quinta-feira, 30 de março de 2023

Correspondência Intelectual de Celso Furtado

Tenho pela obra do economista Celso Furtado, esse notável paraibano de Pombal, falecido em 2004, no Rio de Janeiro, uma admiração que extrapola os limites meramente intelectuais. Há no exemplo de vida desse brasileiro ilustre alguma coisa grandiosa, o que me levou, conhecendo "apenas" em linhas gerais sua densa produção acadêmica na área econômica, sobre a qual minha formação impõe assumida incapacidade de emitir juízos abalizados, dei-me a ler tudo que o mercado editorial tem disponibilizado acerca da própria vida de Celso Furtado e da repercussão internacional de suas ideias, projetos, proposições ---  a forma, enfim, de pensar o Brasil e a América Latina.

Nessa perspectiva, pois, é que li há muito tempo a trilogia autobiográfica do intelectual paraibano, composta pelos livros A fantasia organizada, A fantasia desfeita e o belíssimo Os Ares do mundo. Os três, iguais na qualidade formal do texto e na sensibilidade estética que emana de suas páginas. Livros para se ter ao alcance da mão, como se fossem livros de consulta, tão ricos e enriquecedores que são sob todos os aspectos, notadamente naquilo que diz respeito à interpretação do Brasil, na linha do que fizeram, por caminhos distintos, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Helio Jaguaribe, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro e (antes de pedir que esquecessem o que havia escrito) o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Expulso do País pelo golpe de 1964, Celso Furtado produziu no exterior o que há de mais expressivo na sua obra, período em que se dedicou a lecionar nas mais prestigiadas universidades da Europa e dos Estados Unidos, a exemplo das universidades de Paris, Yale, Cambridge e Columbia. É desse período que trata o segundo volume de sua trilogia, A fantasia desfeita.

Mas, como disse, é no terceiro título, Os ares do mundo, que o leitor depara-se com o fascinante universo intelectual e humano de Celso Furtado, suas viagens por diferentes países, inclusive aqueles do antigo bloco comunista, da Ásia e da África. A essa altura de sua autobiografia, é que sobem à cena da narrativa elegante de Furtado, com níveis de intimidade muitas vezes surpreendentes, nomes importantes como Jean-Paul Sartre, Juan Perón, Ernesto Sabato, Che Guevara e Glauber Rocha, para citar apenas alguns dos companheiros de jornada no exílio do autor de Formação econômica da América Latina.

Agora por último, lançado pela Editora Schwarcz, em 2021, tomei nas mãos e li-o de um fôlego, porque sedutor como poucos do gênero, o livro Celso Furtado - Correspondência Intelectual, 1949-2004, com que Rosa Freire D'Águiar brinda os admiradores do economista paraibano num trabalho notável de organização, apresentação e notas que dá visibilidade ao missivista Celso Furtado. São ao todo, quase trezentas cartas, enviadas ou recebidas por ele, cobrindo um extenso período e dando a ver um panorama até aqui desconhecido em livro do pensamento de Celso Furtado.

A leitura desse livro precioso, muito mais que nos três volumes de sua autobiografia, proporciona àqueles que ignoram a grandeza de Celso Furtado, sua importância como homem de ideias, como crítico profundo das contradições a que estiveram condenados, sempre, os países da América Latina, seu prestígio internacional e sua atualíssima visão dos problemas do Brasil, para os quais, do alto de sua inteligência iluminada, apontou, invariavelmente com clareza, alternativas de ação. É nessas cartas, mais que nos livros autobiográficos, que se pode ver de perto o quanto foi solicitado pelos principais centros intelectuais do mundo, e como se deu ao luxo de recusar, por razões de agenda ou por discordar de suas intenções, convites de trabalho e parceria com pensadores famigerados como Habermas, o temido e respeitado pensador da Escola de Frankfurt.

Ao se virar a última página do livro, a sensação é ao mesmo tempo de orgulho e de revolta ao saber o que o golpe de 1964 fez com intelectuais brilhantes como Celso Furtado, e o que esse temível "comunista" representou para a inteligência dos Estados Unidos e da Europa ao longo dos vinte anos em que foi proibido de voltar ao Brasil.

  

 

 

quinta-feira, 23 de março de 2023

Uma palavra amiga

Leio numa crônica de Martha Medeiros: "Estar só, totalmente só, é um direito e um dever. Não todo o tempo, mas por um bom tempo, o tempo que a gente precisa para reencontrar a si mesma". Na veia, Martha.

O grande equívoco dos que se separam, notadamente os homens, sempre mais apressados sob este aspecto (também!), é sair à caça, querendo a custo substituir a pessoa amada, ou que foi amada um dia. A leitura machista, retrógrada, de que só se cura uma paixão com outra paixão!

E o cara se entrega à busca insana, conquista Maria e Joana, mas o abismo só aumenta, fica mais profundo. É que para curar a 'velha' paixão, só existe um remédio, e esse remédio tem um nome: 'Tempo'.

A paixão é felicidade, mas não é a felicidade.

Fazer o quê?, haverá quem me pergunte. Não há fórmulas, receitas prontas. O primeiro passo, como nos adverte a cronista, é procurar ficar de bem com a solidão e aproveitá-la construtivamente. É hora dos bons livros, de ver e rever os grandes filmes, de ouvir as músicas de que você mais gosta --- não aquelas que maltratam, e deixam mais aberta a ferida em sangue. Essas, não.

Hora de retomar projetos esquecidos, de fazer, aos poucos, novas amizades, e, o mais importante, de deixar-se ficar só, sem fazer nada previamente pensado.... Esse ócio que nos permite sentir o próprio corpo, educar a respiração, deixar os olhos passearem pelos escaninhos nunca visitados do nosso espaço.

Hora de ocupar o tempo com as pequenas coisas, as miúdas experiências de afeto, inclusive para com você, com os animais, com as árvores, as flores do jardim ou da praça. Afeto para com os desconhecidos que haverão de cruzar o seu caminho...

Descrença no amor, na linha do que escrevi há alguns dias sobre um amigo que foge da paixão? Não, bem longe disso. Uma nova experiência passional é um tipo de premiação para o espírito que se fortaleceu na dor, no silêncio e na solidão, no processo às vezes lento do reencontro consigo mesmo.

A paixão é prêmio para a alma resolvida, nunca um recheio para o coração vazio, quando foi embora o objeto amado. Uma paixão não é algo que se procure de lupa na mão, agulha no palheiro.

A paixão vem do inusitado, daquilo que você jamais previu. A paixão é sorrateira, moleca, brinca de esconde-esconde, de pega-pega; vem de repente, não tolera festa de recepção, por isso jamais avisa quando vai chegar.

Está na belíssima canção de Eduardo Dusek: "Quem será que me chega / na toca da noite? / Vem nos braços de um sonho / que eu não desvendei? / Eu conheço o teu beijo / mas não vejo o teu rosto / Quem será que eu amo / e ainda não encontrei?"

Se está acontecendo com você o mesmo que ao eu lírico desta canção; se ainda não reorganizou por inteiro sua vida e seu coração, não abra mão de um tempo sozinho, esse tempo para o qual não existe preço nem definição --- como disse Medeiros, esse tempo é na mesma medida e proporção, um direito e um dever.

Deixe que a novidade venha, espontânea e doce, quando tiver de vir.

E que a novidade seja exatamente isso: uma novidade.

 

 

 

 

quinta-feira, 16 de março de 2023

Lula 3: cem dias

Ao completar cem dias de governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem demonstrado uma percepção dos problemas do País que me parece representar avanços se comparada à visão dominante nos governos anteriores: a começar pela composição do atual ministério, em que pese a existência, nele, de contradições advindas da necessidade de honrar compromissos em face do que se tenta ressaltar, precariamente, como uma "frente ampla", o presidente tem buscado encarar seus imensos desafios numa perspectiva algo próxima do que se define modernamente como "interseccionalidade".

O termo, nascido das incontornáveis contribuições da estudiosa norte-americana Angela Davis*, é utilizado para definir a dinâmica da exclusão capitalista a partir de outros referenciais que não os da esquerda dita tradicional, baseados historicamente na busca de alternativas ortodoxas que tomam como ponto de partida a questão de classe em detrimento de outras questões com ela relacionadas.

Não à toa, mesmo sendo entusiasta do marxismo, que leva à raiz em suas reflexões acadêmicas e em sua ação como militante negra e feminista, Angela Davis defende que nenhuma luta por uma sociedade mais justa e igualitária pode prescindir do que considera um nexo prioritário entre o racismo e o sexismo, por exemplo, numa visada que, para ela, vai além do mero enfrentamento das relações de classe da sociedade burguesa, identificada com o espectro ideológico da extrema direita.

É esse deslocamento do olhar sobre a desigualdade e a exclusão capitalista, portanto, que traz o governo atual do PT para um eixo menos ortodoxo e mais condizente com a realidade do País hoje, o que, insisto, pode-se ver com clareza num ministério em que pontuam como novidades concretas os nomes de Anielle Franco, Margareth Menezes e Silvio Almeida, cujos projetos, mesmo em diferentes pastas, mostram-se rigorosamente sintonizados em relação às questões de gênero, de raça e de classe, o que representa essa perspectiva de interseccionalidade professada pela filósofa estadunidense.

Não é preciso ir longe, assim, para se identificar nessa compreensão da realidade as razões por que se tenta afirmar o que me parece uma obviedade: o governo Lula 3 insinua-se mais à esquerda que os dois anteriores, mesmo quando essa postura suscita incompreensões dentro do próprio PT, como sempre, voltado para a questão social tradicional, de classe propriamente dita.

É aqui que entram as contribuições decisivas de Angela Davis, uma vez que a práxis adotada pelos movimentos populares brasileiros hoje se tem mostrado mais atenta à maneira sob a qual essas questões se entrecruzam num contexto de exclusão, desigualdade, pobreza e violência contra indígenas, mulheres e negros.

Não se trata, por óbvio, de negar o referencial de classe, mas de não fechar olhos para as questões racial e de gênero a ela relacionadas, bem como a seus cruzamentos e intersecções.

Nesse sentido, mesmo diante de antagonismos bestiais e imensos desafios de natureza política e econômica, ainda que informalmente, o presidente e sua equipe chegam aos cem dias de governo apresentando ao País um projeto em sua essência corajoso, inovador e com amplas possibilidades de vitória, mesmo tendo pela frente um Congresso afeito a práticas e interesses em nada republicanos.

É esperar e torcer.

 

*Filósofa, ativista, marxista, Angela Davis integrou o movimento Panteras Negras e o Partido Comunista dos Estados Unidos. Foi presa nos anos 1970 e ensejou a campanha "Libertem Angela Davis", pelo qual se tornou mundialmente conhecida. É autora de mais de sessenta livros sobre política, cultura e interseccionalidade no combate às assimetrias sociais, entre os quais se destacam "Angela Davis, Autobiografia", "Mulheres, Cultura e Política" e "Mulheres, Raça e Classe", publicados no Brasil pela Editora Boitempo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

Picasso --- Arte e contradições

Pode-se chorar pedras/lágrimas como gotas de pedras/dentes que caem dos olhos/como se os olhos chorassem dentaduras de pedras/Nunca a dor chorou tão grande dor/lançando blocos de pedras/dentes e molares de dor/de pedra. (Poema de Rafael Alberti sobre a tela Mulher Chorando)*

O cinquentenário da morte de Pablo Picasso, maior nome da arte moderna mundial, em 2023, enseja a retomada de um debate extremamente rico em torno da relação artista/obra. Em meus tempos de cátedra nas disciplinas de história da arte e introdução à filosofia da arte, na universidade, muitas vezes deparava com questionamentos dessa natureza: "Professor como se deve lidar com essas diferenças?" O caso de Pablo Picasso era recorrentemente levantado, e os olhares sobre a questão, objeto de enriquecedoras polêmicas.

Em sua obra "Picasso, o Minotauro", a jornalista Sophie Chauveau, explora as contradições homem/artista e conclui: Picasso era "ciumento", "perverso" e "destrutivo". Não sem razão, portanto, na esteira dos grandes eventos que marcam os 50 anos da morte do artista andaluz, para ficar num exemplo de maior relevância, a relação dele com as mulheres será objeto de importante discussão no Brooklin Museum de Nova York.

Para dar ao leitor ou leitora uma ideia do que está por trás da polêmica, recuo no tempo e reporto-me a dois fatos envolvendo o pintor de "Les demoiselles d'Avignon" e sua quinta mulher, a fotógrafa, pintora e poeta de origem croata, Dora Maar. Vamos ao primeiro deles.

Conhecendo-a superficialmente (fora apresentada a ele pelo poeta Paul Éluard), um dia Picasso a encontra brincando de fincar um canivete entre os dedos sobre a mesa de uma taberna. Numa das muitas repetições, eis que Dora Maar fere um dedo e o sangue logo encharca-lhe a luva. Picasso se aproxima dela e pede-lhe para guardar como lembrança sua luva suja de sangue, ao que Dora responde: "Por que não leva com você minha mão?" Saíram da taberna juntos, e assim viveriam por longos anos uma relação extremamente tóxica. Possuidor de uma personalidade doentemente vaidosa, machista e violento, Picasso submeteria Dora Maar a uma vida em nada condizente com o que fora antes de conhecê-lo. Passemos ao segundo fato.

Um dia, em 1945, Dora Maar pede ao pintor e a um amigo que se ajoelhem diante dela para adorar a Deus. Vitimada pelos maus-tratos do amante, Dora Maar enlouquecera e jamais se recuperaria de todo da doença. Eis um novo gancho para se levar adiante a polêmica.

Picasso realizaria numerosos retratos de Dora Maar, entre os quais destacam-se dois cujos traços fortemente inspirados no expressionismo revelam para além dos conflitos sociais tão recorrentes no conjunto de sua obra. Se, numa perspectiva é nítida a visada dramática sobre a Guerra Civil Espanhola, a exemplo do que fez na monumental "Guernica", 1937, noutra, traz à tona as crises de relacionamento que marcaram sua vida com as muitas mulheres com quem se relacionou, nomeadamente com Dora Maar.

Em "Retrato de Dora Maar", 1937, óleo sobre tela exposto no Museu Picasso, Paris, deparamos com uma mulher sentada dentro de um ambiente claustrofóbico, como a sugerir um tipo de prisão a que está condenada, em que pese a serenidade de sua expressão a um tempo elegante e pensativa. Do ponto de vista formal, no entanto, a obra assenta-se num admirável equilíbrio entre o traçado geométrico e a força decorativa da imagem. Veem-se linhas em que se combinam o perspectivismo (pontos de fuga) e a centralidade da figura retratada. Ainda que intencionalmente deformada, a fatura estética resulta num registro belo e sedutor, como a dizer da mulher talentosa e inteligente que foi Dora Maar.

Do mesmo ano, no entanto, "Mulher Chorando", coleção particular, Londres, constitui um dos mais dramáticos, tensos e comoventes quadros de Picasso. Nele é visível o desprezo por qualquer correspondência entre as formas adotadas pelo artista e a realidade anatômica de Dora Maar: as mãos crispadas sobre o rosto em pranto convulsivo, os dentes como a escorrer dos olhos como blocos de pedras, no dizer poético de Rafael Alberti sobre a tela. Embora se saiba que essas distorções estão relacionadas com a percepção que Picasso tinha do mundo, marcada pelo que levaria críticos a defender a presença de elementos surrealistas em sua obra, o que considero uma subjetivação improvável, a expressão monstruosa da mulher reflete as dores de Dora Maar sob a masculinidade tóxica do amante.

Gênio, mulherengo, narcísico, dono de um temperamento ciclotímico, Pablo Picasso morreu em 8 de abril de 1973. É nome inconteste do ponto de vista estritamente artístico, tendo transitado com igual competência da fase Azul (1901-1904), passando pela fase Rosa (1905-1907) e pela Africana (1907-1909), até chegar aos dois cubismos, o analítico e o sintético, entre 1909 e 1919. Os quadros, no entanto, que mais dizem de sua personalidade flutuante, embora extraordinários como objetos rigorosamente estéticos, situam-se entre o surrealismo improvável e o expressionismo pungente com que imortalizou mulheres lindas e talentosas com as quais viveu.

No Março da Mulher, a um mês da data exata, qual o Picasso para o qual se devem voltar nossos olhares no cinquentenário desde o seu falecimento? O dos olhos amendoados de Fernande Olivier, o do rosto ovalado de Olga Khohlova, o da cabeleira abundante de Françoise Gilot, o da loura terna e doce de Théresè Walter, a da angustiada e bela Dora Maar, da indefinível feminilidade de Jacqueline (todas retratadas por suas pinceladas desconcertantes), ou o do machista ranzinza e indefensável de que nos falam seus melhores biógrafos?

*Tradução livre minha.

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 3 de março de 2023

Leite condensado, sangue e podridão

Há quem já festeje o reencontro, depois dos anos de barbárie, como se a selvageria fosse coisa do passado. Ledo engano. Ainda sobrevoam nossas cabeças, como fantasmas insones, o ódio e a violência, nascidos da brutalidade do ex-presidente e de sua corriola.

Se é verdade que houve pequenos avanços, em maior porção como resultado da resistência democrática à tentativa de golpe do 8/1, as forças antagônicas se enfrentam no dia a dia dos brasileiros: humanismo e truculência; direitos e exploração; igualdade e supremacia; educação e grosseria, entre outras tantas dualidades.

E pensar que hoje (sexta-feira, 3 de março) se comemoram os 75 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos...

Aquela que diz no seu primeiro artigo: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade" (Cito de cor).

E ecoam nos meus olhos e ouvidos, o que li e ouvi sobre trabalhadores nordestinos mantidos em condições análogas à escravidão na colheita da uva no Rio Grande do Sul. O documento lançado pelo Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul é algo nojento, sórdido, e diz à perfeição em que país, infelizmente, ainda vivemos.

Como a querer justificar o injustificável, o órgão responsabiliza os programas de combate à fome, criados nos governos do PT, pela prática dos atos de exploração do trabalho humano a que estavam condenados homens nordestinos que ali buscavam sobreviver num país em que 33 milhões de pessoas vivem em situação de fome, onde passa dos 10 milhões o número de desempregados e 40 milhões ocupam-se em atividades informais.

O texto, subscrito por empresários da produção de vinho, é asqueroso em sua forma e seu conteúdo, materializando como pensa parte do empresariado nacional, os tais homens do agronegócio que davam apoio irrestrito ao ex-presidente, e que não mediram esforços para tomar no grito a eleição de Lula: "... há larga parcela da população com plenas condições produtivas que, mesmo assim, encontra-se inativa, sobrevivendo através de um sistema assistencialista que nada tem de salutar para a sociedade" (sic), diz o documento.

Para não falar, o que é infelizmente necessário, do pronunciamento do vereador Sandro Fantinel, de Caxias do Sul, contra os trabalhadores escravizados, em que propõe a contratação de argentinos como solução para os problemas de mão de obra no estado: "... limpos, educados, produtivos", "diferentes dessa gente lá de cima (no mapa, o Nordeste), que nada faz além de bater tambor na praia".

O discurso sórdido do fascista, como se vê, reproduz um tipo de preconceito que vai além da questão meramente trabalhista, mas escancara uma mentalidade dominante do agronegócio e recorrente na História, a que valoriza e exalta, como fez o moleque na tribuna, o trabalho de brancos imigrantes em detrimento dos negros que construíram este país debaixo de chicote e vara de ferro.

Em meio ao descalabro e à desfaçatez, é preciso que as instituições permaneçam atentas e atuantes, na linha do que têm feito nos últimos meses em favor da democracia, do restabelecimento do Estado de Direito e do combate aos fantasmas a que me referi acima, insones, ameaçadores e desejosos de voltar à cena da tragédia em que se alimentaram de rachadinhas, Viagra, leite condensado, sangue e podridão.

 

 

 

quinta-feira, 2 de março de 2023

Amarcord, 50 anos

Talvez algum dia se diga de alguma pessoa: Seu filme é como um filme de Fellini. Mas ele poderá ser apenas 'como' um filme de Fellini. É nisso que se reconhecem as coisas realmente boas: não podem ser repetidas.

                                                                        (Billy Wilder, cineasta)

 

Federico Fellini faria agora 103 anos. Cineasta do cinema de poesia, na perspectiva da conhecida teoria de Pier Paolo Pasolini, outro gênio italiano, Fellini legou-nos uma obra imorredoura, povoando de sonho e fantasia o imaginário de amantes da sétima arte mundo afora. Como ele, poucos terão compreendido com tamanha perfeição em termos cinematográficos o que se convencionou chamar de 'função estética da arte', ao lado de saber com sutileza, dizendo-se indiferente à questão rigorosamente política, tirar da beleza fílmica a mensagem mais engajada contra a recorrente ameaça fascista na Itália do seu tempo, a exemplo do que fez em realizações emblemáticas como "Amarcord", que faz agora 50 anos desde seu lançamento, em 1973, ou, alegoricamente, em "Ensaio de Orquestra" (1978). Sem esquecer, por óbvio, clássicos impagáveis como "Noites de Cabíria" (1957), "A Doce Vida" (1960) e "Oito e Meio" (1963), verdadeiros exemplos de que sondagem psicológica e crítica social podem andar juntas na mesma arte --- como a dele ---, a um só tempo poderosa e bela. Falemos um pouco de "Amarcord", que conta, como disse, em 2023, cinquenta anos.

Adolescente, ainda, assisti à obra-prima no Cine Alvorada, em Iguatu - CE, faz isso pouco menos de cinquenta anos. Sem compreender, à época, toda a complexidade de sua estrutura narrativa, claro, calcada em recursos de linguagem intencionalmente afetados, na linha do que se pode destacar na construção de personagens caricatos e exemplarmente típicos de uma sociedade interiorana do norte da Itália (o que, em alguma medida, projeta a essência do mundo profundo de qualquer país), confesso ter saído do cinema sob o efeito do que, mais tarde, saberia definir como emoção estética, isto que sentimos quando entramos em contato com a Beleza em estado pleno, uma experiência capaz de nos levar a um tipo de epifania sempre que diante de uma grande realização artística. Desde então, em termos estéticos, minha vida se transformaria por completo.

O título do filme é uma alusão à tradução fonética da expressão "I m'arcord", que em dialeto regional da Romagna significa "eu me lembro". Pode-se concluir, desde já, que a obra tem seu fio condutor a partir do que pouco depois seria definido como o memorialismo felliniano, uma das muitas marcas do estilo cinematográfico de Federico Fellini.

Mas considerar que essas recordações são estritamente ligadas às experiências pessoais do autor, embora aceitável como exercício de exegese da obra, implicaria um tipo de reducionismo em nada condizente com a dimensão universalizante de "Amarcord". É que o filme de Fellini extrapola as fronteiras do elemento localizador, explícito desde os primeiros planos e na integridade da narrativa, redimensiona-se, ganha relevo em sua força de sentido e expressa com vigor e poesia o que resta de mais abrangente em termos sociais e humanos. Não é outra a razão por que o adolescente dos anos 1970, numa cidade do interior do Ceará, sem o saber definir em termos teóricos, deixaria o velho cinema da cidade absolutamente dominado pelo que, compreenderia mais tarde, diz ser o 'milagre da Arte'.

O filme, desenhado com a habilidade do caricaturista que se antecipara ao realizador cinematográfico, põe em cena tipos humanos memoráveis. No momento em que sento à frente do computador para tecer essas ligeiras considerações sobre a cinematografia de Federico Fellini, como que vejo desfilar na tela das retinas os seres adoráveis de que jamais pude esquecer: a prostituta Volpina, sempre no cio, a saciar os desejos dos adolescentes de Rimini, cidade em que, supostamente, está ambientada a história; o avô, com os braços revirando como os de um clown a cada aparição no quadro fílmico; o padre, curioso por saber detalhes das masturbações dos meninos no contraditório espaço do confessionário; a freirinha anã, misteriosamente capaz de convencer o tio Teo a descer da árvore em que se alojara atrás de uma "donna", sem esquecer a opulenta professora de matemática, a sargenta fascista e um sem-número de tipos apaixonantes da vasta galeria de personagens fellinianas.

Por conta dos 50 anos de "Amarcord", revi (o que faço quando menos a cada dois ou três anos) essa maravilha de Federico Fellini, de novo e sempre deslumbrado com a paleta de cores, a composição inconfundível do quadro, a movimentação da câmera em perfeita sintonia com a densidade dramática da cena, a montagem irregular das sequências, à maneira de um mosaico, o lirismo das situações com que o diretor traz à tela suas mais inapagáveis e superlativas lembranças da infância ---  tudo, invariavelmente, orientado por um rigoroso sentido estético, que, numa experiência sensorial para a qual não existe nome, faz escorrer poesia do que são apenas imagens,  como sugere a etimologia da palavra, nascidas da imaginação inesgotável de um gênio da sétima arte. "Amarcord" fez-me descobrir o Cinema.

Trajetória

Federico Fellini teria como mestre ninguém menos que Roberto Rossellini (1906-1977), com quem faria suas primeiras experiências como roteirista. De sua pena, em nível de participação que não se pode mensurar, a exemplo do que é recorrente em parcerias autorais, surgiriam filmes clássicos do que se convencionou chamar neorrealismo italiano: "Roma, Cidade Aberta" (1945), "Paisà" (1946), "O Amor" (1948), "Francisco, Arauto de Deus (1950), "Europa 51" (1952) e "Onde Está a Liberdade" (1954), para mencionar obras-primas do cinema italiano.

Mas são os filmes autorais, em rigor, que dariam a Fellini o prestígio que o conduziria ao Panteão do grande cinema mundial. Calcados num senso estético inconfundível, com destaque para a atenta observação do lado caricatural e grotesco do elemento humano, que revela suas assumidas relações com o espetáculo circense, na linha do que se vê no adorável "Os Palhaços" (1970), esses filmes compõem um conjunto cinematográfico extremamente rico do ponto de vista formal e conteudístico, nos quais, invariavelmente, sobressaem alguns traços que se podem definir como "fellinianos": forte sentimento humanista, nos filmes da primeira fase, sobretudo, sob a influência da estética neorrealista; gosto pelo exuberante, o exagerado, o carnavalesco, com certo perfume surrealista; certo tom maneirista na apresentação dos elementos decorativos; temas autorreferentes, memorialísticos; simpatia pelo que se convencionou compreender como 'mau gosto', em oposição ao apuro estético de um certo Luchino Visconti (1906-1976); estética da imaginação e do sonho como estratégias narrativas dominantes, sobretudo em filmes emblemáticos da segunda fase, com destaque para "A Doce Vida" (1960) e "Oito ½" (1963), entre outras características do seu estilo belo mas intencionalmente tosco.

Se essa ausência de limites entre o sonho e a realidade já se fizera ver no filme de estreia, "Abismo de Um Sonho" (1952), cuja enredo gira em torno das fantasias por que se move uma jovem encantada com a leitura de fotonovelas, seduzida por um herói imaginário, essa tendência sofreria uma interrupção a partir de 1953, com o belíssimo "Os Boas Vidas", cujos procedimentos transitam do neorrealismo dos filmes de primeira fase ao memorialismo como tendência recorrente do diretor, num tipo de projeção autobiográfica que poetiza a juventude em Rimini. À essa altura, evidenciando o gosto por parcerias marcantes de sua trajetória como realizador, Fellini passa a contar com a contribuição do compositor Nino Rota (1911-1979), cujas trilhas tornar-se-iam tão marcantes no conjunto da obra do diretor e que, não é muito dizer, constituem um tipo de assinatura de sua filmografia.

Ao lado da parceria com artistas como Pasolini e Nino Rota, também no tocante à escolha do elenco os filmes de Fellini trazem as recorrentes presenças de Marcello Mastroiani e Giulietta Masina. Com esta, com quem viveria até morrer, em 31 de outubro de 1993, Fellini rodaria filmes emblemáticos da fase neorrealista, com destaque para "Estrada da Vida" (1954) e "Noites de Cabíria" (1957), verdadeiras obras-primas do cinema italiano. Com aquele, um tipo assumido de alter ego do diretor, seriam realizados, entre outros, "A Doce Vida" (1960) e o incontornável "Oito e ½" (1963).

Transgressores do ponto de vista formal, os dois entrariam para a história do cinema como exemplos clássicos do que existe de melhor na cinematografia moderna. O primeiro, um mosaico esteticamente perfeito em termos de imaginação e crítica aos costumes da sociedade italiana, de Roma, sobretudo, assinala a entrada do ator no universo fílmico de Federico Fellini. Plasticamente irretocável, é nele que se encontra uma das mais festejadas sequências do cinema, a da Fontana de Trevi, em que Mastroiani e Anita Ekberg se deixam molhar nas águas da fonte. Nessa sequência, a angulação da câmera sugere o memorável beijo entre Mastroiani e Ekberg, mas, em realidade, o beijo nunca ocorreu: num lance de genialidade, o diretor de fotografia Otello Martelli explora com o procedimento o componente ambíguo e contraditório da relação entre as duas personagens. O beijo não existiu, mas a sugestão visual é carregada de sentido no contexto narrativo do filme, dando a ver as sutilezas do diretor na composição dos planos, a beleza impactante da luz e o rigor do enquadramento.

Mas o ponto culminante da arte de Federico Fellini ocorreria mesmo com o autobiográfico "Oito e ½", em que Marcello Mastroiani interpreta Guido, um cineasta em crise criativa que reverbera as mais íntimas inquietações existenciais do próprio Fellini. O filme exemplifica à perfeição a plena maturidade subjetiva e autoral do diretor, a essa altura reconhecido internacionalmente como um dos mais inventivos e originais realizadores de todos os tempos. Numa mistura de memória, delírio, humor e melancolia, a que se soma um rigoroso senso estético, "Oito e ½" esbanja criatividade e beleza, constituindo uma obra de arte inconteste e indispensável aos olhos de qualquer amante do melhor cinema.

Crítico das formas pasteurizadas do cinema hollywoodiano, e atento à superficialidade dos meios de comunicação de massa, em nítida sintonia com as teses de Adorno em face do que se convencionou chamar de indústria cultural, Federico Fellini usou e abusou de procedimentos estéticos transgressores sem jamais descuidar da qualidade plástica de seus filmes, não sendo muito considerar sua arte, quase na mesma proporção, grosseira e sofisticada.

Tendo alcançado um nível artístico inquestionável, mesmo para aqueles que viram o rosto para a sua obra, num gesto de incompreensão e arrogância que mais ressalta que desmerece a qualidade de sua filmografia, é natural que se perceba um certo declínio nos últimos filmes, pelo menos desde "E La Nave Va" (1983), com que se descortina um tipo de cerimônia do adeus marcada pelo ritmo sonolento e "o tom sépia da melancolia", do dizer de um crítico de que me foge o nome.

Para concluir este ligeiro olhar sobre Federico Fellini, no ano em que se comemora o cinquentenário de "Amarcord", filme-símbolo de um jeito de compreender a existência humana e de traduzi-la em forma de arte, nada mais oportuno que dar voz ao próprio artista quando se volta para a importância do cinema em sua vida: "Nunca imaginei me tornar um diretor, mas no primeiro dia, da primeira vez que gritei 'Luz! Câmera! Ação! Corta!' , pareceu-me ter sempre feito aquilo, não poderia fazer nada diferente, aquilo era eu e aquela era minha vida".

Obrigado, Fellini!