Talento multimídia

Quando certa vez elogiei aqui os poemas de Bruna Lombardi, a bela atriz de tevê e cinema, muita gente boa caiu de pau sobre mim. É que no Brasil, quase sempre, a figura do bom escritor está associada a homens e mulheres feios e taciturnos, como se a literatura demandasse valores incompatíveis com a beleza física e a notoriedade midiática.
 
De novo, e com o prazer de quem acaba de descobrir ouro em meio à aridez do deserto (pelo menos em termos de renovação estilística), deparo com uma literatura, de altíssima qualidade, oriunda de quem conhecia apenas de uns pequenos textos publicados periodicamente na Folha de S. Paulo e de suas aparições nas telas: Fernanda Torres, a muitíssimo conhecida atriz da Globo, cujo romance de estreia, Fim, acabo de ler entre embevecido e encantado.
 
O núcleo dramático do romance está estruturado em torno de cinco personagens, às quais a autora dá voz numa narrativa marcada por originalidade e força poética: Álvaro, com cujo ponto de vista a história tem início, é um homem atormentado pela solidão e velhice; Ciro, um namorador tipicamente carioca e portador de um câncer; Sílvio, um dependente de droga e sexo em idade também avançada; Ribeiro, um rato de praia que apelou à medicina para continuar viril e Neto, o careta do grupo, que não sabe nem mesmo conquistar amigos e namoradas.
 
Ambientado no bairro carioca de Copacabana, e sustentando-se nas experiências de vida de uma  geração frustrada e insatisfeita, Fim é um livro exemplarmente bem construído, enxuto e dotado de uma tensão interior capaz de prender o leitor da primeira à última página.
 
Entre suas muitas qualidades de estilo, uma vez que Fernanda Torres faz sua estreia no gênero com uma maturidade que a um tempo surpreende e conquista, sobressai a narração precisa, atenta a detalhes que dão um colorido particular ao texto. Um exemplo disso é a forma como descreve, pela voz de cada personagem, as dificuldades com que deparam os idosos nas cidades brasileiras, esburacadas, sem calçadas e quase sempre ameaçadoras para quem, como o velhinho Álvaro, tem de enfrentar motoristas mal-educados e insensíveis.
 
Há uma boa dosagem de humor nas páginas de Fim, mas há também um sem-número de situações com as quais, em alguma medida, todo leitor haverá de se identificar. A parte do romance que descreve a difícil experiência da personagem Irene no IML, quando é convocada a identificar o corpo do ex-marido, morto num atropelamento, é tão forte que chega a provocar náusea, não apenas pela forma objetiva com que mostra o fato, mas pelas reflexões que o mesmo provoca a uma mulher diante do corpo frio e inerte de quem amou um dia, e para quem, ali, apenas está um defunto entre os muitos à espera de identificação.
 
Mesclando a narrativa, assim, com descrições e fluxos de consciência que lembram autores de primeira grandeza, Fernanda Torres, no seu romance de estreia, diz a que veio, e entra para o cenário literário brasileiro com uma dignidade artística que não deixa nada a desejar a escritoras consagradas como Lygia Fagundes Telles e Nélida Pigñon. Como afirma Sérgio Rodrigues numa orelha de Fim, está provado que o talento pode ser multimídia. Recomendo.
 
 
           

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