O Improvável Presidente do Brasil

Não resisto à tentação de comprar (e ler, claro!) O Improvável Presidente do Brasil, o recém-lançado relato autobiográfico de Fernando Henrique Cardoso, Civilização Brasileira, 368 páginas, que acaba de chegar às livrarias da cidade com um pequeno atraso em relação ao eixo Rio-São Paulo. Trata-se da primeira edição em português de The Accidental President of Brazil, livro com que o ex-presidente adentrou, com exclusividade, o mercado de língua inglesa em 2006.
 
Com o subtítulo "Recordações", que lhe empresta um toque de saudosismo de feitio romântico, o livro é o mais bem escrito dos últimos textos de Cardoso, em tudo superior ao A Arte da Política, publicado há cerca de quatro ou cinco anos. A propósito, conforme evidencia o ex-presidente, o texto final resulta da pena de um jovem jornalista americano, Brian Winter, a partir de uma série de depoimentos  devidamente revisados pelo 'memorialista'.
 
A uma dada altura do texto, fica-se sabendo como FHC, então um jovem professor universitário, tornou-se, inusitadamente, o tradutor 'oficial' de Jean-Paul Sartre durante sua visita ao Brasil, em 1960. Mas é mais interessante como descreve o sentimento que lhe povoou a alma quando do exílio no Chile: "Dizem que a palavra 'saudade' não tem como ser traduzida. Entre suas conotações, está a simultaneidade de sentimentos de tristeza e felicidade. Se existe alguma emoção mais brasileira, eu não conheço." Não menos interessante é a explicação que dá para o fato de ter deixado de ser comunista, bem como a análise que realiza do suicídio de Getúlio Vargas.
 
O que torna O Improvável Presidente do Brasil um livro de leitura extremamente agradável, todavia, como observa FHC em prefácio à edição brasileira, é o fato de que o autor passa ao largo dos enfadonhos números com que costuma analisar os seus dois mandatos como presidente, dedicando-se, com leveza e elegância de estilo notáveis, a fazer um apanhado em torno das relações humanas que marcam a formação do intelectual e do político importante que é.
 
Se alguma nota em contrário se poderá registrar, a mim, por exemplo, é um tanto destoante o tratamento de linguagem que dispensa aos ex-presidentes Jânio Quadros e Luís Inácio Lula da Silva. Se é compreensível que carregue nas tintas com que descreve as excentricidades do primeiro, "um populista e farsante", como diz em conversa com Jean-Paul Sartre, é no mínimo deselegante (e ressentida) a forma como se refere a Lula em páginas e páginas do livro. Sob este aspecto, insistindo em referências pessoais ao "amigo" , FHC não consegue esconder um misto de admiração e inveja, num jogo de bate e assopra que torna o seu depoimento um tanto dúbio e inseguro.
 
Nessa perspectiva, aliás, é que desfecha o seu texto antes de um epílogo em que sobressai o tom narcísico que é mesmo uma de suas marcas incontornáveis. É quando descreve o momento em que tira a faixa presidencial para colocá-la em Lula e, enquanto espocam flashes de toda parte, derruba seus óculos no chão. O presidente, havia pouco empossado, num gesto de humildade incomum para as circunstâncias, inclina-se para apanhá-los e devolver a Cardoso.
 
"Aquela eleição era para mim como uma confirmação, diz FHC, e naquele momento eu me sentia otimista, considerando que ele faria um bom trabalho". Lula acompanha o ex-presidente e Ruth Cardoso até o elevador, onde se despedem. "Ao se abrirem as portas, lágrimas afluíram a seus olhos, e ele me envolveu num forte abraço". Segundo afirma, Lula diz-lhe essas últimas palavras: "Você está deixando aqui um amigo!"
 
No mais  --  deixo claras as minhas impressões  --, as recordações de Fernando Henrique Cardoso, descontadas algumas restrições, constituem um documento em igual medida significativo e sedutor, um livro que se lê com um prazer poucas vezes alcançado em escrituras do gênero. Como sintetiza Bill Clinton, que escreveu o prefácio, "é a história de como um professor de sociologia e filho de generais (sic) se tornou um dos destacados chefes de Estado do nosso tempo." Um bom livro.
 
 
 
 
           

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