A sorte da estrela

Eis que 2012, mal começou, chega ao fim. O mundo, felizmente, não, ao contrário do que anunciavam alguns. Mas que está ficando mais pobre, ah, isso está. Que me lembre, enquanto encaro a brancura do monitor a fim de produzir a última crônica do ano, fechamos a página sem Chico Anysio, Ivan Lessa, Décio Pignatari, Millôr Fernandes, Hebe Camargo, Oscar Niemeyer, Lêdo Ivo, para contar, não necessariamente pela ordem, grandes brasileiros que se foram. Sem esquecer, para além das fronteiras, Gore Vidal, Ray Bradbury, Nora Ephron, Hobsbawm...
 
Mas nem tudo, feitas as contas, terá sido tão ruim. Em que pesem as contradições e o que houve de inconfessável por trás de todo o processo, o julgamento do "mensalão" entrará para a História como um fato positivo por um Brasil mais correto do ponto de vista político e moral. A nossa economia, se não anda às mil maravilhas, como se chegou a anunciar, mantém o país numa situação confortável, e, queiram ou não as aves do mau agouro, que sempre há, nunca, em tempo algum, o brasileiro pôde beber e comer como fez agora... E vestir, viajar, se divertir!
 
Não à toa, pois, deparo nos jornais desta quinta-feira, 27, com os números da pesquisa DataFolha que apontam a presidente Dilma com 62% de "ótimo" ou "bom", o que só confirma a satisfação dos brasileiros com o país hoje. Mais importante, contudo, que a aprovação recorde da nossa dama de ferro, é o fato de que o Brasil, como jamais se pôde ver algum dia, exalta o governo de agora e o de antes, como atestam os números referentes ao ex-presidente Lula.
 
Se a eleição fosse hoje, diz a pesquisa, enquanto Dilma Rousseff teria 57% dos votos, Lula, num patamar que não tem precedentes aqui ou lá fora, em se tratando de um ex-presidente, obteria 56% no caso de ser ele o candidato  --  para um terceiro mandato, é importante frisar. De enrubescer de raiva e frustração, se pode concluir, os arautos do retrocesso, de que, na contramão da lógica e da honestidade de propósitos, este país ainda padece, apesar dos índices sociais animadores. Invejável o país que tem, entre os que sabem agradecer, os que podem chorar de barriga cheia. Que venha 2013, ops!, perdoem os desafetos, que 13 é a sorte da estrela  que não se consegue apagar! Sendo assim, feliz Ano-Novo! Para gregos e tucanos, desejo de coração!
           

As aventuras de Pi

Tenho sobre o filme uma atitude dúbia: vale como espetáculo, o que lhe confere, enquanto realização estética, uma função a um tempo poética e lúdica capaz de tirar o fôlego. Mas é demasiado artificial para ser considerado um bom filme em termos cinematográficos tradicionais. Escrito pelo roteirista David Magee a partir do livro de Yan Martel (supostamente plasmado em Moacir Scliar), As Aventuras de Pi, com direção do sempre surpreendente Ang Lee (O Tigre e o Dragão, Cavalgada com o Diabo), atingiu em menos de um mês a surpreendente marca de US$ 160 milhões em bilheteria, superando, pois, os US$ 120 milhões gastos com a sua produção.
 
O filme está estruturado em flashback, uma vez que a sua história é narrada pelo protagonista adulto (interpretado por Irrfan Kahn, o mesmo de Quem quer ser um milionário? e O espetacular homem aranha) anos depois dos fatos terem acontecido. Mas é a presença do estreante Suraj Sharma como Pi adolescente, que concentra o que resta de mais significativo no filme, a odisseia do garoto em alto mar, depois que um naufrágio mata seus pais e todos os ocupantes de um navio.
 
A partir daí, quando são decorridos mais de quarenta minutos de filme, começa o espetáculo de imagens em 3D com direito a efeitos absolutamente sedutores, desses que arrebatam crianças e adultos, embora a narrativa se torne arrastada e repetitiva em tantos aspectos que, pude constatar, chega a inquietar mesmo os pequenos, que não raro querem deixar a sala antes do fim.
 
Para os cinéfilos mais "tradicionais", portanto, o filme vai se tornando chato e, por volta dos 60, 70 minutos, a luta de Pi para sobreviver em meio a tempestades e na companhia pouco amistosa de um tigre de bengala (criação em CGI) já não convence, mesmo que a trama levante alguma discussão em torno da questão religiosa pouco comum: Pi é indiano, católico e muçulmano (pode?), e, nos momentos de maior aflição, invoca a ajuda de um Deus totalmente ocidental.
 
Se até Scorsese não resistiu aos apelos da animação digital, contudo (realizando o belíssimo Hugo Cabret), nada muito excepcional em Ang Lee enveredar de vez pela tecnologia do 3D, cujo resultado, diga-se em tempo, está muito longe do intrigante O Segredo de Brokback Mountain, com que conquistou o Oscar de melhor filme dois anos atrás. 
 
 
 
 
           

É possível recomeçar!

A frase é de Hannah Arendt (1906-1975): - "Os homens, embora devam morrer, não nasceram para morrer, mas para recomeçar!" Nascida alemã, a pensadora teve a sua nacionalidade cassada em 1937 pelo regime nazista. Ficou apátrida durante um longo tempo, até naturalizar-se americana catorze anos depois. Em território norte-americano produziu o que há de mais significativo em sua obra, cuja essência pode ser traduzida em duas palavras: o que importa, verdadeiramente, é a inclusão do outro. Isso só seria possível, segundo ela, se se construísse uma sociedade pluralista, em que todos fossem livres e iguais.
 
Vejo hoje, com um nível de contentamento que não posso expressar com palavras, o Brasil melhor, mais justo, mais igualitário (sem fechar os olhos para as contradições que ainda existem) e mais livre. Nos shoppings, nos restaurantes, nos cinemas, deparo com pessoas que não costumava encontrar nesses lugares, porque sua condição financeira não permitia. Não à toa, pois, pesquisas recentes, como as do Gallup ou do Instituto de Pesquisa Aplicada, colocam o país entre os mais felizes (7,1 de satisfação), patamar semelhante aos de países de primeiro mundo, França, Espanha, Alemanha. 
 
As ideias de Arendt, sem razões que possam ser identificadas com rigor, ocorreram-me por esses dias, quando já se vive o clima do Natal e o chegar de um novo ano. É que, pela força do imponderável, todos os corações, em alguma medida, tornam-se mais generosos, com doses de espontaneidade que se diferenciam de acordo com o perfil psicológico de cada um, e na proporção exata da formação humanística por que fomos educados. Mas me anima a percepção de que os sentimentos se tornam mais puros, mais sensíveis aos valores fundamentais pelos quais se deveriam orientar as nossas vidas sempre. Ao lado dos avanços sociais, podemos crescer como pessoas.
 
 A essência desses valores, como lembram as palavras de Arendt, está em compreender a nossa possibilidade de renascer, em que pesem os descaminhos pelos quais tenhamos ou não dirigido os nossos passos até aqui, porque nunca é tarde para recomeçar, e para estender a mão solidária. É esta experiência que nos faz superiores às outras espécies, pelo milagre do renascimento interior, a cada novo dia, porque todos os dias, o ano todo, podem ser Natais dentro de cada um de nós. É possível recomeçar. Feliz Natal!
 
   
 

Não deixa de ser preocupante

Ao se arvorar no direito de cassar os deputados federais envolvidos no mensalão, mesmo em se tratando de réus com condenações transitadas em julgado, o STF, com um só e certeiro golpe, feriu de morte a Constituição, o Estado de Direito, o bom senso e a democracia brasileira. O parágrafo segundo do artigo 55 da Carta Magna estabelece que só ao Congresso cabe decidir sobre cassação de deputados condenados. É abrir o "livrinho" e ver.
 
Agindo como o fez, motivado pelas inquietações de um presidente pouco afeito a conviver com as diferenças, como deu provas cabais durante os meses de julgamento, o STF abriu um precedente perigoso contra a legalidade no Brasil: a partir de agora, quem pode assegurar que não o faça sempre que um parlamentar, investido do seu poder de representação, venha a manifestar ideias que não agradem aos ministros, a exemplo do que já se viu no passado que não se deveria esquecer?
 
 Não bastasse tudo isso, que já é muito, o resultado apertado (5 a 4), por si só traz elementos que evidenciam a truculência da decisão. Explico-me: o Regimento do próprio STF, segundo pude ler na imprensa, estabelece que, numa ação penal, quando o réu obtém quatro votos a seu favor, os chamados embargos infringentes, terá direito a um novo julgamento. Vejamos. 
 
Isso feito, o novo julgamento se dará com a participação de todos os ministros, contando-se, agora, com o voto do ministro Teori Zavascki, indicado para substituir o ex-presidente da corte, Carlos Ayres Britto, recentemente aposentado. O que tem isso a ver? Explico-me de novo: na sessão de ontem, reiterando o que já fizera há alguns dias, o ministro Lewandowski citou artigo publicado de Zavascki em que este defende que a cassação de mandato de parlamentares é da competência "exclusiva" do Congresso.  
 
O julgamento, como se pode ver, ainda não está concluído. O gesto autoritário e nada condizente com o papel de quem deveria (de forma suprema) defender a legalidade, infelizmente sim. Não deixa de ser preocupante.

O jornalismo que enoja

Na campanha para presidente, em 1989, o debate entre Fernando Collor e Lula foi editado pela jornalismo da Globo de forma tão tendenciosa, descaradamente tendenciosa, que se tornou fato decisivo para que o alagoano vencesse as eleições. O senso comum não teve o alcance para perceber o jogo de interesses que levava a família Marinho a agir dessa forma, vendendo gato por lebre. O fato, de tão acintoso, levou empregados da própria rede de TV, atores e diretores de telenovela à frente, a que se somaram outros artistas e intelectuais, a exigir uma retratação da emissora. Para não correr o risco de ser acusado de estar manipulando informações, reproduzo aqui o texto a que qualquer um poderá ter acesso no site do império da família de Roberto Marinho. 
 
"A partir desse episódio, a TV Globo decidiu não mais editar debates políticos, limitando-se a apresentá-los na íntegra e ao vivo. Concluiu-se que um debate político não pode ser tratado como uma partida de futebol, pois no confronto de ideias, não há elementos objetivos comparáveis àqueles que, num jogo, permite apontar um vencedor. Ao condensar um debate, necessariamente bons e maus momentos dos candidatos ficarão de fora, segundo a escolha de um editor..." E por aí vai.
 
Infelizmente, a nota, com o passar dos anos e com a morte do patriarca Roberto Marinho, não somente foi esquecida, mas parece ter se transformado num código de ética pelo avesso, a tomar por base o que se vê todas as noites no Jornal Nacional, maior e mais prestigiado formador de opinião do país, contra o PT e o ex-presidente Lula. É de embrulhar o estômago de qualquer um, não contando, claro, o expressivo contingente de brasileiros que sonham com um retrocesso, na perspectiva de uma volta do PSDB ao governo. Para não incluir na estatística macabra, o que é pior, aqueles que sonham inclusive com a volta dos militares ao Poder.
 
Um diretor de telejornal, do ponto de vista técnico, lança mão dos mesmos mecanismos que um diretor de cinema, realiza, portanto, um tipo de ficção, na medida em que faz escolhas de 'montagem' como qualquer cineasta: corta, emenda, subtrai, acrescenta, realiza recortes, enquadra, movimenta câmeras e produz (é o termo) "fatos", irrealidades que são lançadas no ar como se tratasse da realidade mais nua e mais crua. De revoltar, uma vez que o espectador vê diante dos olhos e pelas informações do "roteiro", a "realidade", quando, em verdade, está sendo forçado a percebê-la conforme é do interesse do sistema ideológico que a manipula e transforma, com as motivações mais inconfessáveis e indignas. Uma vergonha!   
 
Ontem, com uma dosagem de cinismo que só tem parâmetros na desfaçatez do seu âncora, William Bonner, o diretor do Jornal Nacional (o próprio), à frente das câmeras, para qualquer telespectador mais atento constatar, mal disfarçou um gesto que tem no cinema o seu equivalente no tradicional "Corta!". Fui à internet conferir: o fez para não permitir que, por desaviso ou descuido, a ilha de edição nos deixasse ver e ouvir o presidente da França, François Hollande: "Lula é uma referência para o mundo. Tem a minha solidariedade, e dos franceses, neste instante!"   
 
  
           

Morre Niemeyer, O Gênio

Como todo brasileiro medianamente bem informado, escrevo a coluna de hoje sob o efeito de uma notícia que nos entristece: "Morreu Oscar Niemeyer". Não importa que já estivesse velhinho, que seu corpo já não suportasse o peso dos seus quase 105 anos, que completaria no dia 15. Não importa que sua saúde, debilitada nos últimos meses, não mais lhe permitisse viver plenamente, como o fez durante mais de um século, altivo e galhardo, belo e resistente como o concreto com que escrevia sua poesia incomparável. Nada disso importa, quando se está diante de uma verdade insofismável: Morreu o maior brasileiro dos últimos 100 anos, e todos nós, em alguma medida, ficamos mais pobres sem ele.
 
Porque Oscar Niemeyer não foi apenas um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos (quiçá o maior). Oscar Niemeyer foi um dos maiores brasileiros de toda a História deste país, e mesmo aqueles para quem a sua morte aparentemente nada represente, terão perdido uma voz que falava em seu nome. Porque Oscar Niemeyer sonhou e lutou, a seu modo, por um país mais humano, mais decente, mais livre e mais igualitário para todos nós, ricos e pobres, cultos e iletrados, de qualquer cor, de qualquer credo, de qualquer raça...
 
Algumas de suas obras, pela sensualidade e pela leveza que encerram, com suas curvas e seu lirismo, antes, jamais explorados na história da arquitetura, abriram uma nova página em termos da capacidade de invenção do homem. Falo da Catedral de Brasília, falo do Palácio da Alvorada, falo do Palácio da Justiça, falo do edifício do Congresso Nacional, falo de Brasília como um todo.
 
Para não falar da sede da ONU, em Washington, para não falar da Universidade de Constantine e da Mesquita de Argel, na Argélia, para não falar do Centro Cultural Le Havre - Le Volcan, na França, para não falar da Feira Internacional e Permanente do Líbano, para não falar do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, para não falar do Parque do Ibirapuera, do Memorial da América Latina e do Copan, em São Paulo, imensa onda em concreto a abrigar brasileiros de diferentes classes sociais. Para não falar, sobretudo, do conjunto arquitetônico da Pampulha, da igrejinha de São Francisco de Assis, sua primeira e genial obra, a poucos passos de onde escrevo a coluna de hoje.
 
Há poucos dias, como estivesse me visitando uma amiga em Belo Horizonte, levei-a a conhecer a obra de Oscar Niemeyer, na Pampulha, como quase tudo neste país, infelizmente, tão abandonada em sua solidão e seu deperecimento, que o tempo, implacável, também é capaz de fazer marcas no concreto. O mesmo tempo que, na longa prorrogação de muitos e muitos anos, finalmente ontem, quinta-feira 5, a dez dias dos seus 105 anos, venceu mais essa luta  -- e nos roubou de nós, brasileiros, "O Gênio" Oscar Niemeyer.
 
 
 
 
           

Vida e obra em vermelho

Ao final da peça, o próprio Antônio Fagundes fez o convite para o debate sobre Vermelho, com ele e o filho Bruno, no SESC Palladium, em BH. Sobre o espetáculo, discorrerei daqui a pouco. Enquanto levanto a questão em torno da metalinguagem presente no texto de John Logan (a arte voltando-se sobre si mesma) o famoso ator, que se mostra uma pessoa extremamente acessível, revela-se pessimista em relação ao teatro tal qual o compreendemos ainda hoje: - "Com o stand-up dominando a cena, o teatro clássico, como vocês viram hoje, está ameaçado e pode vir a desaparecer!"
 
Fagundes refere-se a um gênero muito em voga na atualidade, que se caracteriza por prescindir dos elementos dramáticos tradicionais. Tem origem americana e gira, em geral, em torno da figura de um humorista, o qual se apresenta em pé (daí o termo stand-up), só com o microfone e de "cara limpa". No Ceará esse tipo de espetáculo tem sido a tônica, revelando talentos e enganadores. Mas voltemos à peça de Logan.
 
Plasmada na vida e obra de Mark Rothko, pintor nascido na Letônia e naturalizado americano, o espetáculo explora à perfeição o drama existencial de um artista grandioso a quem se deve atribuir uma das contribuições mais marcantes do Expressionismo Abstrato, ou seja, da arte não figurativa que colocaria as artes plásticas dos Estados Unidos ao par do que se fez de mais importante no modernismo mundo afora. Não é muito dizer, por exemplo, que essa arte transferiu o centro criativo das artes visuais de Paris para Nova York.
 
Orientado pela absoluta liberdade no ato de criação, o que o aproxima do automatismo dos surrealistas, com o seu elevado senso de improvisação, o Expressionismo Abstrato teve na action painting de Jackson Pollock e na pintura mais estruturada de Robert Motherwell pontos mais relevantes, sem contar, óbvio, nos retângulos sobrepostos de elevado senso estético assinados por Rothko.
 
Como o título da peça sugere, o vermelho e suas muitas variações tonais constituem o elemento cromático mais significativo da obra do atormentado pintor. A uma dada altura do espetáculo, montado a partir de um texto de qualidades literárias inegáveis, ele tem uma fala que revela o seu conflito psicológico exemplarmente simbolizado pela cor vibrante: - "Você quer dizer escarlate? Ameixa-amora-magenta-borgonha-salmon-carmin-coral? Qualquer coisa, menos vermelho!" Vê-se, aí, a complexa personalidade de Mark Rothko, um homem ansioso e irascível.
 
O conflito entre o artista frio e o homem de temperamento explosivo, indomável, doentemente autocentrado, que é o eixo central da peça, levaria Rothko a viver uma vida de crises constantes, culminando com o seu suicídio em  fevereiro 1970. Ele deixou uma obra que, ano após ano, vem batendo recordes de preço aparentemente incompatíveis com a simplicidade de sua arte a um tempo racional e inquieta. A interpretação de Antônio Fagundes beira a perfeição em sua absoluta sintonia com o perfil dramático de um gênio do abstracionismo. Pena que o debate, pela heterogeneidade do público, tenha deslizado para a tietagem que mais aborreceu que agradou o astro da Globo.

Minha mascote, o Zé

Quando a imprensa divulgou a mascote da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, como todo torcedor metido, fiquei muito frustrado. Primeiro porque não vejo graça nesse tatu-bola escolhido para simbolicamente nos representar, além, claro, do fato de sua espécie carregar no nome a palavra com que se designa o instrumento indispensável para a prática do esporte bretão. E a sugestiva forma, vá lá, que o animal assume sempre que se sente acossado. Muitas outras modalidades também não podem prescindir do mesmo instrumento. O argumento de que a escolha remete às campanhas em favor da preservação do meio-ambiente, que anima os entusiastas da mascote, também não me convence. Pelo menos a mim, que esperava uma outra figura, muito mais 'brasileira' em sua malemolência, simpatia e leveza, literalmente. Além disso, também o bom papagaio sofre ameaça de extinção.
 
Não bastassem tantos bons atributos, o meu indicado faz este ano 70 anos, no momento em que foi escolhido o tatu como o nosso exótico representante. Para não falar que não é todo dia que um brasileiro de quatro costados alcança tamanha longevidade, pelo menos quando se trata, como ele, de um brasileiro pobre, duro mesmo, folgado e desempregado, mas que não perde a alegria de viver e viver bem em meio a tamanhas adversidades. Ou seja, o legítimo brasileiro, tão macunaímico quanto a adorável personagem de Mário de Andrade, o maior e mais simbólico dos intelectuais brasileiros em sua inarredável disposição de imortalizar o verdadeiro Brasil e suas tradições. Pois o leitor, que deve estar se coçando de curiosidade, fique sabendo: o meu escolhido seria o Zé Carioca!
 
Explicada a minha intromissão em assunto que não me diz respeito, ou sim, para contrariar Caetano, que por sinal tem a mesma idade do Zé, repasso ao leitor um pouco da biografia do meu "herói", que, embora sem nome, junta forças para zombar dos outros, como outro Zé que também adoro, o de Carlos Drummond de Andrade. Mas deixemos de delongas e vamos aos fatos.
 
Zé Carioca foi gerado em 1941, num salão do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, como o sobrenome deixa ver. Mas o seu registro de nascimento é de 1942, quando o pai, ninguém menos que um certo Walt Disney, revelou ao mundo a chegada do herói brasileiro, que já veio assim, estiloso que só, com seu fraque, sua gravata-borboleta, seu chapéu de palhinha, seu charuto e seu chapiliniano guarda-chuva, inspirado num tal Dr. Jacarandá, personagem folclórica dos bares cariocas dos velhos tempos.
 
Minha simpática mascote, como se vê, já chegou abençoada, pelos deuses e pelos orixás, para fazer companhia ao rabugento Pato Donald e, com sua graça e malandragem, anunciar aos quatro ventos que, na contramão das evidências, é possível ser alegre e feliz sempre, mesmo sendo brasileiro. O diabo é que tem um nome que lembra, nestes tempos de trevas, um outro Zé, o qual, diga-se de passagem, não anda com essa bola toda. 
 
 
 
 
            
           

Penas medievais

A declaração do Ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, de que preferiria a morte a ser preso num presídio brasileiro, que muitos veem como política, é na verdade o reconhecimento do governo de que são desumanas as condições impostas aos condenados à cadeia neste país. Nada mais, o que, ao invés de surpreender e indignar aqueles que enxergam interesses políticos em tudo, deveria, antes, refletir um avanço de natureza ética do atual governo. Ou há quem não reconheça procedentes as palavras de Cardozo?
 
O fato, no entanto, pode ser analisado com imparcialidade e sem intenções partidárias, a exemplo do que fazem as maiores autoridades em assuntos jurídicos em face das penas fixadas para os envolvidos no chamado "mensalão". Ou seja, são racionais essas penas? Traduzem elas razoabilidades legais, uma vez que os apenados não representam efetivamente uma ameaça para a população? Não seria mais adequado condicioná-los a cumprir trabalhos sociais, depois de retirados os seus direitos políticos por um tempo ou definitivamente? São perguntas que surgem e que me parece saudável para os interesses do país se discutir. Ouso contribuir para tais discussões. Vejamos.
 
Parto de um ponto de vista talvez chocante para os "indignados" de plantão: Em que sentido essas pessoas constituem ameaça concreta à sociedade? Mantê-las encarceradas, em que proporção restituirá ao Estado o que lhe foi subtraído pelos condenados? Não seria mais aceitável impedir que essas pessoas voltassem a participar da atividade política como candidatos, ainda que por um tempo determinado e proporcional à gravidade e à extensão dos crimes cometidos? Punições alternativas não teriam para os envolvidos (e a própria sociedade) um resultado pedagógico mais eficaz? A pena de reclusão, por manter essas pessoas isoladas do convívio social, não contribuem mais diretamente para que sejam elas e seus crimes esquecidos com o passar do tempo? São perguntas que considero oportunas neste momento de tantos e tão significativos avanços em termos institucionais.
 
Superpovoar as nossas prisões, já tão desumanas em sua complexa realidade, como evidenciam as palavras do Ministro da Justiça, já não é uma consequência natural da forma como se tem levado a efeito os julgamentos no país ao longo de sua História? Quantos dos que ali estão, submetidos à exclusão pela exclusão, onerando o Estado, já não poderiam estar reintegrados à vida social se lhes tivessem imposto penas alternativas?
 
O sistema carcerário brasileiro, pelas condições em que se encontram as casas de detenção desde sempre, em nada contribui para a correção dos condenados, um princípio que não se pode afastar mesmo em relação aos criminosos mais perigosos. Se esses, por representarem uma ameaça física à sociedade, não podem estar no convívio direto das pessoas de bem, por um tempo que pode mesmo ser definitivo, não me parece ser o caso dos condenados do mensalão. Esses, sem deixar de reconhecer a extensão dos crimes cometidos, de alguma forma e em alguma medida poderiam ser úteis ao país. Em trabalhos comunitários, de forma produtiva, em vez de submetidos a condenações que lembram, de perto, às do tribunal eclesiástico criado no século XII pela Igreja Católica.
 
 
 

Bergman entre amigos

Rever amigos queridos é sempre uma experiência adorável. Esta semana, por força da presença de Déborah Dantas (namorada) em BH, tive a alegria de conviver "full time" com alguns desses amigos especiais que não encontrava havia uns dez, doze anos. À frente, Lúcio e Raquel Dantas, irmão e cunhada de Déborah, como ela médicos. Grandes médicos, aliás, duas referências entre os maiores oftalmologistas do país. Não à toa viajaram mundo afora para dar cursos e proferir palestras. Uso o verbo, assim, no pretérito, porque, ouvi de viva voz, estão decididos a ficar mais 'em casa', a partir de agora, a fim de aproveitarem mais e melhor a bela vida que construiram juntos. Merecem.
 
Entre um vinho e outro, que Lúcio é soberbo conhecedor da matéria, ficamos a jogar fora conversas que giram, o mais das vezes, em torno dos tempos de Campina Grande, onde fomos contemporâneos numa fase de nossas vidas  que já vai longe. E muito sobre poesia, cinema e viagens. Lúcio e Déborah, aliás, na esteira do pai médico e escritor, Ademar Dantas, são exbuberantes como contista e 'poeta', respectivamente, dos quais guardo de cor coisas da melhor qualidade.
 
A cenas tantas, decidimos rever dois ou três Bergman, o que veio em boa hora, haja vista que Déborah, que foi casada com um sueco, e conhece bem o país nórdico, trouxe bons acréscimos ao que já sei sobre o realizador de Persona, nesses dias em que me tenho dedicado a 'fechar' o texto de minha pesquisa sobre o cineasta. Depois de assistirmos ao esplêndido Sonata de outono, ela aprofunda a análise do relacionamento entre pais e filhos na Suécia, tema central do filme.
 
Daí ao 'amor em Bergman', foi desdobramento natural da conversa. Como é tema recorrente neste espaço, arrisco ir adiante, deixando aqui duas ou três palavras sobre o assunto: Acho que poucos cineastas foram tão a fundo sobre os conflitos entre amantes como Ingmar Bergman, desde os primeiros títulos, lá por meados dos anos 40. Depois, vieram Uma lição de amor, Noites de circo, Sonhos de mulheres, Sorrisos de uma noite de amor, Morangos silvestres, No limiar da vida, A hora do lobo, Vergonha, A paixão de Anna, A hora do amor, Gritos e sussurros, todos mais ou menos sobre os problemas do casal, ao lado, claro, das profundas sondagens sobre a existência de Deus, a solidão e a morte.
 
Em Cenas de um casamento, contudo, Bergman elevou ao paroxismo a dor da separação, o fim do amor entre os casais, a necessidade difícil e pungente de ter de recomeçar a vida sem o outro. O curioso é que Bergman, tantas vezes incompreendido, excede no modernismo de sua arte, e dá voz à mulher, analisando com imparcialidade que apenas se esconde sob um véu transparente, o seu olhar feminista. Talvez por isso, e com um tom de perdão, dedique-o a Liv Ullmann, sua ex-mulher e atriz principal do filme. Mas a este, assistiremos hoje, pelo fim da tarde. Vale rever.  
 
 
 
 
           

Gonzaga, de pai para filho

Tinha voltado de Fortaleza para BH ainda marcado pela leitura de uma biografia musical de Luiz Gonzaga com que o amigo Cesar Lincoln me presenteara. Por coincidência, deparo aqui com a estreia de Gonzaga, de pai para filho, o belo filme de Breno Silveira. Arrisco ir mais longe, talvez contra a crítica especializada, que, obtusa, parece inclinada a desqualificar o segundo longa de Silveira por considerá-lo piegas: 'o belíssimo filme de Breno Silveira'.
 
O que mais me impressionou, já a princípio, foi o fato de não se tratar de uma biografia, apenas, de Luiz Gonzaga, algo na linha do que fez em livro, com reconhecida correção, Bené Fonteles, com O Rei e o Baião, que serve de esteio para o competente roteiro de Patrícia Andrade. Não. O filme tem seu núcleo dramático central pontuado num acerto de contas entre pai e filho, ou seja, Gonzagão e Gonzaguinha, o que extrapola as fronteiras do conflito de gerações e beira o patológico. Isso porque, o filme expõe com clareza, Gonzaga Jr. nunca teria assimilado o fato do pai confiar a sua criação aos padrinhos, fato que marcaria o perfil psicológico do garoto e vai acompanhá-lo por toda vida, tornando complicada  --  e não raro agressiva  --  a relação dos dois.
 
Ambientado o mais das vezes em território nordestino, o filme tem uma direção de arte notável, com um rigor estético que sobressai pela beleza da fotografia em grande parte das cenas, a exemplo da antológica volta de Gonzagão à casa dos pais, já famoso como acordeonista e cantor popular no Rio de Janeiro. A festa que segue à sua chegada, pelo naturalismo das imagens e a perfeita escolha de figurantes, bem como o figurino criado, é um momento sublime do filme, rompendo por instantes o tom um tanto monocorde da narrativa e a vocação compreensivelmente piegas do enredo.
 
A narrativa, que tem início com uma cena de 1981, quando Helena, a esposa de Gonzagão, chega ao Rio de Janeiro para comunicar a Gonzaguinha que o pai dele está necessitando de ajuda, intercala momentos distintos da vida dos dois "Gonzaga", com flashbacks em que se veem a infância difícil do garoto, a adolescência em que contrai a tuberculose e os primeiros acordes ao violão, quando se revela como a luz de um relâmpago o imenso talento de que é possuidor. É aí, claro, onde se depara com uma certa licenciosidade do roteiro, posto que as músicas de Gonzaguinha que se ouvem são de uma outra fase de sua vida, já homem feito. Nada, no entanto, que comprometa a expressividade da narrativa e o bom resultado documental alcançado por Breno Silveira.
 
A acrescentar, a atuação do elenco. Adélio Lima e Chambinho do Acordeon, na pele de Gonzaga, estão muito bem; e Júlio Andrade, como Gonzaguinha adulto, transcende, num trabalho de ator rigoroso, já não bastasse a semelhança física com o autor de Começaria tudo outra vez. Luciano Quirino e Silvia Buarque (filha do compositor famoso), convencem como os padrinhos de Gonzaguinha. Vale conferir. 
 
 
 
  
 
 

Hoje faz 110 anos que Drummond nasceu

Hoje, 31 de outubro, Carlos Drummond de Andrade faria 110 anos. Sobre ele, ao longo desses tantos anos, escrevi muito, inclusive um livro em que exploro os componentes dramáticos de sua poética. A paixão pela obra desse filho de Itabira é de priscas eras, quando, quase menino, fui tomado de inopinada sedução pela força de José, em princípio na voz de Paulo Diniz, um cantor e compositor piauiense que musicara com rara felicidade o poema. Daí a mergulhar na obra completa de Drummond foi um piscar de olhos, quando me vi transitando pela vastidão de sua poesia a um tempo tão mineira e tão universal.
 
Nos meus tempos de teatro, atuando como ator, como que me especializei em interpretar seus poemas, com os quais compus monólogos que levaria a palcos de diferentes plagas, ajudando a fazer cair no gosto dos menos atentos a qualidade de uma literatura que não encontra par entre os escritores de língua portuguesa, desde Fernando Pessoa. A febre drummoniana era tanta, que, muito jovem ainda e tomado de entusiasmo, aonde quer que fosse os amigos pediam para dizer, dramaticamente, seus textos, exercitando um teatro popular para o qual qualquer centro de sala se transformava em palco. Já vão longe esses tempos.
 
O certo é que Carlos Drummond de Andrade é o nome mais alto da nossa literatura, em que pese ter pertencido a uma geração em que se notabilizariam, ainda, outros grandes, extraordinários poetas. Refiro-me à segunda fase da literatura modernista brasileira, a mesma a que pertenceram Cecília Meireles, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes, para ficar nuns poucos nomes obrigatórios. Sem esquecer, claro, que a ela pertenceram prosadores da estatura de um José Lins do Rego, um Jorge Amado, uma Rachel de Queiroz, um Érico Veríssimo e um Gracialiano Ramos, o maior deles, cuja obra, a exemplo do que ocorre com a poesia de Drummond, salta do regional para o universal com igual grandeza e força.
 
A pouca distância de onde escrevo esta crônica, aqui na Pampulha, está o Aeroporto Carlos Drummond de Andrade, uma homenagem que não faz lá muita justiça ao homenageado, posto que se trata de um espaço acanhado e decadente, uma espécie de aeroclube destinado a receber e abrigar aviões particulares e acolher um ou outro voo de aviões de carreira de segunda classe. Enquanto me desloco até a UFMG, todas as manhãs, quase sempre sou condicionado a passar a sua frente, o que não raro me leva a balbuciar fragmentos de Drummond de que nunca esqueço, versos que me ajudaram a compreender melhor os homens, a vida, o mundo, consciente de que a rima, infelizmente, nem sempre é uma solução.
 
 
 
 

Pode apostar, que a gente ganha

Terminada a eleição do segundo turno, ocorre-me recordar um dizer muito usado nos meus tempos de menino, em Iguatu: "Enverga mas não quebra!" O PT é assim, enverga mas não quebra. Depois do verdadeiro massacre que se lhe quis impor, com alguns dos nossos órgãos de imprensa dando exemplos cabais do que não é ético fazer, a propósito do julgamento do mensalão (TV Globo, revista Veja e jornal Folha de São Paulo à frente) o Partido dos Trabalhadores conseguiu chegar a bom termo em 2012. Vamos aos números em relação às maiores cidades. 
 
PT - 32 municípios, com 17,5 milhões de eleitores
PSDB - 31 municípios, com 8,8 milhões de eleitores
PMDB - 29 municípios, com 10,1 milhões de eleitores
PSB - 18 municípios, com 8,7 milhões de eleitores
PSD - 12 municípios, com 2,3 milhões de eleitores
PDT - 11 municípios, com 4,2 milhões de eleitores
PP - 11 municípios, com 2 milhões de eleitores
DEM - 8 municípios, com 3,6 milhões de eleitores
PPS - 7 municípios, com 1,2 milhão de eleitores
PCdoB - 6 municípios, com 1,5 milhão de eleitores
 
É bem verdade que o partido tropeçou em algumas cidades importantes, a exemplo de Fortaleza, Recife e Salvador. Mesmo assim, com a perda de 14 cidades entre as 186 maiores, o PT terá sob o comando de suas administrações 17,5 milhões de eleitores, de um total de 64,1 milhões, o que, se não falha a minha matemática reconhecidamente capenga, corresponde a 27% do contingente total. Em seu favor, ressalte-se, o partido ficará à frente da maior e mais importante capital do país, cujo eleitorado beira os 9 milhões. Sem falar que o PT abocanhou, ao redor de São Paulo, Guarulhos (825 mil eleitores), São Bernardo do Campo (574 mil), Santo André (553 mil) e Osasco (543 mil). Afora outros municípios em diferentes regiões, como Goiânia (850 mil), João Pessoa (480 mil), São José dos Campos (455 mil) e Uberlândia (444 mil).
 
No cômputo geral, o PT ostenta uma confortável terceira posição, perdendo apenas para o PMDB e o PSDB. O primeiro, que se movimenta ao sabor do poder, e, por isso, não representa nenhum obstáculo para o partido da presidente Dilma Rousseff (portanto um aliado do PT nas próximas eleições), conta com 1.031 prefeituras, somando 23,1 milhões de eleitores. O segundo, varrido do seu principal reduto pela força de Lula, tem 702 prefeituras e soma 16,5 milhões de eleitores, o que torna evidentemente complicados os seus projetos futuros, apesar de Aécio Neves e suas ilhadas Minas Gerais, de onde escrevo a coluna de hoje. O PT aparece em seguida, com 636 prefeituras e 27 milhões de eleitores. Para se ter uma ideia como é significativa a distância, o outro adversário considerável do PT, o PSB, de Eduardo Campos, desponta na última colocação entre os grandes partidos, com 467 prefeituras e soma 7, 2 milhões de eleitores.  
 
Assim, mostrada em números, como se vê, em que pese a inescrupulosa utilização do julgamento do mensalão como alternativa para conter o Partido do Trabalhadores, foram por terra as inconfessáveis intenções dos que não suportam Lula e o seu partido. Em 2014, para presidente, pode apostar que a gente ganha!
 
 
 


Os 99 anos do poeta

Amo-te tanto, meu amor! Não cante
o humano coração com mais verdade.
Amo-te como amigo e como amante,
numa sempre diversa realidade.
 
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
e te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade,
dentro da eternidade e a cada instante.
 
Amo-te como um bicho, simplesmente,
de um amor sem mistério e sem virtude.
Com um desejo maciço e permanente.
 
E de te amar assim... tanto e amiúde,
é que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
 
Infalível na arte de conquistar corações, Vinicius de Moraes compôs o emblemático soneto acima, cuja força lírica e sinceridade na revelação deste sentimento tão complexo que é o amor, mostraram-se capazes de ajudar muitos corações desejosos da conquista ao longo desses muitos anos. Atire a primeira pedra aquele que, entre um carinho e outro, ou um detalhe aparentemente desimportante, como o abaixar de uns óculos de sol, não tenha sido, ainda que na eternidade de um instante, satisfeito com as reações de comportamento que tais versos foram capazes de suscitar, aqui ou além. Não raro, desses versos, brotaram amores que parecem nunca ter fim.
 
Nessa sexta-feira 19, Vininha, como era carinhosamente tratado pelos amigos íntimos, faria 99 anos. Dono de um estilo que se notabiliza pela sofisticação, muitas vezes embutida numa aparência de simplicidade e desleixo, Vinicius de Moraes transitou do misticismo da primeira hora, onde a inquietação em torno da existência de Deus explode como um tema incontornável, para o amor que não tem fronteiras, em que o erotismo aflora como uma marca inconfundível de sua sensibilidade poética e do seu fino senso de realidade.
 
Cronologicamente, desponta como um nome da geração de 1930, aquela em que se situam gigantes da poesia modernista, como Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, para não falar da inclassificável Cecília Meireles. Mas seu nome, que a própria condição de sonetista dá a ver, como no poema em destaque, se insere numa certa vocação para o formalismo à Luis Vaz de Camões, de que viria a ser mesmo um exemplo vivo e digno de nota entre os vates brasileiros de todos os tempos.
 
Sem esquecer, claro, o bon vivant das noites varadas, do cigarro entre os dedos e do copo de uísque na mão; do poetinha, como era também tratado nas rodas dos notívagos; do letrista inconfundível, do cidadão galante e sedutor; do casamenteiro, do piadista ou do crítico de cinema polêmico e apaixonado. Esse era Vinicius de Moraes, diplomata, poeta, dramaturgo, compositor, uma das personagens mais exuberantes da inteligência e da vida cultural brasileira.  
 
 

Jornalista Pedro Rocha Jucá

Cuiabá, 13/10/2012

 

Álder:

Em várias oportunidades já destaquei a sua grande capacidade de escrever com o estilo próprio dos que gostam de ultrapassar limites. Conheço você desde criança e posso garantir que a sua evolução literária me impressiona e permite dizer, com absoluta certeza, que os seus méritos pessoais e a sua facilidade de elaborar textos e conteúdos ainda têm muito a nos proporcionar. O infinito está à sua frente. Continue avançando.

PRJUCÁ  

Chope com picanha

A propósito de uma crônica antiga, leitora dirige a este blogueiro uma crítica elegante e, em parte, pertinente. Como se o texto tratasse da vaidade dos homens durante um treino numa academia de musculação, diz ela a uma dada altura: - "Você é uma pessoa pública (sic) e o que diz pode ter repercussão, por isso foi infeliz em dizer aquilo, exaltando os maus hábitos alimentares, estimulando o consumo de bebida e criticando os exercícios físicos!" Como se trata de pessoa conhecida, que sabe da minha vida profissional, talvez tenha se referido ao fato de ser professor e lidar com um público jovem, em sua grande maioria. Erra, apenas, pela falta de 'espírito esportivo' e não perceber que a crônica era essencialmente brincalhona em relação ao tema. Tentarei me redimir.
 
Começo por chamar a atenção para o fato de que está se tornando neurótica essa coisa do politicamente correto. Não vai longe e teremos de pesar as nossas palavras, mesmo quando proferidas nas circunstâncias da informalidade e da descontração  --  ou amenas, cobertas de boa intenção e humor, como foi o caso. Claro que o leitor mais atento não terá visto na minha atitude qualquer leviandade em torno da necessidade de que pratiquemos exercícios físicos e sejamos seletivos e comedidos nos nossos hábitos alimentares, moderando no 'chope e na picanha', por exemplo.
 
Fiquei, no entanto, com a pulga atrás da orelha, como costumava dizer minha mãe. Algum tempo depois, por sorte, a situação me pareceu esclarecida: dias antes, no jornal "A Praça", onde minha crônica é publicada semanalmente, o colunista Everton Alencar escrevera sobre o mesmo assunto, e, segundo viria a saber, fora demasiado 'forte' ao abordar o mesmo tema, suscitando uma reação sem precedentes de um segmento da sociedade, que se sentira particularmente agredido com a referida crônica. Sem entrar no mérito da questão, posto que sequer pude ler o texto do colunista, apenas sinto-me no dever de evidenciar o meu respeito por esse intelectual e colega de lides profissionais. Admito, como mera presunção, que também ele tenha sido mal interpretado em suas palavras. Infelizmente, já se disse, palavra dita é flecha solta...
 
Quanto às academias, particularmente, não vejo como ser mais explícito em afirmar que se trata de um ramo empresarial dos mais importantes e benéficos para qualquer sociedade: Frequento-as há muitos anos e ando com o ego nas alturas com os meus sete quilos a menos em poucos meses de dedicação 'mineira' a anilhas e esteiras. Nada que se compare à boa sensação  de um corpo cuidado e inteiro em frente do espelho, não é mesmo? É a festa da autoestima, tenho dito.
 
Pena que nem todo candidato a magro tenha a aura de Ronaldo 'Fenômeno', sobre quem acabo de ler: "Ronaldinho recebe R$ 6 milhões para participar do Medida Certa da Rede Globo de Televisão". Simples mortal, cara leitora, que eu tenha, quando menos, o direito de tomar um chope com picanha.
 
 
 
 

A lição das urnas

Como o mocinho num western de Sergio Leone ou John Ford, Lula apanhou apanhou, mas deu o golpe fatal e saiu por cima mais uma vez. É ter olhos para ver e consciência intelectual para saber discernir. Só. Depois de quase dois meses de massacre contra o PT, com a transmissão ao vivo do julgamento do mensalão alcançando níveis de audiência só comparáveis aos das telenovelas, o que se pode concluir das urnas, nesse domingo 7, é fato insofismável: Luis Inácio Lula da Silva é, de longe, a maior liderança política do país.
 
Vamos aos números? O PT, que contava 550 prefeituras, agora soma 612, não contabilizadas as cidades em que o partido vai disputar o segundo turno com amplas chances de vitória, a exemplo de Fortaleza, Salvador e São Paulo, de cima para baixo do mapa. Na capital paulista, onde o PT vinha patinando nos últimos pleitos, os indicativos são de que Fernando Haddad vai superar a marca obtida desde que Marta Suplicy, em 2000, com o apoio de Mário Covas, venceu Paulo Maluf e se elegeu prefeita. Daí em diante, todos sabem, o partido sofreu vieses impensáveis: de Genoino para Geraldo Alckmin, em 2002, para governo do Estado, de Marta para Serra, em 2004, idem; de Aloizio Mercadante para Serra, em 2006; de Marta para Gilberto Kassab, em 2008 e, por último, de Aloizio Mercadante para Alckmin, em 2010.
 
Na contramão da truculência que as elites lhe querem atribuir, no caso de São Paulo Lula demonstrou uma sensibilidade para os números eleitorais que, desde ontem, atordoados, os reaças de plantão estão sendo obrigados a engolir. Vejamos: em fins do ano passado o ex-presidente afirmara que nenhum quadro tradicional do partido seria capaz de superar a barreira dos 30% ou 35% do eleitorado da maior e mais importante cidade do país. Referia-se, é óbvio, ao primeiro turno, uma vez que esse percentual jamais será suficiente para fazer um prefeito de São Paulo. Tomou pela mão um nome desconhecido, mas capaz de conquistar a confiança de setores mais conservadores do eleitorado, sem os quais as chances de vencer no segundo turno são inexistentes. Resultado, Haddad não alcançou a meta histórica do partido mas tem amplas possibilidades de ultrapassá-la em muito no segundo turno, uma vez que Russomanno e Gabriel Chalita, nomes mais ao centro e à diretia da sociedade paulistana, praticamente estão condicionados a fechar com o candidato do PT. Confirma-se, como é fácil perceber, que Lula atirou no que viu e acertou em cheio.
 
Com isso, sob a liderança do ex-presidente, o PT abre o raio de alianças possíveis com o centro e a direita, numa estratégia que, se fere os mais radicais do partido, torna-o muito mais competitivo e fortalecido para as eleições que se aproximam. Ou seja, o PT, que tantos consideravam morto após o julgamento do mensalão, mata duas lebres com uma só cajadada: ganha em São Paulo e tira praticamente do páreo a presença incômoda do PSDB paulista, que supunha ver Lula e o PT esboroados nessas eleições.
 
O resultado das urnas, nesse domingo 7, como se vê, trouxe para os coveiros de Lula e do PT uma nítida lição: confirma a liderança incontornável do ex-presidente e a força eleitoral do PT, cuja votação ultrapassou a casa dos 16 milhões. Além, claro, de materializar que os brasileiros ainda se mostram confiantes no que ele e o seu partido representam.    
 

A intelectualidade e o PT

Jornal Folha de S. Paulo traz matéria superinteressante em sua edição dessa segunda-feira: "Haddad seria líder da eleição se apenas a USP votasse". Segundo pesquisa realizada com alunos, servidores e docentes da maior e mais conceituada Universidade brasileira, a eleição seria decidida em favor do candidato do PT a prefeito da cidade com significativa vantagem sobre Serra e Russomano. Mas por que chamamos a atenção para a referida matéria? Porque, para o leitor mais atento, ela diz muito sobre o comportamento eleitoral do mais rico e mais importante estado da federação e põe por terra o preconceito, instalado entre setores dominantes da sociedade paulistana, de que a vitória de Dilma Rousseff para presidente, por exemplo, foi "coisa desses nordestinos analfabetos", a exemplo do que afirmam aos quatro cantos do país as viúvas de FHC.
 
Pois bem. Fica provado, mais uma vez, que o Partido dos Trabalhadores continua categórico entre as 'cabeças pensantes' dessa ilha de excelência da intelectualidade brasileira. Bem na contramão, como se vê, do que apregoam as vozes da reação. Os números destoam, outrossim, dos resultados da cidade como um todo, inclusive os últimos apresentados pelo DataFolha, que apontam Russomano à frente com 30% das intenções de voto, seguido por Serra e Haddad com 22% e 18% respectivamente. A pecha de que o PT é partido dos aposentados e contemplados com o bolsa família, em sua grande maioria nordestinos ou filhos de nordestinos nascidos na cidade, portanto, é novamente questionada de forma absolutamente transparente. Não, o PT continua sendo um partido em que setores importantes da inteligência nacional acreditam, em que pese a tentativa desesperada de obter dividendos eleitoreiros com o julgamento do mensalão.

Na mesma edição, a Folha noticia a morte do pensador Eric Hobsbawm, autor dos clássicos A Era das RevoluçõesA Era do Capital e A Era dos Impérios, livros seminais da moderna historiografia política, aos 95 anos, em Londres. Que relação, todavia, estou querendo estabelecer entre uma notícia e outra? Explico-me: Hobsbawm, que foi um dos mais respeitados estudiosos da atualidade, em entrevista divulgada pelo próprio jornal, tece considerações elogiosas ao comportamento político do Brasil nos últimos anos, evidenciando a importância alcançada pelo país em face da relações internacionais. Diz ele a uma dada altura de sua entrevista: - "[...] politicamente a América Latina é cada vez mais livre. Washington jamais voltará a exercer a influência de antes, tampouco a apoiar golpes e ditaduras como fez no passado. [...] O Brasil tem papel central nesse processo, uma vez que o México se transforma cada vez mais em apêndice dos EUA".
 
Aos que sonham com retrocessos, bem na linha do que faz a grande imprensa no Brasil, Hobsbawm deixa um recado insofismável: - "O ex-comunista que condeno é aquele que militava em grupos de esquerda e que hoje tem uma bandeira única, a de ser anticomunista apenas, esquecendo-se do resto das ideias pelas quais lutava. Também me entristece ver intelectuais jovens, que não passaram pela história dessas lutas, repetindo e tentando tirar proveito desse mesmo tipo de propaganda". Li o depoimento desse monstro sagrado da intelectualidade mundial, infelizmente morto nessa segunda-feira, e me ocorreu lembrar dos artigos publicados pelos Gabeiras 'da vida', tão cheios de ódio e indignação contra Lula e o PT, partido pelo qual, não faz muito, ergueram armas (literalmente!) em defesa de um Brasil mais justo e mais livre. Quanta incoerência! 
 
 




Nas nuvens com Ruy Castro

Amigo envia-me por e-mail crônica de Ruy Castro sobre suposto desaparecimento de livros, CDs, DVDs, telefones fixos, controle remoto, câmeras digitais e mesmo computadores de mesa, os quais serão, no futuro, substituídos por "nuvens", que, a exemplo do genial colunista, também não sei do que se trata. O certo é que, amparado por matéria publicada no jornal "O Globo", Castro afirma que tudo se dará como num passe de mágica, através de smartphones, downloads etc. Ou seja, em breve você acariciará o display do celular, por exemplo, e o mundo estará em suas mãos. E não é do conteúdo da internet de que estou falando. Internet, como a conhecemos hoje, será fichinha diante das tais "nuvens". Que nem a personagem de Ariano Suassuna, "não sei, só sei que vai ser assim". Nefelibatas, é como se dizia daqueles que andavam nas nuvens.
 
Como o meu lado pré-histórico ainda fala em mim, pus-me a pensar como será a vida sem um livro nas mãos, a 'coisa' propriamente dita, palpável, sobretudo quando se tratar de um livro novo, com o seu cheirinho bom e inconfundível. Afinal, até já escrevi sobre isto aqui, a minha relação com o livro é, literalmente, uma relação de amor, que começa, via de regra, na vitrine da livraria. É assim. Fico, em princípio, flertando com a sua perigrafia, a 'roupagem' com que se apresenta, a sua elegância, o seu porte airoso etc., porque, até que o tenha nas mãos, às vezes, levamos um tempo, a 'coisa' e eu, numa troca de olhares sem fim.
 
Não raro, ocorre-me de deixar a abordagem para o próximo encontro, receoso de que não seja aquele o melhor momento. Mais ou menos como acontece com a mulher 'sonhada': você manda flores, torpedos, e-mails, até que um dia a tem nas mãos, sente a textura da pele, a acaricia, consegue beijá-la, levar à cama  --  e sente-se o mais feliz dos homens.
 
Livros, como as mulheres, são surpreendentes, por vezes complicados, mas indispensáveis. No mais das vezes, são maravilhosos. Todavia, há os difíceis, os ofertados, os insinceros, os ardilosos, os transparentes, os mal intencionados, os tímidos, os atirados, os que vêm para ficar, os que partem (sem deixar saudade!), os honestíssimos!, os que traem. Há livros, como as mulheres, de que nunca se esquece; há aqueles que, de tão sem graça, você jamais será capaz de lembrar, a menos que alguém, bem ou mal, venha a lhe falar deles. Ah, os livros... Parodiando Vinicius, alguém haverá de dizer: 'Livros, livros, melhor não lê-los, mas se não os lemos, como sabê-lo!' 

De um outro leitor e amigo, vem-me um pps sobre o Hermitage, o suntuosíssimo museu russo. Que coisa linda! Como todos, um dia, receberão todos os pps que cruzam o mundo pela rede, este haverá lhe chegar às mãos, ou melhor, ao seu endereço eletrônico. Não deixe de vê-lo, que vale a pena. A propósito, no Hermitage se fez o belíssimo filme A arca russa, que recomendo. Todo ele 'rodado' no interior do museu, num único plano-sequência com duração de quase duas horas. Em tempo, devo lembrar: chama-se assim o plano longo sem corte, no caso, só possível com as filmadoras digitais, uma vez que as bobinas dos filmes tradicionais têm a duração aproximada de apenas dez minutos. Por hoje, é só. Tenho dito.


 
 
 
 
 
 

Eis o que é o cinema

O leitor Braz de Almeida, que se diz frequentador assíduo do blog, reclama o fato de que "uso e abuso de termos técnicos do cinema" em muitas de minhas crônicas. Diz, ainda, que isso deixa o leitor "não especializado" com dificuldade para compreender muito do meu texto, que, em linhas gerais, considera "excelente", pelo que agradeço. A exemplo do que faço sempre, portanto, valho-me da coluna de hoje para enriquecer a opinião do amigo, que sei coberta das melhores (e abalizadas!) intenções. Vou por partes:

Os leitores da coluna, a exemplo do próprio, que levanta o comentário, via de regra são pessoas com vivência estreita com a arte, quando não artistas que lidam com diferentes linguagens estéticas. Ou que têm interesse pelo tema. Ao lado de ser um espaço de 'animação cultural', pois, as crônicas aqui publicadas transitam assim, naturalmente, pelos meios em alguma medida familiarizados com a literatura, o cinema, as artes visuais etc., o que requer um tratamento mais apropriado de minha parte. Vejamos.

Sobre o cinema, particularmente, tenho a lembrar o fato de que se trata de uma linguagem, com sua gramática e sintaxe particulares. Não à toa, pois, é correto se falar do 'texto' fílmico, enquanto linguagem articulada. Cinema, como aqui nos interessa, é muito mais que o registro frio e mecânico do real, mas uma arte que se faz mais ou menos expressiva na medida exata em que, o seu realizador, utiliza com sensibilidade e de modo pessoal e criativo os meios de que lança mão para construir o filme: enquadramentos, movimentos e angulações de câmera, cortes, a ordem com que monta o seu discurso fílmico, assim como, guardadas algumas particularidades, faz o poeta ao compor o poema. Você, Braz, para ficar num exemplo.

Não se trata, pois, de querer que todo mundo saia por aí contando o número de planos do filme a que assistiu, enquadramento, travelling,  posição da câmera etc., assim como não se quer que um leitor preparado saia contando substantivos, adjetivos e preposições de um poema. O que se pretende, talvez seja o nosso caso, é que o espectador venha a compreender alguns recursos próprios do cinema, sendo capaz de diferenciá-los, bem como, ainda que inconscientemente, utilizá-los para compreender melhor sua linguagem.

As gravações obtidas de uma câmera posta presa sobre a torre de uma igreja, podem resultar em imagens curiosas, úteis para a sociologia, a polícia, um marido ciumento etc., ou mesmo deslumbrantes de belas, mas, ainda assim, não será isso um filme, mas o registro da realidade apenas. Um filme, como o queremos tratar aqui, pressupõe a intervenção do seu realizador, que faz as suas escolhas entre um plano geral e um close up, por exemplo, que decide entre uma angulação e outra, movimenta o aparelho, faz cortes e, o mais importante, vai juntar partes e montar essas partes num todo capaz de nos contar uma história. No caso da igreja, qualquer câmera, nas mesmas condições de tempo e espaço, fará registros absolutamente iguais. Mas nunca um beijo será o mesmo num plano próximo ou afastado, sobretudo se, durante a sua ocorrência, por vontade do cineasta, a câmera deslizar, em panorâmica, até os dedos crispados da moça, trêmulos, enrijecidos de paixão. Eis o que é o cinema.


Amores que voltam

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            Para  VALÉRIA

Aos olhos do bom cinéfilo, pouca coisa passa despercebida num filme. No Cidadão Kane, sobre o qual já se disse e escreveu quase tudo, há um detalhe de que nunca me esqueci: uma personagem, chamada Bernstein, numa frase durante o desenrolar da história, fala de um encontro seu com uma moça. Ele apenas a viu, quando o barco em que viajava cruzou com o dela no rio Hudson. Orson Welles, que dirige o filme com a sensibilidade de um gênio, não mostra esse 'encontro', não mostra o rio, não mostra os barcos, tampouco os olhares que se cruzaram na eternidade daquele instante. Sabemo-lo pela revelação de Bernstein, já passados tantos anos desde o acontecimento aparentemente banal.

Mas Bernstein afirma que jamais conseguira esquecer a tal moça, durante toda a sua vida, todas as semanas, todos os dias. Por essa razão, um dos críticos de cinema brasileiros que mais aprecio, Paulo Emílio Salles Gomes, estudando a obra-prima de Orson Welles, considera essa moça uma personagem, embora mal saibamos da sua existência na vida de Bernstein, num episódio sem nenhuma importância aparente para o argumento do filme. Ele nos adverte de que a personagem se revela ao espectador pela tonalidade da voz, pelo olhar perdido no vazio, pela expressão perpassada de saudade de Bernstein.

Numas anotações de memórias, que me recuso a chamar de livro, refiro-me a um caso parecido que me ocorreu um dia. Foi no Beaubourg, em Paris, permitam-me contar. Enquanto contemplo atentamente Tristeza do Rei, de Matisse, supostamente a sua última obra, aparece ao meu lado uma mulher de preto, elegante e detentora de uma beleza ligeiramente exótica. Faz considerações inteligentes sobre a técnica do pintor modernista desde que foi diagnosticada a doença irreversível que o levaria à cadeira de rodas. Fala com desenvoltura, olhando-me vez e outra. Compara Matisse a Picasso e Kandinsky. E, finalmente, comenta a Tristeza com um domínio de análise em tudo convincente, original e profundo.

Olha-me ainda uma vez, despede-se com o seu francês impecável, embora deixe claros sinais de que não nascera aqui, que apenas retorna a este centro pelo amor às artes, com que parece traçar seus rumos, tecer seus projetos, sua vida. Atravessa o salão com passadas firmes e serenas, como se fora uma garça negra, sequer olha para os lados. Vai altiva e bela, até que desaparece por uma porta de saída.

A Dama de Preto, como passei a me referir a essa moça desde então, vira e mexe ressurge nas minhas recordações. Vem leve, inesperada como a brisa, desponta de entre a névoa de uma saudade para a qual não encontro explicação. Na vida da gente, acontecem dessas coisas, estranhas, indefiníveis... Sabemos apenas como contá-las... Há amores, por exemplo, que surgem no nosso caminho, assim, fugazes como a moça do rio Hudson para Bernstein. Entrevemo-los como que num cruzar de barcos, durante segundos. Mas insistem... voltam... grudam nas paredes da memória e do coração.

O PSDB, de Serra e Cardoso, é Campeão!

Desde que se iniciou o julgamento do 'mensalão', tenho recebido montanhas de e-mails de pessoas que me identificam como simpatizante do PT. Aliás, erram: sou filiado ao PT, de cujo diretório municipal fui presidente e primeiro vereador eleito na cidade de Iguatu, onde nasci. Voltairiano, no entanto ("Ainda que não concorde com nenhuma de tuas ideias, defenderei até à morte o direito de expressá-las!"), tenho administrado a provocação  --  sem fazer ouvidos de mercador, claro  --, mas de forma sempre respeitosa. Mesmo quando a argumentação, de frouxa e desprovida de fundamento, mais reflete um sentimento de 'viuvez' fernandina, ou de saudade dos tempos de chumbo, o que é pior.

O triste é saber que a reação, que deita raízes no Estado de São Paulo, historicamente o mais reacionário reduto da política nacional, parece empenhada em tomar conta do país, notadamente do Nordeste, a concluir pela origem da maioria dos e-mails que me chegam todos os dias há coisa de um mês. Em se confirmando a expectativa, é duplamente lamentável, posto que, ao lado do reacionarismo, ouve-se a voz de um certo complexo de vira-lata de que nos falou Nelson Rodrigues. Ocorre-me lembrar da campanha levada a efeito por aquela débil mental que aconselhava, via internet, que cada paulista matasse um nordestino, depois da eleição da presidente Dilma.

Há 'nêgo' querendo esganar o ex-presidente Lula por ter, ao que parece, vencido o câncer, a única coisa que lhe faltava vencer, e voltar a subir em palanques do PT ameaçando virar de ponta cabeça os números das pesquisas em algumas cidades do país. Aos olhos dessa gente, o PT é uma "organização criminosa", acusação que qualquer pessoa, minimamente informada, sabe desprovida de consistência. Quer ver? Para não ser acusado de manipular informações, vou trabalhar com dados da Folha de S. Paulo, inimiga figadal do PT,  acerca da Lei da Ficha Limpa em termos nacionais.

Pois bem, segundo números divulgados pelo matutino paulistano, dos 317 políticos impedidos de se candidatar, até o presente, 56 são do PSDB, contra 18 do PT, que ocupa a oitava posição no 'ranking' liderado, de longe!, pelos tucanos, cujo comando geral, todos sabem, tem endereço na Avenida Paulista. Ou seja, em ilícitos, o PSDB dá de 3 a 1 no PT. Quer mais: em termos de malversação do dinheiro público, o partido de Serra e Cardoso conseguiu o impensável, ou seja, superar o PMDB em bandalheira, tradicionalmente pichado como a mais clientelista, fisiológica e viciada em patifaria das grandes agremiações políticas do país.

É ir ao site da Folha e ver: partidos de pouca expressão, como o PSD, do atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, tem mais inelegíveis que o PT, bem como o liliputiano PPS, com 9 impugnações do Tribunal Eleitoral. Como se vê, com a frieza da matemática, infelizmente, Lula tinha razão na famigerada entrevista dada há algum tempo em Paris: o PT fez, no mensalão (e não devia fazer, pelo ideário que professa!), "o que todo partido faz!". Ou não, como diria Caetano, porque nisso os outros são muito piores!




O cinema de meus olhos

"Se o cinema continuar como está, só mesmo o legado de nossas lembranças alimentará qualquer futura história do cinema". A frase está numa crônica de Vinicius de Moraes publicada em 1942. Imagine o leitor que, por essa época, chegava ao Brasil nada mais nada menos que Cidadão Kane, de Orson Welles, o mais importante filme já realizado. Para quem não sabe  --  e conhece Vinicius de Moraes apenas como o grande poeta e compositor que foi  --, devo dizer que assinou textos antológicos sobre cinema, a que era aficionado. Não foi um crítico no rigor do termo, embora conhecesse cinema como poucos, mas um cronista, alguém que discorria sobre a sétima arte com uma leveza e uma poesia que encantam.

A propósito, li nesse final de semana a coletânea O Cinema de Meus Olhos, seleta de textos de Vinicius organizada por Carlos Augusto Calil para a Companhia Das Letras. Pois bem, mas por que falei sobre isto? Ah, lembro!, para dizer da baixíssima qualidade dos filmes que tomam conta das nossas salas de projeção Brasil afora. Em BH, de onde escrevo esta coluna, de dez ou doze filmes que estão em cartaz, um ou dois se aproveitam, se o cinéfilo não estiver numa fase muito exigente. O cinema virou uma sucursal da violência, como diria Arnaldo Jabor, como eu, um saudosista de quatro costados em termos de cinefilia. Aliás, não faz muito, um leitor indagara-me por que 'só escrevo sobre filmes antigos', assim, meio que querendo me chamar de ultrapassado esteticamente falando (risos).

Compro a briga!, meu prezadíssimo leitor, a quem quero paroveitar para agradecer a visita que diz fazer semanalmente ao blog; se, jovem, tivesse deparado com este lixo que enche os nossos cinemas hoje em dia, confesso: jamais teria me tornado o cinéfilo que sou. O cinema contemporâneo, este que atrai os jovens de agora e algum outro público menos exigente, geração coca com pipoca, é medíocre a tal ponto que não merece com rigor ser chamado de Cinema, com maiúscula, que você me perdoe. Isto que você diz ser o "cinema moderno", está mais para poluição visual, ou, já que me referi a Jabor linhas acima, um dos novos cineastas que admiro muito, o que se vê nas telas dos multiplex  "é uma horda infernal de imagens uivando por um lugar ao sol".

Já que você, como não nos foi dado fazer tempos atrás, conta com a facilidade de ver em DVD os 'filmes antigos' a que se refere, em alusão às minhas crônicas de cinema, que tal pegar um Billy Wilder ou um Fritz Lang ou um Bergman ou mesmo um Hichtcock para ver e rever, até descobrir porque este escriba insiste em afirmar que já não se fazem grandes filmes como antigamente? Faça isto e não se haverá de arrepender, asseguro-lhe!

Mas, para não deixar de recomendar um ou dois dos filmes em cartaz, vi À Beira do Caminho, de Breno Silveira (Dois Filhos de Francisco), que agrada pela simplicidade do roteiro e pela direção sensível de um talentoso cineasta brasileiro da novíssima geração. O filme, que traz Dira Paes e João Miguel (aquele ator que fez, aí em Iguatu, O Céu de Suely, lembra?) nos papeis centrais, conta a história de João, um caminhoneiro que teve uma desilusão amorosa e luta para se reencontrar depois de dar carona a um garoto pobre que procura localizar o pai. Um road movie perpassado de canções do melhor Roberto Carlos capaz de tocar qualquer coração, acredite. E Intocáveis, o belíssimo filme de François Cluzet que lembra muito Perfume de Mulher, que, por falta de espaço, deixo para comentar depois. Até lá.

Com a 'bola' toda

Quem já entrou numa academia de musculação sabe: o que há de marmanjo de frente para o espelho, fazendo aquelas poses ridículas é espantoso. Um tipo de narcisismo que era próprio das mulheres e que, de uns tempos para cá, parece mesmo ser um comportamento tipicamente masculino. Um certo padrão masculino, fique bem evidenciado. Na que frequento, em BH, dia desses havia uma rodinha de garotas avaliando esse comportamento autocentrado da 'homarada' e, até onde pude escutar, da esteira em que corria feito um panaca a fim de perder uns quilinhos, nem todas elas 'babam' diante das tais barrigas de tanquinho. Menos mal, pensei com os meus botões.

Há pouco, chegando em casa depois de muito sofrimento entre supinos e abdutores, deparo com um e-mail engraçadíssimo que uma amiga me enviou. Trata-se de uma crônica de autoria de uma psicóloga e sexóloga chamada Carla Moura, 42, sobre quem, confesso, jamais ouvira falar. O texto, vazado numa linguagem entre literária e oral, como é próprio do gênero, traz afirmações hilárias. Dirigindo-se às mulheres, claro, se não firo com esta observação alguma regra do politicamente correto, a sexóloga abre o texto com o que afirma ser um conselho valioso: - "Se você acabou de conhecer um rapaz, tente disfarçadamente descobrir como é sua barriga. Se for musculosa, estilo Tarzan, torneada, tipo 'tanquinho', fuja filha!"

"Comece a correr agora e só pare quando estiver a uma distância bem segura. É fria, vai por mim!", e passa a desfiar o seu rosário de constatações de matar de rir. Para ela, "Homem bom de verdade precisa, obrigatoriamente, ostentar uma barriguinha de chope, se não, não presta ou é viado" (sic). E solta uma observação que, pelo menos para o meu lado mais conservador, tem lá sua pitada de verdade: - "Você nunca verá um homem barrigudinho tirando a camisa dentro de uma boate e dançando como um idiota, em cima do balcão".

A cronista, a uma dada altura, no entanto, dá a ver um pouco de sua plástica, que suponho não seja aquela 'tudo em cima'. Do do ponto de vista estilístico, porém, a tirada revela um traço do seu talento como escritora, que gostaria de elogiar: - "E você não será informada sobre quantas calorias tem (sic) no seu copo de cerveja, porque eles [os barrigudinhos] não sabem e nem se importam. Esses homens  -- diz ela  -- entendem que, se eles não estão em forma perfeita o tempo todo, você também não precisa estar".

E o texto vai deslizando para o prazer da gula, no sentido figurado e literal, repare bem: - "Basta dar duas vezes por semana pra ele que tudo está maravilhoso. Se souber cozinhar, então!, mulher, se joga... Encontrou a sorte grande amiga. Ele vai fazer pra você todas as delícias que sabe, até as que viu na tevê, e nunca torcerá o nariz quando repetir o prato. Pelo contrário, ficará feliz". E arremata, vitoriosa e convicta: - "O Dia Internacional da Barriga está chegando. Quem gosta de homem sarado... Chega de viadagem!" (sic).

Se a tese da cronista tem fundamento ou não, não posso afirmar... Mas que deu coragem para encarar um chope com picanha no happy hour do barzinho, não nego!

Um divã para dois

Por uma dessas coincidências curiosas, o tema explorado nas duas crônicas mais recentes do blog é o leitmotiv do mais aturável dos filmes em cartaz esta semana em Belo Horizonte. Em meio a uma das piores safras do grande cinema, marcada por filmes absolutamente medíocres, portanto, deparar com Um Divã Para Dois (Hope Springs, 2010), de David Frankel, não deixa de ser uma opção para o cinéfilo mais exigente. Não que se trate de uma obra excepcional. Longe disso. O filme de Frankel, que se notabilizou com o notável O Diabo Veste Prada, apresenta, quando menos, um roteiro esteticamente bem intencionado, embora sustentado numa fábula já muito explorada por cineastas de diferentes épocas.

Um casal de meia-idade, de classe média tipicamente americana, comemora os 31 anos de casamento da forma menos excitante que se possa imaginar: renovando a assinatura da tevê a cabo. O simbolismo do fato é notório, claro. Até que a mulher, Kay, interpretada por uma Meryl Strep como sempre convincente, num papel pequeno para a grandeza do seu talento, resolve tentar alternativas de reacender o casamento falido com Arnold (Tommy Lee Jones), um sessentão acomodado e sonolento, comprando um pacote de uma semana numa cidade do interior em que está inclusa uma série de sessões com um psicanalista especializado em problemas de casal.

O filme, que se pretende uma comédia romântica, mas fica a meio caminho entre o romance de costumes e o dramalhão (as cenas mais dramáticas não trazem a densidade que o roteirista talvez tenha pretendido), oscila entre momentos bons e ruins, circunstância em que nem mesmo a sensibilidade do diretor é capaz de dar ao filme o ritmo movimentado que é um dos pontos fortes de David Frankel.

Resultado: pude observar que mais de um espectador deixam a sala de projeção na metade do filme. Mas o leitor, a esta altura, haverá de perguntar: - "Por que, então, Um Divã Para Dois pode ser uma opção para o cinéfilo mais exigente?" Tentarei responder: o filme, em que pesem os pontos claudicantes aqui arrolados, tem uma honestidade narrativa que prende o espectador menos afeito aos filmes de ação enlouquecedora que tomam conta do mercado, reeditando o andamento clássico do bom cinema americano.

A direção, muito embora recorra a meios em nada felizes na tentativa de tornar a película mais envolvente, a exemplo de uma trilha sonora que mais lembra a programação de uma rádio FM, é sensível e inteligente na maior parte da duração do filme. A cena em que Arnold e Kay começam a análise com o psicoterapeuta (Steve Carell), marcada pelos vacilos de linguagem dos dois, é de uma naturalidade dramática que salva o filme e prende o espectador na poltrona a partir de então. É quando vemos a importância dos atores para o filme: Meryl Streep, corajosamente transparente em face das marcas naturais para qualquer sexagenária desprovida de atributos físicos notáveis, mostra-se sublime no papel, como dissemos, indiscutivelmente menor que o seu talento, o que parece dar ao filme a dimensão que lhe faltava enquanto constructo artístico. Tommy Lee Jones não fica atrás. Elaborou bem o personagem e sabe explorar o domínio técnico do bom ator que é.

Eivado de clichês, portanto, mas assentado em bases estéticas simples e sensíveis, que fazem a diferença quando atravessamos uma das piores fases da cinematografia de Hoolywood, incapaz de atender aos anseios de um público cinéfilo minimamente refinado, apesar de suas fragilidades, Um Divã Para Dois justifica que se saia de casa para vê-lo.



    

Sentimento de posse

Sempre que posso, leio as crônicas de Ivan Martins. Esta semana, escreveu sobre "amores clandestinos" e, a concluir pelo número de comentários enviados para o seu blog, o assunto terá interessado muitíssimo aos leitores, notadamente as mulheres. Como fica claro a partir do título da coluna, o tema são os relacionamentos extraconjugais. Nada de novo, nada de excepcional no que diz. Então, porque o assunto continua a despertar tanto o interesse de todo mundo? Arrisco emitir uma opinião: acho que, tendo existido sempre, desde épocas as mais remotas, a infidelidade é ainda algo com que não se aprendeu a lidar, nem mesmo quando a amante é a mulher, ou seja, quando o infiel, no triângulo, é o homem.

Aliás, não é sem cabimento que ouso afirmar: no passado, aceitava-se melhor a situação. Todo mundo terá sabido, um dia, de casos de traição que pareciam fazer parte da vida dos casais  --  fingia-se não existir e cada um procurava tocar sua vida da melhor maneira. Sei que, a esta altura, a leitora (ou o leitor) arma-se com sete pedras contra mim. Minutinho: óbvio que hoje, diferentemente do que era comum no passado, a mulher, sobremaneira, tem vida independente e, sabendo-se traída, desfaz o casamento sem que isso lhe faça, em termos práticos, a menor diferença. Não é o contrário que estou querendo dizer, mas, sim, levantar uma reflexão: se a traição é coisa menos traumática, quase fazendo parte das expectativas de vida de todo casal moderno (?), como afirma o articulista, e as mulheres confirmam (pelo que pude entender dos comentários publicados), por que essa experiência ainda leva tanta gente a se descabelar e sofrer, quando descoberta a relação fora do casamento?

É que, no fundo, nos relacionamentos, carregamos ainda dentro de nós valores que têm o seu equivalente no sentimento de posse. Quero dizer: mesmo quando o amor já tiver ido pelos ares, ninguém saberá ainda conviver com a perda, não da pessoa que se amou um dia (e que já não representará muito), mas do direito de posse, da disponibilidade da "coisa" que se poderá ter, sempre que desejada. E não estou me referindo aos homens, apenas. Mesmo as mulheres se desconstroem diante da doída novidade: "Não sou a única na vida dele!"

"Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa. Ninguém é de ninguém, até quem nos abraça", recordo da estrofe de uma canção popular que a minha mãe cantava sempre. À época, portanto (a música de Cauby Peixoto é dos anos sessenta), o imaginário popular já procurava refletir sobre as perdas às quais me refiro  --  e tentar encontrar explicações razoáveis para as desilusões amorosas. E no entanto, cinquenta e muitos anos depois, quando se pensa valorizar tanto a liberdade, uma crônica sobre a matéria, a exemplo de Amores Clandestinos, de Ivan Martins, continua a mexer com o 'inconsciente' das pessoas e a suscitar tanta divergência. Por quê?
 
Tempos atrás, referindo-me à desconfortável experiência de um ex-fumante ao lado de alguém com o cigarro aceso, escrevi numa crônica: "Para quem parou de fumar, o cigarro é como a ex-mulher, você está convencido de que não quer mais, mas não tolera vê-la na mão dos outros". É claro que, de tanto passar o tempo, um dia isto lhe será indiferente, mas, até chegar esse momento, muito machão ainda ficará sem saber aonde colocar as mãos. O equivocado sentimento de posse. 

O homem ou a mulher ideal

Leio no blog de uma jornalista de renome sobre a declaração de Zezé di Camargo acerca da fidelidade masculina: - "Não existe homem fiel. Existe homem numa fase fiel". A frase, diz a cronista, teria sido dita pelo cantor nas circunstâncias de sua separação da mulher Zilu, com quem viveu por 30 anos e sobre quem, não faz muito, ouvi numa entrevista do mesmo Zezé, tratar-se de sua 'cara-metade'. Lembrei disso a propósito de considerar que não existe essa coisa de cara-metade. Cada vez mais fica provado: ama-se o amor, não o objeto amado. Ama-se, bem na linha do que professou Platão, aquilo que não se tem. Ou que se perdeu.

Em Todos dizem eu te amo, um filme antigo de Woody Allen, há sobre isso uma situação curiosa. Von, a personagem interpretada por Julia Roberts, simboliza bem esse tipo de fantasia que todo homem e toda mulher, em alguma medida, vivencia cedo ou tarde. A uma dada altura, Von revela ao seu psicanalista o que considera ideal num homem, o tipo com quem gostaria de viver para sempre. Descobrindo os parâmetros de avaliação da moça, a personagem interpretada por Woody Allen a conquista e passa a se conduzir pelo modelo sonhado. Resultado: em pouco tempo o casal se separa. É que Von descobre-se uma inconstante: se o homem a satisfaz por completo não serve, ela precisa estar insatisfeita.

Na vida, por inconsequente que seja, é mesmo assim. Por isso, o príncipe encantado logo, logo, vira um chato. A mulher, um dia encantadora, torna-se, com o passar dos anos, uma companhia insuportável. E aquele jeito carinhoso com que lhe tratava no começo da relação? Pois é, virou um troço sem graça, pegajoso, insuportavelmente derramado. A sua outra metade, que "nascera para você", no fundo era "uma dominadora", "um ser egocêntrico, incapaz de fazer alguém feliz". E você, sem se dar conta, passa a viver de devaneios, de buscas, pulando de galho em galho (ou sonhando com isso), que um dia, você pensa, haverá de encontrar aquele ou aquela que vai preencher seu vazio, completar seu mundo.

Não faz muito, lendo Éric Vartzbed, deparei com duas declarações da atriz Mia Farrow que, por oportuno, tomo a liberdade de reproduzir aqui. A primeira, quando a atriz tinha 19 anos: - "Quero fazer uma grande carreira, casar com um grande homem e ter uma vida notável. É preciso ver longe, é o único meio de chegar lá". A segunda, aos 59: - "Agora entendo: viver é aprender a perder com a maior elegância possível... e ser capaz de aproveitar tudo que se oferece a você".

Escusável dizer: Mia Farrow é uma atriz extremamente talentosa, e uma mulher cujo equilíbrio e forma de conduzir a vida é admirada por todos. Um dia, deparou com alquém que julgou ser o "grande homem ideal". Deu no que deu. Woody Allen, era este o seu nome, apaixonou-se pela enteada, desfez seu casamento com Farrow e a mergulhou por uns tempos, ainda que não possa ser condenado por isso, num mar de decepção e amargura. Mia se refez, reconstruiu sua vida e, incontestável!, soube 'perder com a elegância possível e foi capaz de aproveitar tudo que a vida lhe ofereceu'. É feliz, até onde se sabe, e leva adiante uma carreira brilhante.

O segredo, se segredo existe, está em descobrir, um dia, que nunca nasceu nem nascerá a mulher ou o homem ideal. Existe alguém com quem nos identificamos, depois de muitos erros e tropeços, muitas buscas, muitos encontros e desencontros. Alguém, como nós, detentor de qualidades e defeitos, que, feitas as contas e contabilizadas as vantagens e as desvantagens, é capaz de nos mostrar, como num filme de Benigni, que "a vida é bela" e que cabe a cada um de nós saber aproveitar do outro o que tem de bom, bem como dar a ele ou ela o que há de melhor em nós. Quem sabe não seja isso o que chamam de felicidade?!


Triste horizonte, destroçado amor

Escrevo a coluna de hoje da cidade de Belo Horizonte, onde fixo residência pelos próximos dez ou doze meses. Deparo, claro, com uma capital ainda mais desenvolvida e imensa do que há coisa de uns dez, onze anos, quando aqui estive a última vez. À primeira impressão, contudo, é de que a metrópole de agora se distancia, cada vez mais, do sortilégio que seu nome tem. Não sem razão, pois, como um bom drummoniano, ocorre-me lembrar dos antológicos versos: "Sossega saudade minha, não me cicies mais o impróprio convite. Não quero ver-te mais, meu triste horizonte, meu destroçado amor".

O poeta escreveu essa estrofe antológica há muitos anos, lá pela segunda metade da década de 1970, quando uma companhia do ramo de mineração, com suas máquinas poderosas e insensíveis, começava a desfigurar as serras que cercam a capital mineira, deixando-as com uma aparência que lembra imensos dentes podres. Sem o verde que as cobria e as esculturais formas com que as mãos de Deus desenhara a natureza pródiga destas alterosas, de onde produzo 'estas mal traçadas linhas', numa noite fria e intimista de um quarto de hotel na Pampulha, Belo Horizonte parece outra cidade.

O ano, agora me recordo, era o de 1976. Carlos Drummond de Andrade, já morando no Rio, prometera, em protesto contra as ações criminosas da empresa, nunca mais retornar a Belo Horizonte, coisa que realmente nunca faria até sua morte em 1987. O poema, que serviria de instrumento de luta pela preservação do meio-ambiente (movimento, à época, ainda tímido, se comparado a hoje) é mesmo uma peça digna das mais exigentes antologias poéticas das literaturas de língua portuguesa. A uma dada altura, como que vibram em meus ouvidos esses versos compungidos e formalmente requintados: "Não voltarei para o que não merece ser visto, se revogado não pode ser".

Drummond morreria antes de ver, se não as montanhas, carcomidas (estes restos de uma beleza natural que jamais se reconstituirá), pelo menos a aplicação legal contra a continuidade do processo desfigurador da empresa, resultado da bravura do Greenpeace contra a exploração insana dos minérios que abundavam em suas entranhas. "Esquecer, quero esquecer é a brutal Belo Horizonte que se empavona sobre o corpo crucificado da primeira. Quero não saber da traição de seus santos. Eles a protegiam, agora protegem-se a si mesmos".

Andando pelas sinuosas e acidentadas avenidas desta cidade, que quase não reconheço mais, em meio a uma profusão do que se dizem obras para a Copa de 2014, foi impossível não lembrar do filho ilustre dessas Minas Gerais, quase a repetir, de cor: " Esta serra tem dono. Não mais a natureza a governa. Desfaz-se, com o minério, uma antiga aliança, um rito da cidade".

Este ano, diga-se, por oportuno, o Estado de Minas, Itabira à frente, regozija-se, como que numa ironia em face do que os meus olhos veem, pelos 110 anos desde o nascimento do maior e mais admirado poeta brasileiro de todos os tempos, autor dos versos que me vieram à mente e ao coração, em plena Via Contorno, nesta tarde fria e cinzenta da capital mineira.





O Negro no Futebol Brasileiro

Leitora me manda de presente o raríssimo O Negro no Futebol Brasileiro, de Mario Filho. O livro é uma preciosidade e me tragou por completo desde folheadas as primeiras páginas. Mario Filho, cujo nome está imortalizado no Maracanã, maior e mais importante estádio de futebol do país, foi o mais famoso cronista esportivo brasileiro, morto em 1966.

O livro, numa prosa elegante e expressiva que consagrou o seu autor, traz a trajetória do negro no futebol brasileiro, as dificuldades e preconceitos que marcaram a sua presença nos campos e fora deles a partir de inícios do século XX. Não à toa, pois, é considerado um trabalho tão importante quanto os clássicos Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. ou Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda. Sim, não estou exagerando, haja vista que o levantamento realizado por Mario constitui uma contribuição relevante para o conjunto de obras já escritas sobre o caráter nacional brasileiro. O faz com um rigor e uma maestria dignos dos nossos mais importantes intérpretes da identidade nacional, sendo, pois, um livro indispensável.

Ao lado de trazer histórias por demais curiosas sobre o esporte bretão no Brasil, como o fato de que era comum jogadores beberem repetidas doses de cachaça minutos antes das partidas, o livro de Mario Filho confirma o preconceito racial reinante entre nós e tantas vezes encoberto mesmo por autores da estatura de Gilberto Freyre, a quem se devem algumas das páginas mais brilhantes acerca da formação do país. E quase nunca exploradas pelos historiadores do nosso futebol, diga-se em tempo.

Sobre a derrota para os uruguaios em 1950, por exemplo, de que resultaria um dos traumas mais profundos de nossa identidade futebolística (o surgimento do complexo de vira-lata do brasileiro, segundo Nelson Rodrigues, irmão de Mario), o livro evidencia o quanto a questão racial aflorou nos meses que se seguiram àqueles inesquecíveis 2 a 1: a responsabilidade pela derrota, inclusive pela imprensa especializada, foi enfaticamente atribuída aos jogadores negros do escrete brasileiro, nomeadamente Barbosa, Juvenal e Bigode.

Sobre o último, famoso pela valentia, Mario fornece um detalhe do jogo com o Uruguai absolutamente estarrecedor, que serviria para 'justificar' os comentários preconceituosos dirigidos ao nosso zaga: "Quando Bigode, duro, dando aqueles botes de cobra, começou a dominar Gigghia, Obdúlio Varela primeiro foi para cima de Gigghia. Deu-lhe uns gritos, uns empurrões. Para Gigghia deixar de ser covarde. Depois, logo em seguida, Obdúlio Varela agarrou Bigode pelo pescoço. Não lhe meteu a mão na cara. Mas que o balançou em safanões, balançou".

O fato é que, deixado de lado o preconceito inaceitável, mesmo para Mario Filho, o fato teria sido quase decisivo, posto que Gigghia passou a levar vantagem nas disputas com Bigode. Este, orientado a não reagir às agressões do time uruguaio, passou a zonzar em campo, humilhado diante de duzentos e vinte mil brasileiros. Dou a palavra ao escritor: "[...] com as faces ardendo de vergonha, contendo-se, Bigode não dominou mais Gigghia. Os dois gols uruguaios saíram dos pés de Gigghia. Bigode, sempre recuando, não se atrevendo mais a dar o bote de cobra com os pés juntos". À época, o popular 'carrinho' era um recurso legítimo e uma das armas defensivas do jogador brasileiro.

Para fechar a coluna, ainda pela pena de Mario Filho, autor do belo O Negro no Futebol Brasileiro, deixo ao leitor a mais triste página da história do Brasil nas Copas: "Gigghia chutou para o gol. A bola ia para fora, para as redes do lado de fora. Barbosa, porém, atirou-se e, quando sentiu que a bola passara, levou a mão esquerda para trás, para puxá-la, como às vezes fazia. Em vez de puxá-la, o que fez foi desviar-lhe o caminho, de fora para dentro do gol".