Eis o que é o cinema

O leitor Braz de Almeida, que se diz frequentador assíduo do blog, reclama o fato de que "uso e abuso de termos técnicos do cinema" em muitas de minhas crônicas. Diz, ainda, que isso deixa o leitor "não especializado" com dificuldade para compreender muito do meu texto, que, em linhas gerais, considera "excelente", pelo que agradeço. A exemplo do que faço sempre, portanto, valho-me da coluna de hoje para enriquecer a opinião do amigo, que sei coberta das melhores (e abalizadas!) intenções. Vou por partes:

Os leitores da coluna, a exemplo do próprio, que levanta o comentário, via de regra são pessoas com vivência estreita com a arte, quando não artistas que lidam com diferentes linguagens estéticas. Ou que têm interesse pelo tema. Ao lado de ser um espaço de 'animação cultural', pois, as crônicas aqui publicadas transitam assim, naturalmente, pelos meios em alguma medida familiarizados com a literatura, o cinema, as artes visuais etc., o que requer um tratamento mais apropriado de minha parte. Vejamos.

Sobre o cinema, particularmente, tenho a lembrar o fato de que se trata de uma linguagem, com sua gramática e sintaxe particulares. Não à toa, pois, é correto se falar do 'texto' fílmico, enquanto linguagem articulada. Cinema, como aqui nos interessa, é muito mais que o registro frio e mecânico do real, mas uma arte que se faz mais ou menos expressiva na medida exata em que, o seu realizador, utiliza com sensibilidade e de modo pessoal e criativo os meios de que lança mão para construir o filme: enquadramentos, movimentos e angulações de câmera, cortes, a ordem com que monta o seu discurso fílmico, assim como, guardadas algumas particularidades, faz o poeta ao compor o poema. Você, Braz, para ficar num exemplo.

Não se trata, pois, de querer que todo mundo saia por aí contando o número de planos do filme a que assistiu, enquadramento, travelling,  posição da câmera etc., assim como não se quer que um leitor preparado saia contando substantivos, adjetivos e preposições de um poema. O que se pretende, talvez seja o nosso caso, é que o espectador venha a compreender alguns recursos próprios do cinema, sendo capaz de diferenciá-los, bem como, ainda que inconscientemente, utilizá-los para compreender melhor sua linguagem.

As gravações obtidas de uma câmera posta presa sobre a torre de uma igreja, podem resultar em imagens curiosas, úteis para a sociologia, a polícia, um marido ciumento etc., ou mesmo deslumbrantes de belas, mas, ainda assim, não será isso um filme, mas o registro da realidade apenas. Um filme, como o queremos tratar aqui, pressupõe a intervenção do seu realizador, que faz as suas escolhas entre um plano geral e um close up, por exemplo, que decide entre uma angulação e outra, movimenta o aparelho, faz cortes e, o mais importante, vai juntar partes e montar essas partes num todo capaz de nos contar uma história. No caso da igreja, qualquer câmera, nas mesmas condições de tempo e espaço, fará registros absolutamente iguais. Mas nunca um beijo será o mesmo num plano próximo ou afastado, sobretudo se, durante a sua ocorrência, por vontade do cineasta, a câmera deslizar, em panorâmica, até os dedos crispados da moça, trêmulos, enrijecidos de paixão. Eis o que é o cinema.


Um comentário:

  1. Olá, Álder!

    Bem, não seria de todo espantoso algum leitor comentar sobre qualquer dificuldade de interpretação de suas crônicas, mesmo porque, este certamente não está habituado ao conteúdo Audiovisual, e sim, com todo respeito ao leitor por você citado, ao futebol, fofocas, obituários, novelas, etc.

    Abraços e sucesso sempre!

    E continue escrevendo o que sempre escreve.

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