quarta-feira, 29 de junho de 2022

A Boa Sorte

"Toda paixão tem alguma coisa de mórbido: é uma alienação, uma entrega obsessiva da própria vida ao ser amado". Assim Rosa Montero diz ao narrar em livro belíssimo de sua lavra, 'Paixões', a história trágica de relacionamentos amorosos de gente famosa, Leon e Sônia Tolstói, Liz Taylor e Richard Burton, John Lennon e Yoko Ono, Amedeo Modigliani e Jeanne Hébuterne, Artur Rimbaud e Paul Verlaine, entre outros.

O tema, explorado no estilo elegante de uma escritora que se notabiliza pelo notável domínio da narrativa, o que em muito justifica o fato de ser a madrilenha o nome de maior destaque da literatura espanhola contemporânea, é recorrente na prosa de ficção de Montero, ou mesmo nos livros em que se misturam os elementos da arte e do jornalismo ensaístico, a exemplo do incontornável 'A Louca da Casa', aquele com que foi apresentada ao leitor brasileiro.

Essa, por sinal, é uma marca pessoal da produção de Rosa Montero. Poucos autores, na literatura de hoje, terão manuseado suas estratégias narrativas como ela, o que torna seus livros um misto de realidade e fantasia, de construto artístico e depoimento memorialístico do que vivenciou de mais verdadeiro e mais secreto, e que divide com o leitor numa experiência estética ao mesmo tempo assombrosa e fascinante. É o que se dá, no melhor exemplo, quando temos em mãos o extraordinário 'A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver', escrito a partir do diário de Marie Curie, a cientista polonesa ganhadora de dois prêmios Nobel, sobre a perda do marido. Como Curie, Rosa Montero faz da perda do ser amado (o escritor Pablo Lizcano, como quem viveu durante 21 anos) a linha de força de uma narrativa vertiginosa sobre a morte, o sofrimento e a expectativa de que se tornem possíveis os laços que nos unem com o que se convencionou chamar de eternidade. O resultado, no entanto, longe de ocasionar um sentimento de pesado desconforto, é leve, delicado, sensível, um tipo de reflexão poética sobre as relações amorosas, o cotidiano da vida doméstica, o sentido da entrega ao objeto amado, mas, acima de tudo, é a tentativa bem-sucedida de fazer da literatura um instrumento de catarse ou sublimação, quando em meio à dilacerante realidade das perdas definitivas.

Agora, quentinho como um pão da última fornada, chega até nós o desconcertante 'A Boa Sorte' (Todavia, 2022), último romance de Rosa Montero, originalmente publicado na Espanha há dois anos. De novo, mas com uma visada que diferencia este livro dos demais, Montero explora o tema da paixão, da inexplicável e obsessiva experiência de "sair de si mesmo e se perder no outro, [...] naquilo que imagina do outro", como diz a própria autora.

O enredo é simples, embora a tessitura dramática se dê em bases estéticas ousadas, em que se confundem os pontos de vista e as situações nas quais se enredam os conflitos humanos explorados à perfeição por Rosa Montero, desde a chegada de Pablo, o protagonista, a Pozonegro, a decadente cidade que servirá de cenário para o recomeço entre misterioso e improvável de um homem dilacerado pelo sentimento de culpa após a perda de um filho.   

Num tempo de tantos desencontros,  'A Boa Sorte' é leitura mais que recomendável, um tipo de confirmação de que a arte, a beleza, como está em Dostoiévski, haverá de salvar o mundo. Não bastasse, diga-se, a fazer justiça, o que o romance traz de exemplarmente moderno como estrutura narrativa, como potência de linguagem na função estética, como reflexão sobre o destino do homem num mundo de caos e incertezas.

Um romance imprescindível. 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

O mito e outros Mitos

Em meio às fogueiras que animam os festejos juninos Brasil afora, mais complicado se tornará para o presidente Bolsonaro evitar que as chamas desfigurem sua cara cínica. Os acontecimentos dessa quarta-feira 22, para além de dar sequência ao desvendamento de escândalos envolvendo o entorno do presidente, expõem ao ridículo o discurso anticorrupção que seria o eixo temático da campanha do candidato do PL. Seria.

Mais que isso, materializam o que talvez seja a única notícia positiva nesses dias sombrios: incorporada ao projeto de ocultação de escândalos e outros desmandos do atual governo, a Polícia Federal dá uma demonstração de que setores de sua estrutura, felizmente, ainda estão empenhados em cumprir com correção o seu papel. Se a ação sofrerá solução de continuidade, por intervenção do diretor-geral, o bolsonarista Márcio Nunes de Oliveira, os próximos dias darão a ver. Sejamos otimistas.

O fato é que as queimaduras serão profundas e a campanha tortuosa de Jair Bolsonaro tende a carregar feridas difíceis de cicatrizar no exíguo espaço de tempo que separa a prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro e pastores evangélicos que atuavam à frente do verdadeiro balcão de negócios em que se transformou a pasta --- e na malversação de verbas do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), das eleições de outubro.

Se a produção institucional da ignorância é política pública no atual governo, conforme examina exemplarmente bem o professor Conrado Hübner Mendes, da USP, em artigo notável publicado na Folha de S. Paulo, na edição desta quinta-feira 22 (data em que sento para produzir o texto desta coluna), a fim de manter em sigilo criminoso os escândalos que se multiplicam no governo de Jair Bolsonaro, as coisas, por gigantescas em termos de malfeitos, parecem estar fugindo de controle e a tendência é a podridão tomar conta dos corredores do Planalto nesses próximos dias.

Ressurgem na pauta do noticiário, inevitavelmente, na contramão do silêncio imposto por sigilos centenários, fatos contra os quais não existem argumentos: bandalheira na compra de vacinas; tráfico de influência de filhos do presidente em favor de empresas contratadas; lobistas de armas na agenda do presidente, com a cumplicidade do então ministro da Justiça Sergio Moro; gastos exorbitantes com cartão corporativo; cheques de rachadinhas para a primeira-dama etc., para não falar do que ainda poderá vir à tona no que diz respeito, direta ou indiretamente, aos acontecimentos que culminaram com os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips.

De mal a pior, o governo de Jair Bolsonaro vai assumindo uma cara monstruosa, mesmo antes que os efeitos da queimadura indelével exijam muito mais que a operação plástica de que nos falou ontem o jornalista Fernando Gabeira. O caso, como se vê, poderá levar o mito a ser apenas o que é: um mito.

Não os das histórias de deuses e heróis de que nos falou gente da envergadura de Thomas Bulfinch e Mircea Eliade, diga-se em tempo.

 

 

 

 

terça-feira, 7 de junho de 2022

Drummond, 120 anos

Quando brinquei de parodiar conhecido Drummond, no facebook, não antevi que o texto, plasmado no poema "Confidência do Itabirano", do poeta mineiro, tivesse a repercussão que teve entre amigos queridos. Como tratasse da saudade telúrica e do sofrimento dela advindo, não faltou quem me dirigisse as mais carinhosas palavras de apoio, num gesto que nasce da bondade e do carinho conterrâneos. Se a intenção, antes de tudo, era suscitar curiosidade em torno da obra do nosso poeta mais completo, agora que faria ele 120 anos, o resultado foi bom. Vamos, pois, ao que interessa na coluna de hoje.

Chegam às livrarias da cidade os três ou quatro primeiros volumes de Carlos Drummond de Andrade dentro do projeto gráfico com que o Grupo Editorial Record, sob a competente organização do queridíssimo amigo e escritor cearense Edmilson Caminha, decidiu prestar ao poeta mineiro a primeira e mais importante homenagem em face do relevante acontecimento: "Alguma Poesia" (1930), "Sentimento do Mundo" (1940) e "Claro Enigma" (1951), além de "Antologia Poética", que o próprio Drummond se encarregou de organizar em inícios dos anos 1960.

Cada livro, além de textos de orelha que dirigem o leitor para o pleno deleite do conjunto de poemas do escritor mineiro, traz um posfácio assinado por Ronaldo Fraga, "Alguma Poesia"; Ailton Krenak, "Sentimento do Mundo"; Mia Couto, "Claro Enigma" e Zélia Duncan, "Antologia Poética".

Li-os, e posso assegurar: são quatro posfácios de encher os olhos, quer pela beleza da escrita, quer pelo que servem como elucidação de alguns aspectos mais significativos da poesia de Carlos Drummond de Andrade, mesmo para os leitores mais familiarizados com a obra do itabirano.

Hoje, passados todos esses anos desde o lançamento dos três livros, entremeados por títulos ainda a serem publicados pela Record, pode-se perceber que em nada diminuiu a força do lirismo drummoniano: o frescor inerente a cada poema, a cada verso, ao leitmotiv essencial do que se costuma identificar como a poética do autor mineiro, é o mesmo. Não é muito dizer, acrescente-se, que alguns poemas têm a capacidade de ressignificar-se, num tipo de reexame de temas que parecem ser os mais prementes da pauta contemporânea: a influência da Semana de Arte Moderna, a inserção da literatura no cotidiano da sociedade, o senso de humor no tratamento das questões existenciais, o nacionalismo tenso e questionador, no caso de "Alguma Poesia"; a visão de mundo de um homem comprometido com as questões sociais e políticas de seu tempo, a simpatia sutil pelo socialismo como alternativa para o modelo injusto da sociedade capitalista (segundo entendimento de Antonio Candido), o memorialismo como forma de resgatar a bondade original e o conflito nas relações familiares patriarcais, no caso de "Sentimento do Mundo"; o distanciamento da estética modernista e o retorno às formas tradicionais da poesia, o culto do soneto e de outras composições fixas, a reflexão de cunho filosófico e a aguçada compreensão do 'estar-no-mundo', que orienta parte expressiva do livro, em "Claro Enigma", são pontos a destacar.

Há 120 anos de seu nascimento, a 31 de outubro, em Itabira do Mato Dentro – MG, Carlos Drummond de Andrade ressurge no cenário da grande literatura brasileira contemporânea como um nome a ser cultuado por diferentes segmentos leitores, dos jovens, que nunca foram além da "pedra no meio do caminho", a estudiosos e especialistas dedicados como Edmilson Caminha, a quem, para nossa felicidade, foi confiada a responsabilidade de resgatar a obra imorredoura do maior poeta brasileiro em belíssima homenagem.

Viva Drummond!

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 2 de junho de 2022

No voto, a verdade

... o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem --- ou é o homem arruinado, ou o homem do avesso. Solto por si cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum  --- é o que digo.

(Riobaldo, no Grande Sertão Veredas)

 

Às vésperas das eleições de 2018, escrevi aqui que o voto era como o vinho: revelava o homem. A afirmação, claro, tinha como referência a máxima atribuída a Caio Plínio, mais conhecido como Plínio, o Velho, "in vino veritas", no vinho, a verdade, em bom português. Com a expressão os antigos romanos queriam dizer que as pessoas, sob o efeito da bebida, perdiam a vergonha  ---  e se revelavam.

Havia na minha afirmação, por óbvio, uma certa dose de indignação com as chances do então candidato a presidente Jair Bolsonaro vencer a disputa no segundo turno com Fernando Haddad, o que se confirmaria pouco depois de publicado o meu texto.

Argumentava, à época, que não me parecia aceitável que pessoas esclarecidas, homens de bem, optassem por votar num candidato cuja vida pregressa havia sido pontuada por ilícitos, assumida vocação para a violência, envolvimento comprovado com milícias e incontáveis atitudes ofensivas contra mulheres e LGBTQIA+.

Nem me reportei, por lapso de memória, ao me sentar diante do computador, que o candidato fizera pouco antes apologia a torturadores, e falara aos quatro cantos ser um inimigo confesso da democracia e do Estado democrático de Direito.

Decorridos três anos e seis meses do pior governo de que se tem notícia no país, confirmando-se tudo aquilo que me parecia uma obviedade, volto ao tema, e o faço com a motivação de reafirmar as minhas palavras naquele decisivo momento da vida nacional. Sim, o voto, como o vinho, revela o homem.

Assim como o mapa de nossas preferências em cinema, em música, em literatura sempre dá aos outros e a nós mesmos uma boa imagem do que somos (repito de cor palavras do respeitado poeta e ensaísta Italo Moriconi, em ensaio muito conhecido), também as nossas escolhas políticas traçam um perfil psicológico e moral do que somos. Insisto: como o vinho, o voto revela o homem.

A depender de sua escolha, coisa de resto natural numa democracia, pode-se concluir como a pessoa pensa a economia, a saúde, de que forma se coloca diante dos problemas da sociedade e o que pretende para o seu futuro e dos outros; se respeita ou não as diferenças de raça, de gênero, o que entende por justiça, se é um ser pacífico ou afeito aos atos de violência, se valoriza a democracia e se é capaz de defendê-la como um bem precioso, a ser preservado contra as investidas de políticos autoritários e de militares inescrupulosos, oportunistas e reacionários.  Em resumo: qual o sentido ético de sua conduta social.

Numa democracia, é natural que se façam escolhas conflitantes, que se vote naquele candidato que melhor represente suas ideias sobre a vida em sociedade no que diz respeito à economia, à saúde, à educação, à segurança, às liberdades civis, à moradia, ao lazer e outras coisas mais. Esse voto é, assim, em metáfora, o vinho que dirá de você, revelando-o aos outros e a si próprio.

Se você votou em Bolsonaro, por exemplo, e continua a fazê-lo nas circunstâncias atuais, depois de todas as atrocidades cometidas por ele e seus apaniguados, tome tento, que dentro de você, numa ou noutra medida, pode habitar um inimigo da democracia, um homofóbico, um machista, um miliciano enrustido...

Quem sabe, e não são raros os casos conhecidos, possa habitar dentro de você, silenciado a custo, contido pelas forças do superego, um serial killer, desses que se insinuam nas redes sociais fazendo arminhas com o polegar e o indicador.