Um drama inesquecível

Desde que assisti ao Cinema Paradiso, lá por fins dos anos 80, costumo presentear amigos queridos com cópias do filme. Faço-o como que encantado, uma vez que se trata de uma das mais belas realizações da sétime arte. Tenho sempre, em casa, duas ou três dessas cópias e devo ter visto o filme de Giuseppe Tornatore quando menos umas trinta vezes. Nada, como disse numa outra crônica, que se compare ao que fez o jornalista Lúcio Brasileiro com Casablanca, a que afirma ter assistido mais de mil vezes. Ainda chego lá.
 
Pois bem. Dia desses, zanzando pela livraria Cultura, hábito já internalizado nas horas de folga, deparo com uma pérola: a versão estendida do filme, com pelo menos 50 minutos de cenas inéditas. É que o filme, na versão que chegou aos cinemas, foi reduzido por pressão do seu produtor Franco Cristaldi, segundo diz nos extras do DVD o próprio Tornatore. Achava a narrativa da película demasiado lenta para ser mantida nas quase 3 horas da versão original. Eu sabia da história mas só agora pude ver o filme sem os cortes efetuados para o circuito comercial, até que chegasse às lojas. Deslumbrante!
 
O roteiro, todos sabem, conta em flashback   --  e numa evocação assumidamente autobiográfica do autor  --, a trajetória de um cineasta dos tempos áureos do cinema, antes do surgimento da televisão, até sua volta à cidadezinha do interior da Sicília quando morre Alfredo, o projecionista que marcara os tempos felizes da infância dele, o garoto Totó. A versão reduzida do filme suprimira o encontro do cineasta, Salvatore de Sica, o Totó adulto e artista consagrado, com Elena, o seu primeiro e insuperado amor. Agora, como é possível acompanhar na versão integral, ele reencontra o amor de sua vida, casada com Boccia, um amigo de infância. Os dois marcam um encontro e, numa cena perpassada de uma emoção que leva às lágrimas, descobre, finalmente, as razões por que Elena fora embora de Giancaldo no que supunha Salvatore fosse o indicativo de não querer continuar com a relação. Imperdível.
 
O filme, que já era uma obra-prima, e constitui uma comovente homenagem de Tornatore aos mestres da sétima arte, redimensiona-se, apaixona ainda mais, arrebata o espectador com a contundência do seu lirismo e de sua força poética inigualável. Dos mais premiados da história, Cinema Paradiso é incomparável nessa versão estendida, e você, leitor, cinéfilo ou simples admirador do que existe de mais belo em termos da grande arte, não pode deixar de ver. É fácil adquirir uma cópia nas livrarias da cidade ou mesmo através de um site de vendas da Internet. Um drama inesquecível!
 
 

Uma mulher diferente

Imagine uma mulher culta, capaz de se comunicar com total desenvoltura em pelo menos oito idiomas. Imagine mais: admita que ela seja versada em filosofia, alquimia, matemática etc. Que seja uma extraordinária articuladora política, que trace planos de enfrentamento capazes de deixar desnorteado o maior inimigo. Imaginou? Vá mais um pouco, pense-a dotada de um poder de argumentação desconcertante, comerciante fina, sedutora, irresistível à cama. E líder respeitável, política astuta... Pensou? Mulher dos sonhos? O tipo pós-moderno, com mil maneiras de agradar aos homens? Apenas uma amante exemplar? Não. Estou falando de uma mulher que viveu no Egito de 20 séculos atrás, Cleópatra, a rainha imortalizada por pintores, biografada por escritores de extrações as mais diversas e levada para o cinema com ninguém menos no papel que Elizabeth Taylor, o mito das telas falecido há poucos dias.
 
É que acaba de chegar às livrarias uma nova biografia da rainha, Cleópatra, da jornalista Arlete Salvador. Um livro leve, de estilo solto e linguagem sedutora, sem rompantes de erudição quase sempre desnecessários no gênero. Li e gostei, recomendo aos leitores, pelo que traz de inovador em relação a muitas das biografias até aqui conhecidas, quase sempre dedicadas a traçar um perfil de mulher vulgar e signo do erotismo mais condenável. Não. A mulher que nos apresenta Salvador é muito mais que uma fêmea com furor uterino e depravada, destruidora de lares e vidas. A Cleópatra que vem à tona nessa biografia fascinante é uma mulher possuidora de qualidades (imensas!) e defeitos, não raro mergulhada em dúvidas, inquietações e desejos, como qualquer mulher dos dias atuais. Um livro bem humorado, lúdico, no sentido de ser capaz de colocar o mundo em stand by até a última página. Um gozo.
 
Com relação a isso, e tocado pela repercussão da morte de Taylor, revi o filme de Joseph Mankiewicz, que é mesmo um clássico, em que pese ir na contramão do que defende com segurança Arlete Salvador, pelo menos em alguns aspectos da homenageada, a gratuidade do seu erotismo (tome-se o termo gratuidade no sentido negativo) e a beleza distante anos-luz da atriz que a imortalizou no cinema, por exemplo. Cleópatra, segundo a pesquisa levada a efeito por Salvador, é mais, muito mais para feia. Boca murcha, queixo demasiado longo e um nariz acentuadamente adunco. O que a tornava, então, uma mulher poderosa, capaz de levar homens à ruína? Talvez o fato de, numa época em que a submissão feminina era supostamente o atributo indispensável para que uma mulher fosse considerada desejável, ter sido diferente, altiva, rica em conteúdo intelectual, dona do seu nariz. Numa palavra, independente.
 
Quanto ao filme, é mesmo esteticamente maravilhoso. Um exemplar perfeito, claro, do cinema monumentalista, em que tudo é grandioso, produção, cenários, locações e elenco. Não é muito lembrar, para os esquecidos, que nos papeis principais, além de Taylor, estão Richard Burton e Rex Harrison, impagáveis. Se a película beira o exagero, o barroquismo aparentemente cafona e de mau-gosto, tudo prende-se ao gênero, mais um espetáculo de ação que um filme de ideias. Detalhe curioso: Cleópatra é um divisor de águas na história do cinema. O fracasso de bilheteria deu um basta a essa concepção fílmica, só recentemente retomada com Gladiador, Troia e Robin Hood. Fico com Cleópatra, o filme e a rainha.
 
 
 
 
 
 
 
 



Duas palavras sobre o ato de escrever

Acontece com frequência de um leitor ou leitora comentar crônicas aqui publicadas como se tratassem de questões pessoais vividas no presente pelo autor. Sobre a última delas, por exemplo, chega-me, entre aspas, um texto extraordinário de um escritor oriental que desconheço. Fala da superação, da aceitação resignada do que ocorre com e na vida das pessoas. Um belo texto, desses a que se sente vontade de recorrer sempre que o fausto trabalha contra os nossos sonhos e a nossa imorredoura esperança da felicidade plena  --  como se houvesse a felicidade plena. Veio ela, a mensagem, de mãos amigas, coberta das melhores intenções e do maior carinho. Trazia quase o perfume dessas mãos. Contudo, entre outras coisas, a tal mensagem ensejava uma reflexão. Façamo-la.
 
A verdade literária é uma, mesmo numa crônica de jornal, a verdade factual, outra. No texto, quando flexiono o verbo e 'assumo' o sentimento que lhe serve de tema, não significa, óbvio, que esteja, no instante da sua escritura, passando por essa experiência, mas que passei um dia, que conheço o que esse sentimento representa em sua profundidade. Ou não, que uma das propriedades da literatura é ser capaz de construir irrealidades como se a realidade fossem. Como lembra Vargas Llosa, num texto excepcional sobre o assunto, a soberania de uma crônica, de um conto, de um romance, da Arte, enfim, está em não dependerem só da linguagem com que foram escritos, mas da maneira como projetam em si a existência, detendo-se aqui, adiantando-se ali, rompendo a lógica da realidade factual, criando situações humanas, sobretudo, não como as situações humanas são, mas como poderiam ser. Dizer a verdade, no caso, é levar o leitor a viver uma ilusão, [...] "a verdade que as mentiras da ficção expressam  --  as mentiras que somos, as que nos consolam das nossas nostalgias e frustrações."
 
Ademais, para voltar à mensagem recebida, traz ela a frieza típica do oriental, essa capacidade tantas vezes vista, a exemplo das grandes tragédias, de suportar a dor, o sofrimento, com um equilíbrio e uma serenidade que nos faltam, aos ocidentais  --  e que é mesmo uma de nossas marcas. A esse respeito, por sinal, a crônica que escrevi fala da perda e da incapacidade passageira de se viver o presente em detrimento do passado, experiência que todos vivem, na proporção exata de sua sensibilidade. De apagar as lembranças do amor que foi feliz um dia, como explora à perfeição o filme de Claude Lelouch que lhe serviu de esteio. Trata, a crônica, dessa experiência, dessa dor intransferível que só quem a viveu um dia é capaz de dimensionar. Mesmo, talvez, na literatura. Fico com o amor latino!
 
Não se trata de aceitação, de filosofia estoica. Anne, a personagem do filme, entregue às recordações do passado, era, naquele instante, incapaz de viver o seu presente, de pensar o futuro, por bonito que se lhe parecesse descortinar. Ainda ardia no coração a chama do objeto amado, que perdera, como mostra o filme, de forma inesperada e brutal. E é contra essa impotência diante da memória que retorna como um flecha certeira e implacável, e que nos mantém presos ao passado (por um tempo que seja), que professa a mensagem da leitora.
 
Por curioso, tinha eu, ao alcance das mãos, esse texto de Albert Camus que trata do mesmo assunto: - "Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Esse próprio passado sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo o quanto lamentavam não ter feito, [...] assim como a todas as circunstâncias, mesmo as relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros, misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfazê-los." É o que ocorre aos que perdem a coisa verdadeiramente amada, como no caso de Anne, personagem de Um homem, uma mulher, de Claude Lelouch. Se a Arte, como disse, não pode ser medida com o metro da verdade real, é sempre dela que retira a substância com que é construída. Bem ou mal.
 
 
 


A disciplina do amor

No belo Um homem, uma mulher, de Claude Lelouch, há uma fala de Anne, a personagem irrepreensivelmente interpretada por Anouk Aimée, que considero de uma profundidade impressionante, se contextualizada, claro, ao que estabelece o roteiro do filme: - "Ele morreu, mas para mim ainda não!" Na hipótese de que o leitor não tenha assistido à película, voltemos ao que se passa com a personagem. Viúva precoce, Anne, uma roteirista de cinema, conhece Jean-Louis Duroc, um corredor de carro também viúvo. Sentem-se atraídos e tentam começar uma relação sincera e feliz, mas, na primeira experiência de cama, ela não consegue... As lembranças do marido estão vivas em seu pensamento.
 
Anne diz isso numa estação de trem, em Deauville, pouco antes de partir para Paris, quando questionada por Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant): - "Por que você me disse que seu marido estava morto?" Acho que aí está o segredo por que é tão difícil recomeçar a vida quando permanece vivo dentro de nós o objeto amado. Nem mesmo a morte da vida real corresponde à morte dos sentimentos. Lelouch alterna imagens do casal na cama, em preto e branco, com os variados planos em cores de Anne e o ex-marido no auge do amor que os uniu um dia. A vida é assim. A lembrança dos momentos felizes, a alegria das viagens juntos, o chope à beira-mar, os pequenos desentendimentos, quase sempre por motivos banais e a felicidade das reconciliações, o cheiro da pele, a linguagem do corpo na cama, a voz, o sorriso que fazia arrepiar seus pelos, tudo tudo vai continuar aceso dentro do peito, até que o tempo recomponha a ordem natural das coisas e o mundo em volta readquira a lógica de antes.
 
Ocorre-me uma crônica de Lygia Fagundes Telles de que gosto muito. A disciplina do amor, é como se chama. Um cão, todo fim de tarde, vai à esquina esperar o seu dono. Faz isso durante anos. Um dia, o rapaz é convocado para a guerra e morre nas circunstâncias de um bombardeio. O cão, a exemplo do que fizera sempre, vai todas as tardes esperá-lo, até que a noite chegue e volte para casa desolado. O tempo passa, as coisas se normalizam e mesmo a noiva casa com um primo. A família, natural, volta a ver a vida de outra forma. O cachorro, não. Todas as tardes, ali está ele, o rabo balançando, ansioso. Mas o rapaz não vem. Um dia, sob uma chuvinha fina de verão, encontram-no morto, o focinho na direção de sempre. A disciplina do amor.
 
O filme de Lelouch, que revi ontem com minha filha Carol, termina em aberto. Depois da frustração na cama, Anne decide retornar a Paris. Na despedida, acontece o diálogo a que me reportei. Mas, inconformado, Jean-Louis resolve ir de carro esperá-la na plataforma estação. Os dois, emocionados, correm ao encontro um do outro  --  e o filme termina com a imagem congelada dos dois, enlaçados. Foram felizes para sempre, há de concluir o leitor/espectador. Não vou contar. Vinte anos depois, Claude Lelouch, esse poeta das perdas e dos reencontros, retoma a história com o filme Um homem, uma mulher 20 anos depois, os mesmos atores, num dos pontos mais elevados de sua filmografia. A vida, a disciplina do amor. Mas isso vai ser tema de uma outra crônica.