ENTREVISTA A ALUNOS DO ENSINO MÉDIO EM FEVEREIRO DE 2017

Há pouco mais de um mês, recebi no prédio em que moro um grupo de alunos do ensino médio de uma escola pública de Fortaleza. Pediram-me uma entrevista como cumprimento de uma tarefa na disciplina de Sociologia. Ontem, chegou-me às mãos uma cópia impressa da entrevista, num gesto que bem reflete uma postura responsável e amadurecida desses alunos. Tomo a decisão de reproduzir trechos da mesma na coluna de hoje, sem proceder a qualquer alteração do texto. 

Por que insiste em defender o projeto do PT como o melhor para o Brasil?

- Porque tenho a convicção de ser a proposta que mais condiz com a realidade do País. Em que pesem os avanços dos últimos 12 anos, ainda são gritantes as contradições da sociedade brasileira. Os índices de pobreza assustam e são inaceitáveis, notadamente quando se sabe que o país está mergulhado em desvios de riqueza que, se direcionada para o enfrentamento de nossos maiores problemas (e me refiro à saúde, à educação, à moradia etc.), seria outra a nossa realidade e as condições de vida da população. 

Mas o PT esteve envolvido nessa práticas...

- Sim. A fim de tornar possível o seu projeto, inequivocamente voltado para os mais pobres, o PT incorreu em práticas correspondentes à quase totalidade dos partidos existentes ao longo de muitos e muitos anos. Mas não podia ter feito o mesmo, pois a sua história é diferente da história da maioria dos partidos no Brasil, os quais, todos sabem, sempre agiram assim. Não é correto o que fez, mesmo quando essas práticas tinham por objetivo a governabilidade, sem o que nada do que foi realizado teria sido possível. Não estou defendendo a corrupção, pois se trata de algo absolutamente inaceitável. Mas não houve enriquecimento pessoal de quem quer que seja, ao contrário do que a grande imprensa tenta colocar na cabeça da população, todos os dias, o dia todo, no jornais impressos, nas revistas semanais, no rádio e, sobretudo, na TV, com a rede Globo manipulando informações de forma escancarada a fim de destruir o Partido dos Trabalhadores e a sua maior liderança, Luís Inácio Lula da Silva. 

Por falar em Lula, acredita mesmo que possa voltar a presidir o País?

- Só há uma possibilidade de isso não vir a ocorrer. É ser condenado, mesmo sem provas, pelo juiz Sérgio Moro. Sem provas, é importante frisar, pois o ex-presidente é objeto de investigações irredutíveis há pelo menos três anos e nada se encontrou que constitua uma prova sequer contra a sua correção como homem público. É desumano, cruel, perverso o que se tem feito na intenção de caracterizar um crime que não cometeu. Tudo, é óbvio, porque eles tremem na base com a hipótese de Lula se candidatar, pois sabem que não há um nome no Brasil, hoje, em condições de vencer Lula. Mas não se curvam aos fatos, sustentam suas acusações levianas em um apartamento que Lula nunca comprou; um sítio que não é dele, e até a ridícula referência a um pedalinho... Passaram-se meses, anos, e nenhuma novidade. É sempre a casa, o sítio... Como, não sendo de direita, não estando entre aqueles que se beneficiam com o modelo ultraliberal que lhes assegura vantagens, benesses, lucros escorchantes, como, insisto, não ficar indignado com tudo isso? 

Admitindo-se que venha a ser condenado, acredita que o PT tenha um nome realmente competitivo?

- Na contramão do que professam grandes conhecedores do partido, inclusive altos dirigentes, como um simples filiado e eleitor, como um cidadão brasileiro que vota em candidatos de esquerda, acho que não. Não vejo nenhum nome de esquerda com condições de ganhar a eleição para presidente a não ser o Lula. Mesmo identificando entre seus quadros, do Partido dos Trabalhadores, excelentes nomes, do ponto de vista político e intelectual, a exemplo de Fernando Haddad, para falar de um nome que me ocorre neste instante, do ponto de vista eleitoral não há no PT (e em nenhum outro partido realmente de esquerda) um nome com chances de vencer. Sem fechar os olhos para o imponderável, claro, como a hipótese de que, se condenado e preso, Lula vier a apoiar alguém e isso for suficiente para criar um fato político novo. Há precedentes na história do País. 

Refere-se a Ciro Gomes?

- Não havia pensado em Ciro Gomes, mas, na minha opinião, de um simples eleitor, como disse, não ignoro o fato de que se trata de uma alternativa. É destemperado, põe muitas vezes os pés pelas mãos, faz afirmações insensatas etc., sim. Mas é intelectualmente preparado, tem conhecimento dos problemas brasileiros como poucos e, se souber domar seu ímpeto, seu discurso, é quase imbatível num debate. É um nome em que votaria, nem que fosse para dar formato ao meu protesto como cidadão a esse estado de coisas de que qualquer pessoa medianamente consciente deve sentir vergonha. O Brasil de Temer, o Brasil do golpe contra a democracia, o Brasil da mais perversa elite de quantas existem, me causa asco e revolta. E não tenho medo de afirmar: esse Brasil causa nojo mesmo aos homens de direita que tenham um mínimo de consciência, que  se coloquem diante do espelho de olhos fixos, que ponham a cabeça no travesseiro e  consigam dormir em paz. É uma questão de consciência, insisto. 

Como profissional da educação, como professor, como vê a Reforma do Ensino Médio?

- Nada mais ideológico do que a tal Escola Sem Partido; nada mais ultrapassado, mais equivocado e, pior, mais mal intencionado do que essa Reforma. Ela é filha do que existe de mais reacionário, todos sabem. A proposta tem como autores dois filhos de Jair Bolsonaro, cujo pensamento dispensa comentários, de tão fascista que é. Foi apropriada por um governo ilegítimo, que tem como projeto para o País o que há de mais perverso no modelo econômico capitalista. E, nesse projeto, a escola tem um papel de fortalecimento da ideologia dominante e dos interesses do grande capital. Funciona como aparelho de reprodução dos status quo e põe por terra muitas das conquistas da democracia em termos educacionais. É um modelo de ensino que se volta para as classes dominantes da sociedade, que produz mão de obra para os industriais, que silencia a escola no seu papel político e formador de sujeitos críticos, atuantes e capazes de construir uma sociedade mais justa e mais humana. Mas, quando recebo estudantes como vocês, para discutir questões como essas que vocês me colocaram com tanta oportunidade, ainda nutro a utopia de ver este País reencontrar-se com os valores mais sagrados da liberdade e da tolerância a visões de mundo divergentes. Fico feliz e, em alguma medida, sinto no peito a gostosa sensação de que nem tudo está perdido.

 

  

 

 

 

 

 

Museu da Fotografia

O Ceará mais uma vez desponta no circuito da grande arte. Depois da excelente exposição Edson Queiroz de Artes Plásticas, objeto de comentários neste espaço, a novidade não é menos relevante para a cultura cearense. Agora, noutra linguagem, a fotografia, com a inauguração, há coisa de um mês, do Museu da Fotografia de Fortaleza, uma iniciativa louvável dos colecionadores Paula e Silvio Frota.

Localizado à rua Frederico Borges, 545, na Varjota, trata-se de um dos mais importantes espaços do país dedicados integralmente à fotografia. A mostra reúne algumas das obras fotográficas mais famosas do mundo, a exemplo da antológica Mãe emigrante, 1936, da americana de origem alemã Dorothea Lange (1895 - 1965), que retrata a camponesa Florence Thompson, na Califórnia, cuja expressão, ladeada pelos rostos escondidos dos filhos, revelam toda a dramática crise dos Estados Unidos nos anos 1930.

Como destacou Fabio Cypriano, jornalista da Folha de S. Paulo, que veio recentemente a Fortaleza para cobrir a inauguração do museu, a iniciativa de Paula e Silvio Frota, na linha do que fez o empresário Edson Queiroz, mais merece o nosso reconhecimento por se tratar de um empreendimento levado a efeito com fundos privados, na contramão do que, grosso modo, ocorre comumente no Brasil desde sempre.

Segundo Silvio Frota, o sonho de tornar público o seu valiosíssimo acervo surgiu há pelo menos uma década, quando da aquisição da primeira fotografia de fama internacional. Refere-se à foto Menina Afegã, do também americano Steve McCurry, consagrado fotojornalista da agência Magnum.

O Museu da Fotografia de Fortaleza ocupa três andares de um antigo prédio totalmente reformado para receber o precioso acervo dos colecionadores cearenses. O projeto, do arquiteto Marcus Novais, notabiliza-se pelo arrojo, qualidade estética e funcionalidade, estendendo-se por uma área de 2.500 m2. Dois andares destinam-se a exposições permanentes e um para mostras temporárias.

Nas mostras permanentes, Um Imaginário de Cidades e Jogos de Olhares, o visitante depara-se com fotografias, como disse, antológicas. Até há pouco inacessíveis, ali estão nomes célebres, como o francês Henri Cartier-Bresson, o húngaro Robert Capa e o peruano Martín Chambi. Mas estão presentes os grandes fotógrafos brasileiros ou que aqui produzem o que existe de mais relevante na sua produção: Claudia Andujar, Miguel Rio Branco, Rosângela Rennó, Mario Cravo Neto e Gabriel Chaim.

Há ainda, no conjunto da exposição temporária, intitulada O Norte e o Nordeste, fotógrafos da estatura de Marcel Gautheror, José Medeiros, Pierre Verger e o nosso Chico Albuquerque, com a conhecida série É Tudo Verdade, uma narrativa imagética das filmagens de It`s All True (1942), de Orson Welles. Sem esquecer o trabalho "surrealista" de Man Ray e Fernando Lemos, ou fotojornalístico, como é o caso de Juca Martins.

Se a humanidade permanece, de alguma forma, na Caverna de Platão, reinventando-se em seu regozijo ancestral, como afirma Susan Sontag, em livro absolutamente indispensável "sobre a fotografia", o Ceará projeta-se Brasil afora como um dos centros de maior importância nessa linguagem a um tempo fascinante e banalizada, mas sem a qual é impensável a vida presente. Com todos os méritos, Paulo e Silvio Frota prestam um grande serviço ao Ceará.

    

 

 

 


 

De encher os olhos

O prestigiado crítico de cinema da revista New Yorker, Anthony Lane, estabelece duas categorias de cineastas: os que exploram "interioridades" e os que exploram "exterioridades". Os primeiros são diretores da sondagem psicológica, de que Ingmar Bergman é o principal nome, ladeado, talvez, por Andrei Tarkóvski, para citar os dois de seus representantes. Na segunda categoria, estão os realizadores de abordagem mais social, bem na linha do que fazem à perfeição Jean-Luc Godard e o brasileiro Fernando Meireles, ficando esses exemplos por minha conta. 

Recentemente, num comentário sobre Silêncio, o crítico britânico asseverou que Martin Scorsese não é um cineasta de "interioridades"  ---  e que seus melhores filmes transitam por grandes espaços, em que se movem "touros indomáveis".

Digo isso a propósito de discordar radicalmente de sua tese, pelo menos na perspectiva dos comentários dirigidos ao último filme de Scorsese, sobre o qual inicio o meu comentário com uma sinopse.

Roteirizado a partir do livro de Shusako Endo, escritor católico japonês, publicado em 1966, Silêncio narra a saga de dois padres portugueses, no século XVII, que decidem ir para o Japão em busca do jesuíta Ferreira, supostamente convertido ao budismo por força da perseguição imposta aos católicos no país. Lá, deparam com um cenário hediondo, no qual cristãos são submetidos a maus-tratos inomináveis, em busca de batismo e confissão. O filme gira, pois, em torno do verdadeiro martírio do padre Rodrigues, a personagem central, na tentativa de poder ajudar os crentes em seu descomunal sofrimento físico e psicológico, vítimas de métodos cruéis levados a efeito pelos japoneses a fim de que "neguem" sua fé cristã.

Mas o filme, como sugere quase objetivamente o seu título, tem por esteio um tema caríssimo, por exemplo, a Ingmar Bergman, que o próprio Anthony Lane identifica como o maior representante da cinematografia de "interioridades": Onde paira o amor de Deus, indiferente ao martírio de seus filhos? Por que tanto "silêncio"?

A dúvida do padre Rodrigues, guardadas as nuances que a singularizam, é a mesma da trilogia do silêncio, do cineasta sueco. Não é muito lembrar, a esta altura, que Silêncio é o título de um dos filmes da trilogia de Ingmar Bergman, aquele em que Esther, a personagem central, encontra-se na mais absoluta solidão, à beira da morte, sem contar, inclusive, com a presença de Deus.

Mas é em outro filme da trilogia bergmaniana que deparamos frontalmente com o tema. Através do Espelho, 1961, o primeiro da série, que explora diretamente o conflito em face da existência de Deus. De cor, cito uma fala importante da película, pronunciada por David, se não me falha a memória, para seu filho: "O que não sei é se o amor comprova a existência de Deus, ou se o amor é Deus em si mesmo".

Em Os Comungantes, do mesmo ano, é na figura de um padre que o artista vai expressar o seu conflito. Numa sequência do filme, Thomaz, dominado pela dúvida, celebra uma missa como um autômato, enquanto Martha, sua amante e única pessoa presente na igreja, murmura: "Nem só ele pode se livrar do seu Deus de mentira".

Mutatis mutandis, é esta a angústia do padre Rodrigues, ao redor da qual o filme se constrói com uma densidade poucas vezes obtida na riquíssima filmografia de Martin Scorsese. Como Bergman, que realiza com sua trilogia uma experiência estética que beira à perfeição, também ele alcança com seu último filme um domínio de linguagem elevadíssimo. Cada plano, cada detalhe de composição, de movimento de câmera, de escala de plano, de iluminação  ---   de imagem cinematográfica propriamente dita  ---, é, no filme, muito mais que um procedimento, esvaziado, de arte pela arte. É ela, a imagem, que adentra o que existe de mais profundo na dor humana vivida pelo padre Rodrigues, sobrepujando, sem trocadilho ou com ele, a olhos vistos, o próprio diálogo, aqui articulado tão-somente como um complemento oral do que a própria imagem é capaz de dizer com profundidade, vigor, exatidão e poesia de altíssimo nível.

A sequência em que os crentes são crucificados nas águas revoltas do mar, a que, impotente, o padre Rodrigues assiste, constitui uma metáfora prodigiosa das idas e vindas de sua fé, já em crise, numa antecipação dramática da apostasia como derradeira esperança da salvação. Scorsese estende sua duração (da sequência) mais do que, talvez, fosse necessário. E o espectador, percebendo a insistência do plano aberto, prevê, equivocadamente, a redução do enquadramento em ritmo suave, solução de uma narrativa pretensamente clássica. Mas é surpreendido com o close do rosto de Rodrigues, momento sublime de uma imagem-afecção que domina a emoção estética decorrente da originalidade do procedimento escolhido, na contramão do que estabelece a gramática cinematográfica tradicional: evitar a redução brusca da escala de enquadramento (de um plano geral para o big close, por exemplo). 

Por último, devo dizer que li, a coisa de uns poucos dias, que o livro de Shusako Endo foi objeto de uma outra adaptação (que me perdoem a inadequação da palavra), por Masahiro Shinoda, com a colaboração do próprio romancista. Não o vi, mas se fala num verdadeiro desastre. A mim, para o bem ou para o mal, sem medo de estar afirmando impropriedades, bastou-me a belíssima realização de Martin Scorsese. Essa, de encher os olhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Angélica e lutadora

Ao poeta, mais que a todos os outros, foi dada a capacidade de expressar os afetos mais caros ao homem. E a poesia é o espaço sagrado pelo qual se manifesta o inconsciente de cada um, quer na perspectiva de quem a produz quer na perspectiva de quem a recebe, no que se convencionou chamar de experiência estética. Alguns, a exemplo do que fez em níveis incomparáveis o português Fernando Pessoa, têm o dom de "outrar-se", isto é, de ser a um só tempo, como quis Baudelaire, ele próprio e o Outro. Não à toa inventou mais de uma centena de heterônimos, entendendo-se por isso a criação de personalidades poéticas múltiplas e diferentes entre si.

No Brasil, para não descrever o arco que nos faria evitar o cais, como diz em uma de suas composições mais sublimes, ninguém faz páreo a Chico Buarque de Holanda, sobre quem tecerei, aqui, breves considerações.

Faço-o a propósito, ainda, do dia consagrado à mulher, pois Chico Buarque reúne, nesse sentido, uma propriedade, enquanto criador, que o torna um nome singular entre os poetas brasileiros. É certo que houve, lá pelos anos quarenta do século XIX, nascido no Maranhão, um certo Gonçalves Dias, que se antecipa ao autor de Atrás da Porta para cantar as desilusões femininas no amor, pelo menos num poema que o consagraria pelo que identificamos como a sábia função "outrativa" da arte. Refiro-me a Leito de Folhas Verdes, em que uma índia prepara com desvelo o leito do amor para o amado que nunca vem.

Alguns, por certo, lembrarão dos poetas trovadores, mas isso são outros quinhentos, que os valores da época condicionavam o homem a falar, também, da ótica feminina. Na literatura dita moderna, na linha do que ocorre a Gonçalves Dias (romântico de primeira fase), a coisa é outra. Com Chico Buarque vem a se dar o mesmo, ou seja, o eu-lírico assume a voz feminina com uma força espantosa, constituindo esse viés o que existe de mais incomparável em sua poesia.

Se não me engano, foi Freud, depois de tentar vasculhar a alma feminina sem compreender por completo os seus mistérios, quem afirmou com fina percepção: "... quem quiser saber mais sobre a mulher, que consulte os poetas". Perfeito. Voltemos a Chico.

E já que falei no barco que descreve o arco e evita atracar no cais, o verso está em Pedaço de Mim, exemplar sublime do "outrar-se" buarquiano. Nela, o poeta explora o sentimento feminino diante da perda, registrando o momento do fracasso, da despedida de que resultará o sofrimento insuportável da dor que, literalmente, compara ao sofrimento de uma mãe ao perder um filho. É antológica a estrofe: "Que a saudade é o revés de um parto/a saudade é um arrumar o quarto/do filho que já morreu".

Perder a pessoa amada é, de fato, algo que vai além da dor emocional, tornando-se uma dor quase física, dor decorrente de um tipo de mutilação: "Oh, pedaço de mim/Oh metade arrancada de mim/Leva o que há de ti/Que a saudade dói latejada/É assim como uma fisgada/No membro que já perdi".

Há, que lembre, pelo menos dois grandes estudos sobre o poema em questão. Grandes, insisto. Num deles, de Adélia Bezerra de Menezes, sobre a estrofe em pauta, a estudiosa evidencia no texto a presença de dois elementos caros à análise psicanalítica. De um lado, diz ela, aflora o mito do ser andrógino (O Banquete, de Platão), dividido por Zeus em duas metades que se haverão de procurar pelo sem-fim dos tempos. O segundo, também mítico, da Criação do homem (Gênesis, no primeiro livro da Bíblia), a criação de Eva, por Javé, a partir de uma costela de Adão. Mitos à parte, o certo é que Chico Buarque canta como ninguém a alma feminina. De uma feita, a propósito disso, a ex-mulher de Chico Buarque, Marieta Severo, afirmaria: "Ele conhece o íntimo da mulher melhor que eu!".

Dia desses, entre amigos, no aconchego da casa da Taíba, falávamos da figura feminina na canção de Chico Buarque, e o tema nos levou pelo andar da madrugada. As opiniões, por saudável, divergem.

Se existe quem condene o ponto de vista cultivado pelo poeta de Angélica, numa perspectiva ingênua do politicamente correto, para a qual Chico Buarque revela "quase sempre" o lado frágil e dependente da mulher, não é menos verdade que em muitas de suas canções ocorre o contrário, cabendo ao homem o sentimento da perda e a angústia de não saber recomeçar. Em uma dessas, o machismo antes expõe, com sutileza, o homem inconformado com o desfecho da relação. Mas o faz, como disse, pelas entranhas do inconsciente, veladamente: "Aquela esperança de tudo se ajeitar/Pode esquecer/Aquela aliança você pode empenhar ou derreter/Mas devo dizer que não vou lhe dar/O enorme prazer de me ver chorar/Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago/Meu peito tão dilacerado/Aliás, aceite uma ajuda do seu futuro amor/Pro aluguel/Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu/Eu bato o portão sem fazer alarde/Eu levo a carteira de identidade/Uma saideira, muita saudade/E a leve impressão de que já vou tarde".

Em tempo, como me referi à canção Angélica, não é muito lembrar que constitui uma belíssima homenagem de Chico Buarque à estilista Zuzu Angel Jones, composta com Miltinho. Nela, o eu-lírico é, de fato, diferentemente do que está em Pedaço de Mim, que se refere ao amor erótico, a mãe destroçada pela perda do filho: "Quem é essa mulher/Que canta sempre esse estribilho?/Só queria embalar seu filho/Que mora na escuridão do mar".

A resposta a essa pergunta está no Brasil de que devemos lembrar apenas para nunca esquecer, ao contrário do que se ouve pelos quatro cantos de um país que namora com o retrocesso, bem como fazem os que aplaudem Bolsonaro hoje em dia. Essa mulher é  Zuzu Angel, que teve o filho, Stuart Edgar Angel Jones, brutalmente assassinado durante o governo militar, em 1971, e cujo corpo, arrebentado, jamais apareceu, supostamente atirado ao mar. Daí o porquê dos versos: "Só querida embalar seu filho/Que mora na escuridão do mar".

Aqui, se não ocorre o fenômeno da transposição do Eu no Outro, pois que o ponto de vista é a terceira pessoa, ressalta o olhar crítico de Chico em relação aos anos de chumbo, e a voz tocante do poeta que sabe entender a dor alheia e a imortaliza numa verdadeira obra-prima. Ocorre-me, mais uma vez, a incontornável leitura da ensaísta Adélia Bezerra de Menezes, a nos chamar a atenção para o fato de que Chico joga com dois parâmetros femininos essencialmente distintos: a estilista, a profissional do supérfluo, a mulher dedicada à fantasia, à beleza e a sensualidade arquetípicas da feminilidade etc., dá lugar à mulher combativa, que "se lança numa cruzada de denúncia, de enfrentamento do poder militar que lhe custará a vida".

Sabe-se que Zuleika Angel Jones, a Zuzu, também viria a morrer em circunstâncias nunca esclarecidas, em 1976, num acidente de carro, ao que tudo indica, ocasionado pelos assassinos do filho.  

    

MEMÓRIA E SILÊNCIO

Do pesquisador e querido amigo José Hilton Lima Verde Montenegro, cujos trabalhos têm constituído importante contribuição para o resgate da memória iguatuense, abandonada em silêncio, bem na linha do que tem feito emblematicamente bem o primo Wilson Lima Verde, recebo o simpático convite para participar do lançamento do livro Montenegro, Família, História e Medicina. A solenidade ocorrerá no Ideal Clube de Fortaleza, no dia 16 de março. Já não fosse bastante tratar-se de uma homenagem merecidíssima a uma das mais brilhantes personalidades iguatuenses, não é muito antecipar-se à leitura da obra para reconhecer sua importância para a cidade de Iguatu e, mesmo, para o estado do Ceará. É que Hilton Montenegro figura entre os grandes talentos da cidade, notabilizando-se pelo rigor científico com que trabalha a matéria histórica e o fino trato de linguagem com que tece seu memorialismo a um tempo profundo e agradável de ler. A terrinha está de parabéns.

MEMÓRIA II

Cada vez mais as fronteiras entre as diferentes linguagens têm se mostrado devassáveis. Esse campo epistemológico, já há muito examinado por grandes estudiosos, na linha das contribuições de nomes importantes como os de Umberto Eco e Susanne Langer, para ficar em dois autores que curiosamente se colocam tão próximos e tão distantes, mas que são em igual medida incontornáveis no território do que se tem produzido no campo da linguagem, vem despertando desde algum tempo o interesse do professor e eminente pesquisador Régis Frota, de que resultaram livros muito interessantes sobre as traduções intersemióticas, a exemplo de literatura/cinema, direito/cinema e arquitetura/cinema. O tema, por si só, é muitíssimo sedutor, posto que o cinema trabalha no âmago da linguagem, constituindo, como já nos advertiu Julio Plaza em livro obrigatório, o mais perfeito modelo das inter-relações semióticas desde suas bases estéticas, que exploram, é sabido, o cruzamento de diferentes códigos numa perspectiva de tempo/espaço que é mesmo o que existe nele de mais específico: a montagem. É pela montagem, pois, que o cinema condiciona o espectador a preencher vazios, silêncios, fragmentos de memória, estabelecendo com ele, espectador, um tipo de parceria sem a qual nenhuma narrativa se sustenta e a comunicação se tornará possível em níveis satisfatórios. Não é muito lembrar o que teorizou sobre isso o cineasta russo Sergei Eisenstein em suas Reflexões de um cinema: "A imagem inventada pelo autor torna-se a própria substância da imagem do espectador... Fabricada por mim, espectador, nascida em mim. Não somente obra do autor, mas obra minha como espectador, espectador que também é criador". Digo isso para ressaltar o empenho bem sucedido de Régis Frota em parte significativa de sua vasta produção. Agora, vem a público com um livro diferente, sem abandonar, no entanto, sua visada atenta e habilidosa acerca das traduções entre diferentes linguagens, objeto epistemológico tão caro ao estudioso cearense, bem na linha do que faz quando examina Inocência, de  Visconde de Taunay, levada para o cinema pelas mãos sensíveis de Walter Lima Jr., ou São Bernardo, de Graciliano Ramos, com a direção "segura" de Leon Hiszmann, dois dos muitos filmes sobre os quais se debruça Frota em sua mais recente incursão no campo cinematográfico. Mas o livro, Memória e Silêncio no Cinema Chileno, como é fácil deduzir a partir do próprio título, tem como escopo, mesmo, é o cinema do Chile, que Régis, pela paixão com que encara todos os desafios relacionados à sétima arte, passou a conhecer como poucos. Desse modo, não bastassem as numerosas e inquestionáveis qualidades da pesquisa, presta o autor, com este novo título, um serviço sem precedentes à ensaística cinematográfica brasileira, preenchendo, com mérito que devemos aplaudir, uma lacuna inaceitável, considerando-se aquilo que representa a cinematografia chilena, desde suas origens aos dias atuais. Aprendi muito, pois, com o livro de Régis Frota no que diz respeito ao cinema do Chile, passando a conhecê-lo muito e muito mais do que já se nos tornara possível, diante da tela, a partir de verdadeiras obras de mestre, como as de Raul Ruiz, Patrício Gúzman, Pablo Larrain, Matias Bize e Fernando Lavanderos, para citar uns poucos dentre aqueles, ainda que na superfície, já "vistos" por cinéfilos brasileiros. Aprendi, insisto. O mesmo, estou certo, ocorrerá a você depois de ler estes ensaios com que Régis Frota enriquece o repertório crítico-analítico do cinema latino-americano, com destreza e aguda percepção do que mais importa em uma realização fílmica. "Não fosse isso e era muito, não fosse tanto e era quase", que me vêm à mente, neste instante, as palavras do poeta Leminsky.

Memória e Silêncio no Cinema Chileno

Cada vez mais as fronteiras entre as diferentes linguagens têm se mostrado devassáveis. Esse campo epistemológico, já há muito examinado por grandes estudiosos, na linha das contribuições de nomes importantes como os de Umberto Eco e Susanne Langer, para ficar em dois autores que curiosamente se colocam tão próximos e tão distantes, mas que são em igual medida incontornáveis no território do que se tem produzido no campo da linguagem, vem despertando desde algum tempo o interesse do professor e eminente pesquisador Régis Frota, de que resultaram livros muito interessantes sobre as traduções intersemióticas, a exemplo de literatura/cinema, direito/cinema e arquitetura/cinema. O tema, por si só, é muitíssimo sedutor, posto que o cinema trabalha no âmago da linguagem, constituindo, como já nos advertiu Julio Plaza em livro obrigatório, o mais perfeito modelo das inter-relações semióticas desde suas bases estéticas, que exploram, é sabido, o cruzamento de diferentes códigos numa perspectiva de tempo/espaço que é mesmo o que existe nele de mais específico: a montagem. É pela montagem, pois, que o cinema condiciona o espectador a preencher vazios, silêncios, fragmentos de memória, estabelecendo com ele, espectador, um tipo de parceria sem a qual nenhuma narrativa se sustenta e a comunicação se tornará possível em níveis satisfatórios. Não é muito lembrar o que teorizou sobre isso o cineasta russo Sergei Eisenstein em suas Reflexões de um cinema: "A imagem inventada pelo autor torna-se a própria substância da imagem do espectador... Fabricada por mim, espectador, nascida em mim. Não somente obra do autor, mas obra minha como espectador, espectador que também é criador". Digo isso para ressaltar o empenho bem sucedido de Régis Frota em parte significativa de sua vasta produção. Agora, vem a público com um livro diferente, sem abandonar, no entanto, sua visada atenta e habilidosa acerca das traduções entre diferentes linguagens, objeto epistemológico tão caro ao estudioso cearense, bem na linha do que faz quando examina Inocência, de  Visconde de Taunay, levada para o cinema pelas mãos sensíveis de Walter Lima Jr., ou São Bernardo, de Graciliano Ramos, com a direção "segura" de Leon Hiszmann, dois dos muitos filmes sobre os quais se debruça Frota em sua mais recente incursão no campo cinematográfico. Mas o livro, Memória e Silêncio no Cinema Chileno, como é fácil deduzir a partir do próprio título, tem como escopo, mesmo, é o cinema do Chile, que Régis, pela paixão com que encara todos os desafios relacionados à sétima arte, passou a conhecer como poucos. Desse modo, não bastassem as numerosas e inquestionáveis qualidades da pesquisa, presta o autor, com este novo título, um serviço sem precedentes à ensaística cinematográfica brasileira, preenchendo, com mérito que devemos aplaudir, uma lacuna inaceitável, considerando-se aquilo que representa a cinematografia chilena, desde suas origens aos dias atuais. Aprendi muito, pois, com o livro de Régis Frota no que diz respeito ao cinema do Chile, passando a conhecê-lo muito e muito mais do que já se nos tornara possível, diante da tela, a partir de verdadeiras obras de mestre, como as de Raul Ruiz, Patrício Gúzman, Pablo Larrain, Matias Bize e Fernando Lavanderos, para citar uns poucos dentre aqueles, ainda que na superfície, já "vistos" por cinéfilos brasileiros. Aprendi, insisto. O mesmo, estou certo, ocorrerá a você depois de ler estes ensaios com que Régis Frota enriquece o repertório crítico-analítico do cinema latino-americano, com destreza e aguda percepção do que mais importa em uma realização fílmica. "Não fosse isso e era muito, não fosse tanto e era quase", que me vêm à mente, neste instante, as palavras do poeta Leminsky. Parabéns, mestre!