Sem utopias

Na contramão do que se professava como justificativa para o golpe, 2016 termina miseravelmente. Para não correr o risco de ser julgado tendencioso, reproduzo aqui algumas das principais manchetes da Folha de S. Paulo, uma das empresas de comunicação responsáveis pela sujeira em que se transformou a política no Brasil. Vejamos: "Rombo nas contas públicas é o maior em 20 anos"; "Utilização da capacidade da indústria cai à mínima histórica"; "Pela primeira vez em 12 anos, shoppings fecham mais lojas do que abrem"; "Varejo tem queda no Natal"; "Mercado reduz projeção do PIB"; "Desemprego deve subir ainda mais em 2017" etc.

Onde a tão alardeada recuperação da economia?

O que se vê, para quem insiste em querer negar os fatos, é que a deposição de Dilma nada mais era do que a decidida investida dos grandes empresários do país contra um governo popular, pondo por terra o projeto de inclusão social e fortalecimento da soberania do país em favor dos interesses perversos do neoliberalismo e da ingerência dos Estados Unidos na vida econômica e política do país.

Como faz lembrar um articulista da própria Folha de S. Paulo, em edição de 27/12, os entusiastas da "falta de confiança", referindo-se a um dos chavões mais simpáticos à turma do pato (empresários da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), alardeavam o exemplo do governo ultraliberal de Maurício Macri, da Argentina, cuja última medida de repercussão foi a demissão do seu ministro da Fazenda. Provas e mais provas de que o modelo é, a um tempo, perverso e suicida. É ter olhos (ou vergonha?) para ver.

2016 termina, pois, como um ano em que o Brasil viu ruir, a golpes de corrupção, o Estado de Direito, os avanços em favor dos menos favorecidos e das chamadas minorias. Não à toa, portanto, é que o governo ilegítimo de Michel Temer extinguiu pastas estratégicas, a exemplo de secretarias como das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos; diminuiu o poder de ação e autogerenciamento de ministérios importantes, tais como o da Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Agrário, sem esquecer o que fez à Educação e à Saúde com a aprovação, comprada, da PEC da maldade, que congela por 20 anos os recursos de ambas.

O pior, sabe-se, está por vir: a reforma da Previdência assalta os trabalhadores no que existe de mais legítimo em suas conquistas. Aumenta para 49 anos o tempo de contribuição e idade mínima de 65 anos para homens e mulheres, bem como extingue a vinculação dos benefícios ao salário mínimo.

Numa prova incontornável de suas contradições e servilismo ao grande Capital, o governo Temer por pouco não repassou às empresas de telefonia R$ 100 bilhões do patrimônio público nacional, deixando às claras a face desfigurada de um governo que tira dos pobres para dar aos muito ricos.

Como tomei a Folha de S. Paulo para evidenciar a desfaçatez por trás do golpe indisfarçável, é do colunista Alvaro Costa e Silva, em sua coluna na edição de 27/12, que retiro a conhecida declaração de Zózimo Barrozo do Amaral (1941-1997) sobre a elite brasileira: "O empresariado brasileiro é, de modo geral, escrotérrimo (sic). Ele é incapaz de ceder um mínimo que seja nas questões que envolvem seus ganhos. É um conjunto de pessoas que se habituou a receber tudo dando pouco em troca. A relação dele tanto com os empregados quanto com o país é de mão única: só querem receber, e nada mais".

Decididamente, termina o ano da vergonha, da canalhice do Congresso Nacional, da perda das garantias constitucionais, dos maus exemplos do Judiciário, da inescrupulosa articulação contra a democracia, do uso desavergonhado de dois pesos e duas medidas, das falsas promessas, da exploração da ingenuidade dos menos favorecidos em favor de um governo espúrio e indigno até a medula.

Que venha 2017, posto que nada é tão ruim que não possa piorar. 

 

 

 


 

Conto de Natal

Desde que o marido morrera, havia muitos anos, dona Lili vivia na mais absoluta solidão. Dedicava-se, mal raiava o dia, a costurar na velha Singer. A rotina de sempre: receber clientes, cada vez mais raros nestes tempos de griffes, fazer a entrega das encomendas, comprar botão, zíper, tubos de linha, agulha, alfinete - "Se Deus quiser pago tudo depois das festas - dizia ao dono do armarinho, que a coisa melhora véspera do Natal e do Ano-Novo."
Todos os dias, à luz dos primeiros raios de sol, dona Lili arrumava a casa, o quintal e, zelosa, ia ao velho guarda-roupa de jacarandá organizar as gavetas do finado - o dourado da abotoadura esfregado no vestido para conservar o brilho. Com o desvelo das apaixonadas, dobrava cada gravata, cada cueca... E eram vinte e sete anos de viuvez!
No começo, passados os quatro ou cinco primeiros anos, as freguesas diziam que dona Lili haveria de achar um marido novo: - "Quarentona muito da bem-apanhada", brincavam.
Mas o tempo, tão afeito a surpresas, não trouxe surpresas para dona Lili. A vida-vidinha passando sem novidades, e com ela a beleza e o encanto da velha costureira, o verde dos olhos ainda chamando a atenção de todos. Não tivera filhos, e Maria, a empregada vinda das bandas do Quixelô, que fora a companhia de dona Lili anos a fio, voltara para os confins, desde que a catarata roubara-lhe dos olhos os derradeiros fiapos de luz.
Contudo, tendo como amiga a eterna solidão, dona Lili não maldizia a vida: - "É assim mesmo, até que Deus me leve outra vez para os braços de Murilo", que Murilo era como se chamava o marido de dona Lili.
Com a proliferação das butiques, as dificuldades aumentavam, as freguesas escasseando com o passar dos anos.
Hora existia na solidão de dona Lili, que lhe passava pela cabeça largar a velha Singer e tentar recomeçar a vida, balconista de loja de tecido, manicure, vendedora de produtos de beleza... Depois, recomposta a lucidez e a solenidade da velhice, dona Lili via com clareza que já não era tempo de recomeçar. E voltava, alfinete à boca, a dobrar o corte de fazenda de que surgiria o vestido de término de curso da filha de Zenaide, a mulher do tabelião, "tão exigente!", pensava com seus botões.
Dia após dia, a rotina era de tristeza e solidão na velha casa. Varrer, lavar, passar, fazer a comida e arrumar o guarda-roupa de Murilo, o dourado da abotoadura arrastado no vestido de organdi, para retomar o brilho.
Certo dia, véspera do Natal, à tardinha, banho tomado, a travessa azul segurando o penteado simples, o cheiro da alfazema a se espalhar no ar, dona Lili debruçou-se na pedra da janela para admirar o mundo. Ao longo da Rua do Fogo, que era o nome da rua em que dona Lili morava, as barracas de guloseimas, de bugingangas, de brinquedos baratos, fizeram-na lembrar que se comemorava o nascimento de Jesus, dali a poucas horas. E que a vida, no viravoltear das coisas e na repetida utopia dos homens, anunciava-se nova, porque era Natal.
Alforriando o olhar cansado para o além, dona Lili deixou-se transportar para os tempos ao lado de Murilo, a tão esperada missa-do-galo na Matriz, o calçadão da praça - o braço enlaçado à cintura do homem amado - e a sensação há tanto esquecida de que a vida pode ser feliz.
Exausta, que foram muitas as encomendas do fim de ano, dona Lili fechou lentamente a janela, percorreu, passo trôpego e tateando o ar, o corredor que levava ao quarto. Ainda uma vez, antes de deitar, dona Lili abriu a gaveta do guarda-roupa, reorganizou as gravatas, as cuecas, o pente, a navalha de barbear, a aliança de Murilo - "Ainda mando o relojoeiro tirar os riscos!" - o dourado da abotoadura contra o vestido, para reconquistar o brilho.
Sob o domínio da insônia, companheira de toda noite, dona Lili ainda pode escutar o pipocar das bombas, o badalar do sino da Matriz. E, antes de soprar a vela, bruxuleante sobre a mesa de cabeceira, como fazia há vinte e sete anos, antes de dormir beijou o retrato de Murilo.
Dessa vez, no entanto, dos olhos verdes de dona Lili, duas lágrimas, grossas e cristalinas, rolaram serenamente pelas maçãs do rosto.
Na manhã seguinte, a muito custo, conseguiu-se entrar na casa de dona Lili, onde a encontraram sem vida, em decúbito dorsal, o par de abotoaduras preso a uma das mãos, já endurecidas.
Ao enterro, rigorosamente contadas, compareceram dezoito pessoas - onze homens, seis mulheres e um menino.
Dizem que do interior daquela casa enorme e vazia, à meia-noite, por muitos anos, ouviu-se o barulho da velha máquina de costurar.

Num reino muito distante

Pego em intimidades com o amigo e provável candidato do PSDB à presidência da República (pelo que se desculpou publicamente), o juiz Sérgio Moro não esperou muito para golpear mais uma vez o ex-presidente Lula. É a forma sempre esperada de quem, como ele, não suporta deparar com resultados de pesquisas que apontam, vezes seguidas, o líder do PT disparado à frente de todos os nomes até cogitados para a eleição de 2018, Aécio entre eles. Agora, mais uma vez sem provas, o empavonado juiz denuncia Lula por supostos benefícios na aquisição (não concretizada) de um terreno em que seria construída a sede do Instituto Luiz Inácio Lula da Silva. O objetivo, escancaradamente, é um só: Impedir que Lula possa disputar para Presidente.

Como massa de fazer pão, que quanto mais apanha mais cresce, no dizer irreverente do Macaco Simão, Lula subiu em relação à pesquisa anterior do Datafolha. Agora, em cenário de primeiro turno, aparece na dianteira com 26%, contra 17% para Marina e 8% para Geraldo Alckmin. Os números da pesquisa, que, como dizíamos, é motivo de indisfarçável angústia de Sérgio Moro, mais ainda mexe com a vaidade doentia do juiz em simulação que apresenta seu nome como suposto candidato. Vejamos: Lula 24% e Marina e Sérgio Moro empatados com 11%. A margem de erro, diz o Datafolha, é de dois pontos.

E Aécio?, haverá de perguntar o leitor. Pois bem, num cenário em que o senador mineiro aparece o resultado é esse: Lula 25%, Marina 17%, Aécio 11%. Nesse caso, Bolsonaro tem 9%, Ciro Gomes 5% e Temer 4%. Lula ganha, ainda, no cenário em que aparece Serra e noutro em que se colocam os três nomes do PSDB. Nas duas, Lula tem vantagem de 13 e 12 pontos, respectivamente. Em síntese: Só mesmo a impossibilidade de candidatar-se tira Lula do páreo nas eleições de 2018.

As maquinações de Temer, Aécio, Serra, Moro e companhia, fazem-me lembrar o início da Cena 3 do terceiro Ato do clássico de Shakespeare, em que Claudio e Rosencrantz admitem que Hamlet deva ser afastado a fim de que a vida do rei não seja ameaçada: "A majestade não sucumbe sozinha; mas arrasta/Como um golfo o que a cerca; é como a roda/Posta no cume da montanha altíssima/A cujos raios mil pequenas coisas/São presas e encaixadas; se ela cai,/Cada pequeno objeto, em consequência,/Segue a ruidosa ruína".

A propósito, a peça do bardo inglês tem como tema um reino de podridão, desfaçatez, mentira, traições, corrupção, ardis, desde que chega ao poder um usurpador que foi capaz de matar o irmão, covardemente, para se tornar um rei ilegítimo. O final da peça, todos sabem, é trágico  --  do mesmo modo que parece vir ocorrendo a um país léguas sem-fim do reino da Dinamarca. Já dizia Wilde, outro gênio da literatura inglesa, é a vida, muitas vezes, que imita a Arte.

 

 

 

  

 

 

 


 

Na manhã de domingo

Com a morte de Ferreira Gullar, na manhã de domingo 4, perde a inteligência brasileira um dos seus maiores nomes. Poeta, ensaísta, letrista, tradutor, roteirista e crítico de arte, José Ribamar Ferreira, 86, para orgulho dos nordestinos, era natural do Maranhão.

Foi um dos renovadores da linguagem poética, tendo participado ativamente do neoconcretismo na literatura e nas artes visuais, de que veio a se tornar o maior crítico brasileiro desde a morte de Mário Pedrosa. Como este, Gullar era homem de formação marxista, mas, nos últimos anos, transformou-se num desafeto do governo do Partido dos Trabalhadores, assinando crônicas para a Folha de S. Paulo em que expressava seu desencanto em face dos rumos políticos que vinha tomando o país. Em muitos desses textos, diga-se de passagem, era indisfarçável algum ranço pessoal, o que não raro redimensionava para menor a qualidade de sua crítica, invariavelmente dura e irredutível.

Não importa, agora, no entanto, falar de seu engajamento e de suas desilusões com o rumo que tomou a esquerda nos últimos anos. De resto, são posições próprias de quem, como ele, foi sempre um defensor intransigente das liberdades. Nesse sentido, é a voz de sua arte que confirma com maior exatidão a presença do homem coerente e firme, reverberando com uma força lírica incomum as lembranças de um tempo que queremos esquecer, mas diante do qual o silêncio nunca é a melhor saída. Por isso, seu lirismo tem algo de trágico e, por vezes, subversivo no sentido mais exato da palavra. Por isso, ninguém melhor que Ferreira Gullar para exemplificar o que existiu de mais digno e significativo em termos intelectuais e artísticos, no Brasil, desde a redemocratização. Nenhum outro foi capaz de exprimir as inquietações do homem moderno com tão grande sensibilidade e capacidade de análise, mesmo quando se viu forçado a negar tendências estéticas antes acolhidas com entusiasmo e convicção. Não à toa, pois, é que rompeu com a poesia concreta, tornou-se um desafeto dos irmão Campos (Haroldo e Augusto) e apontou sem meias-palavras a banalização da arte dita conceitual.

Mas é do poeta, insisto, que gostaria de falar um pouco. Para dizer o quanto marcou os de minha geração, não apenas por força do entusiasmo natural advindo da descoberta do Poema Sujo, que tão exemplarmente serviu de farol em meio à escuridão dos anos de chumbo; para dizer da sintonia com a sua visão de mundo e a sua notável compreensão do amor e da paixão, bem como de todos os muitos desafios que tivemos pela frente ainda tão jovens e tão despreparados para o enfrentamento da vida.

É dessa época, por exemplo, que me vêm à mente, espontâneos e incontidos, os versos em que nos adverte sobre o trabalho, árduo e anônimo, dos cortadores de cana: "Este açúcar era cana/e veio dos canaviais extensos/que não nascem por acaso/no regaço do vale.//Em lugares distantes, onde não há hospital/nem escola,/homens que não sabem ler e morrem/aos vinte e sete anos/plantaram e colheram a cana/que viraria açúcar//Em usinas escuras,/homens de vida amarga/e dura/produziram este açúcar/branco e puro/com que adoço meu café esta manhã em Ipanema".

É dela que me retornam, vindos mais do coração que da mente, outros, assim tão doces, tão puros: "Você é mais bonita que uma bola prateada/de papel de cigarro/Você é mais bonita que uma poça dágua/límpida/num lugar escondido/Você é mais bonita que uma zebra/que um filhote de onça/que um Boeing 707 em pleno ar/Você é mais bonita que um jardim florido/em frente ao mar em Ipanema/Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás/de noite/mais bonita que Úrsula Andress/que o Palácio da Alvorada/mais bonita que a alvorada/que o mar azul-safira da República Dominicana//Olha você é tão bela quanto o Rio de Janeiro/em maio/e quase tão bonita/quanto a Revolução Cubana".

Sim, é desse tempo que já vai longe, que me retornam, de cor, sem errância, sem lapsos de memória, as estrofes apaixonantes de Ferreira Gullar em Dentro da noite veloz: "Meu povo e meu poema crescem juntos/como cresce no fruto/a árvore nova//No povo meu poema vai nascendo/como no canavial/nasce verde o açúcar//No povo meu poema está maduro/como o sol/na garganta do futuro//Meu povo e meu poema/se refletem//como a espiga se funde em terra fértil//Ao povo seu poema aqui devolvo/menos como quem canta/do que planta".

Ou do suave e terno erotismo de Coito: "Todos os movimentos/do amor/são noturnos/mesmo quando praticados/à luz do dia//Vem de ti o sinal/no cheiro ou no tato/que faz acordar o bicho/em seu fosso:/na treva, lento,/se desenrola/e desliza em direção a teu sorriso".

Com a morte de Ferreira Gullar, eu dizia, morre mais que um poeta, posto que é um pouco da poesia que desaparece na manhã de domingo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

Ex-amor

Dia após dia, vai se confirmando nos bastidores da política brasileira o que todos já sabiam: foi golpe, e tinha por maior objetivo impedir que a operação Lava Jato investigasse quadros importantes da dupla PMDB/PSDB. Para não falar, óbvio, do jogo de interesses espúrios na linha daquele que levou Geddel Vieira Lima à lona. Lixo sobre lixo, numa sequência que a um tempo enoja e revolta, o (des)governo de Michel Temer parece apontar para seu desfecho antes mesmo de começar. Mesmo quando, visando a safar-se da repercussão negativa e coerente com sua vocação de traidor, o presidente anuncia que vetará alterações no projeto anticorrupção aprovado, noite alta, pelos senadores, e que, sabe-se, faziam parte das manobras arquitetadas na intimidade de almoços e jantares promovidos pelo próprio Michel Temer. Uma vergonha.

Sobre isso, por oportuno, merece destaque a entrevista concedida à Folha de S. Paulo, edição desta quinta 01/12/2016, pelo ex-amor da corja golpista, Joaquim Barbosa. Para os que não leram, aqui vão alguns trechos notáveis do que falou Barbosa.

Impeachment: "... uma encenação que fez o país retroceder a um passado no qual éramos considerados uma República de Bananas. [...] Todos os passos já estavam planejados desde 2015. Aqueles ritos ali [no Congresso] foram cumpridos apenas formalmente".

Interesses por trás da manobra: "Era um grupo de líderes em manobras parlamentares que têm um modo de agir sorrateiro. Agem às sombras. E num determinado momento decidiram derrubar [Dilma Rousseff]".

Fim da Lava Jato: "Há [riscos] sim, porque a sociedade brasileira ainda não acordou para a fragilidade institucional que se criou quando se mexeu num pilar fundamental do nosso sistema de governo, que é a Presidência. Uma das consequências mais graves de todo esse processo foi o seu enfraquecimento".

Apoio popular ao golpe: "Aquelas lideranças da sociedade que apoiaram com vigor, muitas vezes com ódio, um ato grave como o impeachment não tinham clareza da desestabilização estrutural que [isso] provoca".

Envolvimento do Capital: "A partir de determinado momento, sob o pretexto de se trazer estabilidade, a elite econômica passou a apoiar, aderiu. Mas a motivação inicial é muito clara".

Consequências do golpe: "No momento em que você mina esse pilar central, todo o resto passa a sofrer desequilíbrio estrutural. Todas as teorias dos últimos anos 30 anos, de hipertrofia da Presidência, de seu poder quase imperial, foram por água abaixo. A facilidade com que se destituiu um presidente desmentiu todas essas teses. No momento em que o Congresso entra em conluio com o vice para derrubar um presidente da República, com toda a sua estrutura de poder que se une, não para exercer controles constitucionais, mas sim para reunir em suas mãos o poder, nasce o que eu chamo de desequilíbrio estrutural".

Ilegitimidade de Temer: "Essa desestabilização empoderou essa gente numa Presidência sem legitimidade unida a um Congresso com motivações espúrias. E esse grupo se sente legitimado a praticar as maiores barbáries institucionais contra o país".

Risco de Temer cair: "Corre risco. É tão artificial essa situação criada pelo impeachment que eu acho, sinceramente, que esse governo não resistiria a uma série de manifestações".

Retrocesso político: "O Brasil deu um passo para trás gigantesco em 2016. As instituições democráticas vinham se fortalecendo de maneira consistente nos últimos 30 anos. [...] E houve uma interrupção brutal desse processo de 'rebananização' [voltar a ser uma país de bananas]. É como se tivéssemos voltando ao passado no qual éramos considerados uma República de Bananas. Isso é muito claro. Basta ver o olhar que o mundo lança sobre o Brasil hoje.

Com a palavra, os coxinhas, seus ex-amantes.

 

 

 

 

 


 

Fragmento de crônica sobre Fidel Castro, do livro Do Amor e Outras Crônicas

"Vi-o uma vez, a uma distância de 20, 30 metros. Era a primeira posse de Lula como presidente. Compúnhamos uma multidão em frente ao palanque onde se viam chefes de Estado os mais diferentes. Eis que ouço a voz de uma jovem a poucos passos: "Fidel, meu! Fidel, meu! É ele, vê lá! É Fidel, meu!" Só então pude entender o que se passava. Fidel surgira, como que por milagre, do fundo do palanque. Não saberia descrever a emoção que tomou conta de todos naquele instante. Mas lembro que abri o mais largo sorriso de que já fui capaz, enquanto duas lágrimas, lentamente, caíam-me pelas maçãs do rosto. Foi aí que senti um aperto de mão da minha companheira. Olhei-a, e, tomado de uma sentimento que jamais serei capaz de definir com exatidão, pude ver que estava em prantos, dominada pela força de sua emoção, maior e mais bonita que a minha naquele momento. Abraçamo-nos como que extasiados, acompanhando com os olhos atentos a trajetória percorrida por aquele homem imensamente alto, para quem, em sortilégio, todos os olhares se voltavam, na eternidade de um instante. A praça delirava em presença do mito.

Durante quase cinco decênios, Fidel Castro sobrevivera a dez governos americanos  --  seus inimigos figadais --, a algo em torno de 600 tentativas de assassinato e a uma invasão dos EUA. A exemplo de Che, tornara-se revolucionário após abdicar do confortável cotidiano de filho de um latifundiário rico para se dedicar aos pobres de Cuba. Quase menino, liderara uma greve contra o próprio pai, julgando injustiçados aqueles que lhe prestavam serviço em suas terras. Com 18 homens, apenas, enfileirou-se contra Fulgêncio Batista e seu reduto de corrupção, máfia, jogatina, prostituição, que faziam do país, como disse, um tipo de bordel dos ricos norte-americanos. Arrebanhou apoio entre os camponeses da serra Maestra; enfrentou fome, sede, frio, sofrimento físico e emocional, até consolidar a vitória da guerrilha, em inícios de 1959. Colocou Cuba entre os países com melhores índices de crescimento social; acabou com o analfabetismo, deu-lhe status de país-referência em termos de saúde e elevou para quase 80 anos a expectativa de vida dos moradores da Ilha. Mas matou em nome da Revolução, e permaneceu no poder por 49 anos.

Sem rasgos de esquerdismo caduco, lamento se só isso vier a pesar no julgamento que a lhe fará a História."

O homem sem sono

Acabo de ler o inquietante 24/7 Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, de Jonathan Crary. Conhecia o autor de outras áreas da atividade acadêmica, pois se trata de um respeitável estudioso da arte moderna e teoria da arte da Universidade de Columbia, autor, entre outros, do incontornável Suspensões da Percepção.

É nesse último que Crary dedica-se a examinar o fenômeno da percepção em nova chave, avançando sobre as relações entre percepção, sensibilidade, pesquisa científica e estética no chamado capitalismo industrial, pondo por terra algumas contribuições já muito discutidas no campo da fenomenologia tradicional. Mas é sobre o primeiro, 24/7 Capitalismo Tardio e Fins do Sono, que gostaria de tecer na coluna de hoje algumas considerações. Vamos lá.

Trata-se, como disse, de uma das mais viscerais críticas ao modelo capitalista, algo, como sugere o próprio título da obra, capaz de tirar o sono de qualquer um.  Segundo Crary, cuja teoria está fundamentada em criteriosos estudos, a disponibilidade para consumir, trabalhar, compartilhar e responder (os dois últimos verbos dizem respeito aos vícios da comunicação virtual), 24 horas por dia, 7 dias por semana, é a perspectiva cada vez mais real por que se orienta a sociedade contemporânea.

O livro mostra de forma convincente como os interesses do capital conduzem o homem para abandonar um dos seus direitos inalienáveis, a necessidade do repouso. Para tanto, não é preciso ir longe: Crary fundamenta sua tese em pesquisas já conhecidas nos Estados Unidos e que têm por objetivo encontrar a fórmula para o "homem sem sono", na esfera, em princípio, do que tem sido possível no campo das técnicas militares.

É dessas pesquisas, antes restritas às guerras, que se pretende chegar ao mundo do trabalho e do consumo, do que resulta essa perturbadora visão do futuro.

Os tablets, os celulares, os leitores de texto, iPads etc., são a primeira prova dessa relação desumana entre o homem e a tecnologia avançada, meio inicial pelo qual o capitalismo vai condicionando cada um de nós ao consumismo desenfreado e à necessidade de trabalhar cada vez mais a fim de que se possa usufruir dos "encantos" colocados no mercado a cada instante.

É o avanço irrefreável do modelo econômico dominante. Valendo-se de filmes, produção artística e, o que é mais relevante do ponto de vista científico, na linha do que existe de mais significativo produzido por intelectuais de diferentes momentos históricos (Marx, Arendt, Agamben, Foucault, Deleuze etc.), Crary coloca diante do leitor a necessidade de reflexões as mais instigantes.

Para se ter uma ideia do que isso quer dizer, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos vem gastando quantias inimagináveis para entender como certas espécies de aves (a exemplo do pardal de coroa branca) suportam realizar voos entre o Alasca e o México, ininterruptos, durante sete dias e sete noites. O objetivo, evidencia Crary, é obter conhecimentos aplicáveis ao homem.

Não se trata, como se pode ver, de um exercício de diletantismo acadêmico, tampouco de uma banalização do que há de mais preocupante em torno do futuro da humanidade. O livro se sustenta em uma argumentação consistente, intelectualmente responsável, o que não só justifica a sua leitura, mas, acima de tudo, contribuirá positivamente para a discussão de alguns dos temas mais caros à vida de cada um de nós. Recomendo. 

 


 

Coleção Airton Queiroz

O acontecimento mais significativo no campo das artes visuais, no estado do Ceará, em muitos anos, é mesmo a Exposição da Coleção Airton Queiroz. Fonte preciosa para historiadores de arte, professores, estudantes ou apenas amantes das artes visuais, a coleção reúne obras importantes de artistas de diferentes períodos estéticos, do Brasil e do mundo.

Veem-se, ali, de desenhos de Albert Eckhout (1607-1666) a imagem de Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho, passando por óleos de Frans Post (1612-1680) e gravuras de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), que, ao lado de nomes como Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830), dão ao conjunto de obras do século XIX um destaque especial à coleção.

Chega-se, a partir daí, aos brasileiros Victor Meirelles (1832-1903) e Pedro Américo (1843-1905), ambos surgidos da Academia Imperial de Belas Artes a que fizemos alusão em coluna recente do blog. A essa altura é particularmente notável a presença do  Pedro Weingärtner (1853-1929), sem esquecer nomes da estatura de Henri-Nicolas Vinet (1817-1876), Johann Moritz Rugendas (1802-1858), Nicolas-Antônio Facchinetti (1824-1900) e do nosso Raimundo Cela (1890-1954), que transita do impressionismo sóbrio de Feira de Saint-Agrève ao temático e intimista Moça Bordando, óleo sobre tela de 1932, com que eterniza Áurea Cela.

Mas é o segmento modernista da coleção de Airton Queiroz que arrebata de vez o visitante, com obras de tirar o folego. Aqui estão os monstros sagrados da grande arte do século XX, de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) a Alfredo Volpi (1896-1988); de Anita Malfatti (1889-1964) a Candido Portinari (1903-1962); de Iberê Camargo (1914-1994) a Tarsila do Amaral (1886-1973). Para não falar de Ismael Nery (1900-1934), José Pancetti (1902-1958), Lasar Segall (1889-1957), Vicente do Rêgo Monteiro (1899-1970), Victor Brecheret (1894-1955), entre tantos outros.

Não bastasse tudo isso, é incontornável o conjunto dos ditos "abstratos", que cobre tendências e estéticas diversas, grupos e frentes de ruptura etc. Depara-se, agora, com obras de artistas inclassificáveis, Hermelindo Fiaminghi (1920-2004) e Waldemar Cordeiro (1925-1973), por exemplo; os neoconcretos Amílcar de Castro (1920-2002), Lygia Pape (1927-2004); os "contemporâneos" Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark (1920-1988). Há Tomie Ohtake (1913-2015), Antônio Bandeira (1922-1967) e nomes da arte cinética, Abraham  Palatnik (1928) e Sérvulo Esmeraldo (1929).

Dispensável dizer o frisson que causam os estrangeiros mais renomados: Peter Paul Rubens (1577-1640), Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Salvador Dalí (1904-1989), Henri Matisse (1869-1954), Joan Miró (1893-1983), Diego Rivera (1886-1957), Claude Monet (1840-1926), para lembrar os nomes que me ocorrem à frente do computador enquanto escrevo a coluna de hoje.

Pelos méritos desse colecionador admirável que é Airton Queiroz, o Ceará entra definitivamente no calendário do que existe de mais expressivo em eventos ligados às artes visuais ao longo de muitos anos. Imperdível!

 


 

De Trump a Shaolin do Sertão

É assustador o que vem ocorrendo mundo afora em termos políticos. Não bastasse a onda fascista que parece tomar conta da América Latina, dentro de cujo contexto o Brasil lidera com uma desfaçatez que a um tempo faz chorar e rir, aconteceu o pior: Donald Trump venceu as eleições para presidente da maior e mais influente potência mundial, e, com ele, terá vencido muito do "corpus" do que existe de mais reacionário, preconceituoso, intolerante, homofóbico, misógino e outros rótulos do fascismo mais aterrador.

O resultado, se surpreende do ponto de vista eleitoral, é condizente com a vocação mais indisfarçável de um país arrogante, perseguidor, autoritário para com o restante do mundo  --  um país doente, bem na perspectiva do que reconheceu a candidata democrata Hillary Clinton no seu último discurso: "Precisamos curar este país; temos de reunir as pessoas, de ouvir e respeitar um ao outro".

A repercussão disso tudo, para além do que já, por si só, é terrível para os países de capitalismo periférico, a exemplo deste Brasil não menos doente, é que estão ameaçados os valores humanos essenciais. Trump não mediu palavras durante toda a sua campanha para expressar o ideário por que norteará seu governo, agora "legitimamente" reconhecido dentro das regras do jogo eleitoral dos EUA e por uma maioria branca que se posiciona contrária aos direitos das minorias, negros, latino-americanos, asiáticos, índios, árabes e pobres. O pior está por vir. Repito: é assustador.

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Agora não há do que duvidar: o impeachment de Dilma foi golpe e tinha por objetivo, ao lado de atender aos privilégios dos grandes investidores, abafar o que estava para vir à tona nas investigações da Lava Jato contra parlamentares dos partidos golpistas, PSDB e PMDB à frente. Conforme reconhecem os procuradores da operação, em grande parte desmoralizados pela prática autoritária e perseguidora ao longo das investigações, são visíveis as manobras levadas a efeito pelos deputados da base de apoio ao governo Temer no sentido de sustar e extinguir punições e ações criminais contra supostos envolvidos. A proposta, que poderá ser votada em regime de urgência, e tem o líder do governo na Câmara, André Moura, como seu propositor, diz respeito ao acordo de leniência e impede que sejam levados adiante processos contra as empresas envolvidas em escândalos. Para quem julgava improcedente o discurso de deputados e senadores contrários ao impeachment, a entrevista concedida em Curitiba pelos procuradores da Lava Jato, tornando pública a manobra, reconhecer o golpe é, hoje, uma questão de consciência. E de vergonha na cara, claro.

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Fui ver o último filme de Halder Gomes, Shaolin do Sertão. Reeditando basicamente as mesmas estratégias narrativas de Cine Holliúdy, o filme com que o cineasta cearense teve estrondoso sucesso de bilheteria há pouco mais de dois anos, e que lhe assegurou visibilidade entre os novos realizadores brasileiros, Shaolin do Sertão reafirma o que dizíamos sobre o filme anterior: há, por detrás da câmera, um diretor talentoso e hábil na utilização dos recursos cinematográficos. Halder Gomes domina a linguagem e suas práticas estilísticas e narrativas dão ao ver a presença do cineasta maduro, mesmo quando faz escolhas menos felizes do ponto de vista estético. É o que ocorre à sequência de abertura em que utiliza imagens de VHS para evidenciar o contexto em que nasce a obsessão de Aluísio Li, o protagonista do filme, pelas lutas marciais. A tentativa de explorar as limitações técnicas do videocassete como forma de criar uma atmosfera condizente com o tempo diegético (ficcional) do filme, não resulta feliz e, já de início, serve apenas para acentuar alguns defeitos desse novo sucesso de Halder Gomes. Ao que se soma uma montagem demasiado fracionada, o que, se por um lado privilegia a ação física da personagem, acelerando o ritmo da narrativa, por outro desmerece a sensibilidade do diretor na estruturação do roteiro. A última sequência (a luta final entre Aluísio Li contra seu antagonista) ademais, poderia ser menos distendida sem que a tensão dramática viesse a ser afetada em sua essência. Pela competência indiscutível de Halder Gomes, todavia, embora levando o público a desabridas gargalhadas, Brasil afora, o que confirma a boa acolhida de Shaolin do Sertão por um público que se assume fiel à tipologia estética escolhida pelo diretor, alimentamos a esperança de vê-lo explorar outros filões cinematográficos. Um filme, sabemos, é uma história contada com recursos específicos, sons, cores, movimento, luz etc. O tratamento estilístico, a forma propriamente dita, a sensibilidade com que escolhe suas estratégias narrativas, enquadramentos, angulação de câmera, movimentação, direção de atores e outros procedimentos estéticos, Halder Gomes sabe emblematicamente como fazê-lo. Falta-lhe sair da zona de conforto (o que é compreensível em face de sua consagração no gênero até aqui explorado) e ousar. A exemplo de Cine Holliúdy, Shaolin do Sertão tem inegáveis qualidades, mas estão muito abaixo do que Halder Gomes pode fazer em termos cinematográficos. Em tempo: é notável o trabalho de Edmilson Filho no papel principal.

 

 

 

 

Ecce Homo

Por volta de 1972, contava eu uns 16 anos, descobri Nietzsche. Volto ao assunto. Caiu-me às mãos, não sei bem como, o Humano, demasiado humano. Como vivesse uma fase profundamente mística, participando de grupos de jovens religiosos, lembro que ler o filósofo alemão foi algo a um tempo desafiador e desconcertante. Afinal, tratava-se do pensador que escrevera O anticristo, e que professara a morte de Deus.

Mas, lembro, não conseguia me desvencilhar daqueles aforismos carregados de lucidez e sabedoria. Era uma experiência maravilhosa, incomunicável, profundamente sedutora conhecer um intelectual que se assumia humano, demasiado humano. Com um defeito, apenas, contrapor-se ao Cristianismo, que, àquela altura dos meus dias, era para mim um referencial. Não falo da referencialidade meramente religiosa, igrejeira. Não, víamos (e estudávamos o Cristianismo) mais como uma filosofia, uma doutrina baseada na alegria de viver, partilhar, dividir tanto quanto possível o milagre do amor. Talvez estivesse aí a razão de ser translumbrante o fato de ler Nietzsche, de conhecer a luz ofuscante de sua filosofia e a motivação de saber mais e mais de sua vida, marcada por tantos conflitos e tantos dramas.

Hoje, quando escrevo estas minhas memórias, e a leitura da obra do autor de Assim falou Zaratustra é coisa mais amadurecida do ponto de vista intelectual, causa-me um tipo indefinível de prazer saber que Nietzsche não é tão anticristão assim.

O meu gosto pela filosofia nasceu, contudo, desse primeiro contato com o pensamento nietzscheano, e com a sua poesia, claro, pela qual revelava a sua inquietante busca de Deus: “Quero conhecer-Te, Desconhecido,/Tu, que te agarras ao fundo de minha alma/que atravessas minha vida estranho/e intocável como a tempestade./Quero conhecer-Te, ainda que para servir-Te.”

Por força de Nietzsche, curioso, fui a Sócrates, Platão, Aristóteles, percorri os caminhos que percorreram os Cínicos, os Céticos, os Epicuristas, os Estóicos… Cheguei a Hegel, Kant, Schopenhauer, Marx…

Retornei a Nietzsche, de quem leria O nascimento da tragédia, Além do bem e do mal, A gaia ciência, Ecce homo etc. Assim, fortalecido na minha fé, na crença de que nem tudo resume-se ao que está aqui, nessa passagem repleta de “eternos retornos”, por ignorância ou seja lá o que for, tenho vivido a vida, com Nietzsche e com Deus, num mundo, muitas vezes, sem Deus e sem sentido.

Há 200 anos, o ensino de artes era prioridade

Numa coincidência irônica, para um governo que professa secundária a importância do ensino de artes nas escolas do país, o Brasil festeja em 2016 duzentos anos de um dos fatos mais relevantes para a cultura nacional: a Missão Artística Francesa, vinda aqui, em 1816, por força de um acordo envolvendo franceses e a Corte portuguesa. O projeto tinha por objetivo o ensino sistemático de artes e da arquitetura civil, contando, entre outros, com nomes de prestígio nos meios intelectuais da Europa, com destaque para Nicolas Antoine Taunay, Auguste Marie Taunay, Marc e Zéphyrin Ferrez, August-Henri-Victor Grandjean de Montigny  e ninguém menos que Jean-Baptiste Debret.

Se é verdade que a arte brasileira já contemplava alguma identidade com artistas de muito talento, desde as primeiras manifestações do Barroco mineiro, com pelo menos dois nomes de reconhecida importância, a exemplo de Aleijadinho e Mestre Ataíde, não é menos afirmativo dizer que a Missão Artística Francesa ressignificou a cultura brasileira e responde pelos primeiros sinais de nossa existência para o Velho Mundo. Mas é sobre Jean-Baptiste Debret que gostaria de tecer, na coluna de hoje, algumas considerações.

Trata-se de um dos mais prestigiados cronistas do Brasil. Explico-me: Debret, além de um pintor notável, cuja obra transita do neoclássico para o romântico, revelou-se um escritor de estilo absolutamente sedutor, tendo assinado uma obra incontornável sobre o Brasil de inícios do século XIX intitulada Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, que, dentro dos festejos pelo transcurso do segundo centenário da Missão Artística Francesa, acaba de chegar às livrarias em edição luxuosa da Imprensa Oficial do Governo de São Paulo.

O livro, com qualidade editorial digna de nota, reúne em um volume os três tomos originais da Viagem, com um registo iconográfico expressivo das litografias do pintor francês sobre o Brasil, abordando temas diversos: a Corte, costumes, eventos, arquitetura etc.; a paisagem brasileira, diversidade botânica etc.; grupos indígenas e escravos, indumentária, práticas e costumes, condições de vida, cativeiro etc.

Não cause estranheza o fato de que o registro se dê pela pena e pelo pincel de um artista europeu, coisa menos significativa se levarmos em conta que os registros de fundação do caráter nacional brasileiro, em sua quase totalidade, originam-se de viajantes. Sob este aspecto, todavia, a obra de Debret mais ainda sobressai e deve ser exaltada: embora convidado de um projeto oficial, o artista dedicou seu tempo, entre 1816 e 1831, não a documentar com suas belas aquarelas a vida da Corte, simplesmente. Há em cada prancha um olhar analítico, atento e sensível às contradições sociais do país em formação, razão por que a contemplação das imagens é mais que uma experiência estética sublime, o que já justificaria a importância de se travar contato com as 150 litografias cuidadosamente reproduzidas nesta edição de Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. O texto de Debret, sem curvar-se ao realismo comumente cobrado de registros do gênero (crônicas de viagem), revela a sensibilidade artística do autor, o que resulta leve, solto, não raro poético. Numa palavra: ler esta obra é, antes de tudo, imensamente prazeroso. Vejamos um trecho:

"Tudo assenta (...) neste país no escravo negro; na roça ele rega com seu suor as plantações do agricultor; na cidade o comerciante fá-lo carregar pesados fardos; se pertence ao capitalista é como operário ou na qualidade de moço de recados que aumenta a renda do senhor. Mas, sempre mediocremente alimentado e maltratado, contrai às vezes os vícios dos nossos domésticos, expondo-se a castigos públicos, revoltantes para um europeu (...). Sem o consolo do passado, sem a confiança do futuro, o africano esquece o presente (...) e como essas plantas cansadas de produzir, acaba definhando a duas mil léguas de sua pátria, sem nenhuma recompensa pelos seus serviços menosprezados".

Dando a ver as contradições de um sistema perverso, o livro encanta pelo que traz de significativo para a elevação de nossa sensibilidade e capacidade de enxergar com senso de justiça o que é preciso transformar. É o papel da arte, o que explica, em parte, o descaso de hoje para com a matéria. Mérito para D. João VI.

Pena que, sob muitos aspectos, o Brasil de hoje deixe tanto a desejar ao Brasil de duzentos anos atrás. À época, quando menos, havia da parte do governo sensibilidade para entender que um país se faz, como quis Lobato, com homens e livros, com incentivo à produção cultural e, o que é mais notável, com a percepção certeira de que o ensino de artes deve ser prioridade para qualquer governante que se pretenda sério. Reitero: que pena!

 

 


 

Nem tudo está perdido

Desde a divulgação do nome para o Nobel de Literatura 2016, semana que passou, muita gente tem me abordado na rua: "O que acha de Bob Dylan como 'escritor'?" A pergunta, mais que uma simples curiosidade, por si só reflete um certo preconceito. Além de, em muitos casos, patentear completo desconhecimento do que representa Dylan para a poesia universal há muito tempo. No rigor da discussão, todavia, existem aspectos pertinentes para a dúvida em termos de teoria literária, sobre o que, faz anos, escrevi aqui mesmo neste espaço.

Sim, poema e letra de música, via de regra, atendem a processos criativos diferenciados: o primeiro (repare que estou usando o termo "poema" em vez de "poesia") surge sob a preocupação rítmica, submetido previamente a um código, o código verbal; a letra de música, não, pois esta, embora se valha do mesmo código, pode ser criada antes ou depois da melodia.

Antes de prosseguir, por oportuno, esclareço a diferença entre "poema" e "poesia": poema é a composição verbal escrita em versos, a poesia, para além disso, é a atmosfera, o clima, o estado de espírito, a intuição que desperta emoção, experiência do belo e do sentimento estético, independentemente do código: uma pintura, um movimento de dança, uma cena fílmica, uma canção, o cair da tarde etc., ocasionam dentro do homem o enlevo próprio do que se define modernamente como "poesia". É, pois, imaterial, prescinde da palavra escrita; o poema, não. O assunto, como se vê, trata de questões relativamente complicadas. Costumo dizer, por isso, que toda paixão envolve poesia, por mais que o ser apaixonado seja incapaz de construir poemas, expressão que resulta de uma intuição associada ao conhecimento, no caso, o conhecimento da técnica de escrever em versos, obedecendo a procedimentos racionais, portanto.

Teoria literária à parte, voltemos a Bob Dylan. Dylan, embora tenha se notabilizado mais como compositor e intérprete de sua obra, vai muito além do que faz um simples compositor. Ele trabalha suas letras com um rigor que extrapola o simples condicionamento melódico, escolhe a palavra com a atenção do poeta, mede com precisão cirúrgica a relação espaço/tempo, a força semântica e estética de cada palavra e, o que é definitivo para que o seu "discurso" poético exceda a simples preocupação sonora, dá ao texto verbal a substância ideológica que o faz ir além da música e atingir a dimensão literária. É, por essa razão, um escritor, que lança mão da matéria verbal sem escravizá-la à medida prévia e externa chamada de "melodia".

A propósito, por conta de sua escolha como Nobel de Literatura do ano, revi No Direction Home, Bob Dylan, de Martin Scorsese, eletrizante documentário sobre o artista americano. Com um tratamento narrativo rigoroso, o filme traça a trajetória humana e artística de Dylan, desde suas raízes no Minessota, sua tumultuada carreira em meios nem sempre saudáveis em bairros periféricos de Nova York e apresentações no Greenwich Village até a definitiva consagração nos anos 60. Os depoimentos sobre o astro são em grande parte imperdíveis, bem como a presença incontornável de nomes como Joan Baez, Allen Ginsberg em momentos pouco conhecidos de suas carreiras. O filme está à venda em DVD.

Por último, sem o pleno domínio da língua, pelo que se perde aqui e além a força poética de uma palavra ou expressão, recorri à estante a fim de ler como maior atenção as belíssimas letras de Bob Dylan, com destaque para "poemas" excepcionais como Hurricane (Furacão), sobre a questão racial e o jogo sujo da Justiça americana: "Agora todos os criminosos de terno e gravata / estão livres para beber martinis e ver o sol nascer / enquanto Rubin senta como Buda em uma cela minúscula: / um homem inocente no inferno".

Mas, populares, os poemas existenciais saltam da página para o coração e a mente, levando o leitor a uma experiência a um tempo intuitiva e racional capaz de apontar caminhos para um mundo melhor. Na conhecida Blowin`in the Wind, por exemplo, deparamos com o poeta em sua plenitude lírica: "Quantas estradas um homem deve percorrer / pra poder ser chamado de homem?, é como inicia Soprando no Vento, para concluir com versos que anos a fio tocam corações de diferentes países como um chamamento: "Sim, e quantas vezes um homem deve olhar para cima / antes de conseguir ver o céu? / Sim, e quantos ouvidos um homem deve ter / pra poder conseguir ouvir as pessoas chorarem? / Sim, e quantas mortes serão necessárias até ele saber / que pessoas demais morreram? / A resposta, meu amigo, está soprando no vento".

Numa época em que o mundo, em estado de delírio, dá uma guinada para a direita, a voz indignada de Bob Dylan constitui motivo de sobra para justificar o prestigiado prêmio que a Academia Sueca lhe concede.

E sinaliza, felizmente, que nem tudo está perdido.

 

 

 

 

 

 

Os filmes do Céu

Desde final de agosto, aniversário de nascimento de meu pai, tenho me dedicado a rever os grandes clássicos do western, gênero que amava e com o qual me iniciou nos amores à sétima arte. Revi, duplamente envolvido com sua beleza estética, No tempo das diligências (1939), um filme absolutamente brilhante de John Ford, com John Wayne e Claire Trevor; Rio de vermelho (1948), outro momento sublime do gênero, assinado por Howard Hawks, com o mesmo John Wayne e Montgomery Clift e o insuperável Shane (1954), com Alan Ladd, Van Heflin e Jean Arthur. Revi, ainda, os clássicos do spaghetti western, que meu velho adorava.

Acho que a minha paixão pelo cinema nasceu de fato com o western, muito provavelmente por que, como cinéfilo, fui precocemente seduzido pela forma como os grandes realizadores do gênero exploravam os recursos da linguagem cinematográfica, suas escolhas no processo de construção da narrativa, as estruturas internas de cada filme etc., quando o comum, ainda hoje, é que os espectadores se voltem para outra vertente, o que, na falta de uma terminologia mais clara, convenciona-se identificar como uma vertente temática. Esta, como o próprio nome sugere, volta-se para o tema do filme, a trama, o perfil psicológico das personagens e a tessitura dramática que constitui o interesse maior das pessoas que vão ao cinema.

Para um certo público, entre o qual me coloco de corpo e alma, e a que tenho me dedicado como estudioso e professor dessa arte, importa, sobremaneira, o tratamento formal dispensado pelo cineasta na construção do filme, as estratégias narrativas, o arcabouço estético ou, numa palavra, a poética que define o que chamamos o estilo autoral: enquadramento, composição pictural (o quadro é uma tela), a movimentação de câmera, a luz, o cenário, o guarda-roupa, a música, os ruídos, o silêncio. É nisso, sobretudo, que consiste a força do cinema e a sua beleza como uma arte que nasceu da confluência de diferentes códigos, do que resulta seu prestígio como uma arte do tempo  ---  e do espaço, por que não dizer?

Quando falo de estilo, poética autoral, é claro que estou pisando um terreno por demais especializado, estranho ao que é mesmo a razão de ser da Arte em suas muitas linguagens. Mas, como negar?, é despertando o interesse pelo uso das ferramentas que se pode proporcionar aos que vão ao cinema, ao teatro, aos museus, aos que ouvem música e veem novelas de tevê etc., condições de separar o joio do trigo, de escolher com segurança as melhores produções em vez do lixo que a indústria cultural oferta ou impõe a todos todos os dias. Aí, para retomar uma reflexão levada a efeito numa de minhas últimas crônicas, reside, por certo, a necessidade imperiosa de que a Arte seja matéria obrigatória do núcleo comum da escola de ensino médio, na contramão do que propõe o governo criminoso de Michel Temer.

Mas, voltemos ao cinema.

Por que, então, fazer a apologia de um gênero cinematográfico menos exigente, a exemplo do western, dirá o leitor? Pior, fazer o elogio de filmes inferiores, como o faroeste italiano? É aí que me parece oportuno realçar a atenção para a questão do estilo como forma de rever posições e julgamentos carregados de preconceito e juízos intolerantes em relação ao que a tradição aponta como o cinema clássico.

Nesse sentido, alguns diretores do western foram artistas esplêndidos. Em minhas aulas, não raro, exibo para os alunos sequências inesquecíveis do gênero e tenho, para minha felicidade, contribuído para que se abram para a beleza de filmes que, antes, lhes pareciam tolos, ingênuos, pouco criativos, desinteressantes do ponto de vista artístico etc., e que passam a ver com novos olhos e a divulgar sua poética naquilo que têm de mais valioso e sedutor. A sequência de abertura de Era uma Vez no Oeste, por exemplo, é uma aula de cinema.

Sobre ele, aliás, conto-lhe aqui uma curiosidade.

Certa vez, Bertolucci, então um realizador menos conhecido, é surpreendido com uma telefonema de Sergio Leone, de quem assistira ao belo Três homens em conflito (que também revi em homenagem saudosista ao meu pai) e que considera um dos seus filmes preferidos. Leone convida-o a escrever o roteiro de um filme que constitua uma homenagem a todos os westerns, uma referência intertextual aos grandes filmes do gênero. Surge, assim, o imperdível Era uma Vez no Oeste.

Não é outra, pois, a razão por que a obra-prima de Sergio Leone é mesmo um exemplo do que se identifica no campo das artes como intertextualidade. O filme é, intencionalmente, uma "colcha de retalhos" de alguns momentos inesquecíveis do cinema. Na sequência de abertura, a que me referi acima, faz uma alusão a uma cena notável de Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann; a chegada da locomotiva, é uma citação a O Cavalo de Ferro (1954), de John Ford.

O alusionismo (o ato de fazer alusão a outros filmes) era comum à época e constitui um tipo de homenagem que mais embeleza e empresta força a filmes notáveis. Ao rever grandes clássicos do western, como disse, prestei, morto de saudade, a minha homenagem ao meu velho pai. Que sejam bons os filmes do Céu!

 

 

 

 

A Arte é indispensável

 

Ao trazer a público o intempestivo projeto de mudança para o ensino médio, o presidente ilegítimo Michel Temer ocasionou não apenas uma mobilização nacional contra o que se considera autoritário e descabido no momento delicado que vive o país, bem como provocou, o que acabou positivo, um inusitado questionamento em torno da importância de figurar no núcleo comum das escolas públicas e privadas as disciplinas de educação física, sociologia, filosofia e artes. Sem fechar os olhos para as três primeiras, não menos relevantes para a formação de jovens saudáveis e dotados de senso crítico, criatividade e capacidade reflexiva, é sobre a última que gostaria de tecer aqui algumas considerações.

O primeiro passo, todavia, enseja a retomada de uma das questões mais remotas do campo da estética: o que é arte? Veremos, a partir daí, quão complexa é a matéria, razão por que essa questão ocupa lugar e espaço importantíssimos nos melhores tratados acerca do conhecimento humano, no vastíssimo campo da filosofia, da historiografia e da crítica de Arte . Ocorre-me lembrar, a propósito da difícil definição, as palavras de Benedetto Croce numa reflexão famosa: "A Arte é aquilo que todos sabem o que é." Ironia à parte, em que pese o que existe de controvertido na definição do respeitado professor Geraldo Rodrigues, acolho com simpatia o que afirmou em livro clássico de Estética: "A Arte, qualquer que seja sua definição é uma causa profunda, mais inconsciente do que consciente, mais instintiva do que racional, qualquer coisa que repercute no lado noturno e desconhecido de nós mesmos, que lança ecos desde as profundezas do nosso oceano interior."

Peca o respeitado professor ao reforçar a definição romântica da Arte como algo de que é quase excluída a razão humana, pois advinda das forças do divino e do milagroso, que adquire forma pela ação de um ser iluminado de que nos falou Platão, capaz de modelar e organizar a matéria caótica existente a partir da imitação de modelos eternos e perfeitos. Sabe-se, no entanto, que a atividade do artista é processo consciente e racional, do qual nascerá a realidade dominada pelo talento, domínio da técnica, dos meios, recursos e convenções, ao que se soma, não menos importante, a emoção estética de que resulta a obra de arte que transmite aos outros homens.

É conhecida a afirmação do pintor Mondrian: "A Arte desaparecerá na medida em que a vida adquirir mais equilíbrio". Suas palavras, como é recorrente mesmo nos meios ditos intelectuais, foram extremamente mal compreendidas. A Arte tornar-se-ia desnecessária um dia. Ora, pois.

É de Ernst Fischer, o estudioso austríaco, a interpretação que me parece inconteste sobre a necessidade da Arte pelo sem-fim dos tempos, uma vez que, para ele, mesmo nas sociedades mais avançadas (Suécia, Dinamarca, Suiça, por exemplo) o perfeito equilíbrio entre o homem e o mundo é algo improvável, como em parte podem confirmar os números alarmantes de suicídios.

Não à toa, na contramão do que professa a tola afirmação de que a Arte não tem função, bastando-se por si mesma, num elogio delirante do que se convencionou chamar de Arte pela Arte, é inegável que lhe são próprias as mais diferentes funções. Como indaga Fischer, há pouco citado, não satisfará ela a muitas outras necessidades?

É bastante, para tanto, que se procure responder a algumas relevantes indagações: Por que milhões de pessoas leem livros, ouvem música, visitam museus, vão ao teatro, ao cinema? Por que não nos basta a vida que dizemos real? Por que nos voltamos, atentos e emocionados, para o quadrado do palco ou da tela de cinema onde acontecem coisas "irreais" e as tomamos como se tratasse de realidades intensificadas?

Foi um poeta e dramaturgo alemão, Bertolt Brecht, quem nos advertiu um dia: "Nosso teatro [a Arte, pois] precisa estimular a avidez da inteligência e instruir o nosso povo no prazer de transformar a realidade".

Num país como o nosso, mais do que nunca, a Arte se faz necessária. E cabe à escola preparar os jovens para serem capazes de entender os seus muitos sentidos, a sua força e a sua beleza incomensurável  --  capazes de compreendê-la em toda a sua complexidade, levando-os a encarar o mundo com mais sensibilidade (senso estético), de forma mais criativa e mais crítica. A arte humaniza, leva o homem a se tornar pleno. A Arte serve para aproximar os homens, para uni-los como seres iguais e para fomentar dentro de cada um o desejo de viver em comunhão. A Arte embeleza a vida, torna-a mais feliz e, quando isso for inevitável, torna-a também mais suportável. A Arte existe, como professou Nietzsche, para que o homem não morra de tanta realidade. Negá-la como um direito de todos, na escola, como é o caso, é ato criminoso que se deve combater com todas as forças. Mais que um prazer, a Arte é uma necessidade da condição humana. 


 

A propósito da coluna anterior


Está na Folha, edição deste sábado 24: "Temer recua e dá sobrevida a artes e educação física". Coerência é o nome disso, embora fique difícil acompanhar o ritmo das contradições do presidente ilegítimo. É que, sob pressão de professores e entidades ligadas à arte e à educação física, o governo recuou da decisão de tornar não obrigatórias as disciplinas de arte e educação física no ensino médio. É possível que Temer, no exercício de sua incoerência coerente, faça o mesmo nas próximas horas em relação às disciplinas de sociologia e filosofia. Aguardemos.

Mea-culpa: O nome do assessor de Temer favorável à descriminalização do caixa dois é Geddel Vieira Lima, erro pelo qual pedimos desculpas aos leitores do blog.

Em tempo: O ministro Teori Zavascki autorizou apuração preliminar de suposto envolvimento de Temer em pagamento de propinas da Transpetro, conforme delação de seu ex-presidente Sérgio Machado e de seus filhos.

Incoerência coerente


Vamos combinar. Em termos de incoerência, o presidente ilegítimo Michel Temer tem se mostrado extremamente coerente. Primeiro, afirmou que sabia lidar com bandidos  --  e quem tem dúvida de que está cercado deles? Depois, sob as mais esfarrapadas alegações, extinguiu o Ministério da Cultura, para recuar em seguida. Montou uma equipe que mais parecia um clube do Bolinha, mas, debaixo da gritaria que seu ato ocasionou, voltou atrás e indicou mulheres para cargos importantes por "considerar a presença de mulheres no atual governo uma questão fundamental" (sic). Diz-se atento às questões raciais, mas entrega ao PSDB, o partido político mais racista do país, a Secretaria de Igualdade Racial. Na esteira de avanços e recuos, produziu um projeto de mudança da previdência que mais parece um ato institucional contra os trabalhadores, mas afirma que "seus direitos e conquistas jamais serão objeto de qualquer revisão" (sic). Mandou que o seu fiel escudeiro Gidel Dantas tentasse emplacar, junto a deputados de sua base, na calada da noite, um projeto de lei que pouparia apaniguados da lei da Ficha Limpa. Como o tiro saiu pela culatra, declarou nos Estados Unidos que a atitude de seu mais importante assessor era "personalíssima!"(sic). Há dias, determinou ao Ministro da Cultura a constituição de uma equipe "especializada e imparcial" para indicar o filme brasileiro a concorrer ao Oscar, priorizando, acima de qualquer outra coisa, a qualidade estética dos concorrentes, contanto que "Aquarius", o melhor filme produzido no Brasil em anos, ficasse de fora. Por último, a propósito das Olimpíadas de 2016, exaltou o esporte como "algo de uma importância insofismável para qualquer país". Ato contínuo, enviará para o congresso Medida Provisória que tornam não obrigatórias no currículo de ensino médio, entre outras, as disciplinas de artes e educação física. É ou não um presidente coerente com sua incoerência?

 

Para além do capital

Desde a queda do muro de Berlim, com a simbologia que isso necessariamente implica como colapso do modelo socialista vigente na antiga União Soviética e países a ela atrelados, ao que se soma a atual crise dos governos de esquerda na América Latina, é natural que o discurso neoliberal se mostre fortalecido e se dissemine a ideia de que não existe mesmo alternativa ao capitalismo.

Diante disso, mais do que nunca se faz necessário que a esquerda (mesmo debaixo de uma fragilidade política e teórica inegável, a exemplo do que se vê no Brasil hoje) tente fundamentar sua utopia em bases acadêmicas consistentes e capazes de ensejar buscas de alternativas ao que se nos apresenta como a definitiva vitória de um modelo excludente e perversamente desigual. Nessa perspectiva é que livros como Para Além do Capital, do húngaro István Mészáros constitui uma leitura por demais recomendável.

Com o sugestivo subtítulo Rumo a uma teoria da transição, o livro de Mészáros não é uma novidade nos meios acadêmicos: a sua tradução para o português, a partir do original inglês de 1995, para que se tenha uma ideia, é de 2002, ano de lançamento no Brasil sob os cuidados editoriais da Boitempo, em inícios do governo Lula. Mas, produzido, como disse, no contexto de uma aparente derrocada do socialismo, trata-se de uma refinada revisão dos pressupostos básicos do marxismo. Não o marxismo de O Capital, cuja fundamentação teórica toma como referência os primórdios de uma estrutura de espoliação do trabalho (ainda que Marx tenha racionalmente feito alusão à história da luta de classes nesse e noutros escritos seus não menos importantes, com destaque para o manifesto de 1948). Não à toa, assumidamente, Mészáros, ao escrever seu livro extraordinário, levou a efeito o que já fora um projeto nunca realizado de Georg Lukács, outro intelectual húngaro indispensável para quem se dedique a ler com correção a grande literatura de esquerda: investigar o capitalismo hoje, o mundo contemporâneo com sua lógica igualmente perversa e fatalmente condenada a inviabilizar-se por si mesmo num futuro que, infelizmente, não se pode prever com segurança.

A tarefa hercúlea do intelectual húngaro tomou-lhe, quando menos, duas décadas de rigorosa interpretação do marxismo, do que resulta essa reflexão incontornável acerca do capital em suas diferentes formas. A esta altura, faz-se necessário evidenciar o primeiro passo de Mészáros na sua empreitada: estabelecer diferenças entre o que se deve entender por "capitalismo" e por "capital". A confusão conceitual entre um e outro, afirma, terá sido talvez a razão mais decisiva para o desmoronamento do socialismo desde a Revolução de 1917 até as movimentações mais recentes como as de Cuba e da Venezuela. Segundo esclarece com objetividade no seu texto, "o capital antecede ao capitalismo e é a ele posterior", isto é, por capitalismo deve-se compreender uma das muitas formas de exploração do trabalho, uma de suas possibilidades históricas.

No prefácio à edição brasileira, escrito na Inglaterra em 2000, István Mészáros reporta-se ao Brasil como uma potência em termos regionais, referindo-se à repercussão da crise 1998-1999 nos Estados Unidos e na Europa. Aqui, pontualmente, seu livro faz uma leitura otimista do protagonismo brasileiro no contexto da América Latina, em cujo cenário impõe-se como uma força capaz de se contrapor aos interesses imperialistas americanos e constituir um exemplo vitorioso para os demais países do continente.

Em face do que se vê hoje, no entanto, Para Além do Capital, embora imprescindível para a elaboração de um pensamento de esquerda atualizado, capaz de superar os desacertos de práticas socialistas possíveis e equivocadas, traz em si o germe da contradição, o que, diga-se em tempo, mais ainda evidencia a sua importância como exercício teórico. O que se vê, para além de constituir uma falsa consciência de inviabilidade do modelo socialista, é que o processo se dá em meio a forças históricas (dialéticas!) naturalmente antagônicas, nunca como uma demonstração inquestionável da vitória do imperialismo hegemônico mundial. Para o autor desse livro absolutamente importante, sobremaneira diante do que se faz perceber no Brasil hoje, "somente um movimento socialista de massas tem condições de enfrentar o grande desafio histórico que nos espera no século decisivo à nossa frente". Na perspectiva do que adverte Daniel Singer, aludindo aos equívocos de uma "esquerda desnorteada", Para Além do Capital reforça indicativos de que "a renovação do socialismo esteja mais próxima do que pensamos". Um livro raro sob todos os aspectos.

 

 

Espetáculo farsesco

No teatro, define-se como "recurso dramático" (do francês ressort dramatique) o mecanismo que, sem se dar a ver, mas da maneira mais eficiente possível, comanda a ação, organiza-a de modo a constituir a chave das motivações e da intriga. Patrice Pavis, um dos teóricos mais conhecidos e respeitados do mundo, assinala que "esses recursos estão centrados nas motivações das personagens, na disposição da fábula, no suspense da ação e no conjunto dos procedimentos cênicos que contribuem para criar uma atmosfera teatral e dramática capaz de cativar o espectador".

Boileau, autor de Arte Poética, um dos tratados teóricos que maior influência exerceram sobre os profissionais do teatro no Ocidente, diz que "o segredo é agradar e tocar: inventar recursos que possam me prender". Noutras palavras, o alvo é envolver o espectador nas malhas da trama, para o que lança mão de efeitos e motivações fáceis através de forças conscientes do comportamento do ator no intuito de tornar 'crível' suas falas, quase sempre decoradas e previamente medidas com a finalidade de convencer.

Nesses termos, o que se viu ontem durante a explanação do coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, em rede nacional, exemplifica à perfeição o que são "recursos dramáticos", no caso, explorando a intriga, cujo objetivo indisfarçável de condenar o ex-presidente Lula e tirá-lo de forma humilhante do cenário político de 2018. Errou na dosagem, no entanto, foi além do que é recomendável e, por não conter excessos, que põem por terra um dos requisitos indispensáveis da boa dramaturgia, a verossimilhança, tornou o espetáculo chulo, rasteiro, rude, típico de um teatro de quinta categoria.

Numa perspectiva clássica, "verossimilhança" é o que, na representação, nas ações das personagens, "parece verdadeiro" para o público, no plano das ações e nos meios a que o ator recorre na maneira de representá-las em cena. Não foi o que se viu. Dallagnol, como mau ator, carregou nas tintas, não soube dosar suas falas e, com isso, tornou evidentes os recursos dramáticos. Desconstruiu o espetáculo, transformando-o num dramalhão sem força dramática e sem poder de convencimento. A verossimilhança, embora seja um conceito dos homens de teatro, diz respeito ao público, à recepção do espectador, pelo que se faz indispensável para produzir o efeito e a ilusão de verdade.

Não estamos falando de verdade histórica. No teatro, o que importa é o caráter verossímil, ou seja, o que parece verdade, plausível, aquilo que é possível ou provável por não contrariar a verdade. Para Aristóteles, que escreveu muito antes de Cristo outra Arte Poética de que não se pode prescindir, "historiador e poeta se distinguem, o primeiro por relatar acontecimentos que ocorreram, o outro os acontecimentos que poderiam ocorrer. Por isso, diz ele, a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história; pois a poesia conta mais o geral e a história o particular".

Mas é preciso, indispensável mesmo, que, para ser bom, o espetáculo tenha uma certa tensão entre o que cativa, por ser fantástico, maravilhoso, e o que é aceito pela opinião e pela crença do público. Sem isso, insisto, não há competência dramática, o ator não persuade, é incapaz de fazer com que o espectador acredite no seu discurso ou aceite o que diz por meio de suas razões e argumentos bem fundamentados.

Ao fiasco do ator Dallagnol, diga-se em tempo, soma-se a sua incompetência como autor da peça. O bom texto não se permite o grosseiro, o demasiadamente apaixonado, o tom artificioso, a dicção odiosa. Foi repetitivo, abusou nas referências nominais ao antagonista; foi explícito demais em suas intenções, enfático em suas acusações esvaziadas de provas. Em síntese, arvorou a personagem, pela fala impregnada de paixão, como um deus, um demiurgo, o artesão divino de que nos falou Platão. Em teatro, chama-se isso hamartia, a falha trágica do herói. O que se pretendeu um espetáculo épico, em oposição ao teatro clássico aristotélico, resultou farsesco. Como nos lembram os estudiosos do teatro, no entanto, a farsa sempre é definida como forma primitiva e grosseira, que não se pode elevar sequer ao nível da comédia. Quanto a esta grosseria, diz Pavis, o teórico aqui citado, nem  sempre se sabe muito bem se ela diz respeito aos procedimentos demasiado visíveis e infantis do cômico ou à temática escatológica.

As locuções adjetivas desferidas contra a figura do ex-presidente Lula refletem a ira dos inconformados. Nenhuma prova, mas a afirmação leviana de que "no centro deste núcleo está o senhor Lula"; nenhuma prova, mas a dedução subjetiva de que"Sem o poder de decisão de Lula esse esquema seria impossível"; nenhuma prova, mas a conclusão condenatória de que "Lula era o comandante máximo do esquema criminoso descoberto pela operação". Não sabe o leviano que, há mais de 20 anos, portanto bem antes de Lula chegar ao poder, o esquema criminoso da Petrobrás já fizera outra vítima, Paulo Francis, a quem a História do país um dia haverá de fazer justiça. Mas sobre isso escreverei depois.

 

 

 

 

Vergonha e tristeza

No filme Flores Raras, de Bruno Barreto, há uma cena antológica. Elizabeth Bishop ouve no rádio a notícia do golpe de Estado contra o presidente João Goulart, desloca-se até a janela do apartamento, na Av. Atlântica, em Copacabana, e repara num grupo de homens jogando futebol na praia. Ela não se contém e fala para si mesma: "Que país é este, em que um presidente é destituído por um golpe e as pessoas, indiferentes, jogam futebol na praia?"

Fico imaginando o que diria a poeta americana ao saber que, de novo, fato semelhante acaba de ocorrer no Brasil e comemora-se isso com uma desfaçatez que a um tempo envergonha e causa indignação.

Flores Raras, uma das mais felizes realizações do cinema nacional dos últimos anos, tem como pano de fundo o golpe de 1964, e a história gira em torno do relacionamento homossexual entre a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop. Indo a fundo na discussão do tema, no que se preserva dos clichês com que tradicionalmente se tem tratado os relacionamentos gays no cinema, Barreto, para além de fazer um filme esteticamente irretocável, pela beleza da fotografia e escolha de estratégias narrativas que põem em evidência tratar-se de um craque na matéria, expõe com sutileza a sua percepção do que representa (ou, no nosso caso, deveria representar) a destituição de um chefe de Estado por força de mecanismos que ferem de morte a democracia.

O espanto de Bishop, que nem era uma mulher tão comprometida com questões políticas, constitui um instante sublime do filme e toca a consciência do espectador de forma indelével. Lembro que, ao sair do cinema, ouvi comentários reiterados sobre a fala da personagem. Ela reflete uma marca do caráter brasileiro que muitas vezes se nos passa despercebida, mas não aos olhos de quem, vindo de fora, percebe nos primeiros contatos alguns dos nossos problemas mais atávicos: a superficialidade política, tomando aqui o termo no seu sentido mais vertical, de que decorrem muitas e muitas das nossas mazelas. 

O espetáculo do impeachment, ou do golpe urdido contra 54 milhões de brasileiros, dá bem a medida de como entendemos a atividade política e a transformamos numa prática desavergonhada de interesses pessoais e grupistas, numa troca de favores que enlameia o que deveria ser uma arte ou ciência de organização coletiva pelo bem comum. Para não falar, claro, no que era mesmo o objetivo mais frontalmente perseguido pelos canalhas do PMDB e companhia, qual seja o controle da operação Lava Jato que mantem na intimidade de suas malhas investigativas nomes de peso de parte significativa dos senadores golpistas.

Barreto expõe no seu belo filme as fraturas morais de uma elite inescrupulosa, indiferente aos meios de que lança mão sempre que seus privilégios e regalias venham a ser minimamente afetados, movida, invariavelmente, pela sordidez no trato com a coisa pública e na utilização de expedientes que lhe assegurem, a qualquer custo, a manutenção de vantagens advindas, direta ou indiretamente, do poder político. Nesse sentido, aliás, são recorrentes as cenas em que a escritora americana demonstra sua inquietação em face do descaramento de alguns "notáveis" do Brasil de meados do século XX, notadamente nos encontros sociais em que pode perceber como a elite brasileira se comporta diante da realidade política do país, o golpe militar, por exemplo. Atente-se para o fato de que se trata de uma americana de perfil psicológico típico, o que poderia resultar num leitura menos crítica em face da destituição de um presidente identificado com os movimentos populares do país e escolhido, pelos serviços de informação ianques, como uma ameaça para os interesses dos Estados Unidos no continente.

Quanto ao que se viu no Senado entre 29 e 30 de agosto, diga-se, e ao que se lhe seguiu, mais que o estranhamento que tomou conta de Elizabeth Bishop ao ver brasileiros jogando futebol nas areias de Copacabana, indiferentes aos acontecimentos que arrastariam o Brasil para o abismo escuro de vinte anos de ditadura, o que se deve sentir é um misto de nojo e vergonha, de desencanto, de desesperança... Ao que se deve somar, por inevitável, um sentimento de profunda tristeza, pela forma como parte de um país se curva (e parcialmente festeja!) o retrocesso, pisoteando, como matadora de si mesma, as conquistas democráticas e os avanços sociais dos últimos 13 anos.

 

 

 

 

 

 


 

Paixão

Acordou cedo. Ainda à cama, olhou o corpo seminu da mulher, sono profundo. Tateou o travesseiro, tenso, abraçando-o como a uma pessoa amada... como se tentando entabular conversa. Banho rápido, e o café da manhã, de costume tão farto, limitou-se a um suco de laranja e uma xícara pequena de café.

--  Meu Deus!

No carro, a caminho do trabalho, o pensamento de volta, um tipo de obsessão, a mulher dos últimos encontros, o jeito descontraído, a boca carnuda proferindo a sentença: "Te quero!", e o perfume forte a persegui-lo, como se o mundo, de repente, exalasse um só aroma. No sinal, um rápido olhar para a pasta repleta de papeis, esquecida sobre o banco do carro desde a noite anterior. A lembrança de que não conseguia avançar no serviço, organizar a vida profissional, antes impecável. Afrouxa a gravata, sente calor, apesar do ar-condicionado ligado e do dia nublado de inverno.

--  Te quero!

A voz rouca a persegui-lo, persuasiva, hipnótica, a produzir nele o desejo do reencontro, que se renova a cada instante, acende-o, deixa-o em brasa. Experiência diferente, no entanto, de tantas outras, quando o encontro erótico era um momento luminoso, subtraído da vida comum, do qual, ego acariciado, parecia, sempre, nascer um novo homem  --  Machismo!, dizia-lhe uma amiga confidente  --, bem disposto, a retomar as coisas de rotina.

No trabalho, depara com a secretária apreensiva com o volume das pendências, os contratos por assinar e a agenda de reuniões a acumular-se, as viagens canceladas, sem uma justificativa plausível  --  "O quê se passa com o doutor Henrique?"

O celular toca.

--  Amor, o que houve, saiu sem me acordar, nem o café...

--  Não, nada. Está tudo bem.

Sexto sentido, a mulher indaga:

--  Vem almoçar em casa? As crianças...

--  Não, não, hoje não dá, a gente janta juntos.

Desliga o celular, coração cindido e o pensamento obsessivo, o cheiro forte do perfume, a voz rouca, insistente  --  "Te quero!"

Aturdida, a secretária anuncia-lhe a chegada de um empresário importante.

--  Henrique, por que não assinou o contrato? Estamos perdendo dinheiro...

Pede um novo prazo para examinar o texto... amanhã, talvez.

O homem retira-se aborrecido. E o dia, para Henrique, passa como um sonho em que se alternam boas e más sensações. Sente que, dessa vez, não se trata de mais uma aventura, intermezzo luminoso, instante de eternidade na vida de um homem.

Agora já não é o instante de erotismo que guarda na memória, mas o objeto de uma novidade que lhe parece sublime, o corpo torneado, os lábios carnudos e a voz rouca que não desiste em seus propósitos de conseguir o que pretende  --  "Te quero!"

E, ao lado de uma profusão de imagens e delírios e prazeres e fascínios, a certeza angustiante de que está pondo em jogo uma vida feliz, a família, anos de dedicação de uma mulher não menos bela e sedutora.

No trânsito, a caminho de casa, o aperto no peito, a vontade de tomar outro rumo, de antecipar o reencontro acertado por telefone para sábado, aquelas mãos que o punham louco, o talhe perfeito, o bronzeado das curvas e a boca, insistente, como uma gravação centenas de vezes repetida:

--  Te quero!

Entra em casa, a mulher, solícita, vem ao seu encontro, enlaça-lhe o pescoço, beija-o e, sexto sentido, percebe com carinho a sua expressão amargurada.

--  Algum problema, Amor?

--  Não, não. Tudo bem!

 

A magia do cinema

O tema "frases inesquecíveis do cinema" fez uma legião de entusiastas, alguns dos quais enviam para este colunista "seus" momentos antológicos da sétima arte. De Mino Castelo Branco, por exemplo, o querido amigo e artista de traço inconfundível, vem a fala de Ali MacGraw para Ryan O'Neal em cena memorável de Love Store, uma História de Amor: "Don't worry. Love means never having to say you're sorry", algo como "Não se desculpe. Amar significa nunca ter de pedir perdão".
Inolvidável, ocorre por volta dos 58 minutos do clássico de Arthur Hiller, 1970, que marcou para sempre toda uma geração. A cena, em que pese pontuada pelo sentimentalismo, o que para uma obtusa crítica desmerece a película, revela uma idealização do amor própria do alto romantismo, que é mesmo o eixo dramático do roteiro de Erich Segal. Sem esquecer, claro, a belíssima música de Francis Lai, com justiça vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora.
O fato é que a magia do cinema, alguém já disse, constitui um tipo de "nosce te ipsum" socrático (conhece-te a ti mesmo) que nos faz percebermo-nos no "outro" saído da imaginação de grandes artistas, a exemplo de Visconti, Vitorio De Sica, Pasolini, Fellini, Alberto Sordi, Clouzot, Godard, Truffaut, Hitchcock, Woody Allen, Chaplin, Bertolucci, Bergman, nomes que povoam a memória dos amantes dessa arte incomparável a que se refere Mino citando a chorosa Jennifer, para o intranquilo Oliver Barret, na porta de sua casa em Boston, depois de uma briga passional.
Quanto a nós, os simples mortais, achamos, com razão, que amor e perdão não são coisas excludentes. Nessa perspectiva, aliás, também o cinema nunca se omitiu: "É que o amor nunca é pecado", diz Patrícia Pilar para Bruno Campos, na pele da adúltera Teresa, no belo O Quatrilho, de Fábio Barreto, 1996, uma feliz adaptação do romance homônimo de José Clemente Pozenato.
Se idealizado ali, aqui o amor se revela transverso. A fala de Teresa dá início ao romance "proibido" entre a personagem de Pilar e Massimo, cujo desfecho remete ao título do filme. Para surpresa de todos, os casais se cruzam e resolvem suas vidas na contramão de qualquer lógica, e são felizes para sempre.
"To love is to burn, to be on fire, like Juliet or Guinevere or Eloise". Está em Razão e Sensibilidade, 1995, o filme de Ang Lee, em que a personagem de Kate Winslet faz referência a três mulheres que, na literatura, viveram intensamente suas paixões: Julieta, de Shakespeare; Guinevere, a rainha consorte do Rei Athur da Távola Redonda e  Heloísa, na França do final da Idade Média.
Como diz ela, "Amar é arder, estar em fogo. Como Julieta, Guinevere, Heloísa". A magia do cinema.
 
 
 
 
 

Discurso do povo e outro discurso

As Olimpíadas Rio 2016, até pouco antes do seu início severamente criticadas pelos inimigos de Lula, que consideravam a iniciativa do ex-presidente de trazer o evento a todo custo para o país uma "irresponsabilidade", transformaram-se no mais irretocável motivo do "orgulho nacional", notadamente do governo ilegítimo de Michel Temer, que, indisfarçadamente, empenha-se em tirar proveito disso.  

O fato reedita o que já fora verificado em relação à Copa do Mundo, e serve para ilustrar o "macunaimismo" do nosso povo, herói sem nenhum caráter (sem características, carnavalesco, afeito à improvisação e à irreverência), na visão sensível de Mário de Andrade.

Nada, contudo, que tire o brilhantismo do mais importante acontecimento esportivo do mundo, inclusive (talvez principalmente) da participação absolutamente impressionante dos brasileiros no local das competições, na cidade olímpica e arredores. É linguagem pura a manifestação dos torcedores, codificada em bandeiras, slogans, faixas, gritos de guerra, rostos e corpos pintados, prática simbólica carregada de sentidos e mensagens de pertencimento a um país de fato surpreendente, mesmo quando está, como agora, moralmente, à beira do caos.

Na linha do que consideram alguns dos maiores teóricos da cultura e da representação, é pela construção do discurso simbólico que se afirma a identidade de um povo, mesmo quando, na perspectiva do que se disse acima, essa identidade se expressa na ausência de tipificações reducionistas pré-estabelecidas, a exemplo de "ser inglês", "francês", "alemão" etc.

É a representação da imprevisibilidade, da indisciplina, do senso de improvisação, da malemolência, do "jeitinho" que dá ao povo brasileiro sua identidade e constrói o discurso de um país múltiplo, diversidade visível nos estádios, praças e ruas do Rio de Janeiro. Nesse sentido, pois, é que não poderia ser outra a cidade escolhida, não apenas pela generosidade da natureza, montanhas, praias e florestas que embelezam a capital fluminense, mas pelos traços humanos que dão à cidade o feeling brasileiro.

O melhor, todavia, é saber que essa carnavalização, na contramão do que professam ideias conservadoras infelizmente dominantes, não contradiz a vocação política e democrática dos brasileiros, algo não menos positivamente representado nas vaias a Michel Temer e na força incontornável dos protestos, em que pesem as medidas adotadas com vistas a atenuar a insatisfação do país em face do golpe indisfarçável que se concretizará por esses dias. Ou concretizar-se-á, para não esquecer, no uso da mesóclise, outro discurso.

 

 

 

 

 

 

 

As palavras de Brecht

A vitória de Rafaela Silva no judô, nossa única medalha de ouro até aqui, nos jogos Olímpicos 2016, enseja aos mais atentos uma reflexão importante: a judoca brasileira é pobre, negra, mulher, homossexual e militar. Traz em si, portanto, realidades humanas diversas, o que naturalmente ensejou a utilização dos seus méritos pessoais por diferentes tendências ideológicas.
Afinal, é a vitória resultado de um projeto político mais atento às desigualdades sociais ou decorrência da disciplina de uma corporação rigorosa, capaz de dar ao país uma fisionomia mais responsável e intransigente, na contramão das inclinações irreverentes do nosso povo? Ou reflete um "ippon" (golpe perfeito nas artes marciais japonesas) no discurso homofóbico de segmentos infelizmente expressivos da população? Ou, noutra hipótese, levanta-se como um protesto indignado contra o preconceito racial?
Após sua derrota nos jogos de 2012, em Londres, Rafaela foi alvo de insultos racistas pela internet. Mas foi também hostilizada por sua origem pobre. Ela nasceu na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, em meio à miséria e a problemas sociais os mais diversos, a violência inclusive: "... tinha de correr para dentro de casa quando começava o tiroteio", disse à imprensa pouco depois do pódio.
Não faltaram, à época, declarações intolerantes por sua escolha sexual  --  Rafaela vive há três anos com a ex-judoca Thamara Cezar, a quem confia as obrigações de casa e a administração de sua imagem nas redes sociais.
O que sobressai, no entanto, passa ao largo dessas manifestações tão contraditórias entre si. O que de fato existe é um país perdido, frustrado em suas vontades e esperanças, um país desencantado com os rumos que tomou um projeto de governo, pela primeira vez, efetivamente, voltado para o combate das desigualdades sociais e para a redistribuição da renda, mas que se deixou contaminar pela desgraça da corrupção e pelos vícios do poder a qualquer custo.
Por outro lado, é o mesmo país que assiste impotente ressurgir das cinzas o que temos de mais autoritário, neofascista, manipulador, corrupto, oportunista, hipócrita, entreguista, valores e práticas emblematicamente personificados na figura de Michel Temer, um presidente espúrio.
Um país assim precisa urgentemente de heróis, de alguém que lhe devolva por qualquer caminho o orgulho de ser brasileiro. Se não for Neymar, que seja a Marta ou a Rafaela Silva, pouco importa. O indispensável é que exista alguém em quem se possa depositar um pouco das nossas utopias, dos nossos sonhos. Se no esporte essas transferências são capazes de sublimar as nossas misérias, o que resulta positivo, em alguma medida, na política é extremamente perigoso. Triste de um país que precisa de heróis, já dizia Bertold Brecht.