lembro." É aí que o livro cresce, na medida em que o apelo dramático cede espaço a uma reflexão entre poética e filosófica, a filosofia dos amantes que se reconstroem das cinzas para enxergar a anteluz da manhã que se aproxima: - "[...] Uma dor que tentamos compreender em voz alta, uma dor que levamos para os consultórios dos analistas, uma dor que carregamos para mesas de bar, e que vem junto também para a solidão da nossa cama, para o escuro do quarto, onde permitimos que ela transborde sem domínio e sem verbo."
 
O clímax da narrativa, no entanto, está na passagem do livro em que a personagem 'discute' um dos temas mais explorados na literatura de todos os países, o ciúme, também no caso desse belíssimo Fora de mim, a causa decisiva do fim da relação. O que impressiona, aí, é que a obra de Martha Medeiros, na despretensiosa brevidade do volume, avulta, altaneira, guardadas as proporções, até os píncaros em que estão ladeados Proust e Machado de Assis, os maiores especialistas na interpretação do "monstro dos olhos verdes" de que nos falou William Shakespeare. A escritora gaúcha, assim, atinge o paroxismo de sua arte, assume, em definitivo, o posto mais alto entre os nomes de sua geração, e torna-se uma especialista no tema eterno da paixão, o qual trabalha com uma sensibilidade que não encontra páreo na literatura brasileira contemporânea.
 

Dilma presidente

A concluir pelo que dizem as pesquisas, a farsa da bolinha de papel, que seria a bala do tigre, resultou mal para o farsante. Ou seja, o tiro saiu pela culatra. Dilma cresceu em média dois pontos, Serra caiu dois. A quatro dias da eleição, pois escrevo esta coluna na quarta-feira 27, acho que as favas estão contadas, e o povo brasileiro, em sua maioria, está decidido a colocar pela primeira vez uma mulher como presidente da República. Um feito. E um reconhecimento aos avanços do atual governo, que elevou a condição de vida dos brasileiros mais pobres a níveis confortáveis, entre outras conquistas que só os adversários não querem ver. Realidade que Dilma, queira-se ou não, ajudou a construir.
 
Serra lutou, é verdade. Dessa vez, no entanto, lamentavelmente maculando a sua história de ex-presidente da UNE, ex-homem de esquerda, os 14 anos de exílio, os mandatos de deputado, senador, até onde sei marcados pela correção de ideias e ações, uma vez que pesam sobre o executivo, prefeito de São Paulo e governador do Estado mais rico do país acusações que ficaram até aqui sem defesas consistentes. No desespero, depois de uma animação sustentada nas primeiras pesquisas pós-primeiro turno, lançou mão de expedientes inescrupulosos, liderando uma campanha difamatória de que a história da nossa democracia se envergonhará.
 
Lula e Dilma multiplicaram-se, apoiados em números inequivocamente favoráveis ao seu governo, e na adesão convincente de intelectuais e artistas de peso, na linha do que fizeram expoentes como Chico Buarque de Holanda e Leonardo Boff, para ficar num exemplo. Souberam com equilíbrio e racionalidade lidar com a infâmia, a difamação, a calúnia, que passaram a ser a arma pretensamente mortífera do PSDB. Como disse, o tiro saiu pela culatra, e a realidade dos fatos aponta para uma vitória inconteste da candidata do PT.
 
Como, maliciosamente, afirmou Eliane Cantanhêde, jornalista do mais serrista matutino brasileiro, a Folha de São Paulo, "a eleição caminha, portanto, para a eleição [sic] da primeira mulher presidente do Brasil. Ou, na prática, para um terceiro mandato de Lula. A ver."
 
De fato, e em termos mais condizentes com os pressupostos da democracia, o presidente Lula, com a eleição de Dilma nesse domingo 31, fecha de forma acima de bem sucedida o seu ciclo, e começa uma nova etapa na sua trajetória vitoriosa como homem público e como cidadão, afastando-se apenas temporariamente de Brasília e do poder. Os mais de 80 por cento de aprovação, inéditos em toda a história do país, ao lado do prestígio de que goza além-fronteiras, parecem demonstrar concretas possibilidades de retorno de Lula ao posto de presidente da República. Que seja.
 
 
 
 

Último tango

Como o debate entre os presidenciáveis, domingo 17, estivesse aquém de morno, fui à estante apanhar um filme para ver, até que me chegasse o sono. Fiz isso meio às cegas, pegando intencionalmente ao acaso a caixa do DVD. Pasmem! Cai-me às mãos nada mais, nada menos que o Último tango em Paris, o belíssimo filme de Bernardo Bertolucci. Vi-o havia muitos anos, em 79, se não me engano, quando finalmente liberado no Brasil. A obra é de 1972, e a revi uma ou duas vezes, que é, do cineasta italiano, a de que mais gosto. Uma obra-prima da sétima arte, coisa obrigatória para os trintões e trintonas de hoje que não tiveram a oportunidade de vê-lo no cinema.

Tendo mesmo assumido o papel de animador cultural deste semanário, o sono sem vir, decido rascunhar um texto breve sobre este filme que marcou época na história do cinema de arte. Lembro que foi o primeiro nu frontal liberado no país, desde Norma Bengel em priscas eras, como diria mamãe. Mas, assistindo novamente a este maravilhoso trabalho de Bertolucci, reluto em 'ver' o lado violento ou apelativamente erótico do filme, pretexto com que se procurou justificar, aqui e além, a sua proibição durante quase uma década. Vejo-o como ao Império dos sentidos, outro clássico da época, marcado por forte poeticidade, e profundo, acima de tudo profundo como análise da paixão em sua mais completa complexidade. Um primor.

Para os que não o viram, à época, e que são o objeto da minha motivação enquanto escrevo esta crônica, conto o filme em duas palavras: Paul, numa interpretação inesquecível de Marlon Brando, é um americano de meia-idade que reside em Paris, onde acaba de perder a esposa por suicídio. Atormentado em face do ocorrido, enquanto caminha sem rumo pelas ruas de Paris, Paul cruza com Jeannie (Maria Schneider), uma beldade bem mais nova que ele e noiva de um jovem cineasta. Paul e Jeannie encontram-se num apartamento desocupado que pretendem alugar. Está construída a trama. Sem revelarem sua identidade, os dois passam a transar arrebatadamente, num frenesi estonteante e extremamente poético.

Alugado o imóvel, Paul e Jeannie passam a encontrar-se ali, entregando-se a uma paixão frenética, alucinante, até que ele desaparece sem deixar vestígios. Mas a história não acaba aí. Os dois se reencontram ao acaso, e Paul a leva a uma casa de tangos, onde vivem os derradeiros momentos desse amor enlouquecido, em cenas inesquecíveis de entrega e deslumbramento. Agora é ela que rompe a relação, subitamente, como que desiludida com a perda do anonimato que os unira antes. Foge para o apartamento em que mora com a mãe, mas Paul a segue desesperadamente. Mas não vou revelar o desfecho desse filme arrebatador.

O Último tango, além de ser um dos grandes filmes sobre a paixão, arrebanha em torno dele um corolário de curiosidades estarrecedoras. Uma delas diz respeito às declarações de Schneider sobre a antológica cena em que Jeannie é sodomizada por Paul com o auxílio de uma porção de manteiga. Depois das filmagens, a atriz chegou a dizer que Brando a violentara durante a gravação da cena, e que o seu choro, portanto, teria muito mais que técnica de interpretação. Não à toa, como se vê, causou escândalo, julgamentos desencontrados e censura quase universal ao filme.

Três pérolas

Três pérolas caem-me às mãos esses dias. Primeiro o texto dramático Júlio César e Polônio - A História pelo Avesso, do psiquiatra e contista Weimar Gomes dos Santos. Texto da melhor qualidade, desses que se podem apreciar independetemente de sua montagem cênica. Admiravelmente construído com os elementos do grande teatro, em que pese tratar-se de um texto antes de tudo moderno, no mais rigoroso significado da expressão, essa história pelo avesso, como o próprio subtítulo da peça deixa a ver, assinala a estreia de Gomes no gênero, mas já nasce maduro do ponto de vista da carpintaria teatral, que o autor soube manusear com surpreendente competência mesmo em se tratando de um estreante. Se o grande teatro é, antes de tudo, uma bela linguagem, como quis Louis Jouvet, para citar um renomado amante do teatro de texto, Júlio César e Polônio é peça para marcar a renovação do nosso teatro no que diz respeito à produção textual. Mas não se limita à questão da linguagem o que há de mais relevante na estreia de Weimar Gomes dos Santos no teatro. Fico antevendo o que resultará da obra se confiada às mãos de um diretor inventivo, quão inventiva é a tessitura dramática criada pelo autor. Como professo para os meus alunos de Artes Cênicas que a revitalização do nosso teatro pressupõe um retorno à valorização do texto, ler a "História pelo Avesso", que seu criador submete à minha modesta opinião, foi, a um tempo, uma experiência prazerosa e alentadora. Texto plural, cuja força vai para além da mera literariedade que é mesmo o que, ao primeiro olhar, chama-nos a atenção. Reforça esta qualidade, já referida, o estilo, ligeiramente inspirado (inconscientemente?) em Brecht, mesmo que a referência a Shakespeare seja uma marca assumida pelo estreante, bela promessa desses novos tempos.
 
A outra, o livro de contos Entre Oito Paredes, do também estreante Brennand de Sousa. Arquiteto de formação, o autor, que já tem íntimas ligações com outra estética, a teatral, vem a público, agora, com uma coletânea de narrativas curtas de inegável qualidade, em que sobressaem a visada pessoal extremamente sensível e o domínio da técnica, economia de meios, linguagem, unidade dramática, de tempo e de espaço, que denunciam a intenção de Brennand de, mantendo-se no território da tradição, e quem sabe por isso mesmo, constituir novidade num tempo de experimentalismos nem sempre bem sucedidos. O livro se constroi a partir do inusitado, daquilo que surpreende, que nos pega de inopino no vai e vem da vida: um assalto na rua, um pedinte com que deparamos aqui ou além, a presença ao mesmo tempo delicada e prodigiosa da avó amada, enfim, a matéria com que se tece o eterno viravoltear do cotidiano. Não bastasse, pela originalidade da escrita e oportunidade da intenção, a homenagem ao homem de teatro, emblematicamente representado na figura de Ricardo Guilherme, uma das mais elevadas expressões da nossa inteligência. Um pequeno-grande livro, este Entre Oito Paredes com que o amigo Brennand de Sousa faz sua estreia nas letras cearenses contemporâneas.
 
Por último, e de qualidades artísticas ainda mais impressionantes, o belíssimo CD homônimo de Maurílio Rocha, uma coletânea de músicas compostas em sua totalidade por esse mineiro talentosíssimo, que, por dever de ofício, como professor do curso de Belas Artes da UFMG, tem vindo ao Ceará com alguma frequência. Um trabalho musical refinadíssimo, este de Maurílio Rocha, quer pela competência do compositor, do poeta e do intérprete, que transita pelas três dimensões artísticas com a mesma e irrepreensível desenvoltura, quer pela motivação que o move enquanto grande artista que é, e de que resulta o presente álbum: Maurílio compôs as oito músicas para os espetáculos teatrais O Mambembe, de Arthur Azevedo, e Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare. Também por essa razão, o trabalho apresenta-se eficiente, preciso e original.
 
O carro-chefe do CD, no entanto, a fim de que se faça justiça a outro grande artista, conta com a parceria de Anderson Aníbal, que assina a letra, vestida à perfeição pela deliciosa melodia de Maurílio Rocha. Intitula-se O Sonho: "Diz, se você puder./O que é isso que me tonteia?/Que vira os meus olhos e me faz cair?/É sonho? É sonho? É amor? É?", indaga o eu-lírico na primeira estrofe do poema, para arrematar com um lirismo despretensioso e leve, que remonta, talvez, ao melhor romantismo do inconfidente Tomaz Antônio Gonzaga: "E esse doce, essa nuvem/Nuvem é lugar de andar/Andar com que pé?/Asa que você me dá./É asa./Amor./Amor é." Fina-flor.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A ética perdida

É verdade que dei com os burros nágua. Deu segundo turno e a galera da reação está exultando com a possibilidade de um retrocesso. Coisas da democracia, se é que se pode falar de democracia diante de tudo o que houve e que, até onde sei, explica a surpresa do resultado. Sem querer "perder a postura intencionalmente", a exemplo do que fiz na semana que passou, insisto na ideia de que a grande imprensa brasileira vem materializando o mais deslavado jornalismo marrom. Por falar nisso, leitor encontra-me na rua e diz com todas as letras: - "Você foi muito infeliz!" Isso, claro, depois de besuntar a crítica com elogios que estão para além do que pode este pobre escriba.

Analisando o que se deu em termos de mídia durante a campanha, ocorre-me lembrar do clássico As ilusões perdidas, de Honoré de Balzac, livro com que o francês põe a nu as práticas inconfessáveis dos profissionais da imprensa na segunda metade do século XIX. Trata-se, entre outras coisas que a obra explora com a maestria do gênio, de uma impiedosa, mordaz e procedente crítica às práticas perversas do jornalismo, sua nebulosa expressão de interesses político-partidários. Numa palavra, a parcialidade de um aparelho a um tempo imprescindível e pernicioso. Mas, voltemos ao que importa.

Pois bem. O mais lamentável é que um jornal importante como a Folha de São Paulo, uma revista como a Veja, para não entrar nas obviedades que levam os jornalistas da TV Globo a fazer o que fazem, possuidores de redações extremamente competentes, a fina flor da nossa imprensa, pratiquem em uníssono um jornalismo compactamente voltado para os interesses dos seus patrões. Uma vergonha!

E ainda têm o cabotinismo de ribombar palavras de ordem em favor do que professam ser uma imprensa livre. Confunde-se, na embriagada disposição de fazer valer a vontade do patrão, liberdade empresarial dos donos dos órgãos de imprensa com liberdade de expressão jornalística. E haja editoriais, reportagens, artigos etc., defendendo hoje, mutatis mutandis, o que defendiam durante os anos de arbítrio: antes, o elogio da reação contra o que diziam ser o risco de cubanização do Brasil; agora a desconstrução de um governo popular contra os riscos de mexicanização, venezuelização ou seja lá o que for. Uma indecência!

Isso, prezado leitor, para não falar da exploração desumana de falas, isoladas do contexto em que foram ditas, com o fim de danificar a imagem pública das pessoas. Um exemplo? A fala em que a candidata Dilma Rousseff admite a necessidade de que se revejam as questões legais que envolvem o aborto, que, para essa imprensa "livre" significa defender a legalização do aborto. Em tempo, não há como negar: o papel da Igreja, sem esquecer a manipulação do pensamento dos evangélicos, explica à perfeição a queda de Dilma e o espantoso crescimento de Marina Silva no primeiro turno. Sem desconhecer os méritos desta, obviamente. A ética perdida.