Luto e vergonha

Bruce Christian de Sousa Oliveira, 14 anos, viaja na 'garupa' de uma moto, pilotada pelo pai, Francisco das Chagas de Oliveira Sousa, 37, técnico em condicionadores de ar, depois de prestarem serviço em domicílio. É domingo, mas Christian, em vez de divertir-se numa praia ou num campo de futebol, com amigos, acompanha o pai durante o trabalho. Por suspeitar que se trata de bandidos, Yuri Silveira, policial do Ronda do Quarteirão, saca da arma, aponta e, com precisão e frieza, dispara contra a cabeça do adolescente, que cai morto em meio às ferramentas de trabalho que conduzia nas mãos.

Mas, atenção. Não se trata de uma story line, como no cinema se costuma dizer da síntese de um filme. A cena acima é real e aconteceu ontem em Fortaleza: Abre-se a sequência com um "plano fechado" do pai, dilacerado, abraçado ao filho morto. Depois se recua a câmara, a fim de revelar o seu conteúdo num plano geral, a exemplo da foto com que deparei esta manhã na capa de O Povo.

E me vem à mente, inclemente, a poesia de Chico: "Oh, pedaço de mim. /Oh, metade afastada de mim. /Leva o teu olhar. /Que a saudade é o pior tormento. /É pior do que o esquecimento. /É pior do que se entrevar. /Oh, metade arrancada de mim. /Leva o vulto teu. /Que a saudade é o revés de um parto./ A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu."

Numa manhã de domingo, sob o sol irradiante de um mês de férias, a cidade em festa, a brutalidade e o despreparo de um homem a quem cabia parte da responsabilidade de garantir a tranquilidade e segurança da população, dão-nos o metro com que se deve medir a realidade em que vive o fortalezense hoje.

À dor da família de Bruce, somam-se a revolta e a indignação de toda uma sociedade. Vive-se algo como um drama de Ionesco, um absurdo kafkiano, um pesadelo que nos deixa a todos entre estarrecidos e raivosos.

Yuri Silveira, logo depois do tiro que matou Bruce, apresentou-se ao 2º DP, alegando estarem os policiais da viatura no encalço de uma Hilux prata com quatro bandidos. Por que, então, considerar suspeitos pai e filho, que estavam numa moto? É aceitável que se aborde um cidadão, ainda que sob suspeita, apontando-lhe a arma para a cabeça? Ao parar num sinal, como foi o caso, mais adequado não seria interceptar a moto posicionando a viatura à sua frente? Se se tratava de um homem suspeito, por que o pai de Bruce sequer foi ouvido no local?

Este o Estado que se vangloria de possuir o mais avançado programa de segurança pública do Brasil, com seus carrões blindados, bancos de couro, ar condicionado, moderno sistema de comunicação e homens, a concluir pelo desastrado procedimento, inaceitavelmente despreparados.

O tiro na nuca que matou Bruce no viço dos seus 14 anos, espero, haverá de repercutir na consciência das autoridades cearenses como o disparo de um alerta contra o descaso e a impunidade reinantes. Ao luto, soma-se o sentimento de vergonha de um povo.

Sexo no Alvorecer

Vi na imprensa uma pesquisa bastante curiosa sobre sexo e casamento. O estudo, por sinal, foi publicado em livro com o título Sex at Dawn (Sexo ao Alvorecer), escrito a quatro mãos por Christopher Ryan, 48, e sua mulher, Cacilda Jethá, 50, ambos americanos. Os dois estão casados há 11 anos e Ryan, supostamente preocupado com a instabilidade dos relacionamentos, inclusive o seu, claro, e com o auxílio da mulher, debruçou-se sobre o tema na convicção de que deveria existir uma forma para manter 'acesa a chama', o que, segundo ele, acabou encontrando. Sobre isto falaremos adiante.

A pesquisa de Ryan, no entanto, a concluir pelo que chega, até aqui, aos brasileiros, através da mídia, não traz muitas novidades. Ryan afirma, basicamente, o que outros estudiosos já defenderam ao longo do tempo, ou seja, que o homem (entenda-se homem e mulher) não é um ser monogâmico. Aliás, nas entrevistas concedidas sobre o seu trabalho, Ryan e Cacilda têm sido bastante enfáticos: "As mulheres sempre quiseram ter o maior número de parceiros possíveis."

Pois bem. Assim, programados para viver experiências sexuais múltiplas, homens e mulheres sentem-se, no casamento, absolutamente sufocados e desejosos de romper, legal ou ilegalmente, com as amarras que os prendem a uma vida morna, entediante e, cedo ou tarde, diz ele, insuportável. Aí Ryan aponta para o que todos, há muito, já sabem: - "[...] metade dos casamentos está colapsando sob uma frustração sexual irrefreável, um tédio matador de libido, traições compulsivas, confusão, vergonha." (Sexo no Alvorecer)

Em entrevista à Época, que li no site da revista, Ryan põe por terra o mito da guerra dos sexos, ainda defendido por um expressivo contingente de pesquisadores, segundo o qual os rompimentos se dão em função de homens e mulheres, sexualmente falando, terem interesses diferentes. Diz Ryan: - "Há uma guerra entre a natureza humana e a sociedade contemporânea. Nós acreditamos que, antes da agricultura, as mulheres tinham vários parceiros." E retoma o lenga-lenga da questão da propriedade privada, da herança etc., coisas já muito debatidas.

Sexo e Alvorecer (que espero chegue logo às livrarias brasileiras), até onde sei, contudo, não 'vende' levianamente a ideia de que a infidelidade deva ser encarada como algo positivo e mais significativo que as reais razões que levam homem e mulher a decidirem pela vida a dois. Pelo contrário, Ryan e Cacilda, que se tomam como um exemplo a ser seguido, 'batem' numa tecla já muito desgastada mas que continua sendo a única alternativa para que se possa ser feliz numa relação monogâmica: - "É preciso procurar mais do que a química sexual, algo como paixão entre almas e não paixão entre corpos." Se soa demasiadamente 'ingênua' a conclusão dos dois, não sei, mas, de minha parte, acho que este é o melhor caminho. Aguardemos o livro.

O barraco de Sorocaba ou o reality show caipira

O que seria apenas um caso de infidelidade conjugal no interior de São Paulo, chegou à internet e já foi acompanhado por milhões de brasileiros. Tornou-se conhecido como o "barraco de Sorocaba" e envolve características no mínimo curiosas, não fossem ridículas. Vejamos: a advogada Vivian Almeida de Oliveira, 34, é casada com o comerciante Cícero de Oliveira, 54. Vivem felizes, pelo menos é o que achava a mulher de Cícero, na convivência de amigos íntimos, entre os quais a também casada Juliana Cordeiro, 33 anos. Eram da casa uns dos outros, viajavam juntos e a 'amizade' era tão grande que nem mesmo na lua de mel foram capazes de se separar. Viajaram juntos, todos, para Recife, de onde Cícero e Vivian, "enfim sós", vieram para dias inesquecíveis em Fortaleza.

Mas, o que há de extraordinário no caso? Bem, em princípio um triângulo amoroso no mínimo sórdido, posto que Juliana, além do marido ingênuo, vinha traindo a melhor amiga havia pelo menos cinco anos. Até aí, nada de muito fora do staff normal, haverá de questionar o leitor. Divergência à parte, explico-me melhor. Desconfiada de que algo de anormal vinha ocorrendo entre os casais amigos, Vivian devotou-se a seguir os passos do marido até descobrir a podridão: Cícero de Oliveira e Juliana Cordeiro vinham mantendo um caso extraconjugal dos mais inescrupulosos, se é que pode haver algum escrupulo em qualquer tipo de traição. O pior, no entanto, estaria por vir.

No último dia 27, Vivian tomou a decisão de dividir o escândalo com a sua comunidade no site de relacionamento Orkut. Antes, contudo, teve a astuciosa ideia de armar uma cilada para a Juliana. Convidou-a a vir a sua casa sob o pretexto de estar em crise emocional e precisar de uma palavra amiga. Aos poucos, todavia, foi dando a ver o que descobrira, expondo para a amante do marido as "provas do crime", algo em torno dos mil e-mails trocados pelo casal infiel. Em princípio, educadamente, mantendo o equilíbrio, para logo depois sair na baixaria, coisa compreensível para as circunstâncias. Mais: a conversa e a agressão estavam sendo nitidamente gravadas pela webcam, o que resultou numa cena digna do melhor Nelson Rodrigues.

Do Orkut, onde já inexiste a menor privacidade, o 'filme' foi para o You Tube e dali para jornais e tevês. Hoje, estima-se, terá sido visto por milhões de brasileiros e ocupa posição de destaque entre os casos mais comentados no Twitter e outros espaços virtuais de prestígio. O mais curioso, contudo, está por vir: se a traição trouxe prejuízos irrecuperáveis para Cícero, Juliana e Fábio, o marido ingênuo, vai sobrar para a advogada Vivian Almeida de Oliveira, que, ao lado da decepção com o marido e sua melhor amiga, supostamente terá de indenizar a amante do marido por ter exposto a sua imagem como fez. Pasmem.

De resto, o barraco de Sorocaba reedita uma velha lição: ruim é morrer ou ser traído, o resto passa como dantes na casa de Abrantes. Vivian, no entanto, mesmo dizendo-se arrependida por tornar público o 'barraco', defende-se de forma convincente: - "Se eu apenas dissesse o que sabia, ninguém iria acreditar!" Com razão, Vivian, no seu caso, como quis Wilde, a vida imita a arte. Ninguém iria mesmo acreditar.

Até quando?

Qualquer que seja o desfecho do caso Bruno, o que está claro como uma fratura exposta é que ele é indefensável, muito mais indefensável que indefensáveis foram os chutes que o levaram à consagração após ter evitado que se transformassem em gols. Com 1,91 de altura, ídolo de uma torcida de mais de 30 milhões de brasileiros, um corpo de deus grego e um salário de 300 mil reais, Bruno é um desses muitos e muitos homens que povoam o imaginário feminino como objeto de desejo, numa época em que o sucesso profissional, a beleza física e a conta bancária são as referências que servem para estabelecer o valor da mais escassa mercadoria, o Homem, assim, com maiúscula.

Há coisa de uns dois, três meses, no máximo, eu já ficara estarrecido com uma declaração do goleiro Bruno, feita através da imprensa: - "Quem de vocês nunca saiu no braço contra uma mulher?" Perguntava durante uma entrevista concedida à tevê Globo, na maior, como faz um canalha, um psicopata que desconhece a fronteira entre o sucesso profissional e a obrigação de respeitar os outros. Em tempo: fazia-o numa tentativa de justificar atos de violência cometidos pelo companheiro de clube, o jogador Adriano, contra a mulher.

Agora, quando infelizmente está confirmada a morte de Eliza Samudio, a Justiça Brasileira, sob a luz dos spots, passa a agir com o objetivo de deslindar um crime que poderia ter evitado. Por que permaneceu indiferente às ameaças, quando procurada por Eliza através de uma instância cabível? Se não, vejamos: No ano passado, a jovem, grávida, dirigira-se à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, no Rio, para denunciar que vinha sendo vítima de maus-tratos. Lembro do que dissera à imprensa: - "Ele [Bruno] me deu bofetões... Enfiou uma arma na minha cabeça... E me disse: 'Sou frio e calculista. Vou deixar a poeira baixar e vou atrás de você. Se eu te matar e jogar em qualquer lugar, as pessoas nunca vão descobrir que fui eu.'" (sic) E, no entanto, nada, absolutamente nada se fez em favor dessa jovem, à época.

Acompanho esse caso pavoroso e fico pensando o que não virá acontecendo, por exemplo, na Região do Cariri, entre Crato, Juazeiro e Barbalha, onde os índices de criminalidade contra a mulher são alarmantes, com repercussão, inclusive, na Unifem, o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher. Quantas ameaças ignoradas? Quantos maus-tratos? Quanta tortura física e psicológica contra mulheres de todas as idades? Quantas vidas ceifadas?

No jeito bem brasileiro, o bárbaro assassinato de Eliza Samudio, em Minas, assim como o da advogada Mercia Nakashima, em São Paulo, Bárbara Calazans, no Rio, ou das anônimas do Cariri, no Ceará, serve para desnudar o descaso das nossas autoridades competentes no que diz respeito à segurança da população, da mulher, particularmente, ainda hoje submetida aos caprichos, à intolerância e aos impulsos monstruosos dos milhões de Brunos que habitam Brasil afora. Até quando?