Prece de Natal

A cada véspera de Natal, pelo menos comigo, acontece de tentar rever os 359 dias que o antecederam. Digo melhor: acontece de rever o que foi minha vida ao longo de todo esse tempo. É vezo de criança, alimentado por uma educação familiar rígida do ponto de vista católico. Se não é bastante para me tornar um homem melhor, no sentido rigoroso da adjetivação, ajuda um pouco a tentar, quase sempre com êxito, felizmente, não cometer os mesmos erros. E assim, quando vem a passagem do ano, entregue por inteiro ao clima das esperanças que a data enseja para a maioria de nós, acalento a possibilidade de ser e fazer mais feliz o próximo. Nem sempre, como disse, a gente consegue, mas já é alguma coisa tentar.
 
Essas reflexões, todavia, de muito íntimas que são, não devem ser reveladas, pelo menos não devem ser reveladas no espaço público de uma página de jornal. Têm alguma coisa de sagrado, são dedos de prosa que cada homem (os brasileiros à frente) costuma ter com o Senhor à esta época do ano. Mais ou menos como o poeta Carlos Drummond de Andrade tornou clássica a sua conversa com Jesus Cristo num dos seus textos consagrados. Chama-se Prece do Brasileiro e foi publicado, se não me falha a memória já cansada, em junho de 1970.
 
Então?! (que modismo chulo este!), o poema, salvo engano, começa mais ou menos assim: - "Meu Deus,/só me lembro de vós para pedir,/mas de qualquer modo sempre é uma lembrança./Desculpai vosso filho, que se veste/de humildade e esperança/e vos suplica: Olhai para o Nordeste/onde há fome, Senhor, e desespero/rondando nas estradas/entre esqueletos de animais."
 
Lembro de cor, mutatis mutandis, primeiro porque um dia me especializei em Drummond, quando defendi dissertação de Mestrado sobre 'componentes dramáticos' de sua poética. Mais que isso, no entanto, por uma curiosidade: o poeta, que nunca esteve no Ceará, ao que consta, faz, no começo da estrofe seguinte, uma referência à minha cidade: - "Em Iguatu, Parambu, Baturité,/Tauá/(vogais tão fortes não chegam até vós?)/vede as espectrais procissões de braços estendidos,/assaltos, sobressaltos, armazéns/arrombados e  -- o que é pior  -- não tinham nada."
 
É claro que Drummond apenas se valeu do fato de ser Iguatu, mais que uma cidade do Nordeste, onde ambienta o seu poema, uma palavra de tonicidade apropriada para o ritmo métrico e a sonoridade do texto. Pouco importa. Telúrico que sou, curti isso com uma atitude a um tempo piegas e grata, pois que não é qualquer cidade brasileira que tem o seu nome estampado num poema de Drummond.
 
Mas, de que falava mesmo? Ah, sim, falava do Natal e da minha motivação de aproveitar a data para rever minha vida durante todo o ano. Pois bem, que Deus me dê forças para continuar a crer na benevolência original dos homens, para ser mais tolerante e mais gentil com todas as pessoas! Que Deus me faça saber perdoar mais, e pedir perdão com a naturalidade dos simples e dos mansos! Que eu tenha a consciência do que pesam as palavras, quando ditas com rancor; aliás, que me faltem as palavras duras e que eu nunca alimente o rancor! Que aprenda a receber sem desconfiança todos aqueles que se aproximarem de mim, e que possa, como está em Isaías, confiar no próximo como um menino confia em outro menino! Que eu seja mais compreensivo e mais justo para com os que discordam de mim, e saiba conviver mais com as diferenças! E que o meu talento, se algum existir em mim, esteja sempre a serviço da construção de um mundo mais humano!
 
É o que devo, vestido de humildade e esperança, como o eu lírico de Drummond, pedir a Deus neste Natal! E eu, que disse que não faria revelações aqui... 
 
 
 
 
 
           

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