Cine Alvorada

Como não pagasse entrada, posto que o dono do cinema era meu tio, ainda menino não perdia nem mesmo os filmes mais 'sérios', a exemplo de Os Incompreendidos e Acossado, de François Truffaut e Jean-Luc Godard, respectivamente, que viriam a figurar entre os meus cineastas preferidos.
 
Algumas dessas produções, não sei explicar com segurança por que chegavam a uma cidade sem qualquer tradição em termos de cinefilia. Acho que o fato prendia-se a uma questão meramente comercial, supostamente por serem oferecidos aos donos do cinema a preços promocionais.
 
Curiosamente, no entanto, por surpreendente que seja, tinham essas películas seu público assegurado. Herméticos ou não, rebuscados, cinema de arte, film noir, neorrealismo italiano, enfim, estava eu lá, o que decerto justifica que tenha adquirido uma verdadeira paixão pela sétima arte.Via tudo, do pop americano, passando pelos franceses e italianos, aos westerns, gêneros que passei a acompanhar com grande interesse quando fui morar num grande centro.
 
O interesse pelo cinema, tempos depois, ensejaria um convite para dirigir um super-oito plasmado na peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garret. A película foi doada à UFC, mas é provável que, como a parte magnética dessas fitas é extremamente delicada, não exista mais. Além do que, assumidamente, o filme resultou muito ruim, colegial mesmo. É claro que foi rodado em condições precárias e com recursos ínfimos, mas nada justifica que o tenha realizado tão amadoristicamente.
 
O roteiro fora adaptado por mim e por Maria de Jesus de Sá Correia, hoje importante profissional ligada à Universidade Federal do Ceará e, já à época, grande conhecedora da literatura de Portugal.

A história narra os acontecimentos imediatamente posteriores à batalha de Alcácer-Quibir, (1578), em que desaparecera o rei D. Sebastião. Daí deriva o mito do "sebastianismo", segundo o qual D. Sebastião retornaria para redimir seu povo, que constitui um dos temas centrais da peça de Garret.
 
Hoje, com o advento do DVD, vejo e revejo filmes com freqüência, tenho predileção pelo drama, seja ele americano, francês ou italiano. Adoro Antonioni, Federico Felline, Ingmar Bergman, Billy Wilder e, entre os contemporâneos, Woody Allen, Pedro Almodóvar, Roman Polanski, Wim Wenders e Lars Von Trier, de quem vi, por último, Medeia, verdadeira obra-prima realizada a partir de um roteiro inédito de Carl. T. Dreyer. 
 
Não tendo uma biografia que pudesse justificar um livro, é o meu amor pelas artes, os meus filmes, livros e discos preferidos a matéria com que, sem tirar o olho da realidade, tive o atrevimento de escrever, tempo desse, minhas memórias. Quando menos, que sejam interessantes para os meus filhos. Isto já me basta!
            
            
           

Yellow Press

Parte da imprensa brasileira, leia-se revista Veja e TV Globo e suas afiliadas, permanece num silêncio sepulcral em relação aos escândalos envolvendo sucessivos governos do PSDB em São Paulo e a gigantesca francesa Alstom. Primeiro, a comprovada formação de cartel para manipular licitações do Metrô e da CPTM em que estiveram envolvidos Mário Covas (pasmem!), José Serra e Geraldo Alckmin, cujas cifras de ilícitos já levantadas atingem dimensões aterradoras.
 
O caso, que mereceu destaque nos principais jornais europeus, sabe-se, é objeto de processo na Justiça desde que a empresa alemã Siemens assumiu ter pago propinas expressivas aos contratantes. Enquanto isso, a revista Veja, por exemplo, dedica metade das páginas de sua última edição a falar dos benefícios do "suco verde". Para não falar do "Cara Pálida" do Jornal Nacional da principal emissora de tevê brasileira. Fosse o PT...
 
Agora, quando se pensava que a roubalheira dos tucanos tivesse limites, novo tentáculo da promiscuidade vem à tona. Não é só em torno das licitações de trens do Metrô que a bandalheira vinha se verificando: os negócios da Alstom com a Empresa Paulista de Transmissão de Energia (EPTE), desde o primeiro mandato de Covas, em 1998, vem apresentando irregularidades gritantes.
 
Segundo pude ver em sites de diferentes jornais, pela Internet, a companhia francesa, em pelo menos dois contratos firmados à época, assume ter feito "doações" algo em torno de 15% dos valores fixados, pouco mais pouco menos que R$ 52 milhões. Deste dinheiro, uma metade era depositada, aqui, em contas dos envolvidos, e a outra metade em contas na Suíça. Tudo isso a fim de que não fosse instalado o processo licitatório previsto em Lei. Ou seja, burla às licitações legais com o fim de obter vantagens em cada negócio firmado.
 
Na contramão do que fazem a revista Veja e a TV Globo, em relação a esses casos e ao Mensalão do PSDB de Minas Gerais, que se arrasta a anos na 'Justiça', a Folha de S. Paulo, pelo menos, traz em sua edição de hoje um tímido e vacilante editorial sobre a matéria. Enquanto isso, segundo o importante jornal, "[...] a população do Estado [de São Paulo] ainda aguarda uma demonstração inequívoca de que ela e o governador se guiam mais pelo interesse do que por razões partidárias." Ok.
 
Em tempos que já vão longe, um caso envolvendo dois importantes jornais americanos, o New York World e o The New York, deu margem a uma curiosa expressão com que se passou a tratar as publicações inescrupulosas mundo afora. Entre nós, numa inversão cromática que se deve ao jornalista Calazans Fernandes, trocou-se o amarelo pelo marrom, ou seja, ficou "imprensa marrom". Menos ameno, como se vê. 
 
 
 

A eterna impossibilidade do Amor

Ligo a tevê e deparo, por coincidência, com o início do surpreendentemente belo Romance, filme de Guel Arraes, plasmado no mito medieval de Tristão e Isolda. Intertextualidade no melhor estilo, uma vez que a narrativa se desenvolve em torno da paixão que, como no mito, arrebata os corações de dois jovens atores durante a montagem teatral da famosa lenda, o filme ainda 'discute' com notável sensibilidade as relações teatro/tevê em que estão diretamente envolvidas as personagens centrais do enredo, que conta, ainda, com a participação menos convincente de José Wilker.
 
Restrição à parte, Guel Arraes conseguiu na produção do roteiro e na direção extremamente sensível do elenco um elogiável feito (sem falar na sedutora movimentação de câmera, angulações, enquadramentos e trilha musical, impecáveis), considere-se que a história de amor em que se inspira é trabalho já muito mastigado, com destaque para as inúmeras montagens da ópera do alemão Richard Wagner, muitas das quais disponibilizadas em DVD para o grande público. Para não falar, ainda, da conhecida versão para o cinema de Kevin Reynolds, de 2006, com James Franco, Sophia Myles e David O'Hara nos papeis principais. Que há de novo, então?
 
Começo por lembrar que, como toda adaptação, escrever a partir de um texto já conhecido é uma experiência que em nada deve escravizar o artista, mesmo em se tratando, como é o caso, de uma obra muitíssimo consagrada, um dos clássicos mais respeitados acerca do amor romântico. É o que fez Arraes, debruçando-se sobre um mito cujas raízes remetem ao séc. XIII, supostamente à história narrada por Gottfried von Satrasburg, em que o compositor Wagner assentou as bases de sua incomparável ópera.
 
Em Romance, todavia, o roteirista e diretor pernambucano manteve-se atento ao núcleo dramático do clássico, cuja tessitura gira em torno do desejo, da sexualidade e do amor trágico, o que corresponde a afirmar que se conduziu com fidedignidade ao que é mesmo a essência do mito. O fato de recriar situações, como o faz ao explorar desdobramentos da história, trazendo-a até o Sertão da Paraíba, na segunda metade do filme, no que se pode identificar como um "movimento para o abismo" (como os franceses definem a narrativa que comporta dentro de si outra narrativa), é coisa que só acrescenta ao seu trabalho, emprestando-lhe um cheiro de Nordeste que em nada diminui a sua dimensão universalista. Bela intervenção.
 
Sob este aspecto, aliás, ocorre-me lembrar que outro nordestino de cepa, Ariano Suassuna, já o fizera com o mesmo Tristão e Isolda, recriando esse encantador romance naquela que seria a sua primeira experiência na prosa de ficção. Trata-se de A história do amor de Fernando e Isaura, escrita em 1956 e mantida inédita até 1994, quando saiu em primeira edição pela José Olympio. Ambientada não no Sertão, mas no litoral de Alagoas, numa suposta alusão aos mares da Irlanda que Tristão atravessa para encontrar Isolda, o livro narra os peripécias de dois amantes infelizes. O que há de extraordinário numa obra, assim, que justifique a sua imortalidade, é o que se haverá de perguntar.
 
Por certo o fato de que, como na lenda celta, ainda vivemos no amor as experiências mais contraditórias, este misto de contentamento e descontentamento de que nos falou Camões, e Dante, e Miguel de Cervantes, e Shakespeare, um sentimento que muitas vezes cresce a ponto de não caber no mundo físico. Quando isso acontece (e acontece sempre, cedo ou tarde, na vida de cada um), é hora de buscar a bela mentira da Arte. É que ela é a única capaz de nos revelar as mais fundas verdades. Que tal assistir ao filme?*
 
* Disponível em DVD.
 
 
           

Duas palavras sobre Eusébio

Eu tinha dez anos em 1966. O Brasil vinha de duas conquistas mundiais, 58 e 62, na Suécia e no Chile, respectivamente. Por isso, qualquer garoto, à época, pelo menos neste país, era fissurado em futebol. Eu acordava e dormia pensando em nossos ídolos, Garrincha à frente, que já me fizera, meio sem o saber explicar, torcer alucinadamente pelo Botafogo do Rio. Mas havia, claro, ídolos igualmente amados, Nilton Santos e Didi, mais que o restante do grupo  --  uma vez que Pelé, sendo do Santos Futebol Clube, então o mais ferrenho adversário do Glorioso de General Severiano, era visto pelos 'olhos pequenos' do menino, como um meio-adversário. Só na Copa do Mundo jogava para o lado o preconceito e me encantava, como todo mundo, com a genialidade de sua arte.
 
Pois bem, era 1966. O Brasil, o futebol brasileiro, na sequência de dois campeonatos mundiais irrepreensíveis (não se sabe qual o melhor time, se o de 58 ou o de 62), despencava do alto de uma crise de gerenciamento, sem precedentes na história do nosso futebol, para cair de quatro nos gramados de Londres em busca do TRI, tão decantado pelos quatro cantos do país.
 
Depois de uma vitória sem graça sobre a Bulgária, com dois gols de falta, Garrincha e Pelé, não me recordo se nesta sequência, veio o fiasco, e o que se viu foi um vexame jamais esperado por qualquer torcedor do Brasil ou de qualquer outro país. No terceiro jogo (no segundo fomos derrotados pela Hungria por 3 a 1), contra Portugal, levamos um passeio dos lusitanos daqueles que tentamos e não conseguimos esquecer. Menino, eu grudava o ouvido no alto-falante de um velho "Semp" e me desesperava com o que narrava o locutor da Globo (acho que Valdir Amaral) cada vez que um negrinho português, na realidade moçambicano, chamado Eusébio, pegava a bola para driblar, quando menos, dois ou três brasileiros até chegar nas proximidades do gol do aturdido botafoguense Manga. Pelé perdido em campo.
 
Lembrei disso, semana que termina, quando a imprensa noticiou o falecimento de Eusébio Ferreira da Silva, de um ataque cardíaco, em Lisboa, aos 71 anos. Confesso que foi outro o sentimento, bem diferente daquele que me invadia o coração àquela época, brasileirinho inconformado com o fato de que, pelo menos por alguns anos, o Rei do futebol não fosse brasileiro  --  e atendesse pelo poético apelido de "pérola negra". Não por que as circunstâncias da morte quase sempre nos levem a rever julgamentos e avaliações, é óbvio, mas por compreender, 47 anos depois, que existem outros países, outros povos e, natural, outros ídolos igualmente amados. Eusébio por exemplo, que o caso de Maradona ainda precisa ser melhor digerido, quem sabe daqui a mais uns 40 anos.
 
Em Portugal e Moçambique, tal qual ocorreria, aqui, com os craques brasileiros quatro anos depois, com o TRI finalmente conquistado, a figura de Eusébio, comenta-se, foi explorada politicamente pela ditadura. Não sei, posto que me faltam elementos com que possa defender uma posição acerca disso. O que é certo, e é do que estou falando agora, é que o jogador português, nascido em Lourenço Marques, capital da colônia portuguesa à época (hoje chama-se Maputo), na minha humilde opinião, deve figurar em qualquer relação dos maiores jogadores de todos os tempos. Há quem o diga o terceiro, numa lista em que aparecem Pelé e Maradona.
 
Para não me chamarem de omisso em relação a ter sido usado em favor dos regimes autoritários, apenas sei que o ditador António de Oliveira Salazar o considerou sempre um patrimônio de Portugal, intervindo contra as negociações do jogador, pelo Benfica, com a Inter de Milão, no auge da carreira de Eusébio.
 
Vi pela tevê, depois de marcar dois gols na vitória por três a zero contra o Celta de Vigo, vestindo a camisa do Real Madrid, o atual gênio português, Cristiano Ronaldo, dedicar ao ídolo falecido essas bonitas palavras: - "Dedico meus dois gols a você, Eusébio, mas a verdade é que você os marcou. Você está sempre em meu coração". Quero crer que Eusébio estará sempre no coração de todos!
            
           

O Improvável Presidente do Brasil

Não resisto à tentação de comprar (e ler, claro!) O Improvável Presidente do Brasil, o recém-lançado relato autobiográfico de Fernando Henrique Cardoso, Civilização Brasileira, 368 páginas, que acaba de chegar às livrarias da cidade com um pequeno atraso em relação ao eixo Rio-São Paulo. Trata-se da primeira edição em português de The Accidental President of Brazil, livro com que o ex-presidente adentrou, com exclusividade, o mercado de língua inglesa em 2006.
 
Com o subtítulo "Recordações", que lhe empresta um toque de saudosismo de feitio romântico, o livro é o mais bem escrito dos últimos textos de Cardoso, em tudo superior ao A Arte da Política, publicado há cerca de quatro ou cinco anos. A propósito, conforme evidencia o ex-presidente, o texto final resulta da pena de um jovem jornalista americano, Brian Winter, a partir de uma série de depoimentos  devidamente revisados pelo 'memorialista'.
 
A uma dada altura do texto, fica-se sabendo como FHC, então um jovem professor universitário, tornou-se, inusitadamente, o tradutor 'oficial' de Jean-Paul Sartre durante sua visita ao Brasil, em 1960. Mas é mais interessante como descreve o sentimento que lhe povoou a alma quando do exílio no Chile: "Dizem que a palavra 'saudade' não tem como ser traduzida. Entre suas conotações, está a simultaneidade de sentimentos de tristeza e felicidade. Se existe alguma emoção mais brasileira, eu não conheço." Não menos interessante é a explicação que dá para o fato de ter deixado de ser comunista, bem como a análise que realiza do suicídio de Getúlio Vargas.
 
O que torna O Improvável Presidente do Brasil um livro de leitura extremamente agradável, todavia, como observa FHC em prefácio à edição brasileira, é o fato de que o autor passa ao largo dos enfadonhos números com que costuma analisar os seus dois mandatos como presidente, dedicando-se, com leveza e elegância de estilo notáveis, a fazer um apanhado em torno das relações humanas que marcam a formação do intelectual e do político importante que é.
 
Se alguma nota em contrário se poderá registrar, a mim, por exemplo, é um tanto destoante o tratamento de linguagem que dispensa aos ex-presidentes Jânio Quadros e Luís Inácio Lula da Silva. Se é compreensível que carregue nas tintas com que descreve as excentricidades do primeiro, "um populista e farsante", como diz em conversa com Jean-Paul Sartre, é no mínimo deselegante (e ressentida) a forma como se refere a Lula em páginas e páginas do livro. Sob este aspecto, insistindo em referências pessoais ao "amigo" , FHC não consegue esconder um misto de admiração e inveja, num jogo de bate e assopra que torna o seu depoimento um tanto dúbio e inseguro.
 
Nessa perspectiva, aliás, é que desfecha o seu texto antes de um epílogo em que sobressai o tom narcísico que é mesmo uma de suas marcas incontornáveis. É quando descreve o momento em que tira a faixa presidencial para colocá-la em Lula e, enquanto espocam flashes de toda parte, derruba seus óculos no chão. O presidente, havia pouco empossado, num gesto de humildade incomum para as circunstâncias, inclina-se para apanhá-los e devolver a Cardoso.
 
"Aquela eleição era para mim como uma confirmação, diz FHC, e naquele momento eu me sentia otimista, considerando que ele faria um bom trabalho". Lula acompanha o ex-presidente e Ruth Cardoso até o elevador, onde se despedem. "Ao se abrirem as portas, lágrimas afluíram a seus olhos, e ele me envolveu num forte abraço". Segundo afirma, Lula diz-lhe essas últimas palavras: "Você está deixando aqui um amigo!"
 
No mais  --  deixo claras as minhas impressões  --, as recordações de Fernando Henrique Cardoso, descontadas algumas restrições, constituem um documento em igual medida significativo e sedutor, um livro que se lê com um prazer poucas vezes alcançado em escrituras do gênero. Como sintetiza Bill Clinton, que escreveu o prefácio, "é a história de como um professor de sociologia e filho de generais (sic) se tornou um dos destacados chefes de Estado do nosso tempo." Um bom livro.