Nem tudo está perdido

Desde a divulgação do nome para o Nobel de Literatura 2016, semana que passou, muita gente tem me abordado na rua: "O que acha de Bob Dylan como 'escritor'?" A pergunta, mais que uma simples curiosidade, por si só reflete um certo preconceito. Além de, em muitos casos, patentear completo desconhecimento do que representa Dylan para a poesia universal há muito tempo. No rigor da discussão, todavia, existem aspectos pertinentes para a dúvida em termos de teoria literária, sobre o que, faz anos, escrevi aqui mesmo neste espaço.

Sim, poema e letra de música, via de regra, atendem a processos criativos diferenciados: o primeiro (repare que estou usando o termo "poema" em vez de "poesia") surge sob a preocupação rítmica, submetido previamente a um código, o código verbal; a letra de música, não, pois esta, embora se valha do mesmo código, pode ser criada antes ou depois da melodia.

Antes de prosseguir, por oportuno, esclareço a diferença entre "poema" e "poesia": poema é a composição verbal escrita em versos, a poesia, para além disso, é a atmosfera, o clima, o estado de espírito, a intuição que desperta emoção, experiência do belo e do sentimento estético, independentemente do código: uma pintura, um movimento de dança, uma cena fílmica, uma canção, o cair da tarde etc., ocasionam dentro do homem o enlevo próprio do que se define modernamente como "poesia". É, pois, imaterial, prescinde da palavra escrita; o poema, não. O assunto, como se vê, trata de questões relativamente complicadas. Costumo dizer, por isso, que toda paixão envolve poesia, por mais que o ser apaixonado seja incapaz de construir poemas, expressão que resulta de uma intuição associada ao conhecimento, no caso, o conhecimento da técnica de escrever em versos, obedecendo a procedimentos racionais, portanto.

Teoria literária à parte, voltemos a Bob Dylan. Dylan, embora tenha se notabilizado mais como compositor e intérprete de sua obra, vai muito além do que faz um simples compositor. Ele trabalha suas letras com um rigor que extrapola o simples condicionamento melódico, escolhe a palavra com a atenção do poeta, mede com precisão cirúrgica a relação espaço/tempo, a força semântica e estética de cada palavra e, o que é definitivo para que o seu "discurso" poético exceda a simples preocupação sonora, dá ao texto verbal a substância ideológica que o faz ir além da música e atingir a dimensão literária. É, por essa razão, um escritor, que lança mão da matéria verbal sem escravizá-la à medida prévia e externa chamada de "melodia".

A propósito, por conta de sua escolha como Nobel de Literatura do ano, revi No Direction Home, Bob Dylan, de Martin Scorsese, eletrizante documentário sobre o artista americano. Com um tratamento narrativo rigoroso, o filme traça a trajetória humana e artística de Dylan, desde suas raízes no Minessota, sua tumultuada carreira em meios nem sempre saudáveis em bairros periféricos de Nova York e apresentações no Greenwich Village até a definitiva consagração nos anos 60. Os depoimentos sobre o astro são em grande parte imperdíveis, bem como a presença incontornável de nomes como Joan Baez, Allen Ginsberg em momentos pouco conhecidos de suas carreiras. O filme está à venda em DVD.

Por último, sem o pleno domínio da língua, pelo que se perde aqui e além a força poética de uma palavra ou expressão, recorri à estante a fim de ler como maior atenção as belíssimas letras de Bob Dylan, com destaque para "poemas" excepcionais como Hurricane (Furacão), sobre a questão racial e o jogo sujo da Justiça americana: "Agora todos os criminosos de terno e gravata / estão livres para beber martinis e ver o sol nascer / enquanto Rubin senta como Buda em uma cela minúscula: / um homem inocente no inferno".

Mas, populares, os poemas existenciais saltam da página para o coração e a mente, levando o leitor a uma experiência a um tempo intuitiva e racional capaz de apontar caminhos para um mundo melhor. Na conhecida Blowin`in the Wind, por exemplo, deparamos com o poeta em sua plenitude lírica: "Quantas estradas um homem deve percorrer / pra poder ser chamado de homem?, é como inicia Soprando no Vento, para concluir com versos que anos a fio tocam corações de diferentes países como um chamamento: "Sim, e quantas vezes um homem deve olhar para cima / antes de conseguir ver o céu? / Sim, e quantos ouvidos um homem deve ter / pra poder conseguir ouvir as pessoas chorarem? / Sim, e quantas mortes serão necessárias até ele saber / que pessoas demais morreram? / A resposta, meu amigo, está soprando no vento".

Numa época em que o mundo, em estado de delírio, dá uma guinada para a direita, a voz indignada de Bob Dylan constitui motivo de sobra para justificar o prestigiado prêmio que a Academia Sueca lhe concede.

E sinaliza, felizmente, que nem tudo está perdido.

 

 

 

 

 

 

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