A morte de meu pai

DONA TEONILA FELIPE adentra o meu apartamento numa certa manhã. Pela expressão do rosto, visivelmente tenso, concluo que é portadora de alguma notícia ruim. Puxo-lhe uma cadeira e dou a ver a minha apreensão: - "O que houve? Por favor, não me esconda nada!" Ela me diz que tenho de ir a Iguatu, o avião aguardando na base aérea.

 

Aos 67 anos, gozando de alguma vitalidade ainda, meu pai, o mais manso e equilibrado homem que pude conhecer, acabara de tomar a decisão radical.

 

Não sei, de fato, o que se passou comigo a partir daquele instante. Os sessenta, setenta minutos de voo entre Fortaleza e Iguatu, passei-os em silêncio, sem derramar uma lágrima que fosse. Há dores que, de tão profundas, parecem exigir o silêncio. Era o que se passava comigo.

 

Ao meu lado, como uma voz que soava absolutamente distante e indiferente, meu irmão Odivaldo falava sem parar, como se o fizesse mecanicamente, sem domínio de suas ideias, que não tinham para mim, naquelas circunstâncias, o menor significado.

 

E, num espaço de tempo que me pareceu uma eternidade, tentava entender as razões que pudessem de alguma forma explicar a atitude extrema de meu pai. Passei em revista a nossa convivência, o carinho que dispensara a todos de casa, a mansidão de seus gestos, a humildade e a expressão sempre serena do seu rosto. Lembrei a correção de seu caráter, a retidão com que agia sempre, o reconhecimento unânime da sua integridade.

 

Em vão. Eu não encontrava resposta para o que fizera meu pai, mal brilhavam os primeiros raios do sol, na solidão do seu quarto, enquanto minha mãe, tão zelosa, lhe preparava o café da manhã.

 


 

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