O tempo redescoberto

Como um dos objetivos dos meus 60, desde alguns meses tenho me dedicado a reler os sete volumes de Em busca do tempo perdido, a obra monumental de Marcel Proust. A iniciativa, bem sei, não é original. Entre intelectuais e artistas, a uma dada fase da vida, sabe-se, é comum esse tipo de empreitada, desafiadora, diga-se de passagem. Há poucos dias li num jornal importante uma matéria sobre isso. No Rio e em São Paulo, criam-se grupos de leitura orientada da longa travessia proustiana, nomeadamente entre pessoas que veem na arte uma possibilidade de revisão poética de suas vidas, uma forma saudável de busca rejuvenescedora da existência.
 
Por etapa, devo explicar melhor o que está dito acima. Por que é tão desafiador ler o livro de Marcel Proust? Não gostaria de justificar isso pelo fato de, também sob o ponto de vista volumétrico, tratar-se de uma obra monumental: são mais de 3 mil páginas de narrativa, pelo menos 25 personagens principais e incontáveis outros que surgem, desaparecem, retornam mais tarde ou passam quase despercebidos. Mas que têm, em alguma medida, relevância na história de Marcel. A propósito, o leitor desatento se perderá entre as muitas possibilidades de identificação do narrador, apenas duas vezes nominalmente citado na obra. Sem esquecer o fato de que a história se passa em cinco lugares distintos, Combray, Paris, Balbec, Doncières e Veneza.
 
Mais desafiador, no entanto, é o modo como Proust tece a sua "busca", perpassada de idas e vindas, inserções inesperadas de acontecimentos, temporalidades descontínuas que ditam o ritmo da narrativa e embaralham a lógica textual. Nada, contudo, que torne a história desinteressante mesmo para leitores menos familiarizados com a grande literatura. É uma questão de persistência. Não deu na primeira tentativa, quando você ainda andava lá pela quadragésima página, é voltar ao começo da história e procurar decifrar os primeiros mistérios, marcar o nome das personagens a partir das circunstâncias em que surgem no caminho do narrador, e, de repente, descobrir-se-á diante de uma livro absolutamente fascinante.
 
Mas, em que sentido pode me interessar um livro ambientado em lugares tão estranhos? É aí, por certo, que reside o segredo da grande arte. Se a história transcorre em exatos cinco cenários principais da Europa, num emaranhado de jardins, salões, ruas que se estendem do Champs-Élyssés aos canais de Veneza, não é a identificação do espaço o que importa, mas o fato de esquadrinhar, de perscrutar a alma do homem para além dos limites geográficos e explorar o conflito humano em sua relação com o tempo e a memória. Nesse sentido, pois, é que nos encontramos na mesma busca do que, perdido no passado remoto, ressurge com uma atualidade que surpreende e emociona, e, por acréscimo, purifica, como (re)fazendo melhor cada um de nós.
 
Em O tempo redescoberto, sétimo e último volume da obra (tomo como referência a belíssima tradução de Lúcia Miguel Pereira), Proust explora o que se define como "memória involuntária", aquela que nos traz o passado não pelo esforço consciente da razão, mas pelo gatilho que dispara a partir de cheiros, sons, toques, percepções, paisagens etc., registros adormecidos do que vivemos, do que marcou fundo as nossas vidas, e que, como por encanto, despertam (prodigiosos!) em estado de pura poesia: amores, amigos, pessoas queridas que se foram, mas que jamais sairão do mais delicado e terno escaninho de nossos corações.
           

O pior se aproxima

Em se confirmando as expectativas, ao que tudo indica prováveis, nesse domingo consolidar-se-á o golpe contra a presidente Dilma Rousseff. Vai por terra, para além daquele que é talvez o único nome verdadeiramente limpo dentre os políticos brasileiros hoje, um projeto de governo popular, em que pesem os desacertos e as contradições que pontuaram as ações da presidente eleita com mais de 54 milhões de votos. Vai por terra, pisoteada no que lhe é mais sagrado, outrossim, a democracia brasileira, na reedição do traço com que, teimosamente, a nossa elite insiste em escrever a história do país.
 
Numa nação orientada pela força dos grandes empresários e pela cumplicidade de uma imprensa historicamente golpista, a exemplo do que se verifica mais uma vez no "jornalismo" da rede Globo, das revistas Veja, Época, IstoÉ, dos jornais Folha de S. Paulo e o Estadão, para citar os carros-chefes dos golpismo desenfreado de todos os dias, ladeada por um Judiciário conivente com as práticas mais inconfessáveis do que existe de realmente podre na história recente do Congresso Nacional, o fato vergonhosamente recoloca em pauta o quão é difícil e tortuosa a construção de um país como o Brasil.
 
Ressurge, em sua face mais pálida, a prática do "bovarismo" a que se refere o historiador Sérgio Buarque de Holanda no seu sempre atual Raízes do Brasil, de 1936, nome com que define a eterna insatisfação dos brasileiros em face das nossas condições reais. O termo, sabe-se, tem origem na personagem de Gustave Flaubert, aquela em cuja cabeça se misturam ficção e realidade, utopias nascidas da insanidade psiquiátrica que a levaria à morte por suicídio.
 
Por oportuno, é no mesmo livro que Sérgio Buarque se refere ao mito da cordialidade, não à maneira indolente, generosa e pacífica com que lidamos uns com os outros, na equivocada leitura do senso comum, mas como o historiador define a vocação dos brasileiros para se dar ao imediatismo das promessas e expectativas ingênuas de um futuro melhor. Cordialidade, de cor, cordis, coração, termo com que sinaliza para as investidas impensadas, movidas pelo sentimentalismo e pelas crenças fáceis e utópicas, bem no feitio com que segmentos expressivos da população povoaram as ruas de nossas principais cidades entoando o "Fora Dilma!"
 
Por trás de tudo, claro, o ódio declarado de nossa elite, a mais perversa, a mais sórdida de todas as elites de que se tem conhecimento desde sempre, debaixo de cujos interesses se dá a passos largos o golpe de abril de 2016. Como se sabe, trazendo em pauta aberta o retrocesso, a desconstrução de algumas de nossas maiores conquistas, o restabelecimento de relações sociais marcadas pelo autoritarismo e pelo fortalecimento das mais fundas desigualdades.
 
O pior se aproxima, sob o disfarce da legalidade que não existe.
 
 
           

A vaidade de Ivan Ilitch

Morávamos nas proximidades da casa do Juiz da Comarca, de cujo nome não me lembro mais. Nunca esqueci, todavia, o que representou para o garoto que fui a sua presença ameaçadora. Se a bola, durante o futebol de rua, achava de cair em sua calçada, qual de nós era suficientemente corajoso para resgatá-la? Nenhum, até que algum transeunte adulto o fizesse, desatento, chutando-a para o campo de peleja. Só então a pelada reiniciava, não raro um quarto de hora depois.
 
Certo dia, a golpes de cinto, surrou um senhor que morava nas imediações de sua casa. Foi mais longe: na mesma semana surrou, supostamente com o mesmo cinto, a mulher do referido homem, figura conhecida, que, um dia, viria a ser vereador na cidade. Todos, que não me ocorrem as exceções, tremiam diante de sua presença, como disse, invariavelmente ameaçadora. Era o homem que prendia, que mandava soltar, que dava sovas, que fazia e acontecia, que pintava o sete, para usar de uma expressão recorrente à época.
 
Muitos anos depois, já amante da literatura, deparei com uma personagem que me traria à memória o aludido juiz. Ah, agora me ocorre o nome deste: chamava-se Carlos. A personagem, do clássico de Tolstói, Ivan Ilitch, um juiz esnobe, vaidoso, desapegado à ética e empavonado por força dos poderes que lhe conferia o cargo: "[...] era-lhe agradável passear com desenvoltura, em seu uniforme talhado por Charmer, junto aos solicitantes trêmulos, que esperavam ser recebidos, e aos outros funcionários, que o invejavam".
 
Em pouco mais de 80 páginas, o livro de Tolstói constitui uma reflexão soberba acerca do abuso do poder, da vaidade desmesurada daqueles a quem cabe julgar os outros, da procura a qualquer custo de "parecer estar bem", atento às vontades de uma sociedade que visa sempre à manutenção de seus privilégios e de suas regalias.
 
Ivan Ilitch é a versão clássica do juiz que se arvora justiceiro, daquele que, dizendo-se "escravo da lei", faz valer o Direito.  A esse propósito, dou voz ao próprio narrador: "Todo o interesse da sua existência se concentrou no mundo judiciário e esse interesse o absorvia. A consciência da sua força, que permitia aniquilar quem ele quisesse, a imponência da sua entrada no tribunal, a deferência que lhe tributavam os subalternos, seu êxito com superiores e subordinados e, sobretudo, a maestria com que conduzia os processos criminais e da qual se orgulhava  --  tudo isso lhe dava prazer e lhe enchia os dias, a par das palestras com os colegas, os jantares, o uíste (jogo)".
 
Um acidente doméstico, no entanto, que a princípio não lhe parecia grave, leva o poderoso Ivan a uma agonia humilhante. Ao fundo de uma enfermidade que o consome, só então o poderoso juiz desenvolve as reflexões que dão à obra de Tolstói a capacidade de atualizar-se sempre: Conclui que a sua vida esteve orientada pelos interesses escusos, pelo faro da perseguição aos desafetos, e, magistral, era tudo "farinha do mesmo saco", incluindo-se aí os seus colegas magistrados. "É como se eu tivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isto. Perante a opinião pública, eu subia, mas na verdade, afundava. E agora cheguei ao fim  --  a sepultura me espera".
 
A leitura de "Ivan Ilitch", esse texto estupendo da literatura russa, que explode em modernidade e, cada vez mais, reatualiza-se em seus muitos sentidos, fez retornar à mente do menino distante as lembranças do juiz Carlos e sua imagem assustadora. Ivan apaixonou-se pela imagem que lhe construiu a burguesia, os ricos do seu tempo, ávidos de manter intocáveis suas vantagens e prerrogativas. E afagava-lhe a alma sentir-se um deles. Como outros juízes do nosso tempo.
 
 
 
 
 
 

A atualidade de Kafka

Natural de Praga, na antiga Tchecoslováquia, Franz Kafka é um dos escritores mais influentes da literatura universal. Escreveu romances e contos que romperam os limites geográficos e temporais, todos marcados por uma sensação claustrofóbica e angustiante que resultariam num adjetivo usado, até mesmo por quem jamais leu qualquer dos seus livros, para definir o beco sem saída, o desespero de quem se sente impotente diante do caos, da perseguição sem causa e do arbítrio que reduz a condição humana à bestialidade mais insuportável: "Kafkiano".
 
O conto A Metamorfose, supostamente o mais conhecido dos escritos de Kafka, narra a história do caixeiro-viajante Gregor Samsa, que desperta uma certa manhã sob o pesadelo de ver-se transformar num grande inseto, passando, a partir desse fenômeno surreal, a viver as mais inusitadas situações, que culminam com o abandono de sua própria família e a sua morte solitária.
 
Em outro, O Veredicto, um filho é levado pelo próprio pai a cometer suicídio. A leitura crítica dos contos de Kafka, pois, aponta para um simbolismo que se reatualiza com o passar dos tempos e retrata a falta de perspectiva do homem diante do desconhecido, da ganância do poder a todo custo, das práticas fascistoides a que se vê de repente e injustificavelmente condenado.
 
Mas é com romance O Processo que o escritor tcheco atinge o mais elevado estágio de ficcionista genial que foi. Aqui a personagem central é Joseph K., preso e condenado à morte sem motivo, sem explicação possível, sem direito a defender-se da acusação de um crime que jamais cometeu. A narrativa desenvolve-se num clima de absoluto desespero, claustrofobia e náusea que toma de assalto o leitor. O livro seria objeto de uma adaptação cinematográfica notável, The Trial, filme dirigido por Orson Welles e com Anthony Perkins no papel de Josef K.
 
O romance tem início com a prisão de Joseph K., sem nada que a justifique, como é próprio nos regimes totalitários e nas práticas hediondas do fascismo. A fala do agente policial é emblemática: - "Não  --  retrucou o homem que estava junto à janela, deixando o seu livro sobre uma mesinha e pondo-se de pé. Você não pode sair, está detido".
 
Impedido de movimentar-se e sair do quarto à procura dos seus direitos legais, Joseph K. pede explicações para o que se passa, mas a resposta é "kafkiana": - "Não me cabe explicar isso. Volte para o seu quarto e espere ali. O inquérito está em curso, de modo que se inteirará de tudo em seu devido tempo".
 
Começa, assim, o martírio da personagem de O Processo. O labirinto que terá de percorrer à procura de seus direitos, nunca alcançados, materializa a absoluta ausência de um Estado democrático de Direito.
 
À dada altura, Joseph K., busca entender o absurdo da situação em que se vê inexplicavelmente envolvido: - "Que espécie de homens eram estes? De que estavam falando? A que Departamento oficial pertenciam? Quem eram aqueles que se atreviam a invadir sua casa?" Impotente, ainda tenta argumentar: - "Aqui está meus documentos de identidade; mostrem-me os seus e, especialmente, a ordem de prisão".
 
O romance metaforiza, à perfeição, a destruição dos valores democráticos, o solapar dos direitos do homem e da legitimidade da ordem pública. Adverte-nos, com sua representação alegórica, de como se processam os mecanismos totalitários e de como se dá a implantação do autoritarismo mais vil e repugnante. Sombrio e assustador, exemplifica o desastre que se anuncia, ansioso e alienador. Sua leitura, por certo, ajudaria a compreender o que se passa hoje no Brasil, com sua história protagonizada por Sérgio Moro e cia.