O ano de nossas vidas

Eis que chegamos a 2011. 2010 não foi um ano fácil, eu sei, pelo menos para mim. Mas desejo que tenha sido bom para vocês. Aliás, pensando bem, acho que estou sendo injusto com a vida. Se ela me deu no ano que passou alguns dissabores, e, já no desfecho, um momento dramático para enfrentar, fiz coisas boas, muitas. Retomei um segundo doutorado e estou pesquisando a obra teatral de um dos meus autores preferidos, Nelson Rodrigues; "deixei de comprar o meu câncer", como disse a poeta (assim, como está escrito) Elisa Lucinda quando parou de fumar; terminei um livro novo e arrumei a casa para a chegada de Carolina, a minha filha que vem morar comigo a partir de agora; fiz novas amizades e alimentei as antigas etc. Como se vê, até que não foi improdutivo o ano.
 
Li muito, li como não fazia há tempos, de Vargas Llosa a Jorge Luis Borges, que, tenho o atrevimento de confessar, não está entre os meus escritores mais amados. Reli alguns clássicos, folheei novidades, vi e revi filmes... escrevi, ministrei cursos interessantes, conheci gente nova e nutri uma paixão inesperada, que é do casual que se faz (e refaz) a vida.
 
No cenário nacional, é provável que 2010 tenha sido um ano alvissareiro: a economia foi bem, a crise financeira internacional nos atingiu como uma "marolinha", tivemos um presidente que se redimensionou em suas possibilidades, pacificaram o Rio de Janeiro, elegemos a nossa primeira mulher presidente, enfim, um ano de conquistas e realizações, mesmo para os eternamente-insatisfeitos-de-plantão  -  e o Brasil, pouco mais ou menos, tornou-se o país dos sonhos. Sem fechar os olhos para a porrada de coisas que ainda estão por fazer, claro. Mas o balanço é positivo, positivíssimo, eu diria.
 
Decepções, fracassos, desencantos, fatalidades etc., são coisas naturais, que fazem parte da vida por inteiro, que ela não é só feita de graças. O amigo faltou, a namorada desistiu de tentar, o sonho da viagem não se tornou possível? Fazer o quê? Entregar-se à tristeza, à saudade que dilacera, à frustração que silencia a nossa capacidade de sonhar? Acho que a virada do ano traz consigo a possibilidade de sermos melhores, de darmos o troco ao que não deu certo nutrindo a esperança de que no Ano Novo haverá de dar, de conquistarmos novas amizades, de que o dinheiro, se bem gasto, poderá ser suficiente para aquela viagem com que você sonhou, de que a natureza seja mais generosa, de que surgirá o grande amor, de que poderá se dar o reencontro, de que tanta coisa boa está por acontecer. A vida é bailarina, já nos dizia o poeta, e nenhum ponto inerte anula o eterno viravoltear das coisas.

Que o Ano Novo venha cheio da sabedoria que nos faltou, da fé que não tivemos, da certeza de que Deus é bom e nunca faltará com aqueles que acreditam na eternidade de sua existência. Que o Ano Novo nos renove naquilo que ficou envelhecido, que se desgastou pelos tantos equívocos que cometemos, pelas faltas que poderíamos ter evitado, pela intolerância com que nos tratamos tantas vezes uns aos outros. Que o Ano Novo, de tão bom, seja o ano de nossas vidas!


Então, é Natal!

Para Regina Jereissati

Lispector, Clarice Lispector, tem uma crônica que fala de uma experiência curiosa: recebera um telefonema de alguém comunicando que uma moça que conhecera faria uma apresentação musical na tevê. A cronista fica intrigada, pois a jovem tinha uma voz delicada, uma voz de criança, de um feminino infantil. Mas liga a tevê e se pergunta: - "Terá ela força ao piano?" E qual não é a surpresa, posto que a moça tocava um piano irrepreensível e cantava com uma emoção contagiante. Diz Clarice: - "Deus, ela possuía a força. Seu rosto era um outro, irreconhecível."

A escritora ficou de tal modo tocada pela arte da moça, que, sempre tão apolínea, não conseguiu conter as lágrimas. Como se o filho, que mal contava 14 anos, percebesse a emoção da mãe, esta tenta disfarçar: - "Estou nervosa, vou tomar um calmante." E o filho a surpreende com o que diz na crônica ter sido uma bela lição: - "Você não sabe diferenciar emoção de nervosismo? Você está tendo uma emoção." E Clarice, assimilada a lição, vive "o que era pra ser vivido."

Lembrei-me dessa historinha outro diz. Era um show do cantor Raimundo Fagner na programação dos 100 anos do Theatro José de Alencar. Eu assistia ao show pela tevê. No finalzinho, Fagner surpreende com a canção natalina de John Lennon e Y. Ono Então é Natal , numa bela versão de Claudio Rabello: "Então é Natal / E o que você fez / O ano termina / E nasce outra vez."

Fagner cantava com uma força interior, com uma entrega sentimental tamanha, que, a exemplo de Clarice, abandonei-me a uma emoção tão grande, tão inesperada e tão sincera, que, estando Saulo, o meu filho, ali ao lado, por pouco não reeditei Clarice: "Estou nervoso, vou tomar um calmante." E só então, como que por milagre, me veio à mente o sentido do que se passava comigo naquele instante. E vivi o que tinha de ser vivido.

Enquanto isso, inconfundível, Fagner continuava: "Então é Natal, pro enfermo e pro são. /Pro rico e pro pobre, num só coração. /Então bom Natal, pro branco e pro negro. /Amarelo e vermelho, pra paz afinal. /Então bom Natal, e um ano novo também. /Que seja feliz quem / souber o que é o bem."

Feliz Natal!

Observar as pausas, valorizar o silêncio

Tchékhov confiara a segunda montagem da peça A Gaivota a Stanislávski. Espetáculo pronto, chega para o diretor e reclama: - "O que você fez, o espetáculo vai ficar esticado, muito maior do que o previsto?" Ao que Stanislávski responde: - "Nada, apenas observei as pausas, valorizei o silêncio." Que bela lição não apenas de semiótica teatral. Falo de uma outra lição, que pouca gente aprendeu: observar as pausas, valorizar o silêncio.

Na vida, quase sempre, é assim. A gente não observa as pausas, não valoriza o silêncio. E, no entanto, quanta coisa ruim poderia ser evitada. Quantas feridas abertas a menos, quanto sofrimento... É que quase nunca percebemos o momento de calar, de ouvir mais o outro. Nos relacionamentos, não raro, acontece de uma palavra desnecessária pôr por terra o que se ergueu com tanto entusiasmo, o que se fez com tanto amor. Na ânsia de construir, destruímos. Na vontade de fazer valer a nossa vontade, não observamos as pausas, não valorizamos o silêncio. E o mundo desmorona.

Consta que a primeira montagem de A Gaivota, em 1896, fora um fiasco. De público e de crítica. Uma pena, leve-se em consideração que o texto é maravilhoso, poético, de uma harmonia estética invulgar. O próprio autor dissera sobre ela: - "[...] uma comédia, três papeis de mulher, seis para homens, quatro atos, uma paisagem (vista para o lago), muitas conversas sobre a literatura, um pouco de ação, um toque de amor." Mas o público a repudiara. Não se observaram as pausas, não se valorizara o silêncio.

Dois anos mais tarde, sob nova direção, marcaria época no teatro universal. Desde então, uma gaivota passou a ser o símbolo do Teatro de Arte de Moscou, uma das mais prestigiadas casas de espetáculo do mundo.

Como se explica que uma mesma peça seja um fracasso hoje, um sucesso estrondoso pouco tempo depois? Simples: Stanislávski, que a dirigiu numa segunda montagem, percebera na obra uma economia de voz, de movimento, uma contenção de gestos, como jamais alguém fizera. Numa palavra: observou as pausas, valorizou o silêncio. Na vida, como no teatro, a essência das coisas muitas vezes está nas entrelinhas, num gesto que quase não se percebe, numa palavra que não se diz, num sinal que nunca vemos... Nas pequenas coisas da vida estão os mais fortes sentimentos, as maiores aflições. Todavia, quantas vezes não deixamos de fazer na vida como Stanislávski no teatro? Não observamos as pausas, não valorizamos o silêncio...

Uma forma amarga de nascer

Entre os filmes que adoro está Il Postino, que, no Brasil, tem o mesmo nome do livro em que foi inspirado: O Carteiro e o Poeta, de Antônio Skármeta. Não à toa, vire e mexe escrevo sobre esta adaptação maravilhosa levada ao cinema sob a direção de Michael Radford. Um clássico sobre a força prodigiosa da poesia na amizade e no amor. Ontem, a exemplo do que faço vez e outra na cadeira de Estética e Filosofia da Arte, mostrei a 'película' e abri o debate com os alunos. Um deles, quis saber: - "É ficção ou baseia-se em fatos reais da vida de Pablo Neruda." Ficção e realidade.

No livro, Skármeta ambienta a história no Chile, entre 1969 e 1973, ano em que morreu o poeta, contados dez dias do suicídio (?) de Salvador Allende. Nesse sentido, o filme se aproxima mais da verdade dos fatos, uma vez que o exílio de Neruda ocorreu em Capri, na Itália, onde viveria um incontornável amor clandestino com Matilde Urrutia, uma enfermeira que lhe prestara assistência depois que o poeta sofrera um acidente de automóvel em Santiago.

Segundo Skármeta, no delicioso Neruda por Skármeta, livro em que discorre sobre a sua amizade íntima com o poeta, a ideia do filme surgiu do acaso. O ator Massimo Troisi depara com uma tradução do livro para o italiano, "[...] Termina de lê-lo nessa mesma tarde em sua casa. Na mesma noite liga para o produtor e ordena, implora, que ele compre os direitos de adaptação do livro para o cinema." Esta a razão por que o filme é ambientado na Itália. Troisi, que interpretaria à perfeição o carteiro, sofria de uma doença grave e não estava em condições de viajar para fazer as gravações do filme fora do seu país. O porquê de ser italiana a obra que conquistaria o coração de cinéfilos mundo afora.

Skármeta faz alusão a um fato curioso ocorrido durante as filmagens: Radford, reparando no abatimento de Troisi, propõe ao ator suspender as filmagens até que se recupe. "Um filme não vale uma vida", teria argumentado. Ao que Troisi, num tipo de premonição, respondera: - "Estamos fazendo um filme para que os nossos filhos sintam orgulho da gente, certo?" Irônico. O coração do ator estancaria no dia exato em que foram concluídas as gravações de Il Postino. Troisi morreria sem conhecer o estrondoso sucesso do filme. Mas voltemos ao clamoroso romance de Neruda com Matilde.

De volta ao Chile, o poeta do amor tenta a custo esconder da verdadeira mulher, Delia del Carril, o seu envolvimento com Matilde. Em vão. Escrevera em intenção da amante o belo Os versos do Capitão, que assinara com o ingênuo pseudônimo de Anônimo. No livro, pasmem, alguns dos versos mais célebres de Neruda: "Tal vez llegará un día / en que un hombre / y una mujer, iguales / a nosotros, / tocarán este amor, y aún tendrá fuerza / para quemar las manos que lo toquen."*

Neruda, sob a repercussão do caso, romperia com Delia del Carril, para terminar seus dias ao lado de Matilde, a mulher a quem certamente dedicara o melhor de si como homem e amante. Se era reconhecedor das qualidades imensas de Delia, conforme faria sempre questão de por em evidência, compreendera, como afirma num dos seus versos antológicos "... que o amor extinto não é a morte / mas uma forma amarga de nascer."

* Talvez chegue um dia / em que um homem / e uma mulher, iguais / a nós dois / tocarão neste amor, que ainda terá força / para queimar as mãos que o toquem.

Todo o sentimento

Semana que passou, escrevi neste espaço sobre Toquinho e, por tabela, a coleção Histórias de Canções, da editora Leya, que vem a público com assinatura do jornalista Wagner Homem. No texto, disse ser o volume dedicado a Antônio Pecci Filho o segundo da aludida coleção. Equívoco, o livro é o terceiro, uma vez que fora publicado antes um título sobre o compositor Paulo César Pinheiro. Indiferente ao fato, agora esclarecido, leitor pede que comente sobre o volume 1, Chico Buarque de Hollanda. Faço-o, com prazer.

Antes, devo acrescentar: a coleção História de Canções surgiu quando Wagner Homem teve a feliz ideia de colocar no papel as circunstâncias em que cada canção de Chico Buarque fora composta. Wagner é amigo íntimo de Chico e domina informações curiosas sobre quase tudo o que o multiartista fez em termos de MPB. Como ele mesmo fez questão de esclarecer, contudo, não se tratava de produzir um songbook ou uma biografia das muitas que já se conhecem sobre o próprio Chico. Não, o pesquisador queria algo mais que isso. Queria contextualizar músicas como A Banda, Pedro Pedreiro, Apesar de Você, Todo o Sentimento, por exemplo. Queria dizer em que momento da realidade brasileira o artista fizera clássicos como esses. O livro resultou maravilhoso e agrada antes de tudo pela leveza de linguagem com que o escritor trata verdadeiras obras-primas do cancioneiro popular. Mas, em atenção ao leitor desta coluna, teçamos algumas considerações sobre o livro dedicado a Chico, com que a coleção foi inaugurada.

Pois bem. O volume traz tantas e tão boas informações sobre o que há de mais representativo da genialidade do autor de Construção, que o próprio Chico diz num e-mail enviado a Wagner e publicado na contracapa: "[...] Enquanto lia, eu pensava, tenho uma história boa para contar ao Wagner. Mas, à medida que o livro avançava, todas essas histórias apareciam. [...] Acho que você as conhece todas, melhor que eu." De fato, o pesquisador vai fundo na intimidade criativa do gênio. Comenta, inclusive, músicas extraordinárias mas pouco conhecidas do grande público, a exemplo da belíssima Todo o Sentimento, que narra a necessidade que sente o amante de reviver um grande amor até seus últimos momentos: "Pretendo descobrir / No último momento / Um tempo que refaz o que desfez / Que recolhe todo o sentimento / E bota no corpo uma outra vez."

Letra esplêndida, que revela a sensibilidade romântica do Chico trovador. Segundo Wagner Homem, a música fora composta originalmente como um samba, mas uma greve de técnicos condicionou o autor a mexer nos arranjos e aproveitar uma gravação já feita mesmo em ritmo de canção. Lembra, ainda, que Todo o Sentimento faria parte, depois, da trilha da novela Vale Tudo, da TV Globo, 1988.

Samba, como queria Chico, ou canção, no que resultou este clássico do romantismo musical brasileiro, o certo é que Todo o Sentimento explora com maestria a trajetória de um amor que se recusa a perecer, mesmo quando cai "doente, doente". Não sem razão, assim é que termina essa emocionante declaração de amor, uma das mais extraordinárias letras de Chico Buarque de Hollanda: "Depois de te perder / Te encontro, com certeza / Talvez no tempo da delicadeza / Onde não diremos nada / Nada aconteceu / Apenas seguirei, como encantado / Ao lado teu." Poucas vezes, mesmo num cenário de verdadeiras obras-primas qual o da música popular brasileira, um poeta terá ido tão fundo no que há de mais essencial na história de um grande amor que não quer morrer. Recomendo.

A singela poesia de Toquinho

Aconteceu em Belo Horizonte. Era outubro de 1976 e Toquinho, terminado o show, é surpreendido no camarim do Teatro Francisco Nunes por duas irmãs, Águeda e Mônica. Ele, sempre sensível à beleza feminina, claro, desdobrou-se em simpatia e logo as convidou para jantar. Final de noite, é Águeda quem lhe dá o número do telefone, mas era Mônica quem tocara o coração do artista. Coisas de poeta.
 
Dia seguinte, saem juntos, Toquinho e Mônica, e passam uma tarde feliz, conversando. Ele viajaria para o Rio no outro dia. Hora da partida, num rompante típico dos apaixonados, já na escadinha do avião, decide não embarcar: - "Não vou pegar esse avião. O que eu quero mesmo é ficar aqui." Desce rápido o lance de degraus e toma um táxi para o centro da cidade.
 
Mesmo dia, procura o pai da moça. Quer levá-la consigo para o Rio, mas seu Bento é resoluto: - "Viajar com Mônica, só casando!" É o que ocorreria em abril do ano seguinte, Vinicius como padrinho. Durante a cerimônia, o fundo musical deixava que se ouvisse não a tradicional Marcha Nupcial , mas a voz do próprio Toquinho interpretando uma música de Mutinho, com letra só dele, o noivo. Nascera, por força desse amor que reproduz o protótipo do amor dito romântico, Canção pra Mônica, uma das mais lindas do repertório de Antonio Pecci Filho, esse paulistano que é uma dos expoentes da Música Popular Brasileira.
 
É um poema longo, com uma estruturação rímica simples e versos absolutamente singelos, mas dotado de uma beleza poética que se compara ao que há de melhor na obra romântica de Vinicius de Moraes ou Chico Buarque de Hollanda: "Deixa eu poder reclamar / desse tempo passado sem desfrutar / sem sentir teu perfume, te ver, te tocar / sem sonhar os teus sonhos nem neles estar."
 
A letra, como se vê, constitui um apelo, desses tão recorrentes na história do cancioneiro popular ou na literatura, mas o casamento com a melodia de Mutinho a redimensiona e enriquece, além de exemplificar uma cantada irresistível desse carismático conquistador, tão bom poeta como compositor e instrumentista: "Deixa eu poder mendigar / as migalhas do vento que vem te alisar / se você num momento sem muito pensar / tenha os olhos atentos num outro lugar. / Deixa eu poder blasfemar / se qualquer dia desses eu necessitar / se buscando saídas eu me equivocar / e depois teu perdão eu tiver que implorar", diz a uma dada altura da música, para desfechar com a promessa de viver o amor em que pesem as diferenças: "Deixa eu querer-te, mulher, / dar-te tudo o que um dia você desejou / ter-te sempre a meu lado como você é / e te amar como eu sou."
 
Os fatos que levaram Toquinho a escrever a letra sobre a música de Mutinho, fugindo ao que é mais comum em sua rica obra, está no livro Toquinho, história das canções , de João Carlos Pecci e Wagner Homem, que li durante o final de semana e recomendo aos leitores dessa coluna. É o segundo livro da coleção, que foi inaugurada no início do semestre com o volume dedicado a Chico Buarque. Um primor.
 
 
 
 

Crônica para uma amiga

Amiga me falava outro dia, tomada de susto: - "Hoje, comprei cervejas para o meu filho comemorar com amigos. Ele está fazendo 17 anos, mas ainda lembro da cor da mamadeira, meu Deus!" E discorria sobre a atonia que lhe invade a alma sempre que pensa sobre o futuro, o rumo incerto que tomarão os seus filhos, do que vai ser a sua vida sem eles por perto, da sensação de perda incontornável que advirá disso etc. Estava aturdida a minha amiga, como querendo ouvir de mim o que não soube como lhe dizer naquele instante. Fiquei ali, entre tocado e atônito, sem dizer palavra. A vida de todos nós.

Acho mesmo que esse é um momento por que todo homem e toda mulher tem de passar um dia. O momento em que se veem os filhos crescer e se aproximar a hora de espreitá-los tomar seu rumo, um tanto quanto independentes de nós, das nossas vontades e - não raro! -, na contramão do que gostaríamos. É a hora em que cai a ficha e percebemos que os filhos, lá nos recônditos mais doídos das verdades, não são nossos, e que os criamos para a vida, esta soberana rainha do destino e do desconhecido. É a hora em que começamos a olhar para trás e ver que toda a caminhada, em muitos aspectos, foi feita de sonhos e de fantasias. E que há uma realidade aguardando aquelas "coisinhas" que mais amamos, e que, equivocados, pensávamos poder tê-las conosco pelo infinito dos tempos.

Com todos nós, aqui ou além, cedo ou tarde, acontecerá o mesmo. O momento em que somos chamados a usar as mais duras expressões: na realidade, de fato, em verdade e coisas que tais. A dura realidade da vida. O momento em que percebemos, estupefatos, que o tempo passa, o tempo não para, como nos falou o poeta Cazuza. E dói compreender o quanto de vida deixamos para depois, os sonhos que vamos empurrando para amanhã. E, de repente, vemos que o amanhã foi ontem, anteontem, é agora um passado distante. E tantos desses sonhos se desmancharam no caminho, como os castelos de areia que se constroem nas praias...

Minha amiga é uma grande mulher. Mãe exemplarmente amorosa, deu aos filhos uma educação que foge ao comum do que se conhece nos dias atuais. Quando esposa, posto que enviuvou há coisa de uns cinco, seis anos, foi de uma dedicação e de um desvelo incomuns. É filha carinhosíssima, uma irmã como poucas. Mas vive aquele momento em que olhamos para trás e achamos que poderíamos ter feito mais e melhor. E o futuro, na perspectiva do que os nossos olhos podem ver, é um tanto triste e solitário.

Não lembra, a minha amiga, que a vida começa a cada manhã. Na crise de um instante, seus olhos são pequenos para ver o tanto de amor que ainda tem para dar... E o quanto, o quanto tem sido amada. E haverá de ser!

Travessuras da menina má

Amigo, anos depois do rompimento com a ex-mulher, está de volta. Mas diz que "cristal quebrado não tem conserto", pode? Já entra na relação, outra vez, inseguro, e nutre o medo da própria sombra. Ontem, entre um chope e outro, dizia meio vacilante: - "Foram dois anos de separação... Ela teve um namorado, é complicado!" Estava tenso, cheio de pruridos com o fato de que a ex tentara recomeçar sua vida. Um quadro curioso, em pleno século XXI. Como estivéssemos todos, outros amigos e eu, empenhados em ajudar o 'ciumento retrospectivo' (a mulher rompera com o novo namorado bem antes de ceder à proposta de reaproximação), citei ene casos semelhantes que tiveram desfechos os mais felizes. Nada. O moço está pra lá de encucado com a situação. Incrível.

Mudávamos de assunto, Dilma Rousseff aqui, Ronaldo O Fenômeno acolá, volta e meia e um chope a mais, o tema voltava, na boca dele, claro: - "É por que não é com vocês... Saber que dormiu com outro, que fez com ele as mesmas coisas..." Quem haveria de segurar a cargalhada? Muito engraçado. Um dos nossos, acanalhado, como dizia meu pai, ainda arriscou: - "Bobagem. Lavou, 'tá novo de novo!" Por pouco, o happy hour não se transforma em tragédia. Foi aí, como é de praxe, que lancei mão da literatura para restabelecer a harmonia entre os convivas do fim de tarde.

Lembrei, num lampejo a serviço da paz, do novo Nobel de Literatura, o peruano Mário Vargas Llosa. Não é que o romancista escreveu uma obra-prima sobre o assunto? Isso mesmo: Travessuras da menina má, belíssimo! Ricardo, um peruano radicado em Paris, reencontra um ex-amor da adolescência e vê, sob a magia do belo sentimento, que jamais esquecera a mulher. Tentam, mas o destino, trapaçeiro, separa mais uma vez os dois. Começa, assim, uma sequência extravagante de reencontros, em Londres, dos pubs, da cultura hippie dos anos 70; em Tóquio, com suas excentricidades; em Madri, das mudanças dos anos 80. Uma história extraordinária sobre as muitas faces do amor, no estilo inconfundível de narrar que faz de Vargas Llosa um dos dois maiores ficcionistas vivos. O outro, com a morte de Saramago, é García Márquez, óbvio.

E por falar no autor de Cem anos de solidão, uma curiosidade. Ele, Gabriel García Márquez, e Mário Vargas Llosa, que foram grandes amigos, são hoje desafetos figadais. O motivo? Teria o colombiano, numa visita a Llosa "dado em cima" da mulher deste. É conhecido o barraco em que os dois gigantes da narrativa de ficção contemporânea estiveram envolvidos numa cidade da Europa, Paris ou coisa que o valha. Mais novo e mais inteiro, o escritor peruano e atual Nobel deixou Márquez bastante avariado. O mundo das celebridades têm essas coisas também.

Voltemos às Travessuras da menina má. De uma forma particularmente gostosa, Llosa narra essa sedutora história de encontros e desencontros em lugares e circunstâncias as mais diversas. Com estilo e elegância aqui, discretamente cômico ou trágico ali, Mário Vargas Llosa joga com o banal e o inusitado para discutir o amor em toda a sua complexidade. Um belo livro sobre a paixão, o acaso, o perdão, a dor e o prazer da relação entre homem e mulher. Um drama muito parecido, guardadas as proporções, com o do meu amigo que acaba de reatar com a ex-mulher. Que ele não tenha reparado na dubiedade do título, Travessuras da menina má. Tenho dito.

Frida Kahlo, o exemplo

Esta semana revi, durante uma aula de Estética, na Faculdade, o belo filme de Julie Taymor sobre Frida Kahlo. Assisti à película, quando menos, uma seis vezes, e cada vez mais a obra me impressiona. A produção é 2002, numa parceria EUA/Canadá, e tem no elenco Salma Hayek, numa interpretação soberba de Frida, contracenando com Alfred Molina no papel de Diego Rivera. O filme narra a trajetória punjante da pintora mexicana, da adolescência à conturbada (e tocante) vida ao lado do seu mentor e marido Diego Rivera, passando pela rápida convivência com Leon Trotsky - com quem Frida manteria um rápido affair -, até sua morte, ocorrida em 1954.

Sabe-se que Frida viveu uma vida de dor e sofrimento. Teve poliomielite aos 6 anos e, aos 18, sofreu um pavoroso acidente de que saiu com fraturas por todo o corpo. Uma barra de ferro do ônibus entrou-lhe pelo pescoço e saiu pela vagina. Os ossos dos pés foram esmagados, a pélvis destroçada, inúmeras costelas quebradas e o ombro afundado. Frida viveria meses seguidos completamente imóvel, guardada por um colete de gesso que lhe cobria o corpo dos pés ao pescoço. Sobreviveu a tudo.

O filme de Julie Taymor, no entanto, embora mostre a cena do acidente e o comovente padecimento de Frida, explora com maior e justificada razão a vida da pintora, sua impressionante capacidade de extrair da dor e do sofrimento desumanos a força sublimatória que a levou a realizar uma obra absolutamente chocante, de uma beleza e uma originalidade inconfundíveis. Além de autobiográfica, claro. Marcas a que Julie Taymor se propôs, e conseguiu irrepreensivelmente, dar maior realce, sem contudo deixar de expressar a sua emoção estética pessoal, o que se vê nos recursos de linguagem com que compôs cada cena, cada sequência narrativa, cada fotografia do seu belíssimo filme. O colorido da película, aqui e além, lembra telas de Vermeer. Ou da própria Frida, para ser mais preciso.

Mas Frida, o filme, vai muito além da sua beleza plástica irretocável. Do ponto de vista conteudístico, por exemplo, levanta uma curiosa reflexão em torno da correlação de forças homem-mulher e a dicotomia entre o que sejam lealdade e fidelidade. Mulherengo incorrigível, Diego pergunta à futura esposa o que lhe parece mais importante, se a fidelidade ou a lealdade, ao que Frida responde: - "A lealdade." O filme passa, então, a discutir uma coisa e outra. À luz dos valores falocêntricos de Diego, sexo e amor são coisas distintas, razão por que se acha no direito de se envolver fisicamente com diversas mulheres, mantendo-se transparente em relação à Frida. Sendo leal, portanto. Ela, por sua vez, respeitando o pacto firmado com o marido, mas ultrapassando as fronteiras estabelecidas para a mulher, numa sociedade orientada por valores judaico-cristãos, também se relaciona com homens e mulheres, uma vez que os dois haviam compreendido a diferença entre um conceito e outro. Mas a lealdade é ferida por ambos: Diego transa com a irmã de Frida, sendo, assim, desleal com a mulher. Frida, também, rompe o pacto, ao relacionar-se com o amigo de Rivera. É por isso desleal. O pacto não previra relações tão íntimas, tão próximas dos dois amantes, o que, supostamente, inflige sentimentos mais nobres.

Um filme extraordinário, na perspectiva do que documenta sobre a vida de Frida Kahlo, e como obra de arte independente, nascida da imaginação e da fantasia dessa cineasta talentosa e original. Bem na linha do que professa Mário Vargas Llosa, a verdade artística é uma, a verdade histórica é outra. Por isso o filme ultrapassa os limites da história, mesmo da biografia escrita por Hayden Herrera, em que se baseou Taymor, e conta-nos uma história que a própria história não foi capaz de contar. Um filme imperdível.

Fora de mim

Na brevidade de suas 130 páginas, Fora de mim, de Martha Medeiros, é desses romances que se leem de um fôlego e que jamais serão esquecidos. Um livro intenso, desconcertante, arrebatador. Narrado em primeira pessoa, na perspectiva da mulher, o enredo começa no momento mais dramático de uma relação amorosa falida: quando a separação se consolida e a dor advinda dessa decisão corta o peito como uma lâmina em brasa. O discurso flui com a força da palavra cristalina com que a ficcionista, que já nos presenteara com Divã, outro belíssimo romance, constrói sua literatura absolutamente sedutora. Começa, como disse, no instante da ruptura, do baque, do golpe certeiro com que se descontrói uma história de amor, quando a ficha cai e se percebe que não resta chance, que se inicia a viagem sem volta.
 
A narradora inicia o seu périplo comparando o momento da separação ao relato de um sobrevivente de um desastre aéreo, do instante em que a aeronave começa a perder altitude, as turbinas, potência, e ouve-se o barulho estarrecedor do impacto com o chão: - "Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existiu não existe mais." Essa coisa, percebe-se com o passar das páginas, é a paixão, aquilo que existiu e não existe mais.
 
Na segunda parte, a narradora vai inserindo cenas do passado na estrutura cronológica da narrativa, revelando ao leitor como se dera o encontro, e como se construíra a relação, do fogo da descoberta às crises que iriam minando o sentimento até a morte inevitável. A dor incomunicável, o martírio sem nome, a ciclotimia da emoção, a saudade, a dúvida acerca do que seria continuar a vida sem a presença do que se amou um dia, são os elementos com que Martha tece a sua narrativa a um tempo trágica e alentadora.
 
Na terceira e última parte do livro, o momento da superação, quando o passado é visto sem desespero, sem a angústia decorrente da perda: - "Doeu perder você. Passados quatro anos, ainda lembro." É aí que o livro cresce, na medida em que o apelo dramático cede espaço a uma reflexão entre poética e filosófica, a filosofia dos amantes que se reconstroem das cinzas para enxergar a anteluz da manhã que se aproxima: - "[...] Uma dor que tentamos compreender em voz alta, uma dor que levamos para os consultórios dos analistas, uma dor que carregamos para mesas de bar, e que vem junto também para a solidão da nossa cama, para o escuro do quarto, onde permitimos que ela transborde sem domínio e sem verbo."
 
O clímax da narrativa, no entanto, está na passagem do livro em que a personagem 'discute' um dos temas mais explorados na literatura de todos os países, o ciúme, também no caso desse belíssimo Fora de mim, a causa decisiva do fim da relação. O que impressiona, aí, é que a obra de Martha Medeiros, na despretensiosa brevidade do volume, avulta, altaneira, guardadas as proporções, até os píncaros em que estão ladeados Proust e Machado de Assis, os maiores especialistas na interpretação do "monstro dos olhos verdes" de que nos falou William Shakespeare. A escritora gaúcha, assim, atinge o paroxismo de sua arte, assume, em definitivo, o posto mais alto entre os nomes de sua geração, e torna-se uma especialista no tema eterno da paixão, o qual trabalha com uma sensibilidade que não encontra páreo na literatura brasileira contemporânea.
 

Dilma presidente

A concluir pelo que dizem as pesquisas, a farsa da bolinha de papel, que seria a bala do tigre, resultou mal para o farsante. Ou seja, o tiro saiu pela culatra. Dilma cresceu em média dois pontos, Serra caiu dois. A quatro dias da eleição, pois escrevo esta coluna na quarta-feira 27, acho que as favas estão contadas, e o povo brasileiro, em sua maioria, está decidido a colocar pela primeira vez uma mulher como presidente da República. Um feito. E um reconhecimento aos avanços do atual governo, que elevou a condição de vida dos brasileiros mais pobres a níveis confortáveis, entre outras conquistas que só os adversários não querem ver. Realidade que Dilma, queira-se ou não, ajudou a construir.
 
Serra lutou, é verdade. Dessa vez, no entanto, lamentavelmente maculando a sua história de ex-presidente da UNE, ex-homem de esquerda, os 14 anos de exílio, os mandatos de deputado, senador, até onde sei marcados pela correção de ideias e ações, uma vez que pesam sobre o executivo, prefeito de São Paulo e governador do Estado mais rico do país acusações que ficaram até aqui sem defesas consistentes. No desespero, depois de uma animação sustentada nas primeiras pesquisas pós-primeiro turno, lançou mão de expedientes inescrupulosos, liderando uma campanha difamatória de que a história da nossa democracia se envergonhará.
 
Lula e Dilma multiplicaram-se, apoiados em números inequivocamente favoráveis ao seu governo, e na adesão convincente de intelectuais e artistas de peso, na linha do que fizeram expoentes como Chico Buarque de Holanda e Leonardo Boff, para ficar num exemplo. Souberam com equilíbrio e racionalidade lidar com a infâmia, a difamação, a calúnia, que passaram a ser a arma pretensamente mortífera do PSDB. Como disse, o tiro saiu pela culatra, e a realidade dos fatos aponta para uma vitória inconteste da candidata do PT.
 
Como, maliciosamente, afirmou Eliane Cantanhêde, jornalista do mais serrista matutino brasileiro, a Folha de São Paulo, "a eleição caminha, portanto, para a eleição [sic] da primeira mulher presidente do Brasil. Ou, na prática, para um terceiro mandato de Lula. A ver."
 
De fato, e em termos mais condizentes com os pressupostos da democracia, o presidente Lula, com a eleição de Dilma nesse domingo 31, fecha de forma acima de bem sucedida o seu ciclo, e começa uma nova etapa na sua trajetória vitoriosa como homem público e como cidadão, afastando-se apenas temporariamente de Brasília e do poder. Os mais de 80 por cento de aprovação, inéditos em toda a história do país, ao lado do prestígio de que goza além-fronteiras, parecem demonstrar concretas possibilidades de retorno de Lula ao posto de presidente da República. Que seja.
 
 
 
 

Último tango

Como o debate entre os presidenciáveis, domingo 17, estivesse aquém de morno, fui à estante apanhar um filme para ver, até que me chegasse o sono. Fiz isso meio às cegas, pegando intencionalmente ao acaso a caixa do DVD. Pasmem! Cai-me às mãos nada mais, nada menos que o Último tango em Paris, o belíssimo filme de Bernardo Bertolucci. Vi-o havia muitos anos, em 79, se não me engano, quando finalmente liberado no Brasil. A obra é de 1972, e a revi uma ou duas vezes, que é, do cineasta italiano, a de que mais gosto. Uma obra-prima da sétima arte, coisa obrigatória para os trintões e trintonas de hoje que não tiveram a oportunidade de vê-lo no cinema.

Tendo mesmo assumido o papel de animador cultural deste semanário, o sono sem vir, decido rascunhar um texto breve sobre este filme que marcou época na história do cinema de arte. Lembro que foi o primeiro nu frontal liberado no país, desde Norma Bengel em priscas eras, como diria mamãe. Mas, assistindo novamente a este maravilhoso trabalho de Bertolucci, reluto em 'ver' o lado violento ou apelativamente erótico do filme, pretexto com que se procurou justificar, aqui e além, a sua proibição durante quase uma década. Vejo-o como ao Império dos sentidos, outro clássico da época, marcado por forte poeticidade, e profundo, acima de tudo profundo como análise da paixão em sua mais completa complexidade. Um primor.

Para os que não o viram, à época, e que são o objeto da minha motivação enquanto escrevo esta crônica, conto o filme em duas palavras: Paul, numa interpretação inesquecível de Marlon Brando, é um americano de meia-idade que reside em Paris, onde acaba de perder a esposa por suicídio. Atormentado em face do ocorrido, enquanto caminha sem rumo pelas ruas de Paris, Paul cruza com Jeannie (Maria Schneider), uma beldade bem mais nova que ele e noiva de um jovem cineasta. Paul e Jeannie encontram-se num apartamento desocupado que pretendem alugar. Está construída a trama. Sem revelarem sua identidade, os dois passam a transar arrebatadamente, num frenesi estonteante e extremamente poético.

Alugado o imóvel, Paul e Jeannie passam a encontrar-se ali, entregando-se a uma paixão frenética, alucinante, até que ele desaparece sem deixar vestígios. Mas a história não acaba aí. Os dois se reencontram ao acaso, e Paul a leva a uma casa de tangos, onde vivem os derradeiros momentos desse amor enlouquecido, em cenas inesquecíveis de entrega e deslumbramento. Agora é ela que rompe a relação, subitamente, como que desiludida com a perda do anonimato que os unira antes. Foge para o apartamento em que mora com a mãe, mas Paul a segue desesperadamente. Mas não vou revelar o desfecho desse filme arrebatador.

O Último tango, além de ser um dos grandes filmes sobre a paixão, arrebanha em torno dele um corolário de curiosidades estarrecedoras. Uma delas diz respeito às declarações de Schneider sobre a antológica cena em que Jeannie é sodomizada por Paul com o auxílio de uma porção de manteiga. Depois das filmagens, a atriz chegou a dizer que Brando a violentara durante a gravação da cena, e que o seu choro, portanto, teria muito mais que técnica de interpretação. Não à toa, como se vê, causou escândalo, julgamentos desencontrados e censura quase universal ao filme.

Três pérolas

Três pérolas caem-me às mãos esses dias. Primeiro o texto dramático Júlio César e Polônio - A História pelo Avesso, do psiquiatra e contista Weimar Gomes dos Santos. Texto da melhor qualidade, desses que se podem apreciar independetemente de sua montagem cênica. Admiravelmente construído com os elementos do grande teatro, em que pese tratar-se de um texto antes de tudo moderno, no mais rigoroso significado da expressão, essa história pelo avesso, como o próprio subtítulo da peça deixa a ver, assinala a estreia de Gomes no gênero, mas já nasce maduro do ponto de vista da carpintaria teatral, que o autor soube manusear com surpreendente competência mesmo em se tratando de um estreante. Se o grande teatro é, antes de tudo, uma bela linguagem, como quis Louis Jouvet, para citar um renomado amante do teatro de texto, Júlio César e Polônio é peça para marcar a renovação do nosso teatro no que diz respeito à produção textual. Mas não se limita à questão da linguagem o que há de mais relevante na estreia de Weimar Gomes dos Santos no teatro. Fico antevendo o que resultará da obra se confiada às mãos de um diretor inventivo, quão inventiva é a tessitura dramática criada pelo autor. Como professo para os meus alunos de Artes Cênicas que a revitalização do nosso teatro pressupõe um retorno à valorização do texto, ler a "História pelo Avesso", que seu criador submete à minha modesta opinião, foi, a um tempo, uma experiência prazerosa e alentadora. Texto plural, cuja força vai para além da mera literariedade que é mesmo o que, ao primeiro olhar, chama-nos a atenção. Reforça esta qualidade, já referida, o estilo, ligeiramente inspirado (inconscientemente?) em Brecht, mesmo que a referência a Shakespeare seja uma marca assumida pelo estreante, bela promessa desses novos tempos.
 
A outra, o livro de contos Entre Oito Paredes, do também estreante Brennand de Sousa. Arquiteto de formação, o autor, que já tem íntimas ligações com outra estética, a teatral, vem a público, agora, com uma coletânea de narrativas curtas de inegável qualidade, em que sobressaem a visada pessoal extremamente sensível e o domínio da técnica, economia de meios, linguagem, unidade dramática, de tempo e de espaço, que denunciam a intenção de Brennand de, mantendo-se no território da tradição, e quem sabe por isso mesmo, constituir novidade num tempo de experimentalismos nem sempre bem sucedidos. O livro se constroi a partir do inusitado, daquilo que surpreende, que nos pega de inopino no vai e vem da vida: um assalto na rua, um pedinte com que deparamos aqui ou além, a presença ao mesmo tempo delicada e prodigiosa da avó amada, enfim, a matéria com que se tece o eterno viravoltear do cotidiano. Não bastasse, pela originalidade da escrita e oportunidade da intenção, a homenagem ao homem de teatro, emblematicamente representado na figura de Ricardo Guilherme, uma das mais elevadas expressões da nossa inteligência. Um pequeno-grande livro, este Entre Oito Paredes com que o amigo Brennand de Sousa faz sua estreia nas letras cearenses contemporâneas.
 
Por último, e de qualidades artísticas ainda mais impressionantes, o belíssimo CD homônimo de Maurílio Rocha, uma coletânea de músicas compostas em sua totalidade por esse mineiro talentosíssimo, que, por dever de ofício, como professor do curso de Belas Artes da UFMG, tem vindo ao Ceará com alguma frequência. Um trabalho musical refinadíssimo, este de Maurílio Rocha, quer pela competência do compositor, do poeta e do intérprete, que transita pelas três dimensões artísticas com a mesma e irrepreensível desenvoltura, quer pela motivação que o move enquanto grande artista que é, e de que resulta o presente álbum: Maurílio compôs as oito músicas para os espetáculos teatrais O Mambembe, de Arthur Azevedo, e Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare. Também por essa razão, o trabalho apresenta-se eficiente, preciso e original.
 
O carro-chefe do CD, no entanto, a fim de que se faça justiça a outro grande artista, conta com a parceria de Anderson Aníbal, que assina a letra, vestida à perfeição pela deliciosa melodia de Maurílio Rocha. Intitula-se O Sonho: "Diz, se você puder./O que é isso que me tonteia?/Que vira os meus olhos e me faz cair?/É sonho? É sonho? É amor? É?", indaga o eu-lírico na primeira estrofe do poema, para arrematar com um lirismo despretensioso e leve, que remonta, talvez, ao melhor romantismo do inconfidente Tomaz Antônio Gonzaga: "E esse doce, essa nuvem/Nuvem é lugar de andar/Andar com que pé?/Asa que você me dá./É asa./Amor./Amor é." Fina-flor.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A ética perdida

É verdade que dei com os burros nágua. Deu segundo turno e a galera da reação está exultando com a possibilidade de um retrocesso. Coisas da democracia, se é que se pode falar de democracia diante de tudo o que houve e que, até onde sei, explica a surpresa do resultado. Sem querer "perder a postura intencionalmente", a exemplo do que fiz na semana que passou, insisto na ideia de que a grande imprensa brasileira vem materializando o mais deslavado jornalismo marrom. Por falar nisso, leitor encontra-me na rua e diz com todas as letras: - "Você foi muito infeliz!" Isso, claro, depois de besuntar a crítica com elogios que estão para além do que pode este pobre escriba.

Analisando o que se deu em termos de mídia durante a campanha, ocorre-me lembrar do clássico As ilusões perdidas, de Honoré de Balzac, livro com que o francês põe a nu as práticas inconfessáveis dos profissionais da imprensa na segunda metade do século XIX. Trata-se, entre outras coisas que a obra explora com a maestria do gênio, de uma impiedosa, mordaz e procedente crítica às práticas perversas do jornalismo, sua nebulosa expressão de interesses político-partidários. Numa palavra, a parcialidade de um aparelho a um tempo imprescindível e pernicioso. Mas, voltemos ao que importa.

Pois bem. O mais lamentável é que um jornal importante como a Folha de São Paulo, uma revista como a Veja, para não entrar nas obviedades que levam os jornalistas da TV Globo a fazer o que fazem, possuidores de redações extremamente competentes, a fina flor da nossa imprensa, pratiquem em uníssono um jornalismo compactamente voltado para os interesses dos seus patrões. Uma vergonha!

E ainda têm o cabotinismo de ribombar palavras de ordem em favor do que professam ser uma imprensa livre. Confunde-se, na embriagada disposição de fazer valer a vontade do patrão, liberdade empresarial dos donos dos órgãos de imprensa com liberdade de expressão jornalística. E haja editoriais, reportagens, artigos etc., defendendo hoje, mutatis mutandis, o que defendiam durante os anos de arbítrio: antes, o elogio da reação contra o que diziam ser o risco de cubanização do Brasil; agora a desconstrução de um governo popular contra os riscos de mexicanização, venezuelização ou seja lá o que for. Uma indecência!

Isso, prezado leitor, para não falar da exploração desumana de falas, isoladas do contexto em que foram ditas, com o fim de danificar a imagem pública das pessoas. Um exemplo? A fala em que a candidata Dilma Rousseff admite a necessidade de que se revejam as questões legais que envolvem o aborto, que, para essa imprensa "livre" significa defender a legalização do aborto. Em tempo, não há como negar: o papel da Igreja, sem esquecer a manipulação do pensamento dos evangélicos, explica à perfeição a queda de Dilma e o espantoso crescimento de Marina Silva no primeiro turno. Sem desconhecer os méritos desta, obviamente. A ética perdida.

O amor e a razão

Leitora faz uma reflexão curiosa sobre crônica As palavras de Saramago: - "Você não acha que casar com uma mulher 28 anos mais nova e fazer as declarações de amor que fez, não vai de encontro à racionalidade que Saramago sempre demonstrou ter?" Bem, amiga, se compreendo o que você argumenta, afirmo que não. Sua indagação, que mais constitui uma afirmação, na perspectiva da análise do discurso, reedita uma concepção do "amor romântico", inapropriado, assim, para um homem extremamente racional, como você observa com tanta correção ser o escritor português. Tentarei ser mais objetivo valendo-me do próprio Saramago, se me permite: - "A razão não é inimiga das ilusões, dos sonhos, da esperança, de todas essas coisas que têm a ver com os sentimentos... Porque a razão não é algo frio, não é algo mecânico. A razão é o que é, com tudo o que a gente tem de sentimento, de desejos, de ilusões, disso tudo."

A sua pergunta, que é mesmo um tipo de afirmação, como disse, talvez explique por que os relacionamentos tornaram-se tão vazios, explosivos, intensos... mas fugazes, fogos de palha, para ficar numa expressão. Esse modelo, romântico, idealizado, à Romeu e Julieta, para lembrar Shakespeare, talvez seja hoje demasiado anacrônico para encontrar seu espaço. Ocorre-me lembrar Luis Fernando Veríssimo: Romeu e Julieta permanecem como ícones da paixão "porque morreram e não tiveram tempo de passar pelas adversidades a que os relacionamentos estão sujeitos pela vida afora! [...] Romeu não disse para Julieta que a amava, que ela era especial e depois sumiu por semanas. Julieta não teve a oportunidade de mostrar para ele quanto ficava insuportável na TPM."

Brincadeira à parte, é isso mesmo. As relações duradouras, que são cada vez mais raras, atingem essa condição por que envolvem uma dosagem dominante de racionalidade, de equilíbrio, porque Apolo domina Dionísio em meio às dificuldades comuns a qualquer experiência de vida a dois. Por isso, na contramão do que parece sugerir, não enxergam as diferenças, mesmo as de idade, como no caso de Saramago e Pilar del Río, porque são capazes de compreender o abismo que separa o essencial do supérfluo, o inteligível do sensível, a ideia da aparência, como no 'mito da caverna' de que nos falou Platão.

Não vê, agora, como as palavras de Saramago revelam a atitude do homem movido pela razão? Só assim faz sentido a declaração comovente do seu amor: - "Com 63 anos, quando já não se espera nada, encontrei o que faltava [Pilar del Río] para passar a ter tudo." Pura luz, pura razão.

As palavras de Saramago

Admirei o homem tanto quanto o escritor. Poucos grandes artistas terão elevado ao nível da obra a qualidade de sua vida real, a que tínhamos acesso pelas incalculáveis entrevistas, declarações públicas, depoimentos de toda ordem que deu mundo afora. Não sem razão, portanto, li com entusiasmo a coletânea Palavras de Saramago, publicada há pouco, sob a organização impecável de Fernando Gomes Aguilera, pela Companhia Das Letras. Um livro imperdível, afirmo.

A coleção está dividida em três seções, abrangendo o pensamento da pessoa, do escritor e do cidadão, o que constitui um repertório a um tempo profundo e agradável de ideias corajosas, provocativas e engajadas de um dos intelectuais mais completos da língua portuguesa. Do comunista libertário, como gostava de se definir politicamente, ao homem sensível, tomado de amores pela mulher 28 anos mais nova; do cidadão decepcionado com os governantes de sua terra, ao amante da pátria jamais contaminado pelo ufanismo reinante em diferentes momentos da sua história, deparamos com verdadeiras lições de integridade moral, correção intelectual e profundidade filosófica acerca dos mais variados temas. Degustemos.

Sobre a sua coerência, que lhe parece um bem precioso, inalienável, declara: "[...] sempre digo o que penso. Ninguém nunca poderá dizer que eu o enganei. As pessoas têm necessidade de que se fale com elas com honestidade." Humildade: "Amarga-me na boca a certeza de que umas tantas coisas sensatas que pude dizer durante a vida não terão , no fim das contas, nenhuma importância." Equilíbrio: "A nossa vida é feita do que nós fazemos por ela, e do que temos que aceitar que os outros façam." Religião: "Sou um ateu com uma atitude religosa e vivo muito em paz." Caráter: "Nunca cedi às tentações do poder, nunca me pus à venda."

Sobre o amor, seu amor por Pilar del Río, a mulher com quem viveu dos 63 anos até à morte, ocorrida em 2010, aos 88 anos, Saramago faz uma declaração emocionante: "É estranho para mim entender que foi preciso passar 28 anos desde o meu nascimento para que chegasse a pessoa que seria imprescindível em minha vida... [...] Quando a conheci eu tinha 63 anos, era um homem já velho. Ela tinha 36 anos. [...] Agora não posso imaginar minha vida sem ela, não posso conceber nada se Pilar não existisse... Quando ela não está, a casa se apaga. E, quando ela volta, se reativa."

Quando a encontrou pela primeira vez, Saramago parou os relógios da casa. Eram dezesseis horas: "Pilar é o centro da minha vida, desde que a conheci, há dezessete anos. Foi minha a ideia de parar os relógios da casa às quatro da tarde. Isso não significa que o tempo ficou parado ali, mas é como se o relógio marcasse a hora em que começou o mundo." Num tempo de amores vazios, de tantos descalabros no plano ético e humano, ler as 'palavras de Saramago' é reaprender o significado da vida, e procurar vivê-la de modo a poder confessá-la um dia. De cabeça erguida.

Quem ama não fica só

A propósito da crônica No teu deserto, publicada neste espaço há uma semana, leitora faz com propriedade o seguinte comentário: - "Se o amor acaba, as transformações que faz em nós, não. Sendo assim, haverá sempre um pouco do ser amado impregnado em nós!" O que assevera, muito mais que verdadeiro (o que é, indiscutivelmente!), é bonito, com uma inspiração algo poética, quem sabe filosófica, o que não me surpreende, vindo de onde vem.

Escrevi a referida crônica a fim de tecer considerações sobre o romance homônimo do escritor português Manuel Sousa Tavares, uma indicação do acadêmico e amigo Dimas Macedo. Como o livro constituísse a narração de um amor efêmero, mas intenso e belo, a leitura me impulsionou a fazer algumas reflexões sobre o fim dos relacionamentos, mesmo aqueles que foram capazes de fazer desabrochar nos amantes os maiores, mais sinceros e mais bonitos sentimentos, e que, acabados, trazem invariavelmente a dolorosa sensação de que tudo não passara de um logro, um tipo de engano. Afinal, é recorrente, até onde sei, que quase nunca uma relação termina de forma tão equilibrada que possa permitir o restabelecimento do que um dia fora uma simples amizade, quantas vezes nascida do inesperado. Um lado sempre vai sair machucado e a ferida leva um tempo para sarar, quando sara a ponto de não deixar cicatrizes incômodas tempos afora.

Mas a leitora foi fundo, tocou no nervo da questão. De fato, o fim de um amor, quando grande e intenso, a exemplo do que nos comunica o narrador desse belíssimo No teu deserto, jamais significará a morte do objeto amado, que quedará em silêncio no mais profundo da alma, de onde ressurge vez e outra, na música que ouvimos, no lugar onde estivemos juntos um dia, nas mensagens e fotos que ficaram dos momentos bons e felizes vividos a dois. Talvez por isso, não raro, o que parecia morto é capaz de renascer das cinzas, como fênix, talvez uma flor que brotou do inesperado chão e "furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio", como quis Drummond.

Não por acaso reli esta semana, Consolação, o extraordinário romance de Betty Milan. Não estranhe, leitor. Isto mesmo, o belíssimo romance de Betty Milan, que, para quem não conhece como ficcionista, é uma escritora de muito talento. O enredo é simples, o tratamento profundo. Uma viúva brasileira de um marido francês volta a São Paulo para visitar a mãe, velhinha, e o túmulo do pai. Em meio à loucura dessa cidade a um tempo encantadora e desumana, descobre que nem mesmo a morte é capaz de fazer desaparecer a felicidade do amor, a eterna presença de quem 'se foi', em nós. Poucas vezes alguém terá analisado a morte de forma tão leve, com tanta naturalidade e tanta poesia. Um breviário de superação da perda, do luto. Afinal, como se vê na fala de uma personagem, "... O destino tira o que a gente tem. O que a gente já perdeu ele não tira!" O que não se tem mais nos é restituído através da saudade. Quem ama não fica só.

No teu deserto

Como de costume, durante garimpagem na Siciliano, deparo com o escritor Dimas Macedo. E ficamos os dois, embriagados de literatura, a exemplo do que fazemos sempre, comentando obras e autores que nos apaixonam, sem percebermos o tempo que passa. Num rompante, o amigo levanta-se, quase assustando-me: - "Poeta [é assim que me chama], você não pode deixar de ler um romance..." E retorna, segundos depois, portando um pequeno livro, os olhos brilhando daquele entusiasmo que nos domina sempre que apresentamos a um amigo uma pérola recém-descoberta.

Trata-se do romance No teu deserto, do português Miguel Sousa Tavares, de quem, confesso, apenas conhecia o já renomado Equador, livro com que veio a público no Brasil há coisa de uns poucos anos. Ainda na presença de Dimas, e contaminado do seu entusiasmo, inicio ali mesmo a leitura dessa breve e sedutora narrativa, como havia muito não encontrava na literatura de língua portuguesa contemporânea. Uma belíssima história de amor envolvendo um jornalista maduro e uma garota quinze anos mais nova.

Encontram-se na circunstância de uma viagem ao Saara, que o destino colocara a ambos como projeto individualmente traçado. Tem início, assim, como obra do acaso, do talvez ou do quem sabe, um relacionamento marcado pela força de um amor indômito, indiferente à lógica subjetiva das individualidades. Ele, racional, apolíneo; ela, impetuosa e dionisíaca; ambos, invadidos de motivação para as descobertas do imponderável. Não haveria mesmo melhor ingrediente para se tecer um belo romance. A diferença, no entanto, para-além do ofício e da técnica, com cujo domínio se tecem as belas histórias, está na forma intensamente original com que Tavares construiu esse pequeno-grande livro sobre o amor e suas reverberações na vida de um homem.

A história começa quando, acidentalmente, enquanto procura numa gaveta algo de que, de repente, não é capaz de lembrar, cai às mãos do narrador (o ponto de vista alterna entre ele e ela, ao longo da narrativa) uma fotografia dela tirada durante a viagem: "[...] É por isso que não gosto de olhar para fotografias antigas: se alguma coisa elas refletem, não é a felicidade, mas sim a traição - quando mais não seja, a traição do tempo, a traição daquele mesmo instante em que ali ficamos aprisionados no tempo. Suspensos e felizes, como se a felicidade pudesse suspender carregando no botão 'pausa' no filme da vida." No teu deserto, como vemos, é uma intensa, poética e incontornável reflexão sobre a transitoriedade do amor.

Da leitura desse belíssimo romance, vêm, como moscas à ferida, as perguntas que todos fazemos, cedo ou tarde, numa ou noutra circunstância, sempre que o amor acaba: Onde queda, adormecido, o sentimento que nos uniu um dia na 'utópica convicção' da eternidade? Aonde vaga, nebuloso, o 'eu te amo' tantas vezes dito? E os planos que fizemos, diz-me, onde estão? É o que angustia o narrador ao final do livro: "O que fomos nós um para o outro: apenas companheiros eventuais de viagem? Foi só isso, diz-me, foi só isso o nosso encontro?"

O amor e a coisa amada

 

Amigo vive há dias um verdadeiro inferno, é o que me diz. Até onde sei, acaba de romper uma relação de um ano e custa-lhe aceitar a perda do objeto amado. Viveram uma crise da qual não conseguiram sair, e coube à namorada terminar, o que o deixou desarvorado. A velha história. Quem, ainda que uma vez, não conheceu de perto este drama? A eterna procura.

Ocorre-me lembrar Platão, para quem, a princípio, os seres humanos eram andróginos, isto é, machos e fêmeas ao mesmo tempo. Que isso tem a ver? Bem, tem muito a ver, uma vez que, separadas em duas metades, as almas vivem a procurar sua parelha. E não suportam a solidão, associando sempre a sua felicidade à descoberta do outro. Por isto este inferno a que se refere o amigo. É que não sabemos lidar com as perdas. Mais uma vez o mito de Platão.

Sem desmerecer a garota, que sempre me pareceu uma mulher interessante, acho que meu amigo, na linha do que fazemos todos, incorre no erro histórico: ninguém será capaz de substituir a amada que se foi. É ela a mulher ideal, idealis, qualificativo que tem sua origem no substantivo idea, ideia, ou seja, a coisa correspondente à ideia que se faz dela. Fantasia, pois.

Aí está a raiz do sofrimento quando perdemos alguém que 'idealizamos', que construímos em nossa mente conforme o nosso ideal. Proudhon, o pensador francês, reportando-se ao conceito de beleza, diz disso uma coisa bastante curiosa: "... a palavra ideal se diz, pois, de qualquer objeto que reúna no mais alto grau todas as perfeições, mais bela que todos os modelos oferecidos pela natureza: beleza ideal, figura ideal."

Um tipo de ofuscamento, uma perturbação do entendimento. Esta a razão por que é tão difícil a felicidade a dois, pelo menos na dimensão do que estamos falando. Cobramos do outro a perfeição que só existe no âmbito da ideia, que, para Platão, não existe nem mesmo na coisa em si, mas no que imaginamos dela. No caso, não pode haver uma mulher que tenha todos os atributos por nós idealizados, que seja a um tempo loira e morena, alta e baixa, robusta e delgada, nem os atributos morais que pensamos encontrar quando amamos. Em verdade, o objeto do nosso amor é sempre um retrato, uma 'pintura' nascida da nossa subjetivação. Tento, sem conseguir, dar isso a ver ao amigo. Parodiando Agostinho, o Santo, "é que amamos um mortal como se ele não fosse morrer."

 

A morte de meu pai

DONA TEONILA FELIPE adentra o meu apartamento numa certa manhã. Pela expressão do rosto, visivelmente tenso, concluo que é portadora de alguma notícia ruim. Puxo-lhe uma cadeira e dou a ver a minha apreensão: - "O que houve? Por favor, não me esconda nada!" Ela me diz que tenho de ir a Iguatu, o avião aguardando na base aérea.

 

Aos 67 anos, gozando de alguma vitalidade ainda, meu pai, o mais manso e equilibrado homem que pude conhecer, acabara de tomar a decisão radical.

 

Não sei, de fato, o que se passou comigo a partir daquele instante. Os sessenta, setenta minutos de voo entre Fortaleza e Iguatu, passei-os em silêncio, sem derramar uma lágrima que fosse. Há dores que, de tão profundas, parecem exigir o silêncio. Era o que se passava comigo.

 

Ao meu lado, como uma voz que soava absolutamente distante e indiferente, meu irmão Odivaldo falava sem parar, como se o fizesse mecanicamente, sem domínio de suas ideias, que não tinham para mim, naquelas circunstâncias, o menor significado.

 

E, num espaço de tempo que me pareceu uma eternidade, tentava entender as razões que pudessem de alguma forma explicar a atitude extrema de meu pai. Passei em revista a nossa convivência, o carinho que dispensara a todos de casa, a mansidão de seus gestos, a humildade e a expressão sempre serena do seu rosto. Lembrei a correção de seu caráter, a retidão com que agia sempre, o reconhecimento unânime da sua integridade.

 

Em vão. Eu não encontrava resposta para o que fizera meu pai, mal brilhavam os primeiros raios do sol, na solidão do seu quarto, enquanto minha mãe, tão zelosa, lhe preparava o café da manhã.

 


 

O livro é que nem mulher

A minha relação com o livro tem um componente passional, não nego. Começa com um flerte, à distância, quase sempre na vitrine da loja.

Como em se tratando das mulheres, me chama a atenção a forma como se vestem. Adoro as discretas, que sabem com aparente desleixo compor o traje, combinando bem a textura dos tecidos com a expressividade das cores. As que exibem sua beleza com discrição e muito charme. As que sugerem displicência e, no entanto, estão ali, antenadíssimas, e que tudo sabem. Enciclopédicas.

No caso deles, os livros, há os que, já de longe, impressionam pela encadernação, o look da capa, o colorido da gravura - quando têm gravura -, a elegância e a simplicidade como se apresentam, sem afetação.

Assim, é comum que me aproxime desse como de uma mulher, meio maroto, como quem quer e não quer. Mas, de perto, a gente checa o volume do corpo, a maciez da pele, e, importante!, quais as intenções com que veio a público.

Curioso: logo se estabelece a comunicação. Entre intimidados e desejosos, aproximamo-nos, um tanto sorrateiros.

Aí vem a primeira troca de informações, a primeira sugestão de intimidade; a mão no dorso ligeiramente arredondado, nunca esquelético, e gostoso de se pegar.

Em seguida, a entrega. Os primeiros afagos, os toques sutis e o cheiro bom, que provoca aquele gostoso arrepio de pelos. E a gente vai tendo uma vontade de levar pra casa, de ficar horas e horas no bem bom, agarradinhos e afáveis. Quase sempre, na cama.

Mas há que se tomar cuidado, posto que existem os enganosos, os que vendem gato por lebre e estão pessimamente intencionados.

Há os surpreendentes, os que decepcionam, os vulgares, os indecentes. Os passageiros.

Há os muito rebuscados, os artificiosos, os superficiais.

Há os tímidos, que vão se revelando aos poucos. A esses, deve-se abandonar por uns tempos, dando-lhes, quando muito, uma chance aqui, outra acolá. Não raro, valem a pena e, hora dessas, sem que você espere, são capazes de deixar você nas nuvens.

Há aqueles que você mal larga, vem um outro e põe a mão. De repente, para seu desencanto, se tornam vulgares e andam de mão em mão.

Há os invejosos, os sem originalidade, que vivem querendo ser o que não são.

Há os muito formais, os levianos, os que preferem a meia-luz, outros a plena claridade. Há os lentos, os apressados...

Há os que gozam fácil e logo perdem a graça. Os que demoram, mas não chegam a nada.

Um livro bom é que nem a mulher amada: você não dá, não empresta, nem troca. A esse, sou fiel, nunca traio, tenho sempre ao alcance da mão, e afirmo, com o dedo em cruz, para com esse sou incapaz de qualquer ingratidão.

Grata surpresa

Hoje, ao abrir a caixa de emails, deparo com esse depoimento sincero e amigo:

"Alder, aproveitei o fim de semana para reordenar a pauta de leituras. Segurei o seu 'Drummond - Componentes Dramáticos' e fui até o fim. Você está se tornando um dos meus escritores. Um forte abraço. Do amigo Dimas Macedo."

Dimas é escritor e membro da Academia Cearense de Letras.

Que belo homem foi meu pai

ÉRAMOS OITO IRMÃOS, quatro homens e quatro mulheres. O casal mais velho, Odivaldo e Odilma, filhos do primeiro casamento do meu pai. Os outros, pela ordem decrescente, Gracinha, Chico, Emídio, eu, Fátima e Socorro.

Crescemos debaixo de uma educação austera, sobretudo orientada pela inflexibilidade de mamãe, Alderila, mulher temperamental e de atitudes invariavelmente decididas. Papai, Deusdedith Teixeira, homem rigoroso nos costumes, nas opiniões e no caráter, foi o mais íntegro, grave, sério e autodisciplinado dos homens que conheci. E, para além de tudo isso, a humildade personificada.

De papai, aprendemos algumas lições indeléveis: jamais tergiversar depois da palavra empenhada; nunca tirar proveito da fragilidade alheia; não baixar a cabeça ante a prepotência, a arrogância, a valentia de quem quer que seja; em momento algum desejar aquilo que, sendo do outro, não nos pertence; respeitar os mais velhos; ser correto nos negócios, grandes ou pequenos; que a honestidade é um bem supremo; que todos somos iguais, ricos e pobres, brancos e pretos; que Deus existe; que mais vale amigos na praça que dinheiro no caixa; que a família é algo sagrado; que nem tudo se acaba com a morte; que nada tem mais valor que a paz; que jamais alguém lhe bata à porta para querer de volta o que é seu; que se deve amar, amar e amar sempre; que o ódio não compensa; que se pode chorar, sem pruridos, sem achar que o pranto vai nos diminuir sob qualquer aspecto.

Era humilde, nunca abjetamente submisso. Era manso, exemplarmente brando de temperamento, mas corajoso, destemido. A propósito, é conhecida a história: certa vez, ameaçado de morte, a faca no peito, fixou o olhar nos olhos do agressor e ponderou: - "Se eu fosse você, não faria essa besteira não". O homem baixou a arma, trêmulo, e sumiu feito um cachorro acanhado, para nunca mais voltar.

A mansidão de papai era contagiante. Jamais negava ajuda a quem quer que fosse, nem mesmo quando lhe pediam, por empréstimo, o 'cavalo preto de Deusdedith'. Solícito, entregava amorosamente o laço: - "É só ir à roça e pegar." Como só se permitisse ser laçado por seu dono, o cavalo preto ia de um canto a outro do cercado, volteava, corria em disparada, saltava, escoiceava, parava, ao longe, desafiador. Depois de hora, hora e meia de tentativas frustradas, o solicitante voltava, esbaforido: - "Deusdedith, seu cavalo é muito velhaco." A história virou piada. A piada tornou-se máxima: Mais velhaco que o cavalo preto de Deusdedith!

Que belo homem foi meu pai!

Ainda sobre a traição. Ooops!

Dia desses escrevi neste espaço sobre pesquisa transformada em livro, de J. Ryan, sobre infidelidade e casamentos monogâmicos. O texto, que está disponível no blog, baseando-se na referida pesquisa, afirmava que homens e mulheres traem pelas mesmas razões: por desejo, por se sentirem sexualmente atraídos. O fato, no entanto, suscitou algumas divergências e até alguma indignação, a exemplo do que se pode ver na mensagem da leitora M.P., da qual, preservando a privacidade da autora, destaco o final: - "Esse povo (sic) não tem mais o que pesquisar e fica afirmando tolices, como a que você comentou no jornal na semana passada. Pois fique sabendo que eu sou casada há cinco anos e, posso afirmar, somos muito felizes, não havendo razões para traição!"

Prezada leitora, agradeço-lhe pelo comentário, mas tenho algumas considerações a fazer. A propósito, outra pesquisa é publicada em livro sobre o tema. Trata-se do Por que homens e mulheres traem, de Mirian Goldemberg, de que tomo a liberdade de extrair a seguinte assertiva: "Em vez de assumirem o desejo as mulheres preferem se fazer de vítimas. Sentimentalizam o caso extraconjugal e botam a culpa no marido." Segundo a antropóloga, por essa razão são recorrentes as declarações do tipo "Ele não me procurava mais", "Estava se relacionando fora de casa", "Não ligava mais para mim" e coisas que tais. Tudo balela, pelo menos a concluir pelo que afirma a estudiosa, o que, leitora, aproxima-se claramente da conclusão a que chegou Ryan.

O tema, coincidentemente, volta à pauta na lidíssima coluna de Ruth de Aquino, que citei no meu texto Sexo no Alvorecer. Por sinal, a prestigiada jornalista da revista Época acrescenta pontos de vista pessoais bastante curiosos, sobremaneira por se tratar de uma mulher. Na sua coluna, Rocha não faz concessões e afirma sem meias-palavras: - "O desejo de se sentir desejada conduz a pequenas e grandes infidelidades femininas." Vai além: sem mencionar Freud, em que supostamente sustenta a sua ponderação, a colunista de Época revela conhecer "mulheres absolutamente certinhas, monogâmicas, que casaram virgens e têm sonhos delirantemente libertários." (sic)

Que o seu casamento esteja as mil maravilhas, estimada leitora, é fato que deve deixá-la feliz e lisonjeada, o que é diferente de tratar-se de uma realidade comum a homens e mulheres em sua generalidade. Sua indignação, que entendo como uma tentativa de fortalecer as razões mais sublimes por que deveriam se orientar todos os amantes, ressente-se de consistência e não pode absolutamente ser utilizada como tentativa de contradizer o óbvio.

Em tempo, voltando ainda uma vez a Ruth de Aquino, com propriedade a colunista faz alusão ao filme A bela da tarde, um clássico de Luis Buñuel que 'discute' o assunto maravilhosamente bem: a personagem central, interpretada por ninguém menos que a estonteante Catherine Deneuve, em sua melhor forma, é casada, rica e feliz com o marido, mas, pelas razões que só Freud soube tão bem explicar, entrega-se a estranhos como uma prostituta de luxo. O mesmo tema, como se pode ver, explorado genialmente por Nelson Rodrigues no conto A dama do lotação, adaptado para o cinema por Neville D'Álmeida. Belíssimo filme, também.

Luto e vergonha

Bruce Christian de Sousa Oliveira, 14 anos, viaja na 'garupa' de uma moto, pilotada pelo pai, Francisco das Chagas de Oliveira Sousa, 37, técnico em condicionadores de ar, depois de prestarem serviço em domicílio. É domingo, mas Christian, em vez de divertir-se numa praia ou num campo de futebol, com amigos, acompanha o pai durante o trabalho. Por suspeitar que se trata de bandidos, Yuri Silveira, policial do Ronda do Quarteirão, saca da arma, aponta e, com precisão e frieza, dispara contra a cabeça do adolescente, que cai morto em meio às ferramentas de trabalho que conduzia nas mãos.

Mas, atenção. Não se trata de uma story line, como no cinema se costuma dizer da síntese de um filme. A cena acima é real e aconteceu ontem em Fortaleza: Abre-se a sequência com um "plano fechado" do pai, dilacerado, abraçado ao filho morto. Depois se recua a câmara, a fim de revelar o seu conteúdo num plano geral, a exemplo da foto com que deparei esta manhã na capa de O Povo.

E me vem à mente, inclemente, a poesia de Chico: "Oh, pedaço de mim. /Oh, metade afastada de mim. /Leva o teu olhar. /Que a saudade é o pior tormento. /É pior do que o esquecimento. /É pior do que se entrevar. /Oh, metade arrancada de mim. /Leva o vulto teu. /Que a saudade é o revés de um parto./ A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu."

Numa manhã de domingo, sob o sol irradiante de um mês de férias, a cidade em festa, a brutalidade e o despreparo de um homem a quem cabia parte da responsabilidade de garantir a tranquilidade e segurança da população, dão-nos o metro com que se deve medir a realidade em que vive o fortalezense hoje.

À dor da família de Bruce, somam-se a revolta e a indignação de toda uma sociedade. Vive-se algo como um drama de Ionesco, um absurdo kafkiano, um pesadelo que nos deixa a todos entre estarrecidos e raivosos.

Yuri Silveira, logo depois do tiro que matou Bruce, apresentou-se ao 2º DP, alegando estarem os policiais da viatura no encalço de uma Hilux prata com quatro bandidos. Por que, então, considerar suspeitos pai e filho, que estavam numa moto? É aceitável que se aborde um cidadão, ainda que sob suspeita, apontando-lhe a arma para a cabeça? Ao parar num sinal, como foi o caso, mais adequado não seria interceptar a moto posicionando a viatura à sua frente? Se se tratava de um homem suspeito, por que o pai de Bruce sequer foi ouvido no local?

Este o Estado que se vangloria de possuir o mais avançado programa de segurança pública do Brasil, com seus carrões blindados, bancos de couro, ar condicionado, moderno sistema de comunicação e homens, a concluir pelo desastrado procedimento, inaceitavelmente despreparados.

O tiro na nuca que matou Bruce no viço dos seus 14 anos, espero, haverá de repercutir na consciência das autoridades cearenses como o disparo de um alerta contra o descaso e a impunidade reinantes. Ao luto, soma-se o sentimento de vergonha de um povo.

Sexo no Alvorecer

Vi na imprensa uma pesquisa bastante curiosa sobre sexo e casamento. O estudo, por sinal, foi publicado em livro com o título Sex at Dawn (Sexo ao Alvorecer), escrito a quatro mãos por Christopher Ryan, 48, e sua mulher, Cacilda Jethá, 50, ambos americanos. Os dois estão casados há 11 anos e Ryan, supostamente preocupado com a instabilidade dos relacionamentos, inclusive o seu, claro, e com o auxílio da mulher, debruçou-se sobre o tema na convicção de que deveria existir uma forma para manter 'acesa a chama', o que, segundo ele, acabou encontrando. Sobre isto falaremos adiante.

A pesquisa de Ryan, no entanto, a concluir pelo que chega, até aqui, aos brasileiros, através da mídia, não traz muitas novidades. Ryan afirma, basicamente, o que outros estudiosos já defenderam ao longo do tempo, ou seja, que o homem (entenda-se homem e mulher) não é um ser monogâmico. Aliás, nas entrevistas concedidas sobre o seu trabalho, Ryan e Cacilda têm sido bastante enfáticos: "As mulheres sempre quiseram ter o maior número de parceiros possíveis."

Pois bem. Assim, programados para viver experiências sexuais múltiplas, homens e mulheres sentem-se, no casamento, absolutamente sufocados e desejosos de romper, legal ou ilegalmente, com as amarras que os prendem a uma vida morna, entediante e, cedo ou tarde, diz ele, insuportável. Aí Ryan aponta para o que todos, há muito, já sabem: - "[...] metade dos casamentos está colapsando sob uma frustração sexual irrefreável, um tédio matador de libido, traições compulsivas, confusão, vergonha." (Sexo no Alvorecer)

Em entrevista à Época, que li no site da revista, Ryan põe por terra o mito da guerra dos sexos, ainda defendido por um expressivo contingente de pesquisadores, segundo o qual os rompimentos se dão em função de homens e mulheres, sexualmente falando, terem interesses diferentes. Diz Ryan: - "Há uma guerra entre a natureza humana e a sociedade contemporânea. Nós acreditamos que, antes da agricultura, as mulheres tinham vários parceiros." E retoma o lenga-lenga da questão da propriedade privada, da herança etc., coisas já muito debatidas.

Sexo e Alvorecer (que espero chegue logo às livrarias brasileiras), até onde sei, contudo, não 'vende' levianamente a ideia de que a infidelidade deva ser encarada como algo positivo e mais significativo que as reais razões que levam homem e mulher a decidirem pela vida a dois. Pelo contrário, Ryan e Cacilda, que se tomam como um exemplo a ser seguido, 'batem' numa tecla já muito desgastada mas que continua sendo a única alternativa para que se possa ser feliz numa relação monogâmica: - "É preciso procurar mais do que a química sexual, algo como paixão entre almas e não paixão entre corpos." Se soa demasiadamente 'ingênua' a conclusão dos dois, não sei, mas, de minha parte, acho que este é o melhor caminho. Aguardemos o livro.

O barraco de Sorocaba ou o reality show caipira

O que seria apenas um caso de infidelidade conjugal no interior de São Paulo, chegou à internet e já foi acompanhado por milhões de brasileiros. Tornou-se conhecido como o "barraco de Sorocaba" e envolve características no mínimo curiosas, não fossem ridículas. Vejamos: a advogada Vivian Almeida de Oliveira, 34, é casada com o comerciante Cícero de Oliveira, 54. Vivem felizes, pelo menos é o que achava a mulher de Cícero, na convivência de amigos íntimos, entre os quais a também casada Juliana Cordeiro, 33 anos. Eram da casa uns dos outros, viajavam juntos e a 'amizade' era tão grande que nem mesmo na lua de mel foram capazes de se separar. Viajaram juntos, todos, para Recife, de onde Cícero e Vivian, "enfim sós", vieram para dias inesquecíveis em Fortaleza.

Mas, o que há de extraordinário no caso? Bem, em princípio um triângulo amoroso no mínimo sórdido, posto que Juliana, além do marido ingênuo, vinha traindo a melhor amiga havia pelo menos cinco anos. Até aí, nada de muito fora do staff normal, haverá de questionar o leitor. Divergência à parte, explico-me melhor. Desconfiada de que algo de anormal vinha ocorrendo entre os casais amigos, Vivian devotou-se a seguir os passos do marido até descobrir a podridão: Cícero de Oliveira e Juliana Cordeiro vinham mantendo um caso extraconjugal dos mais inescrupulosos, se é que pode haver algum escrupulo em qualquer tipo de traição. O pior, no entanto, estaria por vir.

No último dia 27, Vivian tomou a decisão de dividir o escândalo com a sua comunidade no site de relacionamento Orkut. Antes, contudo, teve a astuciosa ideia de armar uma cilada para a Juliana. Convidou-a a vir a sua casa sob o pretexto de estar em crise emocional e precisar de uma palavra amiga. Aos poucos, todavia, foi dando a ver o que descobrira, expondo para a amante do marido as "provas do crime", algo em torno dos mil e-mails trocados pelo casal infiel. Em princípio, educadamente, mantendo o equilíbrio, para logo depois sair na baixaria, coisa compreensível para as circunstâncias. Mais: a conversa e a agressão estavam sendo nitidamente gravadas pela webcam, o que resultou numa cena digna do melhor Nelson Rodrigues.

Do Orkut, onde já inexiste a menor privacidade, o 'filme' foi para o You Tube e dali para jornais e tevês. Hoje, estima-se, terá sido visto por milhões de brasileiros e ocupa posição de destaque entre os casos mais comentados no Twitter e outros espaços virtuais de prestígio. O mais curioso, contudo, está por vir: se a traição trouxe prejuízos irrecuperáveis para Cícero, Juliana e Fábio, o marido ingênuo, vai sobrar para a advogada Vivian Almeida de Oliveira, que, ao lado da decepção com o marido e sua melhor amiga, supostamente terá de indenizar a amante do marido por ter exposto a sua imagem como fez. Pasmem.

De resto, o barraco de Sorocaba reedita uma velha lição: ruim é morrer ou ser traído, o resto passa como dantes na casa de Abrantes. Vivian, no entanto, mesmo dizendo-se arrependida por tornar público o 'barraco', defende-se de forma convincente: - "Se eu apenas dissesse o que sabia, ninguém iria acreditar!" Com razão, Vivian, no seu caso, como quis Wilde, a vida imita a arte. Ninguém iria mesmo acreditar.

Até quando?

Qualquer que seja o desfecho do caso Bruno, o que está claro como uma fratura exposta é que ele é indefensável, muito mais indefensável que indefensáveis foram os chutes que o levaram à consagração após ter evitado que se transformassem em gols. Com 1,91 de altura, ídolo de uma torcida de mais de 30 milhões de brasileiros, um corpo de deus grego e um salário de 300 mil reais, Bruno é um desses muitos e muitos homens que povoam o imaginário feminino como objeto de desejo, numa época em que o sucesso profissional, a beleza física e a conta bancária são as referências que servem para estabelecer o valor da mais escassa mercadoria, o Homem, assim, com maiúscula.

Há coisa de uns dois, três meses, no máximo, eu já ficara estarrecido com uma declaração do goleiro Bruno, feita através da imprensa: - "Quem de vocês nunca saiu no braço contra uma mulher?" Perguntava durante uma entrevista concedida à tevê Globo, na maior, como faz um canalha, um psicopata que desconhece a fronteira entre o sucesso profissional e a obrigação de respeitar os outros. Em tempo: fazia-o numa tentativa de justificar atos de violência cometidos pelo companheiro de clube, o jogador Adriano, contra a mulher.

Agora, quando infelizmente está confirmada a morte de Eliza Samudio, a Justiça Brasileira, sob a luz dos spots, passa a agir com o objetivo de deslindar um crime que poderia ter evitado. Por que permaneceu indiferente às ameaças, quando procurada por Eliza através de uma instância cabível? Se não, vejamos: No ano passado, a jovem, grávida, dirigira-se à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, no Rio, para denunciar que vinha sendo vítima de maus-tratos. Lembro do que dissera à imprensa: - "Ele [Bruno] me deu bofetões... Enfiou uma arma na minha cabeça... E me disse: 'Sou frio e calculista. Vou deixar a poeira baixar e vou atrás de você. Se eu te matar e jogar em qualquer lugar, as pessoas nunca vão descobrir que fui eu.'" (sic) E, no entanto, nada, absolutamente nada se fez em favor dessa jovem, à época.

Acompanho esse caso pavoroso e fico pensando o que não virá acontecendo, por exemplo, na Região do Cariri, entre Crato, Juazeiro e Barbalha, onde os índices de criminalidade contra a mulher são alarmantes, com repercussão, inclusive, na Unifem, o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher. Quantas ameaças ignoradas? Quantos maus-tratos? Quanta tortura física e psicológica contra mulheres de todas as idades? Quantas vidas ceifadas?

No jeito bem brasileiro, o bárbaro assassinato de Eliza Samudio, em Minas, assim como o da advogada Mercia Nakashima, em São Paulo, Bárbara Calazans, no Rio, ou das anônimas do Cariri, no Ceará, serve para desnudar o descaso das nossas autoridades competentes no que diz respeito à segurança da população, da mulher, particularmente, ainda hoje submetida aos caprichos, à intolerância e aos impulsos monstruosos dos milhões de Brunos que habitam Brasil afora. Até quando?

O amor no futebol

Nos jogos da Copa do Mundo, uma cena tem se repetido à exaustão: o jogador finaliza uma jogada com sucesso, assinala o gol e, sob uma daquelas que se consideram as maiores emoções, comemora o feito com um beijo na 'marca' da aliança. Na impossibilidade de usar ali o anel simbólico da lealdade, por uma medida de segurança adotada pela FIFA, é a marca no dedo que serve como alvo da homenagem à mulher amada. Gesto simples, espontâneo, quase automático mesmo, mas coberto de mensagens, de recados intensamente carinhosos. A poesia romântica presente na mais importante competição do football association.

Mas, o que há num beijo? Robert Herrick, no século XVII, dizia ser ele "o cimento mais certo e doce, a cola e o visgo do amor." Num livro belíssimo de Julie Enfield, conhecida jornalista canadense, vemos que o "beijo expressa respeito, compaixão e afeição. Nós beijamos os olhos sonolentos dos nossos filhos para dizer boa-noite, e beijamos seus machucados para que sarem logo. O beijo pode ser também um ato de fé: nós beijamos imagens sacras altares e templos em momentos de adoração religiosa. O beijo pode ser um prelúdio, uma promessa, uma provocação." Beleza literária à parte, o certo é que este é seguramente um dos gestos mais ricos em significação, que encerram as mais diferentes mensagens, aqui e além.

Na contramão do que foi um dia, em se tratando de cultura ocidental, é comum hoje que homens troquem beijos nos reencontros ou nas despedidas. Há beijos para todos os gostos, os castos, os esfomeados, os solenes, os sonoros, em todos os lugares, nas mais diferentes estações. Beija-se o derradeiro beijo à beira da sepultura, beija-se na palma da mão, para enviar com um sopro a declaração de carinho; há os beijos tímidos, os indomados. Com um beijo, parte-se rumo ao desconhecido, como quis Musset. O beijo é o acasalamento simbólico, o movimento físico que leva os amantes a juntarem suas almas.

No livro de Enfield, A história íntima do beijo, a percepção iluminada: - "O que torna um beijo irresistível é a sua capacidade de transcender os limites do corpo." Perfeito.

No Antigo Testamento, Gênesis 2:7, o beijo espiritual, ou beijo soprado, faz-se presente na passagem em que Deus infunde o "sopro da vida" nas narinas de Adão, criando com o gesto simbólico o próprio homem. Há no Novo Testamento o beijo traiçoeiro de Judas. O mais amado de todos os Papas, João Paulo II, curvava os joelhos e beijava o chão de cada país visitado, numa sugestiva proclamação da paz e da união entre os povos fiéis. Há o beijo passional, o beijo fraterno, o beijo sexy. Nas Artes Plásticas, na literatura, no cinema, o beijo... O beijo de Rodin.

Beijaram-se Eros e Psiquê, Eco e Narciso, Penélope e Ulisses, Afrodite e Adônis, Helena e Páris, Romeu e Julieta. E nossos beijos, como lembra a pesquisadora, evocam os nossos heróis mitológicos, os nossos ídolos, os protagonistas de nossas sagas mais lendárias.

Em Cinema Paradiso, o cult de Giuseppe Tornatore, vê-se uma das cenas mais bonitas da sétima arte, quando Salvatore, entre a nostalgia e a fascinação, assiste a todos os beijos suprimidos dos filmes que marcaram a sua infância.

O beijo no dedo, bem na marca da aliança, na hora do gol, é muito mais que uma comemoração, é o amor, entre homens, num campo de futebol.

As mulheres do Louvre

QUEM AINDA NÃO ouviu falar das belas mulheres do Louvre? Pois bem, são famosas as musas que constituem uma porção especialmente atraente deste grande museu de Paris.

A Vitória de Samotrácia, de autoria desconhecida, ocupa um lugar especial no topo de uma escadaria do suntuoso prédio. A sua realização remonta, supostamente, a 190 ou 200 anos a.C. Seria provavelmente a ponta esculpida de uma proa de navio, ou, como querem alguns historiadores, um ex-voto dedicado a uma conquista ou a uma batalha vencida. Não importa, tanto, saber. O que parece consensual, é que a peça constitui um símbolo da vitória humana sobre o desconhecido. Sem cabeça e braços, a escultura avulta, solene e sedutora, entre as muitas mulheres do Louvre.

Havia pouco topara com a Vênus de Milo, com o sortilégio de sua nudez, despertando, em gregos e troianos, um tipo de iconolagonia ante a sensualidade clássica que emana do mármore. Representa Afrodite, a deusa grega do amor e da beleza, chamada de Vênus entre os romanos. Diante da estátua, curvara-me sobre o ombro da namorada para comentar a nudez ambiguamente contida e provocadora da deusa. Lembrei-lhe, na oportunidade, que Heine, Henri Heine, o famigerado poeta alemão, chamava-a de Nossa Senhora da Beleza.

Pouco depois, outra mulher deslumbrante, a jovem 'Liberdade' guiando o povo, de Délacroix, sobre cuja tela falei anteriormente nestas memórias. Assim, aqui e além, cada uma com sua magia e seu encantamento, carregadas de simbologias e sugestões, veem-se no Louvre essas maravilhosas mulheres, musas inspiradoras dos grandes nomes da Arte Ocidental.

Mas nada comparável à pintura de Lisa Gherardini, a poderosa mulher do florentino Francesco di Bartolomeo di Zanoli del Giocondo. Ou, simplesmente, a Mona Lisa, mais alta representação do Alto Renascimento e do gênio de Leonardo di Piero da Vinci.

A uma distância de oito ou dez metros, deparo com uma multidão de turistas diante da tela de proporções pequenas e importância gigantesca de Leonardo da Vinci. Agora (fato que se repetirá nas outras vezes que iria ao Louvre, anos depois), veem-se pessoas tomadas de uma emoção intensa e incontida, não raro em prantos, como não acreditando estarem ali, a poucos passos da mais aurática, a mais esplendorosa obra do cânone artístico ocidental.

Com o seu sorriso indecifrável, na expressão de um olhar a um tempo esnobe e simples, a figura intraduzível, penetrante e sedutoramente serena da mais conhecida mulher de todos os tempos. A Gioconda, sobre quem dirá o poeta Carlos Drummond de Andrade: "O ardiloso sorriso / alonga-se em silêncio / para contemporâneos e pósteros, / ansiosos, em vão, por decifrá-lo. / Não há decifração. Há o sorriso."

Enigmáticas, intangíveis, sedutoras, obscuras, inexplicáveis, cheias de mistério e encanto, fortes e sensuais, firmes e decididas, como foram por certo aquelas que lhes serviram de modelo, as mulheres do Louvre são um espetáculo à parte. Inspiradoras e veladamente soberbas, como todas as mulheres, através dos tempos e das civilizações.