Posso falar?

Eis que termina 2013. Confesso que não esperei muito de um ano assim tão marcado de superstição. Não que seja desses que nutrem crenças sem fundamento na razão ou que temem coisas inócuas, por mais que seja um homem afeito às subjetividades e crente na existência de Deus. Mas é que esse número traz coincidências fortuitas que chegam mesmo a impressionar. Primitivismo religioso? Vá lá que seja, que de mago e feiticeiro cada um tem um pouco. Mas o ano foi bom.
 
Que deem um desconto no que houver de egotista na conversa, termina 2013 com um saldo para além de positivo. O Saulo terminou Medicina e a Carol, que nem o pai, resolve enveredar pelo mundo das Artes, mais precisamente pela Arquitetura, uma de suas paixões. A outra fica a meio caminho do cinema e da Literatura. Quando menina, contando nove, dez anos, já escrevia seus poemas, tendo concluído dois "livros", como chamava os cadernos de arame em que guardava seus escritos.
 
Um dia, entre orgulhoso e sonhador, tomei nas mãos os tais cadernos com o firme propósito de providenciar sua publicação, para o que cheguei a contratar com uma editora conhecida da cidade. Quis o destino, este eventual inimigo das letras, que alguma diarista menos atenta tenha dado fim aos poemas de Carol, pelo que, sem lugar para colocar as mãos, valho-me desta conversa para apresentar à 'poeta' as minhas escusas, já meio fora de mão.
 
O ano termina e termina bem, na contramão do que desejavam as aves do mau agouro. O Brasil que vejo, apesar dos pesares, é diferente daquele que veem alguns amigos, que, inconformados, não param de me mandar um vasto material de perseguição a Lula e ao PT, num tipo de imaturidade e despreparo político que mal se equilibra entre o engraçado e o irrisório.
 
E haja baixaria de toda ordem, das montagens grosseiras, com "fotos" do ex-presidente nas mais impensáveis condições, aos textos asquerosos de Reinaldo Azevedo na Veja e na Folha de S. Paulo, a exemplo do que estampa o matutino paulista em sua edição de ontem, 27 de dezembro. 
 
Vejo o Brasil das conquistas sociais, o Brasil de dentes brancos, de barrigas cheias; o Brasil com filhos na Escola, o Brasil dos pobres remediados  --  e, agora, assistidos nos postos de saúde e nos hospitais dos mais longínquos rincões; vejo o Brasil dos celulares nas mãos, dos aeroportos mestiços, dos shoppings repletos de gente que só podia vê-los pela televisão. Vejo o Brasil de pessoas mais felizes, mais bonitas, o Brasil que trabalha como nunca, em tempo algum, que o desemprego desceu a índices mais baixos e mais humanos. Vejo este Brasil, que muitos não querem ver.
 
Digo isso sem fechar os olhos para os nossos imensos problemas, mesmo em termos de saúde e de educação; mesmo em termos de renda, de segurança, de transportes. Digo isso sem perder a capacidade de me indignar com a corrupção, com os políticos canalhas, com a barbárie nos presídios do Maranhão, com os assaltos que parecem tomar conta do Ceará e da maioria das capitais brasileiras.
 
Mas é preciso ter olhos para ver o que de bom se tem feito pelos quatros cantos desse imenso país. E é por isso que, para mim, 2013 termina como um ano de muitos avanços. Que venha o Ano Novo, e que venha bom como o ano que termina, para os mais diferentes olhos e olhares, mentes e corações! Agora fale você!
 
  
            
            
           

Prece de Natal

A cada véspera de Natal, pelo menos comigo, acontece de tentar rever os 359 dias que o antecederam. Digo melhor: acontece de rever o que foi minha vida ao longo de todo esse tempo. É vezo de criança, alimentado por uma educação familiar rígida do ponto de vista católico. Se não é bastante para me tornar um homem melhor, no sentido rigoroso da adjetivação, ajuda um pouco a tentar, quase sempre com êxito, felizmente, não cometer os mesmos erros. E assim, quando vem a passagem do ano, entregue por inteiro ao clima das esperanças que a data enseja para a maioria de nós, acalento a possibilidade de ser e fazer mais feliz o próximo. Nem sempre, como disse, a gente consegue, mas já é alguma coisa tentar.
 
Essas reflexões, todavia, de muito íntimas que são, não devem ser reveladas, pelo menos não devem ser reveladas no espaço público de uma página de jornal. Têm alguma coisa de sagrado, são dedos de prosa que cada homem (os brasileiros à frente) costuma ter com o Senhor à esta época do ano. Mais ou menos como o poeta Carlos Drummond de Andrade tornou clássica a sua conversa com Jesus Cristo num dos seus textos consagrados. Chama-se Prece do Brasileiro e foi publicado, se não me falha a memória já cansada, em junho de 1970.
 
Então?! (que modismo chulo este!), o poema, salvo engano, começa mais ou menos assim: - "Meu Deus,/só me lembro de vós para pedir,/mas de qualquer modo sempre é uma lembrança./Desculpai vosso filho, que se veste/de humildade e esperança/e vos suplica: Olhai para o Nordeste/onde há fome, Senhor, e desespero/rondando nas estradas/entre esqueletos de animais."
 
Lembro de cor, mutatis mutandis, primeiro porque um dia me especializei em Drummond, quando defendi dissertação de Mestrado sobre 'componentes dramáticos' de sua poética. Mais que isso, no entanto, por uma curiosidade: o poeta, que nunca esteve no Ceará, ao que consta, faz, no começo da estrofe seguinte, uma referência à minha cidade: - "Em Iguatu, Parambu, Baturité,/Tauá/(vogais tão fortes não chegam até vós?)/vede as espectrais procissões de braços estendidos,/assaltos, sobressaltos, armazéns/arrombados e  -- o que é pior  -- não tinham nada."
 
É claro que Drummond apenas se valeu do fato de ser Iguatu, mais que uma cidade do Nordeste, onde ambienta o seu poema, uma palavra de tonicidade apropriada para o ritmo métrico e a sonoridade do texto. Pouco importa. Telúrico que sou, curti isso com uma atitude a um tempo piegas e grata, pois que não é qualquer cidade brasileira que tem o seu nome estampado num poema de Drummond.
 
Mas, de que falava mesmo? Ah, sim, falava do Natal e da minha motivação de aproveitar a data para rever minha vida durante todo o ano. Pois bem, que Deus me dê forças para continuar a crer na benevolência original dos homens, para ser mais tolerante e mais gentil com todas as pessoas! Que Deus me faça saber perdoar mais, e pedir perdão com a naturalidade dos simples e dos mansos! Que eu tenha a consciência do que pesam as palavras, quando ditas com rancor; aliás, que me faltem as palavras duras e que eu nunca alimente o rancor! Que aprenda a receber sem desconfiança todos aqueles que se aproximarem de mim, e que possa, como está em Isaías, confiar no próximo como um menino confia em outro menino! Que eu seja mais compreensivo e mais justo para com os que discordam de mim, e saiba conviver mais com as diferenças! E que o meu talento, se algum existir em mim, esteja sempre a serviço da construção de um mundo mais humano!
 
É o que devo, vestido de humildade e esperança, como o eu lírico de Drummond, pedir a Deus neste Natal! E eu, que disse que não faria revelações aqui... 
 
 
 
 
 
           

O sonho de um jovem médico

Para auscultar o coração de um povo, não se precisa de um estetoscópio. Basta ter coração!
(Ernesto Che Guevara, médico argentino)
Escrevo a coluna de hoje da cidade de Barbalha. Vim para participar da festa de conclusão de curso do meu filho Saulo, pela Universidade Federal do Ceará.
 
Durante a viagem de deslocamento, sob o efeito da emoção que sente todo pai em momento, assim, particularmente marcante na vida de um filho, passei em revista a história desse "menino" que começa a sua trajetória como médico aos 25 anos e dominado por tantos sonhos, tanta vontade de servir às pessoas com os instrumentos de uma profissão a um tempo tão nobre e tão desafiadora, num país ainda desigual e injusto como o nosso.
 
Guardo de cor, porque tantas vezes lida, a dedicatória com que abre o seu convite para as muitas solenidades de formatura, e da qual reproduzo, aqui, um fragmento particularmente tocante do que diz: - "Minha história até aqui tem sido rica de aprendizado, boas experiências e momentos inesquecíveis. Devo isso a Deus (mais que tudo!), aos (muitos) grandes amigos e à minha família. Mãe, pai, Beto, Carol, Mariana e Juliana, a vocês dedico esse diploma e tudo de melhor que vier por meio dele. Também a vovó Zulene e Igor, que vão estar presentes comigo sempre que eu conseguir fazer mais feliz a vida de quem comigo encontrar".
 
"Fazer feliz a vida de quem comigo encontrar". Nessas poucas palavras, tenho refletido desde o momento que as li pela primeira vez, descubro o segredo do que deveria ser a existência humana, essa vontade interior de contribuir, dentro das possibilidades de cada um, no árduo processo de construção de um mundo mais feliz  --  ou, quando a felicidade não for de todo possível, um mundo em que seja "menos dolorosa" a vida de todas as pessoas!
 
Tenho feito preces a Deus para que Saulo, e, indistintamente, todos aqueles que neste final de ano terminam suas faculdades, possam, como disse ele, "por tudo de melhor que venha pelos meios de seus diplomas", estar mesmo atentos a esse desejo interior, tão simples e tão profundo, carregado de tantos e imponderáveis sentidos e significados.
 
"Fazer mais feliz ou menos dolorosa a vida de quem encontrar comigo". Eis o segredo da existência humana, aquele que deveria se tornar a razão de viver de cada um de nós, o segredo a que se reportou Dostoiévski a uma dada altura de sua vida: - "O segredo da existência humana consiste em se achar uma razão de viver".
 
Que esses novos médicos, assim como os novos advogados, professores, arquitetos, os novos 'formados' que iniciam a partir de agora suas caminhadas, independentemente da profissão escolhida, acrescentem aos seus muitos sonhos, naturais a esta altura de suas vidas, esta  bela razão de viver: "Fazer mais feliz ou menos dolorosa a vida das pessoas"!
 
No final de sua dedicatória, Saulo, que foi escolhido como o orador da turma, arremata com duas ou três palavras o seu desejo: - "Que o fim desse curso seja o início de um caminho longo e frutífero, guiado pela ética, pela gratidão e pela competência!" Que Deus torne possível o seu sonho e dos seus colegas! E que eles jamais esqueçam do juramento feito em clima de festa!
 
 
 
           

Talento multimídia

Quando certa vez elogiei aqui os poemas de Bruna Lombardi, a bela atriz de tevê e cinema, muita gente boa caiu de pau sobre mim. É que no Brasil, quase sempre, a figura do bom escritor está associada a homens e mulheres feios e taciturnos, como se a literatura demandasse valores incompatíveis com a beleza física e a notoriedade midiática.
 
De novo, e com o prazer de quem acaba de descobrir ouro em meio à aridez do deserto (pelo menos em termos de renovação estilística), deparo com uma literatura, de altíssima qualidade, oriunda de quem conhecia apenas de uns pequenos textos publicados periodicamente na Folha de S. Paulo e de suas aparições nas telas: Fernanda Torres, a muitíssimo conhecida atriz da Globo, cujo romance de estreia, Fim, acabo de ler entre embevecido e encantado.
 
O núcleo dramático do romance está estruturado em torno de cinco personagens, às quais a autora dá voz numa narrativa marcada por originalidade e força poética: Álvaro, com cujo ponto de vista a história tem início, é um homem atormentado pela solidão e velhice; Ciro, um namorador tipicamente carioca e portador de um câncer; Sílvio, um dependente de droga e sexo em idade também avançada; Ribeiro, um rato de praia que apelou à medicina para continuar viril e Neto, o careta do grupo, que não sabe nem mesmo conquistar amigos e namoradas.
 
Ambientado no bairro carioca de Copacabana, e sustentando-se nas experiências de vida de uma  geração frustrada e insatisfeita, Fim é um livro exemplarmente bem construído, enxuto e dotado de uma tensão interior capaz de prender o leitor da primeira à última página.
 
Entre suas muitas qualidades de estilo, uma vez que Fernanda Torres faz sua estreia no gênero com uma maturidade que a um tempo surpreende e conquista, sobressai a narração precisa, atenta a detalhes que dão um colorido particular ao texto. Um exemplo disso é a forma como descreve, pela voz de cada personagem, as dificuldades com que deparam os idosos nas cidades brasileiras, esburacadas, sem calçadas e quase sempre ameaçadoras para quem, como o velhinho Álvaro, tem de enfrentar motoristas mal-educados e insensíveis.
 
Há uma boa dosagem de humor nas páginas de Fim, mas há também um sem-número de situações com as quais, em alguma medida, todo leitor haverá de se identificar. A parte do romance que descreve a difícil experiência da personagem Irene no IML, quando é convocada a identificar o corpo do ex-marido, morto num atropelamento, é tão forte que chega a provocar náusea, não apenas pela forma objetiva com que mostra o fato, mas pelas reflexões que o mesmo provoca a uma mulher diante do corpo frio e inerte de quem amou um dia, e para quem, ali, apenas está um defunto entre os muitos à espera de identificação.
 
Mesclando a narrativa, assim, com descrições e fluxos de consciência que lembram autores de primeira grandeza, Fernanda Torres, no seu romance de estreia, diz a que veio, e entra para o cenário literário brasileiro com uma dignidade artística que não deixa nada a desejar a escritoras consagradas como Lygia Fagundes Telles e Nélida Pigñon. Como afirma Sérgio Rodrigues numa orelha de Fim, está provado que o talento pode ser multimídia. Recomendo.
 
 
           

Diário de viagem

Havia à disposição dos estudantes estrangeiros um belo casarão ali perto. Era conhecido como Centre Libre, ricamente instalado com duas imensas cozinhas, salão de jogos, vários banheiros, biblioteca e equipamentos eletrônicos de última linha. Nas cozinhas, havia grandes armários divididos em pequenos espaços onde os usuários armazenavam açúcar, sal, manteiga, biscoitos e enlatados. Não tinham fechadura, suas portas trancavam ao leve toque de um ímã. Cada pessoa dispunha de um desses espaços e, muitas vezes, pude presenciar estudantes europeus de outros países interromperem o preparo da comida a fim de comprar, por exemplo, o sal ou azeite que acabara e, por esquecimento, não fora reposto. Impressionava-me que nenhum deles se sentisse à vontade para abrir a portinha ao lado e lançar mão daquilo de que estivessem necessitando.
 
Envergonhava-me saber que os meus anfitriões, brasileiros, não fizessem o mesmo. Eu não tinha lugar para colocar as mãos ao ver um deles abrir as portinhas, uma a uma, até encontrar o que procurava para preparar o lanche. Hoje, corre mundo e faz sucesso com uma empresa de turismo. 
 
A correção do povo suíço, nesse aspecto, é algo realmente impressionante. Certa vez, para citar um exemplo, visitando com um amigo friburguense um ponto turístico da cidade, deparei com uma objetiva de uma máquina fotográfica, pelo visto sofisticada, abandonada sobre uma mureta. Como não houvesse ninguém por perto (na motivação de encontrar seu dono), tomei-a nas mãos, a um tempo surpreso e curioso, pelo que fui de imediato repreendido: – "Não toque, o proprietário haverá de voltar à sua procura!"
 
Aos poucos, no convívio de uma realidade tão diferente daquela a que estamos habituados, foi ficando mais claro para mim o conceito do que seja a educação e do quanto esse valor é importante na vida de um povo. Das minhas impressões, um amigo discordava, alegando que os bancos suíços constituem o destino de tanto dinheiro roubado mundo afora. Mas voltemos ao que dizia.
 
Intrigava-me que os ônibus não tivessem o que no Brasil chamamos 'trocador', aquele sujeito encarregado de receber os tíquetes (ou o valor da passagem), os quais são adquiridos em cada ponto com a simples inserção de uma moeda. Assim, não agindo com honestidade, o usuário pode se deslocar, gratuitamente, o que via muitos brasileiros fazerem.
 
Nas bancas de revista, que mais adequado seria chamar de pontos de venda de revistas e jornais, posto que não ofertam a imensa variedade das nossas, no Brasil, faz-se o mesmo que aos tíquetes de ônibus, com a diferença de que o acesso aos exemplares é absolutamente livre. Deixa-se a moeda, leva-se o jornal ou a revista. Meus anfitriões estavam sempre em dia com as notícias e os acontecimentos do mundo. Sem custos, é bom lembrar.
 
Naquele tempo era chocante para os turistas latinos encontrar tantos autosserviços para o que quer que fosse. Quando escrevo estas memórias, felizmente, muitos estão à disposição dos brasileiros em qualquer grande centro. Não vulneráveis quanto o suíços, é importante frisar, mas confiados à honestidade e à retidão de quem deles necessite.
 
A Suíça é, como disse, uma casa de bonecas. Nenhum país que conheci é tão rico quanto esse em beleza, com suas montanhas cobertas de neve, suas simpáticas estações de esqui, seus chalés de cores vibrantes, suas instituições culturais e suas muitas cidades medievais. Friburgo, a cidade em que estou à altura dessas memórias, é uma delas.
 
Fundada por volta de 1157, esta bela cidade está situada às margens do rio Sarine. Aqui, fala-se indistintamente o alemão ou o francês, mas é esta a língua dominante. Nas universidades, contudo, o alemão e o francês são recorrentes e, em algumas, o italiano, a terceira língua oficial do país. Além do romanche, falado na Suíça oriental.
 
A poucos minutos de Lausanne e Berna, em viagem de trem, a que ia com alguma frequência durante os meses de minha permanência na Suíça, Friburgo destaca-se como atração turística europeia pelo seu centro histórico medieval, totalmente preservado. A sua catedral é exuberantemente bela e sua arquitetura gótica anuncia-se à distância com sua torre de mais de setenta metros.
 
Os dois meses e meio, três meses, que passo em Friburgo assinalam as menores temperaturas em cinquenta anos. O frio é inclemente e neva com freqüência, o que, curiosamente, torna a baixíssima temperatura um pouco mais suportável. Coberta de neve, no entanto, a cidade é ainda mais bonita.
           

Dói e revolta

Num tempo em que se fala tanto em Direitos Humanos (assim, com maiúsculas), mesmo quando se trata de bandidos perigosos, assaltantes, pessoas capazes de atos extremos  --  como atear fogo a suas vítimas, sejam índios ou dentistas, a exemplo do que se tem visto com certa frequência  no país  --,  é revoltante saber o que se tem feito contra o cearense José Genoino a mando do presidente do STF Joaquim Barbosa. Esclareço:
 
Genoino é, pela voz unânime dos que o conhecem, um homem íntegro, com uma folha de serviços prestados ao Brasil que vão da atuação legitimada como congressista (dos mais respeitados de todos os tempos) à luta armada no Araguaia contra a ditadura, num exercício de coerência política que o notabilizou entre uns poucos brasileiros aos quais devemos tanto das nossas maiores conquistas em termos democráticos. Preso e torturado, jamais se curvou às práticas repressivas, mesmo quando teve a sua integridade ameaçada. Agora, outra vez.
 
Aos 67 anos e com um número expressivo de mandatos, como deputado federal por São Paulo, Genoino, como afirma a jornalista de direita Eliane Cantanhede, na edição de hoje, 21 de novembro de 2013, da Folha, "... nunca quis ser  --  e não é  --  um homem rico". Pelo contrário, mora em um endereço simples da periferia da capital paulista e seu patrimônio declarado (e reconhecido!) ao TSE é de pouco mais de 500 mil reais, aí contabilizado o apartamento, adquirido por financiamento, onde mora com a família.
 
O que fez, então, para estar preso e ser humilhado como tem sido? Todos sabem: Genoino assinou, como presidente do PT, um contrato de empréstimo do partido junto ao Banco Rural. Empréstimo integralmente pago, diga-se em tempo. Genoíno foi também avalista do PT quando da renovação do referido empréstimo a cada três meses.
 
Onde o crime?, haverão de perguntar os menos informados sobre a matéria. Esclareço novamente: o dinheiro era repassado para campanhas eleitorais de alguns dos  partidos da base no PT no Congresso Nacional, a fim de que assegurassem ao governo Lula a governabilidade necessária para implantar as reformas de que agora tanto nos orgulhamos, mesmo aqueles que, beneficiados com os avanços ocorridos em todos os setores, não toleram um governo popular à frente dos destinos do Brasil.
 
Errou, que não é correto comprar corruptos, mesmo quando estão em jogo, como é o caso, os interesses mais legítimos de um povo, entenda-se por povo aquilo que o substantivo é, a palavra que define os segmentos menos favorecidos de uma dada sociedade.
 
Um dos partidos beneficiados, o PP, destinava parte do dinheiro para pagar a conta dos advogados  contratados para defender deputados envolvidos com ilícitos, como Ronivon Santiago, aquele que confessou ter recebido 200 mil reais para votar a favor da reeleição de Fernando Henrique Cardoso.
 
Homem íntegro, como afirmou o colunista Marcelo Coelho, do ferrenho inimigo do PT, o matutino  Folha de São Paulo, "dói muito ver a prisão de uma pessoa com o passado de José Genoino".
 
Mais ainda, acrescento, vê-lo submetido às humilhações com que se deliciam setores reacionários do país: as algemas só aceitáveis em casos de resistência ou fuga, as viagens desnecessárias (sobremaneira para um doente grave, como ele), o espetáculo montado pela TV, o tratamento hostil dispensado aos familiares, a empáfia de um majestático Joaquim Barbosa, tomado de ira contra tudo o que possa ofuscar sua vaidade doentia. Dói muito.
 
Pelo caráter, pela coerência entre o pensar e o agir, pelo que sempre sonhou e fez pelo Brasil, pela coragem com que lutou pelos brasileiros sem liberdade, nomeadamente os mais pobres e desassistidos, José Genoino não merecia o que lhe está acontecendo. 
 
 
 
           

Recordar é viver

Ao mergulhar na xícara de chá o tradicional bolinho madeleine, antes de levá-lo à boca, recuperando o cheiro gostoso da iguaria em sua infância, na cidade de Combray, o protagonista de Em busca do tempo perdido inicia a experiência milagrosa de recuperar o passado longínquo, resgatando a sua história feita de amores, ciúmes, alegrias, sofrimentos e do prazeroso encontro com a arte, compondo, assim, a identidade do narrador adulto desse livro-monumento de Marcel Proust.

Acho que todo homem, cedo ou tarde, vive uma experiência semelhante, quase sempre quando a memória de sua vida vai se esgarçando com o passar do tempo, e suas lembranças perdendo-se entre a névoa do envelhecimento que se anuncia. É quando percebe que a vida de todos nós é feita de passado, que o que chamamos de futuro é algo improvável, que sequer sabemos se um dia vai acontecer, tornando-se uma realidade.

"Quem vive de passado é museu!" Quem nunca terá escutado o tolo chavão? E, no entanto, nem se percebe que, concluída a afirmação, isso já é passado, única possibilidade de ordem factual. Está na Fenomenologia do espírito, de Friedrich Hegel: – "O agora já deixou de sê-lo quando é nomeado, já é passado."

Desde cedo, por curioso, seduziram-me as obras que tratam da vida pretérita, biografias, autobiografias, memórias. Fascina-me o desabrochar das lembranças, o trazer à mente aquilo que se viveu, os amores, os lugares em que se esteve, os perfumes e as sonoridades, as emoções que um dia tomaram conta de nós.

Tenho o hábito de ler esses escritos. Lembro-me como foi uma experiência impactante ler o livro de Proust, ora referido. Ou Minha formação, de Joaquim Nabuco; Navegação de cabotagem, de Jorge Amado; Solo de clarineta, de Érico Veríssimo; Tempo morto e outros tempos, de Gilberto Freyre; Meu último suspiro, de Luis Buñuel; A soma dos dias, de Isabel Allende; Minha vida na arte, de Constantin Stanislávski; Confesso que vivi, de Pablo Neruda; Minha vida, de Hermann Hesse e, um livro diferente no gênero, Memórias, sonhos e reflexões, de Carl Gustav Jung, para falar dos que me ocorrem enquanto escrevo estas linhas.

Saudosista, toca-me a etimologia do verbo recordar, do latim recordari, re = novamente + cord = coração, ou seja, trazer de volta ao coração.Sou um proustiano convicto. Provocam-me sensações incomunicáveis o cheiro inesperado de um perfume, a audição de uma música antiga, o sabor de uma comida há muito tempo experimentada.

A chuva, o céu plúmbeo de um entardecer, o cheiro da terra molhada, os traços de um rosto, um simples gesto de alguém que passa, um movimento de mãos, e eis o passado de volta, fazendo-se presente, este "isto" impossível de que nos falou Jacques Derrida.
           

Mera coincidência

Convidado a participar de debate sobre Mera coincidência (1997), por um ato de correção intelectual senti-me condicionado a revê-lo. E qual não foi a minha satisfação ao perceber o quanto o belo filme de Barry Levinson guarda irretocável atualidade, quer do ponto de vista dos meios de expressão adotados pelo diretor, quer pelo que representa como uma contundente crítica às práticas inconfessáveis que imperam nas relações entre políticos e mídia, num tipo de conluio recorrente em que, desde tempos remotos, o objetivo é manipular o povo em favor de interesses não menos inconfessáveis. Explico-me.
 
O filme narra um caso fictício muito próximo do que, sabemos, é comum ocorrer não só nos Estados Unidos, país em que está ambientado o filme de Levinson, mas em quase todos os lugares do mundo: a criação de factoides com motivações políticas.
 
No caso, tudo tem início quando um presidente e candidato à reeleição americano é flagrado em prática de abuso sexual contra uma adolescente. A exatos 11 dias da eleição, o fato tem uma repercussão monstruosa e ele começa a despencar nas pesquisas, para o que sua equipe é mobilizada a fim de tentar reverter a situação.
 
É contratado, para tanto, um especialista em campanhas chamado Brean (Robert De Niro), que, por sua vez, decide contratar Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor de cinema de Hollywood, para realizar uma peça 'cinematográfica' sobre uma suposta guerra dos EUA contra a então pobre e inexpressiva Albânia.
 
O filme é produzido, a imprensa passa a explorar a guerra improvável e o presidente, amparado no apelo nacionalista que a notícia comporta, volta a liderar com margens irreversíveis as pesquisas de intenção de voto.
 
Mas, como é comum em todo ardil, a montagem do espetáculo mostra-se falha, quando a Casa Branca, ávida de resultados, põe os pés pelas mãos e divulga a retirada de suas tropas do território inimigo antes do tempo previsto por Brean (a cena em que Robert De Niro e Dustin Hoffman tomam conhecimento da ação irrefletida do governo é impagável, pelo desempenho extraordinário dos dois). Que fazer então?
 
Lança-se mão do plano B: na linha do que ocorrera a Ryan, a famosa personagem do filme de Steven Spielberg, um soldado americano teria ficado sob o controle dos albaneses, o que leva o presidente a determinar o seu resgate. Novas trapalhadas à parte, finalmente o presidente é reeleito, mas um detalhe vem se constituir num elemento dramático importante: Stanley Motss não pode usufruir do imenso prestígio conquistado junto à Casa Branca. O que lhe terá ocorrido?
 
O roteiro de Mera coincidência é, como se pode ver, curioso, intrigante, bem construído, na linha do que Barry Levinson fizera antes, nomeadamente com Rain Man, filme com que conquistou o Oscar e o Urso de Ouro do Festival de Berlim, em 1989. Mas o estilo e a originalidade com que manipula os meios de expressão é o que mais impressiona (ou me impressionou, para ser mais exato). Vejamos.
 
Mera coincidência constitui, enquanto estrutura narrativa, um exemplo clássico de metalinguagem, ou seja, sua tessitura realiza-se como num "movimento para o abismo", expressão com que André Gide definiu a sobreposição de narrativas, ou, em termos mais claros, a ocorrência de uma narrativa dentro da qual se desenvolve outra narrativa. Filme dentro do filme.
 
A narrativa de primeiro plano, cujo desenvolvimento conta a história de um escândalo e a necessidade de se criarem factoides capazes de reverter os prejuízos para o envolvido (o presidente candidato à reeleição), alicerça-se sobre a construção de uma outra narrativa: aquela que é confiada a Stanley Motss.
 
As sequências de realização do filme que induzirá ao logro, da produção do roteiro à direção da atriz durante as filmagens, são, neste sentido, emblemáticas, para não falar da presença de operadores de câmera, auxiliares de direção, iluminadores, maquiadores etc., elementos que, ainda mais, tornam explícito o discurso metalinguístico.
 
O fato de determinadas críticas serem realizadas no interior de estruturas de produção restritivas, como ocorre ao filme Mera Coincidência, leve-se em conta o fato de que existem nos Estados Unidos códigos de conduta para os diretores de cinema, por si só justificaria o meu entusiasmo com o filme.
 
Mas Barry Levinson foi muito além. Seu filme, enquanto constructo artístico, é irrepreensível. Os enquadramentos dos atores, em que sobressaem os closes reveladores do ânimo e das emoções das personagens, por exemplo, são estilizados e inovadores, mesmo para um tempo em que tudo parece já ter sido feito em termos cinematográficos. 
 
Ainda assim, é também notável a movimentação de câmera, sua angulação em cada plano, a luz, utilizada à perfeição, bem como a direção de atores são elementos estéticos que fazem de Mera coincidência uma obra de arte do cinema contemporâneo. O engodo de que são vítimas os eleitores americanos, nessa mise en abyme que é a narrativa dentro da narrativa, parece extrapolar os limites da realização fílmica  --  e servem para mostrar que somos manipuláveis também.
 
A Guerra do Golfo, a Invasão do Iraque, etc., confirmam que que a arte imita a vida? Ou, como quis Oscar Wilde, haverá de ser o contrário? É bom lembrar que o filme de Barry Levinson é anterior ao caso Mônica Lewinsky. Coisas da Arte.
 
 
 
 
           

Declarações de amor ao cinema

Semana que passou proferi palestra de inauguração do Espaço L.G. de Miranda Leão sobre o filme Cinema Paradiso, a convite do médico e intelectual Cesar Lincoln, a quem dirigimos o nosso aplauso pela forma como presta ao renomado crítico de cinema cearense esta justa e oportuna homenagem. Refiro-me, não à palestra em foco, claro, mas à construção dessa excepcional alternativa para um conhecido grupo de cinéfilos da cidade, que passa a contar com condições excepcionais para suas rodadas de filmes e debates sobre a sétima arte.
 
Falei na ocasião sobre interlocuções possíveis entre o filme de Giuseppe Tornatore e o poema A Odisseia, de Homero, valendo-me da Semiótica como perspectiva de análise dos muitos signos homéricos presentes na narrativa da comovente trajetória de Totó, o garoto que protagoniza Cinema Paradiso, nesta que me parece ser a mais bela declaração de amor ao cinema.
 
É que o filme do cineasta italiano, sugestivamente autobiográfico, para além de "citar" inúmeros filmes do cânone cinematográfico, meio de que se vale Tornatore para louvar alguns dos maiores mitos do cinema mundial (atores inesquecíveis como Chaplin, John Wayne, Jean Gabin, Bardot etc.), intertextualiza elementos dramáticos das desventuras de Ulisses no clássico grego, que, sabemos, constitui uma das mais prodigiosas metáforas do autoconhecimento, da descoberta interior do homem em sua longa e perversa jornada de volta para casa.
 
Hoje, dentro de uma programação que resulta de uma criteriosa e refinada escolha de títulos do 'grande cinema', o Espaço L.G. de Miranda Leão exibe o não menos metalinguístico (e perfeito do ponto de vista narrativo) Splendor, de Ettore Scola.
 
O filme, curiosamente, é de 1989, o mesmo ano de Cinema Paradiso, com o qual concorreu em inúmeros festivais, inclusive para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Perdeu, que, embora se trate de uma realização maravilhosa, quer na perspectiva do plano de expressão quer na perspectiva do conteúdo, Cinema Paradiso é mesmo, no gênero do metacinema, como se classificam os filmes sobre cinema, uma obra-prima incomparável.
 
Pois bem, Splendor narra a trajetória da sala de projeção de mesmo nome, cujas dificuldades operacionais, decorrentes do surgimento da TV como uma concorrente de apelo popular inquestionável, levam o seu proprietário, Jordan, esplendidamente interpretado por Marcello Mastroianni, a fechar suas portas.
 
Na linha do que ocorre ao Cinema Paradiso, também no filme de Ettore Scola vamos deparar com um tratamento de linguagem refinado e sensível, um desempenho de atores (Massimo Troisi está sublime no papel do projecionista e amigo de Jordan), na textura e paleta de cores, que por vezes dá espaço a um preto e branco coberto de poesia, bem como numa movimentação e câmera e requinte de enquadramento e composição de imagens de tirar o fôlego. Há quem o prefira a Cinema Paradiso, como Wilson Baltazar, uma das nossas autoridades quando o assunto é cinema.
 
A última sequência de Splendor, quando Jordan assiste à desmontagem do auditório por tantos anos lotado, e agora "vencido" pela ganância do capital (o empresário Lo Fazio, interpretado por Giacomo Piperno, pretende transformá-lo numa indústria de móveis) é um instante divino, pela sensibilidade e força lírica com que Ettore Scola transpõe para a tela o seu amor pela Arte. Coincidências à parte, são ambos imperdíveis! 
           

O irmão dos amantes

 Amo-te tanto, meu amor... não cante /  O humano coração com mais verdade... /  Amo-te como amigo e como amante /  Numa sempre diversa realidade. // Amo-te afim, de um calmo amor prestante /  E te amo além, presente na saudade /  Amo-te, enfim, com grande liberdade /  Dentro da eternidade e a cada instante. // Amo-te como um bicho, simplesmente /  De um amor sem mistério e sem virtude /  Com um desejo maciço e permanente. // E de te amar assim, muito e amiúde /  É que um dia em teu corpo de repente /  Hei de morrer de amar mais do que pude.
 
O poema acima, todos sabem, é de Vinicius de Moraes, que sábado, 19, faria 100 anos. Problemas da computação, e o texto que escrevera sobre a efeméride não foi publicado neste espaço, pelo que me desculpo. Dizia, pouco mais pouco menos, o que repito agora: - Trata-se do mais injustiçado dos grandes poetas brasileiros, uma vez que a crítica literária, como toda crítica, com raríssimas exceções, mora a meio caminho entre a obtusidade e o preconceito sem nome. Para não falar dos interesses inconfessáveis, claro.
 
Explico-me: parte expressiva dos críticos de literatura do país jamais aceitou, mesmo a muito esforço, que Vinicius de Moraes tenha rompido as fronteiras conservadoras da chamada grande literatura para conquistar as ruas. E, o que talvez pese mais às mentes empedernidas de alguns dos nossos mais renomados estetas, o fato de ter subido aos palcos dos principais teatros e casas de show do Brasil e do mundo, copo de uísque à mão, para "cantar", literalmente, uma das porções mais felizes do cancioneiro brasileiro.
 
Agora, decorrido tanto tempo desde a morte do "poetinha", como era carinhosamente tratado pelos que lhe usufruíram a intimidade, Vinicius de Moraes volta a ter a sua obra examinada por críticos de diferentes extrações, muitos deles, finalmente e de modo pouco sincero, curvados à importância de sua produção como poeta, cronista, teatrólogo e, pasmem, originalíssimo crítico de cinema só conhecido de uma meia dúzia de gatos pintados da cinefilia brasileira. Pena não haver espaço para deitar comentários sobre algumas das mais iluminadas páginas de análise fílmica já produzidas entre nós. Farei isso depois.
 
Pois bem, dizia eu da assinatura autoral de Soneto do amor total, um dos mais perfeitos da lavra desse carioca fenomenal, cujo significado no conjunto da literatura modernista brasileira ainda está por ser estudado com o devido esmero.
 
Muito já se terá escrito sobre as excentricidades do aedo, nada ou muito pouco, no entanto, sobre a qualidade estilística de sua vasta obra, algo que resulte, de fato, da atenção e do rigor analíticos que está a pedir desde a segunda fase de sua produção, quando as inquietações da juventude e o senso incontido do seu erotismo, aliados à dúvida religiosa, levaram-no a escrever poemas pouco exigentes do ponto de vista formal. Daí então, o que se viu foi uma literatura elevada à grandeza de uns poucos em língua portuguesa, em que sobressaem o olhar arguto, a sensibilidade refinada e o trato competente dos mecanismos internos do fazer poético.
 
Enquanto isso, num país em que proliferam os versejadores de botequim, os pretensos transgressores dos meios de expressão acusados de "clássicos", no sentido depreciativo da criação artística, voltemos a ler Vinicius de Moraes, este sedutor de tantos e tantos corações de que se têm valido conquistadores do Brasil  --  e do mundo. Saravá, Vina, irmão de todos os amantes! 
 
 

Enamorando-se

Acometido de um tipo de onipotência maniforme, já observada em situações as mais diversas desde o início do seu governo, e não se contentando com as superproduções até aqui levadas a efeito, já concluídas, como é o caso do Centro de Eventos, ou em andamento, a exemplo do famigerado aquário, o governador do Ceará entrega-se, agora, a um novo devaneio: a construção de um mirante nas imediações do Cocó.
 
Frescuras à parte, seria apenas ridículo não fosse criminosa tanta vaidade, o devaneio vem à tona na mesma semana em que, não se contentando com os assaltos pontuais, que de resto fazem parte da nossa rotina, os bandidos promovem uma verdadeira varredura em inúmeras ruas de Fortaleza, bairros Varjota e Papicu à frente.
 
O tal mirante, de cujo topo se poderá ver a cidade sitiada a partir de um luxuoso restaurante, em que, por certo, será servido o mais fino escargot, terá a seus pés o pink predominante da iluminação já projetada para o viaduto da Washington Soares, conforme divulgou o próprio governador. Que coisa brega!
 
No que tange ao aquário, não à toa, pois, é que se comenta aos quatro cantos o incontido entusiasmo do governador ao ouvir, ao vivo e em cores, o cantor Fagner dirigir-lhe um mimo enquanto interpretava, em show recente, a conhecida canção: - "Quem me dera ser um peixe, para mergulhar no teu aquário, fazer loucuras de amor à luz da lua, passar a noite em claro."
 
Quanto ao mirante, a propósito, é do jovem colunista Henrique Araújo, de O Povo, nesta quinta 10, a mais sublime página até aqui escrita, por cujos méritos sinto-me induzido a reproduzir neste espaço trechos imperdíveis. Vejamos:
 
"Para que serve um mirante? Para alçar a vista e alcançar lonjuras? Ver a cidade à horizontal, espinhela derreada? Um tapete que alguém estendeu sem se preocupar com as dobras? Patamar sobrelevado donde se enxergam as dunas, mares, verdes, um mirante serve mais ao deleite ou ao orgulho? [...] Um mirante como hipnose social? Um mirante como cinema das moléstias urbanas?  Um mirante como projetor ad nauseam de macaquices?"
 
"[...] Como enamorar-se de prédios que copiam o desenho de caravelas, símbolo de perigo e aventura, quando tudo em derredor aponta para o inverso: segurança, medo e fortaleza? Como enamorar-se de uma ponte que pisca a intervalos mecânicos, definidos segundo uma lógica para qual o deslocamento de veículos importa mais que o bem-estar dos nativos?
 
Mire e veja: quem realmente precisa alterar-se para enxergar o que parece claro? A cidade necessita de gente ao rés do chão. Nem acima, nem abaixo. No mesmo patamar. Sem se mirar, que ninguém é alvo. Enamorando-se."
 
 
 
 
 
 

O adeus de um ícone

Morreu na terça-feira, 1 de outubro, Giuliano Gemma, aos 75 anos. Não figurava entre os atores de maior prestígio, embora tenha atuado, de forma convincente, em mais de 100 filmes, não raro contracenando com nomes respeitados do melhor cinema, Burt Lancaster, Kirk Douglas, Henry Fonda, Catherine Deneuve e a extraordinária Liv Ullman, por exemplo. Sem esquecer, claro, musas adoradas, como Rita Hayworth. Por último, além das séries para a tevê italiana, fez uma ponta em Para Roma com amor, de Woody Allen.
 
Foi, num tempo que já vai longe, o meu ídolo no western, ou mais precisamente no primo pobre das grandes produções americanas conhecido como western spaghetti, em cujo gênero fez sua primeira aparição em meados dos anos 60. Antes, compusera o elenco de clássicos, na linha de produções monumentalistas, como Ben-Hur (1959), de William Wyler, e esteticamente irrepreensíveis, como O Leopardo (1962), de Luchino Visconti.
 
Confesso que senti a sua morte com o coração de um menino, numa experiência de temporalidade que me levou, tão logo li a notícia, à década de 70, quando, na companhia de papai ou do meu irmão Emídio, muitas vezes de ambos, vivi as primeiras grandes emoções advindas do sortilégio do cinema, na minha Iguatu querida. Como que num passe de mágica, ocorreu-me lembrar de alguns desses filmes inesquecíveis, realizados à base de convenções estéticas a um tempo simples e sedutoras. Filmes marcantes do spaghetti italiano, a exemplo de Uma pistola para Ringo ou O dólar furado, os dois de 1965.
 
Ato contínuo, foi inevitável dirigir-me à estante para ter nas mãos, e revê-lo tantos anos depois, o DVD de uma dessas produções dialeticamente infantis e irresistíveis, marcadas pelo exagero dos artifícios e pela singeleza das soluções formais, O dia da ira, não conhecido quanto os da série "Ringo...", mas um daqueles de que mais gosto, desde a nostálgica tarde de domingo em que o assisti pela primeira vez, numa sessão vesperal do velho Cine Alvorada. 
 
O roteiro, como é próprio do gênero, é simples, linear, sem complicações dramáticas, bem ao gosto do imaginário popular: Scott (Gemma) é um desafortunado rapaz a quem cabe limpar as ruas da cidade de Clifton, no Arizona. A pobreza material de Scott, a inexistência de raízes familiares minimamente capazes de lhe dar um sobrenome, condiciona-o a submeter-se à humilhação e aos maus-tratos de todos na pequena cidade. Até que conhece o temido Frank Talby (Lee van Cleef), de quem recebe as sete lições da pistolagem, uma delas, mais tarde usada contra seu preceptor, numa sequência marcante do filme: "Quando atirar num homem, mate-o. Do contrário ele um dia vai matá-lo!"
 
O final foge à lógica do estilo, posto que Scott joga fora a arma com que enfrentara o perigoso Talby e, de mãos dadas com o cego Bill, cruza a rua deserta de Clifton, numa sugestão de que, também no subgênero do verdadeiro western americano, é possível ter um bom coração. Giuliano Gemma, que vencera a tantos e imponderáveis duelos, no cinema, não sobreviveu ao desastre de automóvel que o levou de nós nesse início de semana, em Roma. Ficam, para seus admiradores, as recordações de um estilo inconfundível, do sorriso de dentes perfeitos  --  e do seu incomparável glamour.
 
 
 
            
           

Do amor...

Leitora, fiel ao blog, pelo que posso ver, reclama pela ausência dos textos "Do amor...", como diz, reportando-se às crônicas reunidas em livro tempos atrás. Confesso que o seu e-mail deixa-me, em princípio, um tanto saudoso de mim mesmo. Sem a inspiração daqueles momentos, quando o coração, por uma e outra razão, cobrava o remoer do tema, deixo o computador por instantes e dirijo-me à TV em que revejo, saudoso, um dos filmes românticos de que mais gosto: Rainha Christina (1933), de Rouben Mamoulian.
 
Filmaço, desses para se ver e rever muitas vezes. Trata-se de um romance com todos os traços estéticos do gênero  --  ênfase nas emoções das personagens, seus dramas mais íntimos, normalmente relacionados à paixão e sofrimentos advindos dela, amores não correspondidos, enfim, filmes pejorativamente rotulados como "filmes de mulher" (adjetivação politicamente incorreta, claro) mas nunca um 'melodrama xaroposo' e desprovido de densidade dramática. Antes pelo contrário: Mamoulian explora um tema histórico caro ao povo sueco do século XVII, quando a rainha que dá nome ao filme, filha de Gustav Adolph, abdica do trono e decide dar outro rumo à vida. 
 
Antes disso, Christina, interpretada com brilhantismo por Greta Garbo, conhece Antônio, embaixador espanhol, vivido na telona por John Gilbert, e passa a dedicar-lhe um sentimento a um tempo racional e insano, que me perdoem o que há de paradoxal na afirmação. O amor é assim.
 
É que, ainda escondendo-se sob o disfarce, a uma dado altura da história, Christina é condicionada a dividir com Antônio um quarto na única estalagem disponível durante uma noite fria a meio caminho de casa. O que resulta disso, não é necessário dizer.
 
Sobre a cena do amanhecer, no filme, quando Christina, enquanto afaga a parede do quarto, responde a Antônio, que lhe pergunta o que ela "está fazendo", escrevi em coluna antiga. Relembro o que ela diz: - "Estou querendo guardar os detalhes deste ambiente em que nos amamos!" Revi o filme e retornei ao computador, agora contagiado da bela emoção. Afinal, quem de nós, algum dia, não quis "guardar com detalhes o ambiente em que nos amamos", como faz Christina?
 
Por trás de situações cômicas, tensas, surpreendentes, num cenário que reedita a história de uma Europa distante, o que o filme de Rouben Mamoulian traz com uma força poucas vezes alcançada no cinema, é o velho e remoído tema do amor, suas dicotomias, em caso algum superadas: alegria/tristeza, contentamento/dor, realização/frustração etc., mas o faz com uma poesia e uma delicadeza que nos enchem a alma, que nos arrebatam do começo ao fim da película.
 
A cena final, a que já me referi antes, se não me engano, quando Christina alforria o olhar para o sem-fim do oceano (ela se acha no convés de um navio), é de tirar o folego, tragando o espectador com o toque sutil da câmera de Mamoulian, com o requinte da encenação, com a música e a beleza rara da imagem em preto e branco. O olhar perdido de Garbo, dilacerada de dor, pouco depois de se despedir do corpo de Antônio, havia pouco assassinado, reedita a Gioconda de Da Vinci. O amor. 
 
 
 
 
 
 
  

Oposição cretina

"O Brasil é um país estratégico, porque não obedece às diretrizes emanadas do Pentágono e do Departamento de Estado [Americano]".
 
 A afirmação é do historiador Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, 76, um dos mais respeitados intelectuais especializados em relações internacionais envolvendo o Brasil e os Estados Unidos, para quem a decisão da presidente Dilma Rousseff, ao cancelar a sua visita aos EUA, reflete a firmeza e a independência próprias de uma grande estadista. Moniz, que atualmente reside na Alemanha, vai mais longe e tece elogios à posição brasileira frente às questões políticas do governo americano no que tange às ameaças de invasão à Síria, na linha do que fez ao impor sanções e isolar a Líbia e o Irã.
 
Palavras que, para qualquer brasileiro digno e bem intencionado, deveriam encher de orgulho nossos corações, como essas, infelizmente vão de encontro ao oportunismo dos partidos de oposição ao governo da presidente Dilma, reeditando, além da falta de correção moral, o velho complexo brasileiro de vira-lata, de que nos falava Nelson Rodrigues.
 
É ler os principais jornais dos dois últimos dias e deparar com declarações, revestidas de interesses inconfessáveis, sabemos, do pretenso candidato a presidente Aécio Neves, e concluir: o Brasil com que sonham os tucanos e seus aliados é o Brasil subserviente, de cócoras, o Brasil como quintal produtivo dos Estados Unidos. Quanta canalhice! Ou alguém pode acreditar que, fosse contrária a decisão tomada, tivesse confirmado a presidente sua visita oficial aos Estados Unidos, seria Dilma Rousseff elogiada por Aécio Neves? O cinismo, como se vê, parece não ter limite no ninho tucano.
 
Retomando as declarações do renomado historiador, todavia, é importante ressaltar a advertência que faz em torno da guinada estratégica do governo Obama para uma posição que já se pode considerar muito próxima da posição de George W. Bush no que diz respeito ao Brasil e outras potências emergentes, o que põe em risco, na parte que cabe aos interesses brasileiros, a escolha de tecnologias de exploração do pré-sal, segundo Moniz, o principal alvo americano na atualidade. Daí as razões da espionagem da Petrobrás pela Casa Branca. Sobre isso, são de Moniz as palavras: - "A espionagem envolve todas as áreas, sobretudo a do petróleo. Aos EUA interessa saber todas as informações possíveis sobre as reservas [do Brasil]."
 
Por último, no que já confirma alguma desconfiança entre os seus admiradores (entre os quais me coloco), vem a afirmação de que o presidente Obama cada vez mais distancia-se do discurso de campanha e dá à política internacional ianque (por extensão de sentido) um perfil de extrema-direita, que me desculpem o anacronismo do rótulo: - "Obama podia renovar a política internacional e aliviar tensões. Porém, ele revelou-se mais fraco e mais sem caráter do que se poderia imaginar." (sic)
 
Mas, vergonhosamente, existem no Brasil os saudosistas que estão gostando. O candidato Aécio Neves, por exemplo. Trata-se de uma oposição.
 
 
 
 
 
 
 

Coisas do Tio Sam

Li esta semana Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, de Edward W. Said. Não se trata de uma obra recente (sua primeira edição é de 1978), tampouco de um livro da moda, desses que ocupam lugar de destaque nas gôndolas das livrarias. Pelo contrário, encontrei-o na garimpagem diária numa loja da cidade, em edição barata da Companhia das Letras. Sabia, contudo, tratar-se de um clássico dos estudos culturais, a que, ainda, não tivera acesso, que são muitos os livros que temos a pretensão de ler, cedo ou tarde. Foi bastante, todavia, folheá-lo, para ser tragado por suas páginas extraordinárias sobre a construção de um discurso norte-americano e dos países da Europa acerca das civilizações a leste de suas fronteiras.
 
Vazado numa linguagem elegante e leve, o livro de Said percorre uma longa trajetória, do século XVIII aos nossos dias, através da qual os países ricos impuseram ao mundo uma imagem negativa dos povos do Oriente, fixando, mais que um rótulo geográfico, uma interpretação perversa do que lhes parece apenas exótico e inferior. Nesse aspecto, pois, notadamente no que se refere aos Estados Unidos, o livro reatualiza-se, facilitando a perfeita compreensão dos interesses criminosos que estão por trás das relações internacionais da superpotência, a exemplo do que vem fazendo com o Brasil em práticas de espionagem só recentemente confirmadas.
 
Said observa, a dada altura, como se dá a construção desse discurso criminoso contra países atrasados e pobres, para o que tem sido decisiva a participação de uma imprense 'combativa' e rasteira em sua análise das questões políticas ligadas a temas como o terrorismo, o fundamentalismo islâmico e a falta de liberdade em diferentes nações. Chama a atenção, ainda, para a farta literatura de confiabilidade duvidosa a que tem acesso o grande público norte-americano, seduzido pela engenhosidade com que se tecem os textos e as mais variadas formas de representação do "outro" naquele país. Para ele, elimina-se o passado histórico, a memória desses povos, num tipo de confirmação da conhecida máxima inglesa "you're history", ou seja, "você já era".
 
Orientalismo: o Oriente como uma invenção do Ocidente, quero evidenciar, agrada ainda mais por sustentar-se numa crítica humanista orgânica, ou seja, por defender com profundidade e correção intelectual a ideia de que este é o caminho possível como estratégia de resistência contra os crimes historicamente cometidos pelos Estados Unidos contra os mais diferentes povos. O nosso, inclusive.
 
Por coincidência, recebendo-o com presente do amigo Cesar Lincoln, pude assistir agora ao belíssimo documentário O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares, sobre a participação 'intelectual' dos Estados Unidos no Golpe de Estado no Brasil em 1964. É incontornável o trabalho enquanto documento e prova irrefutável do envolvimento dos militares brasileiros com os presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson nas ações que culminariam com a deposição de João Goulart. Coisas do Tio Sam.
 
 
 
           

Ajudar a 'olhar'

O escritor Eduardo Galeano tem um pequeno texto de que gosto muito. Intitula-se A função da arte e encontra-se n'O livro dos abraços. Diz mais ou menos assim, que vou citá-lo de cor:
 
"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
-- Pai, me ajuda a olhar!"
 
Lembro disso a propósito de uma pergunta que me fez outro dia um aluno: -- "É possível ensinar alguém a gostar da arte?", indagou-me, à hora do intervalo, uma certa manhã. Entre embaraçado e contente com a sua curiosidade, lancei mão da historinha do cronista uruguaio a fim de tentar responder o irrespondível: o desafio está em ajudar alguém a olhar a arte e descobrir o quanto existe de beleza nela. Falo da arte, como um todo, independentemente de se tratar das artes visuais (pintura, escultura, arquitetura), de uma música, de um espetáculo de teatro, enfim. Do cinema, por exemplo, razão por que tenho me empenhado em escrever tanto sobre filmes, aqui, neste espaço.
 
Digo isso e me ocorre lembrar de um irmão querido por cujas mãos (ou olhos) fui aprendendo a olhar o cinema de maneira diferente, mais atenta e mais sensível. Tinha por volta dos 12, 13 anos, não muito mais, ou menos. Emídio, é como se chama o irmão, sempre solícito às minhas perguntas tantas, com a paciência e o coração enorme que é mesmo a marca da sua índole, fazia-me ver cada detalhe de um filme, o enquadramento da cena, a expressividade da luz, a forma como a câmera optava pela escala de um plano... a beleza, enfim, do cinema. Vira e mexe, revendo um clássico do western, gênero que nos encantava à época (e me fascina, ainda), sinto saudade do mano Emídio com uma pitada de gratidão cinéfila, que me perdoem o mal jeito da expressão.
 
Nesses últimos meses, entre um Bergman e um Fellini antigo, tenho me dado ao prazer de rever os faroestes de minha predileção, John Ford à frente, de quem vi, ontem, por exemplo, O homem que matou o facínora, filme de encher os olhos, uma aula  --  mesmo!  -- de cinema. Sem contar com a irresistível Vera Miles, no elenco.
 
James Stewart, o ator preferido de Hitchcock, interpreta um advogado "frouxo" e oportunista a quem, equivocadamente, é atribuído o feito heroico de ter matado um fora da lei perigoso e temido, Liberty Valance (Lee Marvin) pelo que é aclamado e, em recompensa, eleito político de sucesso. No final, num lance de roteiro que a sensibilidade fílmica do meu irmão antevira, sabe-se que o tiro fatal partira mesmo da personagem de John Wayne, o verdadeiro herói, que, ironicamente, morre pobre e bêbado. A arte imitando a vida!
 
Se é verdade que interpretar a arte e desvendar os seus intrincados mistérios pode reduzi-la a um conceito, um tipo de simplificação que não se aconselha, não é menos verdade que se pode ajudar alguém a olhá-la, a penetrar nos espaços sombrios da sua tessitura, a vivê-la,  um tanto mudo de beleza, como o menino de Galeano  --  com o mar na frente de seus olhos.
 
 
           

O amor de Lota e Bishop

No teu cabelo negro brilham estrelas/cadentes, arredias./Para onde irão elas/tão cedo resolutas?/ -- vem, deixa eu lavá-lo,  aqui nesta bacia/amassada e brilhante como a lua.
                                                  (Bishop, para Lota, em Banho de Xampu)
 

Tecnicamente perfeito, Flores Raras, o filme de Bruno Barreto em exibição nos principais cinemas da cidade, é a grande novidade cinematográfica do ano. Ambientado no Rio de Janeiro a partir de inícios dos anos 50, narra o avassalador romance entre a arquiteta Maria Carlota Costellat Macedo Soares e a poeta americana Elizabeth Bishop, um protótipo de relação homoafetiva que duraria algo em torno de 20 anos e teria um desfecho trágico em 1967, com o suicídio de Lota, como era conhecida a artista brasileira, em Nova York.
 
Dito assim, todavia, o resumo acima não é bastante para dar uma ideia de como Barreto encontrou caminhos para ir além do que poderia ser apenas mais um filme bem feito sobre relacionamentos homossexuais. É preciso lançar o olhar para o fato de que Flores Raras vai muito além disso: realizado a partir de um roteiro extremamente bem construído, uma direção de atores que beira o sublime e uma fotografia de tirar o folego, para o que é decisiva a beleza natural de Petrópolis, onde se localiza o sítio Santarém, onde o casal passa a viver desde a chegada de Bishop ao Brasil, o filme de Bruno Barreto resgata uma história de amor que envolve duas mulheres extremamente talentosas. Mas o faz com um rigor de pesquisa que torna o filme um documento importante sobre a história do país entre os anos 50-60, momento em que, entre outros acontecimentos marcantes, sobressai o golpe militar de 1964. A cena em que Bishop, enquanto ouve a notícia pelo rádio, acompanha através da janela rapazes, indiferentes, jogando uma pelada nas areias de Copacabana, exemplifica bem a sensibilidade com que Barreto acrescenta a Flores Raras um tempero político: "Que país é este em que um presidente eleito pelo povo é deposto e os homens se divertem na praia?" (cito de memória), pergunta a personagem a uma dada altura do filme.
 
O comentário de Elizabeth Bishop sobre a indiferença dos brasileiros frente às questões políticas do país, felizmente postas por terra com as manifestações de rua no mês passado, serve, contudo, para evidenciar o olhar arrogante da escritora acerca das nossas muitas mazelas. Para ela, como é possível conferir na bela apresentação que Paulo Henriques Britto faz para Os poemas escolhidos de Elizabeth Bishop, editado pela Companhia das Letras, "como país o Brasil não tem saída  --  não é trágico como o México, não, mas apenas letárgico, egoísta, meio complacente, meio maluco". Verdade à parte, o que não atenua a indelicadeza de quem foi recebida com todas as honras pelo brasileiros, sabe-se que Bishop não poupava palavras em seu desânimo contra o Brasil, notadamente o Rio de Janeiro, sobre cuja cidade fez ainda uma declaração impiedosa: "Todas as multidões, ônibus, bondes, lojas, cozinhas são tão sujos, escuros, sebosos!". Ou sobre a vida cultural dos brasileiros: "Os prazeres intelectuais são poucos e pouco sérios, de modo geral!". Alguma admiração da poeta acerca do Brasil, se há, vem sempre embalada por uma surpresa em face do exotismo do país. É assim que reage, também, quando é hora de se referir, como um profeta, aos nossos homens de letras (e um político notável), como Carlos Lacerda, grande amigo de Lota: "... honesto, sim, mas ele tem um ego grande demais e provavelmente vai acabar como um político cínico dentro de dez anos". A história viria a confirmar.
 
Bruno Barreto, embora explorando com sutileza o espírito cáustico de Bishop, de quem omitiu em grande parte a mordacidade das críticas dirigidas aos brasileiros, construiu a personagem com notável rigor, emprestando-lhe, a exemplo do que fez com o perfil psicológico de Lota (irrepreensivelmente interpretada por Glória Pires) uma densidade que torna o filme exemplar do ponto de vista dramático. Ao que se soma, como dissemos, uma composição de quadro irretocável, em que a textura da imagem e os efeitos de luz (o colorido é sedutor) fazem sobressair uma direção de arte digna de nota. Vale conferir.
 
 
            
            
           

O cinema em crise

Vira e mexe leitores do blog implicam com o fato de escrever tanto sobre filmes antigos, e não "novos", como gostariam. Decido, hoje, justificar o que esperava fosse desnecessário: Não se fazem filmes como os de antigamente. Ou muito pouco. Refiro-me, para ser mais claro, à produção dos anos 30, 40, 50 e, vá lá, 60,  até onde termina a fase áurea do cinema francês, a Nouvelle Vague, sobretudo, com a presença incontornável de François Truffaut. Sem esquecer, óbvio, um certo Godard, Eric Rohmer e Claude Chabrol. Depois desses, é Claude Lelouch quem me encanta, nomeadamente o cineasta de primeira hora. Gente da estirpe de Bergman, Rossellini, Kurosawa...
 
Por oportuno, vindo das mãos de L. G. de Miranda Leão, meu mestre e amigo querido, li outra dia um belo comentário de André Barcinski sobre o assunto. O conhecido crítico chama a atenção para o que pode explicar a pobreza do cinema de hoje, esses que lotam as salas mundo afora: "Filmes eram feitos para cinema. Ninguém achava que o filme seria visto e depois revisto em VHS, laser-disc, DVD, Blu-Ray, TV a cabo, internet etc." Está certo.
 
Nada contra o acesso fácil e barato aos filmes, diga-se em tempo. Ninguém mais que eu haverá de rever com tanto entusiasmo os clássicos de todo gênero do velho cinema. Mas a ampliação do mercado, claro, com os meios de reprodutibilidade técnica a que se referiu Walter Benjamin em ensaio obrigatório, se por um lado socializou o acesso às grandes obras, por outro, como advertiu Adorno, ensejou o fortalecimento da Indústria Cultural.
 
Dos anos 70 à atualidade, passou-se a fazer cinema com os olhos na bilheteria, como informalmente já ocorria com parte da produção cinematográfica do passado, Hollywood à frente. A partir daí, tornou-se comum a realização de pesquisas a fim de saber o que o público gostaria de ver, do que resultou a produção de filmes de categoria inferior do ponto de vista estético. Como lembra Barcinski, "o cinema virou um grande saguão de aeroporto, igual em toda parte."
 
Em atenção ao protesto dos leitores, todavia, devo evidenciar que vejo e revejo os bons filmes do que se pode considerar o cinema "moderno". Nesse sentido, embarco com o que afirmou certa vez um importante crítico americano morto ano passado: "O que há é filme bom e filme ruim." Bate. O resto passa a ser secundário.
 
Essa semana, a propósito, revi Blade Runner (O caçador de androides), o filmaço dirigido por Ridley Scott, com Harrison Ford no papel principal. Trata-se de uma parábola de ficção científica levada a efeito com um rigor estético e um poder de imaginação dignos de nota: a história de seres sobre-humanos criados pela engenharia genética que se voltam contra seus criadores e ameaçam a população de uma grande cidade americana. Algo muito próximo do que se pode ver como uma metáfora maravilhosa sobre o destino dos homens na era pós-moderna, um mundo fragmentado e descontínuo que não sabemos aonde chegará. Como se vê, mesmo em se tratando do dito cinema comercial, é possível fazer coisas boas. Em termos cinematográficos, aqui está um exemplo.
 
 
 
 
 
 

O Ceará no circuito do grande cinema

Maior fenômeno de bilheteria da atualidade (22 mil pessoas em três dias de exibição), Cine Holliúdy, do cearense Halder Gomes, será submetido a um público tradicionalmente mais exigente a partir da próxima semana, nomeadamente o eixo Rio-São Paulo, para quem o misto de artes marciais e comédia regional certamente constituirá um prato cheio para o exercício do preconceito histórico contra o Nordeste. É que o filme, construído num discurso meta-cinemático que lembra de perto o Tornatore, de Cinema Paradiso, para não falar do Ettore Scola, de Nós nos amávamos tanto, notabiliza-se pelo registro hilário do falar de um segmento da população cearense, tomando a parte pelo todo, num tipo de escracho que desliza entre o engraçado e o humilhante.
 
Não que Cine Holliúdy não tenha qualidade enquanto artefato fílmico. Antes pelo contrário, vê-se por trás da câmera um diretor de talento e domínio absoluto da linguagem cinematográfica, de cuja sensibilidade e rigor estético resultam estratégias narrativas extremamente bem-sucedidas, em que pesem as limitações de produção que saltam aos olhos mesmo dos espectadores menos atentos. Nesse prisma, pois, é que o filme de Halder Gomes poderá surpreender Brasil afora, reeditando o sucesso nos cinemas do Ceará e, o que é provável, nos demais estados da região.
 
O filme é uma versão estendida de Cine Holliúdy - O Artista Contra o Cabra do Mal, o premiadíssimo curta-metragem com que Halder Gomes venceu o Edital no Ministério da Cultura de Curtas-Metragens em 2004. Narra as peripécias de Francisgleydsson (Edmilson Filho), o dono de um pequeno cinema que vive o drama de concorrer com a televisão em meio a um cenário de pobreza e nível de educação baixíssimo. Esta a razão por que Halder Gomes, como roteirista, pega pesado na retratação do povo cearense, indo além do que, rigorosamente, corresponde à realidade. Nesse sentido, cria situações que parecem contrafeitas, na intenção de explorar o palavroso como elemento de sustentação do filme, no que, aliás, obtém bom resultado, notadamente para um público, como o nosso, afeito ao humorismo escrachado bem ao estilo de Falcão, por sinal um dos nomes "de peso" do elenco.
 
Sob este aspecto, no entanto, é mesmo o ator Edmilson Filho, o dono do cinema, quem rouba a cena do começo ao fim de Cine Holliúdy, sobremaneira na última sequência, quando, diante da impossibilidade de continuar a projeção (o projetor apresenta defeito), resolve entreter o público contando o filme de lutas marciais em que ele próprio interpreta os lutadores. É, de fato, um momento sublime, desses capazes de, por si só, justificar o sucesso de um filme. 
 
No mais, Cine Holliúdy não corresponde, em tudo, ao que já se conhece do seu diretor. A utilização de legendas em português, a propósito, um artifício capaz de criar um certo estranhamento, seria desnecessária, não fosse a qualidade sonora do filme extremamente ruim, sobretudo no que diz respeito ao som diegético, aquele que faz parte da ficção, a história propriamente dita do filme, ruídos e falas das personagens, por exemplo. Isto porque o texto que aparece no quadro é quase rigorosamente o mesmo da fala dos atores. Com tudo isso, no entanto, o filme de Halder Gomes haverá de colocar o Ceará no circuito do grande cinema nacional. O que não é pouco, diga-se em tempo.
 
 
 
 

Obrigado, Mestre!

Do amigo (quase irmão) Régis Tadeu, vem, por telefone, o convite-intimação: "Não vem para os 90 anos de papai, meu irmão?!" Referia-se, claro, a Raimundo Felipe, este homem admirável a quem tantos de nós devemos muito, professores, advogados, médicos, engenheiros, dentistas, e incontáveis outros profissionais saídos, em diferentes épocas, dos bancos do Colégio Adail Barreto, a cuja instituição o "eternamente jovem" educador dedicou sua vida, acolhendo a todos muito mais que a alunos, mas como a amigos, tão íntimos, muitos deles, que passaram a fazer parte de sua família, num tipo de agregação para a qual não se pode dar, com exatidão, um nome. Este é o meu caso.
 
Tenho por Raimundo Felipe --  e Teonila, essa sua companheira não menos notável  --  um sentimento que se coloca para além do rotulável, pela dimensão do que é, a um só tempo, admiração e carinho, gratidão e reconhecimento, amizade e estima como só a muito poucos pude dedicar com tal força e intensidade. Raimundo Felipe é mesmo um ser especial, dotado de um carisma e uma simpatia incomuns, algo que se derrama  --  invariável e tão naturalmente  --  do alto de sua estatura, em forma de afetuosidade e acolhimento, como raramente se pôde ver, neste e em tempos outros.
 
Não é, tenho certeza, outra a razão por que seus filhos, Tadeu, Ana, Miguel, Tereza, Rejane, Dione e Júnior, assim, pela ordem, constituem, cada um a seu jeito, verdadeiras unanimidades entre os que, como eu, de perto, tiveram o privilégio de conhecê-los e dividir com eles a alegria das boas convivências. É que, já não vivessem, quase, dentro dos espaços físicos de um colégio, cresceram sob a luz dos bons educadores que sempre foram os seus pais, aos quais, insisto, quase uma cidade inteira está a dever tanto. Dívida que não se paga, é evidente, se não com a mais manifesta gratidão. Como o faço, agora.
 
Quinta-feira, sabe-se, foi a data exata do aniversário de Raimundo Felipe. Hoje se comemora, numa festa como só essa gente querida sabe fazer, os 90 anos desse exemplo de homem, amigo e pai, de quem, os próximos ou os distantes, devemos nos orgulhar muito. É bastante, para isso, tê-lo conhecido, apertado a sua mão forte e acolhedora, ter sido, por um instante que seja, alvo do brilho invulgar que vem dos seus olhos generosos quando sorri. Sempre!
 
Parabéns, amigo! E obrigado, mestre!
 
 
 
 
 
 
 

Um dia atrás do outro

Na contramão do que insiste em afirmar a grande imprensa, num tipo de jornalismo que a um tempo desinforma e revela desfaçatez, são divulgados os números do novo IDHM, mecanismo que mede o desenvolvimento das cidades em termos de renda, escolaridade e expectativa de vida da população. O resultado é animador e faz justiça ao projeto de governo do Partido dos Trabalhadores, tão atacado por setores da sociedade, ávidos por desestabilizar a presidente Dilma Rousseff e impedir, a qualquer custo, sua reeleição no ano que vem. Vejamos.
 
Em 20 anos, dez dos quais sob a tutela do PT, os desníveis entre o índice de desenvolvimento humano mais alto e o mais baixo caiu de 0,577 para 0,444. A qualidade de vida, que em 1991 apontava uma situação muito abaixo de sofrível  --  com 85,8% vivendo na quase absoluta miséria  --, saltou para a impressionante posição de "alta" em 2010, com apenas 0,6% em situação indesejável. A aceleração do desenvolvimento econômico durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva é o fator determinante para tais resultados, conforme reconhecem, enfim, especialistas ouvidos pela Folha de S. Paulo.
 
Quanto à expectativa de vida do brasileiro hoje, pasmem, é considerada "muito alta", com índices comparáveis aos de países de primeiro mundo. Em termos de renda, então, os números em relação à totalidade dos municípios é excelente, embora a realidade da educação (área com maior avanço) permaneça com índice "médio". Mesmo assim, o percentual de crianças de 5 a 6 anos que frequentam a escola subiu de 37,3% para 91,1%, o que indica, para o desespero dos saudosistas, que estamos no caminho certo.
 
O Brasil do governo Lula (ou do PT, como queiram) é, portanto, muito diferente do que se empenham em divulgar a Rede Globo, a revista Veja e a própria Folha, de que extraio os números da presente coluna.
 
Enquanto isso, está na edição de hoje do referido jornal a notícia de que o "candidato" do combate a corrupção, Joaquim Barbosa, presidente do STF, terá que se defender do que já é um crime contra a Lei Orgânica da Magistratura: a criação de uma empresa, fictícia, em seu nome, com a finalidade de driblar o fisco na aquisição de um apartamento nos EUA. O dolo já é objeto de processo contra Barbosa, conforme afirma o representante da OAB no Conselho Nacional do Ministério Público, Almino Afonso. Nada como um dia atrás do outro, já dizia meu pai. 
 
 
 
 
 
 
 
           

A beleza do pavão e do amor

                                                                                                         Para Ticiana
 
Há muitos anos, quando fui a Cachoeiro de Itapemirim, fiz questão de visitar a casa em que nascera Roberto Carlos. Coisa de "tiete" assumido do Rei. Só depois, já de viagem para o Rio, minha mulher, à época, fez a advertência: - "Você ama tanto a literatura e esqueceu que lá (em Cachoeiro) nasceu aquele cronista famoso, como é mesmo o nome dele?" Disse isso de forma tão sugestiva e um tanto irônica, que me deixou mesmo sem lugar para colocar as mãos. Referia-se a Rubem Braga, para muitos o maior dos cronistas brasileiros. Quanto a mim, fico, ainda, com os mineiros, Fernando Sabino à frente.
 
Pois bem, lembrei do fato a propósito de se comemorar este ano o centenário do "velho urso", sem dúvida um escritor obrigatório. Rubem Braga, como o cantor famoso, nasceu em Cachoeiro em 12 de janeiro de 1913, mas moraria quase toda a sua vida no Rio de Janeiro, até fins de dezembro de 1990, quando um câncer na laringe o mataria sob o peso de um sofrimento imenso. Deixou, inconfundível estilista que foi, uma obra marcada pela suavidade da linguagem, e uma força poética que se esconde por debaixo de um texto muitas vezes enxuto e aparentemente árido.
 
Li há coisa de uma semana um pequeno livro em que Braga registrou a sua rápida convivência com expoentes das artes plásticas e do cinema durante a sua permanência em Paris, onde se fixara como o repórter extraordinário que foi na cobertura da Segunda Guerra Mundial. Diferentemente dos textos em que trata da guerra propriamente dita, nos quais dá especial atenção às histórias dos soldados anônimos, detentores, aos olhos sensíveis do cronista, de uma humanidade a um tempo desesperada e doce, Rubem Braga 'fala' do lado frágil e contraditório de grandes celebridades, a exemplo do pintor Pablo Picasso e do cineasta Clouzot.
 
Como todo grande artista, bem na linha do que se saberia sobre Carlos Drummond de Andrade após sua morte, em agosto de 1987, Rubem Braga era bem diferente do que sugere, à primeira vista, sua imagem casmurra e amarrada. Cultivava amizades as mais distintas, tinha um sorriso largo e bonachão e adorava um bom uísque, com que adoçava a sua prosa solta e afetuosa. Mais: cultivava na cobertura em que morava árvores impensáveis para um edifício de apartamentos, como pés de pitanga, goiaba, manga e, pasmem, jabuticaba, o que lhe valeria o apelido de Lavrador de Ipanema.
 
Em uma de suas crônicas, referindo-se à beleza do pavão, adverte o leitor: - "Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris em plumas." Diz isso e compara tal beleza à do amor: - "Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glória e me faz magnífico."

 
 
 

Dona Elze era assim

Com a morte de Elze Montenegro, ocorrida há pouco menos de uma semana, perdeu Iguatu uma de suas referências mais notáveis. Conheci-a de perto, desde os tempos em que, começando a minha vida profissional, logo que aprovado em seleção para professor da então Escola Agrotécnica Federal, fui chamado a ocupar seu lugar junto ao corpo docente daquela Instituição.
 
Dona Elze, ficaria sabendo depois, antecipara o seu afastamento a fim de que eu pudesse assumir o novo emprego. Certo dia, dirigindo-me a ela com o propósito de agradecer-lhe pela generosidade, apenas me disse: - "É tempo dos novos talentos, fiz isso pensando na Escola, na necessidade de revitalização de suas forças fundamentais." Reproduzo, acreditem, as mesmas palavras. Dona Elze era assim.
 
Não preciso dizer, é óbvio, que não lhe faltassem à época a pujança incomparável, o dinamismo que era mesmo a marca do seu perfil, a crença na capacidade de construir, pelo trabalho e pelo amor à causa do ensino profissional, as obras mais importantes de que se tem notícia nesta cidade em termos educacionais. É claro que não. Fez isso porque tinha um coração imenso, porque gostava de ajudar as pessoas, de incentivar e aplaudir aqueles que se mostrassem vocacionados para a mesma tarefa em que se notabilizou singularmente ao longo de tantos e tantos anos.
 
Desde então, tornamo-nos amigos. Não me ocorre lembrar de uma vez sequer que, tendo cruzado com dona Elze aonde quer que fosse, não tenha parado para uns bons dedos de prosa, verdadeiras aulas de confiança no porvir, de disposição para romper limites e de vencer desafios, pois a "pequena-grande" mulher não concebia o mundo e a vida sem luta, sem o enfrentamento diuturno das dificuldades e a certeza de sua superação. Dona Elze era assim.
 
Agora que nos deixou, depois de uma lenta agonia, para além do exemplo e das infindáveis lições que nos legou, deixa-nos saudade e vontade de tornar pública a nossa gratidão, pelo que fez e ainda tinha o desejo de fazer por todos os iguatuenses, não lhe tivesse tirado o tempo o vigor e a capacidade de sonhar novos sonhos. Dona Elze era assim.
 
Grande é o dote daqueles que fazem de sua vida um bom exemplo, que se mostram capazes de vencer o invencível, de tirar leite da pedra, que se agigantam diante dos desafios de toda ordem, que dignificam a vida por suas ações e pela obra erguida. Todos sabem perfeitamente o que estou dizendo. Dona Elze era assim. Por mais que lhe agradeçamos, ficaremos sempre em dívida para com ela. Para Iguatu e região, são infinitos e admiráveis os efeitos de tudo o que fez. 
 
 
 

O livro moderno e imortal de Cervantes

Vira e mexe, alunos querem saber que livro considero o mais importante de todos os tempos. Se antes a pergunta me embaraçava, posto que são tantos e tantos os livros que julgo indispensáveis, hoje, numa tentativa de ser mais econômico na minha resposta, não titubeio mais: Dom Quixote, a novela do espanhol Miguel de Cervantes. Li-o, uma primeira vez, ainda menino, numa versão resumida para adolescentes. Minhas limitações, à época, impediam que percebesse a violência que eram tais adaptações, quase sempre mutilando a narrativa naquilo que lhe é mais essencial.
 
Algum tempo depois, já mais familiarizado com a grande literatura, 'devorei' a história (recuso-me a usar a palavra "estória") do engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, como se faz ao bom sorvete, sem deixar de lamber os beiços durante os dias em que me debrucei sobre suas quase oitocentas páginas. Desde então, faço-o sempre que posso, abrindo o volume ao acaso, muitas vezes, que não há página perdida nesse clássico da modernidade. Da modernidade, sim, pois muito embora publicado em inícios do século XVII, pode com rigor ser considerado o livro inaugural da modernidade, um exemplo perfeito de metalinguagem, em que as fronteiras entre autor e narrador são absolutamente rompidas, e a pluralidade de vozes é mesmo um traço da genialidade estilística do escritor.
 
O livro foi inúmeras vezes adaptado para o cinema. Boas adaptações, diga-se de passagem, com destaque para as de Orson Welles e Kozintsev, ambas encontráveis em DVD. Dia desses, recebendo-a de presente de um amigo, vi a versão de Arthur Hiller, baseada no musical da Broadway, de Dale Wasserman. O filme é maravilhoso, com uma direção de atores que impressiona pela lealdade aos perfis psicológicos traçados por Cervantes. Um filme quixotesco no bom sentido da palavra, em que a loucura e ingenuidade da personagem central é a forma irônica com que o autor denuncia a inversão de valores, já durante a Idade Média, pela sociedade.
 
A cena em que Peter O´Toole canta para Sophia Loren The Impossible Dream, arrepia, evidenciando a força do sonho ante um mundo de insensibilidade e desamor: Sonhar mais um sonho impossível, / lutar, quando é fácil ceder, / vencer o inimigo invencível, / negar, quando a regra é vender.
 
A versão brasileira da letra, sabe-se, é de Chico Buarque e Ruy Guerra, por sinal mais feliz poeticamente falando, como pode-se concluir da leitura da última estrofe: E assim, seja lá como for, / vai ter fim a infinita aflição / e o mundo vai ver uma flor brotar / do impossível chão.
 
Digo por quê na semana que vem.
           

A voz rouca das ruas

"Odeio ser mal entendido!", costuma dizer um comentarista de futebol da ESPN Brasil. É o que me ocorre quando sento diante do computador para produzir a coluna de hoje. Refiro-me ao que escrevi no blog sobre as manifestações de protesto que tomam conta das ruas do País. Em momento nenhum acenei com "críticas tendenciosas" ao movimento popular como afirma um leitor em e-mail dirigido a este cronista.
 
Pelo contrário, comecei por dizer que esses movimentos são próprios da democracia (e necessários contra a ditadura, o que, felizmente, não é o nosso caso), mas que urge perceber o abismo que existe entre ir às ruas para protestar, reivindicar, seja lá o que for do interesse do povo (como faz a gigantesca maioria nos movimentos de agora) e o que fazem grupos de baderneiros infiltrados nas multidões Brasil afora, promovendo um estado de desordem e aviltamento da ação política a exemplo do que, novamente, pôde-se constatar ontem em diferentes cidades brasileiras, o Rio à frente.
 
Critiquei, ainda (e de forma enfática), aqueles que, historicamente comprometidos com o cerceamento das lutas populares, o avanço das liberdades e dos direitos essenciais, inclusive de comer e vestir de forma digna, ou empenhados em impedir que o País seja, de fato, conduzido por um projeto ideologicamente progressista, agora posam de democratas a fim de tirar proveito da situação e tentar desestabilizar o governo da presidente Dilma Roussef.
 
A propósito, não queria bater nesta tecla mas me sinto provocado a fazê-lo: as manifestações ocorrem, sob as mais diferentes bandeiras, em estados governados por partidos contrários ao PT ou "taticamente" aliados ao governo. Vejamos: São Paulo (PSDB), Rio de Janeiro (PMDB), Minas Gerais (PSDB), Paraná (PSDB), Ceará (PSB) etc. Sejamos mais claros: dos atuais 27 apenas 5 são do partido da presidente: Acre, Bahia, Rio Grande do Sul, Sergipe e o Distrito Federal.
 
Ademais, caro leitor, agradecendo-lhe pelo comentário, devo observar que fiz política estudantil e participei, na medida das minhas imensas limitações, de lutas pela democratização do País, bem como continuo a defender, no que escrevo e faço, o direito inalienável de ir às ruas por conquistas mais amplas, contra a corrupção, por serviços de saúde e educação mais dignos para todos, por um País melhor. Sem fechar os olhos para os avanços, todavia. A minha crônica, relei-a, condena a "partidarização" dos movimentos, belíssimos!, do gigante desperto. E teme que se faça do vandalismo um instrumento de negociação, como afirmo no último parágrafo do texto. Confira.
 

Da festa, ao caos

De repente, da festa do futebol, surge o caos. O Brasil, de Norte a Sul, parece endemoniado, tomado de fúria como não se via há tempos. Mas por quê, contra ou a favor de quem? Não se sabe ao certo. Nem o que resultará disso. Quem estará por trás, quem, aguçando o olho gordo do oportunismo, espreita à distância, como as ave de rapina a carne podre. Democracia, sim. Mas não a democracia que queremos, mesmo os que carregam no currículo as práticas ortodoxas. A democracia que confunde vandalismo, depredação, com expressão de ideias, com o direito sagrado de dizer sim ou não. E tudo parecia tão em paz. Que Brasil é o Brasil que vemos, atônitos, sem lugar onde repousar as mãos?

Haverá quem diga, claro, que as manifestações que tomaram conta do país nas últimas horas têm um endereço certo: o Governo do PT, a presidente Dilma. Canalhice, ao lado da cegueira mais lamentável, a cegueira dos que não querem ver. Não querem ver que o país mudou, que a impunidade parece, finalmente, ter os seus dias contados. Que os pobres podem, agora, comer, vestir, ter acesso a bens de consumo antes impensáveis. Que o desemprego cai a níveis nunca atingidos, que o Brasil, na contramão do que parecia lógico, possível, mesmo para os mais utópicos, atravessa a crise mundial com tranquilidade, em que pese a alta da inflação, a subida do dólar, as instabilidades próprias do momento em parâmetros globais.

De um amigo, vem, por telefone, a conclusão improvável: coisas do PSTU, numa alusão às práticas radicais de uma esquerda que não é mais possível. De outro, pelo mesmo meio, a apreensão: vai ter retrocesso, como se houvesse, hoje, clima para golpes. De um terceiro, mais sensível às efetivas consequências dos fatos, um comentário sereno e, a princípio, lúcido: abre-se um espaço para o salvador de plantão, relembrando Collor.

O certo, se certeza pode existir em meio à desordem que, num piscar de olhos, cobre de dúvidas uma Nação, é de que perdemos todos, sem exceção, a capacidade de entender o que querem os manifestantes, ou parte significativa deles (refiro-me aos que quebram, destroem, põem por terra a coisa pública). Como li há pouco, já nem lembro onde, escrito por quem, "algo ocorre. O quê, ninguém sabe exatamente". O perigo é que se faça do vandalismo um meio de negociação.



 

Amante à moda antiga

Hóspedes de Hildernando e Fátima, que, elegantes e simpáticos, receberam-nos com o carinho de sempre, Ticiana e eu passamos o Dia dos Namorados em Iguatu. À noite, entre um vinho e outro, deparamos com o médico e amigo Paulo de Tarso, que, leitor atento, reclama a ausência deste colunista na edição de sábado do jornal A Praça. Como prometido, aqui estamos de volta.
 
Pois bem, a referência ao Dia dos Namorados não é gratuita. Explico-me: a data, este ano, coincide com a divulgação de pesquisas no mínimo inquietantes sobre a relação entre homens e mulheres, notadamente entre namorados e marido e mulher. Vejamos: segundo Julia Becker, da Universidade de Marburg, cujas conclusões do trabalho coincidem com as de sua colega Janet Swim, da Universidade da Pensilvânia, atitudes do homem antes consideradas positivas no perfil masculino, como abrir a porta do carro, puxar a cadeira ou pagar a conta no restaurante, ceder o lugar em lugares públicos etc., servem para legitimar a dominação 'dele' em relação a ela. Pode?
 
O tema, como se vê, é muitíssimo polêmico, o que justifica que o debate tenha circulado o mundo em poucos dias e as posições assumidas sejam as mais desencontradas. Segundo pude ver em matéria publicada na revista Carta Capital, em sua edição de 29 de maio de 2013, por exemplo, algumas declarações beiram a estupidez. Destaco aqui o depoimento de Bianca Andrade, uma estudante de Psicologia do Rio Grande do Norte: - "O cavalheirismo é uma forma de submissão mais eficaz encontrada pelo patriarcado machista. Funciona melhor que o machismo literal." Em outro momento, ela diz: - "Para que abrir uma porta que eu sou capaz de abrir sozinha? É um romantismo falso, relacionado à ideia de que a mulher necessita de um homem para sobreviver."
 
Como intencionasse escrever sobre a matéria, tive antes o cuidado de ouvir algumas mulheres, Ticiana, a namorada, à frente, para quem a declaração de Bianca cheira a "coisa de mulher mal-amada", avaliação consistente quando vinda de quem, como ela, é mulher independente e extremamente bem-resolvida em todos os aspectos.
 
Mas, acrescente-se lenha à fogueira, houve quem me dissesse o contrário, bem na linha do que diz sobre o assunto uma estudante da USP, Carol Peters, 21, para quem é sempre desconfortável ser alvo de atitudes gentis do homem, como pagar a conta à mesa de um restaurante.
 
Quanto a mim, na impossibilidade de discorrer amiúde sobre a matéria, por escassez de espaço, fico com Camille Paglia, a ensaísta americana, que defendeu a tese de que o feminismo (o feminismo reafirmado pela pesquisa) foi um tiro no pé para a mulher: - "O encanto está na diferença entre homens e mulheres, queremos direitos iguais na sociedade, não que os homens sejam como elas."  
 
Num tempo em que os jovens parecem um tanto desatentos a importância da gentileza na construção da personalidade, a exemplo do que não raro se pode ver por aí, o debate torna-se delicado e pode ensejar mais uma inversão de valores, com a grosseria imperando ante o cavalheirismo. Cavalheiro ou canalha?, oportuno destacar, é como se intitula a reportagem da Carta Capital. Para o bem ou para o mal, por muito tempo ainda, que me dá prazer (e a mulheres resolvidas como Ticiana), continuarei abrindo a porta do carro e a puxar a cadeira no restaurante. Um "amante à moda antiga", como na canção do Rei. E você?
 
 
 
 

Sem a coceira do preconceito

Tenho por praxe não escrever sobre aquilo que desconheço. É um princípio básico de correção intelectual, razão por que começo a coluna de hoje evidenciando: ainda não assisti ao filme A vida de Adèle, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mas, pelo que pude ler sobre o longa de Abdellatif Kechiche, causará polêmica ao chegar aos cinemas brasileiros. É que o filme, que gira em torno de uma paixão envolvendo duas jovens adolescentes, traz (na opinião dos críticos a que tive acesso) cenas de sexo como poucas vezes se pôde ver no cinema.
 
Pois bem. Li os comentários e falei aos botões: Ora, o que está em questão não é o fato de aparecerem no filme cenas de sexo, assim, explícitas; mas o fato de tais cenas mostrarem um caso de homossexualismo num momento em que o debate sobre a sua legitimidade vem à tona de maneira mais definitiva, a exemplo da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A propósito, não é muito lembrar que a premiação de A vida de Adèle ocorre, coincidentemente (ou por isso mesmo), quando as manifestações contra a aprovação da lei tomam conta das ruas de Paris.
 
Do ponto de vista meramente artístico, aliás, nada de novo. Quem não se lembra, em tempos recentes, da fortíssima sequência em que Natalie Portman e Mila Kunis transam no belíssimo O Cisne Negro, de Darren Aronofsky? Ou, entre os mais atentos à história do cinema, do inquietante O Império do Sentidos, de Nagisa Oshima, igualmente premiado no Festival de Cannes, lá por volta de 1976? Para não falar de tantos e tantos outros títulos que me ocorrem no momento em que paro para escrever esta crônica. Calígula, do italiano Tinto Brass, por exemplo?
 
Chega de falsos pruridos, quando se tem no Brasil, para não esquecer, a programação da TV Globo, com suas novelas perpassadas de cenas não menos ousadas em termos de estetização do sexo. O que deve sustentar o debate é a dimensão artística do trabalho. Até que ponto, de fato, se trata de imagens indispensáveis ou que acrescentam elementos estéticos importantes ao filme? É justo, neste contexto, insistir demarcando territórios entre o que é e o que não é a arte? Faz sentido estabelecer "taxonomias" diante do que, sendo expressão do humano, requer a condição de arte?
 
"Lembrando", como diriam os repórteres das tevês cearenses, num vício entre irritante e chulo, que Gilles Deleuze, no polêmico Cinema I - Imagem Movimento, já observara com correção: "... o cinema não copia ou reproduz a realidade. O cinema expressa a realidade" (cito de memória).  Assim sendo, ansioso por assistir ao filme do franco-argelino Abdellatif Kechiche, ouso considerar que dele, como quis o presidente da comissão julgadora deste ano, Steven Spielberg, em Cannes, deve-se esperar o que de bonito traz sobre o amor, sem a coceira do preconceito em torno do que é "diferente". Quando menos em termos artísticos, é saudável que se pense assim. Para o bem do cinema.
 
           

O amor e a felicidade

Leio na revista IstoÉ artigo curioso de Ana Paula Padrão: Felicidade é amor. Ponto final. O texto, como a colunista deixa evidenciado, sustenta-se numa pesquisa levada a efeito pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, cujos resultados apontam para o que, parecendo óbvio, traz um alerta importante para todos nós: o álcool continua sendo algo devastador para a vida das pessoas, em que pesem as campanhas de conscientização. O vício é, de longe, o elemento que mais ocasiona desde as separações conjugais até os quadros mais dramáticos de depressão e neuroses.
 
Associado ao tabagismo, o alcoolismo ainda é a causa de doenças letais que mais preocupam as autoridades, e os números da pesquisa, embora resultantes de uma ação científica 'localizada', como que constituem um retrato da realidade de muitos países, notadamente os de terceiro mundo. Outra conclusão curiosa: o QI, quase sempre tomado como parâmetro para medir as possibilidades de sucesso pessoal, em princípio longe está de ser um fator decisivo em termos profissionais, por exemplo. Ou seja, indivíduos com QI 110 concorrem em nível de igualdade com os que têm QI 150.
 
Mas é no campo afetivo que a pesquisa traz novidades interessantes: as pessoas mais conservadoras, do ponto de vista comportamental (aqui incluídos os que se curvam a preconceitos e tabus), são aquelas cuja vida sexual é encerrada mais cedo, por volta dos 68 anos, enquanto os mais liberais permanecem ativos até os 80 anos, um limite, como se vê, animador mesmo para os padrões de países desenvolvidos, como é o caso dos Estados Unidos. Como observa Ana Paula Padrão, conservadorismo e desejo sexual são inimigos ferrenhos.
 
O mais significativo, mesmo que por demais previsível, é concluir, cientificamente, que o amor é de fato o fator infalível para levar as pessoas a serem felizes. Em outras palavras, indivíduos que amam e foram amados aparecem entre os mais bem sucedidos em termos emocionais, relacionais e, claro, financeiros. Está dado o recado: se você está aberto para a afetividade, recebendo-a e distribuindo-a no seu dia a dia, terá dado o passo definitivo para construir uma vida feliz.
 
A jornalista evidencia um aspecto relevante para as conclusões a que chegaram os pesquisadores de Harvard: a pesquisa não é fruto de uma curiosidade vã, mais um modismo dos cientistas americanos, tão afeitos a estudar tolices. Pelo contrário, consumiu 20 milhões de dólares ao longo de 75 anos, durante cujo tempo 268 homens foram acompanhados de perto. Como diz ela, reproduzindo a frase conclusiva do estudo, "Felicidade é amor. Ponto final".